quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A CHEGADA (2016)

Comunicação com alienígenas tem sido um tema recorrente na minha cabeça já algum tempo. Falei um pouco disso quando escrevi sobre o filme "Oblivion", mas a questão já me perturbava muito tempo antes e parece me perseguir a cada dia mais; não sei se tudo deriva do fato de eu trabalhar em um ramo onde as pessoas tem muita dificuldade de se comunicar, ou pelo momento de extremismo no mundo que venho acompanhando, onde ninguém quer realmente ouvir o que o outro lado tem a dizer; só sei que a dificuldade sobre como entenderíamos uma língua pertencente a seres vindos do outro lado da galáxia, com cultura, conceitos e percepções inimagináveis para nós, já que não conseguimos entender nem mesmo nossos vizinhos, me fascina.
Foi para saciar essa minha fascinação sobre como seria nosso primeiro diálogo com alienígenas, que fui atrás de histórias que buscassem se aprofundar na questão de, tanto nós entendermos os visitantes, quanto eles nos entenderem; me deparando assim com livros como "Contato"de Carl Sagan e "estranho em uma terra estranha" de Robert A. Heinlein e, mais recentemente com um filme que considero como um dos melhores de 2016 e que me deu ainda mais conceitos e questões para refletir. Trata-se de "A chegada", filme dirigido por Denis Villeneuve e estrelado por Amy Adams e Jeremy Renner, que esperei com ansiedade desde o surgimento de seu primeiro trailer e que superou minhas expectativa com tudo que me trouxe.

O filme gira em torno da Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista de prestígio que, após a aparição de doze gigantescos Ovnis espalhados pelo mundo, é convocada pelo governo americano, assim como o físico Ian Donnely (Jeremy Renner), para traduzir a língua dos alienígenas e buscar compreender qual a intenção dos mesmos para com o nosso planeta. Correndo contra o tempo, Louise e Ian terão de superar o medo que se espalha na sociedade, a imposição por parte do governo e a desunião entre os países envolvidos, para assim desvendarem as reais intenções dos visitantes e com isso, descobrirem muito mais sobre si mesmos.

Humano
O filme é muito competente ao abordar o que o roteiro propõe, se aprofundando na questão da dificuldade de diálogo entre duas raças que não possuem absolutamente nada em comum, do mesmo modo que é uma produção bonita de se ver e que trás uma mensagem muito bacana e atual de união e tolerância. Os protagonistas são plenamente críveis, apresentados como cientistas racionais e brilhantes, mas antes de tudo muito humanos com seus medos, traumas e erros, sem, porém, perder o foco em suas pesquisas e estudos e, se colocando no outro extremo de personagens de ficção científica que não os habituais heróis que resolvem tudo com explosões e gritaria. O destaque entre as interpretações é Amay Adams, que consegue expressar todo melancolia e sentimento que circundam a trama principal do filme utilizando muito de breves silêncios e fortes olhares para passar ao expectador muito de sua personagem sem precisar utilizar uma única palavra; Jaremy Renner também não deixa nada a desejar, sendo carismático e natural, entregando um Ian Donnely leve e muito mais simpático que os personagens que ele vem interpretando ultimamente. A direção, que ficou nas mãos do diretor canadense Denis Villeneuve, o mesmo de "Sicário", é extremamente competente e precisa, dando um ritmo lento e cíclico, mas não chato, na trama, o que faz total sentido quando por fim compreendemos o que os alienígenas querem e como história é montada, cravando uma exclamação em nossa mente ao final do terceiro ato quando temos várias revelações que são apontadas desde o primeiro minuto por um roteiro primoroso.



O roteiro do filme é baseado no conto "A história de sua vida" do escritor Ted Chiang, outro jovem escritor, que assim como Andy Weir, que escreveu "Perdido em Marte", foca mais na atuação da ciência em casos extraordinários, do que em uma solução utilizando a ação como protagonista. Então, toda a situação sobre a dificuldade de manter contato se torna a missão central do filme e serve de base para abordar e criticar temas de nosso dia a dia, como a boa ficção cientifica sempre fez e, assim o filme traça um paralelo sobre a dificuldade de compreensão entre as pessoas e sobre a tolerância com o que (ou quem) é diferente.
O filme me lembrou muito o livro "estranho em uma terra estranha", onde o protagonista, criado por alienígenas, não conseguia entender os conceitos humanos e ficava em grande parte paralisado frente a ironia e violência, sendo visto como alguém de intelecto baixo ou incapaz, quando na verdade a realidade de seu pensamento era totalmente dispare do pensamento humano. Da mesma forma, conforme a trama vai se desenrolando, enxerguei muito do livro e filme "contato", de 1997, e do filme "Interstellar" de 2014, dirigido por Christopher Nolan; com o primeiro, a semelhança é que formas de vida alienígenas ensinam uma maneira da humanidade se comunicar com elas, apenas para informar-nos que esse é o primeiro passo e que temos de nos preparar para aceitar o diferente, com o segundo, a ideia de que "o amor é a única coisa que transcende o tempo e espaço" e responsabilidade de nossos atos, coisas que parecem piegas, mas que ao assistir o filme tornam-se doces e verdadeiras.


