quinta-feira, 10 de maio de 2018

THE TERROR (2018) - A série




    19 de Maio de 1845. O Terror e o Erebus, dois dos navios mais bem equipados da marinha Britânica, partiam da Europa em direção ao circulo polar ártico na intenção de descobrir a tão sonhada “passagem do Noroeste”, uma rota navegável que ligaria o atlântico norte ao oceano pacífico, facilitando a busca de especiaria e o comércio com o Oriente. Tendo o experiente explorador Sir John Franklin, veterano de outras três missões ao continente gelado, como comandante da expedição e como capitão do HMS Terror, Francis Krozier, do HMS Erebus, James Fritzjames e possuindo uma tripulação conjunta de cento e trinta homens, ambos os navios foram avistados por barcos baleeiros na bahia de Baffin em Julho do mesmo ano, aguardando o melhor clima para adentrar o labirinto gelado do mar do polo norte, depois daquele dia ambos navios e seus tripulantes, nunca mais foram vistos.

   Inspirado nessa assustadora e fascinante história real, o escritor americano Dan Simmons publicava em 2007 o livro “O Terror”, misturando as mais recentes descobertas sobre o possível trágico destino dos marinheiros ingleses com uma assustadora trama sobrenatural que transita entre a misteriosa mitologia Inuit e os limites da mente humana levada ao extremo em uma situação desesperadora. O livro não passou despercebido e, com a produção de Ridley Scott e contando no elenco com atores como Jared Harris, Tobias Menzies e Ciarán Hinds chegou ao canal AMC este ano, sua a adaptação televisiva , trazendo para TV um terror sutil e envolvente por sua estranheza, que apresenta uma dezena de personagens e pontos de vista e que presta uma terrível homenagem a um dos maiores mistérios do século XIX, em uma das melhores coisas que assisti nesse primeiro semestre de 2018.

 
Jared Harris (esq) e o verdadeiro Krozier em foto de 1845 (dir)
A Série é protagonizada pelo capitão Franscis Krozier (Jared Harris), que amargurado por uma rejeição amorosa, parte para o ártico no comando do navio HMS Terror, sendo acompanhado de perto pelo navio HMS Erebus, de onde Sir John Franklin (Ciarán Hinds), tio e tutor da mulher que o desprezou, comanda a expedição mais ousada da marinha da rainha Vitória. No entanto, a pouca sorte na vida íntima se apresentará como o menor dos problemas do capitão Krozier, quando poucos meses após adentrar o ártico ambos os navios acabam presos no gelo, dando aos marinheiros a paciência pela espera do degelo como única alternativa, o que começa a se complicar quando uma equipe que procurava sinais de descongelamento longe dos navios acaba baleando por engano um misterioso xamã esquimó que atravessava o deserto de gelo junto com sua filha. A partir desse dia, uma maldição parece subir a bordo, com os marinheiros se vendo vítimas de envenenamento por chumbo, tendo seu estoque de comida destruído e sendo caçados por uma estranha criatura sobrenatural, que embora lembre um gigantesco urso polar, parece raciocinar e planejar dar cabo da tripulação. Todas essas situações vão insuflar o caos, o amotinamento e a total selvageria entre a tripulação, sobrando ao capitão Krozier e alguns de seus aliados, a tarefa de buscar sobreviver em meio ao pesadelo gelado onde ficarão presos por mais de três anos.

    Que série fantástica! Fugindo do convencional e transportando o expectador para uma trama que especula sobre um mistério de mais de 170 anos temperado com doses certas de suspense e sobrenatural, “O Terror” faz jus ao nome e apresenta uma história com momentos que flutuam entre a construção de tensão de um Stephen King e a loucura que a estranheza total, no melhor espirito Lovecraftiano, pode causar. 

   No tocante a construção da tensão e todo estranhamento que a série possui, a direção e produção se destacam por escolhas que parecem prender ainda mais quem assiste frente a TV. A vasta paisagem branca e gelada, quase sempre contendo apenas o som do vento como complemento, quando não uma música com notas destoantes que consegue transmitir ares de solidão ao mesmo tempo em que se assemelha a um sonho, são tão essenciais na série quanto suas dezenas de personagens que, com destaque no que vemos ou apenas como pontas, nos indicam todas as facetas da situação.

  
Tobias Menzies (esq) e o verdadeiro FritzJames (dir) foto de 1845
Dentre esses personagens, vale a pena destacar alguns que, junto com o Capitão Krozier, Capitão Fritzjames e Sir John Franklin, marcam outros núcleos e encabeçam questões que vão movendo a trama. Dentre os de maior destaque temos o tímido assistente de cirurgião Henry Goodsir (Paul Ready), que em meio ao caos e barbárie que vai crescendo é uma das poucas pessoas que tenta fazer os companheiros ouvir a voz da razão, assim como é quem investiga as causas dos males de saúde que começam a aparecer entre os exploradores, sem dizer que é ele que contando apenas de paciência e empatia, vai buscar aprender a falar a língua dos esquimós para tentar encontrar respostas da misteriosa Lady Silence, a filha do Xamã que é morto por acidente. Essa, por sua vez nos conecta com a mitologia Inuit e o sobrenatural, nos entregando lentamente que por trás daquela sequência de problemas que os tripulantes dos navios vão enfrentando, há uma verdade que vai além da compreensão mundana.

    Mundano, talvez seja a palavra que melhor defina o vilão da trama. Cornelius Hickey (ou seja lá quem ele é realmente) não parece não possuir escrúpulos para sobreviver e é capaz de queimar seus próprios companheiros como combustível se isso significa sobreviver. Ele surge discreto e, tal qual a trama, vai crescendo e ganhando força ao liderar o motim que divide a tripulação e, seu cinismo e violência tomam tamanha proporção, que ao final dos dez capítulos fica difícil de saber se o verdadeiro monstro a ser temido é o Tuunbaq (a criatura que persegue os marinheiros) ou o próprio marinheiro Hickey.

