quarta-feira, 6 de setembro de 2017

ATÔMICA (2017)



O Ano é 1989; Nos E.U.A, Bush pai assumia seu cargo de presidente; Na China, um estudante desconhecido parava uma coluna de tanques durante o protesto na praça da paz celestial; A Rússia se retirava do Afeganistão e no Brasil, Raul Seixas morria e Pedro Bial fazia sua mais relevante reportagem informando que o muro de Berlin caia, dando fim a vinte oito anos de divisão alemã. É durante esse período tão conturbado de nossa história que se passa a trama de um dos grandes filmes de 2017 e que aguardei ansioso desde seu primeiro trailer, trata-se “Atômica”, Thriller de espionagem e ação dirigido David Leitch e estrelado pela maravilhosa Charlize “Furiosa” Theron que estreou no final de Agosto para fechar o mês com um tiro certeiro e abrir Setembro com o pé na porta.

O filme conta a história de Lorraine Broughton (Charlize Theron), uma agente da MI6 que, após o assassinato de um colega em Berlin, que possuía uma lista contendo o nome de todos espiões em operação dos dois lados do muro, é enviada para Alemanha e incumbida de recuperar o material, que além de tudo possui a identidade de um perigoso agente duplo.
Às vésperas da reunificação alemã e contando com a parca ajuda do chefe da estação local, o pouco ortodoxo David Percival (James McAvoy), Lorraine terá de usar todo seu charme e talento como especialista em combate corpo a corpo e evasão para sobreviver ao derradeiro e mais sangrento jogo de espiões da guerra fria.



Cara, sabe aquele filme que consegue ser tão equilibrado, mas tão equilibrado que se você largar em uma corda ele fica paradinho? Pois Atômica é isso. Atuações convincentes, cenas de luta e perseguição de tirar o folego, reviravoltas na trama, fotografia e figurino bonitos, locações caprichadas e trilha sonora matadora, tudo muito bem organizado dentro de menos de duas horas de filme e que merecem ser creditados tanto à competência do diretor David Leitch, que vem crescendo no mercado de filmes de ação, quanto ao talento de Charlize Theron, que mais uma vez rouba a cena com sua atuação e carisma.

Quanto ao diretor, fica fácil reconhecer sua assinatura gráfica e estilo ágil quando comparamos "Atômica" com outro de seus filmes que foi bastante comentado, que é "John Wick" (2014), com a diferença que na nova produção Leitch mantém a ação frenética mas prende os pés no chão, o que não o impede de ousar, passeando com a câmera por ângulos que colocam o espectador quase como se fosse um passageiro durante uma perseguição de carros ou estivesse no meio das cenas de luta e tiroteio, nos presenteando com longas tomadas sem cortes e planos abertos que acabam por detalhar cada intenção dos presentes na tela sem a necessidade de quase nenhum diálogo, essa confirmação de estilo me fez, mais do que ficar empolgado com a história que estava assistindo, me sentir aliviado ao pensar que a sequência do filme do Deadpool está em mão competentes e capazes de superar a divertidíssima produção comandada por Tim Miller em 2016.

Já Charlize Theron está realmente magnifica, arrancando o fôlego de quem assiste ao filme e os dentes e sangue de seus inimigos na trama. A atriz Sul africana se reinventa mais uma vez e consegue deixar no passado seus papeis anteriores, como a marcante "imperatriz Furiosa" de "Mad Max" e Aileen Wuornos de "Monster" que lhe rendeu um Oscar; suas cenas de ação em nada ficam devendo às dos protagonistas de outros prestigiados filmes de espionagem e ação como "Jason Bourne", "John Wick" ou "James Bond", sendo que as coreografias de luta, os planos aberto e luz explorada pela produção parecem dar vantagem a Theron que, transparecendo força e sobriedade na atuação, se distancia de forma gigantesca de outras atrizes que também costumam viver papeis outrora interpretados apenas por homens e que, quase sempre, mostram uma postura quase caricatural repleta de caras e bocas pouco convincentes, como Angelina Jolie em "Tomb Raider" e "Salt", Mila Jovovich em "Resident Evil" e mais recentemente , Scarlett Johansson em "Ghost in the shell", sem contar que a atriz Sul Africana ainda abusa do charme e da beleza como armas fatais no jogo de espiões que sua personagem se envolve de forma infinitamente mais convincente do que mostrado em qualquer filme do gênero antes. Fatos que afirmam Charlize Theron, com "Atômica", como um dos grandes nomes femininos do cinema de ação.

O filme ainda tem a trilha sonora carregada com músicas da época em que se passa a trama, como arma secreta para mergulhar ainda mais o expectador dentro do universo explorado, tocando pontualmente canções consagradas como "Cat People" de David Bowie, "99 Luftballons" de Nena, "Father Figure" de George Michael, "Blue Monday" do New Order, entre outros grandes sucessos que ambientam o expectador naquele mundo e dão o ritmo e direção do filme com um artificio que parece ter se tornado moda desde "Guardiões da Galáxia" e que nesse filme funciona tão bem quanto, embora fique mais em segundo plano do que no filme da Marvel de 2014.

E Falando em Marvel, é importante lembrar que "Atômica" também foi baseada em uma HQ. A obra original, intitulada "A cidade mais fria" (Berlin, dividida pela Guerra fria, entendeu a referência?) foi escrita pelo inglês Antony Johnston e desenhada pelo ilustrador inglês naturalizado brasileiro Sam Hart e que pelo o que ouvi falar, posto que não li a HQ, é bem diferente do filme, principalmente no tocante a ação, o que , a meu ver dá mais crédito ao produção, por conseguir entregar uma releitura da história, que pega seus principais elementos acrescentando outras questões e escolhas, sem descaracterizar por completo sua intenção de mostrar um jogo de espionagem durante do declínio da cortina de ferro. Um exemplo que fica para os adaptadores de obras originais (em especial aos serviços de Streaming que acham que podem reinventar a roda adaptando animes e Mangás).