No entanto, para entender a sutileza e a magia desse filme, é preciso revelar algumas partes da trama, ou não será possível uma análise digna de um filme tão bom quanto esse. Então lá vai:



Zona de Spoiler

Esse filme foi vendido errado!! Não é um filme de invasão alienígena, como os trailers tentavam mostrar, é um filme de visita alienígena e mudança de paradigma e, o diretor, roteirista e o montador, souberam tratar disso tudo de forma brilhante usando uma meta linguagem que faz tudo parecer voltar sempre. Para começar, o início do filme é o final, não o final da trama, mas o final das consequências que a trama causou na vida dos personagens, dando a ideia de ciclo, ou história não linear. Isso é apresentado incessantemente na produção, seja pela linguagem dos alienígenas, que é apresentada formando círculos, em frases soltas dos personagens, como quando Ian (Renner) fala consigo mesmo dizendo "tudo morre um dia", com o fato de existirem doze naves, tais quais as horas em um relógio e nos informando que aquela parte da invasão é parte de um todo maior, dando uma visão holística da situação, que os próprios personagens não compreendem a principio e só vão enxergar, quando o presente, ou arma, trazida pelos visitantes é desvendada.

O grande conflito do filme acontece quando a Dra. Banks traduz a proposta dos extraterrestres justamente como "Oferta de arma", que desencadeia uma crise entre os países alvos das visitas e quase cria uma guerra, sendo que mais tarde a protagonista descobre que o conceito de "arma" e "ferramenta" para os visitantes é o mesmo e essa ferramente (ou presente) é a própria linguagem alienígena, que , mais do que uma linguagem unificada entre as raças, carrega em si o poder de consultar e perceber o tempo como aquela raça, que não vive o tempo de forma linear, mas sobreposta, ou seja, para eles não há um futuro, passado e presente separados, mas simultâneo e pode ser acessado por nós (humanos) como lembranças e os aliens vieram nos passar essa linguagem, porque sabem que precisarão da ajuda dos humanos daqui a três mil anos, mas que a falta de união e entendimento, quase certamente, irá colocar em risco nossa existência até lá.

Com isso, o filme ainda toca em questões filosóficas e teóricas. Como , se sabemos o que acontecerá, pois temos lembranças do nosso futuro, será que temos realmente livre arbítrio? E, utilizando essas lembranças do futuro, para proceder no passado não criamos um paradoxo temporal e apagamos uma linha de tempo possível? Mas isso é algo para ser pensado em outra ocasião, porque não ferem a trama central ou mitologia do filme, pois o mesmo parece utilizar a máxima do filosofo romano Boécio em um parentese na "consolação da filosofia", ao falar sobre previsões: "As coisas são previstas porque acontecem e não acontecem porque são previstas", sendo assim, o filme só possui uma linha temporal e as visões do futuro já estariam prevista, pois o tempo é influenciado e medido pela ótica dos aliens e não no jeito humano.

O filme ainda tem um toque de humor, quando nos questionamos se o nome da filha da protagonista é Hannah, por causa que a nave estava em Montana, sendo que o nome também é um palíndromo sendo falado do mesmo jeito de trás para a frente ou de frente para trás, outro exemplo de linguagem cíclica como a escrita alienígena.

A única parte caída do filme é que mesmo tendo uma mensagem otimista, o diretor se apega a questões onde países não alinhados com o pensamento americano, são representados como instáveis e extremistas em suas atitudes (china , Rússia, Paquistão e sudão), uma situação já apresentada anteriormente por Villeneuve em "Sicário", onde temos um EUA racional em um lado e um México selvagem do outro, assim como seus agentes da CIA, que tanto no filme de 2015, quanto nesse, são dois babacas.


Por tudo que o filme me apresentou, considero a grande surpresa boa de 2016. Conseguiu tratar de temas que são extremamente importantes e atuais com competência e inteligencia e, de quebra, nos contou uma história que envolve amor, responsabilidade e união. Jogo minhas fichas que Amy Adams terá seu nome indicado ao Oscar pelo papel na obra, assim como o roteiro estará presente como melhor roteiro adaptado. A produção me trouxe orgulho, por tratar a ficção científica com respeito e me fez sentir muito mais tranquilo ao pensar que a sequência de "Blade Runner" está nas mão do diretor Denis Villeneuve, que vem se mostrando um grande nome dessa nova geração.
"A chegada" é um filmaço, que vai muito além dos filmes clichê de invasão alienígena, Então faça como os visitantes e não perca tempo, porque "A chegada" ainda está no cinema esperando para ser prestigiada, pois se conseguiu me compreender e entendeu esse texto como uma ferramenta ou presente, compre seu ingresso e parta para o cinema o quanto antes para surpreender-se.




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