Triste demais o assassinato do policial em frente as câmeras no Rio de Janeiro!
O discurso da filha dele no enterro, então me deu um nó na garganta.
Fiquei com a imagem da ação e da covardia do bandido na cabeça e, vendo alguns post sobre o ocorrido na minha timeline, percebi que em poucos, citavam o nome completo da vítima ou mensão à sua família; o policial era apenas O policial, um número, mais um; assim como as mais duas crianças mortas na favela no sábado ou mais uma mulher vítima de feminicidio, no final de Novembro, naquele dia na faculdade de Valença-RJ, amanhã só o diabo sabe onde!
A polícia que mais morre no mundo é tão vítima da coletivização pela mídia e opinião pública quanto mulheres, negros, gays e pobres; somas em uma guerra sem fim com a tristeza de que muitos desses policiais morrem duas vezes, a primeira quando perdem a vida e a segunda quando tem seus sacrifícios usados para justificar ações violentas passadas e futuras.
O policial não era um número!
O nome do policial era Derinaldo Cardoso dos Santos, tinha 34 anos, faria 10 anos como PM em Janeiro de 2021 e deixou a esposa e dois filhos.
Derinaldo era uma pessoa, um indivíduo, que morreu como herói fazendo o que é certo no exercício do dever.
"Trabalhe enquanto eles dormem e viva enquanto eles sonham"
Vou contar para vocês, em 2002 eu trabalhava no turno das 22:30 até as 06:30 em loja de conveniências de um posto de combustíveis, fazia cursinho pré-vestibular das 07:45 ao meio dia e 2 vezes por semana tentava aprimorar o Windows e aprender sobre DOS e Linux em um cursinho na falecida Exatus informática, passei nessa rotina por um ano e o resultado foi um fracasso!!
dormindo menos de 6 horas por dia meu raciocinio era mais lento, meu humor horrível, minha vida social foi a zero, Engordei 20 kg e ao final não passei no vestibular, nunca aprendi a mexer no Linux e nem lembro o que era o DOS. Foi um ano Tão perdido que se me perguntarem qual a melhor lembrança que tenho dele, eu digo que foi poder assistir todos os jogos da copa de 2002 e ainda ser pago pra isso( e se revejo os lances dessa copa, ainda me surpreendo porque meu cérebro quase não gravou nada) , ou seja, eu não vivi e nem sonhei em 2002 então, o que posso te dizer sobre essa experiência é : VIVA O HOJE! Nosso tempo é muito precioso e limitado para que seja todo investido em "produtividade" !
Teu maior patrimônio é o tempo que tens para sorrir despreocupado.
A frase mais repetida que eu ouço, quando
falo de uma série, é: “tem na Netflix?”. Eu entendo esse questionamento, o
serviço de streaming mais popular do planeta se transformou em sinônimo de
relevância no que se trata de entretenimento e sendo assim, se tem lá, é porque
é bom! Só que, existe muita coisa bacana sendo feita fora dessa bolha e que
quase ninguém dá a devida atenção, mas que precisam conhecer.
Um bom exemplo é uma série de ficção
científica que teve sua primeira temporada apresentada em 2018 pelo Youtube
Premium, mas que por aqui pouco se falou. Trata-se de “IMPULSE”, produção
baseada no livro homônimo de Steven Gould (que também inspirou o filme “Jumper”
de 2008) e que conta a história de Enrietta “Henry” Coles, uma adolescente
problema que após sofrer abuso, descobre que pode se tele transportar.
Comecei a assistir a série por pura
curiosidade, mas ela acabou me tele transportando (pá-bum-tss) para dentro do
mundo que os criadores entregam, conseguindo com sua história me fazer resistir
de fugir de uma produção de dez episódios de 50 minutos em pleno calor de
janeiro. No meio dessa batalha entre calor e curiosidade, posso dizer que oque
mais gostei da produção é que ela coloca o “poder” da protagonista em segundo
plano, ele é importante e sua descoberta dá movimento a toda trama, mas a
história não fica batendo nessa questão a todo tempo, substituindo os clichês
habituais de histórias de superpoderes por uma trama apoiada nas escolhas dos
personagens e suas capacidades de lidar com as mesmas.