Então é isso, Com cenas de ação e perseguição de tirar o fôlego, uma trama cheia de reviravoltas onde ninguém sabe em quem confiar e carregado de estilo, "Atômica" chegou aos cinemas para reafirmar o poder da mulherada e divertir na medida certa. Traz uma protagonista que rouba a cena a cada segundo que surge na tela e um diretor que se firma a cada filme como uma das grandes promessas dessa leva que vem ganhando espaço, somando-se como principais responsáveis por cumprir cada expectativa que os trailers fizeram surgir em mim e me deixando ansioso pelas próximas produções da dupla. Então, que venha Deadpool 2 e que Charlize Theron continue a se reinventar e brilhar sempre... mas o mais importante, não confie em ninguém. 




quarta-feira, 30 de agosto de 2017

CÃES SELVAGENS (Dog eat dog) 2016


 Troy, Diesel e Mad Dog são três ex-detentos a pouco saídos de San Quentin que sonham em dar um último grande golpe. A oportunidade surge quando o Grego, um pequeno mafioso conhecido de Troy, encomenda a eles o sequestro do filho de um rival que deve dinheiro a um de seus associados; com certa relutância, mas pensando no dinheiro, o grupo aceita o trabalho e a partir daí todo o caos que sempre os cercaram toma suas vidas por completo.

   Assim é “Dog eat dog” de 2016, ou como ficou chamado na terra das mineradoras nas reservas florestais, “Cães selvagens”, filme baseado no livro homônimo lançado em 1995 do escritor (e ex-presidiário) Edward Bunker, que ficou mais conhecido por sua participação especial no filme “Cães de Aluguel” do diretor Quentin Tarantino , no papel de Mr. Blue, e , tem como diretor e roteirista Paul Schrader, conhecido por roteirizar grandes clássicos dirigidos por Martin Scorsese, como “Táxi Driver”, “Touro Indomável” e “A última tentação de Cristo” e que ainda faz uma pequena participação interpretando o mafioso Grego.

   Essa mistura dá todo um estilo à produção que consegue unir cenas de violência crua a momentos de puro sarcasmo e humor. A montagem e fotografia do filme lembram além de Tarantino, em muito os primeiros filmes de Guy Ritchie, pela agilidade e por abordar o pequeno sub-mundo e seus atores semi-profissionais. Já as atuações, na medida em que o filme permite, são muito bacanas, começando por Willem Dafoe que interpreta Mad Dog e que além de parecer um maluco (como sempre) nos proporciona uma das cenas de abertura mais viscerais e violentas dos últimos anos, nos mostrando com que tipo de gente que a história vai tratar; Outro que surpreende é Nicolas Cage, que consegue fugir de seus últimos papéis entregando um sutil, almofadinha e violento Troy que, em oposição ao personagem de Dafoe, começa morno e fecha o filme com um banho de sangue.



   Infelizmente, mesmo sendo roteirizado por um mestre e claramente inspirado no estilo de grandes diretores, o filme se perde dentro de si, não sendo possível perceber no decorrer da produção, o que realmente os personagens querem e as consequências mais profundas de seus atos. Precisei recorrer a sinopse do livro (pois não o li) para entender o que realmente movia os personagens e qual suas intenções no primeiro momento, acabando por descobrir, que no livro, a ideia do grupo de criminosos era aplicar golpes em traficantes, agiotas e bookmakers, pelo fato destes não poderem procurar a ajuda da lei para os proteger (daí o nome da história: "cão come cão"!), algo que é mostrado de relance no inicio do filme, mas que parece tão solto na história quanto a última conversa entre os personagens Diesel e Mad dog, que é do nível de uma novela do mesmo canal que passa Chaves.


   Mas mesmo com seus defeitos, “Dog eat dog” é um filme corajoso por suas cenas de violência, onde nem crianças nem velhos são poupados e pelo estilo misturado que causa uma estranheza divertida e certa nostalgia por filmes mais focados na história e não em efeitos especiais ou as atuações mais dramáticas e sérias do mundo, garantindo sensações que resultam em boas risadas, caretas de dor e paralisia por constrangimento, três ingredientes essenciais para fãs de cinema, sejam estes selvagens ou nem tanto.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

BABY DRIVER (2017) ou Em ritmo de fuga.



Já cantava o Rapper Xis que "A Fuga cinematográfica é pra quem pode" e eu comprovei essa afirmação do glorioso ex-participante da casa dos artistas essa semana, após assistir ao melhor musical de ação já escrito pelo diretor Edgar Wrigth e que me fez ter vontade de pegar meu velho Pálio 99 e sair cantando pneus pelas estradas da vida (isso se o carro passasse de oitenta km/h e se eu não o tivesse vendido). Trata-se de "Baby Driver", ou como ficou chamado aqui abaixo da amazônia meridional "Em Ritmo de fuga"; thriller estrelado pelo jovem Ansel Elgort, Jon Hamm, Jamie Foxx e grande elenco , que fez com que duas horas da minha vida passassem correndo tamanha diversão e se juntando a "Get Out" como uma das poucas coisas acima da média que vi no cinema nesse amargo 2017.

O filme conta a história de "Baby" (Ansel Elgort), um jovem motorista de Fuga que trabalha para uma organização criminosa especializada em grandes roubos que é comandada por "Doc" (Kevin Space). Após se ver livre da dívida que possuía com seu empregador, devido a ter roubado seu carro anos antes e , aparentemente , perdido uma valiosa carga; Baby, agora buscando um recomeço ao lado de Deborah (Lily James), é obrigado a fazer mais um trabalho com uma nova equipe composta pelo casal Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eiza Gonzales) e o violento vida loka Bats (Jamie Foxx), sem saber se conseguirá ser tão rápido em fugir de sua vida antiga, como consegue ser quando é perseguido pela polícia.


