Se não enxergarmos o que é tido
como diferente presente em todas as áreas da sociedade o encararemos como um
erro, onde apenas a bolha onde vivemos será percebida por nós como verdade
absoluta; por isso eu digo: Representatividade é tudo!
Mas não é a simples presença física de
pessoas de diferentes cores, opções sexuais ou religião que garante o rompimento
da bolha onde nos incluímos, mas a possibilidade de se criar empatia a ponto de
nos reconhecermos nas pessoas de aparência e opções diferentes de nós mesmos e
nisso, a cultura como um todo tem um papel essencial, mas em especial o cinema
e a literatura em suas facetas tidas como pop. Tudo isso talvez seja uma verdade quase intuitiva, mas que ficou
mais clara para mim, quando me deparei com uma obra de sci-fi clássica, que
utilizando de clichês de ficção científica e fantasia, me entregou uma mensagem
poderosa sobre os males que o preconceito cristalizou em nossa sociedade, em
uma trama fruto da mente de uma pessoa que viveu muitos desses males.
Pois hoje falarei (muito por cima) dessa
obra, ou melhor, desse livro que se enquadra perfeitamente no seleto grupo dos
“rompedores de bolha” e que me conquistou desde seu prólogo. Trata-se de “Kindred
- Laços de Sangue”, um clássico da escritora afro-americana Octavia E. Bluter,
que depois de quase quarenta anos de seu lançamento original, finalmente chega
o Brasil pela editora Morro branco, me prendendo em suas páginas não só pela
sua mensagem dura mas necessária, quanto por sua escrita refinada e ágil.
O livro conta a história de Dana, uma
escritora, que após se mudar com o marido Kevin (também escritor), para a casa
nova, se vê vítima de um misterioso fenômeno de viagem temporal, retornando
para a Baltimore escravagista pré-guerra civil americana, uma época nada fácil
para uma mulher negra como ela (principalmente uma que possua educação e
espírito). Conforme o fenômeno vai se repetindo Dana descobre que o mesmo é fruto
de uma misteriosa ligação com um antepassado, seu tataravô Rufus Weylin, filho
de um proprietário de escravos, que quando sente sua vida ameaçada a invoca
para que essa o ajude. Além do estranhamento da situação, Dana viverá o dilema
de ter que defender seu antepassado, que é fruto da época de abusos onde
nasceu, para que ela mesma tenha seu nascimento assegurado, enquanto é obrigada
a testemunhar a abertura da feriada que a escravidão causou e que o preconceito
e a ignorância não deixaram cicatrizar até os nossos dias.
Esse livro me causou inúmeras sensações, a
maior foi a da descoberta de Octavia E. Bluter e todo seu talento. A autora,
não vulgarmente chamada de A grande dama da ficção científica, realmente me
impressionou com sua forma de escrever limpa e pé no chão (e em um livro de
sci-fi!), conseguindo transmitir não só toda a dor do período escravagista de
maneira sutil, como a própria aflição de seus personagens negros do século XIX,
que transitam no livro como não pessoas, posses de outros e fadados a passar o
resto de seus dias contendo seus sentimentos e indignações; mas também, nos
entregado na sub-trama, a cicatriz social que a escravidão deixou ao apresentar no tempo atual
(1976) uma mulher negracasada com um
homem branco (Dana e Kevin), que sofrem o desprezo de suas famílias devido a
esse casamento, ainda nada comum nos EUA dos anos mil novecentos e setenta,
indicando, sem precisar escrever nada que aprofunde a situação, a marca de um
racismo, mais velado do que explicito, que continua presente até os dias de hoje;
sem falar da maneira totalmente realista que a autora descreve o relacionamento
e rotina do casal, nos tornando cúmplice de seus segredos e testemunha de seus
sentimentos.
A leitura também me fez refletir quanto a
pouca quantidade de autores não-brancos e não-masculinos que eu posso dizer que
li e o que eu perdi com isso. Fora os clássicos como Machado de Assis ou
Alexandre Dumas e “Batle Royale” de Kouachum Takami, quase todos livros da
minha lista são de Europeus ou Euro-americanos e no que se trata de mulheres
não é muito diferente, mulheres negras então, não havia nenhuma. Octavia E.
Bluter veio para mudar isso ao se apresentar para mim, como um desses autores
que quando terminamos de ler uma de suas obras, sentimos vontade de ler todas,
nos induzindo à representatividade através do puro talento.
A história da autora e a consciência da
sociedade onde vivia e que lembra um pouco como enxergo a nossa, sem contar o
fato de, pela primeira vez, tive a oportunidade de ter contato com uma obra de
ficção científica escrita por uma pessoa da mesma etnia que eu, realmente me
tocou, pois como disse no início, representatividade é tudo! Mas esse fato
sobre “Kindred” que é importante para mim e para poucos, se encontra além do
livro, dentro dele há uma história de drama e aventura, desenvolvida de maneira
magistral que fala sobre como somos adestrados para aceitar os abusos e não
perceber muitos de nossos próprios privilégios. Isso acontece através da
relação de Dana e Rufus, a primeira uma mulher negra educada e culta do século
XX, se vendo exposta a todo tipo de violência do período da escravidão e que
vai se quebrando frente a esse novo mundo; o outro, uma figura do século XIX,
que, conforme Dana vai retornando no tempo e acompanhando seu crescimento, vai
se corrompendo e se mostrando cada vez mais consciente de seu papel.
Octavia E. Butler (1947-2006)
É por meio de Dana e Rufus, e suas
interações com as pessoas em sua volta e como estas relações vão mudando com o
tempo, que a autora nos demonstra a força que o mundo que nos rodeia tem sobre
nós. A relação com o poder é inversamente proporcional no que tange aos dois
personagens e, enquanto Dana vai se acostumando com as ordens, por mais que se
convença de que é para o bem de seus antepassados e seu próprio, se quebrando
no processo, ao ponto de terminar o livro transformada em outra pessoa; Rufus
vai se acostumando com sua posição de poder e privilégio e mudando de um menino
compreensivo e sensível, para um adulto egoísta, que não enxerga as pessoas
diferentes dele como outros seres humanos e se vê como superior. O Alvo desse
egoísmo e que acaba se tornando um dilema para o próprio Rufus é, Alice, uma
filha de escravos, que ele nutre uma paixão desde jovem e cuja relação se equilibra
entre sentimento verdadeiro e coisificação; Alice também acaba por sofrer
devido a influência de Dana, que sabendo que descende desta com Ruffus, ajuda o
mesmo a conseguir o que ele deseja, transcrevendo a amarga existência de um indivíduo
que é desumanizado sem chance de ser ouvido ou ter opção, restando o final nada
feliz para Alice e a Justiça (ou vingança) para Rufus.
A Autora ainda inclui, em uma das regressões
no tempo, a presença do marido da protagonista, que serve como “olhos brancos
bem intencionados”, que enxergam as barbaridades da época e se indigna, mas,
por não possuir a mesma ligação com a situação que a protagonista, acredita que
as coisas poderiam ser ainda pior. De forma genial, Kevin está lá para
representar os brancos que são despidos de preconceito (e ele faz isso se pondo
em risco muitas vezes), mas não possuem a mesma história de vida de quem sofreu
o preconceito na pele; algo tão comum como o próprio preconceito e que, no
livro, deixa profundas cicatrizes ao personagem quando este volta para seu
tempo natal.
