Troy,
Diesel e Mad Dog são três ex-detentos a pouco saídos de San Quentin que sonham
em dar um último grande golpe. A oportunidade surge quando o Grego, um pequeno
mafioso conhecido de Troy, encomenda a eles o sequestro do filho de um rival
que deve dinheiro a um de seus associados; com certa relutância, mas pensando no
dinheiro, o grupo aceita o trabalho e a partir daí todo o caos que sempre os
cercaram toma suas vidas por completo.
Assim
é “Dog eat dog” de 2016, ou como ficou chamado na terra das mineradoras nas
reservas florestais, “Cães selvagens”, filme baseado no livro homônimo lançado
em 1995 do escritor (e ex-presidiário) Edward Bunker, que ficou mais conhecido
por sua participação especial no filme “Cães de Aluguel” do diretor Quentin
Tarantino , no papel de Mr. Blue, e , tem como diretor e roteirista Paul
Schrader, conhecido por roteirizar grandes clássicos dirigidos por Martin Scorsese,
como “Táxi Driver”, “Touro Indomável” e “A última tentação de Cristo” e que
ainda faz uma pequena participação interpretando o mafioso Grego.
Essa
mistura dá todo um estilo à produção que consegue unir cenas de violência crua
a momentos de puro sarcasmo e humor. A montagem e fotografia do filme lembram
além de Tarantino, em muito os primeiros filmes de Guy Ritchie, pela agilidade
e por abordar o pequeno sub-mundo e seus atores semi-profissionais. Já as
atuações, na medida em que o filme permite, são muito bacanas, começando por
Willem Dafoe que interpreta Mad Dog e que além de parecer um maluco (como
sempre) nos proporciona uma das cenas de abertura mais viscerais e violentas
dos últimos anos, nos mostrando com que tipo de gente que a história vai tratar;
Outro que surpreende é Nicolas Cage, que consegue fugir de seus últimos papéis
entregando um sutil, almofadinha e violento Troy que, em oposição ao personagem
de Dafoe, começa morno e fecha o filme com um banho de sangue.
Infelizmente,
mesmo sendo roteirizado por um mestre e claramente inspirado no estilo de
grandes diretores, o filme se perde dentro de si, não sendo possível perceber
no decorrer da produção, o que realmente os personagens querem e as
consequências mais profundas de seus atos. Precisei recorrer a sinopse do livro
(pois não o li) para entender o que realmente movia os personagens e qual suas
intenções no primeiro momento, acabando por descobrir, que no livro, a ideia do
grupo de criminosos era aplicar golpes em traficantes, agiotas e bookmakers,
pelo fato destes não poderem procurar a ajuda da lei para os proteger (daí o nome da história: "cão come cão"!), algo que
é mostrado de relance no inicio do filme, mas que parece tão solto na história
quanto a última conversa entre os personagens Diesel e Mad dog, que é do nível
de uma novela do mesmo canal que passa Chaves.
Mas
mesmo com seus defeitos, “Dog eat dog” é um filme corajoso por suas cenas de
violência, onde nem crianças nem velhos são poupados e pelo estilo misturado
que causa uma estranheza divertida e certa nostalgia por filmes mais focados na
história e não em efeitos especiais ou as atuações mais dramáticas e sérias do
mundo, garantindo sensações que resultam em boas risadas, caretas de dor e
paralisia por constrangimento, três ingredientes essenciais para fãs de cinema,
sejam estes selvagens ou nem tanto.
Já cantava o Rapper Xis que
"A Fuga cinematográfica é pra quem pode" e eu comprovei
essa afirmação do glorioso ex-participante da casa dos artistas
essa semana, após assistir ao melhor musical de ação já escrito
pelo diretor Edgar Wrigth e que me fez ter vontade de pegar meu velho
Pálio 99 e sair cantando pneus pelas estradas da vida (isso se o
carro passasse de oitenta km/h e se eu não o tivesse vendido).
Trata-se de "Baby Driver", ou como ficou chamado aqui
abaixo da amazônia meridional "Em Ritmo de fuga"; thriller
estrelado pelo jovem Ansel Elgort, Jon Hamm, Jamie Foxx e grande
elenco , que fez com que duas horas da minha vida passassem correndo
tamanha diversão e se juntando a "Get Out" como uma das
poucas coisas acima da média que vi no cinema nesse amargo 2017.
O filme conta a história de
"Baby" (Ansel Elgort), um jovem motorista de Fuga que
trabalha para uma organização criminosa especializada em grandes
roubos que é comandada por "Doc" (Kevin Space). Após se
ver livre da dívida que possuía com seu empregador, devido a ter
roubado seu carro anos antes e , aparentemente , perdido uma valiosa
carga; Baby, agora buscando um recomeço ao lado de Deborah (Lily
James), é obrigado a fazer mais um trabalho com uma nova equipe
composta pelo casal Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eiza Gonzales) e o
violento vida loka Bats (Jamie Foxx), sem saber se conseguirá ser
tão rápido em fugir de sua vida antiga, como consegue ser quando é
perseguido pela polícia.
Que filme bacana! Edgar
Wrigth confirma seu talento como roteirista e diretor com uma obra
que consegue ser original, mesmo fundamentada em uma tradição do
cinema que são os filmes de roubo e fuga, ao inserir uma trilha
sonora que se identifica quase como um personagem da trama, flutuando
entre diegética e não-diegética o tempo todo e criando tensão e
êxtase a cada cenas, chegando a ajudar a aprofundar e revelar um
pouco da história do protagonista, inaugurando o gênero "musical
de ação", do qual, por ser o primeiro, o próprio filme é o
melhor.
Ainda sobre Wrigth, podemos
dizer que o filme não funcionaria se não fosse por sua direção. O
tom da história, que por momentos chega a ser violenta, mas não
perde o bom humor; a montagem ágil e a fotografia remontam de forma
clara aos demais filmes do diretor e tornam impossível que outra
pessoa guiasse a obra sem que fosse o próprio Wrigth. Outro ponto
positivo que faz com que o filme funcione é o ator Ansel Elgort, o
cara é muito carismático e consegue transmitir esse carisma mesmo
quando fica em um canto, de óculos escuros, em silêncio e ouvindo
música (como na cena onde é provocado pelo personagem de Jon
Bernthal) , ou quando toma a decisão de agir pensando em si e na
namorada, ao final do filme.