A Opção por deixar o fantástico meio que de
lado, proporciona o aprofundamento dos personagens centrais, dando dramaticidade
á uma série que tem uma premissa aparentemente rasa. A situação que dá origem a
tudo é o abuso sexual sofrido pela protagonista e que, além de despertar seus
poderes, causa a paraplegia de seu agressor. Tal situação além de liga-los
profundamente durante toda a temporada, abordando sobre o limite do que é
abuso, a consciência dos atos de cada um e a responsabilidade sobre o que se
fala, ainda gera sub tramas bem interessantes envolvendo a família do agressor,
da protagonista e até da polícia local, sem falar de uma misteriosa organização
que se mantem quase que totalmente nas sombras até o final da temporada, mas
que sinaliza ser tanto uma resposta sobre o passado, quanto a grande ameaça no
futuro da protagonista.
Outra
coisa que gostei é que a série consegue dar tridimensionalidade aos
coadjuvantes, fazendo com que entendamos suas razões e dúvidas e que nos importemos
com eles. Dois exemplos são o irmão mais velho do agressor de Henry e a filha
do padrasto da protagonista, que apresentam um desenvolvimento paralelo muito
bem construído e que acabam a temporada totalmente diferentes de como
começaram, o primeiro passando de um quase capanga do próprio pai e de postura
violenta, para alguém que busca redenção pelos crimes e erros que cometeu para
orgulhar o pai que o vem subestimando; enquanto a segunda larga a ideia de
buscar a aprovação dos colegas de escola e, além de se tornar a verdadeira
heroína da série, defendendo sua família, se encontra como pessoa com a pitada de
rebeldia que a irmã postiça lhe transmite.
Mas a série tem algumas
questões que me incomodaram. A Maior é que ela começa apresentando um
personagem, que possui o mesmo dom da protagonista, e que dá pistas dessa
organização secreta que citei acima e da existência de outros como eles, mas a
história parece utiliza-lo só para mostrar como essa organização é maligna e
desiste dele o retirado da trama de maneira abrupta e chocante, com uma
explicação fraca e sem cita-lo mais tarde. Outro problema é a própria protagonista
que é extremamente grosseira e indiferente com os outros, jogando a culpa de
tudo nas pessoas que a rodeiam e que parece não se preocupar com ninguém além
de si mesma, seu crescimento como personagem oscila muito e a temporada termina
sem realmente sabermos se ela aprendeu alguma coisa com tudo que aconteceu e,
falo com tranquilidade, que se não fossem as tramas paralelas e os coadjuvantes
bem construídos e a serie fosse totalmente focada em Henry Coles, não seria
possível passar do quinto episódio.
Mas embora possua alguns furos, “IMPULSE” é
uma boa série. Consegue trabalhar razoavelmente bem a questão do abuso sem
perder seu propósito de ficção científica, ainda trabalhando em paralelo com
investigação policial e descobertas adolescentes, quase como um bolo onde se
misturam muitos ingredientes e no final fica saboroso. A produção é muito bem
feita, os diálogos são bem explorados e muitos deles cheios de tensão e, o
clima e a ambientação gelada da série ainda colaboram para a ideia de solidão e
desolação que a protagonista sente ao seu redor depois que, além de sofrer
abuso, descobrir que não é uma pessoa como as outras.
Então aproveite a minha dica e assista “IMPULSE”
e se surpreenda com uma das diversas produções que NÃO estão no maior streaming
do mundo, mas que mesmo assim, possuem grande qualidades e merecem ser notadas.
Os vilões sempre vencem! Essa frase, que
se lê como easter egg em alguns episódios da primeira temporada da série
“Mr.Robot”, foi a primeira coisa que passou na minha cabeça ao terminar um dos
melhores romances policiais que já li até os dias de hoje, isso depois de
desfazer o nó de minha garganta e contemplar o horizonte por alguns longos
minutos.
