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terça-feira, 11 de julho de 2017

TRIPLO X - REATIVADO (2017) um desabafo



Quinze anos atrás, os X-games se popularizavam, a Mtv ainda ditava regras para a molecada e as tatuagens começava a se tornar parte do estilo das pessoas; nessa época, o som do momento era o Hip-hop e seu maior expoente era o Eminem, o sonho de consumo da gurizada era um playstation 2 e a Sheila Mello saiu nua na edição da Playboy de Janeiro e a Kelly Key na de Dezembro e, no cinema, eram os confusos tempos pós Matrix, onde cada diretor, produtor e roteirista sonhava em acertar no alvo da mesma maneira que os irmãos Wachowski.

Foi do meio desse caos que surgiu um filme que (pelo ponto de vista do estúdio) buscava misturar tudo que alegrava a gurizada, sejam tatuagens, música, esportes radicais, vídeo game, mulheres gostosas, muita ação e a mínima necessidade de pensar. Tudo isso protagonizado por um ator da nova geração, mas com todo aquele jeito de personagem dos anos oitenta. Assim, estreava em Setembro de 2002 "XXX" (triplo xis para os chegados), estrelado por Vin Diesel e Samuel L. Jackson. Um filme de espionagem, que trazia os resquícios de confronto da guerra fria e pretendia ser empolgante, estiloso e modernoso.

No entanto, uma década e meia depois, em dias de sequências, reboots e remakes, eis que do limbo das franquias surge, pelas mãos do diretor D.J Caruso e contando com a volta de Vin diesel, "XXX: Reativado" matando nossa curiosidade sobre, o que diabos aconteceu com o mítico Xander Cage e nos apresentando sua turminha do barulho e mais do obscuro mundo da espionagem "moderna".

Pois bem, em "XXX: Reativado" descobrimos que Xander Cage não foi à óbito como se soube em "XXX 2: estado de emergência" (esqueci que existia esse filme com o Ice Cube) e após um grupo terrorista roubar um item tecnológico apelidado de "Caixa de pandora", que tem a sutil capacidade de derrubar satélites que estão em órbita como se fossem mísseis em lugares onde o portador do item quer, e um desses satélites, supostamente, matar seu amigo e mentor Augustus Gibbons (Samuel L. Jackson), Xander volta a ativa para dar cabo do grupo de vilões e vingar a morte do amigo.


Então tá! O que esperar de um filme lançado nos dias de hoje, mas que é uma sequência de uma produção do inicio do século, que tem inspiração em elementos da guerra fria e exportes radicais, com um gostinho de filme dos anos oitenta e com todos exageros e cores do anos noventa? Pois é!! Garimpei de um lado, cavei do outro e para não dizer que não achei nada, digo que os momentos onde o filme soa como uma comédia (comédia involuntária, mas mesmo assim uma comédia), caso se consiga segurar o constrangimento e continuar encarando a tela da TV, são muito engraçados.


Começando pelo prólogo, onde vemos o personagem de Samuel L. Jackson recrutando mais um gênio para o projeto triplo X e o recruta é ninguém mais ninguém menos que o camisa dez da seleção brasileira de Futebol, Neymar Jr. A cena ganha ares de comédia, não só pelas caras e bocas que o jogador apresenta ao tentar parecer mais sério do que o normal, mas pela apresentação dos personagens e desfecho que a mesma tem.
Sobre a apresentação dos personagens, esse filme copia a horrível apresentação que se vê em "esquadrão suicida", que lista na tela, tudo que o personagem é, suas característica e pretensões, tal qual uma lista de vídeo game e , quando aparece o Neymar, diz que ele "achava que seria recrutado para os vingadores" ( Samuel L. Jackson entende?!) Pra quê? Para nosso capitão, camisa 10 e pegador de atrizes dizer,em tom humilde, que não é herói?! fato que se mostra falso, quando logo a seguir, quando o lugar onde ele estava almoçando com seu recrutador é assaltado, Ney jr nocautear o assaltante chutando um porta guardanapos na cabeça do meliante, o que é seguido por um grito de "Goooolll" da parte de Auguste Gibbons, que deveria ter morrido ali, naquela hora, antes de abrir a boca.

A cena que se segue é uma afronta a todo brasileiro. Segundos depois de vermos Neymar salvar a vida de Gibbons, concontramos Xander Cage pela primeira vez. Ele está escalando uma antena de TV no meio de uma floresta na república Dominicana e salta da antena em direção a floresta tendo apenas suas bermudas, regata, mochila e SKIS em seus pés... Isso mesmo, o desgraçado desce uma montanha na mata de ski, depois pega um skate e corre até chegar em uma área cercada por homens de metralhadora, que parecem ser milicianos ou traficantes e instalar o equipamento da antena em uma TV para que todos possam assistir satisfeitos... BRASIL (1) X ALEMANHA (7) !!! Maldito Xander Cage!!!


Se alguém se mexer eu toco Calipso !
Na sequência, após salvar o dia, pegar uma gostosa e tomar uma cerveja, nosso herói vai para a praça, onde sofre o mesmo teste que no filme de 2002 e descobre que seu recrutador preferido está morto. De posse dessa informação e sem querer o apoio das forças especiais americanas, Xander resolve convocar seu próprio grupo de "elite". São eles: Adele Wolf, uma sniper tão sorridente e tatuada quanto nosso protagonista e que passa mais tempo pedindo para dar um tiro, do que atirando em alguém; Tennyson Torch, um motorista de fuga e dublê que quer bater o recorde de acidentes (e que é o ponto alto da equipe, pois se trata do ator que faz o Cão de caça em GoT e que está muito engraçado) e o jovem "Nicks", que como arma em seu currículo está o fato que já pegou a Lady gaga e tem o dom de transformar qualquer festinha de garagem em uma Rave.. talentos esolhidos a dedo para enfrentar um grupo composto por Donnie Yen (mestre de Kung Fu) ,Tony Jaa (mestre de Muay Thay), Michael Bisping (mestre de MMA) e Deepika Padukone (mestra em ser gata). Seria esse grupo de Xander um grupo de "contra-inteligência"? Só pode ser!

Depois de reunir essa turminha muito louca, xander parte para Londres, para pedir ajuda para o melhor racker do mundo para rastrear o grupo do mal. E como não poderia ser diferente, em um filme de espionagem, o especialista é UMA especialista e "força" nosso herói a satisfazer meia dúzia de ajudantes sedentas de sexo, para poder lhe entregar a informação, o que não faz sentido nenhum, pois depois descobrimos que nenhum desses terroristas manja nada de computação e que poderiam ser facilmente rastreados pela equipe de apoio do governo, transformando toda cena em apenas uma desculpa para mostrar o quanto o protagonista é Bonzão com as mulheres, algo que convence tão pouco, como a pretensão de transformar o insipido Vin diesel em alguém carismático e legal, o fazendo sorrir o tempo todo. Duas péssimas escolhas de roteiro, que só o ator acreditou, tentando colocar em prática ao forçar uma paquera com uma repórter brasileira.


O mar é o mais carismático nessa foto
Papo vai, papo vem, alguns beijos e muito tiro, porrada e bomba depois, descobrimos que os terroristas, na verdade são agentes recrutados para o projeto XXX e que o vilão é um político americano querendo resolver as coisas pelo medo (como poucos!) o cara é eliminado e DO NADA, a responsável pela caçada aos terroristas se mostra uma vilã maligna do mal!! Não sei se dormi minutos antes, mas realmente não entendi porque ela se tornou maléfica... e nem por que toda a equipe do governo fez o mesmo, chegando ao ponto de o avião que levava nossos heróis ao redor do mundo quase cair e os soldados continuarem tentando matar o fantástico Xander Cage, sem medo de partirem para a terra dos pés juntos.