Que filme bacana! Edgar Wrigth confirma seu talento como roteirista e diretor com uma obra que consegue ser original, mesmo fundamentada em uma tradição do cinema que são os filmes de roubo e fuga, ao inserir uma trilha sonora que se identifica quase como um personagem da trama, flutuando entre diegética e não-diegética o tempo todo e criando tensão e êxtase a cada cenas, chegando a ajudar a aprofundar e revelar um pouco da história do protagonista, inaugurando o gênero "musical de ação", do qual, por ser o primeiro, o próprio filme é o melhor.
Ainda sobre Wrigth, podemos dizer que o filme não funcionaria se não fosse por sua direção. O tom da história, que por momentos chega a ser violenta, mas não perde o bom humor; a montagem ágil e a fotografia remontam de forma clara aos demais filmes do diretor e tornam impossível que outra pessoa guiasse a obra sem que fosse o próprio Wrigth. Outro ponto positivo que faz com que o filme funcione é o ator Ansel Elgort, o cara é muito carismático e consegue transmitir esse carisma mesmo quando fica em um canto, de óculos escuros, em silêncio e ouvindo música (como na cena onde é provocado pelo personagem de Jon Bernthal) , ou quando toma a decisão de agir pensando em si e na namorada, ao final do filme.

Falando em ação, o Wrigth faz jus a sua linhagem de diretor inglês da nova geração, apresentando uma história ambientada no pequeno submundo, tal qual os primeiros filmes de Guy Ritchie e Matthew Vaughn, onde não existem grandes famílias criminosas, ou crimes megalomaníacos, mas o que não impede a apresentação de muita violência e, isso é mostrado de maneira , hora sutil, como quando um personagem simplesmente fala que se não o verem mais é porque ele morreu e , mais tarde, prestando a atenção, descobrimos que realmente isso aconteceu e quem fez; ou, de maneira crua, como quando Baby dá um fim no antagonista mais perigoso e sangue jorra na tela. Essa oscilação de tensão é essencial na construção da crescente do filme, que chega a seu auge quando o protagonista resolve dar um fim em sua antiga vida e enfrentar as consequências disso e , quando acontece, já estamos por completo a seu lado e vibramos com cada coisa que dá certo para ele.



Mas as verdadeiras estrelas do filme, sem dúvida, são as perseguições de carro. Tanto que até mesmo eu, que não sou nenhum aficionado por veículos automotores, fiquei com vontade de acelerar no meio do trânsito (vontade que me foi saciada jogando "Need for Speed" com meu filho (no play 2)). Embaladas pelas músicas presentes nos ipods do protagonista, temos cenas de ação onde a principal arma é o volante de um carro e as cenas são tão bem conduzidas, que mesmo longas, não parecem repetitivas ou cansam, outro mérito da montagem e direção.

Mas nem tudo é perfeito em "Baby Driver". Uma coisa que senti falta é um aprofundamento maior nos demais personagens, em especial ao do par romântico de Baby, Deborah. Não sabemos nada sobre ela, a não ser que teve uma mãe doente e que ela trabalha em uma lanchonete (e odeia isso), seu personagem é quase vazio de pretensões ou ambições, a não ser a única que combina com o protagonista, que é fugir da vida que leva, mas nada explica o que a leva a espera-lo (spoiler) por 5 anos, quando baby acaba preso ao final do filme. O próprio Doc e seu bando também sofrem desse mal, acabei o filme querendo saber mais sobre a história do personagem do Kevin Space, que chega a levar o filho de oito anos para investigar o lugar de um roubo, ou entender como o personagem de Jon Hamm, que , conforme Batts conjectura, poderia ter sido um alto investidor de Wall street, acabou assaltando bancos com sua striper preferida a tira colo. Mas, mesmo assim, quando a vemos a história do filme como um conto referente a um momento especifico na vida do protagonista, esquecemos esses por menores e vemos que, apesar de sua presença, não diminuem em quase nada a qualidade da produção.

Pois bem, eu poderia escrever um texto com o triplo do tamanho deste, falando de como o filme é divertido e destrinchando cada cena, mas isso acabaria com a experiência de quem pretende assistir ao filme, então vou seguir o exemplo de Baby, o protagonista do filme, e simplesmente acelerar e fugir dessa responsabilidade. Posso apenas dizer, que repleto de cenas maravilhosas de perseguição, ação na medida certa e um trilha sonora de causar inveja ao diretor James Gunn, "Baby Driver" cumpre a expectativa que criou desde seu primeiro trailler e coloca mais uma vez o diretor Edgar Wrigth como destaque pela sua obra autoral. Então se eu fosso vocês não perdia a oportunidade e colocava a melhor música nos fones, os óculos escuros e as luvas de couro e acelerava para o cinema para assistir esse filme que passa correndo de tão bom que é.

                                                      Trailler



                              Acima, 6 minutos da abertura do filme, só para babar



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

SLEIGTH (2017) ou, o truque metalinguístico do boy magia



Muitas pessoas adoram um easter egg, aquelas mensagens escondidas dentro de filmes que fazem referências a outras obras do mesmo universo ou que remetem a outra produção memorável. Tem gente mesmo que se dedica a procurar essas mensagens secretas e nos premiam com surpresas como a do cartaz de "Batman vs Superman" no filme "Eu sou a lenda" de 2007, ou as diversas referências que evidenciam a união dos filmes de um grande diretor, como no caso que inspirou o curta "Código Tarantino", protagonizado por Selton Melo e Seu Jorge. Já eu, que sou metido a diferentão, me sinto maravilhado quando percebo um filme que usa metalinguagem para questionar a si mesmo e se aprofundar nos dilemas do autor ou no tema que se propõem a abordar. E foi esse maravilhamento, com algo tão sutil, que me prendeu no filme "Sleigth" do diretor Justin Dillard, que estreou em Abril na Gringa e chegou até mim por pura mágica.