Eu poderia falar durante páginas e mais páginas sobre “Kindred”, mas preferi não me aprofundar mais para não acabar com a experiência de ninguém, o que posso dizer é que este é um livro essencial para quem
é, além de fã de fantasia e ficção científica, amante da literatura. Uma obra
de escrita ágil, personagens fortes e marcantes, questões amplamente relevantes
e que ainda hoje são debatidas. Fruto de uma mente a frente de seu tempo, que
usando os conceitos Pop levou a todos um retrato da ferida que legitimou o
preconceito racial nos EUA (e no mundo), assim como, por meio de seus
personagens, mostra a facilidade de se quebrar frente ao poder, ou não enxergar
seus privilégios. Um livro que me fez sentir mais do que satisfeito, como me presenteou
com outro autor para ler toda obra; uma mulher que, depois de 424 páginas,
posso dizer que me representa na ficção científica e como bem se sabe,
representatividade é tudo!
Uma
coisa que observo como exigência em uma história de ficção científica ou
fantasia para julga-la como relevante a ponto de perder meu tempo com ela, é
seu paralelo com a nossa realidade. Quando é um filme, por exemplo, não vou
jogar quase duas horas de minha vida no lixo para acompanhar carros que se
transformam em robôs e montam em dinossauros mecânicos para lutar por um cubo
mágico! Mas se a história tiver o mínimo de conexão com os problemas sociais ou
políticos de um período histórico e a trama me encantar, vou assistir até
cansar e serei o primeiro a fazer a campanha a seu favor. E é justamente por
isso que venho hoje publicar o primeiro post de 2018, para recomendar um filme
de fantasia e que fala de solidão, diferença, preconceito e amor; escrito e
dirigido por um cara fenomenal, que aguardei com ansiedade desde seu primeiro
trailer e que superou minhas expectativas, trata-se de: “A forma da água”,
filme do mestre Guillermo del Toro que abriu o ano me deixando quase sem ar.
"Você me tira o fôlego"
Ambientado
nos E.U.A no meado dos anos sessenta, o filme conta a história de Eliza
Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda e solitária que trabalha como
faxineira em um laboratório do centro de pesquisa aeroespacial, para onde é
levada uma misteriosa criatura anfíbia e humanoide descoberta na Amazônia e que
as autoridades americanas pretendem usar como cobaia durante a corrida
espacial. Eliza, que é responsável, junto com sua colega Zelda (Octavia
Spencer), pela limpeza da sala onde a criatura fica isolada e aos poucos vai
criando uma relação que passa de amizade a algo mais. Quando Eliza descobre o
destino reservado ao misterioso ser, recorre à ajuda de seu vizinho e
confidente, Giles (Richard Jenkins) e do inesperado apoio do cientista Bob
Hoffsteler (Michael Stuhbarg) para ajudar o homem-anfíbio a fugir, mas não sem
antes ter de enfrentarem toda hipocrisia e maldade personificadas na figura de
Strickland (Michael Shannon) o responsável pela cobaia e que não vai poupar
esforços até que as coisas sejam feitas de seu jeito.
O filme é um conto de fadas, temperado
com critica político-social e pitadas de terror (e um pouco de safadeza). Essa
crítica já fica clara desde a apresentação dos personagens principais, onde o
diretor subverte os estereótipos presentes nas histórias clássicas, em que
normalmente temos os protagonistas enquadrados no que se aceita como padrão, e
apresenta destaque e relevância a figuras para quem antes eram reservados
papeis secundários. Não satisfeito com isso, a trama é ainda ambientada durante
a década de 1960, os anos de luta pelos direitos civis dos afro-americanos e
auge da guerra fria e, cerca a protagonista com uma amiga negra, um confidente
gay e um (spoiler) espião russo como aliado inusitado, de maneira que nos
remete a fuga do que sempre é aceito como padrão e ao questionamento sobre o
quanto o “diferente” é por vezes, errônea e simplesmente, visto como errado e o
mal que isso pode causar.
"Que peixão!"
Nessa
situação de quebra de paradigma, o que mais se destaca são as figuras do
mocinho e do vilão. Enquanto o “mocinho” é uma criatura anfíbia que lembra o
monstro da lagoa negra do filme de 1954, ou o Abe Sapien do filme “Hell Boy” e
que não consegue ao menos se comunicar com exatidão, mas demonstra empatia e
gratidão; o vilão é um pai de família, com sonhos mundanos de trocar de carro e
casa e, dono de sua própria moral (não muito higiênica), mas desprovido da
percepção do mal que seus atos e palavras podem causar a quem o cerca, fazendo
com que o expectador vá aos poucos deixando de observar as aparências físicas
de ambos e se conecte com suas essências. O mesmo corre com o restante do
elenco, que vão se destacando na medida em que vamos entendendo que, dentro da
época e contexto em que a história se passa todos eles são criaturas tão
estranhas quanto o homem anfíbio, fato que nos faz crer na motivação daquelas
pessoas para arriscarem tudo pela liberdade daquele ser, que de certa forma representa
a fuga para liberdade de cada um dos envolvidos.
O
ponto forte do filme é justamente essa critica que a história faz ao utilizar
personagens que vão de encontro ao tradicional primeiro esquadrão das tramas
consagradas como protagonistas e elenco de apoio, e, utilizando como cenário um
dos momentos mais duros da história moderna para assim fazer uma alusão ao
momento atual de nossa sociedade, sem com isso perder o foco na trama e
apresentar um filme delicado, doce e divertido. No entanto, há uma reutilização
de conceitos por parte do autor, que por mais que se enxergue como sendo a
assinatura do mesmo, criam a atmosfera de que muito do que se apresenta já foi
visto anteriormente em suas produções.
Uma dessas repetições, que já citei acima, é a aparência do homem
anfíbio, que remete muito ao personagem Abe Sapiens dos filmes “Hell Boy”, que
foram dirigidos por Del Toro e que, coincidentemente (ou não) era interpretado
pelo mesmo ator, o multi-maquiado Doug Jones. Outra coisa é o fascínio do
diretor pela solidão, que em quase todos seus filmes, e esse não é diferente,
se concretiza ao apresentar o protagonista como um Órfão, tal como ele fez em
“A espinha do Diabo”, “Orfanato” e até “Hell Boy” e “Blade”. Mas essas
reutilizações de temas ou similaridades com outras produções de Del Toro, não
são um defeito representando no filme e não atrapalham ou diminuem a qualidade
do que o diretor consegue entregar nas duas horas de fantasia que apresenta.
Fiquei
impressionado com “A Forma da água” e como Guillermo Del Toro continua
conseguindo falar tão bem sobre os sentimentos humanos utilizando a fantasia e
a ficção científica, deixando sua assinatura (mesmo com algumas reutilizações) no
roteiro, produção e estilo; mergulhando-nos (sem trocadilho) em uma trama que
consegue subverter os contos de fada e falar muito de nossos dias utilizando o
passado como cenário e, com isso, dando um novo fôlego ao cinema nesse início
de ano e principalmente para mim, que estou cansado do mais-do-mesmo. Então, se
quiser fugir de sua vida rotineira e afundar em uma fantasia repleta de critica
social, romance e uma produção caprichada, não perca tempo e se atire de cabeça
na “Forma da água”.
