segunda-feira, 6 de novembro de 2017

THOR: RAGNAROK (2017) ou, Odinson no espaço



    Eu estou velho e cansado! Constatei isso essa semana, não só ao perceber que estava assistindo ao décimo sétimo filme da Marvel em nove anos de universo cinematográfico compartilhado da editora, como ao me sentir totalmente deslocado como público no que presenciei durante mais de duas horas no cinema. Sim! Hoje temos a missão de falar sobre o último e mais rypado filme de Odinson, o senhor do trovão, que caiu como um relâmpago nas salas de cinema no último dia vinte e seis, agradando a grande maioria do público, mas que, embora não tenha me decepcionado como os filmes da concorrente, me acertou como um martelo mágico quanto a qualquer expectativa de novidade nos filmes futuros da Marvel. Então, com vocês: "Thor: Ragnarok"!

  

  Dirigido por Taika Waititi e estrelado por Chris Hemsworth (Thor), Tom Hoddlestone (Loki), Kate Blanchett (Hela) e mais uma monte de gente bonita, elegante e sincera, "Thor: Ragnarok" narra os acontecimentos que se seguiram com o protagonista após suas visões em "Vingadores: a Era de Ultron", onde, ao perceber um grande mal se aproximando de sua terra natal e, imaginando se tratar do Ragnarok (o apocalipse asgardiano) ele vai buscar impedir sua realização. Em meio a essa busca, seu pai , Odin, morre, mas antes de partir (para lá-sei-eu, um deus nórdico vai depois de morto) revela que possui uma filha mais velha (Hela, a deusa da morte) muito mais poderosa que ele próprio e que sua morte a libertará. Mal o deus ancião bate as botas e a sujeita já aparece reivindicando o trono de Asgard, destruindo o martelo do herói e chutando (literalmente) os dois irmãos (Thor e Loki) para o planeta Sakaar, um lugar de caos e selvageria, comandado pelo insano Grão Mestre (Jeff Goldblum), onde Thor irá se deparar com uma amargurada última Valquíria e com um ex-aliado, o Hulk, agora o campeão do insano ditador de Sakaar em sua arena. Resta ao desmartelado deus do trovão a inglória missão de juntar forças para escapar das garras do grão mestre e retornar a Asgard antes que a profecia se cumpra e seu planeta seja destruído.

       Como dito acima, o filme está longe de ser ruim, mas não passa nem perto da expectativa que gerou quando o cabeça do estúdio, Kevin Feige veio a público dizer que a trama de “Ragnarok” seria um ponto de virada do universo Marvel nos cinemas, muito pelo contrário, ao invés de outros rumos e visão, em seus cento e vinte e oito minutos de duração, o novo filme do Odinson oscila entre uma cópia de “Guardiões da Galáxia” e um reboot do personagem no estilo do novo “Homem-Aranha”, entregando mais uma grande aventura para toda família que não foge em nada da velha fórmula Marvel.




      Essa mesmice foi o que me jogou na cara a minha idade e me deixou deslocado enquanto eu assistia a produção, os filmes do estúdio não são mais para mim. Parece que depois de quase dez anos a rotina da fórmula Marvel (que mesmo assim é infinitamente melhor que o veneno da DC) começou a se mostrar desgastada para quem, como eu, acompanhou suas produções até aqui, o que só piorou depois do sucesso de “Guardiões da Galáxia” de 2014, e, esse terceiro filme do Thor é o maior exemplo até aqui. Parece que o estúdio aceitou que o personagem nunca foi o mais bem quisto do seu panteão e realmente rebootou o personagem com a franquia andando, pois nem o clima e nenhum personagem presente nessa nova trama, exceto talvez Heindall (Idris Elba) parece ser o mesmo dos filmes anteriores.

      
Se é pra Rir, vamos rir!
Nota-se o que falei acima, já na primeira cena do longa, onde vemos o protagonista preso em uma cela dentro da masmorra de Surtur, fazendo várias piadas para seu antagonista e essas situações cômicas vão se repetindo durante todo filme, como quando ameaçam cortar o cabelo do filho de Odin e ele implora como uma criança para que não o façam, ou quando encontra o Hulk pela primeira vez e tem um acesso de felicidade, chegando a mostrar o gigante esmeralda para o irmão Loki, que assiste a tudo de camarote, em cenas muito divertidas, mas que não conversam com os personagens apresentados nos dois primeiros filmes, me especial com o protagonista, que, embora tivesse doses de humor, tinha a arrogância pontual de um deus e a responsabilidade de um príncipe-herói, algo que não encontramos aqui. O mesmo se dá com Loki, que desde sua participação em “Vingadores” de 2012, se tornou um destaque maior que seu irmão e o queridinho dos fãs, tanto que  agora, sua personalidade traiçoeira acaba servido apenas para que ao final ele se arrependa e se torne também um herói, no pior estilo fan service.

 
Hela -  Uma Deusa, uma louca, uma feiticeira
  Mas embora as novas facetas dos personagens e a quebra de clima de um filme para outro me incomodaram um pouco, tem muita coisa bacana em “Thor: Ragnarok”, começando pela maravilhosa deusa Hela. Kate Blanchett está realmente divina como a deusa da morte e tenho que confessar que cheguei a torcer por ela após sua chega em Asgard e a sequência de pancadaria fodástica entre ela e o exército do lugar; assim como quando ela mostra que Odin encobriu (literalmente) que só conseguiu chegar onde chegou com sua ajuda e através da força. No entanto, deveriam ter dado um propósito maior a personagem, pois apenas dominar por dominar e destruir por destruir, acaba a transformando em apenas mais um vilão genérico, embora não totalmente esquecível de um universo já famoso por seus vilões pouco carismáticos.

