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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

GALVESTON - O livro de Nic Pizzolatto


Conheci o trabalho e Nic Pizzolatto com a primeira temporada da série "True Detective" e assim como quase todo mundo fiquei impressionado. A produção da HBO trazia, além de um grande elenco, um roteiro interessante e com personagens de extrema profundidade e carisma, o que me fez procurar mais sobre o trabalho do criador daquele universo, que conseguiu misturar com sucesso o clima Noir com o dos weird tales.

No entanto, não encontrei nenhum trabalho de Pizzolatto publicado no Brasil logo após o termino da temporada estrelada por Mattwel McConaughey e Woody Harrelson então segui na expectativa pela temporada seguinte, que contaria uma história diferente e com novos personagens e me satisfiz lendo o livro que inspirou o roteirista a flertar com o místico e o estranho junto a suas histórias de detetive, o clássico "O rei de Amarelo" de de Robert W. Chambers .

Então Junho de 2015 chegou e a segunda temporada de "True Detective" estreou. No entanto, a nova temporada, embora também tivesse um grande elenco, não possuía o mesmo carisma e fracassou em tentar repetir o sucesso da primeira, mas sua estreia serviu como publicidade para que a editora intrínseca lançasse em nosso país um livro de Pizzolatto, que nos entregaria um pouco mais sobre aquele mundo corrupto e cínico, em que transitam em ruas escuras detetives e gângster e, onde a linha que separa o bem do mal é mais fina do que um fio de cabelo, foi assim que chegou em minhas mãos " Galveston".

"Galveston" conta a história de Roy Cady, um assassino da máfia de Nova Orleans, que, após descobrir que está com câncer e depois que seu chefe se torna amante de sua namorada, é vítima de uma armadilha armada por seus próprios companheiros, de onde escapa muito mais devido a seu sangue frio do que pela sua sorte. Na fuga , ele conhece Rocky, uma jovem prostituta e com ela resolve fugir para a cidade de Galveston, um lugar de boas lembranças do passado, onde ele pretende passar seus últimos dias aproveitando o mar e sendo tudo o que não foi, ignorando que o passado ainda o espreita e o seguirá aonde for.

O livro começou me empolgando. Em seus primeiros capítulos ele lembra um pouco a tensão e clima presentes na obra de James Ellroy, "Los Ageles - cidade proibida", onde os homens são violentos e frios e, as mulheres sexys e manipuladoras, a narrativa é rápida e expressa em frases e parágrafos curtos, nos arremessando para dentro da história sem explicação prévia, nos fazendo agarrar à visão do protagonista para aos poucos vislumbrarmos o que está acontecendo naquele mundo que estamos adentrando de maneira tão brusca e isso é bem bacana. Somado a esse clima, temos ainda a descrição de cenas cruas de ação e violência, que te fazem franzir as sobrancelhas e trincar os dentes, principalmente quando o autor detalha as torturas praticadas pelo submundo.



Mas apesar desse início empolgante, o livro se perde em si. Tal qual a segunda temporada da série roteirizada por Pizzolatto, da segunda parte do livro até o final , a história parece entrar em um looping que não leva a nada a não ser destruir todo o clima criado por suas primeiras páginas. O próprio protagonista, que no início é mostrado como um cara durão, que beira ao niilismo, aos poucos vai amolecendo, chegando a constranger o leitor com um capítulo de auto-piedade onde vai procurar uma ex-namorada para tentar relembrar seus bons momentos, mas conseguindo apenas páginas e mais páginas de desprezo e conversa mole que não representam nada para a trama. Por falar em trama, a partir da segunda metade do livro é que percebemos que o autor não possuía uma trama para nos apresentar, apenas uma ideia e a caracterização de alguns personagens bem parecidos com os que ele apresentou na TV, são páginas e mais páginas ambientadas em hotéis na beira de estradas, com seus hospedes solitários e marginais, que pouco, ou nada contribuem no crescimento do protagonista ou da história e que se, pelo menos, fossem alvos de uma chacina , faria sentido com a ideia inicial que parecia surgir nas primeiras páginas, de um thriller de ação e perseguição maquiado de roadtrip, mas que ao invés disso, ao final, lembra mais o roteiro de uma novela da Glória Perez só que (por incrível que pareça) mais açucarado.

"Galveston" foi uma decepção! Um livro que tenta flertar com o submundo, mas tropeça em seus personagens fracos e trama rasa, não consegue manter um ritmo ou apresentar motivos para que nos importemos com os problemas de seus personagens, chegando a nos fazer questionar por que o câncer do protagonista é tão lento. Traz todos os defeitos de roteiro que fizeram a série escrita por Nic Pizzolato ser cancelada da grade da HBO, após a decepção da segunda temporada, sem trazer as qualidades presentes no sucesso da primeira e levam o leitor do nada a lugar nenhum em chatas 235 páginas, surpreendendo quem descobre, assim como eu, que os direitos do livro já foram comprados e que o mesmo deve virar filme muito em breve, para azar da sétima arte, que parece estar com um câncer em sua criatividade e sorte de Pizzolatto que deve lucrar alguns milhõezinhos por mais um roteiro ruim e essa história sim é digna de um Weird Tale.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

EU SOU A LENDA ( o livro de Richard Matheson)

Se eu falar sobre "Eu sou a lenda", nove em cada dez pessoas se lembrará do filme de 2007 protagonizado pelo Will Smith, onde um cientista se encontra sozinho em Nova York, logo após um vírus misterioso transformar a população mundial em uma espécie de zumbis noturnos muito malfeitos por CGI. No entanto, o que quase ninguém sabe é que o terrível roteiro do filme "Eu sou a lenda" foi baseado em um clássico livro da ficção científica de terror (se é que esse gênero existe) de mesmo nome, escrito em 1954, por Richard Matheson e que marcou a cultura pop, influenciando cinema e literatura desde então e que tive o prazer de ler recentemente.

O livro conta a história de Robert Neville, um cara comum, morador do subúrbio de uma grande cidade e trabalhador da indústria, que se vê sendo o último humano do planeta logo após uma misteriosa doença transformar o restante da pessoas em vampiros (SIM!VAMPIROS!). Neville passa então a seguir uma solitária rotina para sobreviver, se abrigando em sua casa protegida com alho e símbolos religiosos a noite, onde estuda o que pode ter levado a sociedade à destruição e, buscando mantimentos e caçando as criaturas sanguinárias durante o dia; vendo crescer suas desesperança e tendo como companhia apenas seus pensamentos e suas garrafas de Whisky.

