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segunda-feira, 13 de junho de 2016

CURTINDO A VIDA ADOIDADO (1986) #esquerda_rewiew 3

Dia 11 de Junho de 1986, estreava nos cinemas o filme que viria a se tornar o maior clássico da sessão da tarde de todos os tempos, ”Ferris Bueller’s day off”, ou como ficou chamado no Brasil “Curtindo a vida adoidado”, e eu, que tive minha personalidade moldada pela TV dos anos oitenta (e isso explica minhas piadas sem graça e respostas sem sentido), não poderia deixar passar em branco o trigésimo aniversário dessa obra prima.

O filme foi escrito e dirigido por John Hughes, famoso cineasta responsável por muitos filmes de temática jovem dos anos oitenta como “Gatinhas e gatões” e “O clube dos cinco”, além de escrever o roteiro de “Esqueceram de mim” e, estrelado por Matthwel Broderick no papel de Ferris Bueller, um adolescente do último ano do ensino médio que, ao saber que sua entrada na faculdade pode estar sendo ameaçada pela sua infrequência nas aulas, resolve matar aula pela última vez e convoca sua namora e seu melhor amigo para aproveitarem o que há de melhor na cidade vivendo altas aventuras.
Para começar eu acho “Curtindo a vida adoidado” um clássico não por ser um filme com um roteiro fantástico ou com parte técnica intocável, como um “psicose”, “Cidadão Kane” e “Ikiru”,  o filme é um clássico porque é um daqueles que todo mundo ou  já ouviu falar, ou já assistiu; uma obra tão marcante, que coloquei a sinopse apenas por obrigação porque todo mundo conhece a história.

Um dos responsáveis por criar essa marca foi Matthwel Broderick com uma atuação tão estupenda, que soterrou todos outros papéis que o ator veio a fazer depois. Sempre enxerguei o Ferris apresentado por Broderick como um super-herói, muito além dos problemas das pessoas comuns e talvez esse seja o motivo dele ser tão lembrado e tão referenciado, Ferris não tem dúvidas, não demonstra medo nem quando se depara com o pai no táxi ao lado ou com o diretor na porta de casa, além de ter um talento de convencer qualquer pessoa, cativar  todos com quem tem contato e ser querido por todo mundo; se ele falasse apenas com Cameron (seu melhor amigo) se poderia dizer que Ferris é uma criação da cabeça do amigo e que nem existe, tal qual sua falta de dificuldade que tem em tudo. Falando em Cameron, depois de reassistir “Curtindo a vida adoidado” fiquei pensando que ele é, de certa forma, o verdadeiro protagonista, pois a jornada dramática é toda dele e é ele quem tem a grande mudança ao final do filme, pois, ao contrário de Ferris que é só vitória, ele tem todas dificuldades do mundo, seus pais não se importam com ele, ele está sempre doente, tem medo de tudo, não tem personalidade e depois de um dia vivendo tudo que a cidade tem a oferecer e destruir uma Ferrari, termina a história mais decidido e disposto a enfrentar suas dificuldades de frente.

Ainda sobre esses dois personagens, a própria amizade de Ferris e Cameron não faz muito sentido. Ferris, como diz a secretária do diretor, é amado pela equipe de xadrez e pelos jogadores de futebol americano, sua amizade com uma cara depressivo e apresentado como uma das pessoas menos legais da escola como Cameron é algo irreal. A não ser que sua amizade com um cara tão destoante de si seja para, em comparação com seu amigo, parecer que ele é ainda mais brilhante do que já é, e prestando a atenção em Bueller no filme isso parece crível, pois quando ele está ao lado de Cameron parece se destacar ainda mais com o que apronta, sem contar que o amigo é rico, sem personalidade e tem acesso aos carros do pai, o que o torna útil; essa teoria é de fácil aceitação porque prestando atenção nos detalhes percebemos que Ferris é um tremendo FDP e isso fica claro ao pensar que ele hackeia o sistema da escola para deletar suas faltas, mente para seus pais para poder matar aula, manipula Cameron, humilha o metre de um restaurante e sai sem pagar, além de  ridiculariza o diretor da escola em que estuda, mas quem se importa, todo mundo adora filme e série de vilão, afinal, quem é que prefere o Luke Skywalker em comparação com o Darth Vader?