A grande maioria das histórias de fantasia
se passa em uma espécie de idade média, com seus castelos, espadas e campos de
batalha, mas como será que essas sociedades repletas de seres mágicos, como
elfos, duendes, dragões e orcs se encontraria mil, ou dois mil anos, depois das
histórias clássicas imaginadas por Tolkin, C.S Lewis ou Martin e se deparassem
com problemas como o preconceito, corrupção e desigualdade social? Pois a
resposta para essa pergunta é o pano de fundo da mais nova produção da Netflix,
“BRIGHT”, filme escrito por Max Landis, dirigido por David Ayer e estrelado Por
Will Smith e Joel Adgerton que estreou no último dia vinte e dois trazendo um
pouco mais de magia para os últimos dias de 2017.
O filme acompanha o policial humano Ward
(Will Smith) e seu parceiro e único policial Orc, Nic Jakoby (Joel Adgerton),
que estão voltando a trabalhar juntos após Ward ter sido baleado por um Orc
devido ao descuido do parceiro (mais ou menos), o que destruiu a pouca confiança
que havia entre os dois anteriormente. No primeiro dia de retorno as patrulhas
da dupla, eles acabam se deparando com uma guerra secreta entre um grupo
conspirador que quer ressuscitar um antigo líder Elfo renegado e extremistas
humanos que querem impedi-los e acabar com o poder dos Elfos no mundo; no meio
disso, surge uma misteriosa Elfa (Lucy Fry) de posse de uma varinha mágica, uma
relíquia capaz de realizar todos os desejos de quem a possui, o que atrairá a
cobiça das gangues de Orcs e humanos, dos elfos renegados, da força tarefa
mágica e da polícia corrupta, transformando o que era para ser uma noite de
patrulha rotineira em uma corrida pela sobrevivência não só da improvável
dupla, como do mundo como eles conhecem.
O filme traz o retorno de David Ayer para o
terreno que lhe deu destaque, abordando as dificuldades de convivência entre os
diferentes, a dualidade da polícia e o mundo do crime, tudo com o toque de
fantasia proporcionado pelo cérebro nerd de Max Landis e o resultado é um filme
que, apesar de seus problemas no aprofundamento do ambiente e contextualização
de alguns acontecimentos, é bem divertido.
Toda elegância de um Elfo
Entre as coisas boas que o filme tem, está a
apresentação de uma história fantástica para debater nossa realidade social, no
caso o racismo, que é referenciado através do preconceito sofrido pelo povo
Orc, que vive em guetos e é vítima de violência policial, lembrando em muito os
problemas vividos pelos alienígenas do filme “Distrito 9” de Neill Blomkamp,
mas em “Bright”, diferente do filme de 2009 do diretor Sul-africano, esse
preconceito não se deve ao egoísmo em dividir a terra com uma raça
extraterrestre, mas ao fato de que a dois mil anos atrás, os Orcs terem se
aliado ao “senhor das trevas” o líder renegado Elfo que citei acima e que
tentou dominar o mundo utilizando magia, o que gerou ressentimento nos humanos
e Elfos. E o peso de todo esse preconceito é duplamente sentido por Jakoby, que
é desprezado pelos humanos por ser um Orc e por sua própria raça por não ser
“de sangue” ( Não pertencer a nenhum clã) e ser policial; sendo que é através
de sua jornada, tentando se encontrar entre os interesses de seu trabalho como
policial e seu lugar na comunidade Orc, que trilhamos as ambiguidades do
universo criado por Landis até experimentarmos a catarse que dá todo sentido ao
filme em seu final, quando vemos o policial Orc reconhecido em ambas situações
(spoiler na cara!).
Outra coisa bacana é ver o estilo de David
Ayer de tiro, porrada e bomba, funcionando novamente depois do tenebroso “Esquadrãosuicida”. Mesmo com a aura fantástica, o filme não perde a tensão e ritmo de
thriller policial com a dupla protagonista vivendo uma verdadeira odisseia
através dos guetos de Los Angeles e proporcionando ao expectador grandes
momentos de tiroteios, perseguições de carro e até lutas marciais. Soma-se a
isso ainda o carisma de Will Smith, que apesar de protagonizar o filme, não
apaga a relevância de ninguém que divide a tela consigo e a trilha sonora, que
nesse filme de Ayer, é muito pontual e acertada.
Orcs de Gueto
Mas o filme tem seus problemas e, embora
nenhum o deixem menos divertido, expõem
pontas soltas que apontam falhas na
edição que começam a se tornar uma assinatura negativa do diretor. O maior
exemplo desses erros á a motivação dos infermi (os Elfos renegados) para
perseguir Tikka, a Elfa fugitiva que os protagonistas encontram com a varinha
mágica, ela conta uma história maluca que fugiu porque não queria ajudar a
trazer o vilão dos mortos, que mandaram uma assassina para acabar com ela e bla
bla bla, mas durante o filme vemos a personagem de Noomi Rapace, que é quem
manda matarem Tikka, sendo uma Badass ninja Elfica que ainda tem uma dupla de
seguranças no mesmo nível e que no final diz que seu alvo é sua irmã! Então,
porque mandou outra pessoal (menos hábil) dar cabo da irmã e COM A SUA VARINHA MÁGICA? Falando nos Infermi,
uma coisa que ficou faltando foi uma aura ameaçadora do, apenas comentado,
senhor das trevas; pois vemos citações sobre ele nos muros pichados, o
preconceito com os Orcs se deve a ele, o temor da magia se deve a ele, o que
move o filme é a possibilidade de seu retorno, mas... Não o sentimos como uma
possível ameaça e isso diminui, ainda mais, as motivações dos vilões. Somado a
isso, ainda podemos falar da parca presença do “escudo da luz”, o grupo de
extremistas que luta contra o avanço dos elfos renegados e que tem como o
membro mais relevante, um sujeito que aparece do nada, todo sujo, brincando de
espada no centro da cidade e que só serve para explicar um pouco do que está
acontecendo, parecendo mais uma falha na edição (ou uma conveniência de
roteiro) do que uma participação que some à história.
Mas as pontas soltas, que parecem ter
escandalizado meio mundo, chegando a dizer o absurdo de que esse filme era PIOR
que “esquadrão suicida”, não me incomodaram em nada. Conhecendo o serviço de
streaming responsável pelo filme e o trabalho de Max Landis, enxerguei no pouco
aprofundamento sobre o passado do mundo onde a história se passa e os demais
jogadores da trama, como a força tarefa dos magos (que faz uma investigação
paralela sem muita relevância, mas que se sugere ter grande relevância), como a
porta aberta para um universo estendido, o que se mostrou provável ao lembrar
que a Netflix anunciou uma sequência, mesmo antes de o filme estrear e que pode
satisfazer quem não teve suas expectativas alcançadas com essa primeira
história.