    Outra coisa bacana é o planeta Sakaar e sua sociedade totalmente caótica. Começando por seu líder, o Grão Mestre interpretado por Jeff Goldblum que proporciona alguma das cenas mais engraçadas e malucas da história, como quando ele derrete seu primo por tentar fugir ou quando Bruce Banner aperta um botão da nave que os heróis roubam para fugir e surge um holograma com Goldblum cantando. Também é em Sakaar é que conhecemos a última Valquíria, interpretada pela gatíssima Tessa Thompson, que tem muito mais química com o deus do trovão do que a sensível Dra. Jane Foster, assim como a nova versão falante e sentimental do Incrível Hulk , sem contar com a trupe de gladiadores mais maluca do universo.


     Bom , “Thor Ragnarok” é um filme divertido, leve e que não muda NADA dentro do universo Marvel. . Me jogou na cara que o tempo de apresentar histórias voltadas para os fãs por parte do estúdio já passou e que agora, mais do que nunca, só a grana interessa e esse retorno financeiro será buscado a qualquer custo, mesmo que seja rebootando a franquia andando. Mas apesar dos pesares, o filme é  uma produção que vale a pena ser assistida e que embora fale sobre o fim de mundo causado por uma deusa da morte e onde os heróis fogem de sua prisão através de um portal chamado “Anus do demônio”, é um ótimo programa para levar toda a família para apenas desligar o cérebro e dar boas risadas.



domingo, 29 de outubro de 2017

ROOM 104 - (2017) quando um mundo cabe em um quarto.




   Ah, o planeta Terra! 510.100.000 km de área que servem como palco pra tudo a que se refere o fenômeno humano. Da descoberta do fogo a construção da primeira nave espacial, das guerras por comida entre tribos ao debate sobre a futura escassez de água, tudo ocorreu e ocorre em um único palco de infinitas possibilidades, o nosso pálido ponto azul! Mas, e se reduzíssemos ao extremo a escala desse palco? 

   Pois contar uma infinidade de histórias, tendo um único e pequeno palco é a ideia central de  “Room 104”, série criada e produzida pelos Irmãos Duplass (de “tranparent” e “Togetherness” (duas séries que nunca vi)), que passou meio em branco pela HBO nesse ano onde se confirmou que Jon Snow é um Targaryen (ops!) e que acabei descobrindo muito sem querer, mas que me trouxe uma surpresa tão agradável, como encontrar uma nota de 20 Reais solta no bolso de uma calça.    




   
   “Room 104” é uma série antológica que a cada episódio apresenta uma história diferente, seja no que se refere aos personagens, tema, estilo ou período histórico, tendo como único fio que conecta todas essas histórias, o palco onde elas são contadas, ou seja, o quarto número 104 de um hotel qualquer. Nesse universo de infinidades, somos apresentados histórias de terror, suspense, sobrenaturais, dramáticas e até a números de dança, com cada história sendo protagonizada por nomes conhecidos (ou nem tanto assim) do cinema, como Orlando Jones (American Gods), Nat Wolff (Dead Note), Melonie Diaz (the Belko Experiment) e Clark Duke (Kick-Ass) em uma história mais maluca que a outra e que merecem ser vistas ainda HOJE.

EP 3 :"The Knockandoo"
   Dessas histórias malucas, gostaria de citar, só para dar um gostinho, mas sem contar muito do que acontece, duas que prenderam minha atenção um pouco mais, tanto pelo clima que criam durante o desenrolar de cada trama, quanto ao final inesperado de ambos os episódios, que são os episódios 2 e 3, respectivamente intitulados de “Pizza boy” e “The Knockandoo”. 
 
“Pizza Boy”, que é estrelado por Clark Duke e conta com a participação de James van der Beek (o Dawson de “Dawson’s Creek”) e Davie-Blue, apresenta a desventura de um entregador, que se depara com um estranho casal ao entregar uma pizza no quarto 104, onde um marido empolgado e teatral deixa o rapaz cheio de incertezas, ao abandoná-lo sozinho com sua sensual e carente esposa.  O episódio me ganhou por sua crescente de tensão, que chega a seu ápice, quando o marido retorna, trazendo o dinheiro da pizza, insegurança e violência, em uma situação que só é superada pelo final totalmente inesperado que o episódio tem.

 
Pizza Boy
Já “
The Knockandoo”, traz Sameerah Luqmaan-Harris como uma mulher cheia de problemas e traumas que vê sua entrada em uma seita como a solução de seus problemas e fim de suas dores, para isso ela solicita a visita, no quarto 104, onde está hospedada, de um missionário (Orlando Jones ) que a ajudará em sua “Transcendência”. Nessa história o que mais gostei foi o clima, onde após uma preliminar de drama  que beira à denúncia contra seitas religiosas, somos lentamente mergulhados em um clima de suspense sobrenatural que lembra, de forma sutil, os contos do “Rei de amarelo” de Robert W. Chambers, fato que é coroado por um final que flutua entre Lovecraft e Monty Python.