Estou falando do livro “ZULU” do escritor
francês Caryl Férey, publicado no Brasil pela editora Vestígio, que tive a
sorte de encontrar por acidente em uma prateleira de supermercado enquanto
esperava entediado para ser atendido pelo caixa e que me apresentou uma trama
tensa e pesada, com personagens carismáticos e tridimensionais, ambientada em
uma país dividido por feridas do passado e a dura realidade desigual do
presente que me prendeu com a garganta seca e o coração acelerado até a última
linha.
A História, que é ambientada na tumultuada
África do Sul pré-copa 2010, acompanha a equipe liderada pelo chefe da polícia
criminal de Cape Town, de origem zulu, Ali Neuman, que é composta pelo jovem
detetive Dan Fletcher e o complicado Tenente Brian Epkeen. A Rotina dos três,
já conturbada devido a incessante violência, se complica quando a filha de um
renomado jogador de rugby é encontrada morta com aterradores sinais de
violência e traços de uma nova droga em seu organismo, a partir daí os três embarcam
em uma odisseia que vai revelando uma conspiração tão assustadora quanto crível
e que, conforme vai empilhando corpos enquanto nos conta uma história tão
profunda quanto forte, entrega um olhar perturbador de um país que, tal como o
nosso, é marcado pelas desigualdades e contradições.
A primeira coisa que chamou minha atenção no
livro foi a forma primorosa como o autor consegue nos colocar dentro do
ambiente e das situações que vão se seguindo. Através de uma escrita ágil, mas
extremamente detalhista, Caryl Féry nos leva a uma África do sul sem maquiagem,
com as cicatrizes do apartheid à mostra e com todos seus problemas sociais
expostos, no meio de um caos que a história só faz crescer enquanto ao mesmo
tempo consegue abordar o que à de pior e de melhor nos seres humanos, em um
estilo que fica bem centralizado entre um George R.R. Martin e a profundidade
cinza de seus heróis / vilões e o charme e brutalidade dos detetives dos livros
de James Ellroy.
Esses
mesmos personagens que, para mim, quando bem escritos são o segredo da
qualidade de qualquer grande obra literária ou cinematográfica, são a segunda
coisa que me fisgou no livro. E a maneira como o autor dá um mínimo de
profundidade a todos eles, os apresentando em pequenos capítulos que dão uma
ideia geral de sua personalidade e seus motivos, quando não contando mesmo suas
biografias e o que aconteceu para que eles tivessem chegado até aquele momento
da história, facilita essa percepção de relevância de cada um deles. É assim
que conhecemos o terrível passado de Ali Neuman, sobrevivente dos últimos dias
de Apartheid e que presenciou o assassinato do próprio pai e do irmão mais
velho; Do mesmo modo descobrimos sobre as origens africânderes do rebelde
Tenente Epkeen, de seu desprezo pelo sistema e relação conturbada com o filho e
a ex-mulher, essa mesma tendo um grande destaque na última parte do livro; Ou
ainda nos emocionamos com a relação do policial Dan Fletcher com sua esposa com
câncer e o medo de deixar seus filhos desamparados; tudo isso em meio a outras
tantas histórias e personagens que compõem a trama. Férey descreve tão bem
esses personagens que mesmo antes de terminar a primeira parte do livro já
fomos pegos nessa armadilha que acabamos nos sentindo tão íntimos deles que
sentimos seus medos, nos entristecemos com suas frustrações e tememos por suas
seguranças a qualquer sinal de ameaça.
O Autor
E Ameaças é o que não faltam em um país que,
assim como o Brasil de 2018, parece uma bomba prestes a explodir. São gangues
de ex-milicianos oriundo do coração da África, traficantes que se escondem em
seus bares particulares e nas favelas, a AIDS, a falta de perspectiva, mas é no
grande mercado (sem spoiler) que reside o grande antagonista à equipe de Ali e
que, assim como em muitas situações da vida, ao final do livro, deixa aquele
gosto amargo em nossa boca quando percebemos que, mesmo presos ou mortos os
assassinos e envolvidos, o mal que gerou todas aquelas situações e precisou de
tantos sacrifícios para ser freado, jamais será levado à justiça, nos deixando
apenas o consolo da vingança contra seus agentes mais próximos e tristeza por
quem buscou justiça e caiu em batalha.
