19 de Maio de 1845. O
Terror e o Erebus, dois dos navios mais bem equipados da marinha Britânica,
partiam da Europa em direção ao circulo polar ártico na intenção de descobrir a
tão sonhada “passagem do Noroeste”, uma rota navegável que ligaria o atlântico
norte ao oceano pacífico, facilitando a busca de especiaria e o comércio com o
Oriente. Tendo o experiente explorador Sir John Franklin, veterano de outras
três missões ao continente gelado, como comandante da expedição e como capitão
do HMS Terror, Francis Krozier, do HMS Erebus, James Fritzjames e possuindo uma
tripulação conjunta de cento e trinta homens, ambos os navios foram avistados
por barcos baleeiros na bahia de Baffin em Julho do mesmo ano, aguardando o
melhor clima para adentrar o labirinto gelado do mar do polo norte, depois
daquele dia ambos navios e seus tripulantes, nunca mais foram vistos.
Inspirado nessa assustadora e fascinante história
real, o escritor americano Dan Simmons publicava em 2007 o livro “O Terror”, misturando
as mais recentes descobertas sobre o possível trágico destino dos marinheiros
ingleses com uma assustadora trama sobrenatural que transita entre a misteriosa
mitologia Inuit e os limites da mente humana levada ao extremo em uma situação
desesperadora. O livro não passou despercebido e, com a produção de Ridley
Scott e contando no elenco com atores como Jared Harris, Tobias Menzies e
Ciarán Hinds chegou ao canal AMC este ano, sua a adaptação televisiva , trazendo
para TV um terror sutil e envolvente por sua estranheza, que apresenta uma
dezena de personagens e pontos de vista e que presta uma terrível homenagem a
um dos maiores mistérios do século XIX, em uma das melhores coisas que assisti
nesse primeiro semestre de 2018.
Jared Harris (esq) e o verdadeiro Krozier em foto de 1845 (dir)
A Série é protagonizada pelo capitão Franscis
Krozier (Jared Harris), que amargurado por uma rejeição amorosa, parte para o
ártico no comando do navio HMS Terror, sendo acompanhado de perto pelo navio
HMS Erebus, de onde Sir John Franklin (Ciarán Hinds), tio e tutor da mulher que
o desprezou, comanda a expedição mais ousada da marinha da rainha Vitória. No
entanto, a pouca sorte na vida íntima se apresentará como o menor dos problemas
do capitão Krozier, quando poucos meses após adentrar o ártico ambos os navios
acabam presos no gelo, dando aos marinheiros a paciência pela espera do degelo
como única alternativa, o que começa a se complicar quando uma equipe que
procurava sinais de descongelamento longe dos navios acaba baleando por engano
um misterioso xamã esquimó que atravessava o deserto de gelo junto com sua
filha. A partir desse dia, uma maldição parece subir a bordo, com os
marinheiros se vendo vítimas de envenenamento por chumbo, tendo seu estoque de
comida destruído e sendo caçados por uma estranha criatura sobrenatural, que
embora lembre um gigantesco urso polar, parece raciocinar e planejar dar cabo
da tripulação. Todas essas situações vão insuflar o caos, o amotinamento e a
total selvageria entre a tripulação, sobrando ao capitão Krozier e alguns de
seus aliados, a tarefa de buscar sobreviver em meio ao pesadelo gelado onde
ficarão presos por mais de três anos.
Que série fantástica! Fugindo do
convencional e transportando o expectador para uma trama que especula sobre um
mistério de mais de 170 anos temperado com doses certas de suspense e
sobrenatural, “O Terror” faz jus ao nome e apresenta uma história com momentos
que flutuam entre a construção de tensão de um Stephen King e a loucura que a
estranheza total, no melhor espirito Lovecraftiano, pode causar.
No tocante a construção da tensão e todo
estranhamento que a série possui, a direção e produção se destacam por escolhas
que parecem prender ainda mais quem assiste frente a TV. A vasta paisagem
branca e gelada, quase sempre contendo apenas o som do vento como complemento,
quando não uma música com notas destoantes que consegue transmitir ares de
solidão ao mesmo tempo em que se assemelha a um sonho, são tão essenciais na
série quanto suas dezenas de personagens que, com destaque no que vemos ou
apenas como pontas, nos indicam todas as facetas da situação.
Tobias Menzies (esq) e o verdadeiro FritzJames (dir) foto de 1845
Dentre esses personagens, vale a pena
destacar alguns que, junto com o Capitão Krozier, Capitão Fritzjames e Sir John
Franklin, marcam outros núcleos e encabeçam questões que vão movendo a trama. Dentre
os de maior destaque temos o tímido assistente de cirurgião Henry Goodsir (Paul
Ready), que em meio ao caos e barbárie que vai crescendo é uma das poucas
pessoas que tenta fazer os companheiros ouvir a voz da razão, assim como é quem
investiga as causas dos males de saúde que começam a aparecer entre os
exploradores, sem dizer que é ele que contando apenas de paciência e empatia,
vai buscar aprender a falar a língua dos esquimós para tentar encontrar
respostas da misteriosa Lady Silence, a filha do Xamã que é morto por acidente.
Essa, por sua vez nos conecta com a mitologia Inuit e o sobrenatural, nos entregando
lentamente que por trás daquela sequência de problemas que os tripulantes dos
navios vão enfrentando, há uma verdade que vai além da compreensão mundana.
Mundano, talvez seja a palavra que melhor
defina o vilão da trama. Cornelius Hickey (ou seja lá quem ele é realmente) não
parece não possuir escrúpulos para sobreviver e é capaz de queimar seus
próprios companheiros como combustível se isso significa sobreviver. Ele surge
discreto e, tal qual a trama, vai crescendo e ganhando força ao liderar o motim
que divide a tripulação e, seu cinismo e violência tomam tamanha proporção, que
ao final dos dez capítulos fica difícil de saber se o verdadeiro monstro a ser
temido é o Tuunbaq (a criatura que persegue os marinheiros) ou o próprio
marinheiro Hickey.