“Bright” é uma história divertida e
inusitada que consegue segurar o expectador na cadeira por quase duas horas e tem
o potencial necessário para o surgimento do primeiro universo expandido com o
selo original Netflix. Apresenta alguns problemas de edição e continuidade, e, muita
coisa que a trama apresenta não fica totalmente exposta, mas, pensando bem, é
um filme onde um policial humano e outro Orc, lutam para não deixar uma varinha
mágica cair nas mãos de gangues de criaturas míticas, quem estava esperando um
novo “cidadão Kane” ou “poderoso chefão” deveria rever suas expectativas.
Então, se assim como eu, você também sempre teve a curiosidade de ver como os
mundos fantásticos evoluiriam até a era dos celulares e redes sociais, dê uma
chance a “Bright” e coloque um pouco mais de magia (e tiro, porrada e bomba) no
final de seu ano.
Um mês! Esse foi o tempo que fiquei sem escrever nada.
Eu sei que nesse período o mundo ficou sem graça com a ausência da exposição do
meu gosto duvidoso e opinião rasa, mas o fato é que depois que vi e escrevi
sobre a “liga da justiça”, pareceu que eu estava entrando novamente em um ciclo que começou lá
em 2012 com ”Vingadores", então resolvi dar uma pausa. Só que, durante
essa parada me deparei com uma produção fantástica, que me seduziu pela
curiosidade e acabou me viciando e prendendo durante esses trinta dias com seus
conceitos brilhantes, humor negro e (por que não?) niilismo libertador. Hoje
volto da dimensão C-137 para falar um pouco da série animada "Rick &
Morty" e indicar três episódios de cada uma das três temporadas para
escancarar de vez o portal interdimensional
para quem ainda não conhece a série se jogar sem medo.
A essa altura, se você é da mesma dimensão que eu, já
deve ter ouvido ou lido alguma coisa sobre “Rick & Morty”, até porque a
série é a mais nova moda no cenário pop-geek-nerd, se tornando tema de
podcasts, estampas de camisetas e sendo terreno para inúmeras teorias pela
internet afora, mas fingindo que ninguém sabe do que eu estou falando acho que,
antes de tudo, vale uma apresentação:
“Rick e Morty” é uma série americana
criada por Dan Harmor e Justin Roiland, exibida na gringa pelo canal Adult Swin
e que se originou de um curta de animação chamado "Doc e Marty", que
parodiava o filme “De volta para o futuro”. Na série, acompanhamos as aventuras
de Rick sanchez, um cientista genial que descobre uma maneira de viajar entre múltiplas
dimensões e que, depois de dez anos desaparecido, retorna para morar de favor
com a família de sua filha Beth, uma cirurgiã de cavalos que e é casada com
Jerry Smith, um publicitário inseguro e impressionável, desde que engravidou na
adolescência de Summer, esteriótipo da
adolescente moderna; fechando a família temos Morty, o filho caçula de 14 anos,
influenciável e assustado que se torna parceiro de seu avô Rick nas mais
insanas e geniais aventuras través das infinitas possibilidades do multiverso.
A série é brilhante! Usa de todo o potencial que as
animações possuem desde sempre para apesentar conceitos muito bacanas de ficção
científica, abusando do humor negro para criticar a sociedade e nos
fuzilando com dezenas de referências por episódio, sem contar que consegue (em quase
todo episódio) apresentar duas ou até três histórias simultâneas com o mesmo
peso e força e isso tudo em vinte minutos por episódio!
Mas sem mais delongas, vamos ajustar a pistola de
portais e indicar esse nove episódios essenciais:
Temporada 1:
Episódio 1 –
Piloto: É impossível que qualquer série siga em frente sem apresentar um
piloto descente, e no caso de “Rick e Morty” não é diferente. O primeiro
episódio da primeira temporada é um resumo de quase tudo que acabamos por
encontrar nas três temporadas que o segue. Nele, somos apresentados tanto a
rotina mundana da família Smith, com Jerry e Beth sendo chamados à escola do
filho pelo fato dele faltar quase todos os dias, assim como ao multiverso e aos
primeiros exercícios de humor negro da trama, com a dupla protagonista indo até
outra dimensão para pegar mega-sementes, que Morty tem que contrabandear
escondendo no reto e Rick guiando o neto de volta através de alfândegas
alienígenas e travando uma verdadeira guerra para retornar a terra.
Frase:
- Atire neles Morty!
- Mas não quero machucar ninguém Rick
-Atire Morty, eles são robôs
(Morty atira e o sujeito cai sangrando)
-RICK ELES NÃO SÃO ROBÔS!!
-É uma figura de linguagem Morty, eles são burocratas,
eu não respeito eles.
Episódio 6 – Cronembergs: Nesse episódio Morty pede uma poção do Amor para Rick,
para conquistar sua paixão, Jéssica, no baile da escola; só que, por puro
descaso, o genio da família não avisa ao neto que a única contraindicação é se
seu alvo estiver gripado… só que a festa onde Morty pretende seduzir a colega,
é o “baile anual da Gripe”!! Surge daí uma confusão em cadeia que começa com
todas pessoas do mundo se apaixonando por Morty, depois todos acabam se transformando em louva-deus e mais tarde em “Cronembergs” (referência ao diretor
de filmes como “a mosca” e “Scaners”) monstros deformados que misturam diversos
animais, resultando que Rick e Morty acabam fugindo para outra dimensão, onde
suas versões estão mortas tomando seus lugares e abandonando sua família
antiga. Foi o primeiro episódio que me chocou e me conectou com o niilismo que
o comportamento indiferente de Rick acaba aos poucos expondo e que vai se
destacando cada vez mais por episódio.
Destaque para o silêncio e choque de Morty ao final
quando (ao som de: “Look On Down From The Bridge”) ele percebe que não há volta e que agora é hóspede de
outra dimensão e parte de outra família.
Episódio 8-TV interdimensional: Assim como muitas séries de TV “Rick e Morty” possuem
um episódio especial por temporada, no caso da obra de Harmor e Roiland, esse
especial consiste na família Smith assistir a TV interdimensional, um aparelho
criado por Rick onde canais infinitos de dimensões infinitas estão disponíveis.
O episódio se divide em pequenas histórias que passam na TV como programas assistidos
pelos protagonistas e que foram improvisados pelos autores, gravados em áudio e
depois desenhados (o que dá o ar supremo do no sense) enquanto que Jerry, Beth
disputam para assistir, através de uns óculos que acompanha suas versões de
outras dimensões, como seriam suas vidas caso Summer não tivesse nascido.
Esse episídio tem um final espetacular, pois dá
sequência aos acontecimentos do episódio 6, deixando claro que, apesar de se
tratar de uma animação, nada ali é zerado e tem consequências, quando Morty,
sabendo da tristeza da irmã, quando esta descobre que seus pais tentaram
aborta-la e que a vida destes em outra dimensão foi um sucesso, devido a sua
ausência, diz a frase que me fisgou de vez:
Frase: "...Não fuja, ninguém existe com um
propósito, ninguém pertence a nenhum lugar e todo mundo vai morrer..”