Como já mencionado, o livro é um clássico da ficção científica e trouxe conceitos que nortearam muitas das grandes obra de terror e suspense da cultura pop, como por exemplo o filme "A noite dos mortos vivos", de 1968 dirigido por George Romero e que deu origem ao estilo "Apocalipse Zumbi", onde um grupo de pessoas se refugia em um lugar e busca alternativas para sobreviver.

O livro também é bem convidativo, por ser curto e divertido, com linguagem de fácil compreensão e trama que não se expande para outros núcleos e conflitos (até porque Neville é o último humano), esses fatos colocam a obra como uma possível porta para a literatura para quem quer começar a ler, ou para quem quer ter uma experiência de leitura que seja legal, porém não muito complexa.

A forma como a história é contada é um grande ponto positivo. Se assemelhando com um roteiro cinematográfico e narrado em terceira pessoa, o livro é ágil e direto, jogando o leitor em um mundo onde quase nada é explicado, onde nos vemos acompanhando a vida solitária do protagonista, com ele executando tarefas de seu cotidiano durante o dia, sem sabermos o que a noite nos reserva. Apenas a situação presente de Neville importa e o pouco que vamos saber de seu passado nos são revelados através de pequenos flash backs que dão dicas do que ocorreu com sua família, sobre uma mal citada guerra ocorrida, sobre sua vida antes da epidemia e suas experiências sobre o vampirismo em seu tempo extremamente livre.



A parte mais bacana do livro são seus questionamentos sobre a natureza dos vampiros e as experiências executadas por Neville na busca de respostas. Com tempo sobrando e procurando encontrar uma possível cura, ou no mínimo uma explicação sobre o que aconteceu, o protagonista passa a testar de forma prática todas armas lendárias contra seus antagonistas. Assim sendo, ele descobre que o vampirismo é uma doença espalhada por um germe e que esse mesmo germe faz dos vampiros alérgicos a alho e que o melhor jeito de mante-los longe é enchendo a casa desse vegetal; descobre que uma estaca perfurando o coração faz com que o sistema criado por esse germe se destrua e que o corpo da criatura se desfaça, que a luz do sol destrói o germe e o hospedeiro e, que os símbolos religiosos afugentam as criaturas, pelo fato de uma pequena parte de seu consciente permanecer funcionando e lembrar que esses símbolos DEVERIAM machucar os vampiros, sendo assim uma cruz, afugenta um vampiro que era cristão, uma torá um que era Judeu e assim por diante.

Todos os conceitos e questionamentos, intercalados por flash backs e caçadas, ainda são complementados por um clima de extrema solidão que faz o protagonista viver as portas da loucura. A cada página que vamos vendo o tempo seguir, sem que Robert Neville encontre algo que lhe dê esperança, o vemos indo de um extremo a outro de sanidade, com momentos de foco total, onde pesquisa a doença que destruiu a raça humana e situações de loucura, onde fala consigo mesmo e se repreende como se fosse uma outra pessoa e pensa em suicídio, esses momentos são amenizados com a descoberta de um outro sobrevivente, um cão, que aparece misteriosamente na porta de Robert, lhe trazendo esperança por uma pequena parte do livro e assim nos mostrando a que nível de solidão o personagem se encontra. Essa solidão também pode ser percebida na atenção especial que Neville dá a seu ex-vizinho agora vampirizado, Ben Cortman, que é uma das poucas lembranças de sua antiga vida e que ele poupa de matar por ser quem pronuncia a única frase que o identifica como pessoa, gritando toda a noite "Saia de casa, Neville", na esperança de sugar o sangue de seu ex-amigo.

O Livro, que foi escrito em 1954, foi um sucesso. Rapidamente seus direitos foram adquiridos e ele se tornou filme ainda na década de 1950, tendo uma nova versão em 1971, protagonizada por Chralton Reston (planeta dos macacos), sob o nome de "Omega man" ( no Brasil: "A última esperança da terra) e fechando com aversão de 2007, protagonizada pelo maluco no pedaço. Não assisti as duas primeiras versões, mas, como dito antes, é impossível não comprar a história do livro com a do filme, e fazer isso é muito simples, basta dizer: "O livro não tem absolutamente nada a ver com o filme de 2007!". No livro Robert Neville é um industrial morador do subúrbio que nem imagina como tudo chegou ao ponto que está e nem porque apenas ele é imune, já no filme ele é um cientista de alta relevância no exército e tem participação na busca pela cura; No livro, sua mulher e filha morrem em decorrência da epidemia, enquanto no filme elas morrem em um acidente de helicóptero; no livro, Neville passa um bom tempo tentando conquistar a confiança de outro sobrevivente, um cão, que acaba morrendo de uma hora para outra, já no filme ele tem uma fiel cadela de estimação que trata como filha; No livro ele é loiro e passa as noites ouvindo música clássica e bebendo Whisky, no filme ele só ouve Bob Marley e faz exercícios; No livro há a aparição de outro sobrevivente no final, uma mulher, que é determinante para o encerramento da trama; no filme temos a Alice Braga e um gurizinho, que só vem par encher linguiça e conseguirem o que o protagonista não conseguiu, contato com mais humanos e, por fim, o livro explica por que a história se chama "Eu sou a lenda" (ou eu sou lenda, como seria o correto e o autor queria) , já no filme nada remete a uma resposta.


"Eu sou a lenda" é um bom livro. Direto e limpo, de narrativa ágil e divertida, que até hoje consegue trazer um ar de inovação, mesmo depois de ter sido vampirizado por todo escritor de apocalipse zumbi. Em míseras 150 páginas, consegue abordar questões como solidão e sanidade disfarçando a história em um conto de terror e, de quebra, busca responder aquelas perguntas que nos fazemos após umas três ou oito cervejas, de como um vampiro muçulmano reage a ver um cruz e etc, o que torna a leitura ainda mais divertida. Minha dica é que esse livro deve ser lido por todo amante de ficção científica, terror ou fantasia, pois é uma marco do gênero e exemplo de criatividade. Só digo para se apressarem , pois existem rumores de um vírus que anda transformando as pessoas em vampiros ou zumbis de CGI e antes dessa doença chegar por aqui o melhor é estar informado, ou adotar um cachorro.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

TROPAS ESTELARES (de Robert A. Heinlein)

Um arrepio percorreu meu corpo e um sorriso surgiu no meu rosto, permanecendo ali por longos minutos enquanto eu olhava fixamente para a capa do livro. Essa frase, que poderia ser o final de um poema ruim, descreve o que senti ao terminar de ler "Tropas Estelares", o clássico livro de Robert A. Heinlein, que graças a editora Aleph, agora enfeita a minha estante em lugar de destaque.