Falando em ação, o Wrigth
faz jus a sua linhagem de diretor inglês da nova geração,
apresentando uma história ambientada no pequeno submundo, tal qual
os primeiros filmes de Guy Ritchie e Matthew Vaughn, onde não
existem grandes famílias criminosas, ou crimes megalomaníacos, mas
o que não impede a apresentação de muita violência e, isso é
mostrado de maneira , hora sutil, como quando um personagem
simplesmente fala que se não o verem mais é porque ele morreu e ,
mais tarde, prestando a atenção, descobrimos que realmente isso
aconteceu e quem fez; ou, de maneira crua, como quando Baby dá um
fim no antagonista mais perigoso e sangue jorra na tela. Essa
oscilação de tensão é essencial na construção da crescente do
filme, que chega a seu auge quando o protagonista resolve dar um fim
em sua antiga vida e enfrentar as consequências disso e , quando
acontece, já estamos por completo a seu lado e vibramos com cada
coisa que dá certo para ele.
Mas as verdadeiras estrelas do
filme, sem dúvida, são as perseguições de carro. Tanto que até
mesmo eu, que não sou nenhum aficionado por veículos automotores,
fiquei com vontade de acelerar no meio do trânsito (vontade que me
foi saciada jogando "Need for Speed" com meu filho (no play
2)). Embaladas pelas músicas presentes nos ipods do protagonista,
temos cenas de ação onde a principal arma é o volante de um carro
e as cenas são tão bem conduzidas, que mesmo longas, não parecem
repetitivas ou cansam, outro mérito da montagem e direção.
Mas nem tudo é perfeito em
"Baby Driver". Uma coisa que senti falta é um
aprofundamento maior nos demais personagens, em especial ao do par
romântico de Baby, Deborah. Não sabemos nada sobre ela, a não ser
que teve uma mãe doente e que ela trabalha em uma lanchonete (e
odeia isso), seu personagem é quase vazio de pretensões ou
ambições, a não ser a única que combina com o protagonista, que é
fugir da vida que leva, mas nada explica o que a leva a espera-lo
(spoiler) por 5 anos, quando baby acaba preso ao final do filme. O
próprio Doc e seu bando também sofrem desse mal, acabei o filme
querendo saber mais sobre a história do personagem do Kevin Space,
que chega a levar o filho de oito anos para investigar o lugar de um
roubo, ou entender como o personagem de Jon Hamm, que , conforme
Batts conjectura, poderia ter sido um alto investidor de Wall street,
acabou assaltando bancos com sua striper preferida a tira colo. Mas,
mesmo assim, quando a vemos a história do filme como um conto
referente a um momento especifico na vida do protagonista, esquecemos
esses por menores e vemos que, apesar de sua presença, não diminuem
em quase nada a qualidade da produção.
Pois bem, eu poderia escrever
um texto com o triplo do tamanho deste, falando de como o filme é
divertido e destrinchando cada cena, mas isso acabaria com a
experiência de quem pretende assistir ao filme, então vou seguir o
exemplo de Baby, o protagonista do filme, e simplesmente acelerar e
fugir dessa responsabilidade. Posso apenas dizer, que repleto de
cenas maravilhosas de perseguição, ação na medida certa e um
trilha sonora de causar inveja ao diretor James Gunn, "Baby
Driver" cumpre a expectativa que criou desde seu primeiro
trailler e coloca mais uma vez o diretor Edgar Wrigth como destaque
pela sua obra autoral. Então se eu fosso vocês não perdia a
oportunidade e colocava a melhor música nos fones, os óculos
escuros e as luvas de couro e acelerava para o cinema para assistir
esse filme que passa correndo de tão bom que é.
Trailler
Acima, 6 minutos da abertura do filme, só para babar
Muitas pessoas adoram um
easter egg, aquelas mensagens escondidas dentro de filmes que fazem
referências a outras obras do mesmo universo ou que remetem a outra
produção memorável. Tem gente mesmo que se dedica a procurar essas
mensagens secretas e nos premiam com surpresas como a do cartaz de
"Batman vs Superman" no filme "Eu sou a lenda" de
2007, ou as diversas referências que evidenciam a união dos filmes
de um grande diretor, como no caso que inspirou o curta "Código
Tarantino", protagonizado por Selton Melo e Seu Jorge. Já eu,
que sou metido a diferentão, me sinto maravilhado quando percebo um
filme que usa metalinguagem para questionar a si mesmo e se
aprofundar nos dilemas do autor ou no tema que se propõem a abordar.
E foi esse maravilhamento, com algo tão sutil, que me prendeu no
filme "Sleigth" do diretor Justin Dillard, que estreou em
Abril na Gringa e chegou até mim por pura mágica.
O filme conta a história de
Bo, um jovem mágico de rua que usa seus talentos com truques para
sustentar a irmã caçula após perder seus pais. Sem conseguir
dinheiro suficiente de maneira honesta, ele acaba complementando sua
renda através do tráfico de drogas, trabalhando para um conhecido
nas noites de Los Angeles. No entanto, após conhecer uma garota
especial e tentar forçar sua saída do mundo crime adulterando as
drogas de seu fornecedor, para assim conseguir mais dinheiro e fugir,
Bo é descoberto, tem sua irmã capturada e precisa pagar com juros o
prejuízo que que causou a seu empregador ilícito, restando a ele a
espera de um milagre financeiro ou a utilização de seus dons para
salvar a vida da irmã.
O filme está longe de ser a
melhor coisa que o cinema nos proporcionou esse ano, não indo muito
além de um drama social com pitadas de ficção cinetífica e um
toque de filme de super-herói; seu ritmo é lento e os personagens
periféricos são pouco desenvolvidos a ponto de acreditarmos que a
única razão da personagem da gatissíma Seychelle Gabriel se
apaixonar pelo protagonista seja realmente mágica. Mas, como eu
disse acima, o filme me prendeu pela metalinguagem que utiliza para
falar de si mesmo desde seus trailers até sua conclusão e isso me
entregou satisfação com a produção a ponto de ser relevante para
ser resenhada.