Temporada 2:
Episódio 3 – Unidade: Com uma história que abusa
das referências a clássicos do terror, como “invasores de corpos” e “Alien”,
além de, ao final, mostrar toda a solidão que pesa sobre o genial Rick Sanchez,
O terceiro episódio da segunda temporada é um dos meus favoritos. Nessa
aventura, Rick, Morty e Summer recebem um pedido de socorro e são atraídos a
uma nave que se encontra à deriva no espaço, onde sobreviventes de uma raça
alienígena informam que todas as pessoas de seu planeta foram assimiladas por
uma entidade que está unindo todos os seres em uma única consciência; logo a seguir,
descobrimos que essa “Unidade” é uma ex-namorada de Rick e partimos para o
planeta dominado por ela, onde a simples presença do protagonista e seus netos
põem em risco todo o propósito de ordem da entidade e ameaça a segurança de
todo o planeta.
Destaque para o momento onde
a Unidade percebe o mal que a presença de Rick causa e resolve se afastar de
seu ex-namorado de vez, e como ela É todas as pessoas do planeta, esconde os
habitantes e Rick vai sabendo o motivo de seu afastamento através de cartas que
vão sendo atiradas a ele pela rua.
Referência à "Invasores de corpos" no episódio "Unidade"
Episódio 4 – Mostrem o que tem: Uma cabeça gigante entra na atmosfera da terra
causando todo tipo de desastre natural e começa a repetir a frase “mostrem o
que tem!”; enquanto os demais personagens da série se refugiam em uma igreja
para orar por salvação, acreditando que se trata de Deus, Rick e Morty vão até
o pentágono (na maior referência ao filme “Doutor Fantástico”) explicar que se
trata de uma raça alienígena que se alimenta de… um Hit musical! A partir daí a
dupla fica encarregada de criar uma música para satisfazer o desejo do
visitante, enquanto o restante da família se envolve na criação de uma seita
extremista chamada “cabecismo”, que tem o alien como um suposto deus.
“ Morty:
-Rick, você é músico?
Rick:
- E quem não é?
Morty: -Eu!!
Rick: - Não com essa atitude!”
MOSTREM O QUE TEMMM!
Episódio 6 – Keep Summer Safe / mundo na Bateria: Rick, Morty e Summer estão em uma dimensão para
assistir a um filme, quando ao tentar ligar a nave, descobrem que estão sem
bateria. A dupla de protagonista parte para dentro da bateria, onde Rick criou
uma civilização que tem o objetivo de abastecer a energia de sua nave e celular, só que esta
desenvolveu uma sociedade e também está criando uma civilização dentro de outra
bateria para ter menos trabalho; enquanto isso, Summer é deixada na nave e Rick
ordena para que a máquina a deixe segura. Parte daí, na sociedade dentro da
bateria, a discussão sobre escravidão e utilização do empenho do outro para
trabalhar menos, enquanto que Summer testemunha todo tipo de atrocidade
proporcionada pelo computador da nave para poder cumprir a ordem dada por seu
avô.
“-Você
tem um planeta inteiro gerando energia pra você”? Isso é escravidão!
-É
sociedade, eles trabalham uns para os outros, compram casas, geram filhos…
“-Isso
parece escravidão com umas coisinhas a mais!”
"manter Summer segura!"
Temporada 3:
Episódio 1 – Fuga da prisão: No final da segunda temporada Rick se entrega à
federação Galática (órgão que o tem como um terrorista) e é preso, o primeiro
episódio da terceira dão sequência a esses eventos e se divide em duas
histórias, sendo uma guiada por Rick, que começa em uma viagem por suas
memórias e segue até sua espetacular fuga da cadeia e a outra acompanhando
Morty e Summer em um “plano” para libertar o avô.
Esse episódio se destaca não só pela extrema violência
e reviravoltas que a trama dá, levando mesmo Morty a visitar sua família
original na dimensão destruída no episódio “Cronembergs” e Rick a trocar de
corpo umas quatro vezes, como pela qualidade do roteiro e dos conceitos bacanas
que apresenta o que lembra um bom filme de ficção científica e deixa claro a
que veio a terceira temporada.
Episódio 2 – Realidade pós-apocalíptica: Meu segundo episódio favorito. Nele, Rick e seus netos
partem para uma realidade pós-apocalíptica que mistura “Mad Max” e “Game of
Thrones” atrás de um tipo raro de minério que fornece energia. Para conseguir
roubar uma grande pedra desse material que os nativos levam consigo em suas
caçadas e matanças, o protagonista e seus ajudantes resolvem ficar na dimensão
e deixar androides para substituí-los em casa, surge daí um relacionamento
entre Summer e “Hemorragia” um dos líderes do grupo nativo, enquanto Morty
descarrega toda sua raiva reprimida em uma arena, depois de que tem as memórias
musculares do braço de um inimigo do grupo, que morreu em batalha, injetados em
si.
Destaque para como se destrói qualquer espírito
guerreiro ou relação ao final do episódio, quando Rick, depois de criar uma sociedade
classe média baseada na comodidade, o que transforma os guerreiros sanguinários
em meros “telespectadores”, transforma a vida da neta em uma rotina, a
convencendo a ir embora e depois parte, levando consigo a fonte de energia da
evolução que ele criou para aquela realidade, o tão cobiçado minério.
Episódio 7 – Contos da Cidadela: Esse é o meu episódio favorito e nem conta com a
presença dos protagonistas, ou mais ou menos. Nessa história, voltamos a
Cidadela dos Ricks, um lugar onde Ricks de várias realidades se uniram para
formar uma sociedade onde vivem apenas Ricks e Mortys e que é apresentada no décimo
episódio da primeira temporada e destruída no primeiro episódio da terceira,
quando Rick escapa da cadeia. O episódio conta como a cidadela está se
reestruturando depois de sua quase extinção e a trama acompanha cinco
histórias, Um Morty que quer ser presidente, Um Morty que é assessor do
candidato, Um Rick e Morty policiais, Um grupo de Mortys que foge da escola
para viver uma última aventura e um Rick Operário cansado de sempre se dar mal.
O Episódio, além de ser melhor do que quase TODOS os filmes que vi esse ano,
ainda usa e abusa de referências a filmes como “Conta Comigo”, “Dia de
treinamento”, “Dia de Fúria”, entre muitos outros, para dar sequência aos
acontecimentos da primeira temporada e conectar ainda mais a história, isso
tudo, repito, em apenas vinte e um minutos!!
Frase: “Discursos são para campanhas, agora é a
hora de ação!”
Bom, mesmo o texto tendo
ficado gigantesco (e mais raso que as expectativas de Jerry Smith), nada que foi dito chega aos pés do que a série apresenta ou
substitui a experiência de assistir cada episódio. Com um humor absurdo que
explora todo potencial de animação, crítica inteligente e sínica e, toda a
força de um niilismo de deixar Nietzsche orgulhoso, “Rick e Morty” vieram para
revolucionar o universo das séries e prender os fãs de ficção científica no
universo C-137. Então a dica está dada (como se ninguém conhecesse) e se Morty
Sanchez Smith estava certo no T1-Ep8 e ninguém existe com um propósito, ninguém
pertence a nenhum lugar e todo mundo vai morrer, vamos assistir TV e dar uma
chance ao novo.