Depois disso, Ratátátá, bum, pow, soc, iiiáaáá.....!! e a ação acaba e sem nenhuma atuação digna, colocando em posição de constrangimento atores de ação do cinema asiático no naipe de Tony Jaa e Donnie Yen e reafirmando a breguisse da franquia. Vemos as duas equipes, que outrora eram rivais e inimigas, agora reunidas como uma família, tendo o majestoso Xander, como seu líder , restando no coração de quem sobreviveu as quase duas horas de cenas aleatórias sem roteiro, o desejo verdadeiro de que as próximas missões de Xander Cage sejam tão secretas, mas tão secretas, que não sejam mais filmadas.

Depois de tudo ainda descobrimos que o personagem do Samuel L. Jackson não morreu, foi tudo parte de um plano para trazer os traidores à luz e reativar Xander Cage, tudo isso em um diálogo que faz tantas menções ao Nick Fury e aos vingadores (com Samy Jackson trajando um sobre tudo de couro, se fingindo de morto, de cabeça raspada e até um óculos com um tapa olho) que só faltou o Vin Diesel gritar "EU SOU GROOT"!! Tenho certeza que a Marvel só não deve ter processado essa produção para não ter seu nome ligado a algo tão horrível.


E assim desperdicei duas horas da minha vida, que senti ainda mais falta, ao assistir "zootopia" logo em seguida e me deparar com um roteiro infinitamente melhor construído, personagens mais profundos e carismáticos, referências bem colocadas e inteligentes, assim como trama envolvente...tudo isso em um filme que deveria ser para crianças... mas isso é outra (e melhor) história, sem tatuagens, sorrisos forçados e , definitivamente, sem os sete a um da Alemanha.




segunda-feira, 26 de junho de 2017

VIDA (2017)


Nesse contestado 2017 que já se encontra pela metade, ainda estou aguardando a estreia de alguns filmes que jogaram minha expectativa nas alturas desde que assisti aos seus primeiros trailers, mas enquanto estes não chegam, vou seguindo os conselhos do célebre cantor Latino e "se não encontro os filmes certos, me divirto com os errados!".

Pois fazendo tal qual esse genial músico brasileiro, que assisti nesse final de semana, "Vida", filme escrito por Rhett Reese e Paul Wernick, a mesma dupla responsável pelo roteiro de "Deadpool" e "Zumbilândia" e estrelado por Ryan Reynolds e Jake Gyllenhaal, que por pouco mais de uma hora e meia, não só matei (e matei mesmo) minha nostalgia em relação aos clássicos do "terror no espaço", como fui soterrado de referências destes.

"Vida" conta a história de uma equipe de seis astronautas enviados até a estação espacial internacional, para estudar uma forma de vida unicelular descoberta nas amostras de terreno retiradas de Marte. Essa espécime, que é batizada de Calvin, é composta de células fotossensíveis, tecido muscular e nervoso , ou seja, é simplesmente, músculos, olhos e cérebro e , cresce extremamente rápido. Em um acidente, o ser é dado como morto e reanimado pelo tripulante responsável, ao fato que reage com hostilidade e passa a atacar a tripulação. Resta agora aos sobreviventes, fazer o possível e o impossível para evitar que a criatura chegue até a terra.

Pois bem, há quem cante que "Vida, é um grito de gol, é um banho de mar, é inverno everão", mas quem não tem TV a cabo e é obrigado a assistir aos telejornais da Band, sabe bem que "a Vida bate forte,irmão!" e esse filme, reciclando os conceitos apresentados nos clássicos do cinema de horror espacial, em especial o primeiro "Alien", assim como muitos dos filmes de John Carpenter, onde o foco no desespero em encarar o desconhecido e a morte em meio a solidão dão o tom da trama , consegue mostrar de forma divertida (entenda "diversão" como quiser) todo terror que a vida pode nos reservar.


Pode-se mesmo tratar o filme como uma alegoria sobre a vida real, em que se seguindo ao meio do desconhecido, oscilamos por momentos de total expectativa e frustração, que podem ser seguidos de esperança ou terror em decorrência de nossas escolhas. E um fator que corrobora para essa mensagem passada, mesmo que de forma rasa pelo filme, são os personagens de Jake Gyllenhaal e Rebeca Ferguson, o primeiro um médico que trabalhou na Síria e que perdeu sua esperança na raça humana, mas que toma para si a missão de se sacrificar para evitar que a criatura chegue até o nosso planeta e destrua tudo o que ele não acredita mais e, a segunda, que é a responsável pelo isolamento do ser na nave, representa ideia falha de que estamos sempre preparados, mesmo para o desconhecido; isso sem mencionar a esperança, que é encarnada pelo personagem do cientista paralítico, que vê na descoberta da nova forma de vida, uma possível cura para seus problemas.

No entanto, o que vida trás de mais divertido são suas referências aos filmes antigos. A criatura rondando o grupo de viajantes espaciais, lembra o tempo todo "Alien" e não só pela aparência cheia de tentáculos que remete ao monstro do filme de Ridley Scott ao ficar presa no rosto do John Hurt o filme de 1979, como também pela ideia inicial de matar a criatura com um lança chamas e pelo fato desta entrar pela boca de uma das vítimas e crescer dentro dela, sem contar que, somando-se ao rato que serve como cobaia no laboratório da estação, o alienígena também é o oitavo passageiro.

Porém, o filme não consegue se sustentar além de suas referências e diversão violenta, devido a velocidade com que as coisas são apresentadas. Mesmo com uma hora e cinquenta, parece não haver tempo para que criemos elos com os personagens, sabendo muito pouco de suas histórias, relacionamentos ou expectativas e, quando estes começam a morrer, por maior que seja o sacrifício ou angustia em sua morte, acabamos por não nos importarmos com eles e isso diminui o impacto que os acontecimentos deveriam ter sobre o espectador.

Outra coisa que não funciona como deveria na trama é a criatura. Embora ela tenha um conceito extremamente interessante de ser feito para matar (músculo+cérebro+olhos e uma BAITA inteligência), está longe de possuir o carisma de um "Predador" ou de um "Alien", nem mesmo de causar o estranhamento que a criatura de "O enigma de outro mundo" consegue causar em quem assiste ao filme e isso faz com que o coloquemos no nível de uma ameaça genérica, o que , por um lado é bom, pois surpreende a tripulação do filme, que o subestima (e até a nós mesmos ao final do filme), mas o torna esquecível quando os créditos sobem.


Pois então, "Vida" é um filme mediano, mas que consegue divertir quem assiste devido a chuva de referências que trás e alguns momentos de tensão e terror que matam a saudades de quem, assim como eu, é fã do estilo. Não chega a ser um filme para ficar guardado na memória, mas não é totalmente esquecível, principalmente quando se pensa no final que mistura tragédia total com comédia nonsense (pelo menos eu achei isso). Com certeza não foi o filme mais certo lançado nesse ano cheio de expectativas, mas como um sábio me disse e já citei acima, "enquanto não encontro os filmes certos..." , segue a expectativa e que venham "Homem-aranha", "Atômica Blondie" e "Baby Driver" e que com estes, a vida não nos frustre ou aterrorize!!




sexta-feira, 23 de junho de 2017

CORRA! (2017)



Certa vez, li em algum lugar que a leitura de romances é um exercício de empatia, pois faz o leitor se colocar no lugar dos personagens, encarando, como se fossem seus, os problemas e situações apresentados na trama e, em consequência disso, quem lê mais, tem menos medo do próximo, porque adquire maior facilidade em vê-lo como um igual. Guardei esse argumento para mim e sempre que, em uma roda de amigos, eu citava um livro e alguém perguntava o porquê de eu ler tanto, dizia sem pestanejar: "É um exercício de empatia!". No entanto, não lembro de nenhuma vez em que tenha sido questionado por citar um filme, talvez porque o cinema tenha se transformado em diversão pura e simples, como se tivéssemos nos tornado mal acostumados pelas grandes franquias, blockbusters milionários e universos expandidos a não enxergar que o cinema, assim como a literatura, também é uma forma de nos colocar no lugar do outro, nos colocando como passageiros de suas experiências e, nos enriquecendo como pessoas.