O livro se passa em um futuro não datado porém distante, onde a raça humana superou suas diferenças e passou a colonizar outros planetas, se unindo em uma federação altamente militarizada, onde apenas quem cumpre o serviço militar torna-se um cidadão, podendo assim exercer seu direito a voto e participar da vida política. É nesse ambiente que conhecemos Juan "Johnny" Rico, que após completar dezoito anos, por influência de seu melhor amigo e orgulho frente a seu interesse romântico, decide se alistar no serviço militar e por não ter nenhum talento especial é designado para a infantaria móvel. Durante seu tempo de serviço, a federação "terrana" entra em guerra contra uma raça alienígena conhecida como insetos e esse evento mudará para sempre o destino e ideias do protagonista ao lhe mostrar os horrores da guerra e o valor de seus companheiros de armas.

Como fã de ficção científica, quis ler "Tropas estelares" desde quando era criança, após descobrir que o filme (ruim) de Paul Verhoeven era baseado em um livro e, meu desejo só cresceu com o tempo ao descobrir da influência da obra e do autor, tanto na literatura, quanto no cinema. E não é pra menos, o cara é gênio! Consegue prender a atenção do leitor do início ao fim e transformar em interessante até mesmo a listagem da hierarquia da infantaria móvel, ou como são divididas as tropas durante a guerra e sua forma de transporte.
O livro já começa nos colocando no front de batalha, de uma forma tão ágil e vertiginosa, que dá a sensação que somos soldados inexperientes acompanhando veteranos. Esse simples truque narrativo, de mostrar a ação, para depois contar como se chegou até aquele momento, fato que a industria de cinema utiliza em muitos casos (inclusive no próprio filme baseado no livro), me pegou na hora e em menos de cinco páginas já estava fisgado pela história. O fato dele ser narrado em primeira pessoa, foi outra coisa que colaborou para o livro me agradar desde o inicio, pois deu uma ar de intimidade, de desabafo a história contada. Somos assim todos confidentes das dúvidas, frustrações, medos e expectativas de Juan Rico e vamos aprendendo e crescendo na trama junto com ele.

Ainda sobre a narrativa, temos que destacar que a história do protagonista tem muito da jornada do herói (https://pt.wikipedia.org/wiki/Monomito) mas isso não diminui em nada o gênio do autor, muito pelo contrário, mas podemos resumir a trama da seguinte forma, usando os passos do monomito: Rico começa o livro com sua vida civil (mundo comum), seguindo com a chamada para a aventura feita por seu amigo Carl; onde ele pensa em recusar e seguir a vida de seu pai, mas acaba se alistando para impressionar a "pequena Carmen"; encontra seu mentor primeiramente no professor Dubois e depois no sargento Zim; sofre provações e testes no acampamento Currier; sobrevive a batalha de klendathu; Vê sua tropa se abalar quando o tenente morre, é recompensado por seus esforços quando resolve se inscrever na escola de formação de oficiais, Volta para um teste em campo, onde tem êxito, porém sofre um acidente onde quase morre, mas essa experiência o aprova como oficial e proporciona a ele levar a sabedoria a seus companheiros.

Armadura da animação de 2012
Embora a história contenha a estrutura do monomito, o universo criado por Heinlein e seus conceitos científicos e sociais, são o que mais chamam atenção. As aulas de história e filosofia da moral, que são relembradas pelo protagonista sempre que este se depara com uma situação de conflito pessoal ou é exposto a questões mais profundas, foram para mim o grande ponto profundo do livro; ali se encontram o conteúdo onde a sociedade apresentada se baseia e isso é muito interessante, principalmente porque os debates levantados pelo professor Dubois são extremamente atuais, quando paramos para pensar que o livro foi escrito em 1959. Nesses debates, Rico e seus colegas vão analisando escolhas e princípios da sociedade através do período histórico e assim vamos descobrindo com base em quais visões, aquela sociedade se moldou, então temos a ideia da "violência controlada para alcançar um objetivo", onde é exposto que se o inimigo não pode revidar, o problema está solucionado, somos apresentados a argumentos sobre direito e dever que nos remetem a sociedade atual e também a ideia de castigo físico como corretivo e base da educação, esse último argumento tão bem debatido, que li o capítulo duas vezes e terminei convencido que o professor Dubois não está tão errado (a Xuxa que não me ouça).

Em complemento as questões sociais, Heinlein ainda apresenta alguns conceitos científicos bem bacanas desse futuro e que dão uma ideia mais ampla da sociedade onde a história se passa. Um exemplo desses conceitos são as armas da infantaria móvel, o autor utiliza um capítulo inteiro para descrever como é e funciona a armadura utilizada pelos soldados, indicando com riqueza de detalhes como a tecnologia supriu as necessidades humanas nas batalhas em outros planetas, sem dizer que ele ainda cita a aceleração Cherenkov, como explicação para como a marinha espacial atravessa as grandes distâncias de uma estrela a outra; além disso, Heinlein ainda fala de manipulação genética com a apresentação do grupo K-9, que utilizam duplas de homens e "neo-cães" (uma especie de cão inteligente falante) que é totalmente ligado e dependente de seu parceiro. Durante o livro também somos a presentados a supostas evoluções humanas, na misteriosa menção a "homens sorte", "telepatas" e ao final, na misteriosa presença de um sensitivo, fatos que tornam o universo do livro tão amplo, que parece impossível perceber todos seus detalhes apenas com uma leitura.