Ciarán Hinds (esqu) e Sir John Franklin (foto 1845)
Mas nem tudo é perfeito em “O Terror”. Por
resumir um livro de mais de 700 páginas em uma série de dez episódios, muito do
aprofundamento da relação dos personagens fica parecendo vago e parece que algo
nos escapou. Um exemplo é a estranha relação entre o médico Dr. McDonald com um
dos marinheiros do Erebus, que remete a um caso amoroso, mas que não fica bem
claro. Do mesmo modo que não fica claro o exato momento que, já sem alimentos e
tendo de abandonar os navios, o grupo que acompanha Cornelius Hickey aceita,
sem discutir de forma mais ampla, consumir a carne dos companheiros mortos, ou
a medida exata em que o Tuunbaq é racional e qual sua verdadeira relação com
lady Silence. Mas ao final, até essas pontas soltas ajudam a tornar mais densa
a sensação de mistério que a produção traz.
Presos no gelo
Mas apesar de seus problemas no
aproveitamento total dos personagens e suas relações, “O terror” foi uma das
melhores séries que assisti nesse inicio de ano. Sua produção é lindíssima e a
sua trama fascinante, principalmente ao lembrar que parte dessa história
terrível é real, com a descoberta de que problemas com a solda dos enlatados da
expedição permitiram que a comida estragasse antes do tempo e que, com base na necropsia
de três corpos da tripulação, encontrados enterrados na ilha canadense de
Beechey , houve realmente um envenenamento por chumbo, além de os marinheiros sofrerem
com o Escorbuto e a tuberculose; a tradição esquimó da região conta história de
luta entre tripulantes e atos de canibalismo sendo que apenas em 2016 (quase
dez anos depois do lançamento do livro) os restos dos navios foram encontrados
no mar canadense, encerrando um mistério de mais de cento e setenta anos, mas
não as circunstâncias e o que realmente aconteceu com a tripulação da expedição
de John Franklin.
Então se quiser algo diferente para
assistir, que transite entre o real e o sobre natural, com uma produção
caprichada e boas atuações, além de uma história que te prende; embarque no
Terror e também se perca na imensidão gelada do desespero humano. Garanto que
você não se arrependerá.
Em mil novecentos e noventa e nove, o
marcante Agente Smith proferia em “Matrix” uma frase que ecoaria anos a fio na
cultura pop, que “O ser humano é um vírus” que pula de região em região
devastando e consumindo todos os recursos até que não sobre nada, sendo a única
solução para que o sistema se equilibre a total extinção do vírus. Anos depois,
em 2008, quis o destino irônico que Keanu Reeves (O antagonista de Smith em
“Matrix”) interpretasse Klaatu em “O dia em que a terra parou” ,um Alienígena,
que se dizendo amigo da Terra, vem dar um fim à raça humana antes que ela acabe
com todas as outras formas de vida do planeta. Então, Eis que quase vinte anos
depois do Agente Smith e dez de Klaatu, outro vilão surge para ampliar as ideias
de seus predecessores em níveis galácticos ao afirmar que “há vida demais no
universo” e isso deve ser contido. Trata-se do ecoterrorista mais casca grossa
que já nasceu ou, Thanos, o Titan Louco, para os íntimos, que chegou aos
cinemas nesse último dia vinte e seis de Abril para bater de frente com os “Heróis
mais poderosos da terra” em um dos filmes mais esperados da década, trata-se de:
“Thanos, O filme”, digo: “Gente de mais para duas horas e meia”, ou
melhor, “Vingadores: Guerra Infinita”, filme dos irmãos Russo que (quase) fecha
a “Trilogia” Vingadores.
O Filme trás finalmente para as telonas, os
plano de Thanos de reunir as joias do infinito e colocar em prática sua ideia
de dar equilíbrio ao universo... aniquilando metade da vida existente nele! (É
isso), junto disso, dá sequência aos acontecimentos que envolveram os
vingadores (ou aos personagens que faziam parte desse grupo) após a “Era deUltron” e “guerra civil”, unindo em um único filme (quase) todos os
super-heróis do universo cinematográfico Marvel.
Pois então, saí de casa com a expectativa lá
em cima, havia assistido à “Pantera Negra” um mês atrás, fato que renovou
minha fé nos filmes baseados em quadrinhos, estava levando meu filho de quatro
anos pela primeira vez ao cinema e veria Thanos em ação de verdade depois de
quase seis anos. Mas ao final das quase três horas , salvo muitas cenas divertidas
de ação e do apelo visual que o filme tem, saí com a irônica sensação de que,
justamente na história onde o maior vilão da Marvel tem por objetivo encontrar
o equilíbrio para o universo, a história que me foi apresentada não estava
perfeitamente calibrada.
Quem sou eu para contestar os planos do
Thanos do filme! Eu trabalho com contabilidade, estoques e compras, e, já
fiquei parado na fila “expressa” do Supermercado esperando a caixa trocar o
rolo de papel da máquina registradora mais de uma vez, ou seja, também acredito
que se metade das pessoas não existisse, o universo entraria em equilíbrio, mas
eu não sou ninguém... Thanos, ao contrário de mim, é um alienígena com centena
de anos e uma das criaturas mais poderosas do Universo Marvel, que têm (ou
deveria ter) objetivos e questões que vão além da compreensão e sentimentos
humanos, então apresentar o cara como um ecoterrorista que se acredita
iluminado pela certeza de que o universo, com a quantidade de vida que possui,
irá ruir e para gerar o equilíbrio necessário precisa mandar 50% das formas de
vida para a terra dos pés juntos, mas mesmo assim tem espaço em seu
coraçãozinho para o amor, me parece uma ideia não tão bem executada de tornar o
vilão compreensível e carismático. Thanos, para funcionar, deveria parecer
caótico para nós e plenamente crível e competente para si e quem o conhece
melhor, uma mistura de inteligência indiferente, força destruidora mas controlada
e imponência, mas embora eu perceba isso, também não sei como faria isso em um
filme PG13, mas como já falei, eu sou um ninguém, não um estúdio bilionário.