Já
dizia Marco Aurélio: “É melhor ser reto do que retificado”, e quem pode
discordar do imperador e filósofo romano? Até porque, fazer o mea culpa e
tentar recomeçar, ainda mais em tempos como os em que vivemos, onde um tropeço
é o suficiente para uma enxurrada de críticas ou o total desprezo, não é nada
fácil. Mas nem todos têm uma educação estoica como o nobre romano, não indo longe
da mediocridade humana e nessa, penso que o oportuno refrão da música
“Velocidade da luz” do grupo Revelação, onde se diz “... todo mundo erra
sempre, todo mundo vai errar!” fale mais alto do que qualquer frase solta de
velhas filosofias.
Foi
com esse pequeno texto em mente, repetido a exaustão como um mantra, que entrei
quinta (16/11) na sala de cinema para assistir a “LIGA DA JUSTIÇA”, o quinto
filme do universo compartilhado da DC / Warner (terceiro dirigido por Zack
Snyder) que, depois dos fracassos de crítica de “B x S” e “Esquadrão Suicida”
chegou aos cinemas dia 15 de Novembro com a obrigação moral de, junto do
sucesso de “Mulher-Maravilha”, redimir todo o projeto da DC e deixar claro aos
fãs que, persistir em erros não é algo digno do sangue das amazonas, dos filhos
de Krypton ou de cavaleiros das trevas.
O
filme segue os acontecimentos explorados em “Batman vs Superman”. Depois da
morte do homem de aço, Bruce Wayne, contando com a ajuda de Diana Prince, vai
atrás dos indivíduos com habilidades especiais descobertos por Lex Luthor para
ajuda-los a deter a invasão com a qual teve uma visão no filme anterior. No entanto, enquanto o cavaleiro das trevas
recruta com dificuldades Aquaman, Cyborg e Flash (esse nem tanto) para o seu
time, um mal ancestral, invocado pelas caixas maternas (três relíquia
alienígenas de posse dos Atlantes, Amazonas e humanos), desperta para
conquistar a terra (UuuuuUU), devendo essa nova aliança a árdua missão de impedir
o mal que cobiça o nosso mundo.
Não
sei se foi o meu mantra, as refilmagens feitas por Joss Whedon ou simplesmente
a ausência dos filtros sombrios de Zack Snyder, mas saí da sala de cinema bem
mais satisfeito do que eu imaginava que sairia.
Pela segunda vez (dentro desse novo universo) a Warner conseguiu trazer
um filme descente envolvendo os personagens da DC comics. O filme tem
problemas? Sim, tem e falaremos deles mais abaixo, mas os mesmos conseguem ser
diluídos naturalmente em meio a uma trama que foca mais em divertir do que
tentar mostrar toda a amargura que repousa no coração dos heróis, como os
filmes anteriores dirigidos por Snyder.
Para
começar, gostei bastante da pegada mais cômica dessa produção, principalmente
das cenas protagonizadas pelo Flash, que é interpretado por Ezra Miller (nunca
critiquei) que, apesar de utilizar o nome do mais famoso flash (Barry Allen),
trás uma versão do personagem para o cinema bem diferente da vista na série da
CW, ao apresentar um mix dos “flashes” mais icônicos das HQ’s. No filme, Barry
Allen, em uma versão bem mais jovem do que antes vista, lembra muito mais o
leve e engraçado Wally West, sobrinho de Allen nos quadrinhos e que foi o flash
depois da Crise nas infinitas terras (onde Barry morreu) ou até mesmo Bart
Allen, o atrapalhado neto de Barry, que vem do futuro para aprender a usar seus
poderes e que fez sucesso ao integrar a Justiça jovem junto com o terceiro
Robin e o segundo Superboy nos anos noventa, do que o sério Barry Allen que eu
acompanhava nos gibis publicados em formatinho nos anos oitenta aqui no Brasil.
E é através dessa versão do Flash que somos apresentados ao novo ponto de vista
do projeto da DC nos cinemas, muito mais colorido e menos amargurado, onde
apesar do trauma inicial (teve a mãe assassinada quando era criança) o jovem
herói ainda consegue se maravilhar com o mundo novo que se mostra a ele após
conhecer Bruce Wayne (vide cena na Bat-caverna) e ter esperança na justiça, ao
não desistir do pai que é acusado de assassinar sua mãe e que ele sabe que é
inocente, assim como se arriscar para salvar outras pessoas, em meio a uma
invasão alienígena, mesmo nunca tendo participado de uma batalha de verdade.
Outro
ponto bacana do filme é o retorno do Superman (spoiler) e a nova personalidade
que deram para o maior herói das HQ’s da DC. Depois de dois filmes mostrando um
Clark Kent que beirava o egoísmo, para não dizer que o abraçava por completo,
onde o mesmo, ou estava mais interessado em bater em Kryptonianos que olhavam
torto para sua mãe ou para ele em “O homem de aço”, não se importando em
destruir Smallville e Metrópolis no caminho, ou proteger quase exclusivamente
seu interesse romântico, a onipresente Lois Lane em “B vs S”, agora ele
finalmente lembra aquele “farol ético” que é capaz de conduzir a humanidade ou se
sacrificar por ela sem pensar duas
vezes. Isso fica bem claro na sequência de batalha onde, após ouvir os apelos
de pessoas que se encontram ao redor do lugar ameaçado, ele deixa seus novos
super-amigos com a missão de vencer o grande vilão e parte para o resgate nos
presenteando com uma sequência que é a cara daquele homem de aço das HQ’s,
sendo tão heroica quanto cômica.
Sobre
a Mulher-Maravilha há muito pouco para se falar, a não ser que ela continua tão
maravilhosa quanto nos outros filmes onde apareceu para iluminar, ficando claro
que, se o universo DC parece começar a funcionar, ela é a principal
responsável. Vale também uma menção honrosa ao esforço que a produção fez e o
sucesso que obteve ao dar carisma e relevância a alguém como o Aquaman, pois ,
com certeza, não é fácil colocar um personagem cujo poder mais famoso, depois
de respirar em baixo da água, era falar com peixes, no nível de
Mulher-Maravilha e Batman e, mesmo esse fato virando uma piada que é repetida
duas vezes dentro do filme, suas cenas de batalha e presença, somados à alguns
momentos de comédia (como quando eles estão indo para a batalha final e ele
senta sobre o laço da verdade) fazem com que realmente nos importemos com o
herói, fato que também serve para o Cyborg, que mesmo tendo menos carisma,
surge na trama como chave para entender e “desligar” as caixas maternas, além
de ter uma crescente sintonia com o Flash que pode ser a semente de uma
parceria bem bacana no futuro.