O filme conta a história de Bo, um jovem mágico de rua que usa seus talentos com truques para sustentar a irmã caçula após perder seus pais. Sem conseguir dinheiro suficiente de maneira honesta, ele acaba complementando sua renda através do tráfico de drogas, trabalhando para um conhecido nas noites de Los Angeles. No entanto, após conhecer uma garota especial e tentar forçar sua saída do mundo crime adulterando as drogas de seu fornecedor, para assim conseguir mais dinheiro e fugir, Bo é descoberto, tem sua irmã capturada e precisa pagar com juros o prejuízo que que causou a seu empregador ilícito, restando a ele a espera de um milagre financeiro ou a utilização de seus dons para salvar a vida da irmã.

O filme está longe de ser a melhor coisa que o cinema nos proporcionou esse ano, não indo muito além de um drama social com pitadas de ficção cinetífica e um toque de filme de super-herói; seu ritmo é lento e os personagens periféricos são pouco desenvolvidos a ponto de acreditarmos que a única razão da personagem da gatissíma Seychelle Gabriel se apaixonar pelo protagonista seja realmente mágica. Mas, como eu disse acima, o filme me prendeu pela metalinguagem que utiliza para falar de si mesmo desde seus trailers até sua conclusão e isso me entregou satisfação com a produção a ponto de ser relevante para ser resenhada.

O filme todo é uma espiral de metalinguagem, começando por seus trailes. Seus primeiros vídeos promocionais são um embuste, fazendo com que acreditemos que a trama aborda a história de um rapaz que, de alguma maneira, possui super-poderes; o que não é de todo mentira, mas que não ocupa nem quinze minutos da trama e após assistirmos a produção, percebemos que a intenção dos responsáveis era utilizar um truque ("sleigth" em inglês) para que olhassemos para outro lado enquanto tinham a pretenção para falar muito mais das dificuldades de um jovem talentoso em criar a irmã sozinho em meio a um ambiente de violência e descaso social, do que do nascimento de um super-herói.


Já no filme em si, o constante close nas ferramentas do protagonista, onde vemos tanto equipamento para manutenção de eletrônicos como um enorme poster de Houdini, o mítico mágico rei das fugas, fazem referência ao próprio protagonista, ele mesmo procurando uma maneira expetacular de se livrar das correntes que o prendem na situação que se colocou, sendo sua inteligência e talento a chave para isso. Outro fato é que temos alguns diálogos que abordam os talentos especiais do protagonista e sua moral, o que no decorrer da história vão ser mostrados (ou não), como quando conversando com sua namorada, Bo conta que se apaixonou por mágica ao conhecer um ilusionista de rua que atravessava a própria mão com uma faca e que lhe disse que só revelava seus truques a companheiros de profissão, o que ocorreu anos depois quando ele voltou a encontrar o mágico e este lhe disse como fazia, o que é , também, um espelho de como o próprio Bo, consegue fazer; esse diálogo vai fazer ainda mais sentido ao final da história, quando após dizer para , agora sua companheira, que estava trabalhando em um truque novo, vemos apenas a surpresa no olhar dela, ao espiar a oficina do protagonista por uma fresta na porta, como se o segredo não pudesse ser revelado para nós, mero público.

Mas como já comentado, nem todos os truques que dão movimento ao filme funcionam. Se somando ao pouco desenvolvimento dos coadjuvantes e ao ritmo da história que por vezes cai abruptamente, a trama possui alguns arcos que não se concluem e isso interfere direto com o fechamento do próprio protagonista, como no caso de seu relacionamento de fornecedor de drogas e cliente com a personagem de Cameron Esposito, que é a gerente de uma boate. Em determinado momento, Bo sem saber mais o que fazer para conseguir o dinheiro do resgate da irmã, furta uma determinada quantia do cofre da cliente e foge, quebrando um elo de confiança que havia entre os dois personagens desde o início do filme, mas as consequências dessa quebra não são mostradas e ficamos sem saber o que houve com a moça e tão pouco vemos arrependimento ou questionamento por parte do protagonista ao final. Outra situação semelhante é a ocorrida com o antagonista da história, que passa quase toda trama falando em respeito e utilizando de métodos agressivos contra quem ousa desafia-lo (chegando a mandar amputar a mão de um rival) , mas que após o embate final se mostra um covarde e assustadiço bandido de faz de conta, quase não colocando empecilhos na atitude do protagonista para salvar a irmã, fatos que somados ao final da história, onde vemos Bo continuando a fazer mágicas na rua, demonstram que o personagem não teve o crescimento que deveria após tudo que viveu, o que torna toda a jornada vazia.

Entretanto, em meio a muitos furos de roteiro e altos e baixos na trama, me diverti com o truque que o filme faz consigo mesmo buscando nos enganar como se a própria história contada fosse um mágico. Seu tom é bacana, lembrando a estrutura de um pequeno conto, sem pretensão de se estender além do que quer mostrar, o que em épocas de franquias gigantescas e universos que não terminam de se expandir nunca por vezes cai bem. Então se assim como eu, roteiros que se aprofundam dentro de si mesmos te agradam e não ser enganado pelo trailer não te ofende, ALACAZAM, esse é um filme que talvez você goste de assistir.





quinta-feira, 3 de agosto de 2017

CORRENTE DO MAL (2015) ou, Não era amor, era cilada!




Imagina que você está em uma festa e de repente seus olhos cruzam com uma pessoa linda. Ela te encara com interesse e te dá um sorriso, pouco tempo depois vocês estão saindo dali aos beijos e indo para o motel onde passam uma noite maravilhosa, mas ao acordar algo não está certo, você está amarrado em uma cadeira e a pessoa te explica que te passou algo, alguma coisa que nem ela mesmo entende, só sabe que tem que passar para outro para se livrar e lhe aconselha a fazer o mesmo, uma coisa que só quem tem pode ver (e que agora você vê!) e que vai te perseguir até que você repasse para outro, em uma maldição que vai retornando aos demais amaldiçoados assim que o portador atual morrer... Não parece terrível? Pois esse é o plot de "It Folows", ou como ficou nomeado aqui na parte de língua lusitana abaixo do equador "Corrente do Mal", filme de 2014, escrito e dirigido por David Robert Mitchell, que depois de anos de enrolação e cagaço finalmente assisti para minha grata satisfação.