O filme todo é uma espiral de
metalinguagem, começando por seus trailes. Seus primeiros vídeos
promocionais são um embuste, fazendo com que acreditemos que a
trama aborda a história de um rapaz que, de alguma maneira, possui
super-poderes; o que não é de todo mentira, mas que não ocupa nem
quinze minutos da trama e após assistirmos a produção, percebemos
que a intenção dos responsáveis era utilizar um truque ("sleigth"
em inglês) para que olhassemos para outro lado enquanto tinham a
pretenção para falar muito mais das dificuldades de um jovem
talentoso em criar a irmã sozinho em meio a um ambiente de violência
e descaso social, do que do nascimento de um super-herói.
Já no filme em si, o
constante close nas ferramentas do protagonista, onde vemos tanto
equipamento para manutenção de eletrônicos como um enorme poster
de Houdini, o mítico mágico rei das fugas, fazem referência ao
próprio protagonista, ele mesmo procurando uma maneira expetacular
de se livrar das correntes que o prendem na situação que se
colocou, sendo sua inteligência e talento a chave para isso. Outro
fato é que temos alguns diálogos que abordam os talentos especiais
do protagonista e sua moral, o que no decorrer da história vão ser
mostrados (ou não), como quando conversando com sua namorada, Bo
conta que se apaixonou por mágica ao conhecer um ilusionista de rua
que atravessava a própria mão com uma faca e que lhe disse que só
revelava seus truques a companheiros de profissão, o que ocorreu
anos depois quando ele voltou a encontrar o mágico e este lhe disse
como fazia, o que é , também, um espelho de como o próprio Bo,
consegue fazer; esse diálogo vai fazer ainda mais sentido ao final
da história, quando após dizer para , agora sua companheira, que
estava trabalhando em um truque novo, vemos apenas a surpresa no
olhar dela, ao espiar a oficina do protagonista por uma fresta na
porta, como se o segredo não pudesse ser revelado para nós, mero
público.
Mas como já comentado, nem
todos os truques que dão movimento ao filme funcionam. Se somando ao
pouco desenvolvimento dos coadjuvantes e ao ritmo da história que
por vezes cai abruptamente, a trama possui alguns arcos que não se
concluem e isso interfere direto com o fechamento do próprio
protagonista, como no caso de seu relacionamento de fornecedor de
drogas e cliente com a personagem de Cameron Esposito, que é a
gerente de uma boate. Em determinado momento, Bo sem saber mais o que
fazer para conseguir o dinheiro do resgate da irmã, furta uma
determinada quantia do cofre da cliente e foge, quebrando um elo de
confiança que havia entre os dois personagens desde o início do
filme, mas as consequências dessa quebra não são mostradas e
ficamos sem saber o que houve com a moça e tão pouco vemos
arrependimento ou questionamento por parte do protagonista ao final.
Outra situação semelhante é a ocorrida com o antagonista da
história, que passa quase toda trama falando em respeito e
utilizando de métodos agressivos contra quem ousa desafia-lo
(chegando a mandar amputar a mão de um rival) , mas que após o
embate final se mostra um covarde e assustadiço bandido de faz de
conta, quase não colocando empecilhos na atitude do protagonista
para salvar a irmã, fatos que somados ao final da história, onde
vemos Bo continuando a fazer mágicas na rua, demonstram que o
personagem não teve o crescimento que deveria após tudo que viveu,
o que torna toda a jornada vazia.
Entretanto, em meio a muitos
furos de roteiro e altos e baixos na trama, me diverti com o truque
que o filme faz consigo mesmo buscando nos enganar como se a própria
história contada fosse um mágico. Seu tom é bacana, lembrando a
estrutura de um pequeno conto, sem pretensão de se estender além
do que quer mostrar, o que em épocas de franquias gigantescas e
universos que não terminam de se expandir nunca por vezes cai bem.
Então se assim como eu, roteiros que se aprofundam dentro de si
mesmos te agradam e não ser enganado pelo trailer não te ofende,
ALACAZAM, esse é um filme que talvez você goste de assistir.
Imagina que você está em uma
festa e de repente seus olhos cruzam com uma pessoa linda. Ela te
encara com interesse e te dá um sorriso, pouco tempo depois vocês
estão saindo dali aos beijos e indo para o motel onde passam uma
noite maravilhosa, mas ao acordar algo não está certo, você está
amarrado em uma cadeira e a pessoa te explica que te passou algo,
alguma coisa que nem ela mesmo entende, só sabe que tem que passar
para outro para se livrar e lhe aconselha a fazer o mesmo, uma coisa
que só quem tem pode ver (e que agora você vê!) e que vai te
perseguir até que você repasse para outro, em uma maldição que
vai retornando aos demais amaldiçoados assim que o portador atual
morrer... Não parece terrível? Pois esse é o plot de "It
Folows", ou como ficou nomeado aqui na parte de língua lusitana
abaixo do equador "Corrente do Mal", filme de 2014,
escrito e dirigido por David Robert Mitchell, que depois de anos de
enrolação e cagaço finalmente assisti para minha grata satisfação.
O filme conta a história de
Jay, uma garota que após se entregar ao rapaz com quem estava
saindo (leia transar), recebe a notícia de que recebeu uma maldição
transmitida pelo sexo e tal qual a história descrita acima, vai
persegui-la até que ela passe para outra pessoa. Após se ver
seguida por bizarros andarilhos que ninguém mais vê, Jay pede a
ajuda de sua irmã e seus amigos e parte na busca de respostas,
levando consigo uma força maligna em seu encalço e a dúvida de que
se deve passar o mal a diante ou quebrar a corrente de alguma outra
maneira.
Esse deve ser o filme que mais
tempo posterguei para ver em toda minha vida, mas depois de mais de dois
anos de cagaço e desculpa esfarrapada, posso dizer que valeu muito a
pena ter reservado uma hora e meia da minha vida para assistir o que
a trama de David Robert Mitchell tinha de bom a ponto de ser levada
para Cannes e ser tão elogiado por tanta gente que o viu.