Mas mesmo terminando com um soco no
estômago, a ponto de colocar um nó na minha garganta e um amargo na boca por todos
os sacrifícios feitos pelos personagens (em especial ao final da primeira parte
e do último capítulo), a leitura de “Zulu” me proporcionou uma grande prazer.
Por seus personagens humanos e realistas, a Trama investigativa extremamente
inteligente e clima de reflexão social pertinente e assustadora (e que, em
alguns aspectos, lembra muito nosso país) indico a todos que desejarem uma
história cheia de reviravoltas e que estejam dispostos a ir até aos
esconderijos mais sombrios e sujos da mente humana, mas sempre com a verdade em
mente de que os vilões sempre vencem.
Somos prisioneiros de
ciclos. Acreditamos que o tempo simplesmente se desloca em linha reta do
passado para o futuro e que o presente é uma constante novidade, mas na verdade
seguimos vivendo ciclos que se repetem e se repetem sem que muitas vezes nem percebamos.
Então um dia você acorda com quarenta e
poucos anos e as coisas ainda estão iguais a como eram quando tinha vinte, se
frustrando em empregos que eram para ser temporários, cometendo os mesmos erros
na vida amorosa, enfim, patinando em todas as áreas da vida por não conseguir
quebrar essa prisão temporal que acreditamos se tratar apenas de rotina. Mas,
se no meio desse caos você percebesse que a repetição ou não dependesse de uma
atitude perigosa contra todas as ações que você insiste em aceitar, você
estaria disposto a correr os riscos?
Pois disfarçado de filme de golpe, com todos
os ares de blaxploitation, e abordando sobre o que a quebra ou aceitação dos
ciclos da vida podem definir na vida das pessoas, estreava no Brasil em 1998, “Jackie
Brown”, filme roteirizado e dirigido por Quentin Tarantino, estrelado pela
estrela dos filmes negros dos anos 1970 Pam Grier e baseado no livro “Rum
Punch” do escritor Elmore Leonard, que depois de vinte anos parece se firmar,
para mim, como o melhor filme do diretor e conversar com momento de encruzilhada
da minha própria vida.
Para quem não conhece o filme, a história
conta as desventuras de Jackie Brown (Grier) uma comissária de bordo de uma
pequena companhia aérea Mexicana que, para conseguir ganhar alguma grana a
mais, contrabandeia dinheiro para o traficante de armas Ornell Robbie (Samuel
L. Jackson), No entanto, após ser descoberta e presa pelo agente da ATF Ray
Nicollete (Michael Keaton), Jakye, começa a temer mais pelo seu futuro sem perspectiva
do pelo risco de seu contratante a achar uma dedo-duro e concebe um perigoso plano
para se livrar de Ornell, das acusações e alcançar certa estabilidade
financeira, virando em 180° a vida que parecia ser seu destino.
Como eu disse acima, não percebemos que
estamos presos a ciclos até que uma situação externa bata com força em nossa
cara. Foi exatamente isso que aconteceu comigo, quando em uma tarde de domingo
chuvosa resolvi reassisti ao terceiro filme de Tarantino e sentir como se
alguém gritasse dentro da minha cabeça se eu estava entendendo a mensagem.
Todos os personagens centrais da história estão às portas de repetir seus
ciclos de vida ou quebra-los e a atitude que tomam frente a isso é o que define
seus destinos.