     Achei a série bem legal, embora alguns episódios não tenham passado na minha regra de dez minutos ( vejo 10 minutos, se não me prender eu salto fora), talvez por não se enquadrarem nos estilos que mais gosto, o que vendo por outro ângulo, é mais uma vantagem da produção, pois trabalhando com todos os estilos, vai prender o espectador em pelo menos uma história. Outra vantagem, é que cada episódio não chega a trinta minutos, o que dá agilidade a forma como a história é contada, não dando tempo de a trama criar barriga e aliviando quem , assim como eu, não aguenta mais series arrastadas que te comem uma hora sem precisar.


    Então, se você tem pouco tempo e quer ver algo diferente, ou se apenas quer assistir uma série meio maluca, mas muita legal onde cada episódio conta uma história totalmente diferente em estilo, trama, tempo e circunstância; fica aí então a minha dica, doze episódios de menos de trinta minutos que com certeza vão te conquistar através de uma história ou outra em uma produção que mostra que um mundo pode caber dentro de um quarto. 




sábado, 21 de outubro de 2017

ELECTRIC DREAMS (2017) - a série antológica de Philip K. Dick



Final de ano não é fácil meu amigo! Eu que elegi o setembro como meu mês de apocalipse, acreditava que o outubro seria mais tranquilo, mas aí começou o ciclo de férias de meus colegas e meu trabalho duplicou, vendi meu carro e não consegui transferir devido à burocracia do banco e, nem mesmo “Blade Runner 2049” consegui assistir no cinema! Mas tudo isso são “White man’s problems”, (mesmo eu não sendo branco!) e como já faz tempo que sigo a máxima de Confucio de que “Se o mundo está de pernas para o ar, queixo pra cima”, resolvi desencanar e dar uma relaxada. Foi quando fui surpreendido por um presente entregue pela emissora inglesa Channel 4, a todos fãs de Philip K. Dick, a produção “Electric Dreams”, uma série antológica onde cada episódio é baseado em um conto do autor e que mudou o status do meu mês de “tem que melhorar”, para “nada mau”!

A Série, que contará (pois no momento que escrevo se encontra na metade) com dez episódios em sua primeira temporada, estreou no canal inglês nesse último dia 17 de Setembro e traz em seu elenco grandes nomes do cinema para dar vida aos personagens imaginados por Dick, como Benedict Wong (“Dr. Estranho”), Steve Buscemi (Cães de aluguel), Terrence Howard (Homem de Ferro), Bryan Cranston (Breaking Bad), Vera Farmiga (Invocação do Mal) entre muitos outros atores e atrizes que, somados a diretores conhecidos do publico gringo, dão peso a produção da terra da rainha.

Até o momento assisti aos quatro primeiros episódios e o que posso dizer é que a série consegue adaptar com bastante competência todos os conceitos, questionamentos e estranheza que marcam as obras de Philip K. Dick, com a vantagem de ainda possuir todo charme das séries inglesas, que sempre me pareceram menos voltadas para efeitos especiais mirabolantes e mais inclinadas para o roteiro e realização da história.

Sobre esse peculiar clima inglês presente na série, o próprio canal responsável pela obra carrega uma grande parcela do crédito. Já calejada em produções de sucesso, como a minissérie de terror “Dead Set” e sendo quem transmitiu originalmente as duas primeiras temporadas da aclamada “Black Mirror” (ambas as obras de Charlie Brooker), o Channel 4 segue levando ao público um conteúdo que atende as expectativas de quem é fã de ficção científica ou de realidades fantásticas, mas sem perder aquele clima melancólico e acinzentado da Inglaterra e que parecem aproximar as situações mais absurdas com a realidade.

Mas chega de falar de produção e vamos ao que interessa: As histórias.




Como eu disse acima, a série segue o tom dos questionamentos que pautaram toda a obra de Dick, como sua dúvida sobre o que é a realidade, o que nos torna humanos e nossa evolução como espécie, só que de uma maneira muito mais fiel à obra do escritor do que qualquer outra adaptação fez anteriormente, pois embora muitos dos contos e livros de PKD tenham sido levados para o cinema (o próprio Blade Runner é o maior exemplo) muito se utilizou do conceito, mas quase nada teve daquele espirito psicodélico que mesclava o quase absurdo (dê uma olhadinha no livro UBIK) com visões de um futuro não muito otimista e dúvidas humanas, coisa que essa antologia fica muito mais próxima, o que agrada muito a quem é fã, mas pode causar um estranhamento a quem só conhece o escritor por suas adaptações cinematográficas.

Steve Buscemi, como Ed
Nesse contexto de estranheza, nenhum episódio que assisti vence o intitulado “Crazy Diamond”. A história se passa em uma realidade onde tudo que é orgânico começou a se degradar e apodrecer, tanto a comida, como a própria terra e até mesmo as pessoas, parecem caminhar em passos rápidos para a entropia, mas a ciência ainda busca uma solução, então se criam as “Consciências Quânticas” (Os CQ), uma espécie de “pilha genética” baseada nos genes de porcos, que revitaliza aqueles que começaram a falhar, em uma ideia de mundo que lembra, também, o que o autor apresenta no livro UBIK, só que nesse conto não se encontra dentro de um sonho de “meia vida”, mas na realidade. Nesse Universo conhecemos Ed (Steve Buscemi), um cientista especialista em CQ que sonha em fugir do mundo em deterioração em uma viagem pelo mar, junto com sua esposa, até uma distante ilha onde ainda reina a normalidade; só que o aparecimento de uma mulher misteriosa o acaba prendendo a uma trama que envolve conspiração, contrabando e traição.