O filme ainda é inovador ao utilizar a quebra da quarta parede como nunca havia sido feito antes. Os trechos onde vemos o protagonista sair do ambiente onde se desenrola a trama, olhando para o espectador e falando sobre a situação são tão marcantes, que renderam referências e homenagens em filmes como “Clube da luta” e “Deadpool”, esse último plagiando por completo a cena pós-créditos do filme de 1986, sem precisar explicar nada, o que mostra como o filme foi marcante.
Outra coisa que marcou no filme foi a trilha sonora. O filme possui uma trilha sonora espetacular, que ficou lembrada por duas músicas em especial: a música “Oh Yeah!” do grupo “Yello”, que toca também em “Akira” e “Twist and Shout” dos Beatles; Essa última a propósito, lembro que na segunda-feira após a primeira vez que o filme foi exibido na globo (no supercine, e eu assisti), um músico foi convidado pelo jornal do almoço ( o jornal do meio-dia aqui no RS) para comentar sobre a versão da música do filme, acredite ou não! Além desses dois temas, o filme ainda toca “Danken Shoen” de Wayne Newton, como uma homenagem ao que é a vida onde se agradece por todo prazer e dor que fazem nossa existência fazer sentido, muito bacana!

O filme ficou lembrado ainda por sua “filosofia”, que hoje é tida como autoajuda meio piegas. Mas a frase “a vida passa muito rápido, se você não aproveitar ela vai acabar e você não vai ver.”, ainda ecoa na cabeça de muita gente que envelheceu assistindo ao filme e que depois de uma semana de trabalho mecânico, se pergunta qual a esquina que entrou por engano e resultou em uma mesa cheia de documentos e nenhuma expectativa (incluindo este que vos fala), Assim como a visão que o filme trás dos adultos caricaturados, que parecem meio bobos em seus serviços que parecem não entender e cumprindo suas obrigações que pouca gente se importa (como muita gente que eu conheço).
Como já disse acima, tive a honra de assistir a primeira vez que “Curtindo a vida adoidado” passou na Rede Globo, acho que em 1989 ou 90. O filme foi exibido no Supercine e lembro que o assunto da aula no outro dia era a parte do desfile onde ele cantava a música dos Beatles e a novidade que era de o personagem falar conosco que estávamos assistindo ao filme. De lá para cá o filme foi exibido mais ou menos setecentas vezes na sessão da tarde, o termo “save Ferris” se tornou nome de banda, camisetas com as frases do filme foram feitas e roteiros para a sequência imaginados e escritos, mas a originalidade do filme de 1986 nunca foi esquecida e superada e penso que uma sequência seja impossível.
Falando sobre a originalidade do roteiro do filme, uma coisa que pouca gente sabe é que a versão original do filme tinha uma hora a mais e que, após ser exibida apenas para os atores e executivos do estúdio e ninguém rir, ou entender o filme, John Hughes, se reuniu com seu montador e reduziu o filme ao mínimo, excluindo várias sub-tramas, incluindo o fato de que Ferris tinha mais dois irmãos (MAIS DOIS IRMÃOS) , o fato só mostra a genialidade do diretor que conseguiu montar um filme de sucesso de uma versão inicialmente fracassada.
“Curtindo a vida adoidado” é um clássico e Tudo mais que eu falar será redundância. Uma comédia referenciada em muitos outros sucessos do cinema, séries e publicidade, repleta de força, ironia, deboche e (para honrar a sessão da tarde) altas aventuras. O papel da vida de Matthew Broderick e a obra prima de John Hughes, genial no que tange a idealização de uma geração, inovador no que diz respeito a narrativa, engraçado e inspirador, para resumir, um filmaço! Nada mais me resta  a dizer a não ser Parabéns e SAVE FERRIS.


Ainda estão aí? Acabou! Vão pra casa... vão !!







terça-feira, 31 de maio de 2016

ALIEN (1979) - Ou Ripley e os Trapalhões no espaço

Da esquerda para Direita: Ripley, Didi, Mussun e Dedé

Estava revendo "Alien" de 1979 nesse último domingo e acabei fugindo um pouco do foco da história, que é muito legal, e batendo de frente com muitos detalhes que refletem o zeitgeist do momento em que o filme foi realizado e que , hoje em dia, é impossível não achar engraçado.

