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terça-feira, 2 de maio de 2017

DEUSES AMERICANOS - Que a guerra comece !!



Um homem abre um manuscrito e segue uma história, ele fala sobre a vinda de Vikings à América, antes das cogitadas vindas dos mesmos Vikings para o novo mundo. Descreve suas péssimas condições e as dificuldades de vencer um mar que não quer ser vencido e de desembarcar em uma terra que não os aceita, esclarecendo que a hostilidade presente naquele lugar era fruto da força dos Deuses. Para atrair ventos favoráveis e voltar para casa, os homens resolvem chamar a atenção de seu deus através de sacrifícios, que vão desde mutilações a completa carnificina entre eles mesmos e assim, logo após pintarem com sangue e violência as praias daquele lugar desconhecido, são abençoados com a permissão de partir.

Wednesday
Assim começa o primeiro episódio da tão aguardada série "Deuses americanos", que estreou no Brasil, nesse último primeiro de Maio. A Série, baseada no cultuado livro Homônimo do escritor Neil Gaiman e que conta a História de Shadow Moon, um ex-presidiário contratado como segurança pelo misterioso Wednesday, para o acompanhar por uma viagem pelos Estados Unidos que testará os limites de suas crenças e sanidade, chegou metendo o pé na porta e saciando a expectativa de quem é fã do Autor e reivindicando seu lugar entre o panteão das grandes produções do ano.

Essa reivindicação se torna válida desde o momento do prólogo, onde vemos o tom violento que deve se seguir na trama, com cabeças sendo esmagadas e braços arrancados, até ao banho de sangue do último minuto do episódio, passando por cenas picantes e assustadoras, sem falar da apresentação de alguns desses deuses, que dão um ar de mistério a história, principalmente a quem não leu o livro e assim como Shadow, fica sem saber direito onde acabou se metendo.


Eu, que de forma sacrílega, nunca li o livro, também fiquei entorpecido com esse ar de mistério, como se existisse muita coisa além do que é visto e que as respostas devam ser descobertas lentamente. Uma sensação com a qual posso comparar ao assistir o primeiro episódio de "Deuses americanos", foi a que tive ao descobrir o universo de "Game of Thrones" na TV e que também nunca tinha lido nada e que só pretendo ler após o termino da série, pois o que a o universo no áudio-visual oferece é tão consistente e denso, que não parece precisar de complementos ou aditivos para se sustentar, embora eu imagine que os livros referentes dessas duas franquias, devam ser ainda melhores que as obras televisivas que delas se originaram.

Shadow
Falo em "Game of Thrones", pois parece que o maior sucesso do canal HBO ganhou mais um rival e talvez um substituto no coração dos fãs, mas para isso, a Starz , canal que veícula a série, tem que conseguir manter o fôlego no mesmo nível de seu episódio piloto e não cair na mesma levada de produções como "Black Sails", que com perdão do trocadilho, foi afundando com o tempo.


Pois bem, agora é só esperar para ver o que "Deuses americanos" irá nos trazer nesses próximos dois meses e meio e nos regozijar com o sangue e sacrifício feitos em honra desesperada aos velhos e novos Deuses. Se ainda não viu o piloto, o mesmo já está disponível no Amazon prime vídeo, esperando apenas que você sele o acordo com três copos de vinho de mel e um aperto de mão escarrado. Então não perca tempo, louve a seu deus assistindo a "Deuses Americanos" e aguarde as bençãos e maldições que a produção baseada na obra de Gaiman irão te proporcionar.



terça-feira, 11 de abril de 2017

HUMANS (2015/2016) A série


Se o ano de 2016 trouxe algo de bom no meio de tanta tragédia, foi um novo foco às produções de ficção científica. Com a apresentação da terceira temporada de "Black Mirror" e a estréia de "West World" encabeçando o seguimento, o Sci-fi conquistou mais e mais fãs dia após dia nesse último ano; Porém, o término das temporadas dessas duas séries, deixou um vazio na vida de quem vinha se acostumando aos conceitos e surpresas apresentados por elas. No entanto, longe dos grupos de debates sobre as teorias que envolvem essas séries tão cultuadas, existem outras obras, de qualidade semelhante, mas bem menos vistas, que podem agradar e surpreender muita gente, além de ocupar aquele espaço vago que as histórias contadas por Charlie Brooker e Jonathan Nolan deixaram no inicio desse ano.

Uma dessas obras, que me prendeu no sofá, sem piscar durante os dezesseis episódios das suas duas temporadas, me fazendo sair por aí a indicando aos quatro ventos logo depois, foi uma série inglesa que, tal qual as duas séries citadas acima, também fala sobre tecnologia e tomada de consciência pelas máquinas, mas conseguindo ir muito além, ao abordar as consequências na sociedade ao ocorrer o surgimento dessas consciências e, de quebra, fazer um paralelo com diversas situações enfrentadas no mundo atual. Trata-se de "Humans", série inglesa criada por Sam Vincent e Jonathan Brackley, exibida pela Channel 4 e AMC, baseada na série Sueca "Real Humans", que parece que ninguém assiste, mas que merece e DEVE ser vista por todo mundo já.



"Humans" se passa em uma realidade paralela, onde a utilização de androides (sintéticos) para serviços domésticos e de ajuda pessoal, se tornou usual. Nesse universo encontramos Joe, um pai de três filhos que se vê perdido entre as tarefas de casa e do emprego, quando sua esposa Laura se ausenta a trabalho. Pressionado pelas tarefas, Joe decide comprar um sintético para ajuda-lo a organizar sua vida enquanto a esposa não retorna, o que ele não sabe é que a sintética batizada de Anitta por sua filha mais nova, se chama na verdade Mia e pertence a um pequeno grupo de androides que poderão revolucionar o mundo, por serem as primeiras máquinas conscientes e que, tanto Joe, quanto sua família, irão testemunhar da primeira fila todas as transformações que a revelação da existência de maquinas pensantes causará na sociedade.

OK!! Minha sinopse não ajuda a cativar ninguém a ver a série, mas se eu posso me desculpar pela falta de inspiração ao descrever o contexto da série, é dizendo que nem se eu escrevesse um post inteiro falando apenas do que se trata "Humans" eu conseguiria falar sobre tudo que a série questiona e aborda, então o mais interessante, acredito, será eu falar sobre todos os pormenores que chamaram a atenção dentro da história.