Robô RB29, do ep: "Planeta impossível"
Outro que chamou minha atenção, justamente por ser o contrário do comentado acima por ser muito mais pé no chão (dentro do que alcança o autor) foi o episódio “The Commuter”, que longe de falar de tecnologia ou futuro, se passa nos dias de hoje e aborda dimensões paralelas. Nessa história, o ator inglês Timothy Spall vive Ed (também) um funcionário de uma estação de trem, que vive um momento familiar difícil, com crises constantes de seu filho que sofre de bipolaridade e o afastamento visível de sua mulher; é quando em seu trabalho uma passageira lhe pede uma passagem para uma estação que não consta nos mapas ou registros e simplesmente desaparece; intrigado ele resolve pegar o trem e investigar, chegando um uma misteriosa cidade no meio do nada, aonde a felicidade e paz chegam a perturbá-lo. Chegando em casa, tudo está mudado, não há registros do nascimento de seu filho e sua mulher está muito mais próxima e amorosa, como se uma nova linha de tempo fosse formada, mas dia após dia, Ed vai sentindo que algo está faltando e resolve voltar a cidade, percebendo que o dia que vivenciou lá parece se repetir e que aquela felicidade toda, talvez não valha a fuga da realidade.

Gostei bastante dos episódios que assisti. O estilo puro de Philip K. Dick, abordando o futuro, dimensões paralelas, inteligência artificial, sem negar os questionamentos humanos, misturado com o estilo inglês de produzir TV, que além do clima britânico que transmite todo um ar de melancólico ainda brinca com as cores, dando mais tons pastel quanto mais imaginativa e estranha é a situação, conseguiu me segurar até o final de cada episódio.

 Então, se você quiser mergulhar em um universo baseado na mente brilhante de um dos grandes nomes da ficção científica e que mudou o status do meu mês, assista a “Electric Dreams” e dê uma chance para toda maravilha e estranheza que são frutos da Obra de Philip K. Dick.


Fica a dica.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

"GUERRA DO VELHO" de John Scalzi

   


    A vida é uma guerra onde, ano após ano, vamos sendo expostos a todo tipo de atrocidades e frustrações. É nela onde criamos laços com outros como nós, mas logo nos habituamos a perdê-los e, se temos sorte, chegamos ao final da última batalha com boas histórias, alguns arrependimentos e muita saudade. Mas, e se aos setenta e cinco anos, tivéssemos uma nova chance de começar do zero, nos atirando as cegas em uma viagem sem volta, onde a única certeza é uma nova vida com muito mais aventura e violência, você toparia?
     O “E porque não?!” para essa questão, é o que dá início a trama de  “guerra do Velho”, livro do escritor John Scalzi, publicado no Brasil pela editora Aleph e que, como uma rajada de MU-35, chegou para quebra meu hiato para falar sobre o que eu mais gosto: ficção científica.

    O livro conta a história de um futuro onde a raça humana chegou à era das viagens interestelares e passou a colonizar diversos planetas, tendo contato com outras civilizações, das quais muitas hostis. É nesse universo que conhecemos John Perry, um publicitário aposentado e viúvo de 75 anos, que se alista nas forças coloniais de defesa (FCD) e parte para o espaço em uma viagem sem retorno para defender nossas colônias, sem imaginar quantos terrores e maravilhas presenciaria após sua última decisão no planeta Terra.


   
Edição da Apleph
Gostei bastante do livro, mas tenho que confessar que minha primeira impressão da história foi negativa e se estendeu assim quase até a metade da trama. Algumas das coisas me desagradaram foram, as muitas semelhanças com “Tropas Estelares” de Robert A. Heinlein e a mentalidade extremamente aberta e “pra frentex” de senhoras e senhores de 75 anos, mas superei a primeira ao focar mais nas diferenças entre as histórias dos autores do que suas semelhanças e a segunda me colocando no exato lugar do protagonista e seu grupo de amigos, que receberam ao final da vida uma nova chance de se aventurar e conhecer coisas novas, em uma situação como esta, se apegar a preconceitos e costumes do passado, não melhoraria a vida nova de ninguém.

   Mas a coisa que mais me desagradou, foi o fato de que tudo acontecia de maneira extremamente perfeita para o protagonista; ele é o cara mais simpático e agradável do mundo e que acaba se cercando dos velhinhos mais bacanas, inteligentes e descolados já na viagem até a nave que os levará ao lugar de seu treinamento; após as melhorias nos corpos dos recrutas (das quais falaremos adiante) é ele quem pega a recruta mais gostosona, é ele quem vira o queridinho do sargento que os treina e que, por isso, é eleito líder de pelotão, é ele quem, em sua primeira batalha, descobre como vencer os inimigos mais perigosos das FCD, é tudo muito perfeito... Aí eu me toquei que o livro é narrado em primeira pessoa e que o protagonista é publicitário, ou seja, ele estava colocando um pouco de “tempero” em si mesmo para se vender como o maior herói que já existiu, em um detalhe tão sutil e brilhante de Scalzi, que mudou minha percepção da história após eu nota-lo.