       
Jones, o oitavo passageiro
Para começar pelo nome do filme, que no Brasil tem o péssimo subtítulo "O oitavo passageiro", se referindo ao alienígena. Quem colocou esse subtítulo não assistiu ao filme antes, porque o alienígena não é o oitavo passageiro e sim o nono! O oitavo passageiro é um gato (jones) que habita a nave, porque se um alienígena que invadiu a nave é considerado passageiro, porque não o gato? Então, ou o filme é sobre o gato (que é o oitavo passageiro), ou deveria se chamar "Alien, o nono passageiro" ou "Alien, o clandestino" !! E falando sobre o coitado do Gato, quando o filme começa vemos a tripulação sendo despertada da animação suspensa e sete cápsulas se abrindo, mas não vemos uma pequena capsula em parte alguma, o que nos faz pensar que o gato não estava dormindo e sendo assim, do que esse bendito gato se alimentava? Ratos espaciais?! Ou será que é um robô? Nunca saberemos!E no final o gato é injustiçado, porque fica vivinho, mas a Ripley se diz a única sobrevivente da Nave comercial Nostromo, sacanagem com o bichano!

Outro ponto que chamou minha atenção é a total falta de profissionalismo e foco da tripulação da Nostromo, sendo os mecânicos Bret e Parker os maiores exemplos disso. Os mecânicos são as pessoas menos profissionais e mais desleixadas, gananciosas, enrolões e chatos do universo; não respeitam ninguém nem nada, seja hierarquia, seja o tempo ou perigo, nada é motivo para tirar o sorriso maroto de seus rostos e a oportunidade de buscar ganhar o dobro do combinado em contrato, tanto que por esse descuido que um deles é a primeira vítima do Alien (ou segunda), fico pensando quais as qualificações desses caras para eles irem ao espaço? No currículo dos tripulantes da ARES-3 do livro "perdido em Marte", um era médico, especialista em AEV's e logística, outro engenheiro mecânico e botânico, e outro doutor em química e pós doutor em física; Os mecânicos da Nostromo tem o que no currículo? Curso de mecânico de desmanche dos anos oitenta?!

Café o que move os astronautas
 
   
Mas os mecânicos não são os únicos não profissionais do filme, a tripulação toda parece ser de amadores. Isso se mostra na displicência onde todo mundo passa o tempo todo fumando e tomando café, seja na mesa de controle da ponte da nave, seja na sala do computador central e na sala das máquinas; parece que sempre que há uma decisão a ser tomada uma caneca de café surge na mão do personagem e quando há um momento de relaxamento ou tensão, surge um cigarro (Até quando um alien sai do peito do imediato da nave), isso quando não aparece uma lata de cerveja descaçando sobre uma bancada ou computador.



   E o oficial médico então? Ash, que é o responsável pela ala científica da expedição parece nunca ter ouvido falar em contaminação e EPI's; depois de retornarem da verificação de um planeta com um suposto sinal de vida, tendo o imediato Caine sido atacado por um organismo alienígena que se fixou em seu rosto, mais tarde quando descobre que o organismo se soltou do rosto do colega, chama Ripley e Dallas (o capitão), para capturar o bicho sem uma roupa de proteção ou arma e depois analisa os restos da perereca que fica preza na cara de Caine bem de pertinho, sem nenhuma máscara ou óculos de proteção mesmo sabendo que o bicho soltava ácido capaz de derreter o casco da nave, tenho certeza que ele fez faculdade de medicina e ciências à distância, ou é um robô mal programado (acho que a 2° alternativa).