O filme conta a história de Jay, uma garota que após se entregar ao rapaz com quem estava saindo (leia transar), recebe a notícia de que recebeu uma maldição transmitida pelo sexo e tal qual a história descrita acima, vai persegui-la até que ela passe para outra pessoa. Após se ver seguida por bizarros andarilhos que ninguém mais vê, Jay pede a ajuda de sua irmã e seus amigos e parte na busca de respostas, levando consigo uma força maligna em seu encalço e a dúvida de que se deve passar o mal a diante ou quebrar a corrente de alguma outra maneira.

Esse deve ser o filme que mais tempo posterguei para ver em toda minha vida, mas depois de mais de dois anos de cagaço e desculpa esfarrapada, posso dizer que valeu muito a pena ter reservado uma hora e meia da minha vida para assistir o que a trama de David Robert Mitchell tinha de bom a ponto de ser levada para Cannes e ser tão elogiado por tanta gente que o viu.

Para começar, o filme tem toda uma aura de nostalgia, lembrando em muito as produções de terror dos anos oitenta de diretores como Wes Craven, onde um "monstro" persegue um grupo de jovens com o único objetivo de aniquilar seus alvos, o que se soma a questão da maldição ter relação com sexo, remetendo às vítimas de Jason Vorhees de "sexta-feira 13", outro clássico oitentista. Esse clima de filme do passado ainda agrega estranheza ao ambiente por onde a história se desenvolve, pois observando a trama, não conseguimos definir com clareza, por mais que tentemos, em que época que a história se passa. Percebemos TV's de cubo e cinemas com pianistas ao vivo, filmes em preto e branco, mas aparelhos modernos, como celulares e Kindles, o que mais que estranhamento, acaba tornando a história atemporal. No entanto, se excluindo as homenagens e referências ao terror americano, toda a estrutura da história parece ter muito mais influência do cinema oriental com seu estilo investigativo e de tensão crescente, que prioriza mais o suspense e o susto do que as mortes e o gore, tal qual o primeiro filme da série "O chamado" e esse toque de terror oriental tão bem conduzido por Mitchell, foi o que mais gostei na trama.

De vagar e sempre
Assim como nossos amigos do outro lado do mundo, o diretor nos entrega uma história que te prende pelo ar investigativo, onde a protagonista busca entender o que está ocorrendo, e com o estranhamento que a trama vai passando ao nos apresentar o conceito dessa maldição, terminando com a compreensão, também comum nos filmes orientais, de que o mal é algo maior que o indivíduo e que é impossível escapar, sendo o máximo que se pode fazer é seguir suas regras para poder sobreviver. E Sabendo que não há escapatória além de seguir o jogo que a maldição impõem, o filme ganha uma nova camada ao se pensar nos acontecimentos que a trama deixa subintendido, como quando a protagonista foge para a praia ou quando ela resolve assumir um relacionamento firme.


Sobre a Fuga de Jay (a segunda ou terceira) que ocorre no segundo ato da história, ela sofre um acidente e, para deixa-la mais tranquila, seu vizinho pegador resolve fazer o sacrifício de fazer sexo com ela para que a maldição (que ele não acreditava ser real) passasse para ele e assim resolver o problema, o que dá muito errado (leia-se: se ferrou!), então em desespero, por ter presenciado algo tão chocante, Jay foge para a praia, onde a vemos se despindo e entrando na água após avistar bem a sua frente, três homens sozinhos em uma lancha; o que acontece não é mostrado, mas ela volta para casa com os cabelos molhados e passa dias trancada em depressão sem se sentir segura, até ser convencida pelos amigos a tentar "Matar" seu perseguidor e acaba se deparando com a criatura literalmente em cima de sua casa, ficando claro naquele momento que três elos da corrente foram quebrados, ficando a curiosidade de como tudo ocorreu com os azarados amigos da praia que pensaram ter tirado a sorte grande.

Outra situação parecida com a citada acima é quando Jay, já no final do filme, assume um namoro com um de seus amigos de infância (que faz parte do grupo que a ajuda) e este, já sabendo dos problemas que se envolver com a moça pode trazer, tem uma ideia terrível, mas engenhosa, que embora não comentada aparece em execução, que é Transar com prostitutas depois de levar a namorada para cama e assim empurrar a maldição para a maior distância possível, o que parece dar certo. No entanto, como uma boa história com influência do terror oriental, as pessoas que viram o outro lado não são mais as mesmas e a sensação de estranhamento não se dissipa mais, terminando o filme com o clima perpétuo de perseguição por parte de uma maldição, lenta mas focada e que a qualquer hora vai alcançar suas vítimas.

Gostei muito do filme. Ele não tem nada de especial além de boas referências, uma boa história para contar e um bom roteiro e direção ( o que já é mais que 90% dos filmes tem). Não há grandes efeitos especiais ou cenas de mortes arrepiantes, mas trabalha com qualidade na tensão e clima de suspense, te prendendo na cadeira na procura de respostas junto com os personagens e as situações que ficam subintendidas (que vão além das duas citadas acima) fazem com que a história fique viva na sua cabeça e imaginando o que mais pode ter acontecido e o acontecerá quando a criatura retornar até a protagonista e isso dá ainda mais credito ao roteiro de David Robert Mitchell.


Então se quiser curtir uma história tensa, cheia de mistério, bons sustos e com forte influência do cinema dos anos oitenta e oriental, assista "Corrente do Mal", mas acima de tudo lembre-se que, se em uma noite de festa, ou em um passeio qualquer, seu olhar cruzar com alguém desconhecido, que te oferecer um sorriso interessado e te arrastar pela mão até um lugar tranquilo, procure antes saber mais sobre a história dessa pessoa, pois nunca se sabe o que pode vir atrás de você depois.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

POWER RANGERS (2017) e que venha o meteoro !