Deu Bug
Além de todas as questões abordadas em relação a sociedade, conceitos científicos interessantes e debates instigantes, o livro ainda conta com cenas de ação e batalhas muito empolgantes. Como citei anteriormente, o livro começa nos mergulhando em um conflito, sem explicar quase nada, apenas mostrando como as coisas acontecem em uma batalha naquele universo; conforme vamos lendo o livro e outras batalhas vão sendo descritas, vamos crescendo em experiência juntamente com o protagonista e nos tornando disciplinados na forma de operação da infantaria móvel. Porém, o autor não tenta glamorizar a situação e descreve as consequências da guerra com o mesmo talento utilizado para sustentar a opinião dos professores nas aulas de História e filosofia da moral, de forma direta e crua e assim temos cabeças se soltando do corpo, cães inteligentes que se matam por medo e cidades argentinas esmagadas por alienígenas inimigos, mostrando que a guerra, seja no futuro ou nos dias de hoje, não é algo bonito e celebrável. Além de tudo, o autor ainda consegue diminuir a tenção dos horrores das experiencia de guerra do protagonista utilizando de um senso de humor sutil, abordando muitas dos problemas, principalmente os citados nos treinamento com ironia e até deboche pontual, nos fornecendo momentos de escape que nos transmitem empatia e dão ares de realidade meio a uma história de ficção futurista.

arte clássica
Durante a leitura, a obra ainda me proporcionou uma grande surpresa. Ao postar no twitter que devido ao discurso que falava de mérito e dever em preferência a ideia de direito e oportunidade, eu enxergava os pensamentos do autor como sendo um contraponto as ideias dos personagens de Philip K. Dick, que , no meu entender, sempre criticou a sociedade através de personagens marginalizados e que viviam angustiados buscando seu espaço em uma sociedade que os oprimia. Para minha surpresa, o tradutor de "tropas estelares", Carlos Angelo, respondeu meu questionamento e , através de um discurso tão convincente quanto do professor Dubois, me mostrou que na verdade os personagens de Heinlein tinham tantos dilemas sociais quanto os de Dick, sendo o próprio autor de "O homem do castelo alto" influenciado pela obra e pensamento de Heinlein (não importando a visão política dos dois). Angelo ainda me fez a gentileza de indicar alguns livros para complementar essa visão sobre a obra do autor (que com certeza lerei em breve) e tivemos uma conversa bem bacana sobre o universo do autor (dentro do que 140 carácteres nos permitiram).

O que mais eu poderia falar sobre esse livro, a não ser que ele é uma das melhores obras do gênero que já li?! É um livro escrita com primor e genialidade, misturando com competência ação, debates filosóficos e até crítica social; consegue ser divertido e profundo sem parecer forçado e plantou em mim a vontade de ler tudo que Heinlein escreveu (tanto que já reservei "Um estranho numa terra estranha" para próxima semana). Posso definir minha experiência de leitura dizendo que uma das melhores sensações do mundo é quando desejamos muito uma coisa e quando a temos, ela supera todas nossas expectativas e, foi exatamente isso que senti quando terminei as 364 páginas desse clássico. Tropas estelares é um livro fantástico, cheio de ação e questionamentos que vão te fazer querer reler o livro assim que terminá-lo, um clássico obrigatório para quem é fã de ficção científica e uma possível porta para a literatura para quem quer começar a ler, me apresentou a genialidade de Robert. A Heinlein, autor que pretendo ler toda obra e indicar para todos meus amigos, para honra e glória da infantaria.


quinta-feira, 16 de junho de 2016

PERDIDO EM MARTE - O livro

Quem me conhece sabe o quanto sou fã de ficção científica. Gosto do estilo, em parte, pelo escapismo que ele me trás quando leio, fugir do cotidiano em uma história que me apresenta um universo que se diferencia do nosso me ajuda a relaxar e exercitar a imaginação; por outro lado, o modo como alguns autores conseguem pensar fora da caixa , questionando nossa sociedade e resolvendo problemas imaginativos é o que me fascina nesse tipo de literatura. E,nesse segundo quesito, poucos livros foram uma surpresa tão bacana como "Perdido em Marte" de Andy Weir, que li recentemente.

"Perdido em Marte", conta a história de Mark Watney, décima sétima pessoa a pisar no planeta vermelho e sexto em hierarquia da tripulação de seis pessoas da Ares-3, formado em Botânica e Engenharia, suas funções na expedição consistiam em coletar amostras de solo e efetuar reparos em casos de necessidade. A missão da Ares-3 vinha sendo realizada com sucesso até que no sexto dia uma tempestade, que põe em risco a tripulação, força os mesmos a abortar a missão e, durante o processo de retira, Watney é atingido por uma antena que se solta do alojamento e dado como morto; no meio da tempestade e sem conseguir encontrar o corpo do suposto falecido, a equipe evade do planeta. Watney acorda horas depois, com uma antena presa na lateral de seu corpo e um planeta inóspito todinho para chamar de seu, restando os suprimentos que sobraram da missão e sua inteligência para ajuda-lo a sobreviver e buscar contatar a NASA na esperança de ser resgatado.

Soube que "Perdido em Marte" ( ou "The Martian", no original) era um livro, apenas quando, no Oscar, o filme baseado nele concorreu a melhor roteiro adaptado. Vi o filme por causa da direção de Ridley Scott, que eu sentia que estava em débito comigo desde "Prometheus" e fiquei contente com o que vi, um filme inteligente mas divertido, leve sem deixar de ser dramático e muito bem conduzido pelo diretor de clássicos como "Blade Runner" e "Alien", acontece que o livro eleva tudo que se vê no filme a nona potência.
Andy Weir escreve de forma que parece tão fundamentada, que foi a primeira vez que um livro de ficção científica conseguiu me convencer que tudo que ocorria em suas linhas poderia ser verdade. Para começar com a quantidade de explicações científicas que ele utiliza para informar como que cada evento ocorrido com Watney é superado, só isso mostra um trabalho de pesquisa incrível por parte do autor e um talento para didática empolgante, porque ele consegue transformar física e química em algo divertido e prático, e que, embora seja apresentado como elemento de narrativa ( e por isso superficial), fazem até um cara como eu de humanas, achar o assunto fascinante. Outra qualidade do autor que o livro trás é a imaginação da evolução das tecnologias atuais, ele evolui muitas tecnologias que já estão em uso ou teste e além de descreve-las, as mostra sendo utilizadas na história, isso o coloca em um nível bem auto de futurólogo e já fico imaginando quando chegarmos a Marte as pessoas dizendo "Olha aí, o Andy Weir estava certo!".

Outra coisa que me surpreendeu no livro foi a quantidade de problemas a serem resolvidos pelo protagonista. Meu Deus!! se fosse eu morreria em duas horas. O cara tem que calcular e racionar comida, energia, oxigênio, Gás Carbônico, pensarem como produzir alimento, modificar o veículo de exploração, se comunicar com a terra, aprender código morse e sobreviver as músicas e séries dos anos 70 e tudo isso na maior parte do tempo sem uma única pessoa (ou tutorial do Youtube) para ajudar, é um livro que realmente utiliza a ciência como grande estrela e isso o torna um em milhões, porque embora seja ficção científica, a ciência é muito real, muito pé no chão; o autor poderia colocar a história para daqui a trezentos anos e assim focar no drama humano ou sociedade e tratar a questão da viagem espacial como alegoria, mas ao contrário disso, seu foco é total na ciência e isso da mais valor a leitura de sua obra.