Para começar, a trama traz uma questão que vem se tornando cada vez mais presente nas produções cinematográficas, que é a singularidade, aquele momento em que as máquinas tomarão consciência de que são indivíduos ou entidades, com pontos de vista, ideias e personalidade, fato que é destaque não só em "Westworld", mas no ótimo "Ex-machina", entre diversas outras produções, mas na história de "Humans" , não é o ponto alto da trama, mas sim o ponto de partida para toda a discussão que surge na série. Assim, em um mundo onde os androides estão presentes em todo lugar, mas são tratados como coisas, o surgimento de alguns que pensem, questionem e ajam como humanos, traz a dúvida de se o fato os torna humanos? Se eles devem ter direitos e deveres como tais? Quem fala por eles e quais os limites que esses sintéticos devem ter? Essas são algumas de muitas as perguntas que a trama já nos traz de início e que norteiam a história em meio a uma enxurrada de acontecimentos e diversos personagens interessantes.

Quanto aos personagens, a produção consegue entregar indivíduos que são a representação de todo tipo de personalidade e a faceta de um argumento em si, e não só isso, como apresentar um elenco diverso e bem explorado, que consegue mostrar desde os traços étnicos dos androides a revolução que eles representam. Essa diversidade étnica que aparece nos sintéticos conscientes do inicio da série (onde temos uma asiática, dois negros e uma loira), parece, além de sinalizar a ideia de diversidade humana, traçar um paralelo mesmo com a questão dos imigrantes ao colocar como personagens centrais da discussão, atores com traços não tão comuns dentro das produções clássicas inglesas, essa fato ainda é reforçado, quando somos apresentados aos problemas sociais decorrentes da utilização desses androides, como a substituição de pessoas por máquinas em postos de trabalho, não só pela sua melhor eficiência, mas como pelo seu menor custo, o que cria grupos de resistência que se intitulam "humanos de verdade" e buscam a reversão do status social daquele universo, não muito diferente dos grupos que apontam para a entrada de pessoas não nascidas em determinados centros, como o fator responsável por todos problemas sociais existentes em uma localidade.

Esse problema social criado pela existência dos sintéticos nesse universo, vai além da tomada dos empregos. A própria evolução dessas máquinas, causa temor aos jovens, que se frustram ao perceberem que pode não haver expectativa de um futuro bem sucedido dentro de qualquer área de interesse, ao perceberem que em alguns anos, os androides estarão tão aperfeiçoados, que poderão efetuar qualquer função e com um desempenho maior do que qualquer humano; somando-se a esse problema do primeiro arco, a segunda temporada ainda nos apresenta um grupo de adolescentes que, em resposta a frustração dos outros, se veste e age como os sintéticos, pois perceberam a vantagem que as máquinas tem ao não se frustrarem, sentirem medo, não precisarem tomar decisões sozinhas ou se questionarem; de encontro a isso, temos as máquinas conscientes buscando desfrutarem seus direitos de "pessoas", assim como seus deveres e até mesmo pensando em suicídio frente ao amargo de uma vida social com decisões e dúvidas; tais questões surgem em seguidos debates que tornam "Humans" ainda mais complexa e reflexiva do que a grande maioria das séries atuais.

Complementando esses problemas sociais mais amplos, "Humans" aborda questões ainda mais pessoais, como o caso da utilização dos sintéticos para satisfação sexual, o que nos é apresentado como algo aceitável, ao nos mostrar os androides como máquinas, mas que nos faz questionar se aquilo tudo é correto quando nos faz ver toda situação de humilhação através dos olhos de duas personagens sintéticas obrigadas a desempenhar esse papel, mesmo tendo consciência e ego idênticos aos dos humanos. Em resposta a isso, temos humanos que são trocados por androides, pelo fato desses últimos serem programados para satisfazerem todos seus desejos e dar a eles toda atenção possível sem distrações.

Além de tudo, a série ainda traz muitas referências a filosofia e aos clássicos de ficção científica, além de menção aos grandes autores do gênero Sci-fi, como quando é falado que o suposto assassinato executado por um sintético, fere as leis Asimov, sem contar que toda linha que a produção segue, remete ao questionamento que foi, em parte, base para a criação de todo universo de Philip K. Dick, de que se algo pensa e age como um humano, é humano? O que nos torna humanos? Em uma adaptação mais simples do "penso, logo existo" de Descartes, que, a propósito, aparece em um poster ao fundo na série, e não apenas uma vez.

Mas nem tudo é exatamente perfeito na série e algumas coisas me desagradaram. A principal, foi a substituição do antagonista da primeira temporada, que surge na segunda apenas para vender seus segredos ao novo "vilão", e desaparece, como se todas as situações que o levaram até ali, e as quais eram de seu interesse pessoal, simplesmente tivessem deixado de ser importantes para ele e isso eu achei uma grande falha de constância no roteiro. A segunda coisa é o desaparecimento de alguns personagens e o sub-aproveitamento de outros, como no caso do androide Fred ( um dos sintéticos conscientes originais), que mal aparece na primeira temporada e some na segunda e o sintético ultrapassado Odi, que tem todo um potencial e razão para estar dentro de um arco na primeira temporada, nos faz questionar muitas coisas na segunda e deixa a série (aparentemente) sem nos apresentar as respostas e ações que poderia dar. Essas duas questões me incomodaram, mas como nada na vida é perfeito, seguimos aproveitando o que há de bom e deixando de lado o que fica mal explicado.

Apesar de um detalhe ou outro, "Humans" ficou marcado para mim, como o grande achado do início desse ano (mesmo a série ter estreado em 2015). Sua trama complexa e os paralelos que podemos traçar através de sua história, são um elemento poderoso e que nos leva a reflexão, não só ao pensar em uma sociedade como a mostrada na trama de Sam Vincent e Jonathan Brackley, como nas situações presentes em nosso cotidiano. Serve para, além de saciar a saudade de séries mais prestigiadas, enriquecer quem é fã de ficção científica de conceitos e questionamentos, nem sempre bem abordados nessas outras séries. Espero que todos assistam e se divirtam bastante, enquanto a mim, fico na torcida que a terceira temporada chegue logo, fica a dica.





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

DEAD SET - Quando Big Brother bom é Big Brother morto


Quando assisto a TV aberta, a maioria dos programas e notícias me faz pensar que a humanidade regrediu para um estado de bestialidade. As novelas, que mesmo piegas, procuravam abordar temas relacionados a coisas positivas, trazendo alguma lição de moral, hoje, ultrapassaram o tom de cinza de seus personagens, apresentam temas mais escuros, repletas de vilões, que muitas vezes não chegam a ser punidos por seus crimes, confessando ou não, ao final da trama, no máximo um pouco de arrependimento e só; Os tele jornais se tornaram verdadeiros noticiários de terror, utilizando o sofrimento e medo como escada para alcançar a audiência; e mesmo os programas infantis que povoavam as manhãs, sucumbiram as novas tendências sendo substituídos por shows que falam sobre a aparência "perfeita" e a pseudocultura do corpo e felicidade eterna, em resumo, estamos vivendo a era da superficialidade e nada reflete mais isso, do que o entretenimento televisivo que nos acompanha anualmente a quase vinte anos, os reality shows.