"O bater de asas de uma borboleta pode influenciar o curso natural das coisas e criar um tufão do outro lado do mundo." Essa frase, que tenta definir o "efeito borboleta", parte integrante da teoria do Caos, foi utilizada de maneira conceitual inúmeras vezes na cultura pop para dar movimento à histórias onde um acontecimento pequeno estimula uma série de eventos que culminam, geralmente, em uma grande catástrofe. No entanto, jamais uma produção havia sido resultado desse efeito até Março desse ano, quando, com a influência de um curta que dava ares sombrios a uma franquia televisiva voltada para crianças, a Lions Gate trazia para o cinema "POWER RAGERS", o reeboot cinematográfico da aclamada série dos anos noventa que apresentou para uma geração a cara americanizada do universo dos super sentais japoneses.

"Power Rangers" reconta o início da história de cinco adolescentes (Jason, Billy, Zack, Trini e Kimberly) que encontram as moedas do poder e com a orientação do extraterrestre Zordon, se tornam os defensores da terra contra os malignos planos de dominação de Rita Repulsa.

OK, eu sei que a primeira coisa que passou pela sua cabeça é: "Por que esse tiozão está falando de Power Rangers?" E essa é uma pergunta muito justa, ao se imaginar que o público alvo da produção, não diferente da antiga série, são as crianças e pré adolescentes. No entanto, a curiosidade para saber como esse filme, que brotou da ideia de um curta feito para a internet e que incluía mortes e traições ao colorido cotidiano da molecada residente da Alameda dos Anjos, seria executado foi o que me fez gastar duas hora da minha vida e que me fez escrever esse texto.

Para começar, vamos falar das coisas boas que o filme referencia, iniciando pelo clássico do diretor John Hughes, o "Club dos Cinco". Assistindo os primeiros vinte minutos não podemos ignorar a influência do filme de 1985, que mostra a amizade de cinco jovens problemáticos (também três rapazes e duas moças) que surge após o encontro na detenção da escola e esse artifício é bem utilizado para explicar como pessoas tão diferentes acabam mais do que se conhecendo, como dando oportunidade de quem anteriormente ignoravam entrarem em suas vidas, com destaque para o companheirismo que surge entre Jason e Billy. O personagem do Power Ranger vermelho mesmo, vive uma cena que é praticamente um control C Control V do filme de Hughes, quando tem um diálogo com o pai no estacionamento da escola onde fica claro seu conflito pessoal; Soma-se a isso, que ele , tal qual o personagem de Emilio Steves em "Club dos cinco" também é um esportista frustrado e que se sente oprimido pela expectativa da família.
Outra referência que o filme me trouxe foi o filme "Poder sem limites" do diretor Josh Trank, onde amigos entram em contato com uma descoberta misteriosa e desenvolvem poderes telecinéticos em uma trama que acaba revelando quem realmente é quem, o que me parece claro ao mostrar que a vilã do filme foi uma ex-integrante dos Power Rangers corrompida pelo poder que vislumbrou. Isso ainda se soma ao já mencionado curta, que é referenciado no prólogo da história, que se passa na era dos dinossauros e onde vemos as consequências da batalha da antiga equipe comandada por Zordon e a destruição causada por Rita.

Uma turminha do barulho
No entanto, todas essas coisas boas e referências estão reunidas na primeira meia hora de filme e quase desaparecem da mente do espectador a partir do momento em que o grupo se encontra na pedreira, onde descobre as "moedas do poder" e começam sua jornada para transformarem-se nos defensores da vida na terra. Depois desse evento, o filme muda de tom e começa a se aproximar da ideia da série original, proporcionando cenas e diálogos capazes de constranger até mesmo o público alvo da produção televisiva clássica. Começando pela grande barriga do filme, que é a dificuldade dos protagonistas "morfarem" e que se estende por mais de vinte minutos da trama em um lenga lenga que não agrega nada a história; essa dificuldade se revela ainda o ponto mais decepcionante de todo o filme, pois só vemos os personagens vestidos de power rangers quando faltam apenas vinte e seis minutos para a história se encerrar, ou seja, em setenta e cinco por cento de filme não temos a presença dos personagens que dão nome ao filme.

A decisão de apresentar a trama com a mínima presença dos super-heróis, remete a uma história de origem que foca mais na pessoa do que em seu alter ego, seguindo a fórmula de sucesso do primeiro filme do Homem-Aranha, de 2002; mas nem mesmo isso é aprofundado, pois temos apenas menções aos problemas dos protagonistas, que se apresentam na forma das constantes brigas de Jason com o pai, que não são explicadas, pois apenas somos informados que ele era o capitão do time de futebol americano da escola e que machucou a perna em algum acidente (que não é mencionado) e se transformou em um frustrado rebelde mimado, ou o fato de Billy estar no espectro autista e ter perdido o pai recentemente, também ao fato de Zack ser um ferrado que mora em um acampamento de trailers e cuidar da mãe doente, ou de Trini não conversar com os pais porque (aparentemente pelo diálogo que "os cinco malandros tem em volta do fogueira") ela é lésbica. No entanto, nenhum arco fez menos sentido para a história do que o de Kimberly, a ranger rosa.