O protagonista
Essa ideia de dar destaque ao vilão, para,
entre outras coisas, marca-lo na história do estúdio, assim como a concorrente
fez com o Coringa de “Batman: Cavaleiro das trevas” tirou o foco dos quase
trinta heróis que aparecem em cena, reduzindo quem dá nome ao filme a meros
coadjuvantes de luxo, com quase nenhum aprofundamento e isso me incomodou
bastante. Mas mesmo com essa predileção do roteiro pelo vilão, o filme está
longe de tropeçar e encontra espaço para que alguns dos personagens mais
queridos da gurizada brilhem quando se torna preciso, como o caso do
Homem-Aranha, que trás , assim como em “guerra civil”, aquele espirito moleque
para trama, o que além de empolgar com sua presença em cena, faz com que nos
preocupemos com qualquer coisa que possa vir a acontecer com o jovem Peter
Parker; Outro que se destaca também é Dr. Estranho, principalmente na épica
batalha em Titan, com o feiticeiro supremo, mostrando que desde seu filme solo
andou elevando seu nível para fazer jus a seu título e deixando em aberto um
possível plano para o próximo filme.
"Uma mistura de anjo com pirata"
Quanto a experiência que o longa me trouxe,
longe de mim dizer que o filme é ruim, pelo contrário, o fato é que só não
achei ele tão bom como outros que o estúdio já apresentou, como “Pantera Negra”
e “Capitão América: Soldado Invernal” , talvez porque nessa nova história a
Marvel pareça regredir novamente ao filme cheio de piadas e ação não expondo aquele
sentimento heroico que estes outros dois filmes expuseram tão bem, ou talvez
por se tratar de um filme para apresentar uma situação que será resolvida só
depois (no exato 03.05.2019) em Vingadores 4. No entanto, sua ação constante,
com cenas de batalhas épicas que se realizam no campo e na cidade, na Europa,
África e América, na Terra ou Titan, prendem a atenção de qualquer um que vai
ao cinema ver a pancada correr solta entre super-heróis x Alienígenas, sem
dizer que os efeitos especiais conseguiram hipnotizar meu filho e deixa-lo com
um sorrisinho no rosto, embora ele tenha cochilado um pouco quando o vilão
começou a falar e a falar.
Mas apesar de algumas escolhas de roteiro
que não me agradaram por completo, como a tentativa de mudar o status do vilão
para o de anti-herói, o pouco tempo para respirar e dar profundidade aos
personagens em meio a tanta ação e a Scarlett Johansson loira e não ruiva, o
filme entrega o que promete, principalmente quando o entendemos como uma ponte,
feita para nos levar até, ao que parece ser, um final marcante dessa geração de
dez anos de Universo compartilhado Marvel.No entanto, vale a lembrança dos filmes que citei no inicio do texto e
que tinham em comum além da ideia de que se livrar de uma quantidade de gente
pode ser um benefício ao mundo ou universo, o apelo ao carisma do vilão como
sustentação da história, o que acabou não funcionando em “O dia que a terra
parou”, que é uma refilmagem de um filme clássico de 1951 e que não acançou o
sucesso pretendido e as sequências de “Matrix”, que se perderam em si mesmas ao
dar o peso maior que o necessário ao antagonista. Obviamente Thanos e todo universo MARVEL estão anos luz em popularidade e qualidade que o pretensioso filme de Klaatu e comparando com "Matrix", todo o planejamento da franquia de 10 anos do estúdio Marvel deixa a história das Irmãs Wachowski no chinelo e certamente esse filme arrecadará uns dois bilhões de dólares, mas mesmo com toda empolgação e publicidade, sempre há o perigo de um tropeço justo na hora da cereja do bolo. Mas Fica agora a torcida para que
a sequência de “Guerra Infinita” corrija as pequeníssimas falhas da história de 2018
e dê o protagonismo a quem da nome ao filme, antes que o grande final de uma
história de dez anos, acabe virando pó.
O barulho do trânsito, gargalhadas na mesa
do lado, o telefone tocando, as pessoas falando alto, um copo se estilhaçando
no chão, o filho chamando a todo o momento, o cachorro latindo, a música alta
do vizinho. A vida é um turbilhão de sons tão altos e constantes que depois de
certa idade, o silêncio começa a se apresentar como uma das mais belas melodias
que se pode apreciar. Mas, e se a busca por essa ausência de som deixasse de
ser uma fuga opcional e se tornasse a regra básica para sobrevivência?
Pois o
silêncio é o tenso fio condutor da trama de “LUGAR SILENCIOSO”, filme estrelado
por Emilly Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe e John Krasinski (que também
roteiriza e dirige o longa) que estreou no último dia cinco de Abril aqui no
Brasil e que vem deixando os espectadores sem palavras.
Krasinski e Jupe (não fala!)
O filme, que se passa em 2020, mostra um
mundo devastado por misteriosas criaturas cegas e extremamente brutais, que
atacam qualquer coisa que emita um ruído mais alto que um sussurro. Nesse
mundo, encontramos uma família que, fugindo da cidade, parte para o campo para
tentar sobreviver da melhor forma possível sem emitir um único barulho; mas os
traumas de uma tragédia e a expectativa da chegada de mais um filho podem por
em risco essa frágil segurança e atrair para perto seus maiores medos.
O longa é uma grata surpresa em meio a
mesmice de filmes de super-heróis e blockbusters descerebrados, apresentando
uma trama original, concisa e extremamente tensa, que faz o expectador passar
todo filme preso na cadeira com medo até de fazer barulho ao engolir a saliva. Comer
aquela tradicional pipoca então, nem pensar!
A história é simples, mas bastante profunda
e lembra um conto curto no melhor estilo Stephen King ou H.P Lovecraft! Na verdade,
guardados os estilos e peculiaridades desses autores, a história de “Um lugar
silencioso” me parece uma acertada mistura de temas que esses dois autores
sempre exploraram em suas obras; com toda ambientação e apresentação do
cotidiano e os conflitos da família lembrando o que King mostra em algumas de
suas obras, como em “O nevoeiro” ou “O cemitério”, e, o recorrente contato com
o estranho e desconhecido, sempre presente nos contos de Lovecraft, que
paralisa e enlouquece qualquer um.