Por sorte, de tempos em tempos, surge uma produção que nos lembra o verdadeiro poder do cinema, como é o caso de "Get out", ou como foi traduzido no Brasil: "Corra!", trhiller escrito e dirigido por Jordan Peele e estrelado por Daniel Kaluuya e Allison Willians, que estreou no Brasil em Maio, mas que só agora tive o prazer de assistir e que me deixou boquiaberto tanto com a história que conta, como com o que o filme conseguiu revelar sobre mim mesmo.

"Corra!" conta a história de Chris Washington, um fotógrafo (negro) que é convidado por sua namorada Rose (que é branca) para passar o final de semana em sua casa de campo e conhecer seus pais e irmão. Mesmo tenso pela diferença étnica e social que existe entre ele a a família da namorada, Chris aceita o convite e é extremamente bem recebido pelo casal de progenitores da namorada, Dean e Missy. Mas as coisas começam a ficar estranhas, quando ele se vê presente em uma misteriosa reunião na casa, contendo um grande número de pessoas da alta classe, todas extremamente interessadas em seu gosto por esporte, visão de mundo e constituição física, e tudo só piora, quando Chris percebe que as pessoas negras presentes no local (não mais de três, dois empregados e um jovem convidado que se veste como um senhor de idade) agem de maneira mecânica e artificial. Resta agora a Chris, tentar entender o que está acontecendo naquele lugar afastado e misterioso e, fazer o possível para dar o fora dali.


Brother! Que filmaço! Fazia um tempinho que eu não assitia a um filme que me prendesse na poltrona, com os dentes serrados de tensão e mergulhado no que está acontecendo em tela, méritos do roteirista e diretor Jordan Peele, que nos entrega uma história inteligente, que consegue ser pesada, sem deixar de ser divertida e até humorada quando necessário; resultado, não só do aparente background de cinéfilo, que o diretor parece ter, ao trazer conceitos que lembram os clássicos de Hitchcock, mas também seu histórico pessoal de escritor e ator de comédia, fatos que podem ser confirmados ao assistirmos um pouco de seu trabalho em seus antigos programas do canal "Comedy central", que expõem toda sua agilidade e competência como roteirista; no entanto, seu talento como diretor, exceto no filme "Keanu", uma comédia nonsense onde ele atua e co-dirige algumas cenas, sem fugir de seu terreno mais conhecido, nunca havia sido exposto como agora; uma grata surpresa em uma área cada vez mais carente de cineastas autorais e competentes.

Somando-se ao talento do diretor, outro fator que favorece o filme são as atuações, principalmente do protagonista, que é interpretado por Daniel Kaluuya e por seu par romântico a atriz Allison Willians. O ator britânico, já havia chamado minha atenção por seu papel em Black Mirror, principalmente por sua capacidade expressiva; o cara é craque em transmitir sentimentos sem precisar utilizar uma única palavra e em uma trama onde a suspense e a estranheza são ingredientes de destaque, um ator que consegue transmitir no olhar a perturbação e medo que sente, facilita o andamento da história de maneira visível. Já Allison Willians, de quem eu nunca havia ouvido falar, me surpreendeu pela naturalidade com que compõe seu personagem e pela química que desenvolve com Daniel, assim como a quebra dessa química no arco final da história, quando a personagem tem uma virada e a própria forma de atuar da atriz parece seguir aquele novo modo de agir, sendo que o momento final da história (que para mim é o ponto alto) me parece ser tão completo por deixar apenas os dois brilharem.
Ei!! Afrodescendente!! você acha que tem mais ou menos vantagens na sociedade moderna?

Apesar das ótimas atuações e direção, o destaque é a história do filme. Para começar, a trama contém toda força necessária que um filme de suspense que aborda o racismo deve ter para o momento atual de um mundo cada vez mais preconceituoso e extremista, principalmente no que toca os EUA. Basta prestarmos o mínimo de atenção nos diálogos dos personagens, ou nas frases soltas no jantar da família ou no encontro na casa e vamos, aos poucos montando o cenário de preconceito que parece cristalizado em toda parte, seja quando uma convidada da casa de campo pergunta se os negros são melhores (na cama), ou quando o irmão de Rose, pergunta por que Chris não se interessa por MMA, pois com sua constituição física se tornaria uma fera, ou mesmo quando outro convidado diz que o preto está na moda; todas essas pequenas migalhas vão desenhando uma situação onde o negro vais sendo descrito como uma coisa, ou um animal, que, segunda a visão do não-negro (presente no filme) tem suas únicas utilidades em suas possíveis vantagens físicas, mas como pessoa, são totalmente dispensáveis, como no discurso dado pelo pai de rose, quando conhece o protagonista e este lhe conta que na vinda, haviam atropelado um cervo, ao que o futuro sogro diz que esses animais estão por toda parte, poluindo e destruindo o ecossistema e que quando sabe que alguém deu um fim neles fica feliz, pois é menos um para incomodar, em uma brilhante alegoria feita pelo roteiro em que o cervo (símbolo clássico de animal caçado) é comparado aos negros e, o genial é que tanto o próprio cervo, quanto cada palavra citada pelos personagens do filme não está lá por acaso, nem mesmo a ideia de que que apenas as vantagens físicas dos negros é a única coisa que importa.


Mas mesmo abordando e expondo essas situações e fatos que todo negro já presenciou (como diriam os racionais: Quem é preto como eu já tá ligado qual é...), o filme não tenta ser panfletário (não que ser panfletário seja errado), se tornando genial e tão especial justamente pela pitada de comédia (muito disso apresentado pelo ator Lil Rel Howery, que faz o papel do melhor amigo do protagonista e que tenta mostrar a ele a roubada onde está se metendo) que serve para exorcizar o peso dessas questões sociais abordadas de maneira periférica no filme sem as colocar em segundo plano, lembrando em muito o clássico "O grande Ditador" de Chaplin, que foi um dos primeiros filmes a utilizar o cinema e o humor para combater o extremismo e preconceito. Esse humor, herança da carreira do diretor de seus tempos de comediante de TV, se soma a sua experiência de vida, ele mesmo filho de um casal multiétnico e casado com uma mulher branca, que deve ter presenciado e vivido muitas cenas semelhantes a do jantar ou do encontro presentes no filme e comprovam a importância da representatividade no cinema, ao colocar escrevendo e dirigindo, alguém que realmente sente na pele um pouco do que a história tenta transmitir.

Jordan Peele
E falando em transmitir uma mensagem, como disse no início do texto, esse filme revelou para mim, que até em mim que sou negro, o preconceito está presente. Percebi que eu mesmo já vivi muitas das cenas iguais as vividas pelo protagonista, onde o mesmo se via questionado, coagido ou observado como algo diferente (não como uma pessoa) e assim como ele, sempre levei esse comportamento que vem da parte do outro como plenamente aceitável, como quando o policial de trânsito pede os documentos de Chris, mesmo ele não sendo o motorista, ou quando, no final do filme, após tudo que tinha que dar errado (ou certo) acontece e vi chegar um carro da polícia, meu primeiro reflexo foi pensar: "Ferrou! Agora acabou pra ele!" uma frase que diz mais do que eu espero do mundo em que vivo e aceito como "normal", do que da trama saída da mente de um talentoso roteirista e que reafirma o verdadeiro sentido do cinema ao apresentar o ponto de vista de uma pessoa, fora dos padrões habituais do cinema popular, a toda uma platéia e gerando empatia com a história de Chris Washington e catarse em relação a sua história e atitudes.