Os Realitys são programas que mostram a reação de pessoas comuns quando colocadas em situações extremas, ou pelo menos, deveriam mostrar. No Brasil, o primeiro a surgir foi "No limite", onde um grupo de pessoas era largado em um lugar desabitado, tendo de passar por diversas adversidades para conseguir comida, sendo desafiados durante dias pela natureza e pela quebra de rotina, o programa era baseado no "Suvivor" americano e tinha a superação física como principal chamariz, mas sua vida na TV brasileira durou relativamente pouco e com menos de cinco temporadas o programa foi cancelado. A Tendência atual são os programas de culinária, como "Cozinha sob pressão" e "Master chef", que disputam a cada temporada a atenção dos curiosos para saber quem se sai vitorioso em meio a tortura psicológica e o assédio moral proporcionado pelos Chefs e juízes, em um retrato distorcido do que é o profissionalismo e produtividade. Mas, embora as novas tendências arrematem cada vez mais fãs, ninguém ainda conseguiu superar a longevidade e alcance do reality mais popular de todos os tempos e que nesse ano completa dezessete edições, criando bordões, debates e sub-celebridades como nenhum outro programa jamais fez, trata-se do "Big Brother".


O programa "Big Brother" foi criado pela produtora de TV Holandesa Emdemol, com base na ideia de um dos sócios fundadores, John de Mol, que apresentou o projeto onde quinze pessoas ficavam confinadas em uma casa, sem acesso ao mundo exterior por qualquer forma e vigiadas vinte e quatro horas por dia, durante três meses, na busca de um prêmio, sendo o convívio o maior adversário que os estranhos poderiam ter na busca dessa conquista. O nome do programa veio de como era conhecido o grande ditador do país continente "Oceania" no livro 1984 de George Orwell, que, por meio de equipamentos chamados tele-telas, presentes nas casas de todos habitantes do país, vigiava a todos, os mantendo como cativos livres. O programa foi realizado em diversos países, como no Brasil onde estreou em 2002 e virou febre desde então, já na Inglaterra, país adotado por Orwell e que serve de cenário para trama de seu livro mais famoso, o reality teve seu primeiro episódio transmitido em 2000 e as reações não foram muito diferentes do que em nossas terras tropicais. No entanto, parece que os ingleses perceberam muito antes de nós para onde todo aquele show de falsa realidade estava apontando e da mente brilhante de Charlie Brooker (ele mesmo, o criador de Black Mirror) estreava em outubro de 2008, “Dead Set” uma das críticas mais bacanas que o programa já teve.

Os sobreviventes
“Dead set” é uma mini-série inglesa, transmitida originalmente pelo canal E4 e gira em torno de Kelly, uma assistente de produção da casa do Big Brother que no 64° dia de transmissão do programa e durante a votação de um paredão se vê em meio de um apocalipse Zumbi que devasta a Inglaterra, terminando por chegar até as portas da emissora de TV. Com muita sorte, Kelly consegue se salvar ao se refugiar no único lugar totalmente seguro que sobra, a casa do Big Brother e tendo de mostrar de forma prática aos participantes que sua presença na casa não é mais uma prova e o que ela diz é verdade. Enquanto isso, Riq, o namorado de Kelly se encontra do outro lado da cidade e parte em sua direção sem saber o que encontrará nas ruas, Já o diretor do programa, Patrick, junto com a última eliminada se encontram presos em uma sala cercada por zumbis, resta agora que os sobreviventes se reúnam para buscar entender o que está acontecendo e como eles podem escapar da casa mais vigiada do reino unido.



O plot da série é bem simples e lendo a sinopse “Dead set” pode se passar por mais uma série de zumbis genérica, mas na verdade a produção inglesa de cinco episódios é muito mais que isso, é um retrato de nosso tempo e de nosso rumo como sociedade.
Baseando os personagens dos participantes em participantes reais, a série vai nos apresentando estereótipos que o próprio programa popularizou, como o mulherengo escroto, a gostosa fútil, a vaidosa burra, o pseudo-intelectual, o marrento e por aí vai, todos fazendo menção a participantes reais, mas também representando um pouco da personalidade de quem assiste e se identifica, mas a produção dá um passo além, quando mostra o mundo da produção do programa, que se apresenta tão baixo quanto o show que produzem. Lá temos o Patrick, que é o diretor e produtor, que age com extrema grosseria com todos, é arrogante, relaxado e egoísta; até mesmo Kelly, a protagonista, é apresentada como um personagem com camadas de cinza, buscando destaque no meio onde trabalha e traindo o namorado com um colega da produção e o próprio ambiente onde ambos trabalham é cheio de inveja, descaso e pretensão, mostrando que o programa é o que é porque é  reflexo de uma sociedade vazia.

Essa crítica social é representada não só pelos personagens que aparecem dentro da casa ou pelos membros da produção, mas também pelos zumbis. Em Dead Set, os zumbis tem uma relevância muito maior do que na maioria das produções desse gênero de filmes, pois na série os zumbis somos nós, a sociedade. O zumbi é o cara comum anestesiado frente ao entretenimento mais raso, reduzido a bestialidade sem pensamento que apenas corre em direção a quem faz mais barulho, com a diferença que na série a ideia de consumir conteúdo fica no sentido gastronômico.

Além de todo peso da critica social e de uma grande quantidade de tripas ao longo dos seus cinco episódios, “Dead Set” ainda consegue referenciar o pai dos filmes de Zumbis, George Romero, em momentos como quando um dos participantes, debochando do que Kelly diz ao chegar na casa, brinca com sua namorada dizendo “vou te pegar barbará” , sendo que esse é o nome da mulher que foge para se abrigar em uma casa aparentemente abandonada na versão de 1968 de “A noite dos mortos vivos” do diretor americano. Do mesmo modo, a personalidade de Patrick, o diretor do programa também lembra muito a de Harry, o outro personagem do filme original de Romero que não mede esforços e usa quem precisa para sobreviver.

Mas de todas as coisas bacanas que “Dead Set” tem o que eu acho impressionante é o fato da série ter sido transmitida originalmente no canal E4, um dos canais que transmitia o Big Brother UK, e não só isso, a própria apresentadora original do programa no país, Davina McCall faz uma participação como ela mesma zumbificada, um deboche típico do humor inglês, que junto com a crítica social passada pelo criador, deve ter trazido bastante dinheiro aos cofres da emissora, mas que mesmo assim surpreende bastante.