Para começar, o filme tem
toda uma aura de nostalgia, lembrando em muito as produções de
terror dos anos oitenta de diretores como Wes Craven, onde um
"monstro" persegue um grupo de jovens com o único objetivo
de aniquilar seus alvos, o que se soma a questão da maldição ter
relação com sexo, remetendo às vítimas de Jason Vorhees de
"sexta-feira 13", outro clássico oitentista. Esse clima de
filme do passado ainda agrega estranheza ao ambiente por onde a
história se desenvolve, pois observando a trama, não conseguimos
definir com clareza, por mais que tentemos, em que época que a
história se passa. Percebemos TV's de cubo e cinemas com pianistas
ao vivo, filmes em preto e branco, mas aparelhos modernos, como
celulares e Kindles, o que mais que estranhamento, acaba tornando a
história atemporal. No entanto, se excluindo as homenagens e
referências ao terror americano, toda a estrutura da história
parece ter muito mais influência do cinema oriental com seu estilo
investigativo e de tensão crescente, que prioriza mais o suspense e
o susto do que as mortes e o gore, tal qual o primeiro filme da série
"O chamado" e esse toque de terror oriental tão bem
conduzido por Mitchell, foi o que mais gostei na trama.
De vagar e sempre
Assim como nossos amigos do
outro lado do mundo, o diretor nos entrega uma história que te
prende pelo ar investigativo, onde a protagonista busca entender o
que está ocorrendo, e com o estranhamento que a trama vai passando
ao nos apresentar o conceito dessa maldição, terminando com a
compreensão, também comum nos filmes orientais, de que o mal é algo maior que o indivíduo e que é impossível escapar, sendo o
máximo que se pode fazer é seguir suas regras para poder
sobreviver. E Sabendo que não há escapatória além de seguir o
jogo que a maldição impõem, o filme ganha uma nova camada ao se
pensar nos acontecimentos que a trama deixa subintendido, como quando
a protagonista foge para a praia ou quando ela resolve assumir um
relacionamento firme.
Sobre a Fuga de Jay (a segunda
ou terceira) que ocorre no segundo ato da história, ela sofre um
acidente e, para deixa-la mais tranquila, seu vizinho pegador resolve
fazer o sacrifício de fazer sexo com ela para que a maldição (que
ele não acreditava ser real) passasse para ele e assim resolver o
problema, o que dá muito errado (leia-se: se ferrou!), então em
desespero, por ter presenciado algo tão chocante, Jay foge para a
praia, onde a vemos se despindo e entrando na água após avistar
bem a sua frente, três homens sozinhos em uma lancha; o que acontece
não é mostrado, mas ela volta para casa com os cabelos molhados e
passa dias trancada em depressão sem se sentir segura, até ser
convencida pelos amigos a tentar "Matar" seu perseguidor e
acaba se deparando com a criatura literalmente em cima de sua casa,
ficando claro naquele momento que três elos da corrente foram
quebrados, ficando a curiosidade de como tudo ocorreu com os azarados
amigos da praia que pensaram ter tirado a sorte grande.
Outra situação parecida com
a citada acima é quando Jay, já no final do filme, assume um namoro
com um de seus amigos de infância (que faz parte do grupo que a
ajuda) e este, já sabendo dos problemas que se envolver com a moça
pode trazer, tem uma ideia terrível, mas engenhosa, que embora
não comentada aparece em execução, que é Transar com prostitutas
depois de levar a namorada para cama e assim empurrar a maldição
para a maior distância possível, o que parece dar certo. No
entanto, como uma boa história com influência do terror oriental,
as pessoas que viram o outro lado não são mais as mesmas e a
sensação de estranhamento não se dissipa mais, terminando o filme
com o clima perpétuo de perseguição por parte de uma maldição,
lenta mas focada e que a qualquer hora vai alcançar suas vítimas.
Gostei muito do filme. Ele não
tem nada de especial além de boas referências, uma boa história
para contar e um bom roteiro e direção ( o que já é mais que 90%
dos filmes tem). Não há grandes efeitos especiais ou cenas de
mortes arrepiantes, mas trabalha com qualidade na tensão e clima de
suspense, te prendendo na cadeira na procura de respostas junto com
os personagens e as situações que ficam subintendidas (que vão
além das duas citadas acima) fazem com que a história fique viva na
sua cabeça e imaginando o que mais pode ter acontecido e o
acontecerá quando a criatura retornar até a protagonista e isso dá
ainda mais credito ao roteiro de David Robert Mitchell.
Então se quiser curtir uma
história tensa, cheia de mistério, bons sustos e com forte
influência do cinema dos anos oitenta e oriental, assista "Corrente
do Mal", mas acima de tudo lembre-se que, se em uma noite de
festa, ou em um passeio qualquer, seu olhar cruzar com alguém
desconhecido, que te oferecer um sorriso interessado e te arrastar
pela mão até um lugar tranquilo, procure antes saber mais sobre a
história dessa pessoa, pois nunca se sabe o que pode vir atrás de você depois.
"O bater de asas de uma
borboleta pode influenciar o curso natural das coisas e criar um
tufão do outro lado do mundo." Essa frase, que tenta definir o
"efeito borboleta", parte integrante da teoria do Caos, foi
utilizada de maneira conceitual inúmeras vezes na cultura pop para
dar movimento à histórias onde um acontecimento pequeno estimula
uma série de eventos que culminam, geralmente, em uma grande
catástrofe. No entanto, jamais uma produção havia sido resultado
desse efeito até Março desse ano, quando, com a influência de um
curta que dava ares sombrios a uma franquia televisiva voltada para
crianças, a Lions Gate trazia para o cinema "POWER RAGERS",
o reeboot cinematográfico da aclamada série dos anos noventa que
apresentou para uma geração a cara americanizada do universo dos
super sentais japoneses.
"Power Rangers"
reconta o início da história de cinco adolescentes (Jason, Billy,
Zack, Trini e Kimberly) que encontram as moedas do poder e com a
orientação do extraterrestre Zordon, se tornam os defensores da
terra contra os malignos planos de dominação de Rita Repulsa.
OK, eu sei que a primeira
coisa que passou pela sua cabeça é: "Por que esse tiozão está
falando de Power Rangers?" E essa é uma pergunta muito justa,
ao se imaginar que o público alvo da produção, não diferente da
antiga série, são as crianças e pré adolescentes. No entanto, a
curiosidade para saber como esse filme, que brotou da ideia de um
curta feito para a internet e que incluía mortes e traições ao
colorido cotidiano da molecada residente da Alameda dos Anjos, seria
executado foi o que me fez gastar duas hora da minha vida e que me
fez escrever esse texto.