Gara
Começamos com a protagonista, Jackie Brown,
que durante a trama confessa que já foi presa anos antes também por contrabando
e que depois de um tempo na cadeia, amargou anos de condicional, o que parece
tê-la quebrado, fazendo-a se resignar com o pouco que conseguiu depois. Ela
mesma confessa ao agente de fiança Max (Robert Forster) que parece estar sempre
recomeçando e que se encontra cansada disso. Sua quebra de ciclo ocorre quando,
após se ver pressionada pelo flagrante do agente da ATF, resolve ir de encontro
as suas antigas decisões e tomar o protagonismo de sua própria vida, utilizando
de sua esperteza e charme para se impor ao que parecia ser seu destino, o que
resulta em sua libertação e o alcance do que esperava para si.
O contrário ocorre para o restante dos
personagens da trama; que por receio, medo ou costume sofrem as consequências
de se manter presos à suas jornadas. Dois casos distintos são claros dentro da
história, o do ex-presidiário Louis Gara (Robert De Niro) e o Agente de Fiança
Max Cherry (Robert Forster).
Louis Gara não consegue fugir de si mesmo,
como se a prisão da qual foi liberto ainda o acompanhasse. A primeira coisa que
vemos do personagem no filme é ele retornando ao mundo do crime sob a proteção
de seu amigo Ornell e embora sempre transpareça confusão e por vezes apatia em
relação aos assuntos do parceiro, não move um musculo para mudar sua
perspectiva, o que com sua participação ao final da trama se pode encarar como
medo, um medo tão grande que se transforma em violência e inconsequência, selando
seu destino de forma definitiva.
Jakie & Max
Por outro lado, Max Cherry está
completamente fundido a sua rotina. Agente de fianças há mais de vinte anos,
sem família e, aparentemente sem amigos, sua rotina é sua vida. Mas ele tem um
vislumbre de que as coisas podem ser diferentes ao conhecer Jackie e se
apaixonar pela mesma, tanto que após criar certa intimidade com a protagonista
confessa a ela que irá se aposentar, pois não vê mais sentido nas repetições em
sua vida profissional. Entretanto, a insegurança em sair de uma longa rotina o
impede de seguir seu desejo e o que vemos dele ao final, quando vê Jackie
partindo, é o semblante de quem levará consigo para sempre a dúvida do que
poderia ter sido e nunca foi.
O que difere Jackie Brown dos demais personagens
do filme é ter entendido que só se pode seguir em frente quando destruímos o
caminho antigo e criamos um novo; Gara, Cherry, Ornell e os outros personagens
parecem não compreender esse fato e fecham o filme ou ruminando os mesmos
problemas ou simplesmente mortos, enquanto Jackie termina a história
protagonista tanto da trama quanto de sua própria vida.
Me identifiquei no ato ao reassistir “Jackie
Brown”. Com trinta e sete anos, doze destes no mesmo emprego, relacionamento
cheio de idas e vindas e ainda pensando o que querer da vida me fez pensar em
como acabamos tranquilamente aprisionados nos ciclos que criamos para nós e
isso me fez voltar a escrever, o que é um pequeno passo, mas já me tirou da
inércia. Meu convite é para que todos revisitem o terceiro filme de Tarantino
sob este ponto de vista de recomeços e fugas dentro das vidas dos personagens,
mas isso não interessar, assista assim mesmo, focado no charme de Pam Grier, na
trama cheia de reviravoltas ou nos diálogos extremamente humanos, quebrando
pelo menos o ciclo da mesmice dos blockbusters atuais.
Fiquei
empolgado com o filme brazuca “As boas maneiras” e seu ponto de vista original
da maldição do lobisomem. Tanto que queria transformar o mês de junho no mês da
licantropia aqui no blogger e para isso resolvi assistir aos filmes que
abordassem a mesma temática e que marcaram minha juventude. No entanto,
revisitar o cinema dos anos oitenta pode ser tão perigoso quanto sair para
passear pelos bosques do Maine em noite de lua cheia, principalmente se o primeiro
filme a ser revisitado for baseado em um livro de Stephen King e roteirizado
pelo mesmo.
linda capa do VHS
Sim!