    
Ciarán Hinds (esqu) e Sir John Franklin (foto 1845)
Mas nem tudo é perfeito em “O Terror”. Por resumir um livro de mais de 700 páginas em uma série de dez episódios, muito do aprofundamento da relação dos personagens fica parecendo vago e parece que algo nos escapou. Um exemplo é a estranha relação entre o médico Dr. McDonald com um dos marinheiros do Erebus, que remete a um caso amoroso, mas que não fica bem claro. Do mesmo modo que não fica claro o exato momento que, já sem alimentos e tendo de abandonar os navios, o grupo que acompanha Cornelius Hickey aceita, sem discutir de forma mais ampla, consumir a carne dos companheiros mortos, ou a medida exata em que o Tuunbaq é racional e qual sua verdadeira relação com lady Silence. Mas ao final, até essas pontas soltas ajudam a tornar mais densa a sensação de mistério que a produção traz.

     
Presos no gelo
Mas apesar de seus problemas no aproveitamento total dos personagens e suas relações, “O terror” foi uma das melhores séries que assisti nesse inicio de ano. Sua produção é lindíssima e a sua trama fascinante, principalmente ao lembrar que parte dessa história terrível é real, com a descoberta de que problemas com a solda dos enlatados da expedição permitiram que a comida estragasse antes do tempo e que, com base na necropsia de três corpos da tripulação, encontrados enterrados na ilha canadense de Beechey , houve realmente um envenenamento por chumbo, além de os marinheiros sofrerem com o Escorbuto e a tuberculose; a tradição esquimó da região conta história de luta entre tripulantes e atos de canibalismo sendo que apenas em 2016 (quase dez anos depois do lançamento do livro) os restos dos navios foram encontrados no mar canadense, encerrando um mistério de mais de cento e setenta anos, mas não as circunstâncias e o que realmente aconteceu com a tripulação da expedição de John Franklin.

   Então se quiser algo diferente para assistir, que transite entre o real e o sobre natural, com uma produção caprichada e boas atuações, além de uma história que te prende; embarque no Terror e também se perca na imensidão gelada do desespero humano. Garanto que você não se arrependerá.




quarta-feira, 2 de maio de 2018

VINGADORES: GUERRA INFINITA (2018) ou, Thanos: O filme








  Em mil novecentos e noventa e nove, o marcante Agente Smith proferia em “Matrix” uma frase que ecoaria anos a fio na cultura pop, que “O ser humano é um vírus” que pula de região em região devastando e consumindo todos os recursos até que não sobre nada, sendo a única solução para que o sistema se equilibre a total extinção do vírus. Anos depois, em 2008, quis o destino irônico que Keanu Reeves (O antagonista de Smith em “Matrix”) interpretasse Klaatu em “O dia em que a terra parou” ,um Alienígena, que se dizendo amigo da Terra, vem dar um fim à raça humana antes que ela acabe com todas as outras formas de vida do planeta. Então, Eis que quase vinte anos depois do Agente Smith e dez de Klaatu, outro vilão surge para ampliar as ideias de seus predecessores em níveis galácticos ao afirmar que “há vida demais no universo” e isso deve ser contido. Trata-se do ecoterrorista mais casca grossa que já nasceu ou, Thanos, o Titan Louco, para os íntimos, que chegou aos cinemas nesse último dia vinte e seis de Abril para bater de frente com os “Heróis mais poderosos da terra” em um dos filmes mais esperados da década, trata-se de: “Thanos, O filme”, digo: “Gente de mais para duas horas e meia”, ou melhor, “Vingadores: Guerra Infinita”, filme dos irmãos Russo que (quase) fecha a “Trilogia” Vingadores.


  O Filme trás finalmente para as telonas, os plano de Thanos de reunir as joias do infinito e colocar em prática sua ideia de dar equilíbrio ao universo... aniquilando metade da vida existente nele! (É isso), junto disso, dá sequência aos acontecimentos que envolveram os vingadores (ou aos personagens que faziam parte desse grupo) após a “Era deUltron” e “guerra civil”, unindo em um único filme (quase) todos os super-heróis do universo cinematográfico Marvel.

   Pois então, saí de casa com a expectativa lá em cima, havia assistido à “Pantera Negra” um mês atrás, fato que renovou minha fé nos filmes baseados em quadrinhos, estava levando meu filho de quatro anos pela primeira vez ao cinema e veria Thanos em ação de verdade depois de quase seis anos. Mas ao final das quase três horas , salvo muitas cenas divertidas de ação e do apelo visual que o filme tem, saí com a irônica sensação de que, justamente na história onde o maior vilão da Marvel tem por objetivo encontrar o equilíbrio para o universo, a história que me foi apresentada não estava perfeitamente calibrada.

   Quem sou eu para contestar os planos do Thanos do filme! Eu trabalho com contabilidade, estoques e compras, e, já fiquei parado na fila “expressa” do Supermercado esperando a caixa trocar o rolo de papel da máquina registradora mais de uma vez, ou seja, também acredito que se metade das pessoas não existisse, o universo entraria em equilíbrio, mas eu não sou ninguém... Thanos, ao contrário de mim, é um alienígena com centena de anos e uma das criaturas mais poderosas do Universo Marvel, que têm (ou deveria ter) objetivos e questões que vão além da compreensão e sentimentos humanos, então apresentar o cara como um ecoterrorista que se acredita iluminado pela certeza de que o universo, com a quantidade de vida que possui, irá ruir e para gerar o equilíbrio necessário precisa mandar 50% das formas de vida para a terra dos pés juntos, mas mesmo assim tem espaço em seu coraçãozinho para o amor, me parece uma ideia não tão bem executada de tornar o vilão compreensível e carismático. Thanos, para funcionar, deveria parecer caótico para nós e plenamente crível e competente para si e quem o conhece melhor, uma mistura de inteligência indiferente, força destruidora mas controlada e imponência, mas embora eu perceba isso, também não sei como faria isso em um filme PG13, mas como já falei, eu sou um ninguém, não um estúdio bilionário.