A trama lembra em parte, o filme “Sinais” do
diretor Shyamalan, pela locação situada em uma remota fazenda ou pela situação de
abandono em que os protagonistas se encontram e que não tem a origem revelada;
porém seu clima de tensão remete mais ao novo estilo de suspense, que me parece
ter em “Corra!”, de Jordan Peele, o maior expoente, devida à uma atmosfera opressora que não dá pausa, apenas oscila.
Essa semelhança com o sucesso de 2017 do
diretor Jordan Peele, ainda parece mais justificada quando traçamos um paralelo
entre os diretores, ambos conhecidos por suas carreiras em papéis em comédias
(Peele por “ Key & Peele” e Krasinski por “The Office”) e surpreendentes na
entrega de roteiros originais e marcantes, além de uma direção extremamente
competente.
Blunt & Simmonds (quietinha)
Ainda
falando de competência e surpresa, talvez essas sejam as palavras que definam o
elenco, que brilha de acordo com a intensidade que a história permite.
Começando pela a atuação do próprio John Krasinski, por ainda tê-lo na memória
como o debochado Jim Halpert de “The Office” e o vê-lo convincente como um
sério e preocupado pai que, em um mundo sem esperança, se propõe a fazer
qualquer coisa para manter sua família segura. Outra maravilhosa surpresa é a
atriz adolescente Millicent Simmonds, que é realmente surda, e que contando com
suas expressões e muito talento consegue transmitir todo medo e revolta por
viver em um mundo sem futuro e nele carregar uma culpa capaz de dilacerar
qualquer pessoa. Até mesmo jovem Noah
Jupe, que tem o papel menos profundo na trama, consegue passar verdade com o
pavor que mostra nos olhos ao se deparar com os monstros que cercam a fazenda e
fazer com que nos preocupemos com ele. Já Emilly Blunt, por sua vez, só me
surpreendeu, quando descobri que a química que ela apresentava na tela com
Krasinski se devia ao fato deles serem casados na vida real, de resto ela
repete a competência que a destacaram em filmes bacanas como “Sicário” e “No limite do Amanhã”.
Gostaria de falar muito mais do filme, mas sou
consciente que FALAR demais sobre essa obra, pode estragar a experiência. Só
posso dizer que “Um lugar silencioso” se tornou para mim um novo clássico de
maneira quase instantânea. Apresentando uma história que não debocha da
inteligência do espectador, mas que nem por isso é rasa ou pouco relevante.
Aposta na tensão constante, mas reserva momentos de pura emoção e sentimento,
agradando tanto pela química que mostra entre seus personagens, quanto pela
inovação com que a história é contada. Um conto de terror com traços dos
grandes mestres, mas que fala por si mesmo até quando ninguém em cena profere
um único som e que, de maneira sútil, nos faz sermos gratos pelos sons de vida
em nosso redor.
Tenho imensa dificuldade de escrever sobre
o que, a mim, se encontra muito acima da média. Por esse motivo, dentro dos
estilos que me atraem mais, nunca escrevi sobre o livro “1984” e os filmes
“Batman: Cavaleiro das trevas” e “Capitão América: Soldado invernal”. No
entanto, existe casos tão extraordinários que mesmo sabendo da minha
inabilidade em abordar os porquês de sua real relevância, é impossível não
registrar minha rasa opinião.
Uma dessas exceções é o filme de maior
sucesso do ano, que, além de levantar a autoestima de um público que se via
apenas como coadjuvante, vem colecionando recorde atrás de recorde e mostrando
que o tido como “exótico” ou fora do padrão, quando trabalhado com talento e
honestidade podem ser a receita do sucesso. Trata-se de “PANTERA NEGRA”, o
décimo sétimo filme da Marvel, Dirigido por Ryan Coogler e estrelado por
Chadwick Boseman, Lupita Nyong’o, Michael B. Jordan e grande elenco, que chegou
de forma sorrateira e mostrou suas garras ao mundo.
O filme dá sequência a história do príncipe
T’challa (Boseman), o Pantera negra, apresentado em “Capitão América: Guerra
Civil”, com o herói retornando à seu reino, a misteriosa e desenvolvida, embora
dissimulada como país de terceiro mundo, Wakanda; para enterrar seu pai, morto
durante a trama do terceiro filme do líder dos vingadores,dar inicio aos rituais de sua coroação etratar de assuntos de interesse do estado como a captura do inimigo número um do país, Ulysses
Klaue (Andy Serkis). É durante essas suas obrigações que T’challa se vê diante de um antagonista à sua altura e
uma verdade capaz de o fazer questionar os valores que fazem um rei.
O Filme consegue dar sequência aos já
habituais sucessos da Marvel, ao mesmo tempo em que inova ao apostar em uma
trama mais séria mirando em assuntos como a questão da crise dos refugiados,
racismo e representatividade, mas sem com isso perder nada em diversão e ainda,
de quebra, apresentando uma mitologia jamais antes mostrada com o valor
merecido, e que disse a quem quis ouvir, com o sucesso do filme, que deve
continuar sendo explorada.
Essa mitologia, que dá protagonismo as cores e ritmos da África, é em
grande parte o segredo do sucesso do filme. A cultura africana, que sempre foi,
de forma preconceituoso, tida como algo de segunda linha e de menor valor para
uma sociedade que sempre foi norteada por padrões europeus e que vem sendo
descoberta como rica e digna de orgulho pelas novas gerações, se une a ficção
científica e uma trama de espionagem para colocar na tela um filme onde o negro
é protagonista de sua própria história e capaz de a resolver sem o intermédio
de nenhum salvador externo seus problemas e os de quem os cerca.