Hoje falaremos sobre um clássico do extinto “Cinema em casa” do SBT, “Bala de
prata” de 1985, baseado no livro “A hora do lobisomem” do Rei do terror e “estrelado”
pelo eterno, mas já falecido, ator mirim Corey Haim; que, após ser reassitido
substituiu em mim todo terror de quando eu tinha doze anos por momentos de
humor e até de certa vergonha alheia, mas sem com isso destruir a gostosa sensação
de nostalgia.
O
filme acompanha Marty Coslaw (Haim), um menino paraplégico de doze anos, que
junto com sua irmã Jane (Megan Follows), após perderem um amigo, a descobrem
que a série de assassinatos que vem acontecendo na cidade onde moram, a pequena
e pacata cidade de Tarker’s Mill no Maine, é obra de um lobisomem. Os irmãos
agora terão de encontrar um adulto que acredite neles e buscar descobrir quem é
a pessoa que carrega a maldição.
Lembro
quando assisti “Bala de prata” pela primeira vez! Eu devia ter um pouco menos
que idade do protagonista e mesmo o filme passando às duas horas da tarde, não
nego que a ideia da trama trazer um guri paraplégico fugindo de um lobisomem em
uma cadeira de rodas motorizada no meio dos bosques de uma cidade no interior
do interior dos EUA, me assustou bastante. No entanto, rever esse filme mais de
vinte cinco anos depois, impressiona como muitos dos filmes oitentistas,
diferente de alguns clássicos, mas muito parecidos comigo envelheceram mal,
embora continuem divertidos.
O
lado divertido do filme é a já mencionada nostalgia no melhor estilo “Stranger
Things”, que faz quem tem mais de trinta anos, olhar com carinho todas as
extravagâncias da história e relembrar um tempo mais ingênuo e sem o bombardeio
de informações que sofremos hoje, onde ainda era possível soltar pipa na rua
até de madrugada, ou sair à noite para detonar fogos de artificio ou coisas que
o valham. Sem contar que o filme tem uma vantagem sobre as produções
modernosas, que é o simples fato de que, diferente da série do streaming mais
famoso de todos os tempos, toda aquela breguisse não é emulada, mas real! O
filme desenhava um retrato do momento onde foi produzido, o que serve para os
jovens matar a curiosidade de como era um mundo sem internet, TV a cabo,
celulares e videogames.
De zero a cem em 5.8 segundos!
Mas
o que me fez assistir a esse “clássico” até o fim com um sorriso no rosto foi
seu lado ruim, que é o roteiro.Se há
uma coisa que eu adoro, são filmes “ruins bons”, aqueles filmes que são
produzidos de maneira séria, mas que devido aos cacoetes de seus diretores ou
deslize de seus roteiristas agregam certos absurdos que o destacam em meio a
tantas outras obras. “Bala de prata” não é diferente, além de trazer todos os
estereótipos de filmes de adolescente dos anos oitenta, como o protagonista
sendo visto como diferentão (nesse caso deficiente), a irmã que quer ser
popular, O tio perdedor e bêbado que é o único que acredita nas crianças e os
pais ausentes, nenhuma situação ocorrida no filme parece ter um porque e o
questionamento que isso gera rendem bons momentos.
Exemplos
dessas situações, que são o tempero da trama, estão todas ligadas ao próprio
Lobisomem, em especial a sua aparição na cidade. (SPOILER À FRENTE) O Lobisomem
é o reverendo da cidade (pronto falei) e após algumas mortes em seu currículo,
o vemos tendo um pesadelo onde todos de sua paróquia (que toda noite se reúnem
para cantar “Amazing grace” ) se transformam em lobisomens e partem para cima
dele e ele acorda pedindo a Deus para que a maldição acabe, o que nos induz a
pensar que a maldição é , de alguma forma, divina; eu mesmo cheguei a achar que
a transformação tinha algo a ver com os pecados de alguns habitantes, pois a
primeira vítima é um alcoólatra que batia na mulher e a segunda uma suicida,
mas todas as teorias caem por terra, após a irmã do protagonista expor a ideia
de que talvez nem o próprio reverendo saiba o porquê das transformações, o que
confirma com o mesmo, logo depois, tomando para si a postura de vilão e
deixando qualquer resposta apenas na especulação.