Para começar, vamos falar das
coisas boas que o filme referencia, iniciando pelo clássico do
diretor John Hughes, o "Club dos Cinco". Assistindo os
primeiros vinte minutos não podemos ignorar a influência do filme
de 1985, que mostra a amizade de cinco jovens problemáticos (também
três rapazes e duas moças) que surge após o encontro na detenção
da escola e esse artifício é bem utilizado para explicar como
pessoas tão diferentes acabam mais do que se conhecendo, como dando
oportunidade de quem anteriormente ignoravam entrarem em suas vidas,
com destaque para o companheirismo que surge entre Jason e Billy. O
personagem do Power Ranger vermelho mesmo, vive uma cena que é
praticamente um control C Control V do filme de Hughes, quando tem um
diálogo com o pai no estacionamento da escola onde fica claro seu
conflito pessoal; Soma-se a isso, que ele , tal qual o personagem de
Emilio Steves em "Club dos cinco" também é um esportista
frustrado e que se sente oprimido pela expectativa da família.
Outra referência que o filme
me trouxe foi o filme "Poder sem limites" do diretor Josh
Trank, onde amigos entram em contato com uma descoberta misteriosa e
desenvolvem poderes telecinéticos em uma trama que acaba revelando
quem realmente é quem, o que me parece claro ao mostrar que a vilã
do filme foi uma ex-integrante dos Power Rangers corrompida pelo
poder que vislumbrou. Isso ainda se soma ao já mencionado curta, que
é referenciado no prólogo da história, que se passa na era dos
dinossauros e onde vemos as consequências da batalha da antiga
equipe comandada por Zordon e a destruição causada por Rita.
Uma turminha do barulho
No entanto, todas essas coisas
boas e referências estão reunidas na primeira meia hora de filme e
quase desaparecem da mente do espectador a partir do momento em que o
grupo se encontra na pedreira, onde descobre as "moedas do
poder" e começam sua jornada para transformarem-se nos
defensores da vida na terra. Depois desse evento, o filme muda de tom
e começa a se aproximar da ideia da série original, proporcionando
cenas e diálogos capazes de constranger até mesmo o público alvo
da produção televisiva clássica. Começando pela grande barriga do
filme, que é a dificuldade dos protagonistas "morfarem" e
que se estende por mais de vinte minutos da trama em um lenga lenga
que não agrega nada a história; essa dificuldade se revela ainda o
ponto mais decepcionante de todo o filme, pois só vemos os
personagens vestidos de power rangers quando faltam apenas vinte e
seis minutos para a história se encerrar, ou seja, em setenta e
cinco por cento de filme não temos a presença dos personagens que
dão nome ao filme.
A decisão de apresentar a
trama com a mínima presença dos super-heróis, remete a uma história
de origem que foca mais na pessoa do que em seu alter ego, seguindo a
fórmula de sucesso do primeiro filme do Homem-Aranha, de 2002; mas
nem mesmo isso é aprofundado, pois temos apenas menções aos
problemas dos protagonistas, que se apresentam na forma das
constantes brigas de Jason com o pai, que não são explicadas, pois
apenas somos informados que ele era o capitão do time de futebol
americano da escola e que machucou a perna em algum acidente (que não
é mencionado) e se transformou em um frustrado rebelde mimado, ou o
fato de Billy estar no espectro autista e ter perdido o pai
recentemente, também ao fato de Zack ser um ferrado que mora em um
acampamento de trailers e cuidar da mãe doente, ou de Trini não
conversar com os pais porque (aparentemente pelo diálogo que "os
cinco malandros tem em volta do fogueira") ela é lésbica. No
entanto, nenhum arco fez menos sentido para a história do que o de
Kimberly, a ranger rosa.
Kimberly, foi mandada para a
detenção por um fato terrível e que se revela como o principal
motivo dela não conseguir morfar (sempre isso!), ela roubou um nude
de uma amiga, que havia ficado com seu ex-namorado e enviou ao mesmo
questionando se era aquele tipo de garota que ele queria apresentar
para seus pais! A foto se espalhou pela escola (pelo menos parece ter
sido isso) e ela acabou na detenção, sem contar que antes disso ela
ainda bateu no EX... Esse problema poderia ser melhor resolvido, se a
personagem, durante a história e pelo seu passado, se sentisse tentada a
se debandar para o lado da vilã e assim conseguisse se redimir se
sacrificando ao final ou dando um exemplo de redenção, mas não,
quem a vilã tenta persuadir é a ranger amarela (porque é gay!),
enquanto isso, ainda vemos o líder da equipe (Jason) dizer a nefasta
postadora de nudes alheios que muita coisa circula pela internet e
para ela não ficar preocupada, COMO ASSIM?? ISSO É CRIME CARA!! o
arco ainda se encerra de maneira ridícula, quando a ranger rosa, de
posse de seu Zord voador, derruba uma estátua sobre o carro da ex
amiga e solta a frase "você mereceu!", essa é a mente dos
defensores da vida na terra! Nesse momento do filme eu quis que o Alfa mandasse outro meteoro!
Não consigo sentir repulsa por essa vilã
E o que falar da vilã e suas
motivações? A introdução da personagem, mostrando que ela era a
antiga ranger verde e que se corrompeu é muito bacana, mas nada
explica suas motivações e durante o filme só sabemos que ela quer
conquistar o universo com o poder do cristal Zeo, mas e onde veio o
poder para que ela matasse seus antigos companheiros? Quem deu aquele
cetro pra ela? e por que diabos ela como ouro? Disso não somos
informados. Eu mesmo queria saber quem foi o esperto que deu um
amoeda do poder para alguém chamada Rita Repulsa, tenho minha
desconfiança que foram os guardiões de OA, os mesmos que criaram os
lanternas verdes (por isso a cor da personagem) , pois se eles deram
um anel para um cara chamado Sinestro, porque não para uma Rita
Repulsa?! Se bobear o próximo vilão talvez se chame Filho da Póta,
para facilitar a identificação do possível traidor! Mas pior que
essa brincadeira com os nomes é a atuação de Elizabeth Banks como a
vilã, é um show de gritaria e caretas que somadas as fracas
motivações do personagem não parecem causar uma ameaça real aos
protagonistas, nem mesmo quando ela "mata" um deles, fatos
que se equiparam em desastre apenas ao design e efeitos especiais
dos Zords e Megazord, que não justificam o orçamento de cem milhões
de Doletas para a produção desse filme.