Pois bem, mais do que um filmaço de suspense, "Corra!" é uma obra obrigatória. Bem escrito e dirigido por uma mente cheia de frescor e com muito a agregar ao cinema, com grandes atuações e momentos de tensão e ação dignas do respeito de fãs de Hitchcock e Tarantino e, acima de tudo, possuidor de uma mensagem forte, embora sutil, sobre nós mesmos e a sociedade onde vivemos. Traz a visão de um grupo que quando não é totalmente estereotipado é muito pouco representada no cinema e o coloca em seu devido lugar de Pessoas e, faz através de alegorias e diálogos brilhantes, que olhemos para dentro de nós mesmos e reconheçamos nossos próprios preconceitos e falta de empatia, reafirmando com talento o verdadeiro sentido do cinema que, tanto quanto divertir e maravilhar, é também de nos fazer viver várias vidas e nos enriquecer como pessoas.






quinta-feira, 18 de maio de 2017

O HOMEM DUPLO ou um reflexo na escuridão (A Scanner Darkly) - de Philip K. Dick


No decorrer da minha vida de leitor, alguns livros ficaram marcados nas minhas lembranças quase como um amigo que viveu uma história única à meu lado e que por vezes tenho vontade de visitar para conversar sobre aqueles bons momentos. Um desses livros, é o fantástico "O Homem duplo", de Philip K. Dick, que tinha lido a quase dez anos e que tive o prazer de reler recentemente, me deixando novamente maravilhado pela história fantástica, de um mundo totalmente monitorado e tomado pelas drogas, mas onde Dick consegue com sua genialidade, em sua obra mais atual e madura, dar vida a seus personagens de uma maneira original e extremamente humana.

Capa da edição da Rocco
"O Homem duplo", como citado acima, se passa em um futuro onde o tráfico de drogas venceu e grande parte da população é formada por traficantes e usuários; a polícia monitora a todos que quiser e seus agentes trabalham em tamanho sigilo, que nem ao menos se conhecem, utilizando, quando presentes na delegacia, uma roupa holográfica que não permite suas identificações. Nesse mundo, somos apresentados a Fred um policial disfarçado e viciado na perigosa substância D, que é infiltrado, com o nome de Bob Arctor, entre um grupo de drogados e acaba com a missão de investigar a si mesmo. Carregando o peso de seus papéis contraditórios e vítima de seu vício e solidão, Fred/Bob Arctor passa a ter seguidas alucinações e dúvidas sobre sua vida, vindo a esquecer se ele é na verdade o traficante Bob, que deve ser vigiado, ou o policial Fred que deve prende-lo.


Não sei dizer se esse é o melhor livro do autor, afinal Dick escreveu mais de cinquenta obras e eu não tive o prazer de ler mais que dez delas; mas, dos que eu li, essa parece ser sua história mais madura e sensível. O motivo disso parece passar pelo fato que, assim como o protagonista, Philip K.Dick, também viveu experiências com drogas e, conforme a homenagem que faz ao final do livro, perdeu diversos amigos em decorrência do vício, isso faz com que o livro pareça ser escrito com muito mais sentimento e carinho que as demais obras do autor, onde a especulação e a sociedade parecem tomar a frente dos indivíduos. Em "O homem duplo" os personagens se destacam muito mais que o mundo que os cerca, sendo que somos informados sobre essa realidade, do mesmo modo que os superiores de Fred/Bob Arctor, através dos olhos de outras pessoas e essa maneira de nos mostrar o universo onde a história se desenrola, retira da trama todo maniqueísmo possível, fazendo com que não sobre espaço para vítimas ou algozes, apenas para pessoas, que assim como o protagonista, vivem múltiplos papéis, com todos seus erros, dúvidas e acertos, e, essa complexabilidade, transforma o livro em algo único e especial.



Mas mesmo que a sociedade onde a história acontece fique relegada ao plano de fundo da trama, conseguimos sentir a opressão e o caos controlado que dela emana, podendo classifica-la como uma forma de distopia. Nesse mundo de "O Homem duplo", onde as ruas são tomadas de traficantes e usuários, nem os próprios agentes estão imunes a vigilância intensa e a corrupção, acabando por viverem muito mais na zona marginal onde foram infiltrados, e se acostumando com essa realidade, do que tendo acesso aos benefícios dos que pagam o seus salários e recompensas, que é o grupo apelidado de "caretas". Esse grupo, que é composto pelas pessoas mais abastadas (ou menos ferradas), vive distante das realidades das ruas, ainda seguindo o modelo americano de vida e usufruindo de todas as garantias que sua posição permite. Essa divisão da sociedade, tendo os caretas como grupo dominante, é apresentada de maneira sutil pelo autor, mas marca a cisão social que coloca um pequeno grupo sobre o restante da população e isso fica exemplificado quando o protagonista se vê obrigado, já no início do livro, a palestrar (utilizando seu traje holográfico) para um grupo desses indivíduos em um club fechado e contar para eles o que vê diariamente nas rua, fato que inimaginável para eles; assim como quando, conversando entre si, os amigos de Bob especulam o que existe dentro de um shopping, um lugar onde pessoas do tipo deles jamais entrariam; isso vem a se somar ao fato de que na história, os caretas são sempre mencionados e nunca abordados ou presentes diretamente na trama, tudo que vemos se passa nas ruas, longe da elite, que fica inatingível para aqueles para os quais sobrou apenas o vício e o descarte como alternativa.


poster do filme
No entanto, tanto os personagens marcantes, quanto o universo onde eles existem, não passariam apenas de uma boa ideia, caso não fosse a maneira primorosa como o autor resolveu contar a história. Munido de uma narrativa que oscila entre o trágico e o cômico, Philip K. Dick, consegue ir além da sensação de estranheza e reflexão de seus textos, mas sem fugir da base de sua obra, construída em cima do "O que é real?", o que nunca foi tão bem abordado quanto nesse livro, onde nem mesmo o protagonista sabe quem realmente é. E essa confusão na mente de Bob Actor vai surgindo de forma quase imperceptível com a inclusão de frases em alemão no meio do texto, que são a manifestação dos sintomas do abuso de drogas no personagem, em que Dick utiliza trechos de "Fausto" de Goethe, uma história onde o herói busca enganar o diabo, para descrever, tanto o início da confusão mental do protagonista, como para indicar suas intenções e questionamentos subconscientes, pois afinal quem seria o diabo de Arctor? Os drogados e traficantes com quem ele convive? A sociedade policial que ele representa? Ou ele mesmo que transita entre esses dois mundos?

O livro ainda é repleto diálogos brilhantes e muito engraçados por parte dos amigos de Bob Arctor, que assim como os pequenos e fantásticos contos, que aparecem como "trips" devido ao uso de drogas pelos personagens, dão o tom de insanidade da trama e coroam o talento do autor. Dentre esses diálogos e contos, o que é mais marcante para mim é o da tentativa de suicídio de Charles Freck, onde desiludido com o mundo, um dos amigos de Arctor resolve tomar uma overdose regada a vinho barato e transformar seu sacrifício em um ato de protesto. Assim ele planeja ser encontrado em sua cama com um exemplar de "A nascente" de Ayn Rand, para demonstrar que era um super-homem incompreendido pelas massas e, uma carta de reclamação devido ao cancelamento de seu cartão de crédito, para culpar o sistema por sua morte; mas no último minuto ele resolve tomar a overdose com um vinho bom, compra um mondavi cabernet sauvignon e toma as pílulas com o vinho, fica esperando deitado e percebe depois que não se tratavam de barbitúricos, mas um psicodélico vagabundo, minutos depois ele vê ao lado de sua cama uma criatura extra dimensional cheia de olhos trazendo consigo um pergaminho com todos seus pecados, em sua trip, mil anos depois a criatura ainda lia seus pecados do jardim de infância, dez mil anos depois os da sexta série, Freck olha para criatura, meditando sobre o que estava acontecendo e pensa..."Pelo menos bebi vinho do bom!".