"alguém sabe onde encontro um Chapel XXXL?"
Outra
coisa maluca que se soma as excentricidades do roteiro é a decisão genial do
casal de irmão de chantagear o reverendo/lobisomem via cartas com letras
recortadas de revistas, pedindo educadamente para que ele se retirasse da
cidade, o que não dá muito certo. Mas esse “deslize” dos irmãos é pinto perto
da ideia fantástica de um grupo de cidadãos indignados que decide caçar o
“maníaco do bosque” à noite no meio da floresta, portando espingardas e bastões
de baseball e a cena que se segue com o lobisomem batendo em um deles com um
bastão até a morte (Sim! O lobisomem mata um cara com um bastão de baseball!),
fato que gerou a capa do VHS do filme com uma mão peluda e com garras segurando
um bastão para duas crianças amedrontadas. E nem vou comentar sobre a piadinha
do protagonista ao final sobre sua própria deficiência. Isso, meus amigos, são
os anos oitenta!
Apesar
das loucuras, ou melhor, graças a mesmas, adorei ter revisitado “Bala de
prata”, fez lembrar um tempo mais leve da minha vida, onde os monstros eram
pessoas com uma roupa de pelúcia e uma cabeça enorme de lobo, quando não um
cara grande com um facão e uma máscara de hóquei e não frustrações que se
acumulam e boletos que se empilham. Um clássico do cinema em casa capaz de
trazer a nostalgia com força e arrancar gargalhadas de doer a barriga, mas não
sem conseguir dar os sustos que promete.
Então,
se tiver mais de trinta e cinco anos e quiser assistir a algo que lembre a
infância, procure por “Bala de prata” e deixe sua mente passear livre pelos
anos oitenta por noventa minutos e aproveite o mês do Lobisomem.
Em junho de
2016, Após assistir o ótimo filme argentino "Relatos selvagens", eu
questionava o porquê o Brasil não produzia cinema no mesmo nível de nossos
vizinhos Hermanos, que conseguem entregar bons filmes com temas variados, sem
se prender aos problemas existenciais de sua classe média ou a violência que a
pobreza enfrenta; a opção que encontrei na época passava pelas produções
autorais e de menor orçamento, como por exemplo, os curtas de terror de Dennison Ramalho, mas o pouco alcance desse tipo de produção veio depois a me
parecer um caminho estreito demais para fomentar investimento e qualidade em
nossa indústria cinematográfica, que necessitava de algo maior para se tornar visível.
Dois anos depois, a semente desse cinema de nicho que
eu havia enxergado como opção parece ter começado a germinar com a estreia de
um filme que foge do que é comumente feito no Brasil ao misturar elementos de
terror sobrenatural e crítica social, além de inovar em sua narrativa e
plasticidade. Trata-se de "As boas maneiras", filmede Juliana Rojas e Marco Dutra, estrelado por
Marjorie Estiano, Izabel Zuaa e Miguel Lobo, que estreou dia sete de Junho,podendo ser aquele algo a mais que trará um novo
frescor a industria cinematográfica BR.
O filme, que se divide em duas partes, acompanha a
história de Clara (Izabel Zuaa) uma melancólica enfermeira, que é contratada
para "ajudar" na casa e ser a babá do filho ainda não nascido de Ana
(Marjorie Estiano) e que , conforme a relação das duas vai se estreitando,
começa a notar o estranho comportamento de sua empregadora em noites de lua
cheia e procurar por respostas. Já na segunda parte, encontramos Clara, quase
dez anos depois, muito mais confiante e morando na periferia com seu filho
adotivo Joel ( Miguel Lobo) que guarda um segredo que o impossibilita de
aproveitar ao máximo sua vida e que põe tudo em risco quando descobre o que
Clara escondia de seu passado e parte para a cidade em noite de lua cheia.