Além do citado acima, o livro ainda é muito bem humorado. Mark Watney é uma figuraça que mesmo sozinho a milhões de quilômetros de casa, nunca perde o bom humor e a esperança. Seus monólogos questionando até onde suas gambiarras vão aguentar são pontuais para dar aquela aliviada em momentos onde a história usa muitos termos técnicos e explicações científicas, e, suas conversas com a terra e a nave Ares-3, após ele conseguir contato novamente, contém tantas piadas e sarcasmos que é impossível não colocoar um sorriso no rosto de quem está lendo, deixando além de tudo uma mensagem de otimismo e bom humor aliada a inteligência e razão.

A forma como o autor conta a história ajuda demais a colocar o leitor dentro da história, embora por vezes canse um pouco. Andy Weir utiliza uma narração em primeira pessoa em formato de diário e isso reforça a sensação de solidão do protagonista nas primeiras cinquenta páginas do livro, mas confesso que essa solidão me incomodou um pouco a principio porque me dava uma agonia ao querer saber como seus companheiros e a equipe na terra estavam reagindo com sua "morte", para o meu alívio, depois de uma parte do livro somos apresentados a essas reações e opiniões dos outros ambientes da história e aí a trama engrena em uma sucessão de ideias e pontos de vista que dão ainda mais riqueza ao livro.

Essa escolha por, primeiramente apresentar toda solidão e escolhas do protagonista, é muito inteligente, porque gera uma empatia tremenda com Watney; no inicio do livro estamos tão perdido quanto o astronauta e mal sabemos como o acidente que o isolou em Marte ocorreu, o fato só é explicado no meio do livro, em um flashback que nos da deslumbres da personalidade de toda equipe, nos fazendo simpatizar por eles e apoia-los em suas decisões. A partir daí, a tensão que o texto segue faz com que um capítulo (ou sol) seja devorada compulsoriamente, só parando quando a última palavra é lida, uma construção de texto realmente hipnotizante.


Como já mencionei acima, "Perdido em Marte" é um ótimo livro. Inteligente, engraçado e bem escrito ,dá muito mais profundidade a história contada no filme e dentro dessa leva nova de ficção científica o coloco como obrigatório. Sua construção e narrativa parecem muito mais o trabalho de um escritor experimentado do que o primeiro trabalho de um jovem engenheiro de software e esse é outro fato que surpreende e me alegra como fã de ficção científica, a percepção de que o estilo vem renovando e a esperança de descobrir mais livro como este, assim como a expectativa dos próximos trabalhos de Andy Weir. Em resumo, "Perdido em Marte" é um livrão e recomendo demais e a propósito, Alguém poderia me dizer por que o Aquaman controla baleias? Elas são mamíferos... não faz sentido!!

sábado, 9 de janeiro de 2016

O PLANETA DOS MACACOS (O livro)

Se eu perguntar sobre o planeta dos macacos, um grande número de pessoas vai citar a cena de Charlton Heston gritando “seus maníacos”, ao se deparar com a estátua da liberdade atolada em uma praia, no final do filme dos anos sessenta, outros, mais jovens, vão falar dos dois últimos filmes, que foram surpreendentemente bons e contar sobre a jornada heroica do chipanzé Cesar, e, existirão ainda os que se lembrarão do terrível filme do Tim Burton, com seu clima sombrio e pouco sentido. Mas, o que eu duvido é que metade de quem se lembra desses filmes, saiba que o roteiro de “O planeta dos macacos” foi baseado em um livro homônimo de ficção científica francesa.

O livro “O planeta dos macacos”, foi lançado em 1963, pelo escritor francês Pierre Boulle, que já tinha em seu currículo “A ponte do rio Kwai” outro livro que veio a se tornar um clássico do cinema e pelo qual ele ganhara um Oscar pelo roteiro. “O planeta dos macacos” conta a história de Ulisse Mérou, um repórter francês que no ano de 2500 é convidado por um ilustre cientista à ser um dos três membros de uma expedição espacial até uma distante estrela. Viajando quase a velocidade da Luz, os tripulantes atravessam o universo ao encontro da estrela Betelgeuse e do sistema que a tem como centro; um desses planetas, cujos níveis de oxigênio, presença de água e clima são idênticos ao da terra, se apresenta convidativo a tripulação, que o batiza de Soror e parte em sua direção. No entanto, os três tripulantes desconhecem que nesse planeta exista vida, incluindo uma raça idêntica a humana, mas que não passam de animais selvagens controlados por instinto e que servem de caça, animais de estimação e cobaias para a verdadeira  raça dominante, os macacos.

Cornellius, Zira e Mérou
O que eu achei bacana do livro é que o conceito presente é tão amplo que consegue ter trechos reconhecidos em todos os filmes acima citados. Obviamente o que tem um esboço mais parecido é o clássico de 1968, com a ideia de viagem espacial e a presença do casal de chipanzés cientistas Zira e Cornélius, assim como do pedante orangotango Zeius; O plot twist do final também remete ao livro com uma carga semelhante de desesperança, embora sejam bem diferentes entre si. Lendo o livro retirei grande parte do crédito que eu havia dado aos roteiristas do filme “Planeta dos macacos: A origem”, pois entendi que o que fizeram no filme foi apenas colocar o chipanzé Cesar na mesma situação de Ulisse Mérou no livro, a de ser um animal que pensa e que busca a principio ser reconhecido como um igual e, depois de se deparar com as barbaridades da raça dominante, resolve se tornar o agente libertador de seus iguais, fato em que Cesar é infinitamente mais bem sucedido do que Ulisse. Até o final aleatório do filme de Tim Burton ficou mais claro para mim ao ler o livro, embora que sua realização ainda continue a não fazer sentido.