  
O protagonista
Essa ideia de dar destaque ao vilão, para, entre outras coisas, marca-lo na história do estúdio, assim como a concorrente fez com o Coringa de “Batman: Cavaleiro das trevas” tirou o foco dos quase trinta heróis que aparecem em cena, reduzindo quem dá nome ao filme a meros coadjuvantes de luxo, com quase nenhum aprofundamento e isso me incomodou bastante. Mas mesmo com essa predileção do roteiro pelo vilão, o filme está longe de tropeçar e encontra espaço para que alguns dos personagens mais queridos da gurizada brilhem quando se torna preciso, como o caso do Homem-Aranha, que trás , assim como em “guerra civil”, aquele espirito moleque para trama, o que além de empolgar com sua presença em cena, faz com que nos preocupemos com qualquer coisa que possa vir a acontecer com o jovem Peter Parker; Outro que se destaca também é Dr. Estranho, principalmente na épica batalha em Titan, com o feiticeiro supremo, mostrando que desde seu filme solo andou elevando seu nível para fazer jus a seu título e deixando em aberto um possível plano para o próximo filme.

  
"Uma mistura de anjo com pirata"
Quanto a experiência que o longa me trouxe, longe de mim dizer que o filme é ruim, pelo contrário, o fato é que só não achei ele tão bom como outros que o estúdio já apresentou, como “Pantera Negra” e “Capitão América: Soldado Invernal” , talvez porque nessa nova história a Marvel pareça regredir novamente ao filme cheio de piadas e ação não expondo aquele sentimento heroico que estes outros dois filmes expuseram tão bem, ou talvez por se tratar de um filme para apresentar uma situação que será resolvida só depois (no exato 03.05.2019) em Vingadores 4. No entanto, sua ação constante, com cenas de batalhas épicas que se realizam no campo e na cidade, na Europa, África e América, na Terra ou Titan, prendem a atenção de qualquer um que vai ao cinema ver a pancada correr solta entre super-heróis x Alienígenas, sem dizer que os efeitos especiais conseguiram hipnotizar meu filho e deixa-lo com um sorrisinho no rosto, embora ele tenha cochilado um pouco quando o vilão começou a falar e a falar.

     Mas apesar de algumas escolhas de roteiro que não me agradaram por completo, como a tentativa de mudar o status do vilão para o de anti-herói, o pouco tempo para respirar e dar profundidade aos personagens em meio a tanta ação e a Scarlett Johansson loira e não ruiva, o filme entrega o que promete, principalmente quando o entendemos como uma ponte, feita para nos levar até, ao que parece ser, um final marcante dessa geração de dez anos de Universo compartilhado Marvel.  No entanto, vale a lembrança dos filmes que citei no inicio do texto e que tinham em comum além da ideia de que se livrar de uma quantidade de gente pode ser um benefício ao mundo ou universo, o apelo ao carisma do vilão como sustentação da história, o que acabou não funcionando em “O dia que a terra parou”, que é uma refilmagem de um filme clássico de 1951 e que não acançou o sucesso pretendido e as sequências de “Matrix”, que se perderam em si mesmas ao dar o peso maior que o necessário ao antagonista. Obviamente  Thanos e todo universo MARVEL estão anos luz em popularidade e qualidade que o pretensioso filme de Klaatu e comparando com "Matrix", todo o planejamento da franquia de 10 anos do estúdio Marvel deixa a história das Irmãs Wachowski no chinelo e certamente esse filme arrecadará uns dois bilhões de dólares, mas mesmo com toda empolgação e publicidade, sempre há o perigo de um tropeço justo na hora da cereja do bolo. Mas Fica agora a torcida para que a sequência de “Guerra Infinita” corrija as pequeníssimas falhas da história de 2018 e dê o protagonismo a quem da nome ao filme, antes que o grande final de uma história de dez anos, acabe virando pó.




segunda-feira, 16 de abril de 2018

UM LUGAR SILENCIOSO (2018)




  
  O barulho do trânsito, gargalhadas na mesa do lado, o telefone tocando, as pessoas falando alto, um copo se estilhaçando no chão, o filho chamando a todo o momento, o cachorro latindo, a música alta do vizinho. A vida é um turbilhão de sons tão altos e constantes que depois de certa idade, o silêncio começa a se apresentar como uma das mais belas melodias que se pode apreciar. Mas, e se a busca por essa ausência de som deixasse de ser uma fuga opcional e se tornasse a regra básica para sobrevivência?

  Pois o silêncio é o tenso fio condutor da trama de “LUGAR SILENCIOSO”, filme estrelado por Emilly Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe e John Krasinski (que também roteiriza e dirige o longa) que estreou no último dia cinco de Abril aqui no Brasil e que vem deixando os espectadores sem palavras.

 
Krasinski e Jupe (não fala!)
O filme, que se passa em 2020, mostra um mundo devastado por misteriosas criaturas cegas e extremamente brutais, que atacam qualquer coisa que emita um ruído mais alto que um sussurro. Nesse mundo, encontramos uma família que, fugindo da cidade, parte para o campo para tentar sobreviver da melhor forma possível sem emitir um único barulho; mas os traumas de uma tragédia e a expectativa da chegada de mais um filho podem por em risco essa frágil segurança e atrair para perto seus maiores medos.

    O longa é uma grata surpresa em meio a mesmice de filmes de super-heróis e blockbusters descerebrados, apresentando uma trama original, concisa e extremamente tensa, que faz o expectador passar todo filme preso na cadeira com medo até de fazer barulho ao engolir a saliva. Comer aquela tradicional pipoca então, nem pensar!

   A história é simples, mas bastante profunda e lembra um conto curto no melhor estilo Stephen King ou H.P Lovecraft! Na verdade, guardados os estilos e peculiaridades desses autores, a história de “Um lugar silencioso” me parece uma acertada mistura de temas que esses dois autores sempre exploraram em suas obras; com toda ambientação e apresentação do cotidiano e os conflitos da família lembrando o que King mostra em algumas de suas obras, como em “O nevoeiro” ou “O cemitério”, e, o recorrente contato com o estranho e desconhecido, sempre presente nos contos de Lovecraft, que paralisa e enlouquece qualquer um.