Embora na minha sinopse a trama pareça dar toda
atenção a uma história clássica de lobisomem, o filme na verdade segue a
cartilha de toda boa história de ficção científica ou fantasia e usa esse
elemento fantástico muito mais como plano de fundo para expor de forma sutil os
problemas de nossa sociedade, do que aborda a lenda e maldição da licantropia.
Sendo assim, "As boas maneiras" é mais um drama que fala de amor,
sacrifício e tolerância, do que um filme de monstro pensado para dar sustos.
Clara e Ana
Podemos constatar o comentado acima apenas analisando
o próprio nome do filme, que faz alusão a uma conversa que Ana tem com Clara,
quando esta lhe serve sopa no jantar e que a remete a aulas de etiqueta que ela
fez quando era mais nova. Ana conta que era ensinada a tomar sopa sem fazer
barulho e andar com um livro na cabeça para treinar a postura (coisa que ela
não consegue quando tenta demonstrar, indicando sua falta de aptidão para fugir
de quem realmente é ) essa conversa, que pode passar despercebida, descreve
toda a dura relação dos personagens centrais com a sociedade que as rodeia e a
qual tentam se adaptar e manter com o máximo esforço a convenções, seja a
mulher negra, pobre e lésbica, que tem que se sujeitar a acumular tarefas em um
emprego para poder pagar suas contas, seja a mulher rica, que seguindo seus
desejos é renegada pela família e expulsa de sua casa por desonrar seu nome ou
a criança que, sem conseguir escapar de como nasceu, é trancada em um quarto
blindado em noites de lua cheia. Todos ali são párias, por não conseguir fingir
por completo suas naturezas, por não seguir as boas maneiras.
Podemos até mesmo traçar um paralelo entre o
aparentemente frágil Joel com a história de muitas crianças e jovens das
periferias. Criado na pobreza se sente abandonado e se vê impossibilitado de
participar das experiências que a vida lhe mostra devido à condição em que
nasceu. Como no caso de muitos desses jovens a revolta também é o escape de
Joel na busca por liberdade e o erro fruto da falta de conhecimento sobre si
mesmo, o que, aos olhos da sociedade, o apaga como pessoa e o enxerga apenas
como um monstro.
Eu era um lobisomem juvenil
Mas longe dessas interpretações subjetivas, o filme me
surpreendeu, além de pela história com pitadas de terror e o aprofundamento dos
personagens; pela sua estética e inovação na narrativa. A forma como o filme
mostra São Paulo dividida entre uma zona de arranha-céus espelhados e uma
periferia imensa e a transformação de menino para monstro quando ele atravessa
a ponte; as ruas escuras cheias de luminosos dão um ar de cinema coreano à película
e os efeitos especiais bem bacanas para nosso pobre cinema além de não
decepcionar prestam homenagem ao clássico “Um lobisomem americano em Londres”,
sem contar que no primeiro ato, temos a história de Ana sendo contada através
de desenhos e no ato final ainda vemos um trecho musical, nada descambando para
cafonice ou galhofa.
No entanto, como tudo na vida esse filme também tem
seus problemas, e, um dos que mais me incomodou foi a extensão da história. A
produção tem duas horas e dez, o que não é lá um grande tamanho, no entanto, se
tratando de uma história que foca em apenas três personagens, parece que há uma
barriga desnecessária na trama. Há também algumas falhas de roteiro que não me passaram
como o fato de ninguém vir atrás do menino Joel, quando este é levado por Clara
ou como ela construiu um quarto blindado no fundo da peça onde morava. Mas todos
esses pequenos problemas não apagam o mérito e o marco que o filme é por fugir
da mesmice.
Apesar de seus pequenos problemas, “As boas maneiras”
estreia trazendo novos ares para o cinema brasileiro e abrindo portas para temas
mais diversos e fantásticos produzidos em nossas terras tupiniquins, injetando
qualidade e quem sabe fazendo com que surjam investimentos suficientes para que
nossa indústria se torne rentável e assim independente do estado e, finalmente,
deixar de ser esse monstro assustador que só aborda as misérias da pobreza ou
cinebiografias e conseguir alcançar o mesmo nívele qualidade do cinema Argentino.