É por essas e outras que considero “Dead Set” uma série obrigatória. Misturando critica social, humor e terror a produção se antecipou oito anos à TV brasileira, que fez algo superficialmente parecido quando lançou “Supermax” em 2016, sem passar uma mensagem parecida e obter a mesma resposta da critica e público. Dead Set é uma série que nos faz pensar no que estamos nos tornando, quando valorizamos apenas a aparência, quando parecemos não pensar e corremos trás de tragédias ou entretenimento vazio na TV ou em qualquer outro lugar, então não perca tempo e assista “Dead set” seja por ser fã do gênero, seja por ser fã de Charlie Brooker ou simplesmente para se divertir, mas seja rápido, pois a zumbificação já  começou e não há para onde correr.



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

LUKE CAGE ( 2016) A série



Desde que lançou “Homem de Ferro” em 2008, a Marvel vem se tornando cada vez mais presente na vida de quem é fã de cinema. O universo da editora no áudio visual é um sucesso com seus filmes repletos de cores e piadas, mas faltava algo que o conectasse a realidade, algo que aprofundasse seus personagens a um contexto social e explorasse mais seus medos e motivações.
Então em 2015, em parceria com a Netflix, estreava “Demolidor” e essa carência de conexão com o mundo real começava a desaparecer com uma trama que apresentava as ruelas e becos escuros da periferia por onde transitava o submundo daquele universo, fato que foi aditivado quando meses depois “Jessica Jones” chegou, trazendo uma história de abuso e trauma pessoal que colocava em segundo plano o fato da protagonista possuir super-poderes e expunha suas fraquezas, vícios e erros. Mas a editora de Stan Lee ainda devia uma produção que abordasse um contexto social mais complexo, uma produção que falasse da realidade e história não apenas de um personagem, mas de um grupo de pessoas, o reflexo de uma sociedade que vive entre a marginalidade e a realização do sonho americano; então esse ano a Netflix nos brindou com a terceira série em parceria com a Marvel, prendendo essa última ponta solta que faltava e preenchendo essa lacuna ao nos entregar “Luke Cage”. 


O grande trunfo dessa produção, é que mais do que uma série de super-heróis baseada em quadrinhos, ela  traz um flerte muito maior com a sociedade verdadeira e a realidade enfrentada pelos negros americanos. A própria locação das filmagens (o Harlem), que é um gueto histórico e famoso símbolo de orgulho para a comunidade que lá vive, é apresentada quase como um personagem e tem papel essencial na tramar, emanando de si o terror e o poder desejado por tantos e o acolhimento e refugio sonhado por outros. Nesse microcosmo, alguns elementos são afirmados como sendo não apenas tradicionais entre as pessoas que ali vivem, mas também como as poucas esperanças de sucesso e mudança de vida, como, por exemplo, o basquete e a música, essa última, em especial, importantíssima e presente fortemente do início ao fim da série.
O momento vivido pela comunidade negra americana, também se faz presente na série, ao se introduzir na trama questões sobre excessos e violência policial que se assemelham aos ocorridos durante os últimos anos naquele país, isso atesta Luke Cage, como a serie mais pesada que a Marvel já produziu, fato que a qualifica e diferencia dramaticamente de quase tudo feito pela editora no audiovisual, mas a diminui frente a muitos fãs de Quadrinhos, que embora apreciem muito quando o imaginativo e fantástico das HQ’s se aproxima da realidade, ainda parecem ficar receosos quando o tema aborda drama social.

No entanto, a questão social é elemento intrinsecamente ligado ao personagem, empobrecendo-o, caso fosse ignorada. Até seus poderes parecem se conectar a toda essa questão, ou seja, um negro, que se impõem com força sobre humana aos problemas e dúvidas em seu caminho e é a prova de balas ou facas, mas prefere buscar o apoio e atuar como um exemplo no bairro onde mora é uma mensagem poderosa, que não sei se passava na cabeça de John Romita,sr. , Archie Goodwin e George Tsukas, quando esses criaram o personagem nos anos setenta, altamente inspirada pelos movimentos sociais e pelos filmes de blaxploitation. 
Falando em blaxploitation, esse estilo cinematográfico é o elemento que dá o tom da trama da série, onde, como em todo filme negro dos anos setenta, temos o protagonista badass, as mulheres fortes, os problemas sociais se agravando, os aproveitadores de dentro da própria sociedade, o traficante, o político corrupto e o tira branco traidor, sem falar na sensualidade, que obrigatoriamente passeia em meio à história.

Mas embora Luke Cage seja uma série repleta de qualidades, ela chamou minha atenção de forma negativa pela “barriga” que apresenta em seu roteiro, que poderia ser muito mais enxuto e, pelas escolhas repetidas que a Netflix vem tomando ao desenvolver a história dos  personagens Marvel. Quanto a essa sobra no roteiro, podemos culpar o fato de o personagem ser o super-herói mais poderoso apresentado pelo estúdio no universo da TV ( o cara tem Super-força, invulnerabilidade e fator de cura) e não possuir um opositor no mesmo nível em sua galeria de vilões, o que força o roteiro a encontrar uma maior quantidade de problemas para serem solucionados, ao invés de nos entregar um problema de qualidade, como no caso dos vilões de Jessica Jones e Demolidor, KillGrave e Rei do Crime respectivamente, ambos tão fortemente reconhecidos a aplaudidos por quem assistiu essas outras séries; assim temos o que parece ser duas temporadas de Luke Cage, comprimidas em uma, em que vemos a troca de bastão dos vilões passar em três mãos diferentes durante treze capítulos, sem no entanto parecer uma ameaça que preocupe profundamente o protagonista por mais do que um terço da trama e para apresentar, desenvolver e resolver isso, não seriam necessários mais do que dez episódios.
A Netflix  parece  ter se tornado preguiçosa ou acomodada ao desenvolver a maneira de como a história é contada e os elementos que devem estar presentes na trama. Notei com Luke Cage que as três séries Marvel possuem uma luta em um corredor, um episódio para mostrar a origem do Herói e nos aprofundar em seus motivos e outro para apresentar a origem do vilão, sendo que nas três séries, todos os vilões tem a desculpa de que são vítimas do meio onde foram criados (TODOS!!) nenhum antagonista principal é mau porque simplesmente é, todos tem uma desculpa e isso depois de um tempo começa a incomodar, principalmente em Luke Cage, onde existem três vilões principais, todos assombrados com traumas do passado, embora em níveis diferentes.