Mas para uma trama que fuja tanto do padrão
habitual fazer o sucesso que o filme vem fazendo, ainda mais dentro do universo
dos super-heróis onde a representatividade ainda é mínima, é necessário um
elenco capaz de fazer com quem assista ao filme acreditar no que está vendo. E
isso é uma das maiores certezas do filme e o segundo motivo que levaram “Pantera
negra” a se tornar uma das dez maiores bilheterias de todos os tempos. Com
atores do nível de Chadwick Boseman , Lupita Nyong’o,Michael B. Jordan, Danai Gurira, Daniel
Kaluuya,Forest Whitaker entre outros,
representando personagens imponentes e orgulhosos, sem dizer que
tridimensionais e sem a mínima carga de submissão a uma sociedade que os
subestima, fica ainda muito mais fácil ao filme divertir, ao mesmo tempo que
passa uma mensagem sutil de amorpróprio
e orgulho das raízes, sem precisar diminuir caricaturar ninguém que é diferente.
Sabendo do segredo do sucesso do filme, que, como
já disse, a meu ver, são resultado da química entre a mitologia apresentada e o
elenco de talento, não posso deixar de falar também de outras três peças chaves
em “Pantera Negra”, que são o protagonista que se impõem sem precisar sabotar
os demais personagens, O vilão que consegue passar uma mensagem a ponto de ser
compreendido e a força das personagens femininas que sustentam a trama.
Sempre fico feliz quando a trama não mima o
protagonista, precisando diminuir os que o rodeiam para eleva-lo e, em “Pantera
Negra”, isso acontece abertamente. A história protagonizada por T’challa se
mantém forte, mesmo quando ele não se encontra em destaque, mas quando o mesmo
está em cena, consegue impor sua força a ponto de se tornar marcante, tanto
através dos conceitos e valores que formam o personagem, quanto pela imagem do
herói e daatuação bem a vontade que
Chadwick Boseman consegue transmitir.
Quanto ao vilão Erick Killmonger ,
interpretado por Michael B. Jordan (que mesmo com tudo que faz, o vejo mais
como antagonista), O fato de começar em um papel secundário dentro dos próprios
opositores do protagonista na tramae ir
crescendo a ponto de se tornar um oponente à altura do herói e com motivos
críveis, como a vingança pelo pai e a revolta por ver seus iguais abandonados
por Wakanda, quase fazem que esqueçamos seu extremismo e violência, só
relembrando nas cenas finais do filme, mas que são abafados, ao término da história,
por uma das frases que o filme deixou marcada, colocando Killmonger como um dos
antagonistas memoráveis do cinema atual.
"Jogue-me no oceano com meus antepassados que pularam dos navios, porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão." Killmonger
Em terceiro, mas não menos importante, temos
a força feminina presente na trama. E que força! Não é preciso muita atenção
para ver que as mulheres dão o movimento ao filme. Seja com a inteligência de
Shuri, a irmã caçula do agora Rei T’challa, que cria diversos dispositivos de
espionagem ao herói, além de ser o personagem responsável pelo bom humor e uma
pitada de inocência na trama, colocando alguns sorrisos e nósna garganta de quem assiste ao filme. Do
mesmo modo temos Nakia (Lupita Nyong’o) que embora interesse romântico do
herói, não se limita ao papel de donzela apaixonada e além de colocar a mão na
massa, trabalhando como espiã e guerreira, ainda trás para o herói,
questionamentos quanto ao posicionamento do país frente aos problemas do mundo
e tomando para si a responsabilidade de defender o reino, quando Killmonger
surge e T’challa some. Também não podemos deixar de falar das Dora Milage, A
guarda pessoal do rei de Wakanda, composta só por mulheres, que tem na general Okoye
(Danai Gurira) seu principal nome; é ela que tem grandes cenas de ação, como no
Cassino clandestino e na perseguição de carros pelas ruas de Seul, mas que
também empresta força dramática ao demonstrar, após metade do filme, o peso da
dedicação total ao estado que o cargo exige e que simboliza o sacrifício de
algumas escolhas exigem, situação quefala ainda mais alto observando sua condição feminina e os desafios e
obstáculos que nosso mundo impõem às mulheres fortes.
Nakia & Shuri
“Pantera Negra” é um sucesso de público e
critica. Surpreendeu o mundo ultrapassando a marca de um bilhão de dólares
arrecadados ao redor do globo e reafirmou o orgulho de um publico acostumado a
se ver no cinema como elenco de apoio ou vilão, quase sempre marginalizado ou
precisando de ajuda. Tornou-se uma marca no cinema e símbolo de orgulho ao
mostrar para sociedade que filmes de pessoas negras, onde a eterna luta para se
destacar contra o preconceito não é o assunto principal, mas sim uma trama onde
o negro, visto como pessoa, seja dono de sua história com altivez e orgulho, dá
destaque ao estúdio e muito lucro, sem contar que gera a empatia em quem, antes
não acostumado a assistir um grande filme ambientado na África (mesmo um África
imaginária) agora enxerga com mais facilidade o negro em todas as facetas, seja
de vilão, herói, piadista, cientista, rei ou soldado mas principalmente longe
do estereótipo.
Por essas e outras acredito que “Pantera
Negra” já é o destaque do ano, mesmo que tenha estreado em Março e se causou
certo desconforto em algumas mentes mais reacionárias que não conseguem admitir
o empoderamento do negro devido a uma África fictícia, mas que vibram com sete
reinos mágicos e Asgards encantadas, a mim só trouxe felicidade por tudo que
expus no texto acima, me ajudando a desbloquear minha capacidade de escrever
sobre algo que, a mim, está acima da média dentre seus iguais e afirmando a
certeza de querer assisti a mais histórias de Wakanda e seu protetor nos
cinemas em breve.
Se não enxergarmos o que é tido
como diferente presente em todas as áreas da sociedade o encararemos como um
erro, onde apenas a bolha onde vivemos será percebida por nós como verdade
absoluta; por isso eu digo: Representatividade é tudo!
Mas não é a simples presença física de
pessoas de diferentes cores, opções sexuais ou religião que garante o rompimento
da bolha onde nos incluímos, mas a possibilidade de se criar empatia a ponto de
nos reconhecermos nas pessoas de aparência e opções diferentes de nós mesmos e
nisso, a cultura como um todo tem um papel essencial, mas em especial o cinema
e a literatura em suas facetas tidas como pop. Tudo isso talvez seja uma verdade quase intuitiva, mas que ficou
mais clara para mim, quando me deparei com uma obra de sci-fi clássica, que
utilizando de clichês de ficção científica e fantasia, me entregou uma mensagem
poderosa sobre os males que o preconceito cristalizou em nossa sociedade, em
uma trama fruto da mente de uma pessoa que viveu muitos desses males.