Aproveitando a citação do
Megazord, a cena de batalha do robô gigante, que é um clássico
dentre as séries super sentai, serve para comprovar a inversão de
valores que o filme vem trazendo durante suas duas horas. Depois de a
Ranger Rosa mandar o nude da colega, do amigo de Jason drogar um
touro, de Billy fazer bulling reverso com o valentão da escola e
Trini deixar sua mãe falando sozinha; nossos heróis saem da
pedreira, que estava sendo invadida por uma legião de monstros de massa
e vão para o meio da cidade na procura da vilã, causando destruição
por todo lado, no pior estilo "homem de Aço"! (não seria
mais correto levar os monstros justamente para pedreira?) onde as
consequências da batalha não são mostradas (eram dois robôs
gigantes lutando no centro da cidade, lógico que morreu gente) e ao
final, ficamos apenas com o ponto de vista dos protagonistas, olhando
de cima a população que os aplaude, mesmo depois que sua pequena
cidade foi reduzida a escombros.
Bryan Cranston feito de cristais azuis. Ironia?
Pois bem, sei que fui muito
duro com um filme baseado em uma série para criança de até dez
anos, mas quem se propõem a dar ares sombrios e problemas pessoais
mais sérios a uma trama, tem que conseguir que essa ideia se
mantenha linear durante o filme todo e não vá deixando de ser
importante como decorrer da história, assim como o farol moral que
deveria partir dos protagonistas fique claro e não escondido em meio
a desculpas de que "todo mundo posta fotos nua na internet".
Espero que a possível sequência, que fica em aberto com o gancho
que temos na cena pós-créditos, onde mais uma vez homenageando John
Hughes, dessa vez com uma sequência que lembra "Vivendo a vida
adoidado", temos um professor entediado fazendo a chamada e
perguntando por Tommy Oliver ( O ranger verde da série clássica).
Então é isso! Baseado na
aclamada série dos anos noventa, "Power Rangers" deu seu
passo inicial, mesmo que tropego, para a crianção de uma franquia
cinematográfica, se revelando ao final como um tufão com grandes
problemas de design, motivação e coerência de duas horas, iniciado
pelo pequeno bater de asas de um curta de 14 min e que para mim, pelo
menos, foi um desastre.
"O Loki, o Nick Fury e a
Capitã Marvel entram em um navio junto com o Fred Flintstone para
viajar para uma ilha onde mora um gorila Gigante...". Poderia
ser o início de uma piada ruim, mas é a base do filme "KONG –
A ilha da Caveira", escrito por Dan Gilroy, Derek Conoly e Max
Borenstein; responsáveis, respectivamente por obras da magnitude de
"Gigantes de Aço (2011)", "Monster Trucks (2016)"
e "Godzilla (2014)", que insatisfeitos com suas
colaborações solo, uniram forças para tentar levar a óbito uma
franquia nascida em 1933.
O ano é 1973 e as forças
armadas americanas estão começando a se retirar do Vietnam, em meio
ao tumulto, Bill Randa (John Goodman), responsável pela organização
Monarch, após prometer a aquisição de riquezas minerais que podem
cair em mãos russas, recebe recursos do governo dos EUA para se
dirigir a uma misteriosa ilha no pacifico. Temendo por sua segurança
e dos cientista sob sua responsabilidade, Randa também solicita
escolta militar e recebe proteção da equipe comandada pelo Coronel
Packard (Jackson), que os leva até a ilha juntamente com a fotógrafa
Manson Weaver (Brie Larson) e o especialista em sobrevivência James
Conrad (Tom Hiddleston). No entanto, o verdadeiro interesse de Randa
nada tem a ver com dinheiro, mas em mostrar ao mundo que monstros
existem e que nós, humanos, somos apenas convidados ignorados em um
mundo mais feroz que imaginamos e isso se revela quando o grupo pisa
na nada amistosa ilha da caveira, o lugar de fotografia mais bela do
mundo, mas que rivaliza em roteiro mais Trash com o King Kong do
Peter Jackson.
O filme é bem Ruinzinho! Não
chega a ser um Transformers ou algo do gênero, mas se esforça
bastante. Para se ter uma ideia, a produção conta com duas cenas
Gigantescas de ação, a primeira quando o grupo de cientistas chega
na ilha e se depara com o King Kong e a segunda no desfecho do filme,
que duram mais de vinte minutos cada, em uma história de duas
horas;ou seja, são intermináveis 33% do filme resumidos a
explosões, gritos e mortes, algo que certamente deixou Michael Bay
orgulhoso, mas que tira do espectador a capacidade de se importar com
os personagens da trama, que diga-se de passagem são muitos e muito
mal aproveitados.
Somando-se as intermináveis
cenas de ação, que transparecem uma necessidade de manter a
história sempre em um nível de adrenalina e tensão máximo, o
roteiro ainda deixa a sensação de que tudo que acontece poderia ser
resolvido sentando, conversando e buscando informações de forma
racional sem arriscar a vida das pessoas envolvidas. Vemos isso
quando analisamos as decisões da equipe, que resolve atravessar uma
tempestade para chegar a uma ilha desconhecida e cria pontos de
encontro sem nem mesmo fazer um reconhecimento do terreno , o que era
fácil, pois estavam de helicópteros!!! Essa dificuldade de
raciocínio só se mostra maior, quando, ao serem atacados por um
Gorila do tamanho de um prédio, resolvem revidar, ao invés de
reagrupar e se retirar de um local pouco convencional, por assim
dizer, em uma sequência de erros que nos faz entender porque os EUA
perderam a guerra do Vietnã para meia dúzia de fazendeiros.
Além disso, o filme ainda
sinaliza que toda pessoa com poder sobre uma organização é um
sociopata irresponsável em potencial. Tanto Randa, que é vivido por
John Goodman, quanto Packard, interpretado por Samuel L. Jackson, são
dois malucos sem precedentes que qualquer pessoal com mais de dois
neurônios não seguiria após cinco minutos de conversa, com a
vantagem de que o personagem de Jackson, tem a desculpa de ser um
militar que vê na guerra seu único motivo de estar vivo, enquanto o
de Randa, que confessa ser o único sobrevivente de um navio atacado
por um monstro quando jovem, um idiota que quer apenas provar ao
mundo que não era maluco e que para tanto se mostra um maluco.