Não precisava né Tim Burtom
Outra coisa que gostei foi pequena a sátira da nossa sociedade apresentada pelo autor nas entre linhas. A sociedade macaca (acho o termo muito engraçado) se divide em três grandes grupos, os Gorilas, que conforme o protagonista vem a descobrir através de pesquisa, foram os grandes líderes de um passado onde a força imperava, mas que passaram a dominar através da capacidade administrativa e política; Os pedantes e orgulhosos orangotangos, que são considerados a personificação da ciência e conhecimento, sendo responsáveis pela escrita dos livros didáticos, presidindo os conselhos científicos e estabelecimentos de ensino; e, os chipanzés, que são tratados como uma classe menor pelas outras duas, mas que se apresentam no livro como cientistas menos presos a dogmas e de emoções mais genuinamente humanas.



Através as três classes de macacos o autor parece colocar um espelho na frente da raça humana e expor suas lideranças como que agindo de forma a macaquear as gerações que a precederam evoluindo muito a custo. Com essa sátira o autor parece sinalizar uma defesa do direito dos animais (nos anos sessenta!!), invertendo o papel de poder e de descarte das cobaias usadas em estudos, fato que parece claro no longo relato que Pierre Boulle faz das experiências em humanos, além disso, o livro também parece sinalizar sobre o preconceito racial e social ao mostrar as três famílias de símios se menosprezando entre si para se acreditar superior cada uma a seu modo; mas talvez essa última observação pertença apenas a mim e nada tenha passado pela cabeça de Pierre Boulle, pelo fato de o livro ser fruto de seu tempo e como tal carregar em si seus preconceitos não intencionais.


ao meu sinal
Gostei do livro. Achei as duas surpresas do final bem tristes para quem esperava um fechamento edificante para o protagonista, mas é um plot twist bem legal e enriquece o livro. A leitura é fácil e divertida, embora por vezes pareça rebuscada demais para ser narrada por um cara do ano 2500, os últimos capítulos onde o autor tenta dar uma explicação sobre o porquê daquela troca de papéis entre humanos e macacos, utilizando uma humana que tem acesso as lembranças com inconsciente coletivo é demais. Em resumo, “O planeta dos macacos” é uma ótima leitura para quem quer relaxar e se divertir e, essencial para quem gosta de ficção científica, recomendo além de ler o livro assistir o filme de 1968 e o reboot de 2011 e verificar as semelhanças e diferenças entre as obras. Aproveita antes que os símios tomem conta de tudo... SEUS MANÍACOSSSS !!!

sábado, 2 de janeiro de 2016

A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA - ESQUERDA REWIEW

Me formei em 2015! Agora sou bacharel em administração (antes tarde do que nunca!) e, quando estava finalizando o TCC, em meio a dados que se acumulavam em umas três montanhas aguardando utilização, prometi que assim que a banca avaliadora me liberasse faria uma revisita aos livros, filmes e quadrinhos que me marcaram de alguma forma (prometi também ler todos os livros do “Game Of Thrones”, mas não sei se tenho tempo para tanto.).
Resolvi começar com “A mulher que escreveu a bíblia” de Moacyr Scliar, talvez pela onda crescente de feminismos cada vez mais em voga e que eu acredito ser extremamente necessária (apesar de não apoiar nenhum evento extremo) ou talvez por ser apaixonado pela obra do autor, o qual eu prometi a muito tempo ler todos os livros e nunca saí dos quatro que possuo (considero assim essa releitura um homenagem ao escritor). Pois bem, seja lá por qual motivo conhecido apenas pelo meu subconsciente, “A mulher que escreveu a bíblia” foi o livro escolhido e, senhoras e senhores, que livro bacana!
Não! Não vou me atrever a avaliar a forma de narrativa de um imortal da academia brasileira de letras, tão pouco questionarei qualquer mérito de um livro premiado com o Jabuti, meu interesse é falar um pouco sobre a experiência divertida de ler Moacyr Scliar e frisar os pontos que me colocaram um sorriso no rosto durante a leitura, para que, quem sabe, eu fomente em pelo menos uma pessoa o desejo de visitar o maravilhoso universo Scliariniano.
capa da versão de bolso

Qual a história do livro?
Ajudada por um ex-historiador que se converteu em “terapeuta de vidas passadas”, uma mulher descobre que, no século X a.C, foi uma das setecentas esposas do rei Salomão ( a mais feia de todas, mas a única capaz de ler e escrever), Fato inusitado que encanta o rei, que a encarrega de escrever a história da humanidade, tarefa árdua, que uma junta de escribas se dedica a anos sem sucesso. Com linguagem que transita entre a elevada dicção bíblica e o mais baixo calão, ela conta sua trajetória, desde o tempo em que não passava de uma solitária e feia filha de um obscuro chefe tribal. ( transcrição quase que idêntica à contracapa da minha edição da Cia das Letras)

Gostei muito da protagonista. Seus medos, sonhos e anseios são muito bem desenvolvidos e o fato dela não ter o nome dito em nenhum momento, me parece uma ferramenta para gerar catarse com o leitor, o que dá extremamente certo, somos um pouco nós que estamos ali vivendo seus medos e sonho, e, nos preocupando com a situação de quem ela se importa. Isso torna a personagem muito real, muito contemporânea, tanto que, embora que se trate (até certo ponto) de um romance histórico (é? sei não!) ambientado no oriente médio mil anos antes de Cristo, a feia (como se auto intitula a protagonista) é extremamente moderna e decidida. Esse fato remete a própria história do livro que, conforme citado anteriormente, é como se fosse o texto de uma mulher de nosso tempo narrando sua vida passada; utilizando isso, o autor se permitiu narrar a história sem a necessidade da utilização de termos que remetessem a época ou se prender a apresentação mais aprofundada da sociedade e ambiente, podendo partir logo para a construção da história, tanto que sobram momentos onde os personagens se tratam por “cara” e acham as coisas “legais” isso dá o tom do humor sutil do livro que nos conduz de forma suave pela leitura.
Ainda sobre a protagonista, o fato de ela ser uma personagem mulher escrita por um homem e que me parece tão feminina (e quando falo feminina, falo humana e não perfeita) é o que realmente mais gosto no livro. Talvez pelo fato de as poucas personagens femininas da minha infância e juventude (Dostoievski, muita história em quadrinhos e filmes dos anos 80 e 90) serem apenas muletas pouco exploradas e esse livro quebre esse paradigma de forma espetacular, apresentando uma mulher inteligente, que sabe de suas limitações e que busca ferramentas para contorna-las e que principalmente seja humana antes de mulher. Ela manipula, utiliza de silêncios para gerar expectativa, controla sua raiva, premedita suas atitudes; mesmo a índole da personagem que desde o inicio já é apontada como sendo boa, não há maniqueísmo e por vezes ela ultrapassa alguns limites para alcançar o que quer.
Quanto aos desejos da feia, há quem possa criticar o autor pelo fato dela ter o único objetivo de conquistar Salomão através do livro, voltando a velha mítica de que as mulheres só agem tendo os homens como foco. Mas eu fico inclinado a discordar disso, a força da personagem está em realizar o que nenhum homem ou grupo de homens conseguiu anteriormente, a transcrição (de redação carismática) das histórias “sagradas” e se o plano dela é arrastar Salomão para sua cama isso não diminui em nada o seu trabalho ( além do mais o corpo é dela e suas regras também).
Aquele humor...
Outro fato marcante na leitura são os personagens periféricos da história, como o pai da feia, que ela descreve como mulherengo e ausente, coisa que Moacyr Scliar consegue transmitir quando descreve os olhares pretensiosos e silêncios obtusos do patriarca do deserto, fato que se repete quando ele descreve o primeiro amor da protagonista, que só é citado pelo epiteto de “pastorzinho”, a quem nos é mostrado, pelo olhar da protagonista, como um simplório e limitado, no entanto gentil jovem sem perspectiva o qual vamos acompanhando em todo o seu azar durante  o livro; mas quem realmente me colocou um sorriso no rosto, foi Mikol, uma das concubinas de Salomão e que fica presente no livro por não mais de três páginas, mas pela qual o autor consegue transmitir o significado da amizade verdadeira nascida da cumplicidade. O trecho onde a feia fala sobre o conhecimento de Mikol sobre sinais gráficos é tão doce e de detalhes tão bem apresentados que eu tenho de transcrever uma parte aqui:

“Ela não sabia ler nem escrever, mas conhecia todos sinais gráficos, o ponto, a vírgula – que sempre a deixava pensativa – a interrogação e a exclamação, que lhe provocavam barrigadas de riso. E o travessão: também conhecia o travessão. Contudo, gostava mesmo era das reticências; sabia que aquilo era prazer a pessoa, com olhar perdido, pensar sobre a vida, sobre o mundo...
- “Sim, nas reticências talvez haja um lugar para mim...” (acho que perfeição não define essa parte do livro.)

Não posso terminar de falar sobre o livro sem fazer uma pequena comparação entre este livro de Moacyr Scliar e os dois livros com a mesma temática bíblica escritos pelo autor Português José Saramago ( “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”). Posso começar dizendo que não gosto da escrita de Saramago. Longe de mim depreciar o autor, até acho algumas partes de “Caim” bem divertidas, mas parece que o Autor português tem como único objetivo subverter os relatos bíblicos sem a vontade de escrever algo conclusivo que nos remeta a um olhar diferente da história conhecida. Em “O evangelho segundo Jesus Cristo” a trama se prende a momentos recorrentes de sexo entre Jesus e Madalena e parece vincular Lúcifer a religião islâmica quando cita como o anjo caído reza e descreve sua aparência, também não desenvolve muito dos personagens com potencial como Thiago (que é citado como irmão de Jesus, mas nada faz) e até perde tempo explicando eventos como a água com vinagre dada a Jesus na cruz para mostrar que os romanos não eram Tãão maus assim... um reflexo dos preconceitos do autor, e,  nisso o livro não engrena e se torna até chato. Em Caim, já temos uma narrativa mais rápida e é interessante porque foge da linearidade do tempo e isso é bacana, pois coloca o protagonista inserido em todos grandes episódios da bíblia, mas ao fim o autor comete o mesmo erro do que no livro anterior e dá um final que parece feito as pressas a história. Já em “A mulher que escreveu a bíblia” tudo parece mais redondo, tanto que o final, embora previsível pela situação que vai se desenhando, não decepciona e terminamos a leitura com um belo sorriso de satisfação, por sermos apresentados a outros pontos de vista e aprofundamentos. As  obras desses autores com esse tema, talvez tenham esse diferente impacto em mim devida a própria mensagem que eles tenham buscado transmitir nas entre linhas. Embora ambos fossem ateus (os dois já se foram) a vontade de diminuir a religião em Saramago era claramente observável, enquanto que Scliar, como Judeu, trazia ainda em si a religiosidade apenas como tradição, uma forma de carinho por suas origens, ,e o carinho gera mais frutos que a raiva (star War nos ensinou isso!). De qualquer forma, se eu precisasse escolher um para ler sobre o tema eu leria Scliar.

De qualquer forma eu quero dizer que valeu muito a pena reler “A mulher que escreveu a bíblia”, tive aquela mesma sensação que tive da primeira vez de surpresa e encantamento. Acredito que o Brasil deve redescobrir Moacyr Scliar, tanto através de seus livros quanto colunas e artigos, o cara era um gênio. Quanto a esse livro eu indicaria para quem está em transição entre leituras mais fáceis para contextos mais profundos, ele traz referencias de fácil acesso e um humor para todos, mas sem deixar de ser inteligente e ágil. Uma bela leitura e um livro para se destacar na estante e na memória. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O XANGÔ DE BAKER STREET



Quando eu tinha dezenove anos , trabalhei em uma loja de conveniências em um posto de combustível no turno da noite. O serviço era mecânico e cansativo (como a maioria dos empregos), passávamos das vinte duas horas à uma da manhã atendendo o pessoal que ia ou vinha do trabalho ou a gurizada que partia para a noite, depois, eu e mais dois colegas de turno, nos dedicávamos até as seis e meia da manhã, ou a conversas longas sobre futebol e clima, ou a assistir os filmes da TV, que como naquele tempo o posto não possuía TV a cabo nos restringia à boa e velha rede globo com seu corujão ou a falecida intercine.

Foi em uma dessas noites de Cinema global que assisti ao filme "O Xango de Baker Street", filme baseado no livro Homônimo de Jô Soares e dirigido por Miguel Faria Jr e que me surpreendeu pela produção, diversão e originalidade, tanto que marquei o livro para ser lido desde então (quase quinze anos) e que agora, depois de ter casado, ter um filho, plantado duas árvores, comprado um carro, construído uma casa e terminado a faculdade consegui fazer tendo conseguido a mesma sensação com o livro que o filme me causara na época.