   



Mas fora esses desagrados iniciais com o livro, “Guerra do Velho” apresenta conceitos muito bacanas e sua história vai crescendo em uma medida tão acertada, que se torna bem difícil para um fã de ficção científica se decepcionar com o que o autor apresentou ao final das trezentos e sessenta páginas. Para começar temos toda a ideia de tecnologia das FCD, começando com a resposta para, como alguém consegue lutar em uma guerra, após os 75 anos de idade? Pois bem, no universo do livro, a raça humana teve contato com outras raças a quase um século e com isso, acesso a muitas tecnologias que se tornaram segredos das colônias, uma dessas tecnologias, é a transferência de consciência e é isso que possibilita a ida dos recrutas à guerra.  Na história, quando se chega aos 65 anos de idade, a pessoa decide se quer fazer parte das FCD dez anos mais tarde e nisso, vários testes são realizados e amostra de sangue e pele retirados, o que os futuros soldados desconhecem (pois nenhum cidadão da terra sabe nada do que ocorre nas colônias) é que um novo corpo, repleto de alterações e melhorias, vai sendo maturado e deixado a sua espera, para quando este  resolver de uma vez sair de seu planeta natal. E o corpo é incrível! Com olhos de Gato para enxergar melhor na penumbra, com corpo na melhor forma atlética possível, com sangue que transporta mais oxigênio e coagula mais rápido para evitar hemorragia, um computador e assistente pessoal instalado no cérebro e uma pele verde rica em clorofila para ajudar a obtenção de energia.

   
Scalzi
 Mas o que mais me agradou foram os conceitos referentes aos alienígenas que as FCD vão de encontro para garantir a segurança dos colonos Terráqueos no universo. Os primeiros a aparecer em batalha e grandes rivais misteriosos da humanidade, são os aliens conhecidos como “Consus”, uma raça extremamente avançada e detentora de tecnologias infinitamente a frente das que aparecem no livro, mas que se limita a ir a campo de batalha com as armas no mesmo nível dos rivais que encontram. Sua aparência é descrita como semelhante a de um inseto meio humano, com quatro braços, sendo que os de cima são duas lâminas extremamente afiadas que eles também utilizam como arma e suas entradas nos planetas são sempre realizadas com rituais e cerimônias, tornando as intensões e razões desses inimigos misteriosas. Também temos os Covandus, seres humanoides de algumas polegadas, que conseguem um relativo sucesso contra a raça humana utilizando sua força aérea em miniatura, ou o misterioso fungo da colônia 622, uma entidade coletiva inteligente que dominava o planeta e que esperou o momento oportuno de atacar e matar todos os colonos adentrando pelas vias aéreas dos coitados e excretando ácido em seus pulmões, fato que faz com que a raça humana desista do planeta em questão, ou ainda os antropófagos Rraeys, criaturas de características que lembram aves e que enxergam na raça humana uma iguaria sem igual; são estes últimos os responsáveis pelo massacre do planeta Coral, o ponto de virada do livro e que dá início a uma sequência de batalhas e lutas que alavancam a trama com muita ação.


   Pois bem, Eu poderia escrever parágrafos e mais parágrafos sobre o livro, citando a relação do protagonista com seus amigos, seu crescimento dentro das FCD, explorando a possível ditadura e, quem sabe, distopia por de trás do governo colonial, ou simplesmente falando sobre as “Brigadas Fantasmas” o time de elite das FCD, mas como na maioria dos livros que resenho, não fiz questão de me aprofundar para que quem conhecer por aqui e se interessar pela obra, não tenha suas expectativas totalmente estragadas por esse texto. Deixo aqui só a certeza de que "Guerra do velho” é um livro divertido e que apresenta um universo extremamente interessante e para quem, assim como eu, se incomodar com um protagonista que não erra, digo para ter paciência; para quem enxergar semelhanças com outras obras, calma, há muito mais originalidade do que homenagens. Faça então como os recrutas da FCD e deixe de ser velho leia a obra de John Scalzi e mergulhe em uma viagem sem volta repleta de aventura, ação e violência, tal qual as batalhas da vida, mas com garantia de muito mais diversão do que frustrações.


domingo, 24 de setembro de 2017

EXTINCTION (Apocalipse (2015))


     Como dito no post anterior, o mês de setembro, para mim, é quando tudo que tem que dar errado, se concretiza. No entanto, nesse ano não foi só para a minha pessoa que setembro foi terrível, pois, depois de quatro furacões, três terremotos e de um esboço de guerra nuclear entre EUA e Coréia do Norte, descobri que o mundo poderia ter acabado na data de ontem (23/09/17) ao colidir com o planeta Nibiru (que deve ser o planeta natal do ET Bilu). Mas, por mais sorte do que juízo, o planeta vagante nos deu um bolo e a terra ganhou mais alguns anos para agonizar na mão dos humanos e, para comemorar, resolvi procurar por um filme que me transmitisse todo espirito desse bendito mês que parece que não tem fim.

  
Foi assim que encontrei “Extinction” (2015), ou como ficou chamado aqui na terra do mico-Leão dourado, “Apocalipse”; produção roteirizada e dirigida por Miguel Angel Vivás, que apresenta um mundo, onde uma infecção transformou grande parte da população em criaturas raivosas e antropófagas (para não dizer zumbis), mas onde a raça humana conseguiu se organizar e arranjou uma maneira de exterminar os monstros,  reduzindo a temperatura do planeta até níveis árticos e assim despachando os mortos-vivos por congelamento. É nesse mundo, nove anos depois desse extremo, que encontramos Patrick (Mathew Fox (de Lost)), Jack (Jeffrey Donovan) e sua filha Lu, as últimas três pessoas vivas da cidade de Harmony, que, por problemas do passado não se falam, mas são obrigados a unir forças quando uma nova raça dos monstros surge depois de anos, agora adaptada para o frio e muito mais mortal.