Freck em seu "Suicídio" no filme de 2006

Aliás, esse trecho de "O homem duplo" citado acima, que exemplifica o humor e talento do autor, foi o que me levou a procurar esse livro a dez anos atrás. Tudo devido a adaptação da história para o cinema em 2006, roteirizada e dirigida por Richard Linklater (diretor de Escola de Rock e Boyhood) onde a cena de Charles Freck é apresentada de forma idêntica a no livro e ainda com a vantagem de ser narrada com uma gravação do próprio Philip K. Dick, que quando assisti e me deixou boquiaberto. O filme, que é a adaptação mais fiel dentre as inúmeras histórias do autor que foram levadas para o cinema, contou com um elenco de peso, que além de Keanu Reeves, como Bob Arctor/Fred, tinha Robert Downey Jr, como Jim Barris, Woody Harrelson, como Luckman e Winona Ryder, como Donna e, se tornou famoso, ao utilizar uma técnica de pós produção que aplica uma pintura ao filme, dando a ele a aparência de animação, fato que o diretor afirmou ter inserido para causar uma sensação, a quem assistisse ao filme, semelhante a de como um usuário de LSD percebe o mundo durante uma viagem de drogas.

Capa da edição da aleph
Assim como o sua adaptação cinematográfica, o livo, apresenta muito pouca tecnologia futurista envolvida na trama, tendo em vista que é uma história de ficção científica e escrita por PKD, o mestre em criar aparelhos malucos com nomes estranhos. Claro que ainda existem os "Scanners em cubo 3D" e os "Cefscópios", mas esses equipamentos estão ali só para lembrar que a trama se passa no futuro e, a decisão de deixar mais essa questão como pano de fundo, contribui para a maturidade do livro, que citei no inicio do texto e acaba por coroar o autor, que tanto se empenhou em imaginar o futuro, com a visão de futuro bem mais próxima da real, do que em qualquer outro de seus livros e isso acontece justamente na história onde ele decide olhar mais para trás em sua própria vida, do que pensar trinta anos na frente para a sociedade, o que torna "O homem duplo" sua obra, dentro do possível, mais pé no chão.


"O Homem duplo" de Philip K. Dick passou novamente pela minha vida como um amigo que mora longe, mas que com quem sei que sempre posso contar. Uma história fantástica, vivida em meio as drogas e repressão, mas que deixa de lado o coletivo e a especulação futurista e, vai mais a fundo no indivíduo, abordando a ignorância, o medo, a solidão e até o vício como conceitos que nos tornam humanos. O livro mais maduro e pé no chão desse grande nome da ficção científica e meu escritor preferido (como eu não canso de lembrar) e leitura obrigatória não apenas para quem é fã de PKD ou ficção científica, mas para quem aprecia uma boa história. A editora ALEPH relançou o livro recentemente com o título "um reflexo na Escuridão" (título bem mais próximo do original em inglês).  Minha dica é, pegue o livro, sente-se em um lugar bacana, abra um bom vinho e deixe sua mente viajar nessa trip distópica futurista e caso, por algum motivo, o livro não lhe agradar, relaxe...pelo menos você terá tomado um vinho do bom!!



                                           Trailer do filme de 2006

sábado, 13 de maio de 2017

A vigilante do amanhã: Ghost in the Shell (2017)


Em 1995, a Bandai, trazia para o cinema, com a direção de Mamoru Oshii e baseado no mangá de Shirow Masamune, "Ghost in the Shell" (ou o Fantasma do futuro, no Brasil), a animação que se tornaria tanto um ícone do estilo japonês de produzir desenhos animados, quanto um clássico da ficção científica cyberpunk, influenciando, acima de tudo, as irmãs Wachowski a escrever, produzir e dirigir "Matrix" o filme que revolucionou o cinema no início desse século. Pois, vinte e dois anos depois da estréia do anime japonês, chegou aos cinemas mundiais, cercada de polêmica, dúvida e crítica, o live action dessa aclamada obra, agora produzida pelos estúdios americanos da Paramount e DreamWorks, com direção de Rupert Sanders e estrelada por Scarllet Johansson e Takeshi Kitano; e eu, que sempre sonhei em ver uma superprodução baseada em um dos clássicos dos animes, me despi de meu sobre-tudo de "ouvi dizer", coloquei meus óculos-scanners de curiosidade, liguei minha camuflagem holo-térmica e me joguei de cabeça para assistir "A vigilante do amanhã" disposto a tirar minhas próprias conclusões.


"A vigilante do amanhã: Ghost in the shell", se passa em um futuro onde o aperfeiçoamento dos cérebros e corpos humanos através de próteses biônicas já é possível, nesse mundo conhecemos a Major Mira Kilian ( Johansson), a primeira pessoa a ter seu cérebro transferido para um casco totalmente biônico. Mira, trabalha para o setor 9, uma força do governo especializada em terrorismo cibernéticos e, após uma missão de rotina, se depara com Kuze, um perigoso hacker, que está utilizando os robôs e pessoas com implantes cerebrais para assassinar diversos membros da cúpula e cientistas ligados à Hanka Robotics, a empresa que criou o corpo de Mira e efetuou o seu transplante; junto a isso, ela passa a ter visões e possíveis lembranças que a fazem se perguntar quem e o que realmente ela é, Resta agora à major, encontrar Kuze e investigá-lo tanto quanto a Hanka, para descobrir não só as intenções desse terrorista, como as da empresa que a criou, assim como seu próprio passado.


Como disse na introdução, fui assistir ao filme despido de meus preconceitos e do peso das opiniões dos outros, tentando acompanhar a produção sem compara-la ao anime de 1995, de forma a avaliar se o filme se sustenta sozinho, se é bom, divertido ou se realmente merecia as críticas que ouvi falar por aí. Então, o que eu poderia dizer sobre "Ghost in the shell (2017)"?

setor 9
O principal elemento do filme (como não poderia deixar de ser para um blockbuster de ficção científica) são os efeitos especiais. Achei muito bacana o designer futurista da cidade onde a trama se desenrola, com hologramas interagindo com as pessoas no meio da rua, outdoors 3-d em toda parte, assim como todos envolvidos na história (mesmo os figurantes) possuírem alguma parte biônica em seus corpos (exceto Togusa), a utilização dos efeitos para expor a situação dessa sociedade quase pós humana, ainda é somada a pluralidade étnica presente e seu modelo e cultura de rua, que embora tenda a nos dizer que é uma cidade asiática, não nos é permitido confirmar, por desconhecer qual sua língua oficial ou localização, nos passando um ar de superlotação e esmagamento do indivíduo, elementos típicos de obras cyberpunks e que automaticamente nos remete, pela semelhança, ao clássico "Blade Runner" de Ridley Scott.
Mas apesar de os conceitos e ferramentos estarem presentes e serem utilizados de maneira visual, o pouco tempo do filme e as decisões de roteiro os deixam muito em segundo plano no tocante a influência dessa solidão e do peso dos rumos dessa sociedade em cada cidadão, não sendo possível identificar seus reflexos nem na vida dos protagonistas, com exceção da Major (quando descobrimos um pouco de seu passado). Essa descoberta, e mais do que isso, sua busca, são um problema no enredo do filme, pois diminuem o peso dos vilões e torna necessário a diminuição do papel dos coadjuvantes para que protagonista se torne ainda mais forte e isso é uma falha que vem se repetindo de mais em adaptações, e , nesse filme não é diferente.