Pois hoje falarei (muito por cima) dessa
obra, ou melhor, desse livro que se enquadra perfeitamente no seleto grupo dos
“rompedores de bolha” e que me conquistou desde seu prólogo. Trata-se de “Kindred
- Laços de Sangue”, um clássico da escritora afro-americana Octavia E. Bluter,
que depois de quase quarenta anos de seu lançamento original, finalmente chega
o Brasil pela editora Morro branco, me prendendo em suas páginas não só pela
sua mensagem dura mas necessária, quanto por sua escrita refinada e ágil.
O livro conta a história de Dana, uma
escritora, que após se mudar com o marido Kevin (também escritor), para a casa
nova, se vê vítima de um misterioso fenômeno de viagem temporal, retornando
para a Baltimore escravagista pré-guerra civil americana, uma época nada fácil
para uma mulher negra como ela (principalmente uma que possua educação e
espírito). Conforme o fenômeno vai se repetindo Dana descobre que o mesmo é fruto
de uma misteriosa ligação com um antepassado, seu tataravô Rufus Weylin, filho
de um proprietário de escravos, que quando sente sua vida ameaçada a invoca
para que essa o ajude. Além do estranhamento da situação, Dana viverá o dilema
de ter que defender seu antepassado, que é fruto da época de abusos onde
nasceu, para que ela mesma tenha seu nascimento assegurado, enquanto é obrigada
a testemunhar a abertura da feriada que a escravidão causou e que o preconceito
e a ignorância não deixaram cicatrizar até os nossos dias.
Esse livro me causou inúmeras sensações, a
maior foi a da descoberta de Octavia E. Bluter e todo seu talento. A autora,
não vulgarmente chamada de A grande dama da ficção científica, realmente me
impressionou com sua forma de escrever limpa e pé no chão (e em um livro de
sci-fi!), conseguindo transmitir não só toda a dor do período escravagista de
maneira sutil, como a própria aflição de seus personagens negros do século XIX,
que transitam no livro como não pessoas, posses de outros e fadados a passar o
resto de seus dias contendo seus sentimentos e indignações; mas também, nos
entregado na sub-trama, a cicatriz social que a escravidão deixou ao apresentar no tempo atual
(1976) uma mulher negracasada com um
homem branco (Dana e Kevin), que sofrem o desprezo de suas famílias devido a
esse casamento, ainda nada comum nos EUA dos anos mil novecentos e setenta,
indicando, sem precisar escrever nada que aprofunde a situação, a marca de um
racismo, mais velado do que explicito, que continua presente até os dias de hoje;
sem falar da maneira totalmente realista que a autora descreve o relacionamento
e rotina do casal, nos tornando cúmplice de seus segredos e testemunha de seus
sentimentos.
A leitura também me fez refletir quanto a
pouca quantidade de autores não-brancos e não-masculinos que eu posso dizer que
li e o que eu perdi com isso. Fora os clássicos como Machado de Assis ou
Alexandre Dumas e “Batle Royale” de Kouachum Takami, quase todos livros da
minha lista são de Europeus ou Euro-americanos e no que se trata de mulheres
não é muito diferente, mulheres negras então, não havia nenhuma. Octavia E.
Bluter veio para mudar isso ao se apresentar para mim, como um desses autores
que quando terminamos de ler uma de suas obras, sentimos vontade de ler todas,
nos induzindo à representatividade através do puro talento.
A história da autora e a consciência da
sociedade onde vivia e que lembra um pouco como enxergo a nossa, sem contar o
fato de, pela primeira vez, tive a oportunidade de ter contato com uma obra de
ficção científica escrita por uma pessoa da mesma etnia que eu, realmente me
tocou, pois como disse no início, representatividade é tudo! Mas esse fato
sobre “Kindred” que é importante para mim e para poucos, se encontra além do
livro, dentro dele há uma história de drama e aventura, desenvolvida de maneira
magistral que fala sobre como somos adestrados para aceitar os abusos e não
perceber muitos de nossos próprios privilégios. Isso acontece através da
relação de Dana e Rufus, a primeira uma mulher negra educada e culta do século
XX, se vendo exposta a todo tipo de violência do período da escravidão e que
vai se quebrando frente a esse novo mundo; o outro, uma figura do século XIX,
que, conforme Dana vai retornando no tempo e acompanhando seu crescimento, vai
se corrompendo e se mostrando cada vez mais consciente de seu papel.
Octavia E. Butler (1947-2006)
É por meio de Dana e Rufus, e suas
interações com as pessoas em sua volta e como estas relações vão mudando com o
tempo, que a autora nos demonstra a força que o mundo que nos rodeia tem sobre
nós. A relação com o poder é inversamente proporcional no que tange aos dois
personagens e, enquanto Dana vai se acostumando com as ordens, por mais que se
convença de que é para o bem de seus antepassados e seu próprio, se quebrando
no processo, ao ponto de terminar o livro transformada em outra pessoa; Rufus
vai se acostumando com sua posição de poder e privilégio e mudando de um menino
compreensivo e sensível, para um adulto egoísta, que não enxerga as pessoas
diferentes dele como outros seres humanos e se vê como superior. O Alvo desse
egoísmo e que acaba se tornando um dilema para o próprio Rufus é, Alice, uma
filha de escravos, que ele nutre uma paixão desde jovem e cuja relação se equilibra
entre sentimento verdadeiro e coisificação; Alice também acaba por sofrer
devido a influência de Dana, que sabendo que descende desta com Ruffus, ajuda o
mesmo a conseguir o que ele deseja, transcrevendo a amarga existência de um indivíduo
que é desumanizado sem chance de ser ouvido ou ter opção, restando o final nada
feliz para Alice e a Justiça (ou vingança) para Rufus.