Kimberly, foi mandada para a detenção por um fato terrível e que se revela como o principal motivo dela não conseguir morfar (sempre isso!), ela roubou um nude de uma amiga, que havia ficado com seu ex-namorado e enviou ao mesmo questionando se era aquele tipo de garota que ele queria apresentar para seus pais! A foto se espalhou pela escola (pelo menos parece ter sido isso) e ela acabou na detenção, sem contar que antes disso ela ainda bateu no EX... Esse problema poderia ser melhor resolvido, se a personagem, durante a história e pelo seu passado, se sentisse tentada a se debandar para o lado da vilã e assim conseguisse se redimir se sacrificando ao final ou dando um exemplo de redenção, mas não, quem a vilã tenta persuadir é a ranger amarela (porque é gay!), enquanto isso, ainda vemos o líder da equipe (Jason) dizer a nefasta postadora de nudes alheios que muita coisa circula pela internet e para ela não ficar preocupada, COMO ASSIM?? ISSO É CRIME CARA!! o arco ainda se encerra de maneira ridícula, quando a ranger rosa, de posse de seu Zord voador, derruba uma estátua sobre o carro da ex amiga e solta a frase "você mereceu!", essa é a mente dos defensores da vida na terra! Nesse momento do filme eu quis que o Alfa  mandasse outro meteoro!

Não consigo sentir repulsa por essa vilã
E o que falar da vilã e suas motivações? A introdução da personagem, mostrando que ela era a antiga ranger verde e que se corrompeu é muito bacana, mas nada explica suas motivações e durante o filme só sabemos que ela quer conquistar o universo com o poder do cristal Zeo, mas e onde veio o poder para que ela matasse seus antigos companheiros? Quem deu aquele cetro pra ela? e por que diabos ela como ouro? Disso não somos informados. Eu mesmo queria saber quem foi o esperto que deu um amoeda do poder para alguém chamada Rita Repulsa, tenho minha desconfiança que foram os guardiões de OA, os mesmos que criaram os lanternas verdes (por isso a cor da personagem) , pois se eles deram um anel para um cara chamado Sinestro, porque não para uma Rita Repulsa?! Se bobear o próximo vilão talvez se chame Filho da Póta, para facilitar a identificação do possível traidor! Mas pior que essa brincadeira com os nomes é a atuação de Elizabeth Banks como a vilã, é um show de gritaria e caretas que somadas as fracas motivações do personagem não parecem causar uma ameaça real aos protagonistas, nem mesmo quando ela "mata" um deles, fatos que se equiparam em desastre apenas ao design e efeitos especiais dos Zords e Megazord, que não justificam o orçamento de cem milhões de Doletas para a produção desse filme.

Aproveitando a citação do Megazord, a cena de batalha do robô gigante, que é um clássico dentre as séries super sentai, serve para comprovar a inversão de valores que o filme vem trazendo durante suas duas horas. Depois de a Ranger Rosa mandar o nude da colega, do amigo de Jason drogar um touro, de Billy fazer bulling reverso com o valentão da escola e Trini deixar sua mãe falando sozinha; nossos heróis saem da pedreira, que estava sendo invadida por uma legião de monstros de massa e vão para o meio da cidade na procura da vilã, causando destruição por todo lado, no pior estilo "homem de Aço"! (não seria mais correto levar os monstros justamente para pedreira?) onde as consequências da batalha não são mostradas (eram dois robôs gigantes lutando no centro da cidade, lógico que morreu gente) e ao final, ficamos apenas com o ponto de vista dos protagonistas, olhando de cima a população que os aplaude, mesmo depois que sua pequena cidade foi reduzida a escombros.

Bryan Cranston feito de cristais azuis. Ironia?
Pois bem, sei que fui muito duro com um filme baseado em uma série para criança de até dez anos, mas quem se propõem a dar ares sombrios e problemas pessoais mais sérios a uma trama, tem que conseguir que essa ideia se mantenha linear durante o filme todo e não vá deixando de ser importante como decorrer da história, assim como o farol moral que deveria partir dos protagonistas fique claro e não escondido em meio a desculpas de que "todo mundo posta fotos nua na internet". Espero que a possível sequência, que fica em aberto com o gancho que temos na cena pós-créditos, onde mais uma vez homenageando John Hughes, dessa vez com uma sequência que lembra "Vivendo a vida adoidado", temos um professor entediado fazendo a chamada e perguntando por Tommy Oliver ( O ranger verde da série clássica).

Então é isso! Baseado na aclamada série dos anos noventa, "Power Rangers" deu seu passo inicial, mesmo que tropego, para a crianção de uma franquia cinematográfica, se revelando ao final como um tufão com grandes problemas de design, motivação e coerência de duas horas, iniciado pelo pequeno bater de asas de um curta de 14 min e que para mim, pelo menos, foi um desastre.


Alpha, pode mandar o meteoro!!


                                              O famoso CURTA

segunda-feira, 24 de julho de 2017

KONG -A ilha da Caveira (2017) ou fuzilando um clássico em uma ilha sinistra



"O Loki, o Nick Fury e a Capitã Marvel entram em um navio junto com o Fred Flintstone para viajar para uma ilha onde mora um gorila Gigante...". Poderia ser o início de uma piada ruim, mas é a base do filme "KONG – A ilha da Caveira", escrito por Dan Gilroy, Derek Conoly e Max Borenstein; responsáveis, respectivamente por obras da magnitude de "Gigantes de Aço (2011)", "Monster Trucks (2016)" e "Godzilla (2014)", que insatisfeitos com suas colaborações solo, uniram forças para tentar levar a óbito uma franquia nascida em 1933.

O ano é 1973 e as forças armadas americanas estão começando a se retirar do Vietnam, em meio ao tumulto, Bill Randa (John Goodman), responsável pela organização Monarch, após prometer a aquisição de riquezas minerais que podem cair em mãos russas, recebe recursos do governo dos EUA para se dirigir a uma misteriosa ilha no pacifico. Temendo por sua segurança e dos cientista sob sua responsabilidade, Randa também solicita escolta militar e recebe proteção da equipe comandada pelo Coronel Packard (Jackson), que os leva até a ilha juntamente com a fotógrafa Manson Weaver (Brie Larson) e o especialista em sobrevivência James Conrad (Tom Hiddleston). No entanto, o verdadeiro interesse de Randa nada tem a ver com dinheiro, mas em mostrar ao mundo que monstros existem e que nós, humanos, somos apenas convidados ignorados em um mundo mais feroz que imaginamos e isso se revela quando o grupo pisa na nada amistosa ilha da caveira, o lugar de fotografia mais bela do mundo, mas que rivaliza em roteiro mais Trash com o King Kong do Peter Jackson.