Falando dessas escolhas de roteiro para engrandecer o protagonista (fato que reclamo desde que o primeiro filme dos x-men, saiu em 2000) enxergo toda a seção 9 como vítima. O filme ganharia muito mais, se, embora a protagonista puxasse a história, todos seus companheiros tivessem relevância no desenrolar da trama, um ajudando a hakear o terrorista, outro investigando a Hanka, outro coordenando investigação sobre os assassinatos, de modo a montarem o quebra-cabeça no final, como em um bom filme policial. Nesse erro, penso que quem mais sofre é o parceiro da major, o Sargento Batou, que fora um conselho ou outro e algumas cenas de combate, pouco faz na trama além de ter seus olhos trocados por lentes biônicas.
Sempre Brava!

Junto a isso, também vem a somar a atuação da Scarllet Johansson. Eu sou fã da atriz e acho que ela tem um grande potencial, mas parece que depois de "os vingadores" de 2012, a atriz está revivendo o papel da Viúva Negra o tempo todo! Sua expressão é sempre carrancuda ou apática, não diferente da apresentada nos filmes "Lucy" e "Sob a pele" e seus movimentos parecem de quem não se sente confortável ou confiante. Entendo que isso é mais culpa da direção, que deve ter pedido que ela passasse a quem vê o filme que a Major Mira Kilian é mais que uma pessoa, é uma arma e então andasse como se estivesse entrando em um octógono, mas quem desempenhou o papel foi ela e esses pequenos detalhes parecem se sobrepor a trama, que talvez ganhasse um pouco mais de simpatia e destaque, se tanto sua protagonista, quanto seus coadjuvantes transparecem o mínimo de humor ou sarcasmo em algumas situações.


E por falar em trama, as motivações de alguns personagens e algumas respostas me deixaram um pouco confuso. Para começar, no que se refere ao pretenso vilão da história, o "Hacker" Kuze, ele mata, hackeia, manipula e chega a criar uma rede cerebral utilizando humanos para tentar descobrir quem realmente ele é, mas mesmo antes disso, ele parece perder a relevância na história e se transforma em um motivador vazio da major em busca de seu passado, sem contar que ele mesmo diz que foi um experimento "desmembrado e descartado", mas em nenhum lugar fica exposto que o montou novamente e como ele conseguiu se tornar relevante e uma ameaça para a Hanka. Dúvida semelhante eu tenho no tocante a própria indústria Hanka, um gigante da robótica e que além de contato e poder dentro da política daquela sociedade, fornece armas e equipamentos para o setor de segurança, mas que não consegue se livrar das investigações do setor 9 e ainda resolve utilizar um grupo obscuro de hippies de DCE de humanas como cobaias em seus experimentos, só porque estes protestavam contra o avanço da tecnologia na vida das pessoas; ora, se é um universo Cyberpunk, onde os grandes conglomerados dominam a sociedade e tem poder maior do que o próprio estado, qual a ameaça de um grupo de adolescentes rebeldes? E, qual a necessidade de tamanha maldade e força por parte da Hanka? É quase como se a Coca-cola se revoltasse e caçasse toda pessoa que fala mal de seu produto (e resolvesse lhes dar corpos biônicos), ao invés de apenas os ignorar e focar no mercado, o que parece pouco crível na realidade ou no cinema e essa motivação, tal qual a do suposto vilão, acabam por tirar um pouco do crédito da história do filme.

E.U.A x Japão

No entanto, mesmo eu tentando, é impossível evitar alguma comparação em relação a obra japonesa, em parte porque muito do que é bacana nesse filme de 2017 é apenas uma transposição para olive action do que já foi apresentado no anime de 1995, sem o mesmo aprofundamento e clima. O maior exemplo é a cena da perseguição até a lamina d'água, onde um bandido é perseguido pela Major, que se encontra invisível e ela o ataca o arremessando para um lado e para o outro e mais tarde se descobre que a mente do sujeito foi apagada e nela colocadas memórias falsas. No filme, é bem legal, mas no anime, toda situação e o desespero que toma conta do bandido ao descobrir que não possui filha nenhuma dão um exemplo ainda maior da solidão e exposição que as pessoas que vivem nesse mundo sofrem. O anime também é superior como trama policial, porque ele contém exatamente o que eu citei anteriormente sobre acompanhar uma equipe policial que se divide em grupos para investigar e monta uma situação ao final, dando destaque a todos na medida do possível; sem falar que todo o universo que cerca a trama no anime é um pano de fundo simplesmente aceito por quem vive lá e não contestado o tempo todo como apresentado no live action.
Cidade do Futuro

O aprofundamento filosófico que a trama japonesa tem, o filme americano também ficou devendo. No anime de 1995, somos expostos a muitas cenas de reflexão e silêncio, onde percebemos que os personagens estão se questionando, quando não apavorados com a situação, sem contar nos shots contendo frases bíblicas para buscar explicar a tomada de consciência do programa "mestre do fantoches" (vilão do anime) e até mesmo a utilização do nome original da Major, que seria Motoko Kusanagi e que faz referência a espada Kusanagi, uma lendária arma japonesa que foi tirada de dentro de um demônio, tudo a ver com a personagem, que é uma arma criada por um conglomerado gigantesco que se revela mal intencionado e onipresente. Certo, dirão que esse aprofundamento iria quebrar o ritmo do filme, mas se "Matrix", que é baseado em "Ghost in the Shell" conseguiu fazer, porque "A vigilante do amanhã" não seria capaz quase vinte anos depois de "Matrix"?


Apesar de todos esses problemas, "A vigilante do amanhã" não é um desastre, na verdade ele está muito a frente de filmes como "esquadrão suicida" e "Transformers". O universo da trama, embora confuso, pois mesmo imerso em um futuro onde a tecnologia e aperfeiçoamento dos corpos se faz presente, ainda possui cidadãos adolescentes que contestam essas mudanças; é apresentado de maneira razoavelmente satisfatório e encanta, como citado acima, pelo uso competente dos efeitos especiais e, embora não haja um aprofundamento nos personagens periféricos, a presença e as poucas falas que eles possuem, dão o ar (embora leve) de distrito policial e somando isso ainda as cenas de ação, que são legais, embora que muitas sejam bem escuras, posso dizer que o filme se sustenta sozinho ( se bem que as vezes se segurando na parede), podendo ser visto como um filme mediano, esses que passam na TV aberta e ser assistido tranquilamente por quem viu ou não os animes, pois diverte bastante para quem quer apenas desligar a mente e ver um bom filme de ação.


terça-feira, 11 de abril de 2017

HUMANS (2015/2016) A série


Se o ano de 2016 trouxe algo de bom no meio de tanta tragédia, foi um novo foco às produções de ficção científica. Com a apresentação da terceira temporada de "Black Mirror" e a estréia de "West World" encabeçando o seguimento, o Sci-fi conquistou mais e mais fãs dia após dia nesse último ano; Porém, o término das temporadas dessas duas séries, deixou um vazio na vida de quem vinha se acostumando aos conceitos e surpresas apresentados por elas. No entanto, longe dos grupos de debates sobre as teorias que envolvem essas séries tão cultuadas, existem outras obras, de qualidade semelhante, mas bem menos vistas, que podem agradar e surpreender muita gente, além de ocupar aquele espaço vago que as histórias contadas por Charlie Brooker e Jonathan Nolan deixaram no inicio desse ano.

Uma dessas obras, que me prendeu no sofá, sem piscar durante os dezesseis episódios das suas duas temporadas, me fazendo sair por aí a indicando aos quatro ventos logo depois, foi uma série inglesa que, tal qual as duas séries citadas acima, também fala sobre tecnologia e tomada de consciência pelas máquinas, mas conseguindo ir muito além, ao abordar as consequências na sociedade ao ocorrer o surgimento dessas consciências e, de quebra, fazer um paralelo com diversas situações enfrentadas no mundo atual. Trata-se de "Humans", série inglesa criada por Sam Vincent e Jonathan Brackley, exibida pela Channel 4 e AMC, baseada na série Sueca "Real Humans", que parece que ninguém assiste, mas que merece e DEVE ser vista por todo mundo já.