  A trama lembra em parte, o filme “Sinais” do diretor Shyamalan, pela locação situada em uma remota fazenda ou pela situação de abandono em que os protagonistas se encontram e que não tem a origem revelada; porém seu clima de tensão remete mais ao novo estilo de suspense, que me parece ter em “Corra!”, de Jordan Peele, o maior expoente, devida à uma atmosfera  opressora que não dá pausa, apenas oscila.

   Essa semelhança com o sucesso de 2017 do diretor Jordan Peele, ainda parece mais justificada quando traçamos um paralelo entre os diretores, ambos conhecidos por suas carreiras em papéis em comédias (Peele por “ Key & Peele” e Krasinski por “The Office”) e surpreendentes na entrega de roteiros originais e marcantes, além de uma direção extremamente competente.

     
Blunt & Simmonds (quietinha)
Ainda falando de competência e surpresa, talvez essas sejam as palavras que definam o elenco, que brilha de acordo com a intensidade que a história permite. Começando pela a atuação do próprio John Krasinski, por ainda tê-lo na memória como o debochado Jim Halpert de “The Office” e o vê-lo convincente como um sério e preocupado pai que, em um mundo sem esperança, se propõe a fazer qualquer coisa para manter sua família segura. Outra maravilhosa surpresa é a atriz adolescente Millicent Simmonds, que é realmente surda, e que contando com suas expressões e muito talento consegue transmitir todo medo e revolta por viver em um mundo sem futuro e nele carregar uma culpa capaz de dilacerar qualquer pessoa.  Até mesmo jovem Noah Jupe, que tem o papel menos profundo na trama, consegue passar verdade com o pavor que mostra nos olhos ao se deparar com os monstros que cercam a fazenda e fazer com que nos preocupemos com ele. Já Emilly Blunt, por sua vez, só me surpreendeu, quando descobri que a química que ela apresentava na tela com Krasinski se devia ao fato deles serem casados na vida real, de resto ela repete a competência que a destacaram em filmes bacanas como “Sicário” e “No limite do Amanhã”.   

    Gostaria de falar muito mais do filme, mas sou consciente que FALAR demais sobre essa obra, pode estragar a experiência. Só posso dizer que “Um lugar silencioso” se tornou para mim um novo clássico de maneira quase instantânea. Apresentando uma história que não debocha da inteligência do espectador, mas que nem por isso é rasa ou pouco relevante. Aposta na tensão constante, mas reserva momentos de pura emoção e sentimento, agradando tanto pela química que mostra entre seus personagens, quanto pela inovação com que a história é contada. Um conto de terror com traços dos grandes mestres, mas que fala por si mesmo até quando ninguém em cena profere um único som e que, de maneira sútil, nos faz sermos gratos pelos sons de vida em nosso redor.



domingo, 8 de abril de 2018

PANTERA NEGRA (2018)






    Tenho imensa dificuldade de escrever sobre o que, a mim, se encontra muito acima da média. Por esse motivo, dentro dos estilos que me atraem mais, nunca escrevi sobre o livro “1984” e os filmes “Batman: Cavaleiro das trevas” e “Capitão América: Soldado invernal”. No entanto, existe casos tão extraordinários que mesmo sabendo da minha inabilidade em abordar os porquês de sua real relevância, é impossível não registrar minha rasa opinião.

  Uma dessas exceções é o filme de maior sucesso do ano, que, além de levantar a autoestima de um público que se via apenas como coadjuvante, vem colecionando recorde atrás de recorde e mostrando que o tido como “exótico” ou fora do padrão, quando trabalhado com talento e honestidade podem ser a receita do sucesso. Trata-se de “PANTERA NEGRA”, o décimo sétimo filme da Marvel, Dirigido por Ryan Coogler e estrelado por Chadwick Boseman, Lupita Nyong’o, Michael B. Jordan e grande elenco, que chegou de forma sorrateira e mostrou suas garras ao mundo.


O filme dá sequência a história do príncipe T’challa (Boseman), o Pantera negra, apresentado em “Capitão América: Guerra Civil”, com o herói retornando à seu reino, a misteriosa e desenvolvida, embora dissimulada como país de terceiro mundo, Wakanda; para enterrar seu pai, morto durante a trama do terceiro filme do líder dos vingadores,  dar inicio aos rituais de sua coroação e  tratar de assuntos  de interesse do estado como  a captura do inimigo número um do país, Ulysses Klaue (Andy Serkis). É durante essas suas  obrigações que T’challa  se vê diante de um antagonista à sua altura e uma verdade capaz de o fazer questionar os valores que fazem um rei.

  O Filme consegue dar sequência aos já habituais sucessos da Marvel, ao mesmo tempo em que inova ao apostar em uma trama mais séria mirando em assuntos  como a questão da crise dos refugiados, racismo e representatividade, mas sem com isso perder nada em diversão e ainda, de quebra, apresentando uma mitologia jamais antes mostrada com o valor merecido, e que disse a quem quis ouvir, com o sucesso do filme, que deve continuar sendo explorada.

   Essa mitologia, que dá  protagonismo as cores e ritmos da África, é em grande parte o segredo do sucesso do filme. A cultura africana, que sempre foi, de forma preconceituoso, tida como algo de segunda linha e de menor valor para uma sociedade que sempre foi norteada por padrões europeus e que vem sendo descoberta como rica e digna de orgulho pelas novas gerações, se une a ficção científica e uma trama de espionagem para colocar na tela um filme onde o negro é protagonista de sua própria história e capaz de a resolver sem o intermédio de nenhum salvador externo seus problemas e os de quem os cerca.