    Olha, o filme não é a melhor coisa que vi nesses últimos tempos, mas também não é a pior. A trama é uma mistura de “Eusou a lenda” ( Do will Smith e não do livro), com elementos de “A noite dos mortos vivos” (Do Tom Savini, não do Romero) e dentro do que se propõem, consegue funcionar de certa forma trazendo o sentimento de solidão do primeiro filme  citado acima, ao apresentar a rotina de Patrick, que depois de nove anos sozinho, não age diferente do personagem interpretado pelo sobrinho preferido do Tio Phil, falando sozinho, sendo metódico em seus horários e na busca por mantimentos e mesmo adotando um cachorro como melhor amigo e confidente. Já Jack e sua filha Lu, são a síntese do isolamento e do medo do que pode estar rondando a casa, maravilhosamente bem desenvolvido por George Romero no clássico de 1968 e homenageado por Tom Savini em 1991.




   Misturando em si a essência de duas boas e conhecidas histórias, o filme garante alguns sustos e cenas tensas, em grande parte pelo elenco reduzido, que facilita com que o espectador se importe com cada um desses poucos sobreviventes , nisso a jovem atriz Quinn McColgan, que interpreta Lu, consegue se destacar ao transmitir (com a ajuda do roteiro) toda a ingenuidade de uma criança que nasceu em uma sociedade destruída e cresceu apenas na companhia do pai.


  
Lu ,Jack e Patrick
Só que o mesmo roteiro que nos faz acreditar em uma menina de nove anos,  nos deixa confusos quando ignora o que houve com aquela sociedade e em especial, como diabos eles conseguiram baixar  a temperatura do planeta?? pois eu assisti ao filme duas vezes e se foi dito, me escapou totalmente (Talvez seja uma consequência do inverno nuclear depois da guerra  EUA x Coreia do Norte). Da mesma forma, a produção toma algumas decisões e depois desiste das mesmas sem mais nem mesmo, como quando o personagem de Jack parece estar enlouquecendo e uma voz começa a influencia-lo, vinda de seu aparelho de rádio amador  dizendo para que ele não aceite mais desaforos do vizinho Jack, o que é ignorado sem mais nem menos antes da metade do filme. Soma-se ainda a isso algumas conveniências de roteiro, como o fato de os protagonistas só conseguirem contato com outros grupos de sobreviventes, 9 anos após o isolamento e justamente quando a nova raça de zumbis começa a surgir; mas se não existissem certas conveniências na trama (assim como na vida) a história não se moveria, então é possível ligar a suspensão de descrença e deixar o filme seguir.



   Pois bem, "Extinction" foi a descoberta mais acertada para representar o meu mês de Apocalipse. Um filme mediano, que conta o drama de dois ex-amigos que no meio de um apocalipse Zumbi e com o planeta congelando, se isolam em suas casas remoendo as dores do passado enquanto o mal lá fora só cresce. Uma produção que mesmo com pouca grana e com muitos clichês, consegue ser competente (embora por vezes arrastado) em criar um clima de tensão, solidão e mostrar que, mesmo nas situações extremas, os problemas de relacionamento ainda são os mais difíceis de resolver. Então, se assim como eu, você teve um mês daqueles que lembra lembra um filme de terror, assista a "Extintion" (ou Apocalipse), um filme muito mais divertido e bem menos aterrorizante do que um mundo com quatro furacões, três terremotos e um mês de setembro de quarenta dias.

   





sexta-feira, 22 de setembro de 2017

TURBO KID (2015)




     Todo ano nessa época é igual, um clico parece se fechar e tudo que pode dar errado na minha vida, realmente dá. Tanto que, intimamente, eu costumo chamar Setembro de “o mês do Apocalipse”. No entanto, esse ano decidir não me abalar muito e celebrar o mês de tumultuo com uma temporada de filmes que tem tudo a ver com ele, ou seja, destruição, caos, estranheza e ...apocalipse.

    E para dar uma melhorada na energia, hoje vou falar sobre um filme que oscila entre a comédia e o Gore de maneira despretensiosa e que descobri muito sem querer no catálogo daquele serviço de streaming famoso, que adora estragar adaptações de mangás e do defensor de Kunlun, trata-se de “TURBO KID”, filme canadense de 2015, escrito e dirigido por Anouk Whissel, François Simard e Yoann-Karl Whissel; e, estrelado por Munro Chambers e Laurence Leboeuf , todas pessoa que nunca havia ouvido falar antes e que duvido que ouvirei novamente.

   
O Filme conta a história de um garoto (Chambers) que vive sozinho em um mundo pós-apocalíptico. Ele é fã de quadrinhos, em especial de um personagem chamado “Turbo Rider” e sobrevive catando e revendendo quinquilharias no mercado que se organizou após o fim da sociedade. No retorno de uma dessas vendas, que ele conhece Apple (Laurence Leboeuf), uma estranha e animada garota, com quem vai nutrir algo mais que uma amizade. Mas em mundo onde a sobrevivência fala mais alto, a força é a única lei, então, em uma incursão pelo “lixão” (como denominam o que restou da cidade), Apple é capturada e levada até Zeus  (Michael Ironside) o chefe da gangue que domina o lugar; Porém, O Garoto vai descobrir que as histórias em quadrinhos que lia eram uma homenagem a um herói real, que morreu lutando contra a causa do apocalipse que os atingiu e, munido da maior arma de seu herói, o garoto se tornará Turbo Kid e partirá para resgatar Aplle e derrotar o Infame Zeus.