venha para a luz Dallas
    Mas o mais legal é a tecnologia "retrô-futurista" do filme. Isso ficou datado porque em 1979 ninguém tinha a ideia de tecnologia digital ou da evolução dos computadores, e embora não tornem o filme menor, não diminui a graça que é ver os tripulantes rodeados de luzinhas e apitos a cada botão que apertam. O próprio computador central é praticamente uma árvore de natal cheia de pisca-piscas e com um monitor de 10 polegadas por onde o sistema analisa e administra a viagem, já o módulo de resgate não comporta quatro tripulantes, mas a tripulação é de sete...ou seja, a empresa conta que, em caso de acidente, pelo menos metade do grupo morra no espaço (top 10 das melhores empresa para se trabalhar). O pior é quando a tripulação vai caçar o Alien! Os caras tem a brilhante ideia de assustar o bicho com fogo...Isso mesmo, FOGO em uma nave no espaço! Poxa, se alguém viu "Gravidade", sabe que fogo e espaço não combina, o que me faz pensar que essa empresa proprietária da Nostromo não tinha certificação nenhuma e nem um técnico de segurança responsável e isso fica claro quando conhecemos a sala de máquinas da nave, que é um amontoado de canos, tubos, fios e grades que vaza vapor e faíscas como se fosse uma metalúrgica de fundo de quinta que não é nem ao menos iluminada, sendo cheia de sobra e penumbra e até infiltração. Não surpreenderia se descobríssemos que a Nostromo é movida a carvão ou lenha.

Ripley e seu permanente
   
   Por último não podemos deixar de falar do visual dos personagens e de novo temos que começar pelas grandes estrelas desse filme: Os mecânicos. Bret e Parker tem o visual futurista mais retrô e brega da galáxia; Parker usa uma faixa na cabeça no melhor estilo movimento negro dos anos setenta, está sempre com uma caneca de café ou lata de cerveja por perto, é indiferente e debochado, muito suado e sempre influenciando o colega Bret. Esse por sua vez é um preguiçoso e omisso, usa um boné de mecânico, cigarro no canto da boca e camisas de havaiano, sempre pedindo para o colega mais articulado falar por ele. O comandante Dallas usa um cabelinho cogumelo e uma barba desenhada, uma jaqueta de couro remangada, uma caneca de café e muita falta de liderança e compromisso com a missão, tanto que ao descer no planeta ele põe toda a tripulação em risco ao não cumprir as regras de quarentena depois que Caine é contaminado pelo Alien, e, para fechar os grandes ícones dos anos 70 e 80, temos o permanente da Ripley, que chega e domina onde quer que seja, penso até que o motivo do Alien persegui-la durante toda trilogia seja por inveja de sua bela e vasta cabeleira.

Ok. Eu sei que o que falei acima é um amontoado de bobagens que beira a blasfêmia se tratando desse grande clássico, mas não consegui deixar passar em branco. O filme é genial, mas fede a anos oitenta, a malandragem e marra dos personagens, os cortes de cabelo, a tecnologia retro, mas o mais louco é que nada disso diminui o filme, pelo contrário, depois que observei isso passei a dar mais valor ainda a obra por seu valor histórico, por ser inovador e clássico sem deixar de ser uma marca de uma época . Prometo escrever uma resenha séria de "Alien, o nono passageiro" em breve, mas a partir de hoje , sempre que me ver rodeado de colegas em uma mesa e tiver uma caneca de café em minha mão, ou em casa quando uma cerveja descansar ao lado do meu PC, vou me sentir como um viajante espacial.



segunda-feira, 14 de março de 2016

CANTIGA DE NINAR - Chuck Palahniuk (Esquerda Rewiew #2)

Fiz uma promessa a mim mesmo pouco antes de me formar, reler todas os livros bacanas que me marcaram. Foi assim que comecei meu rewill com “A mulher que escreveu a bíblia” de Moacyr Scliar e como sequência, hoje trago um livro muito especial, cheio de ironia, tristeza, loucura e magia; tal qual a vida, mas um pouco mais sucinta; Falo de “Cantiga de Ninar”, livro do escritor americano Chuck Palahniuk, publicado em nossas terras tupiniquins em 2004 pela editora Rocco e que confirmou (pelo menos para mim) o talento do escritor que chamou minha atenção quando assisti ao filme baseado em seu livro “Clube da luta”.