Mas fora os pequenos problemas apresentados que ainda são somados a uma trama que se desenrola muito lentamente devido, penso, à densidade social que permeia a história e um protagonista que não tem o mesmo impacto inicial de um Demolidor, Luke Cage é muito bacana e, embora não tenha me empolgado para que eu fizesse uma maratona, me prendeu durante dias na cadeira, me fazendo voltar um pouco atrás para pegar pequenos detalhes, homenagens e referências, degustando cada momento e imaginando onde uma possível segunda temporada pode levar o personagem, principalmente após o que as cenas finais mostram.

Luke Cage fecha um ciclo nas produções Marvel, conectando uma das últimas pontas soltas não abordadas pela editora anteriormente no audio-visual, a questão social. Com uma trama que fala sobre origem, orgulho, recomeço e destino, Luke Cage sai do mais do mesmo das séries de Super-heróis da TV e cinema com uma história que aborda problemas reais, como preconceito, violência policial e criminalidade, se destacando como uma produção única. Uma série forte (sem trocadilho) que merece ser mais do que vista, ser degustada,  no ritmo que os diretores e roteiristas deram a ela, apreciando suas referências e estilo sem a menor pressa.


Ficamos agora na expectativa de “Punho de ferro”, a quarta série da parceria Netflix / Marvel e de “Defensores” onde os quatro heróis se reunirão em um grupo para realizar uma missão em comum, ambas as produções previstas para o ano que vem. Vamos esperar como será a recepção de ambas as séries e torcer que uma segunda temporada de Luke Cage seja confirmada e , quem sabe, uma dos “heróis de aluguel” juntando os inseparáveis amigos de HQ “Punho de Ferro e Luke” em  uma história onde mais do que heroísmo, os Business entram em jogo. Fico no aguardo do sinal verde da Netflix para gritar “Sweet Christmas”, enquanto isso, digo e repito, assista “Luke Cage”.




segunda-feira, 5 de setembro de 2016

TERRA PROMETIDA (2016)



Enquanto todos aguardavam a estreia da nova temporada de “NARCOS”, a Netflix disponibilizava dia primeiro de Setembro, data da invasão alemã à Polônia, a série brasileira “Terra Prometida”, produção idealizada por Renato Fagundes e Luís Noronha, que narra histórias da Alemanha nazista através dos olhos dos Judeus e a repercussão da guerra e da imigração europeia no Brasil durante aquele período. 

Desenhos Belli Studio
A série busca dar um olhar mais moderno e menos maniqueísta a um dos períodos mais amargos da nossa história. Apresentando ao expectador uma obra inovadora, que mistura a reprodução de histórias verdadeiras através de animação, com cenas reais da época no melhor estilo documentário, lembrando, por vezes, o premiado “Valsa para Bashir” de Ari Folman, por seguir os passos do diretor israelense, ao humanizar os envolvidos no confronto, em especial os soldados e imigrantes, mostrando o terror e insanidades causadas pela Guerra e ignorância.

Terra prometida” foi transmitido originalmente pela TV cultura em Julho deste ano, chamando a atenção por se tratar de um ponto fora da curva dentre as obras audiovisuais brasileiras, misturando a informação do documentário com a dramatização ilustrada.

O documentário nos traz imagens de documentos históricos como, por exemplo, o telegrama enviado a Albert Einstein, onde o governo brasileiro rejeita o pedido de entrada de uma de suas amigas, e, de vídeos raros da época, onde podemos ver um pouco do espírito da sociedade alemã, desde a entrada no poder no partido nazista, até sua queda em 1945 e a repercussão da guerra em terras brasileiras, desde a simpatia pelo eixo por parte de Getúlio, até a entrada na guerra ao lado dos aliados.


Complementando a parte documental da obra, a série apresenta trechos em animações baseadas em histórias reais de diversos personagens que vivenciaram os fatos ocorridos na segunda guerra, tanto no Brasil, quanto no fronte de batalha. A produção desses desenhos é trabalho da Belli studio de Blumenau, responsável por ilustrar algumas séries da Discovery Kids, como “O peixonauta” e “Meu Amigãozão” e o estilo simples com que as histórias são retratadas remetem tanto a busca por uma verdade mais leve, quanto ao escapismo que tais situações pedem frente a crueldade e tristeza dos fatos ocorridos.

A série é excelente, exorcizando um período sombrio de nossa história e dando voz e rosto a muitas figuras esquecidas. O episódio que trata do ocorrido com os pracinhas logo após o fim da Guerra e o que fala sobre Aracy Guimarães Rosa, que conseguiu vistos para centenas de refugiados elucida quem acreditava que a história brasileira naquele confronto ficava aquém dos filmes de Hollywood e das histórias de nossos avós.

Pracinha ferido voltando da Guerra recebendo medalha
A obra vem coroar o momento cinematográfico brasileiro que parece querer deixar de lado o estilo panfletário de “cine-ditadura” e “cine-favela” e as comédias sem graça que ninguém precisa. Seu roteiro, que avança e recua no tempo para mostrar diversas histórias ocorridas na segunda guerra, foi escrito por Haná Vaisman, Gabriella Mancini e Rossana Maurell, que contaram com a ajuda de historiadores para tornarem a trama mais próxima ainda da realidade. A direção ficou por conta de Paschoal Samora e a produção teve o apoio do fundo setorial do audiovisual via Ancine e BNDES, sendo uma obra conjunta da Conspiração Filmes e Synapse produções.

Terra Prometida” é uma aula de cinema e inovação e, está com seus capítulos para a apreciação na Netflix desde o dia primeiro de Setembro, se você gosta de história, documentários e animação (ou todos) essa é a oportunidade perfeita para assistir algo de valor e conteúdo feito aqui e por artistas brasileiros.


Não perca tempo, são só seis episódios de 25 minutos. Recomendo. 



domingo, 21 de agosto de 2016

FARGO - A série (1° temporada)






Esse post é baseado em uma história real. Os eventos ocorreram em 2006 em Minesota.
A pedido dos sobreviventes os nomes foram alterados.
Por respeito aos mortos o restante foi retratado exatamente como ocorreu.

Eu sou muito fã dos irmãos Coen. Existe algo na obra deles que não consigo explicar e que me deixa meio hipnotizado, não sei se a capacidade deles conseguirem ser profundos e divertidos tanto em grandes produções como "Bravura Indômita" de 2010, como em filmes menores tal qual "Na roda da fortuna" de 1994, ou simplesmente pelo humor negro e pelo inexplicável estranhamento que cercam as histórias de filmes, como em " Um homem sério" de 2009 e "O grande Lebowski" de 1998. Mas o certo é que sou fã dos caras.
Talvez por isso, quando em 2014 o canal FX, trouxe para a TV uma obra baseada em um dos melhores filmes dos Irmãos Coen, "FARGO" de 1996, ignorei o projeto idealizado e escrito por Noah Hawley, tanto pelo fato de não ser o maior fã de adaptações de grandes títulos para a TV, como pela simples impossibilidade de assistir a série devido a FX Brasil não transmitir a série aqui em terras tupiniquins, mal sabia eu, que perdi a chance de acompanhar em tempo real o nascimento de um clássico da TV, repleto de personagens marcantes, roteiro primoroso e execução impecável, que me tornou fã aos dez minutos do episódio piloto.