A Autora ainda inclui, em uma das regressões
no tempo, a presença do marido da protagonista, que serve como “olhos brancos
bem intencionados”, que enxergam as barbaridades da época e se indigna, mas,
por não possuir a mesma ligação com a situação que a protagonista, acredita que
as coisas poderiam ser ainda pior. De forma genial, Kevin está lá para
representar os brancos que são despidos de preconceito (e ele faz isso se pondo
em risco muitas vezes), mas não possuem a mesma história de vida de quem sofreu
o preconceito na pele; algo tão comum como o próprio preconceito e que, no
livro, deixa profundas cicatrizes ao personagem quando este volta para seu
tempo natal.
Eu poderia falar durante páginas e mais páginas sobre “Kindred”, mas preferi não me aprofundar mais para não acabar com a experiência de ninguém, o que posso dizer é que este é um livro essencial para quem
é, além de fã de fantasia e ficção científica, amante da literatura. Uma obra
de escrita ágil, personagens fortes e marcantes, questões amplamente relevantes
e que ainda hoje são debatidas. Fruto de uma mente a frente de seu tempo, que
usando os conceitos Pop levou a todos um retrato da ferida que legitimou o
preconceito racial nos EUA (e no mundo), assim como, por meio de seus
personagens, mostra a facilidade de se quebrar frente ao poder, ou não enxergar
seus privilégios. Um livro que me fez sentir mais do que satisfeito, como me presenteou
com outro autor para ler toda obra; uma mulher que, depois de 424 páginas,
posso dizer que me representa na ficção científica e como bem se sabe,
representatividade é tudo!
Já
faz um tempinho que ando deixando de lado os filmes e séries de Super-heróis.
Para eu perder meu tempo com um filme desse estilo, ele tem que conversar muito
comigo e já que isso não vem ocorrendo , não fiz a mínima questão de assistir “Justiceiro”, passei
longe “Defensores” e “Punho de ferro”, corro da série do “Flash”, desligo a TV
quando passa “Arrow” e, só assisti “Thor: Ragnarok” depois que todo mundo
concordou que era uma comédia e “Liga da Justiça” para dar minha última chance
a DC/Warner. Mas virou e mexeu e um dos filmes que me empolgou quando anunciado
(mas que não tive paciência para ir conferir no cinema) surgiu na minha TV em
um sábado ocioso, trazendo a mim uma surpresa que valeu suportar as mais de duas horas
de sofá em um dia de trinta e três graus . Trata-se de “Homem-Aranha: de Volta
ao lar” e um dos melhores vilões do universo cinematográfico da MARVEL (e Sony)
até o presente momento.
Pois bem, Sobre o Homem-aranha, não há nada que eu possa
acrescentar ao falar do filme do amigão da vizinhança, a não ser afirmar que
essa nova produção é infinitamente melhor que as protagonizadas por Andrew
Garfield (que se diziam espetaculares) e que as piadas características do selo
Marvel fazem muito mais sentido nessa trama do que em uma história do Capitão
América ou do Thor (embora esse último seja bacana, como eu disse na resenha),
mas o que mais chamou minha atenção é o personagem interpretado por Michael
Keaton (O Abutre), que no meio de situações incríveis e fantásticas consegue
transmitir a credibilidade que anda faltando aos antagonistas presentes nesse
estilo de filme.
E o que o Abutre tem?
Para começar, pela primeira vez, vemos a
Marvel entregar um vilão com pretensões tangíveis e não com planos
megalomaníacos. O abutre não quer dominar o universo, ou escravizar um mundo;
muito pelo contrário, quanto menos notarem sua presença melhor para ele, pois
seu único desejo é pagar as contas em dia e poder proporcionar uma vida
descente a sua família ( tá bom , talvez uma casa na praia e um carro novo também!), o que, somando a visão empreendedora abordada desde o início
do filme quase o define como um conservador; excluindo o fato que sua
personalidade agressiva em excesso não lhe proporciona limites caso necessite passar sobre uma lei ou matar um desafeto.
Essa agressividade, natural da personalidade
do personagem e também dominante no ambiente em que o mesmo vive, fazem esse
conservadorismo cair por terra quando o vilão dá seu discurso,
que mesmo servindo para distrair o herói em uma das cenas mais importantes do
filme, não deixa de falar um pouco sobre sua própria visão de mundo onde
reconhecemos um pouco da filosofia de Raskolnikov (de “Crime e castigo”) que
fala da força e superioridade dos homens que tomam para si o que querem, com
uma pitada da anarquia sonhada por Thiller Durden (de “O club da luta”) quando ele parece virar as costas para o que a sociedade diz ser o certo.
Outro fator que agrega ao Abutre ainda, é o
fato dele não precisar de poderes ou uniforme para ser ameaçador. Isso fica bem
claro quando o vemos resolver as ameaças de um ex-parceiro no inicio do filme
e, principalmente, quando ele descobre quem é o Homem-Aranha e tem uma conversa
breve, mas cheia de tensão com o Jovem Peter Parker, que não consegue sequer
encará-lo. Sua abordagem lembra em muito as apresentadas por outros vilões
marcantes, como Tony Soprano ou Walter White, e que eram ameaçadores não por
sua força física ou algum poder especial, mas pelo respeito e temor que suas
presenças impunham.
Por esses detalhes, considero o Abutre a
melhor coisa, nessa nova versão do cabeça de teia até aqui, que a Sony trouxe
para agregar o universo Marvel nos cinemas, com seus pés na realidade, embora
todo o resto sobrevoe o mundo fantástico dos quadrinhos, o vilão dá novos ares,
emborararefeitos até o momento, aos
antagonistas de filmes de super-heróis de que um bom vilão faz um bom herói.
Que mais vilões críveis e carismáticos
venham nos próximos filmes .