"Humans" se passa em uma realidade paralela, onde a utilização de androides (sintéticos) para serviços domésticos e de ajuda pessoal, se tornou usual. Nesse universo encontramos Joe, um pai de três filhos que se vê perdido entre as tarefas de casa e do emprego, quando sua esposa Laura se ausenta a trabalho. Pressionado pelas tarefas, Joe decide comprar um sintético para ajuda-lo a organizar sua vida enquanto a esposa não retorna, o que ele não sabe é que a sintética batizada de Anitta por sua filha mais nova, se chama na verdade Mia e pertence a um pequeno grupo de androides que poderão revolucionar o mundo, por serem as primeiras máquinas conscientes e que, tanto Joe, quanto sua família, irão testemunhar da primeira fila todas as transformações que a revelação da existência de maquinas pensantes causará na sociedade.

OK!! Minha sinopse não ajuda a cativar ninguém a ver a série, mas se eu posso me desculpar pela falta de inspiração ao descrever o contexto da série, é dizendo que nem se eu escrevesse um post inteiro falando apenas do que se trata "Humans" eu conseguiria falar sobre tudo que a série questiona e aborda, então o mais interessante, acredito, será eu falar sobre todos os pormenores que chamaram a atenção dentro da história.



Para começar, a trama traz uma questão que vem se tornando cada vez mais presente nas produções cinematográficas, que é a singularidade, aquele momento em que as máquinas tomarão consciência de que são indivíduos ou entidades, com pontos de vista, ideias e personalidade, fato que é destaque não só em "Westworld", mas no ótimo "Ex-machina", entre diversas outras produções, mas na história de "Humans" , não é o ponto alto da trama, mas sim o ponto de partida para toda a discussão que surge na série. Assim, em um mundo onde os androides estão presentes em todo lugar, mas são tratados como coisas, o surgimento de alguns que pensem, questionem e ajam como humanos, traz a dúvida de se o fato os torna humanos? Se eles devem ter direitos e deveres como tais? Quem fala por eles e quais os limites que esses sintéticos devem ter? Essas são algumas de muitas as perguntas que a trama já nos traz de início e que norteiam a história em meio a uma enxurrada de acontecimentos e diversos personagens interessantes.

Quanto aos personagens, a produção consegue entregar indivíduos que são a representação de todo tipo de personalidade e a faceta de um argumento em si, e não só isso, como apresentar um elenco diverso e bem explorado, que consegue mostrar desde os traços étnicos dos androides a revolução que eles representam. Essa diversidade étnica que aparece nos sintéticos conscientes do inicio da série (onde temos uma asiática, dois negros e uma loira), parece, além de sinalizar a ideia de diversidade humana, traçar um paralelo mesmo com a questão dos imigrantes ao colocar como personagens centrais da discussão, atores com traços não tão comuns dentro das produções clássicas inglesas, essa fato ainda é reforçado, quando somos apresentados aos problemas sociais decorrentes da utilização desses androides, como a substituição de pessoas por máquinas em postos de trabalho, não só pela sua melhor eficiência, mas como pelo seu menor custo, o que cria grupos de resistência que se intitulam "humanos de verdade" e buscam a reversão do status social daquele universo, não muito diferente dos grupos que apontam para a entrada de pessoas não nascidas em determinados centros, como o fator responsável por todos problemas sociais existentes em uma localidade.

Esse problema social criado pela existência dos sintéticos nesse universo, vai além da tomada dos empregos. A própria evolução dessas máquinas, causa temor aos jovens, que se frustram ao perceberem que pode não haver expectativa de um futuro bem sucedido dentro de qualquer área de interesse, ao perceberem que em alguns anos, os androides estarão tão aperfeiçoados, que poderão efetuar qualquer função e com um desempenho maior do que qualquer humano; somando-se a esse problema do primeiro arco, a segunda temporada ainda nos apresenta um grupo de adolescentes que, em resposta a frustração dos outros, se veste e age como os sintéticos, pois perceberam a vantagem que as máquinas tem ao não se frustrarem, sentirem medo, não precisarem tomar decisões sozinhas ou se questionarem; de encontro a isso, temos as máquinas conscientes buscando desfrutarem seus direitos de "pessoas", assim como seus deveres e até mesmo pensando em suicídio frente ao amargo de uma vida social com decisões e dúvidas; tais questões surgem em seguidos debates que tornam "Humans" ainda mais complexa e reflexiva do que a grande maioria das séries atuais.

Complementando esses problemas sociais mais amplos, "Humans" aborda questões ainda mais pessoais, como o caso da utilização dos sintéticos para satisfação sexual, o que nos é apresentado como algo aceitável, ao nos mostrar os androides como máquinas, mas que nos faz questionar se aquilo tudo é correto quando nos faz ver toda situação de humilhação através dos olhos de duas personagens sintéticas obrigadas a desempenhar esse papel, mesmo tendo consciência e ego idênticos aos dos humanos. Em resposta a isso, temos humanos que são trocados por androides, pelo fato desses últimos serem programados para satisfazerem todos seus desejos e dar a eles toda atenção possível sem distrações.

Além de tudo, a série ainda traz muitas referências a filosofia e aos clássicos de ficção científica, além de menção aos grandes autores do gênero Sci-fi, como quando é falado que o suposto assassinato executado por um sintético, fere as leis Asimov, sem contar que toda linha que a produção segue, remete ao questionamento que foi, em parte, base para a criação de todo universo de Philip K. Dick, de que se algo pensa e age como um humano, é humano? O que nos torna humanos? Em uma adaptação mais simples do "penso, logo existo" de Descartes, que, a propósito, aparece em um poster ao fundo na série, e não apenas uma vez.

Mas nem tudo é exatamente perfeito na série e algumas coisas me desagradaram. A principal, foi a substituição do antagonista da primeira temporada, que surge na segunda apenas para vender seus segredos ao novo "vilão", e desaparece, como se todas as situações que o levaram até ali, e as quais eram de seu interesse pessoal, simplesmente tivessem deixado de ser importantes para ele e isso eu achei uma grande falha de constância no roteiro. A segunda coisa é o desaparecimento de alguns personagens e o sub-aproveitamento de outros, como no caso do androide Fred ( um dos sintéticos conscientes originais), que mal aparece na primeira temporada e some na segunda e o sintético ultrapassado Odi, que tem todo um potencial e razão para estar dentro de um arco na primeira temporada, nos faz questionar muitas coisas na segunda e deixa a série (aparentemente) sem nos apresentar as respostas e ações que poderia dar. Essas duas questões me incomodaram, mas como nada na vida é perfeito, seguimos aproveitando o que há de bom e deixando de lado o que fica mal explicado.

Apesar de um detalhe ou outro, "Humans" ficou marcado para mim, como o grande achado do início desse ano (mesmo a série ter estreado em 2015). Sua trama complexa e os paralelos que podemos traçar através de sua história, são um elemento poderoso e que nos leva a reflexão, não só ao pensar em uma sociedade como a mostrada na trama de Sam Vincent e Jonathan Brackley, como nas situações presentes em nosso cotidiano. Serve para, além de saciar a saudade de séries mais prestigiadas, enriquecer quem é fã de ficção científica de conceitos e questionamentos, nem sempre bem abordados nessas outras séries. Espero que todos assistam e se divirtam bastante, enquanto a mim, fico na torcida que a terceira temporada chegue logo, fica a dica.





segunda-feira, 3 de abril de 2017

UMA HISTÓRIA DE AMOR REAL E SUPERTRISTE - de Gary Shteyngart


Estamos vivendo tempos estranhos. Dias de verdades alternativas e ignorância histórica, onde a promessa da construção de muros que dividirão os escolhidos dos condenados é aplaudida de pé por grande parte da população, onde quem se impõem através de uma propaganda violenta é chamado de "mito" e o diferente se tornou errado e inimigo, e, isso tudo acontece enquanto as pessoas estão absortas em seus celulares e compartilhando suas vidas através de redes sociais, ignorando o rumo do mundo e os perigos do que podem estar por vir. Estamos a um passo de uma distopia e em dias como estes, obras que conversem com o momento da sociedade e nos apresentem uma ideia de onde o próximo passo pode nos levar são de extrema importância.