A série trás uma história que lembra a contada no filme pelos conceitos e cenários, mas composta por elementos muito mais profundos e uma trama muito mais complexa do que a obra original. Nessa história somos apresentados a Lester Nygaard (Martin Freeman), um pacato e desprezado vendedor de seguros na pequena cidade de Bemidji em Minesota, que vê sua vida mudar quando, depois de ser humilhado por um valentão ex-colega do tempo de escola, ao se encontrar e confessar suas frustrações a um misterioso homem (Billy Bob Thornton) na fila da emergência de um hospital, expressa a vontade de que seu agressor seja morto, o que é levado a cabo por seu confessor. A partir dessa morte, Lester entra em um espiral de violência e mudança de percepção da vida que ira transformar a vida de todas pessoas que tem contato com ele, incluindo a policial Molly Solverson, que percebe que problemas maiores estão por surgir devido ao assassinato, envolvendo extorsão, morte de policiais, chuva de peixes e assassinos da máfia.

A série é fantástica! Noah Hawley soube trazer para a TV todo espirito das obras dos Coen com o humor negro desconcertante que faz com que não saibamos se devemos rir ou ficar envergonhados, cenas de ação e momentos de tensão que te grudam na cadeira e personagens marcantes, que transitam entre o cara comum, o durão e o indivíduo totalmente sem crédito.
Lester Nygaar
Sobre os personagens, penso que eles sejam o grande trunfo de "Fargo", pois antes de ser uma história policial ou comédia de humor negro, a série é uma história de pessoas e isso cria um vínculo quase imediato com os três personagens centrais da trama, que aliás correspondem aos três Arquétipos (ou seriam esteriótipos?) trabalhados pelos Coen em seus filmes. Dessa maneira temos Lester Nygaard, o pobre vendedor de seguros que é humilhado por ex-colegas, diminuído por seu irmão mais novo, ignorado no trabalho e ridicularizado pela própria esposa, ele é a representação do perdedor que tanto povoa o universo de filmes americanos e que ninguém quer ser, tanto que quando sua vida começa a dar sinais de melhoras, não levando em conta sua gigantesca capacidade de errar, torcemos por ele, mesmo sabendo que o responsável por todos os problemas da série é ele.
Em contraponto ao pobre Lester, temos o misterioso assassino interpretado por Billy Bob Thornton, que mais tarde passa a ser conhecido como Lorne Malvo. Ele é um agente do caos, não muito diferente do Coringa interpretado por Heath Ledger, mas com toda uma questão de princípios tais como o Assassino de "Onde os fracos não tem vez", sua interação com o personagem de Martin Freeman é perfeita, criando uma tensão tanto em Lester Nygaard como no espectador para quem os discursos de Malvo parecem ser direcionados. Lone Malvo não respeita nada e não teme nada, parece entender que a vida é um amontoado de convenções presididas por pessoas que dão mais crédito as aparências do que aos resultados e possibilidades e, usa essa fraqueza das pessoas em seu próprio favor. Lorne Malvo é o meu personagem preferido da série e grande parte disso se deve a interpretação primorosa do Thornton, que consegue se impor através de olhares e silêncios, se tornando ameaçador mesmo possuindo o porte de um corredor de maratonas que não se hidratou corretamente.
Lorne Malvo 

Fechando o trio de protagonistas, temos a policial Molly Solverson, que se enquadra no personagem desacreditado citado acima. Molly (interpretada por Allison Tolman) é uma obstinada assistente do xerife, que enxerga nos acontecimentos ocorridos em Bemidji muito mais do que crimes isolados, o que faz com que ela não desista de buscar a verdade a todo custo para descobrir os verdadeiros culpados, no entanto, cercada por pessoas que apreciam muito mais a aparência do que o talento e que preferem saborear uma bela xícara de café com rosquinhas a resolver problemas reais, assim, quase todos seus esforços ficam relegados a fé de que outras pessoas fora de sua delegacia acreditem em seu ponto de vista, como seu Pai , Lou Solverson, um ex-policial dono de uma lanchonete e Gus Grimli ( Colin Hanks), um policial da cidade vizinha, que após um contato com Lorne Malvo passa a ajudar Molly. O Humor e persistência do personagem de Allison Tolman são tão marcantes, que penso que não fique devendo em nada para o interpretado por Frances MacDormand no filme homônimo à série, assim como a sua interpretação não fica devendo nada a ganhadora do Oscar de 1996.

Para complementar a ótima exploração dos personagens, a série ainda tem ótimas cenas de ação que surgem com força para que lembremos que, mais do que uma série sobre pessoas e escolhas, trata-se de uma história policial. Estas cenas não surgem de forma gratuita, todos são lentamente construídas de forma lenta e sutil, onde o telespectador pode saborear toda a tensão que vem surgindo a partir do momento onde a ação torna-se inevitável. Não quero estragar a experiência de ninguém com a série, então cito apenas a cena do capítulo seis, onde Lone Malvo, após chantagear o dono do supermercado ligado a organização que contrata seus serviços e colocar a culpa no personal treiner da ex-mulher desse empresário, o deixando amarrado a uma arma enquanto a Swat resolve invadir sua casa, parte para a cidade vizinha durante uma tempestade de neve e é emboscado por uma dupla de assassinos da máfia de Fargo, com quem Sam Hess tinha conexão, começa aí uma cena extremamente tensa, onde os policiais Molly e Grimly se unem no tiroteio e em que Malvo perde sua arma e conta apenas com sua frieza e calma para se ver livre da situação. O capítulo é fantástico e daria um media metragem de ação de alta qualidade, a ação é empolgante e a fotografia perfeita, sem falar do desfecho do problema que vai do espetacular ao absurdo de forma brilhante (se é que isso é possível).

Molly Solverson
Para finalizar, a série ainda tem uma história fechada em cada temporada. Ou seja, não é necessário esperar um anos para saber o que vai acontecer com os personagens, tal qual um livro bom, a história tem início, meio e fim e isso eu considero uma vantagem, é como se assistíssemos um filme de quase dez horas. A segunda temporada foi exibida em 2015 e conta a história, que se passa em 1979, conta a história de Lou Solverson, pai de Molly, em seus tempos de policial e a história é tão boa ou melhor que a da primeira temporada, mas falaremos disso em uma outra postagem, do mesmo modo que espero falar da terceira, que estreará em 2017 e já tem confirmado o ator Ewan McGregor no elenco.