        Não se assuste se a sinopse do filme parece brega, realmente era para ser assim. “Turbo Kid” é uma homenagem despretensiosa ao cinema de baixo orçamento dos anos oitenta, sendo um dos primeiros a seguir a moda ditada pelos "Guardiões da Galáxia" (2014) de James Gunn, porém se assemelhando mais com os filmes anteriores do diretor, como "Super" e "Projeto Belko" devido a sua mistura de humor e ação visceral, do que com o milionário Blockbuster da Marvel studios. 



     Já no inicio do filme, quando somos apresentados ao universo da trama, temos um pequena mostra do que está por vir, quando depois de ouvirmos um narrador contar um pouco do que houve com a sociedade, recebemos o mórbido aviso “Bem vindos ao futuro, bem vindos a 1997”, como se filme fosse realmente uma produção oitentista. Logo após isso conhecemos o protagonista e visualizamos sua rotina de catador, que após encontrar algo que possa trocar por água e comida, segue seu caminho em um vídeo clipe super para cima, típico dos filmes da sessão da tarde, com o garoto voltando para casa em sua bicicleta cross e ouvindo rock carregado de sintetizadores e teclados em suas fitas cassetes enquanto desvia das cabeças de pessoas desavisadas cravadas em estacas pelo caminho.

     
Vilões e Heróis de Bike
Mas não pára por aí, além da influência musical e visual dos anos oitenta, o filme também traz diversas referências, como a temática frequente de mundo sem água, como no clássico trash "Crepúsculo de Aço" (1987) estrelado por Patrick Swayze e falta de combustível, tal qual "Mad Max". Sobre a falta de combustível, o roteiro toma uma decisão totalmente crível, que é , na falta de motores a explosão, todos andam de bicicleta; o que faz sentido e ao mesmo tempo dá um ar cômico a trama, com todo mundo pedalando pra lá e para cá. Já no tocante a falta de água, a história toma contornos mais mórbidos, apresentando uma máquina que transforma pessoas em água pura, que é o que Zeus o vilão está fazendo e para tal
capturou Apple, assim como Frederic, o chefe da Gang Rival, que se tornará um futuro aliado de Turbo Kid.


      Mas não é só isso ( o Gerente enlouqueceu) mais tarde descobrimos que o que levou a destruição da sociedade é mais um clichê dos tempos dos permanentes e roupas multi coloridas, que são ... os robôs! Sim, meus amigos, quem destruiu o mundo como conhecemos, foram os seres mecânicos  revoltados, em uma homenagem nada discreta ao "Exterminador do futuro", com a vantagem de que nesse mundo alguns robôs ficaram de boa com as pessoas e até se apaixonam por elas (ops!)

     
Melhor Arlequina
No entanto, sem só de referência vive esse filme, ele também influenciou outra trama, ainda mais trash que ele mesmo. Sim senhores, Turbo Kid também é cultura e com a personagem da Apple, deu base a outra personagem também empolgada e insana, mas que diferente da original canadense,
alcançou muito mais sucesso (embora seu filme seja muito pior), trata-se da Arlequina de "Esquadrão suicida", que até hoje brilha nos coraçõezinhos dos DCnautas, sem que muitos desses saibam que um anos antes, em um filme com um décimo do orçamento, uma atriz desempenhava exatamente o mesmo papel E O MUNDO PRECISA SABER DISSO!!!


      Além de tudo, o filme tem uma sequência final de combate que mistura comédia pastelão, violência em excesso e sangue sem fim, que me fizeram aplaudir de pé sem saber exatamente por qual das razões.

        
      Pois então, "Turbo kid" está lá, flutuando tranquilamente entre outros diversos títulos naquele bendito serviço de streaming; discreto e impassível, mas certeza de diversão garantida. Um filme que mostra que não é preciso gastar malas e mais malas de dinheiro em um filme para que ele seja divertido e nem atola-lo em efeitos especiais para chamar a atenção, basta uma boa ideia e alguns atores desconhecidos para aceitar o trabalho. Um filme que caminha entre o cômico e o Gore, mas abraça com força os clichês da década de 1980 sobre o apocalipse e que me arrancou muitas risadas nesse meu mês tão sombrio.




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

ATÔMICA (2017)



O Ano é 1989; Nos E.U.A, Bush pai assumia seu cargo de presidente; Na China, um estudante desconhecido parava uma coluna de tanques durante o protesto na praça da paz celestial; A Rússia se retirava do Afeganistão e no Brasil, Raul Seixas morria e Pedro Bial fazia sua mais relevante reportagem informando que o muro de Berlin caia, dando fim a vinte oito anos de divisão alemã. É durante esse período tão conturbado de nossa história que se passa a trama de um dos grandes filmes de 2017 e que aguardei ansioso desde seu primeiro trailer, trata-se “Atômica”, Thriller de espionagem e ação dirigido David Leitch e estrelado pela maravilhosa Charlize “Furiosa” Theron que estreou no final de Agosto para fechar o mês com um tiro certeiro e abrir Setembro com o pé na porta.

O filme conta a história de Lorraine Broughton (Charlize Theron), uma agente da MI6 que, após o assassinato de um colega em Berlin, que possuía uma lista contendo o nome de todos espiões em operação dos dois lados do muro, é enviada para Alemanha e incumbida de recuperar o material, que além de tudo possui a identidade de um perigoso agente duplo.
Às vésperas da reunificação alemã e contando com a parca ajuda do chefe da estação local, o pouco ortodoxo David Percival (James McAvoy), Lorraine terá de usar todo seu charme e talento como especialista em combate corpo a corpo e evasão para sobreviver ao derradeiro e mais sangrento jogo de espiões da guerra fria.