Quem tem a melhor levantada de sobrancelha?
O filme ainda conta com o
maior desperdício de talento da história do cinema, colocando
atores do nível de Tom Hiddleston e Brie Larson, sem contar com
Toby Kebbell e os já comentados Goodman e Jackson, para
interpretarem personagens unidimensionais e esquecíveis. Toby
Kebbell, que protagonizou meu episódio favorito de "Black
Mirror", segue seu vacilante destino após o tenebroso Quarteto
Fantástico (2015) fazendo o papel de um piloto que acreditamos ter
relevância até o momento que um lagarto gigante vomita seu
esqueleto (sim é isso!), já Hiddleston e Larson, fazem o papel dos
piores profissionais em suas áreas, ele o de um rastreador e
especialista em sobrevivência, que não consegue salvar quase
ninguém que está sob sua proteção e ela uma fotógrafa premiada
que vai em uma ilha selvagem, cheia de monstros, encontra caveiras
gigantes, dinossauros, entre outros animais misteriosos e se preocupa
mais em tirar foto da tripulação do navio, sem contar que está
sempre com uma cara de pasma e com a sobrancelha levantada no pior
estilo Sandra Helena da novela "Pega-Pega".
Mas não se desespere ó
leitor, o filme tem coisas boas, como a trilha sonora e a fotografia.
A trilha sonora, como um filme que se passa nos anos setenta é
recheada de rock clássico contendo "Paranoid" do Black
Sabbath, "Bad moon Rise" do Creedence e até "Brother"
do nosso grande Jorge Ben, em momentos bem oportunos do filme e que
dão sentido as cenas que estão acontecendo ou situações que estão
por vir, o que é complementado pela fotografia maravilhosa e
palhetas de cores quentes que dão o ar tropical e fantástico da
produção, mas que, infelizmente é um tanto comprometida pelo vício
do diretor em repetir a exaustão em mostrar o pôr do sol na
terrível ilha ( que faz parecer que a equipe passou meses no lugar
ao invés de três dias) e o recorrente uso do recurso da Câmera
lenta, proporcionando até cenas de humor, onde se esperava tensão,
com destaque para o close em Jackson encarando o Kong e os soldados
passando correndo pegando fogo e o personagem de Hiddleston cortando
os mini pterodáctilos com uma espada.
Por do sol
Mas se você passou a semana
toda forçando seu cérebro no serviço e quer só deitar no sofá e
assistir monstros gigantes se digladiando, explosões arrasadoras,
muitas mortes e uma fotografia linda com uma trilha sonora de
respeito, nada tema, clique no play e se delicie com essa produção
de cento e oitenta e cinco milhões de Dólares e dois salgados e um
refri de roteiro e fique tranquilo, apesar de não honrar o nome de
uma franquia de mais de oitenta anos, a produção não consegue ser
pior (ou mais chato) que o tenebroso filme de Peter Jackson de
2005.
Pra fechar, achei bacana a
decisão do roteiro em deixar Kong na ilha ao invés de leva-lo
acorrentado para os EUA, até porque Kong estava na ilha desde antes
da segunda guerra e Macaco velho não bota a mão em cumbuca
(Pá-bum-tss), mas me entristeceu saber que esse filme terá uma
sequência em 2019, onde o rei dos Kong enfrentará ninguém mais,
ninguém menos que Godzilla e que eu terei de ir ao cinema pois meu
filho é o fã mirim numero um do monstro japonês....pois que comece
a preparação para o roteiro de Dan Gilroy, Derek Conoly e Max
Borenstein e que Deus nos ajude!
A
pedido dos sobreviventes os nomes foram alterados.
Por
respeito aos mortos o restante foi retratado exatamente como ocorreu.
Como já disse em posts
anteriores, estou saturado de filmes de Super-heróis. Tanto, que
mesmo o novo filme do Homem-aranha, que estava aguardando para ver se
a Marvel dava um novo frescor à franquia, após os dois meia-bocas
"espetacular Homem-aranha", não consegui disposição para
ir assistir. Porém, nenhuma frase define melhor a série da qual vou
falar hoje, do que a proferida em um filme de Super-herói (ou
anti-herói), no caso "Deadpool" de 2016, onde o
protagonista, entre uma piada e um tiro, fala que: "A
vida é um eterno descarrilhamento intercalada por alguns momentos
felizes."
Parece
brega (e é!) mas é impossível não pensar nessa
frase,
ao
assistir à nova
temporada da
brilhante série "FARGO" adaptada para TV e escrita por
Noah Hawley, baseada no filme homônimo dos irmão Coen e que depois
de mais de um ano e meio de hiato
voltou com tudo em uma terceira temporada que entrega um mundo cheio
de caos brindado com pequenos momentos de alívio em
uma
produção que, longe do subtítulo brasileiro
para o filme original,
onde se lia "uma comédia de erros", se sobre sai com a
qualidade de um drama de acertos.
Emmit & Ray
Nessa
temporada (que dizem ser a última) voltamos para o gelado extremo
norte americano, onde somos apresentados aos irmãos Emmit
e Ray Stussy (ambos vividos por Ewan Mcgregor), o primeiro um rico
empresário do ramo dos estacionamentos e o segundo, mais novo, um
fracassado agente da condicional. Os irmãos Stussy possuem uma rixa
devido a uma coleção de selos vintage, os
quais
seu pai deixou de herança para ambos, mas que o mais novo abriu mão
em
troca do
carro do
mais velho, que
assim fundamentou sua fortuna em cima de um golpe. Esse
amargor
de ser enganado jamais abandonou a alma de Ray, assim como a ganância
de Emmit
nunca foi totalmente saciada, então, anos
depois eapós
de receber um não, ao pedir o último selo para si, no dia de
aniversário de 25 anos de casamento do primogênito dos Stussy, e
sair da mansão de seu irmão, juntamente com sua namorada Nikki
(Mary Elizabeth Winstead) humilhado, Ray resolve contratar um de seus
clientes para roubar seu proprio irmão e pegar o que é seu por
direito. No mesmo dia, Emmit
recebe a visita do misterioso V.M Varga (David Thewlis),
"representante" da empresa que lhe tinha emprestado
dinheiro um ano antes para expansão, sem pedir nenhuma garantia e
esse se revela um investidor, não tão ortodoxo, por assim dizer.