No
entanto, como eu disse acima, o filme também tem seus problemas e nenhum é,
para mim, maior do que o Batman. Nas HQ’s, Bruce Wayne sempre teve sua
inteligência, foco e força de vontade (além da habilidade física) como seu
verdadeiro super poder (e não a riqueza) e estes eram controlados por uma
seriedade que conseguia inspirar o respeito de todos, já em “Liga da Justiça”,
apesar de não nos depararmos com um Batman assassino e descontrolado como o de
“B vs S” novamente não temos a presença DO Homem-Morcego. Desta vez o que
encontramos é um alívio cômico que serve de escada para toda sorte de piadas
(quando elas não surgem dele mesmo), gaguejando e fazendo cara de susto a todo
o momento e que, além de parecer fugir da liderança da equipe, repassando isso,
uma hora para a Mulher-Maravilha e outra para o Super man, termina quase como o
expectador da batalha final ao se encarregar dos vilões coadjuvantes (os
para-demônios), não parecendo nem de longe, aquele super detetive, ninja, gênio
e Bilionário dos gibis e sim um “Gavião-Arqueiro” de Luxo ou o Dedé dos
trapalhões.
Outra
coisa que não curti muito (Além das centenas de câmeras lentas durante o filme),
foi a cena de batalha que é mostrada quando é explicado o que são as caixas
maternas. Além de a explicação parecer uma história inventada na hora pela
Mulher-Maravilha baseada em “O senhor dos anéis”, pois fala da união dos povos
diferentes (trocando Elfos / Anões/ Humanos por Atlantes / Amazonas / Humanos) para
destruir uma relíquia que dá poder a um inimigo e pode por um fim em tudo, a cena
que se desenrola é muito artificial, com um CGI bem Playstation 4 e que mostra
um monte de personagens que quase não dá para saber quem são, mal se
identificando um Lanterna verde ali no meio (e que morre miseravelmente) e
acaba sem dar as respostas que parecia prometer, deixando apenas a dúvida de
quem eram aquelas pessoas com poderes e para onde foi o anel do lanterna morto.
Apesar
dos pequenos problemas, “LIGA DA JUSTIÇA” é um bom e divertido filme, que
consegue dar novos ares ao projeto da DC nos cinemas e exorcizar (até certo
ponto) os erros de filmes como “O homem de Aço” e “Batman vs Superman”, em uma
demonstração de que ser retificado, principalmente por Joss Whedon, é melhor do
eu seguir sendo reto por Zack Snyder. Fica agora a missão da Warner de
conseguir fazer o mesmo nos filmes de heróis menos conhecidos ou icônicos como
o Cyborg, assim como retirar toda a carga caricata criada em personagens como
Lex Luthor e Coringa, que tiveram aparições desastrosas em filmes anteriores do
selo, mas isso é um problema para o futuro, por hora eu digo, dê uma chance a
DC e assista “Liga da Justiça” e se não concordar com tudo que eu disse acima,
me perdoe, porque “Todo mundo erra sempre, todo mundo vai errar” uma vez ou
outra, mas as vezes acerta ... Snyder que o diga!
Ninguém quer viver na mesmice! É para fugir
da rotina, que as pessoas mudam o corte de cabelo, pulam de paraquedas, viajam
para lugares diferentes, experimentam novos sabores e fazem o que for preciso para
ter em suas vidas a sensação de novidade sempre presente. Mas, se se sentir
como estivesse trancado em uma rotina já é horrível, imagina ficar realmente preso
para sempre no mesmo dia, e mais, ficar preso para sempre no PIOR dia de sua vida,
a data de seu assassinato?! Pois essa é a trama central de “A morte te dá
parabéns”, filme de fantasia /suspense/ terror dirigido por Chirstopher B.
Landon ( “Como sobreviver a um ataque zumbi”), produzido pela blumhouse (a
mesma de “Corra!”) e estrelado por ninguém muito importante, que me divertiu ao
apresentar uma mistura de um dos temas que mais falei, com um dos que mais fujo: loop temporal e terror.
A história é a seguinte, Tree é uma
estudante universitária que tem sua simpatia, generosidade e empatia,
inversamente proporcionais a sua popularidade, beleza e influência e, ela É
muito bonita, popular e influente! Ou seja, Tree não é uma pessoa legal, e,
todo esse amargor só cresce quando, após um porre na noite anterior, ela
acorda, no dia de seu aniversário, totalmente desorientada na cama de um colega
que mal conhece. Só que esse não será um aniversário comum, pois depois de sair
do alojamento onde passou a noite e passar por mais um dia normal na
universidade, trocando alfinetadas com a fútil líder de sua irmandade,
desprezando os parabéns de sua melancólica colega de quarto, ridicularizando um
ex-pretendente e visitando o trabalho de seu amante/ professor, Tree, ao sair
para ir a mais uma noite de festa, se depara com uma estranha figura, trajando
negro e uma máscara da mascote do time local e depois de uma perseguição ela é
assassinada! Tudo poderia terminar para ela nesse exato momento, se sem
entender nada, ela acordasse, novamente, na manhã de seu aniversário no quarto
de seu colega para reviver o mesmo dia, restando a ela, depois de continuar,
noite após noite, sendo assassinada de maneiras diferentes e voltando para
manhã do mesmo dia, nada mais do que tentar entender o que está acontecendo e
descobrir quem é seu assassino para assim quebrar o loop temporal.
Achei a ideia do filme bem bacana! Misturar
terror adolescente que remete a clássicos como “Pânico” e “Haloween” com um
loop temporal que lembra “feitiço do
tempo”, “ARQ” e “No limite do amanhã”, consegue trazer algo novo para a tela,
ao mesmo tempo que dá um frescor a ambos estilos já bem batidos, ganhando mais
um aditivo quando, após a protagonista
aceitar seu destino, há um acréscimo de humor na trama e depois, uma pitada de
drama, quando é descoberto que as múltiplas mortes de tree custam um preço alto
para ela; sem contar que, no decorrer da história, quando a protagonista
percebe que não é alguém de quem sua mãe poderia se orgulhar, acabamos nos
rendendo a seu carisma e torcendo por ela.
No
entanto, apesar de sua boa ideia e de ser bem divertido, o filme perde um pouco
do que poderia entregar por causa de sua montagem e escolhas de roteiro. O
principal erro a meu ver, é a introdução de um assassino em série, famoso
dentro do universo do filme, que surge para distrair a atenção da protagonista.
Penso que nada teria de errado na presença do personagem na trama, caso ele fossemos perfeitamente apresentado desde o
início da história, no entanto, isso não acontece e , apenas prestando muita
atenção em detalhes, como quando a TV do quarto da protagonista está ligado, ou
quando ela está na lanchonete com Carter (o colega onde ela sempre acorda no
quarto) é que vemos menções ao dito serial killer, o que não explica o fato de
que ela tenha certeza de que é ele que está a matando dia após dia, a não ser
que exista ainda um erro de montagem no filme e esse para mim é o segundo
grande erro.
Assistindo ao filme pela segunda vez (sim,
eu estava com tempo) se percebe que ao apresentar fotos das vítimas do dito
assassino, todas são loiras e bem parecidas com a protagonista, em especial uma
que lembra a mãe de Tree, que aparece em flashbacks. Ou seja, pode-se entender
que a mãe da protagonista foi morta pelo assassino e que, como é seu
aniversário, e como ela diz, fazer aniversário no mesmo dia da mãe e o
assassino estar na cidade, talvez, isso tenha algo a ver, mas parece que a montagem
vacilou e absolutamente nada em relação
ao assassino, suas vítimas e porque ela acredita que ele é o responsável por
tudo que está acontecendo à ela, é explicado.