Cara, sabe aquele filme que consegue ser tão equilibrado, mas tão equilibrado que se você largar em uma corda ele fica paradinho? Pois Atômica é isso. Atuações convincentes, cenas de luta e perseguição de tirar o folego, reviravoltas na trama, fotografia e figurino bonitos, locações caprichadas e trilha sonora matadora, tudo muito bem organizado dentro de menos de duas horas de filme e que merecem ser creditados tanto à competência do diretor David Leitch, que vem crescendo no mercado de filmes de ação, quanto ao talento de Charlize Theron, que mais uma vez rouba a cena com sua atuação e carisma.

Quanto ao diretor, fica fácil reconhecer sua assinatura gráfica e estilo ágil quando comparamos "Atômica" com outro de seus filmes que foi bastante comentado, que é "John Wick" (2014), com a diferença que na nova produção Leitch mantém a ação frenética mas prende os pés no chão, o que não o impede de ousar, passeando com a câmera por ângulos que colocam o espectador quase como se fosse um passageiro durante uma perseguição de carros ou estivesse no meio das cenas de luta e tiroteio, nos presenteando com longas tomadas sem cortes e planos abertos que acabam por detalhar cada intenção dos presentes na tela sem a necessidade de quase nenhum diálogo, essa confirmação de estilo me fez, mais do que ficar empolgado com a história que estava assistindo, me sentir aliviado ao pensar que a sequência do filme do Deadpool está em mão competentes e capazes de superar a divertidíssima produção comandada por Tim Miller em 2016.

Já Charlize Theron está realmente magnifica, arrancando o fôlego de quem assiste ao filme e os dentes e sangue de seus inimigos na trama. A atriz Sul africana se reinventa mais uma vez e consegue deixar no passado seus papeis anteriores, como a marcante "imperatriz Furiosa" de "Mad Max" e Aileen Wuornos de "Monster" que lhe rendeu um Oscar; suas cenas de ação em nada ficam devendo às dos protagonistas de outros prestigiados filmes de espionagem e ação como "Jason Bourne", "John Wick" ou "James Bond", sendo que as coreografias de luta, os planos aberto e luz explorada pela produção parecem dar vantagem a Theron que, transparecendo força e sobriedade na atuação, se distancia de forma gigantesca de outras atrizes que também costumam viver papeis outrora interpretados apenas por homens e que, quase sempre, mostram uma postura quase caricatural repleta de caras e bocas pouco convincentes, como Angelina Jolie em "Tomb Raider" e "Salt", Mila Jovovich em "Resident Evil" e mais recentemente , Scarlett Johansson em "Ghost in the shell", sem contar que a atriz Sul Africana ainda abusa do charme e da beleza como armas fatais no jogo de espiões que sua personagem se envolve de forma infinitamente mais convincente do que mostrado em qualquer filme do gênero antes. Fatos que afirmam Charlize Theron, com "Atômica", como um dos grandes nomes femininos do cinema de ação.

O filme ainda tem a trilha sonora carregada com músicas da época em que se passa a trama, como arma secreta para mergulhar ainda mais o expectador dentro do universo explorado, tocando pontualmente canções consagradas como "Cat People" de David Bowie, "99 Luftballons" de Nena, "Father Figure" de George Michael, "Blue Monday" do New Order, entre outros grandes sucessos que ambientam o expectador naquele mundo e dão o ritmo e direção do filme com um artificio que parece ter se tornado moda desde "Guardiões da Galáxia" e que nesse filme funciona tão bem quanto, embora fique mais em segundo plano do que no filme da Marvel de 2014.

E Falando em Marvel, é importante lembrar que "Atômica" também foi baseada em uma HQ. A obra original, intitulada "A cidade mais fria" (Berlin, dividida pela Guerra fria, entendeu a referência?) foi escrita pelo inglês Antony Johnston e desenhada pelo ilustrador inglês naturalizado brasileiro Sam Hart e que pelo o que ouvi falar, posto que não li a HQ, é bem diferente do filme, principalmente no tocante a ação, o que , a meu ver dá mais crédito ao produção, por conseguir entregar uma releitura da história, que pega seus principais elementos acrescentando outras questões e escolhas, sem descaracterizar por completo sua intenção de mostrar um jogo de espionagem durante do declínio da cortina de ferro. Um exemplo que fica para os adaptadores de obras originais (em especial aos serviços de Streaming que acham que podem reinventar a roda adaptando animes e Mangás).


Então é isso, Com cenas de ação e perseguição de tirar o fôlego, uma trama cheia de reviravoltas onde ninguém sabe em quem confiar e carregado de estilo, "Atômica" chegou aos cinemas para reafirmar o poder da mulherada e divertir na medida certa. Traz uma protagonista que rouba a cena a cada segundo que surge na tela e um diretor que se firma a cada filme como uma das grandes promessas dessa leva que vem ganhando espaço, somando-se como principais responsáveis por cumprir cada expectativa que os trailers fizeram surgir em mim e me deixando ansioso pelas próximas produções da dupla. Então, que venha Deadpool 2 e que Charlize Theron continue a se reinventar e brilhar sempre... mas o mais importante, não confie em ninguém.