Capa da edição da rocco 2004
"Cantiga de Ninar” conta a história de Carl Streator, um jornalista em uma grande cidade que é incumbido de realizar uma série de reportagens sobre morte infantil súbita (ou morte no berço). Seguindo pistas de mortes recentes de crianças, ele descobre que em muitos casos sem causa de morte aparente, os pais estavam de posse do livro “Poemas e rimas ao redor do mundo” e sempre marcados na página vinte e sete, após uma sinistra experiência ele descobre que o poema dessa página mata quem o ouve e, preso em sua mente como uma música que se ouve logo pela manhã, o poema (ou cantiga de poda, como passa ser conhecido logo depois) o transforma em um assassino compulsivo. Buscando a cura para essa compulsão Streator acaba por encontra Helen Hover Boyle , a proprietária de uma imobiliária que é especialista em comprar, vender, recomprar e revender casas mal assombradas e que perdeu um filho em situação parecida com a investigada; junto com ela e contando com a ajuda de sua secretária Mona, uma hippie que se diz aprendiz de bruxaria e o namorado desta última, Ostra, um extremista ecológico, Streator parte em viagem pelos Estados Unidos para destruir todas as cópias da cantiga de poda sem imaginar que esse será apenas um entre todos os problemas que surgirão a partir do começo dessa viagem e mudarão sua vida para sempre.


Definitivamente “Cantiga de Ninar” não é um livro para iniciantes, sua forma de narrativa é tão veloz e ágil que por vezes nos sentimos tontos devido a tanta informação. Confesso que tanto da primeira vez como agora, só consegui me acostumar com a forma que autor decidiu contar a história a partir do terceiro capítulo. Sua forma de escrita me lembrou muito a apresentada por Alan More em “Do inferno”, apresentando todos os fato relevantes das personalidades das personagens em uma torrente de situações que as vão definindo, no início isso pode causar um estranhamento, porque ficamos meio perdidos, mas quando a história engrena tudo fica muito claro, fluindo naturalmente e essa estranheza inicial não diminui em nada a sensação de amargo prazer quando se termina de ler a obra.

O livro é muito divertido, e, para mim, o grande responsável por essa diversão é o flerte com o sobrenatural que o livro traz. Não se trata de uma história de terror ou de fantasmas, mas nem por isso eles deixam de aparecer, mas daquela forma sutil e que serve como pano de fundo para algo maior, que nesse livro (assim como na maioria dos livros do autor) são a solidão e a miséria humana. Quem já leu algo de Palahniuk ou viu uma entrevista do autor, sabe que a solidão é o cerne das histórias dele e que seus personagens são sempre pessoas da periferia do mainstream buscando alguém que lhes compreenda e os aceite e isso não é diferente nesse livro, temos um repórter solitário, uma corretora durona porém solitária e o casal de jovens que os acompanham, formando uma família torta com um objetivo torto, mas uma família (até ali!).

Essa “família”, sua relação e a busca por alcançar seus objetivos, que no decorrer do livro vão se mostrando divergentes, é o que enriquece a história, mas que também causa uma certa frustração conforme a história avança. Todos os personagens presentes nesse livro (exceto um talvez) estão naquela área cinza tão comumente falada nos dias de hoje, onde não se é totalmente mau e nem totalmente bom; mas eu definiria melhor dizendo que todos mereciam no mínimo um bom e belo soco no meio da cara. Para começar pelo narrador, Carl Streator, o cara é um enigma que aos poucos vai se revelando quando conhecemos o seu passado, perdeu a mulher e a filha muitos anos atrás, vítimas (sabemos depois) da cantiga de poda e após o evento, fugiu, mudou de nome e vive na solidão da cidade grande, escrevendo pequenas matérias para um jornal local. Ele odeia a barulheira das multidões e carrega consigo muitas frustrações e traumas, fatores que acabam por turbinar o poder da cantiga de poda que se instala em seu cérebro como uma música chiclete como que se houve pela manhã e que ele não tem pudor e nem controle de usar contra todos que o incomodam, seja um policial que barra sua passagem, seja um conquistador em um bar, ou seus chefes no trabalho, quando li o livro a primeira vez, lembro de ter ficado com certa pena do destino desse personagem, mas relendo agora, vejo que ele procurou seu destino desde o início e ouso dizer que ainda ficou barato.

O autor
Seguindo a hierarquia dessa “família” temos Helen Rover Boylle, que divide com Streator a tristeza da perda de seus entes queridos, no entanto conforme os capítulos vão passando, vamos descobrindo que, ao contrário do protagonista, ela não se manteve inocente por muito tempo e entendeu o potencial da arma que tinha em mãos (ou no cérebro) muito antes dele. Helen utiliza a muito tempo a cantiga de poda para retirar pedras de seu caminho, além de ganhar dinheiro como assassina de aluguel, é assim que ela controla seu vício de matar, matando uma pessoa por dia, por dinheiro e nem o drama que sofre nas últimas páginas a redime e faz pensar que seu destino seja menos merecido, embora não seja agradável.