   Mas para uma trama que fuja tanto do padrão habitual fazer o sucesso que o filme vem fazendo, ainda mais dentro do universo dos super-heróis onde a representatividade ainda é mínima, é necessário um elenco capaz de fazer com quem assista ao filme acreditar no que está vendo. E isso é uma das maiores certezas do filme e o segundo motivo que levaram “Pantera negra” a se tornar uma das dez maiores bilheterias de todos os tempos. Com atores do nível de Chadwick Boseman , Lupita Nyong’o,  Michael B. Jordan, Danai Gurira, Daniel Kaluuya,  Forest Whitaker entre outros, representando personagens imponentes e orgulhosos, sem dizer que tridimensionais e sem a mínima carga de submissão a uma sociedade que os subestima, fica ainda muito mais fácil ao filme divertir, ao mesmo tempo que passa uma mensagem sutil de amor  próprio e orgulho das raízes, sem precisar diminuir caricaturar ninguém que é diferente.

  Sabendo do segredo do sucesso do filme, que, como já disse, a meu ver, são resultado da química entre a mitologia apresentada e o elenco de talento, não posso deixar de falar também de outras três peças chaves em “Pantera Negra”, que são o protagonista que se impõem sem precisar sabotar os demais personagens, O vilão que consegue passar uma mensagem a ponto de ser compreendido e a força das personagens femininas que sustentam a trama.

   Sempre fico feliz quando a trama não mima o protagonista, precisando diminuir os que o rodeiam para eleva-lo e, em “Pantera Negra”, isso acontece abertamente. A história protagonizada por T’challa se mantém forte, mesmo quando ele não se encontra em destaque, mas quando o mesmo está em cena, consegue impor sua força a ponto de se tornar marcante, tanto através dos conceitos e valores que formam o personagem, quanto pela imagem do herói e da  atuação bem a vontade que Chadwick Boseman consegue transmitir.

  Quanto ao vilão Erick Killmonger , interpretado por Michael B. Jordan (que mesmo com tudo que faz, o vejo mais como antagonista), O fato de começar em um papel secundário dentro dos próprios opositores do protagonista na trama  e ir crescendo a ponto de se tornar um oponente à altura do herói e com motivos críveis, como a vingança pelo pai e a revolta por ver seus iguais abandonados por Wakanda, quase fazem que esqueçamos seu extremismo e violência, só relembrando nas cenas finais do filme, mas que são abafados, ao término da história, por uma das frases que o filme deixou marcada, colocando Killmonger como um dos antagonistas memoráveis do cinema atual.

"Jogue-me no oceano com meus antepassados que pularam dos navios, porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão." Killmonger

   Em terceiro, mas não menos importante, temos a força feminina presente na trama. E que força! Não é preciso muita atenção para ver que as mulheres dão o movimento ao filme. Seja com a inteligência de Shuri, a irmã caçula do agora Rei T’challa, que cria diversos dispositivos de espionagem ao herói, além de ser o personagem responsável pelo bom humor e uma pitada de inocência na trama, colocando alguns sorrisos e nós  na garganta de quem assiste ao filme. Do mesmo modo temos Nakia (Lupita Nyong’o) que embora interesse romântico do herói, não se limita ao papel de donzela apaixonada e além de colocar a mão na massa, trabalhando como espiã e guerreira, ainda trás para o herói, questionamentos quanto ao posicionamento do país frente aos problemas do mundo e tomando para si a responsabilidade de defender o reino, quando Killmonger surge e T’challa some. Também não podemos deixar de falar das Dora Milage, A guarda pessoal do rei de Wakanda, composta só por mulheres, que tem na general Okoye (Danai Gurira) seu principal nome; é ela que tem grandes cenas de ação, como no Cassino clandestino e na perseguição de carros pelas ruas de Seul, mas que também empresta força dramática ao demonstrar, após metade do filme, o peso da dedicação total ao estado que o cargo exige e que simboliza o sacrifício de algumas escolhas exigem, situação que  fala ainda mais alto observando sua condição feminina e os desafios e obstáculos que nosso mundo impõem às mulheres fortes.
  
Nakia & Shuri
    “Pantera Negra” é um sucesso de público e critica. Surpreendeu o mundo ultrapassando a marca de um bilhão de dólares arrecadados ao redor do globo e reafirmou o orgulho de um publico acostumado a se ver no cinema como elenco de apoio ou vilão, quase sempre marginalizado ou precisando de ajuda. Tornou-se uma marca no cinema e símbolo de orgulho ao mostrar para sociedade que filmes de pessoas negras, onde a eterna luta para se destacar contra o preconceito não é o assunto principal, mas sim uma trama onde o negro, visto como pessoa, seja dono de sua história com altivez e orgulho, dá destaque ao estúdio e muito lucro, sem contar que gera a empatia em quem, antes não acostumado a assistir um grande filme ambientado na África (mesmo um África imaginária) agora enxerga com mais facilidade o negro em todas as facetas, seja de vilão, herói, piadista, cientista, rei ou soldado mas principalmente longe do estereótipo.

    Por essas e outras acredito que “Pantera Negra” já é o destaque do ano, mesmo que tenha estreado em Março e se causou certo desconforto em algumas mentes mais reacionárias que não conseguem admitir o empoderamento do negro devido a uma África fictícia, mas que vibram com sete reinos mágicos e Asgards encantadas, a mim só trouxe felicidade por tudo que expus no texto acima, me ajudando a desbloquear minha capacidade de escrever sobre algo que, a mim, está acima da média dentre seus iguais e afirmando a certeza de querer assisti a mais histórias de Wakanda e seu protetor nos cinemas em breve.  

 Wakanda Forever!



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

KINDRED - LAÇOS DE SANGUE (de OCTAVIA E. BUTLER)




     Se não enxergarmos o que é tido como diferente presente em todas as áreas da sociedade o encararemos como um erro, onde apenas a bolha onde vivemos será percebida por nós como verdade absoluta; por isso eu digo: Representatividade é tudo!