"Fargo" a série, é mais que uma adaptação para a TV de um grande filme, é uma obra que se sustenta por sua história inteligente, tensa e cheia de grandes diálogos, com personagens ricos e complexos que falam diretamente com o espectador. Um clássico que surge da cabeça de Noah Hawley com o espirito e o humor dos irmãos Coen e que me surpreendeu demais por sua qualidade de roteiro, direção e atuações. Agradeço a dica do meu amigo Caleb Garcia, que me indicou a série e a insistência de meu irmão Leandro Guerreiro para que eu assistisse . Assim que possível vou resenhar a segunda temporada, com a história de Lou Solverson e a saga trágica da família Gerhardt e a máfia de Kansas,  aguardando com ansiedade a estréia da terceira história em 2017, mas sabendo que regras não existem e é preciso mostrar ao mundo que viemos os gorilas e por vezes precisamos mostrar ao mundo que ainda temos um pouco deles em nós.



segunda-feira, 18 de julho de 2016

STRANGER THINGS ( 2016) O melhor dos anos oitenta na série do ano.



Ah os anos oitenta !! Moças de permanente no cabelo e calças que iam até o pescoço, rapazes com grandes topetes e roupas muito coloridas, poucos canais de tv, músicas gravadas em fita cassete e filmes que falavam de contato alienígena ou onde monstros bizarros tinham como única pretensão matar os desavisados. Isso foi à mais de trinta anos e vivemos em um mundo diferente hoje, mas confesso que tenho saudade desse tempo onde tudo parecia mais fácil, onde as pessoas conversavam sem olhar toda hora para o celular, onde o refrigerante de um litro do almoço sobrava para a janta e quando os amigos se encontravam sem ter de marcar uma data. Quero dizer, eu tinha saudade, porque desde do dia 15 de Julho, a Netflix abriu um portal que não só matou minha saudade desse tempo, como a arrastou pelos pés e a comeu, trata-se da série "STRANGER THINGS" escrita e dirigida pelos irmãos Duffer e que me pregou no sofá nesse último final de semana.

"STRANGER THINGS" se passa em 1983 e conta a história de uma série de misteriosos acontecimentos na pequena cidade de Hawkins nos EUA, tendo inicio com o desaparecimento de Will Byers, que acontece quando ele volta para casa após um dia com seus três melhores amigos (Lucas, Mike e Dustin), ao mesmo tempo, uma estranha menina surge na cidade, vestindo roupas hospitalares, extremamente assustada e dotada de habilidades especiais, ela irá ajudar o trio de amigos a encontrar o integrante perdido do grupo e a enfrentar a misteriosa criatura, enquanto que uma trama de conspiração e experiencias científicas, vai sendo investigada pelo obstinado xerife da cidade.

Ok! Minha sinopse tá horrível, mas eu queria deixar no clima do que se lia nas contra capas das fitas nas locadoras de vídeo nos anos 80 sem entregar muito da trama. A série é muito bacana! Para entender o nível de qualidade da trama e enredo, ela foi a única produção que aborda um contexto de ficção científica e terror, que minha mulher quis assistir até o final comigo, pode parecer pouco para quem lê isso, mas para quem conhece minha mulher (que odeia ficção científica) isso mostra a qualidade de "Stranger Thing".

Essa qualidade é apresentada de diversas forma, seja na maneira da produção nos colocar dentro dos anos 80, com as roupas, cortes de cabelo, música e etc; seja no ótimo roteiro que vai aos poucos juntando as pontas da trama ou pelas referências que a série joga na nossa cara de cinco em cinco minutos; seja qual o motivo que se preferir, o capricho com que "Strange Things" foi feito não deixa ninguém desistir da gostosa maratona de oito horas para se descobrir o que diabos está acontecendo com a cidade de Hawins e o que aconteceu com Will Byers.

"Stranger Things" me levou direto para os anos oitenta. Para começar, Hawkins é típica cidadezinha americana dos filmes daquela década, cercada de árvores e com poucos habitantes é o lugar perfeito e sinistro, onde o inexplicável acontece e aos poucos vai envolvendo a todos. Suas ruas estão sempre vazias e seus habitantes parecem tão presos em suas rotinas, que ignoram até o fato de existir uma empresa misteriosa próxima a suas residências, não diferente da cidade onde acontece "E.T" de Spielberg ou à do filme "super 8", de J.J Abrans, que homenageia o diretor. O Capricho das locações só fica atrás do figurino. O estilo das roupas e penteados são tão fieis, que me senti assistindo uma filmagem da época, só faltou a dublagem ruim com um eco no fundo. As roupas são exatamente iguais as que eu lembro de minhas primas usarem e o penteado de cabelo da mãe do personagem Mike é igual ao que a minha mãe usava quando eu tinha uns cinco anos, uma imersão total e uma viagem de volta no tempo para quem viveu aquela época.

Além do trabalho de ambientação e figurino, a série ainda trás uma enxurrada de referências sobre os próprios anos oitenta e a cultura POP da época. A série já começa com os quatro amigos jogando uma partida de RPG, o que já mostra de forma pratica e através de ação, como é a relação desses personagens e como eles pensam. Na mesma cena, podemos ver um poster de "Enigma do outro mundo" de John Carpenter e "Tubarão" de Spielberg, dando uma singela dica sobre o estilo de terror e suspense que a série trará.

Não faltam referências a Spielberg e principalmente a "E.T". Os quatro amigos se deslocam com bicicletas do estilo cross, como no filme de 1982, além de Mike possuir uma irmãzinha loira e de chiquinhas no mesmo estilo Drew Barrymore da época. Além disso, no episódio onde eles levam a menina, que atende pelo nome de onze, na escola; os vemos disfarça-la com um vestido e peruca loira e no baú de onde eles pegam essas roupas vemos um chapéu, referência ao disfarce do alienígena no filme de Spilberg.

Muitos outros filmes e figuras dos anos oitenta também são referenciados, como Tom Cruise, que era o frenesi das meninas depois de "Negócio arriscado"; Carl Sagan e a série "cosmos", que são citados pelos amigos quando percebem a situação que estão presenciando, a menção à "Poltergeist" com o monstro rasgando a parede com dificuldade para pegar suas vítimas, e , até um poster de Edgar Alan Poe, que enfeita a parede da sala de aula da irmã do protagonista como um lembrete que se trata de um conto de terror.