Uma
coisa que observo como exigência em uma história de ficção científica ou
fantasia para julga-la como relevante a ponto de perder meu tempo com ela, é
seu paralelo com a nossa realidade. Quando é um filme, por exemplo, não vou
jogar quase duas horas de minha vida no lixo para acompanhar carros que se
transformam em robôs e montam em dinossauros mecânicos para lutar por um cubo
mágico! Mas se a história tiver o mínimo de conexão com os problemas sociais ou
políticos de um período histórico e a trama me encantar, vou assistir até
cansar e serei o primeiro a fazer a campanha a seu favor. E é justamente por
isso que venho hoje publicar o primeiro post de 2018, para recomendar um filme
de fantasia e que fala de solidão, diferença, preconceito e amor; escrito e
dirigido por um cara fenomenal, que aguardei com ansiedade desde seu primeiro
trailer e que superou minhas expectativas, trata-se de: “A forma da água”,
filme do mestre Guillermo del Toro que abriu o ano me deixando quase sem ar.
"Você me tira o fôlego"
Ambientado
nos E.U.A no meado dos anos sessenta, o filme conta a história de Eliza
Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda e solitária que trabalha como
faxineira em um laboratório do centro de pesquisa aeroespacial, para onde é
levada uma misteriosa criatura anfíbia e humanoide descoberta na Amazônia e que
as autoridades americanas pretendem usar como cobaia durante a corrida
espacial. Eliza, que é responsável, junto com sua colega Zelda (Octavia
Spencer), pela limpeza da sala onde a criatura fica isolada e aos poucos vai
criando uma relação que passa de amizade a algo mais. Quando Eliza descobre o
destino reservado ao misterioso ser, recorre à ajuda de seu vizinho e
confidente, Giles (Richard Jenkins) e do inesperado apoio do cientista Bob
Hoffsteler (Michael Stuhbarg) para ajudar o homem-anfíbio a fugir, mas não sem
antes ter de enfrentarem toda hipocrisia e maldade personificadas na figura de
Strickland (Michael Shannon) o responsável pela cobaia e que não vai poupar
esforços até que as coisas sejam feitas de seu jeito.
O filme é um conto de fadas, temperado
com critica político-social e pitadas de terror (e um pouco de safadeza). Essa
crítica já fica clara desde a apresentação dos personagens principais, onde o
diretor subverte os estereótipos presentes nas histórias clássicas, em que
normalmente temos os protagonistas enquadrados no que se aceita como padrão, e
apresenta destaque e relevância a figuras para quem antes eram reservados
papeis secundários. Não satisfeito com isso, a trama é ainda ambientada durante
a década de 1960, os anos de luta pelos direitos civis dos afro-americanos e
auge da guerra fria e, cerca a protagonista com uma amiga negra, um confidente
gay e um (spoiler) espião russo como aliado inusitado, de maneira que nos
remete a fuga do que sempre é aceito como padrão e ao questionamento sobre o
quanto o “diferente” é por vezes, errônea e simplesmente, visto como errado e o
mal que isso pode causar.
"Que peixão!"
Nessa
situação de quebra de paradigma, o que mais se destaca são as figuras do
mocinho e do vilão. Enquanto o “mocinho” é uma criatura anfíbia que lembra o
monstro da lagoa negra do filme de 1954, ou o Abe Sapien do filme “Hell Boy” e
que não consegue ao menos se comunicar com exatidão, mas demonstra empatia e
gratidão; o vilão é um pai de família, com sonhos mundanos de trocar de carro e
casa e, dono de sua própria moral (não muito higiênica), mas desprovido da
percepção do mal que seus atos e palavras podem causar a quem o cerca, fazendo
com que o expectador vá aos poucos deixando de observar as aparências físicas
de ambos e se conecte com suas essências. O mesmo corre com o restante do
elenco, que vão se destacando na medida em que vamos entendendo que, dentro da
época e contexto em que a história se passa todos eles são criaturas tão
estranhas quanto o homem anfíbio, fato que nos faz crer na motivação daquelas
pessoas para arriscarem tudo pela liberdade daquele ser, que de certa forma representa
a fuga para liberdade de cada um dos envolvidos.
O
ponto forte do filme é justamente essa critica que a história faz ao utilizar
personagens que vão de encontro ao tradicional primeiro esquadrão das tramas
consagradas como protagonistas e elenco de apoio, e, utilizando como cenário um
dos momentos mais duros da história moderna para assim fazer uma alusão ao
momento atual de nossa sociedade, sem com isso perder o foco na trama e
apresentar um filme delicado, doce e divertido. No entanto, há uma reutilização
de conceitos por parte do autor, que por mais que se enxergue como sendo a
assinatura do mesmo, criam a atmosfera de que muito do que se apresenta já foi
visto anteriormente em suas produções.
Uma dessas repetições, que já citei acima, é a aparência do homem
anfíbio, que remete muito ao personagem Abe Sapiens dos filmes “Hell Boy”, que
foram dirigidos por Del Toro e que, coincidentemente (ou não) era interpretado
pelo mesmo ator, o multi-maquiado Doug Jones. Outra coisa é o fascínio do
diretor pela solidão, que em quase todos seus filmes, e esse não é diferente,
se concretiza ao apresentar o protagonista como um Órfão, tal como ele fez em
“A espinha do Diabo”, “Orfanato” e até “Hell Boy” e “Blade”. Mas essas
reutilizações de temas ou similaridades com outras produções de Del Toro, não
são um defeito representando no filme e não atrapalham ou diminuem a qualidade
do que o diretor consegue entregar nas duas horas de fantasia que apresenta.
Fiquei
impressionado com “A Forma da água” e como Guillermo Del Toro continua
conseguindo falar tão bem sobre os sentimentos humanos utilizando a fantasia e
a ficção científica, deixando sua assinatura (mesmo com algumas reutilizações) no
roteiro, produção e estilo; mergulhando-nos (sem trocadilho) em uma trama que
consegue subverter os contos de fada e falar muito de nossos dias utilizando o
passado como cenário e, com isso, dando um novo fôlego ao cinema nesse início
de ano e principalmente para mim, que estou cansado do mais-do-mesmo. Então, se
quiser fugir de sua vida rotineira e afundar em uma fantasia repleta de critica
social, romance e uma produção caprichada, não perca tempo e se atire de cabeça
na “Forma da água”.