Então, sem querer me repetir, se você
estiver a fim de matar um pouco da saudade dos filmes de terror dos anos
oitenta e noventa, mas ao mesmo tempo quer algo que apresente uma coisa nova e
fora da caixa mas sem ter a obrigação de pensar muito, assista a “A morte te dá parabéns” um filme que mesmo sendo meio
repetitivo em si, com certeza não vai te prender na maior das mesmices.
Final
de ano não é fácil meu amigo! Eu que elegi o setembro como meu mês de
apocalipse, acreditava que o outubro seria mais tranquilo, mas aí começou o
ciclo de férias de meus colegas e meu trabalho duplicou, vendi meu carro e não
consegui transferir devido à burocracia do banco e, nem mesmo “Blade Runner
2049” consegui assistir no cinema! Mas tudo isso são “White man’s problems”, (mesmo
eu não sendo branco!) e como já faz tempo que sigo a máxima de Confucio de que
“Se o mundo está de pernas para o ar, queixo pra cima”, resolvi desencanar e
dar uma relaxada. Foi quando fui surpreendido por um presente entregue pela
emissora inglesa Channel 4, a todos fãs de Philip K. Dick, a produção “Electric
Dreams”, uma série antológica onde cada episódio é baseado em um conto do autor
e que mudou o status do meu mês de “tem que melhorar”, para “nada mau”!
A
Série, que contará (pois no momento que escrevo se encontra na metade) com dez
episódios em sua primeira temporada, estreou no canal inglês nesse último dia
17 de Setembro e traz em seu elenco grandes nomes do cinema para dar vida aos
personagens imaginados por Dick, como Benedict Wong (“Dr. Estranho”), Steve
Buscemi (Cães de aluguel), Terrence Howard (Homem de Ferro), Bryan Cranston
(Breaking Bad), Vera Farmiga (Invocação do Mal) entre muitos outros atores e
atrizes que, somados a diretores conhecidos do publico gringo, dão peso a
produção da terra da rainha.
Até
o momento assisti aos quatro primeiros episódios e o que posso dizer é que a
série consegue adaptar com bastante competência todos os conceitos,
questionamentos e estranheza que marcam as obras de Philip K. Dick, com a
vantagem de ainda possuir todo charme das séries inglesas, que sempre me
pareceram menos voltadas para efeitos especiais mirabolantes e mais inclinadas
para o roteiro e realização da história.
Sobre
esse peculiar clima inglês presente na série, o próprio canal responsável pela
obra carrega uma grande parcela do crédito. Já calejada em produções de sucesso,
como a minissérie de terror “Dead Set” e sendo quem transmitiu originalmente as
duas primeiras temporadas da aclamada “Black Mirror” (ambas as obras de Charlie
Brooker), o Channel 4 segue levando ao público um conteúdo que atende as
expectativas de quem é fã de ficção científica ou de realidades fantásticas,
mas sem perder aquele clima melancólico e acinzentado da Inglaterra e que
parecem aproximar as situações mais absurdas com a realidade.
Mas
chega de falar de produção e vamos ao que interessa: As histórias.
Como
eu disse acima, a série segue o tom dos questionamentos que pautaram toda a
obra de Dick, como sua dúvida sobre o que é a realidade, o que nos torna
humanos e nossa evolução como espécie, só que de uma maneira muito mais fiel à
obra do escritor do que qualquer outra adaptação fez anteriormente, pois embora
muitos dos contos e livros de PKD tenham sido levados para o cinema (o próprio
Blade Runner é o maior exemplo) muito se utilizou do conceito, mas quase nada
teve daquele espirito psicodélico que mesclava o quase absurdo (dê uma olhadinha no livro UBIK) com visões de um futuro não muito otimista e dúvidas
humanas, coisa que essa antologia fica muito mais próxima, o que agrada muito a
quem é fã, mas pode causar um estranhamento a quem só conhece o escritor por
suas adaptações cinematográficas.
Steve Buscemi, como Ed
Nesse
contexto de estranheza, nenhum episódio que assisti vence o intitulado “Crazy
Diamond”. A história se passa em uma realidade onde tudo que é orgânico começou
a se degradar e apodrecer, tanto a comida, como a própria terra e até mesmo as
pessoas, parecem caminhar em passos rápidos para a entropia, mas a ciência
ainda busca uma solução, então se criam as “Consciências Quânticas” (Os CQ),
uma espécie de “pilha genética” baseada nos genes de porcos, que revitaliza
aqueles que começaram a falhar, em uma ideia de mundo que lembra, também, o que
o autor apresenta no livro UBIK, só que nesse conto não se encontra dentro de
um sonho de “meia vida”, mas na realidade. Nesse Universo conhecemos Ed (Steve
Buscemi), um cientista especialista em CQ que sonha em fugir do mundo em
deterioração em uma viagem pelo mar, junto com sua esposa, até uma distante
ilha onde ainda reina a normalidade; só que o aparecimento de uma mulher
misteriosa o acaba prendendo a uma trama que envolve conspiração, contrabando e
traição.
Robô RB29, do ep: "Planeta impossível"
Outro
que chamou minha atenção, justamente por ser o contrário do comentado acima por
ser muito mais pé no chão (dentro do que alcança o autor) foi o episódio “The
Commuter”, que longe de falar de tecnologia ou futuro, se passa nos dias de
hoje e aborda dimensões paralelas. Nessa história, o ator inglês Timothy Spall
vive Ed (também) um funcionário de uma estação de trem, que vive um momento
familiar difícil, com crises constantes de seu filho que sofre de bipolaridade
e o afastamento visível de sua mulher; é quando em seu trabalho uma passageira
lhe pede uma passagem para uma estação que não consta nos mapas ou registros e
simplesmente desaparece; intrigado ele resolve pegar o trem e investigar, chegando
um uma misteriosa cidade no meio do nada, aonde a felicidade e paz chegam a
perturbá-lo. Chegando em casa, tudo está mudado, não há registros do nascimento
de seu filho e sua mulher está muito mais próxima e amorosa, como se uma nova
linha de tempo fosse formada, mas dia após dia, Ed vai sentindo que algo está
faltando e resolve voltar a cidade, percebendo que o dia que vivenciou lá
parece se repetir e que aquela felicidade toda, talvez não valha a fuga da
realidade.
Gostei
bastante dos episódios que assisti. O estilo puro de Philip K. Dick, abordando
o futuro, dimensões paralelas, inteligência artificial, sem negar os
questionamentos humanos, misturado com o estilo inglês de produzir TV, que além
do clima britânico que transmite todo um ar de melancólico ainda brinca com as
cores, dando mais tons pastel quanto mais imaginativa e estranha é a situação, conseguiu
me segurar até o final de cada episódio.
Então, se você quiser mergulhar em um universo
baseado na mente brilhante de um dos grandes nomes da ficção científica e que
mudou o status do meu mês, assista a “Electric Dreams” e dê uma chance para
toda maravilha e estranheza que são frutos da Obra de Philip K. Dick.