No que tange a Trama, achei o enredo bem amarrado e extremamente divertido. Gostei muito do jeito que a série começa, dividida em quatro núcleos; com os meninos procurando o amigo e encontrando a onze, a Mãe e o irmão de Will percebendo os estranhos acontecimentos em sua casa, a irmã de Mike e seu namorado descobrindo da pior forma da existência do monstro e o xerife investigando a misteriosa empresa instalada na cidade. Todos unidos ao final pelos estranho acontecimentos vão aos poucos fazendo que as histórias convirjam para um desfecho comum a todos. A maneira como os acontecimentos sobre-naturais vão sendo revelados também é muito legal, sendo apresentado com flash backs da menina 11, com o auxilio das explicações do professor de ciências dos meninos e de suas analogias nerds com Senhor dos anéis e "Dungeons & Dragons". Gostei também do fato da trama ser enxuta em apenas oito episódios, de forma que não há tempo para barriga ou episódios de enrolação desnecessária, send que as pontas que ficam soltas são propositais servem como deixa para a próxima temporada, onde com certeza saberemos mais sobre as outras dez cobaias dos experimentos, sobre o destino de onze ,do mundo invertido e do monstro.

As atuações são muito bacanas. Começando por Millie Brown, a menina que interpreta a "estranha" Onze, ela rouba a cena com sua expressão, ar de pavor e suas poucas palavras, transmitindo com o olhar a aflição de não saber se expressar e carregar consigo todos os horrores de que foi vítima. Winona Ryder também está muito bem, fazendo o papel de uma mãe desesperada que sabe uma verdade que ninguém mais acredita, mas que nem por isso desiste, fora isso ainda temos as boas interpretações de todo o elenco e a participação de Matthew Modine, como o verdadeiro vilão da trama.

"Corra!"
Por isssssso tuuuudo, acredito que "Stranger Things" foi a boa surpresa do ano. Trouxe todo o clima das produções dos anos oitenta com a qualidade das séries atuais e o selo Netflix de qualidade. Muito mais que um portal para os estranhos anos oitenta, uma história muito bem contada, divertida e assustadora, repleta de referências inteligentes e bem dispostas, boas atuações e um ritmo perfeito. Ficamos (minha mulher e eu) no aguardo da segunda temporada para termos as respostas para as pontas soltas deixadas nessa primeira, enquanto isso, acho que vou fazer uma maratona de filmes de John Carpenter, Steven Spilberg, ler os clássicos do Stephen King e ouvir um pouco de AC/DC, Whitesnake e Van Halen e aproveitar ,nesse meio tempo, tudo que há de melhor dessas coisas estranhas.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

RIVER (série 2015)

Feliz e triste, empolgado e deprê. Essa mistura estranha foi o que senti quando acabei de assistir “River”, uma produção da BBC, estrelada pelo ator sueco Stellan Skargard, criada e escrita por Abi Morgan e dirigida por Richard Laxton, que comecei a assistir sem pretensão nenhuma na Netflix e que me ganhou nos primeiros quinze minutos do episódio piloto.

"River” conta a história de John River (Skargard), um detetive de Londres que lutará para solucionar o assassinato de sua parceira Jakie Stevenson (Nicola Walker), mesmo afastado do caso devido a seu envolvimento pessoal e assombrado pelo fantasma da amiga morta. Essa investigação o levará aos poucos a enfrentar seus problemas pessoais e questionar sua sanidade, colocando sua carreira em risco e o confrontando com verdades esmagadoras.



Conhecia a série seguindo as ótimas dicas do podcast Mamilos e, como citei acima, comecei a assistir sem nenhuma pretensão, mas em menos da metade do primeiro episódio eu já estava rendido ao que a trama me mostrava, começando pela atuação brilhante de Stellan Skargard. O ator sueco está muito bem na produção, transmitindo seriedade, medo, fragilidade, fúria e dúvida; e o mais bacana é que muito do que ele passa para o espectador não é expresso por palavras, mas através do olhar ou de seus movimentos e até de sorrisos; confesso que sempre que ele tinha um dialogo eventual com a “fantasma” de sua colega que terminava em uma boa risada eu os seguia e me via rindo feito bobo na frente do computador.

Essa química entre o protagonista e sua parceira e a atuação de Nicola Walker como a falecida, mas sempre presente Jakie Stevenson foram outros pontos fortes da série. Nicola parece iluminar o ambiente quando sempre que presente, munida apenas de seu sorriso largo, grande olhos verdes e muito bom humor; confesso que foi a cena onde ela provoca o protagonista no episódio piloto cantando o clássico de Tina Charles “I love to love”, que me cativou para ver a série toda em uma maratona.

Além das atuações, a série ainda tem a maravilhosa trilha sonora que traz uma mistura de nostalgia e empolgação utilizando pontualmente hits da era disco como a já citada “I love to love” e clássicos da soul music como “Sunny” cantada por Bobby Hebb. Temos também a apresentação de uma sociedade londrina moderna e representativa, onde a capitã da polícia é uma mulher forte, porém com problemas com seus filhos e marido, mas sem perder sua feminilidade; o novo parceiro de River, Ira King é filho de imigrantes do oriente médio e toda trama de fundo toca no assunto de imigração e busca por condições melhores de vida, o que achei que deu um ar de realidade moderna a série.

Sobre a história, não vou revelar nada sobre a trama central da série, pois se eu contar tudo se perde, mas posso dizer que as revelações finais sobre o que levou a detetive Stevenson à morte são esmagadoras e a identidade do assassino e o motivo dá um amargo na boca. Mas durante as investigações da morte de sua parceira, River ainda segue trabalhando e resolvendo casos paralelos e estes são bem bacanas, como o suposto assassinato de uma menina por seu namorado e a tentativa de suicídio de um empreiteiro no local de trabalho. Junto a isso ainda temos as reveladoras sessões de análise que o protagonista é forçado a comparecer e que vão nos apresentando o perfil do personagem, sua origem e crenças sem que seja necessário algum artifício como narração em off ou explicação pelos olhos de uma terceira pessoa, o que é revelador para saber o porquê do personagem ser do jeito que é, principalmente nos episódios finais.


River é uma excelente série e está ali na Netflix a pleno alcance dos dedos e fechadinha em apenas seis episódios. Me proporcionou muitas horas de diversão, suprindo minha carência de Game of thrones e me tornou fã do ator Stellan Skargard. Brilhante em roteiro, embora não seja inovador; policial investigativa que prioriza a inteligência dos personagens em relação a violência e apresenta uma visão cosmopolita e realista da sociedade. Torço para que mais dessas produções cheguem até nós, mas enquanto não chegam, vou ficar por aqui curtindo esse mix de sentimentos que a série me proporcionou e cantando “I love to love”.