Foi buscando uma obra que espelhasse o que vivemos, que me deparei com um livro muito pouco comentado, mas que me ganhou desde suas primeiras linhas, me apresentando um universo distópico tão real e assustador quanto fantástico. Estou falando de "Uma história de amor real e supertriste" de Gary Shteyngart, publicada no Brasil pela editora Rocco, que além de reafirmar minha paixão por distopias, me passou a ideia de que o futuro de uma sociedade consumista e vaidosa, pode ser ainda mais amargo e vazio do que imaginamos.


Capa da Edição da Rocco
"Uma história de amor real e supertriste" se passa em um futuro próximo, onde os EUA estão vivendo os piores de seus dias, vítimas de uma crise econômica e política que foi intensificada com um fracasso militar na Venezuela, o que colocou o país em um cenário de caos, postes de crédito ornamentam as ruas, registrando os dados dos "Apparats" (equipamentos que todos possuem e que servem para mandar mensagens, como identificação e acesso a dados pessoais) e em que pessoas de baixo patrimônio ficam a mercê do estado e veteranos de guerra não recebem suas pensões, sendo obrigados a ocupar o Central park na procura de abrigo, manifestações eclodem em toda parte e são contidas com violência pelo exército de segurança nacional, o braço armado do partido "bi-partidário", a última lembrança dos tempos de democracia, a economia é baseada na moeda chinesa, que comanda o FMI e as grande empresas são todas fatias de enormes conglomerados financeiros.
Nesse mundo, que parece mais crível do que distante, encontramos Lenny Abramov, um novaiorquino de 39 anos, filho único de imigrantes russos, possível último fã de literatura e escritor de um diário, que trabalha para uma multinacional na divisão de serviços Pós-humanos, oferecendo imortalidade a pessoas de alto nível social e financeiro. A procura de clientes ele á mandado para Itália, onde acaba conhecendo Eunice Park, uma vaidosa e orgulhosa jovem, descendente de Coreanos por quem se apaixona perdidamente. No entanto, com o fracasso em convencer os ricos europeus em participar dos projetos de seu empregador, Lenny se vê obrigado a retornar a Nova York e a realidade de seu país, mas sem esquecer Eunice, a convida para vir morar com ele, resta agora ao pertenço casal, tentar se entender e adaptar-se, não só ao mundo em sua volta que desmorona frente a violência e ignorância, mas um ao outro, tão diferentes pela origem, idade e pontos de vista.



Como disse acima, o livro me ganhou em suas primeiras páginas, sei que é suspeito vindo de uma pessoa que se confessa fã de ficção científica e distopias sempre que tem oportunidade, mas o fato é que "Uma história de amor real e supertriste" mexeu comigo por apresentar um cenário assustador, personagens profundos e com motivações bem claras e conseguir dar atenção tanto ao mundo catastrófico que serve de palco para a história, quanto nos passar a evolução desses mesmos personagens no decorrer da leitura, seguindo a cartilha da boa ficção científica que está além da apresentação de tecnologias ou especulação de um futuro, mas na apresentação do impacto que todas as mudanças que podem ocorrer no mundo, podem causar na vida das pessoas e isso, esse livro faz com qualidade.

Um fator que achei importante no livro, e que conecta ainda mais o leitor a história, é o fato desta ser escrita em primeira pessoa, apresentando os pontos de vista do casal em capítulos que se alternam entre o diário de Lenny, que escreve para desabafar e se planejar, e, as mensagens de Eunice no "Globalteens" a rede social da época, que teima em dar dicas sobre como agradar os garotos e frisar que fotos e vídeos são mais interessantes do que textos. Esse clima íntimo nos coloca como cúmplices de seus pecados e frustrações, revelando também o choque de gerações que existe entre ambos, ele mais velho quase quinze anos, barrigudo e ficando careca, totalmente fora dos padrões de beleza e estilo vigentes em uma sociedade toda voltada para os jovens e seus hábitos fitness, e ela, o retrato de sua geração, extremamente magra, irônica e consumista, não desgrudando de seu "Apparat", por onde faz compras, conversa com amigos e família, faz "Streams" e ranquei as pessoas que a cercam por seus níveis de beleza, sensualidade e "fodabilidade", mas ambos demonstrando, através de seus depoimentos, o peso de se viver em uma sociedade vazia de valores e voltada para a aparência.

Essa mesma sociedade, que serve como pano de fundo da história de amor de Lenny e Eunice, é a parte mais fantástica do livro. O vazio e amargo futuro imaginado por Shteyngart, consegue ser original, extremamente real e ao mesmo tempo homenagear os clássicos sem os imitar, nos entregando uma sociedade que é um amalgama das duas distopias mais famosas de todos os tempos, "1984" e "Admirável mundo novo", com o tempero ácido dos dias de hoje, onde temos tanques nas ruas, violência do estado, pessoas vistas como descartáveis, ao mesmo tempo em que a sociedade é alienadas em seu mundo de prazer virtual, ignorando a cultura mais crítica e em especial a literatura (chegando a dizer que livros fedem e que é preferível que não se tenha contato) e o sexo é algo tão banalizado que a protagonista chega a fazer menção a uma amiga sobre uma atriz pornô que elas assistiam quando estavam no jardim de infância!! Uma mistura pontual entre repressão violenta e descaso total presentes separadamente nos dois clássicos, fatos que são somados à dependência pelas mídias sociais e tecnologias, tão presente em nosso cotidiano e que no livro é personifica no onipresente Apparat, o elemento que desempenha um papel de destaque por pautar o estilo de vida das pessoas e as ranqueando dentro da sociedade.

Gary Shteyngart
Esse "Aparat", que representa a evolução da forma atual de nossa própria sociedade interagir, parece demonstrar a qualidade e impacto da história contada pelo autor dentro da própria cultura pop, ao lembrar bastante o modo de utilização do aparelho visto no primeiro episódio da terceira temporada da aclamada série "BlackMirror", onde temos uma sociedade tão vaidosa e vazia como a presente no livro de Gary Shteyngar, que embora não sofra dos mesmos problemas sociais (pelo menos, não dentro do arco que o episódio mostra) também é toda baseada na ideia que o próximo tem de cada um e no ranking de seus cidadãos para o crescimento social.

Somado ao onipresente Apparat, Shteyngart ainda imagina uma divisão empresarial que entrega aos poucos cidadãos de alto nível financeiro a possibilidade de viver para sempre, através da utilização de nano robôs, dentre outras coisas, que manipulam a saúde dos clientes da "Wapachung", empresa de Joshie Goldmann, patrão de Lenny e que por principio age de encontro a toda situação em que se encontra a grande maioria da população, que luta para sobreviver, em um mundo onde a escassez é a lei e quem não possui dinheiro tem de se esconder dos postes de crédito para não correr o risco de ser deportado ou mesmo morto, frisando assim o egocentrismo e falta de empatia presente naquele mundo.


Os motivos para se ler "Uma história de amor real e supertriste " são muitos; sua narrativa cúmplice, seu universo deprimente e extremamente real e seus personagens bem explorados, tudo parece colaborar para que a obra de Gary Shteyngar seja muito mais do só mais um livro na estante, mas como eu disse no inicio, o que me fez encontrar esse livro é o fato de que ele reflete com intensidade o momento atual de nosso mundo e isso o torna extremamente relevante para todos, que assim como eu, enxergam nuvens negras se aproximando no horizonte.