A partir desse dia, uma onda de violência começará a dar tons de
vermelho à branca neve de minnesota, forçando a chefe de polícia
local, Glória Burgle (Carrie Coon) a sair de sua zona de conforto de policial do interior e encarar todo mal e destruição que a
ganância e o
egoísmo podem causar por onde passam.
Cara!
Que temporada fantástica!! Noah Hawley se superou de novo trazendo
para TV toda acescência dos filmes dos irmãos Coen, com sua violência,
humor, solidão e impotência diante de um mundo abarrotado de
burocracia e decisões idiotas; tudo maravilhosamente bem aprofundado
com o auxilio de personagens carismáticos, uma trama inteligente que
vai ganhando velocidade e força a cada episódio e atuações
perfeitas da parte de um elenco de primeira linha.
Chefe Glória Burgle & Nikki Swango
No
que toca a trama, a série não foge do espirito do longa lançado em
1996, mostrando a decisão de uma policial do interior, nessa
temporada interpretada por Carrie Coon, em solucionar um assassinato
que serve como ponto de partida para uma série de crimes de
proporções e alcance cada vez maiores do que a visão de mundo onde
ela habita e que revelam agora, muito além da força de um submundo
sempre presente e, nessa temporada extremamente voraz, também os métodos escusos utilizados para o acumulo de riqueza e poder, assim
como toda impotência causada pela burocracia do cotidiano e preguiça
de quem só quer receber seu salário e ir para casa sem se incomodar
com seu dever. Somando-se a isso a série ainda nos mostra o dano que
a necessidade de se impor pode causar em todas as relações, em
especial na protagonizada pelos irmãos Stussy, que é o mote para
tudo de errado que vai acontecendo durante a temporada em uma
sequência de erros de atitudes e comunicação que fazem o
espectador ir da esperança a aflição de uma cena para outra.
Essa
sequência de erros é muito bem orquestrada por Hawley e
interpretada de maneira primorosa por Ewan Mcgregor, que faz os
irmãos em conflito. McGregor está fantástico, dando nuances de
personalidades distintas e completamente equivocadas em suas maneiras
de agir, conseguindo nos convencer tranquilamente de que se tratam de
pessoas totalmente diferentes embora a aparência; fato que se
confirma quando o irmão mais novo se passa pelo outro e imita seus
trejeitos e confiança para aplicar um golpe. Outra atuação que
chama a atenção é a de Carrie Coon, que vive a policial Glória
Burgle e que representa além da justiça em atuação, também a
dificuldade de cumprir seu dever meio a um mundo de pessoas que não
se importam ou buscam o caminho mais curto, sua história é sofrida
e suas cenas tensas, tanto devido a indiferença ou desprezo que ela
sofre no pequeno mundo onde vive, pois perdeu seu marido para um
homem, cria um filho sozinha e está sendo destituída do cargo de
chefe de polícia, como pelo fato de ter que investigar sem nenhum
crédito uma série de crimes que apenas sua dedução dos fatos
mostra como interligados e que vão se revelando maiores que ela
imagina; Glória é tão apequenada frente ao mundo onde vive, que
nem mesmo os equipamentos eletrônico parecem notar sua presença e
suas sequências lutando para ser reconhecida por um aporta
automática ou equipamentos sensíveis a presença dão o alivio
cômico na medida certa a um personagem que tem o mundo em suas
costas. Mas o personagem que rouba a cena, para mim, é o
interpretado por Mary Elizabeth Winstead, que é a namorada de Ray
Stussy, Nikki Swango, uma vigarista fã de carteado e que ao logo da
temporada se revela muito mais do que um rostinho bonito, como uma
estrategista digna de ocupar o trono do grande chefão e que
proporciona cenas de ação fantásticas ao lado de um personagem
resgatado da primeira temporada em três episódios que deixam muitos
filmes desses últimos anos no chinelo.
V.M Varga (ao centro) e seus capangas
Quanto
a história, de início achei repetitiva, pois ignorei o fato dela se
fundamentar na mitologia da série, que tende a ser ciclica e a
comparei com sua primeira temporada, mas no decorrer dos episódios,
após conhecer melhor os personagens, a trama e ficar embasbacado pelo roteiro, me apaixonei. Hawley, sem querer ser pretensioso,
entrega um retrato sangrento de nosso mundo, com aquele toque de
ironia típica dos filmes dos Coen, onde os alvos, além do
descrédito de algumas pessoas, a arrogância de outras e a estupidez
de muitos, agora são a crença na falácia da liderança e a
burocracia que engessa o movimento natural do mundo. Isso fica claro
com os diálogos que se repetem durante a temporada onde as pessoas
mais dependentes teimam em definir seus chefes ou entes queridos como
líderes naturais, quando falando sobre estes para outras pessoas e
quando vemos esses "líderes naturais" tomando decisões, o
resultado é sempre uma semente para um problema maior; da mesma
maneira a burocracia (a qual já me referi dezenas de vezes acima)
aparece tanto como arma e esconderijo dos vilões, que transitam em
meio a corrupção por brechas do sistema, tão bem estudadas que os
tornam invisíveis, como empecilho para a investigação seguir em
frente e ao final armadilha para resolver o caso e refletindo a
pequenez de todos frente as regras do mundo.
Pois
bem! "FARGO" voltou com tudo ! É uma pena que não passe
em nossas terras tupiniquins, não sei se pelo fato de suas locações
geladas não refletirem o nosso espirito tropical e alguém no FX
ache que não vale a pena a transmissão por aqui, ou se não querem
que todas as coisas de qualidade sejam vistas na parte de baixo do
Equador, o que sei é que essa é uma produção que vale a pena ser
procurada e assistida; uma obra fantástica, de roteiro impecável,
atuações brilhantes e sequências de cair o queixo, a terceira
temporada de "FARGO" consolida a produção como a melhor
série dramática de TV da atualidade. Fica apenas o apelo para que
Noah Hawley descanse um pouco e pense bem antes de dar um fim
definitivo nesse maravilhoso descarrilhamento com espetaculares
momentos felizes, sangue e humor no extremo norte americano.