   Mas não é a simples presença física de pessoas de diferentes cores, opções sexuais ou religião que garante o rompimento da bolha onde nos incluímos, mas a possibilidade de se criar empatia a ponto de nos reconhecermos nas pessoas de aparência e opções diferentes de nós mesmos e nisso, a cultura como um todo tem um papel essencial, mas em especial o cinema e a literatura em suas facetas tidas como pop. Tudo isso talvez seja  uma verdade quase intuitiva, mas que ficou mais clara para mim, quando me deparei com uma obra de sci-fi clássica, que utilizando de clichês de ficção científica e fantasia, me entregou uma mensagem poderosa sobre os males que o preconceito cristalizou em nossa sociedade, em uma trama fruto da mente de uma pessoa que viveu muitos desses males.

    Pois hoje falarei (muito por cima) dessa obra, ou melhor, desse livro que se enquadra perfeitamente no seleto grupo dos “rompedores de bolha” e que me conquistou desde seu prólogo. Trata-se de “Kindred - Laços de Sangue”, um clássico da escritora afro-americana Octavia E. Bluter, que depois de quase quarenta anos de seu lançamento original, finalmente chega o Brasil pela editora Morro branco, me prendendo em suas páginas não só pela sua mensagem dura mas necessária, quanto por sua escrita refinada e ágil.

  
   O livro conta a história de Dana, uma escritora, que após se mudar com o marido Kevin (também escritor), para a casa nova, se vê vítima de um misterioso fenômeno de viagem temporal, retornando para a Baltimore escravagista pré-guerra civil americana, uma época nada fácil para uma mulher negra como ela (principalmente uma que possua educação e espírito). Conforme o fenômeno vai se repetindo Dana descobre que o mesmo é fruto de uma misteriosa ligação com um antepassado, seu tataravô Rufus Weylin, filho de um proprietário de escravos, que quando sente sua vida ameaçada a invoca para que essa o ajude. Além do estranhamento da situação, Dana viverá o dilema de ter que defender seu antepassado, que é fruto da época de abusos onde nasceu, para que ela mesma tenha seu nascimento assegurado, enquanto é obrigada a testemunhar a abertura da feriada que a escravidão causou e que o preconceito e a ignorância não deixaram cicatrizar até os nossos dias.
  
      Esse livro me causou inúmeras sensações, a maior foi a da descoberta de Octavia E. Bluter e todo seu talento. A autora, não vulgarmente chamada de A grande dama da ficção científica, realmente me impressionou com sua forma de escrever limpa e pé no chão (e em um livro de sci-fi!), conseguindo transmitir não só toda a dor do período escravagista de maneira sutil, como a própria aflição de seus personagens negros do século XIX, que transitam no livro como não pessoas, posses de outros e fadados a passar o resto de seus dias contendo seus sentimentos e indignações; mas também, nos entregado na sub-trama, a cicatriz social que a  escravidão deixou ao apresentar no tempo atual (1976) uma mulher negra  casada com um homem branco (Dana e Kevin), que sofrem o desprezo de suas famílias devido a esse casamento, ainda nada comum nos EUA dos anos mil novecentos e setenta, indicando, sem precisar escrever nada que aprofunde a situação, a marca de um racismo, mais velado do que explicito, que continua presente até os dias de hoje; sem falar da maneira totalmente realista que a autora descreve o relacionamento e rotina do casal, nos tornando cúmplice de seus segredos e testemunha de seus sentimentos.

     A leitura também me fez refletir quanto a pouca quantidade de autores não-brancos e não-masculinos que eu posso dizer que li e o que eu perdi com isso. Fora os clássicos como Machado de Assis ou Alexandre Dumas e “Batle Royale” de Kouachum Takami, quase todos livros da minha lista são de Europeus ou Euro-americanos e no que se trata de mulheres não é muito diferente, mulheres negras então, não havia nenhuma. Octavia E. Bluter veio para mudar isso ao se apresentar para mim, como um desses autores que quando terminamos de ler uma de suas obras, sentimos vontade de ler todas, nos induzindo à representatividade através do puro talento.

    A história da autora e a consciência da sociedade onde vivia e que lembra um pouco como enxergo a nossa, sem contar o fato de, pela primeira vez, tive a oportunidade de ter contato com uma obra de ficção científica escrita por uma pessoa da mesma etnia que eu, realmente me tocou, pois como disse no início, representatividade é tudo! Mas esse fato sobre “Kindred” que é importante para mim e para poucos, se encontra além do livro, dentro dele há uma história de drama e aventura, desenvolvida de maneira magistral que fala sobre como somos adestrados para aceitar os abusos e não perceber muitos de nossos próprios privilégios. Isso acontece através da relação de Dana e Rufus, a primeira uma mulher negra educada e culta do século XX, se vendo exposta a todo tipo de violência do período da escravidão e que vai se quebrando frente a esse novo mundo; o outro, uma figura do século XIX, que, conforme Dana vai retornando no tempo e acompanhando seu crescimento, vai se corrompendo e se mostrando cada vez mais consciente de seu papel.

     
Octavia E. Butler (1947-2006)
 
É por meio de Dana e Rufus, e suas interações com as pessoas em sua volta e como estas relações vão mudando com o tempo, que a autora nos demonstra a força que o mundo que nos rodeia tem sobre nós. A relação com o poder é inversamente proporcional no que tange aos dois personagens e, enquanto Dana vai se acostumando com as ordens, por mais que se convença de que é para o bem de seus antepassados e seu próprio, se quebrando no processo, ao ponto de terminar o livro transformada em outra pessoa; Rufus vai se acostumando com sua posição de poder e privilégio e mudando de um menino compreensivo e sensível, para um adulto egoísta, que não enxerga as pessoas diferentes dele como outros seres humanos e se vê como superior. O Alvo desse egoísmo e que acaba se tornando um dilema para o próprio Rufus é, Alice, uma filha de escravos, que ele nutre uma paixão desde jovem e cuja relação se equilibra entre sentimento verdadeiro e coisificação; Alice também acaba por sofrer devido a influência de Dana, que sabendo que descende desta com Ruffus, ajuda o mesmo a conseguir o que ele deseja, transcrevendo a amarga existência de um indivíduo que é desumanizado sem chance de ser ouvido ou ter opção, restando o final nada feliz para Alice e a Justiça (ou vingança) para Rufus.