Fechando essa força tarefa de busca de livros assassinos, temos Mona e Ostra. Mona é uma jovem hippie metida a bruxa, que trabalha como secretária de Helen em sua imobiliária e a ajuda a identificar casas mal assombradas que lhe tragam um grande retorno financeiro, crente nas forças ocultas e conhecedora de lendas e histórias das bruxas, serve como guia dentro da viagem que o grupo se propõem fazer; tem uma personalidade dependente e é manipulada por seu namorado Ostra o tempo todo, mas a guinada que tem no final do livro faz pensar quem manipula quem dentro dessa família. Já Ostra é um fanático ecológico que busca uma maneira de retirar a maior praga da natureza de ação, o homem. Trambiqueiro, sobrevive através de golpes onde promove ações judiciais que cobram indenizações de todo tipo de empresas, sua personalidade é arrogante e seus interesses claros desde a primeira linha onde o citam, deixando como única resposta pelo fato de o grupo resolver levá-lo para a viagem, a dependência que o mesmo causa a Mona, mas essa resposta não me satisfaz até hoje ao me questionar por que ninguém matou esse chato quanto tinham tempo? Talvez porque assim como na vida real, as vezes damos chances demais a quem não é merecedor… talvez.

Outra coisa legal no livro, são os coadjuvantes que aparecem em pequenas participações quando o grupo está na estrada e que servem para dar a visão aterradora do poder e dilema que os protagonistas estão lidando. Existem dois desses coadjuvantes no livro que me marcaram demais, o primeiro é uma mulher, que serve para que os segredos de Helen acabem por ser revelados; A mulher mora em um trailer e recebe o grupo achando que se tratam de consultores de beleza (tipo avon), quando na verdade eles estão procurando o livro que ela locara na biblioteca para contar histórias ao filho e acaba por matá-lo. A tristeza e solidão daquela mulher, que é apontada como culpada da morte do filho por omissão é apresentada de uma forma tão sutil e esmagadora que quando eu li me deu um nó na garganta, assim como a homem que é acusado de matar o filho e recebe o grupo acreditando que se tratam de religiosos, explodindo em um monologo sobre a existência e desejo de Deus que, eu como pai, me senti conectado ao personagem e agradecido pelo fim que o protagonista resolve dar a sua dor.


Minha dica é “LEIA CANTIGA DE NINAR”. Seja porque você gosta de histórias de terror, seja porque gosta de contos de detetives, seja porque gosta do autor ou porque ficou sabendo que o filme baseado nessa obra já está em pré-produção (foi o que ouvi), não importa, apenas leia. É um livrão desses que fica na cabeça da gente como uma música chiclete que se repete sem controle; sua ironia, dureza e tristeza, estão no mesmo nível do divertimento e emoção que o livro tem, seus personagens são riquíssimos e complexos, sua narrativa é ágil e estonteante, um legítimo Chuck Palahniuk (em caixa alta, negrito e sublinhado), um livro que te enfeitiça e embora eu não acredite em bruxas, que las hay, las hay.

sábado, 2 de janeiro de 2016

A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA - ESQUERDA REWIEW

Me formei em 2015! Agora sou bacharel em administração (antes tarde do que nunca!) e, quando estava finalizando o TCC, em meio a dados que se acumulavam em umas três montanhas aguardando utilização, prometi que assim que a banca avaliadora me liberasse faria uma revisita aos livros, filmes e quadrinhos que me marcaram de alguma forma (prometi também ler todos os livros do “Game Of Thrones”, mas não sei se tenho tempo para tanto.).
Resolvi começar com “A mulher que escreveu a bíblia” de Moacyr Scliar, talvez pela onda crescente de feminismos cada vez mais em voga e que eu acredito ser extremamente necessária (apesar de não apoiar nenhum evento extremo) ou talvez por ser apaixonado pela obra do autor, o qual eu prometi a muito tempo ler todos os livros e nunca saí dos quatro que possuo (considero assim essa releitura um homenagem ao escritor). Pois bem, seja lá por qual motivo conhecido apenas pelo meu subconsciente, “A mulher que escreveu a bíblia” foi o livro escolhido e, senhoras e senhores, que livro bacana!
Não! Não vou me atrever a avaliar a forma de narrativa de um imortal da academia brasileira de letras, tão pouco questionarei qualquer mérito de um livro premiado com o Jabuti, meu interesse é falar um pouco sobre a experiência divertida de ler Moacyr Scliar e frisar os pontos que me colocaram um sorriso no rosto durante a leitura, para que, quem sabe, eu fomente em pelo menos uma pessoa o desejo de visitar o maravilhoso universo Scliariniano.
capa da versão de bolso