O filme é bem Ruinzinho! Não chega a ser um Transformers ou algo do gênero, mas se esforça bastante. Para se ter uma ideia, a produção conta com duas cenas Gigantescas de ação, a primeira quando o grupo de cientistas chega na ilha e se depara com o King Kong e a segunda no desfecho do filme, que duram mais de vinte minutos cada, em uma história de duas horas;ou seja, são intermináveis 33% do filme resumidos a explosões, gritos e mortes, algo que certamente deixou Michael Bay orgulhoso, mas que tira do espectador a capacidade de se importar com os personagens da trama, que diga-se de passagem são muitos e muito mal aproveitados.

Somando-se as intermináveis cenas de ação, que transparecem uma necessidade de manter a história sempre em um nível de adrenalina e tensão máximo, o roteiro ainda deixa a sensação de que tudo que acontece poderia ser resolvido sentando, conversando e buscando informações de forma racional sem arriscar a vida das pessoas envolvidas. Vemos isso quando analisamos as decisões da equipe, que resolve atravessar uma tempestade para chegar a uma ilha desconhecida e cria pontos de encontro sem nem mesmo fazer um reconhecimento do terreno , o que era fácil, pois estavam de helicópteros!!! Essa dificuldade de raciocínio só se mostra maior, quando, ao serem atacados por um Gorila do tamanho de um prédio, resolvem revidar, ao invés de reagrupar e se retirar de um local pouco convencional, por assim dizer, em uma sequência de erros que nos faz entender porque os EUA perderam a guerra do Vietnã para meia dúzia de fazendeiros.

Além disso, o filme ainda sinaliza que toda pessoa com poder sobre uma organização é um sociopata irresponsável em potencial. Tanto Randa, que é vivido por John Goodman, quanto Packard, interpretado por Samuel L. Jackson, são dois malucos sem precedentes que qualquer pessoal com mais de dois neurônios não seguiria após cinco minutos de conversa, com a vantagem de que o personagem de Jackson, tem a desculpa de ser um militar que vê na guerra seu único motivo de estar vivo, enquanto o de Randa, que confessa ser o único sobrevivente de um navio atacado por um monstro quando jovem, um idiota que quer apenas provar ao mundo que não era maluco e que para tanto se mostra um maluco.

Quem tem a melhor levantada de sobrancelha?
O filme ainda conta com o maior desperdício de talento da história do cinema, colocando atores do nível de Tom Hiddleston e Brie Larson, sem contar com Toby Kebbell e os já comentados Goodman e Jackson, para interpretarem personagens unidimensionais e esquecíveis. Toby Kebbell, que protagonizou meu episódio favorito de "Black Mirror", segue seu vacilante destino após o tenebroso Quarteto Fantástico (2015) fazendo o papel de um piloto que acreditamos ter relevância até o momento que um lagarto gigante vomita seu esqueleto (sim é isso!), já Hiddleston e Larson, fazem o papel dos piores profissionais em suas áreas, ele o de um rastreador e especialista em sobrevivência, que não consegue salvar quase ninguém que está sob sua proteção e ela uma fotógrafa premiada que vai em uma ilha selvagem, cheia de monstros, encontra caveiras gigantes, dinossauros, entre outros animais misteriosos e se preocupa mais em tirar foto da tripulação do navio, sem contar que está sempre com uma cara de pasma e com a sobrancelha levantada no pior estilo Sandra Helena da novela "Pega-Pega".

Mas não se desespere ó leitor, o filme tem coisas boas, como a trilha sonora e a fotografia. A trilha sonora, como um filme que se passa nos anos setenta é recheada de rock clássico contendo "Paranoid" do Black Sabbath, "Bad moon Rise" do Creedence e até "Brother" do nosso grande Jorge Ben, em momentos bem oportunos do filme e que dão sentido as cenas que estão acontecendo ou situações que estão por vir, o que é complementado pela fotografia maravilhosa e palhetas de cores quentes que dão o ar tropical e fantástico da produção, mas que, infelizmente é um tanto comprometida pelo vício do diretor em repetir a exaustão em mostrar o pôr do sol na terrível ilha ( que faz parecer que a equipe passou meses no lugar ao invés de três dias) e o recorrente uso do recurso da Câmera lenta, proporcionando até cenas de humor, onde se esperava tensão, com destaque para o close em Jackson encarando o Kong e os soldados passando correndo pegando fogo e o personagem de Hiddleston cortando os mini pterodáctilos com uma espada.

Por do sol


Mas se você passou a semana toda forçando seu cérebro no serviço e quer só deitar no sofá e assistir monstros gigantes se digladiando, explosões arrasadoras, muitas mortes e uma fotografia linda com uma trilha sonora de respeito, nada tema, clique no play e se delicie com essa produção de cento e oitenta e cinco milhões de Dólares e dois salgados e um refri de roteiro e fique tranquilo, apesar de não honrar o nome de uma franquia de mais de oitenta anos, a produção não consegue ser pior (ou mais chato) que o tenebroso filme de Peter Jackson de 2005.

Pra fechar, achei bacana a decisão do roteiro em deixar Kong na ilha ao invés de leva-lo acorrentado para os EUA, até porque Kong estava na ilha desde antes da segunda guerra e Macaco velho não bota a mão em cumbuca (Pá-bum-tss), mas me entristeceu saber que esse filme terá uma sequência em 2019, onde o rei dos Kong enfrentará ninguém mais, ninguém menos que Godzilla e que eu terei de ir ao cinema pois meu filho é o fã mirim numero um do monstro japonês....pois que comece a preparação para o roteiro de Dan Gilroy, Derek Conoly e Max Borenstein e que Deus nos ajude!