    A Autora ainda inclui, em uma das regressões no tempo, a presença do marido da protagonista, que serve como “olhos brancos bem intencionados”, que enxergam as barbaridades da época e se indigna, mas, por não possuir a mesma ligação com a situação que a protagonista, acredita que as coisas poderiam ser ainda pior. De forma genial, Kevin está lá para representar os brancos que são despidos de preconceito (e ele faz isso se pondo em risco muitas vezes), mas não possuem a mesma história de vida de quem sofreu o preconceito na pele; algo tão comum como o próprio preconceito e que, no livro, deixa profundas cicatrizes ao personagem quando este volta para seu tempo natal.

     Eu poderia falar durante páginas e mais páginas sobre “Kindred”, mas preferi não me aprofundar mais para não acabar com a experiência de ninguém, o que posso dizer  é que este é um livro essencial para quem é, além de fã de fantasia e ficção científica, amante da literatura. Uma obra de escrita ágil, personagens fortes e marcantes, questões amplamente relevantes e que ainda hoje são debatidas. Fruto de uma mente a frente de seu tempo, que usando os conceitos Pop levou a todos um retrato da ferida que legitimou o preconceito racial nos EUA (e no mundo), assim como, por meio de seus personagens, mostra a facilidade de se quebrar frente ao poder, ou não enxergar seus privilégios. Um livro que me fez sentir mais do que satisfeito, como me presenteou com outro autor para ler toda obra; uma mulher que, depois de 424 páginas, posso dizer que me representa na ficção científica e como bem se sabe, representatividade é tudo!




domingo, 4 de fevereiro de 2018

O ABUTRE (do Homem-Aranha) e a importância de um bom vilão





      Já faz um tempinho que ando deixando de lado os filmes e séries de Super-heróis. Para eu perder meu tempo com um filme desse estilo, ele tem que conversar muito comigo e já que isso não vem ocorrendo , não fiz a mínima questão de assistir “Justiceiro”, passei longe “Defensores” e “Punho de ferro”, corro da série do “Flash”, desligo a TV quando passa “Arrow” e, só assisti “Thor: Ragnarok” depois que todo mundo concordou que era uma comédia e “Liga da Justiça” para dar minha última chance a DC/Warner. Mas virou e mexeu e um dos filmes que me empolgou quando anunciado (mas que não tive paciência para ir conferir no cinema) surgiu na minha TV em um sábado ocioso, trazendo a mim uma surpresa que valeu suportar as mais de duas horas de sofá em um dia de trinta e três graus . Trata-se de “Homem-Aranha: de Volta ao lar” e um dos melhores vilões do universo cinematográfico da MARVEL (e Sony) até o presente momento.

   Pois bem, Sobre o Homem-aranha, não há nada que eu possa acrescentar ao falar do filme do amigão da vizinhança, a não ser afirmar que essa nova produção é infinitamente melhor que as protagonizadas por Andrew Garfield (que se diziam espetaculares) e que as piadas características do selo Marvel fazem muito mais sentido nessa trama do que em uma história do Capitão América ou do Thor (embora esse último seja bacana, como eu disse na resenha), mas o que mais chamou minha atenção é o personagem interpretado por Michael Keaton (O Abutre), que no meio de situações incríveis e fantásticas consegue transmitir a credibilidade que anda faltando aos antagonistas presentes nesse estilo de filme.

  E o que o Abutre tem?


   Para começar, pela primeira vez, vemos a Marvel entregar um vilão com pretensões tangíveis e não com planos megalomaníacos. O abutre não quer dominar o universo, ou escravizar um mundo; muito pelo contrário, quanto menos notarem sua presença melhor para ele, pois seu único desejo é pagar as contas em dia e poder proporcionar uma vida descente a sua família ( tá bom , talvez uma casa na praia e um carro novo também!), o que, somando a visão empreendedora abordada desde o início do filme quase o define como um conservador; excluindo o fato que sua personalidade agressiva em excesso não lhe proporciona limites caso necessite  passar sobre uma lei ou matar um desafeto.

  
Essa agressividade, natural da personalidade do personagem e também dominante no ambiente em que o mesmo vive, fazem esse conservadorismo cair por terra  quando o vilão dá seu discurso, que mesmo servindo para distrair o herói em uma das cenas mais importantes do filme, não deixa de falar um pouco sobre sua própria visão de mundo onde reconhecemos um pouco da filosofia de Raskolnikov (de “Crime e castigo”) que fala da força e superioridade dos homens que tomam para si o que querem, com uma pitada da anarquia sonhada por Thiller Durden (de “O club da luta”) quando ele parece virar as costas para o que a sociedade diz ser o certo.

   Outro fator que agrega ao Abutre ainda, é o fato dele não precisar de poderes ou uniforme para ser ameaçador. Isso fica bem claro quando o vemos resolver as ameaças de um ex-parceiro no inicio do filme e, principalmente, quando ele descobre quem é o Homem-Aranha e tem uma conversa breve, mas cheia de tensão com o Jovem Peter Parker, que não consegue sequer encará-lo. Sua abordagem lembra em muito as apresentadas por outros vilões marcantes, como Tony Soprano ou Walter White, e que eram ameaçadores não por sua força física ou algum poder especial, mas pelo respeito e temor que suas presenças impunham.

    Por esses detalhes, considero o Abutre a melhor coisa, nessa nova versão do cabeça de teia até aqui, que a Sony trouxe para agregar o universo Marvel nos cinemas, com seus pés na realidade, embora todo o resto sobrevoe o mundo fantástico dos quadrinhos, o vilão dá novos ares, embora  rarefeitos até o momento, aos antagonistas de filmes de super-heróis de que um bom vilão faz um bom herói.

   Que mais vilões críveis e carismáticos venham nos próximos filmes .