Qual a história do livro?
Ajudada por um ex-historiador que se converteu em “terapeuta de vidas passadas”, uma mulher descobre que, no século X a.C, foi uma das setecentas esposas do rei Salomão ( a mais feia de todas, mas a única capaz de ler e escrever), Fato inusitado que encanta o rei, que a encarrega de escrever a história da humanidade, tarefa árdua, que uma junta de escribas se dedica a anos sem sucesso. Com linguagem que transita entre a elevada dicção bíblica e o mais baixo calão, ela conta sua trajetória, desde o tempo em que não passava de uma solitária e feia filha de um obscuro chefe tribal. ( transcrição quase que idêntica à contracapa da minha edição da Cia das Letras)

Gostei muito da protagonista. Seus medos, sonhos e anseios são muito bem desenvolvidos e o fato dela não ter o nome dito em nenhum momento, me parece uma ferramenta para gerar catarse com o leitor, o que dá extremamente certo, somos um pouco nós que estamos ali vivendo seus medos e sonho, e, nos preocupando com a situação de quem ela se importa. Isso torna a personagem muito real, muito contemporânea, tanto que, embora que se trate (até certo ponto) de um romance histórico (é? sei não!) ambientado no oriente médio mil anos antes de Cristo, a feia (como se auto intitula a protagonista) é extremamente moderna e decidida. Esse fato remete a própria história do livro que, conforme citado anteriormente, é como se fosse o texto de uma mulher de nosso tempo narrando sua vida passada; utilizando isso, o autor se permitiu narrar a história sem a necessidade da utilização de termos que remetessem a época ou se prender a apresentação mais aprofundada da sociedade e ambiente, podendo partir logo para a construção da história, tanto que sobram momentos onde os personagens se tratam por “cara” e acham as coisas “legais” isso dá o tom do humor sutil do livro que nos conduz de forma suave pela leitura.
Ainda sobre a protagonista, o fato de ela ser uma personagem mulher escrita por um homem e que me parece tão feminina (e quando falo feminina, falo humana e não perfeita) é o que realmente mais gosto no livro. Talvez pelo fato de as poucas personagens femininas da minha infância e juventude (Dostoievski, muita história em quadrinhos e filmes dos anos 80 e 90) serem apenas muletas pouco exploradas e esse livro quebre esse paradigma de forma espetacular, apresentando uma mulher inteligente, que sabe de suas limitações e que busca ferramentas para contorna-las e que principalmente seja humana antes de mulher. Ela manipula, utiliza de silêncios para gerar expectativa, controla sua raiva, premedita suas atitudes; mesmo a índole da personagem que desde o inicio já é apontada como sendo boa, não há maniqueísmo e por vezes ela ultrapassa alguns limites para alcançar o que quer.
Quanto aos desejos da feia, há quem possa criticar o autor pelo fato dela ter o único objetivo de conquistar Salomão através do livro, voltando a velha mítica de que as mulheres só agem tendo os homens como foco. Mas eu fico inclinado a discordar disso, a força da personagem está em realizar o que nenhum homem ou grupo de homens conseguiu anteriormente, a transcrição (de redação carismática) das histórias “sagradas” e se o plano dela é arrastar Salomão para sua cama isso não diminui em nada o seu trabalho ( além do mais o corpo é dela e suas regras também).
Aquele humor...
Outro fato marcante na leitura são os personagens periféricos da história, como o pai da feia, que ela descreve como mulherengo e ausente, coisa que Moacyr Scliar consegue transmitir quando descreve os olhares pretensiosos e silêncios obtusos do patriarca do deserto, fato que se repete quando ele descreve o primeiro amor da protagonista, que só é citado pelo epiteto de “pastorzinho”, a quem nos é mostrado, pelo olhar da protagonista, como um simplório e limitado, no entanto gentil jovem sem perspectiva o qual vamos acompanhando em todo o seu azar durante  o livro; mas quem realmente me colocou um sorriso no rosto, foi Mikol, uma das concubinas de Salomão e que fica presente no livro por não mais de três páginas, mas pela qual o autor consegue transmitir o significado da amizade verdadeira nascida da cumplicidade. O trecho onde a feia fala sobre o conhecimento de Mikol sobre sinais gráficos é tão doce e de detalhes tão bem apresentados que eu tenho de transcrever uma parte aqui:

“Ela não sabia ler nem escrever, mas conhecia todos sinais gráficos, o ponto, a vírgula – que sempre a deixava pensativa – a interrogação e a exclamação, que lhe provocavam barrigadas de riso. E o travessão: também conhecia o travessão. Contudo, gostava mesmo era das reticências; sabia que aquilo era prazer a pessoa, com olhar perdido, pensar sobre a vida, sobre o mundo...
- “Sim, nas reticências talvez haja um lugar para mim...” (acho que perfeição não define essa parte do livro.)

Não posso terminar de falar sobre o livro sem fazer uma pequena comparação entre este livro de Moacyr Scliar e os dois livros com a mesma temática bíblica escritos pelo autor Português José Saramago ( “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”). Posso começar dizendo que não gosto da escrita de Saramago. Longe de mim depreciar o autor, até acho algumas partes de “Caim” bem divertidas, mas parece que o Autor português tem como único objetivo subverter os relatos bíblicos sem a vontade de escrever algo conclusivo que nos remeta a um olhar diferente da história conhecida. Em “O evangelho segundo Jesus Cristo” a trama se prende a momentos recorrentes de sexo entre Jesus e Madalena e parece vincular Lúcifer a religião islâmica quando cita como o anjo caído reza e descreve sua aparência, também não desenvolve muito dos personagens com potencial como Thiago (que é citado como irmão de Jesus, mas nada faz) e até perde tempo explicando eventos como a água com vinagre dada a Jesus na cruz para mostrar que os romanos não eram Tãão maus assim... um reflexo dos preconceitos do autor, e,  nisso o livro não engrena e se torna até chato. Em Caim, já temos uma narrativa mais rápida e é interessante porque foge da linearidade do tempo e isso é bacana, pois coloca o protagonista inserido em todos grandes episódios da bíblia, mas ao fim o autor comete o mesmo erro do que no livro anterior e dá um final que parece feito as pressas a história. Já em “A mulher que escreveu a bíblia” tudo parece mais redondo, tanto que o final, embora previsível pela situação que vai se desenhando, não decepciona e terminamos a leitura com um belo sorriso de satisfação, por sermos apresentados a outros pontos de vista e aprofundamentos. As  obras desses autores com esse tema, talvez tenham esse diferente impacto em mim devida a própria mensagem que eles tenham buscado transmitir nas entre linhas. Embora ambos fossem ateus (os dois já se foram) a vontade de diminuir a religião em Saramago era claramente observável, enquanto que Scliar, como Judeu, trazia ainda em si a religiosidade apenas como tradição, uma forma de carinho por suas origens, ,e o carinho gera mais frutos que a raiva (star War nos ensinou isso!). De qualquer forma, se eu precisasse escolher um para ler sobre o tema eu leria Scliar.

De qualquer forma eu quero dizer que valeu muito a pena reler “A mulher que escreveu a bíblia”, tive aquela mesma sensação que tive da primeira vez de surpresa e encantamento. Acredito que o Brasil deve redescobrir Moacyr Scliar, tanto através de seus livros quanto colunas e artigos, o cara era um gênio. Quanto a esse livro eu indicaria para quem está em transição entre leituras mais fáceis para contextos mais profundos, ele traz referencias de fácil acesso e um humor para todos, mas sem deixar de ser inteligente e ágil. Uma bela leitura e um livro para se destacar na estante e na memória.