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A FORMA DA ÁGUA (2017)

  


    Uma coisa que observo como exigência em uma história de ficção científica ou fantasia para julga-la como relevante a ponto de perder meu tempo com ela, é seu paralelo com a nossa realidade. Quando é um filme, por exemplo, não vou jogar quase duas horas de minha vida no lixo para acompanhar carros que se transformam em robôs e montam em dinossauros mecânicos para lutar por um cubo mágico! Mas se a história tiver o mínimo de conexão com os problemas sociais ou políticos de um período histórico e a trama me encantar, vou assistir até cansar e serei o primeiro a fazer a campanha a seu favor. E é justamente por isso que venho hoje publicar o primeiro post de 2018, para recomendar um filme de fantasia e que fala de solidão, diferença, preconceito e amor; escrito e dirigido por um cara fenomenal, que aguardei com ansiedade desde seu primeiro trailer e que superou minhas expectativas, trata-se de: “A forma da água”, filme do mestre Guillermo del Toro que abriu o ano me deixando quase sem ar.

"Você me tira o fôlego"
Ambientado nos E.U.A no meado dos anos sessenta, o filme conta a história de Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda e solitária que trabalha como faxineira em um laboratório do centro de pesquisa aeroespacial, para onde é levada uma misteriosa criatura anfíbia e humanoide descoberta na Amazônia e que as autoridades americanas pretendem usar como cobaia durante a corrida espacial. Eliza, que é responsável, junto com sua colega Zelda (Octavia Spencer), pela limpeza da sala onde a criatura fica isolada e aos poucos vai criando uma relação que passa de amizade a algo mais. Quando Eliza descobre o destino reservado ao misterioso ser, recorre à ajuda de seu vizinho e confidente, Giles (Richard Jenkins) e do inesperado apoio do cientista Bob Hoffsteler (Michael Stuhbarg) para ajudar o homem-anfíbio a fugir, mas não sem antes ter de enfrentarem toda hipocrisia e maldade personificadas na figura de Strickland (Michael Shannon) o responsável pela cobaia e que não vai poupar esforços até que as coisas sejam feitas de seu jeito.

        O filme é um conto de fadas, temperado com critica político-social e pitadas de terror (e um pouco de safadeza). Essa crítica já fica clara desde a apresentação dos personagens principais, onde o diretor subverte os estereótipos presentes nas histórias clássicas, em que normalmente temos os protagonistas enquadrados no que se aceita como padrão, e apresenta destaque e relevância a figuras para quem antes eram reservados papeis secundários. Não satisfeito com isso, a trama é ainda ambientada durante a década de 1960, os anos de luta pelos direitos civis dos afro-americanos e auge da guerra fria e, cerca a protagonista com uma amiga negra, um confidente gay e um (spoiler) espião russo como aliado inusitado, de maneira que nos remete a fuga do que sempre é aceito como padrão e ao questionamento sobre o quanto o “diferente” é por vezes, errônea e simplesmente, visto como errado e o mal que isso pode causar.

"Que peixão!"
Nessa situação de quebra de paradigma, o que mais se destaca são as figuras do mocinho e do vilão. Enquanto o “mocinho” é uma criatura anfíbia que lembra o monstro da lagoa negra do filme de 1954, ou o Abe Sapien do filme “Hell Boy” e que não consegue ao menos se comunicar com exatidão, mas demonstra empatia e gratidão; o vilão é um pai de família, com sonhos mundanos de trocar de carro e casa e, dono de sua própria moral (não muito higiênica), mas desprovido da percepção do mal que seus atos e palavras podem causar a quem o cerca, fazendo com que o expectador vá aos poucos deixando de observar as aparências físicas de ambos e se conecte com suas essências. O mesmo corre com o restante do elenco, que vão se destacando na medida em que vamos entendendo que, dentro da época e contexto em que a história se passa todos eles são criaturas tão estranhas quanto o homem anfíbio, fato que nos faz crer na motivação daquelas pessoas para arriscarem tudo pela liberdade daquele ser, que de certa forma representa a fuga para liberdade de cada um dos envolvidos.

O ponto forte do filme é justamente essa critica que a história faz ao utilizar personagens que vão de encontro ao tradicional primeiro esquadrão das tramas consagradas como protagonistas e elenco de apoio, e, utilizando como cenário um dos momentos mais duros da história moderna para assim fazer uma alusão ao momento atual de nossa sociedade, sem com isso perder o foco na trama e apresentar um filme delicado, doce e divertido. No entanto, há uma reutilização de conceitos por parte do autor, que por mais que se enxergue como sendo a assinatura do mesmo, criam a atmosfera de que muito do que se apresenta já foi visto anteriormente em suas produções.  Uma dessas repetições, que já citei acima, é a aparência do homem anfíbio, que remete muito ao personagem Abe Sapiens dos filmes “Hell Boy”, que foram dirigidos por Del Toro e que, coincidentemente (ou não) era interpretado pelo mesmo ator, o multi-maquiado Doug Jones. Outra coisa é o fascínio do diretor pela solidão, que em quase todos seus filmes, e esse não é diferente, se concretiza ao apresentar o protagonista como um Órfão, tal como ele fez em “A espinha do Diabo”, “Orfanato” e até “Hell Boy” e “Blade”. Mas essas reutilizações de temas ou similaridades com outras produções de Del Toro, não são um defeito representando no filme e não atrapalham ou diminuem a qualidade do que o diretor consegue entregar nas duas horas de fantasia que apresenta.


Fiquei impressionado com “A Forma da água” e como Guillermo Del Toro continua conseguindo falar tão bem sobre os sentimentos humanos utilizando a fantasia e a ficção científica, deixando sua assinatura (mesmo com algumas reutilizações) no roteiro, produção e estilo; mergulhando-nos (sem trocadilho) em uma trama que consegue subverter os contos de fada e falar muito de nossos dias utilizando o passado como cenário e, com isso, dando um novo fôlego ao cinema nesse início de ano e principalmente para mim, que estou cansado do mais-do-mesmo. Então, se quiser fugir de sua vida rotineira e afundar em uma fantasia repleta de critica social, romance e uma produção caprichada, não perca tempo e se atire de cabeça na “Forma da água”.