O livro conta a história de misteriosos assassinatos que ocorrem no Rio de Janeiro no final do segundo império. Um assassino misterioso causa perplexidade na polícia ao, sem causa aparente, matar e arrancar as orelhas de mulheres durante a noite, deixando em seus pelos pubianos um corda de violino. Ao mesmo tempo, O Violino Stradivarius da baronesa de Avaré, que foi dado por Dom Pedro II é roubado e o imperador, aconselhado por uma atriz Francesa de grande prestígio, resolve pedir ajuda a um famoso detetive inglês chamado Sherlock Homes para solucionar o misterioso roubo do instrumento. Os fatos que vão se revelando cada vez mais ligados, colocando toda corte como suspeita e apresentando a Holmes, juntamente com todos costumes e jeitinhos brasileiros, um dos maiores desafios para seus dons dedutivos.

Cara, o Livro é muito bom! Trás a agilidade de raciocínio e senso de humor de um Jô soares livre das modernas amarras globais, seu estilo de escrita é leve e convidativa (porta de entrada para quem gostaria de começar a ler), sendo contrabalanceada por uma ambientação realista em um Rio de Janeiro que sonha ser uma cidade européia, com todas contradições e disparates que isso significa em uma cidade tropical.

elementar meu caro 
A história é repleta de personagens históricos e o legal é que todos estão lá por um motivo e não como parte do cenário, tanto que jô dá voz a todos respeitando o que se conhece de suas personalidade e vida, no entanto, dentre esses personagens ninguém fala tão alto como os hábitos brasileiros. Tanto no livro quanto no filme (que teve o roteiro escrito por Miguel Faria jr e Patrícia Melo) o grande antagonista, fora o assassino, é o ambiente; o Brasil é retratado até a nós brasileiros, como uma terra exótica, onde as pessoas vestem-se com pesadas roupas no melhor estilo europeu em um calor tropical, misturam a gastronomia européia à africana e estão sempre dispostas a perder o amigo mas nunca a piada; é uma terra de riso souto mesmo frente a morte mais terrível, onde o apadrinhamento vale mais do que o talento, a bajulação reina e onde a aparência vale mais do que a essência, uma sátira a sociedade brasileira que parece não ter mudado nada.


Watson e Sherlock inventando a "caipirinha"
Sherlock Homes e seu fiel amigo Watson, caem de paraquedas nesse ambiente insólito se esforçando o máximo, sem nunca conseguir por completo, entender os costumes desse lugar onde foram jogados. Sobre isso, quem mais mais transparece esse estarrecimento é o pobre doutor, que é a personificação de uma ingenuidade inglesa na terra de malandros, enquanto Sherlock fala um português lusitano fluente (pelo fato de ter estudado sobre venenos com um "lisboeta" em Macau) Watson, acompanha o amigo sem literalmente entender uma única palavra, exposto apenas ao que os olhos lhe mostram; Sherlock, mesmo fluente na língua de camões, é retratado como alguém de juízo e deduções duvidáveis, fato amplificado pelo uso que faz dos "cigarros índios de Cannabis" que lhe são apresentados pela bela mulata Ana Candelária por quem se apaixona e pelas manias que o detetive tem de ter opinião sobre tudo apenas dedutivamente ou de se "disfarçar", como quando vai juntamente com o delegado responsável pela investigação sobre os assassinatos em um manicômio vestido de marinheiro, trajando além da farda, um nariz postiço, gancho na mão e perna de pau , sendo que todos o conhecem dos jornais(hilário). Confesso que a principio fiquei um pouco contrafeito pela decisão do autor de colocar o maior detetive do mundo (fora o Batman) como um abobado, mas com o passar dos capítulos entendi que o ambiente é tão louco que nem o maior gênio da investigação dedutiva poderia se sobre por à esses manicômio sem muros que é o Brasil.

O mistério que gira em torno do assassino e sua personalidade também é um ponto forte, assim como o clima que Jô Soares cria para narrar os assassinatos e a descrição das mortes, me fez ter nossos sinistros por dois dias. Desde o início do livro todos personagens são apresentados como suspeitos, mas só vamos fazer o link entre as pistas e o assassino ao final do livro e através do esclarecimento do próprio assassino, e o legal é que as pistas deixam o assassino na nossa cara e só percebemos bem depois, quando juntamos os detalhes mais corriqueiros apresentados sobre o personagem que é o assassino e as passagens do livro que falam dele aparentemente sem pretensão . O mais bacana da história é, no epilogo, ainda trazer revelações sobre o assassino e dando continuidade a sua história, que como em todo bom romance histórico se mescla com o real.

Ana Candelária, a paixão tropical de Holmes
O livro não perde nada para o filme e vice-versa. Ambos são muito bacanas e merecem ser celebrados. Infelizmente o brasileiro ainda carrega seus preconceitos em menosprezar toda produção nacional de cinema e busca igualar os livros brasileiros voltados para diversão com os grandes clássicos de nossa língua; isso enquanto assiste transformers e lê 50 tons de cinza (uma pena!), pois quando somos bons (mesmo colocando muito humor na receita) somos bons de verdade.

O que posso dizer é que a escrita ágil de Jô e seu humor negro despertou em mim uma vontade de ler mais de suas obras. Com certeza vou buscar um tempo para ler o "Assassinato na Academia brasileira de letras" e "As esganadas" , que pelo que eu li seguem uma linha parecida. Deixo a dica de "O Xango de Baker Street" Um livrão que por sua crítica social leve, mas ácida, continua atual mesmo depois de vinte anos de publicação, continua atual e, pela diversão que o livro proporciona, sendo uma agradável leitura para quem quer relaxar e uma porte de entrada ao mundo dos livros para quem começa s se interessar por literatura e ficção.



quinta-feira, 16 de julho de 2015

A SEGUNDA PÁTRIA - O romance histórico distópico retro brasileiro

   De dois anos para cá eu só tenho lido ficção científica, distopias e contos de terror. Em parte talvez por entender que esses estilos sejam os mais próximos da realidade do que qualquer outro, afinal, assistindo aos jornais que só nos mostram o lado terrível e auto destrutivo do ser humano e sua busca por tecnologias que diminuam o esforço, Asimov , George Orwell e Stephen King me parecem mais verdadeiros do que Machado de Assis e Jorge Amado. Outro motivo é por sentir mais prazer nas desventuras fantásticas e imaginativas dos autores citados acima do que nas ensossas histórias de rotina auto piedosa dos livros “realistas” modernos, que são quase como um diário do autor. Foi através da busca por outros livros dessa minha linha preferida de história que descobri “A segunda pátria”, de Miguel Sanches Neto, lançado esse ano, e me surpreendi com um livro envolvente, divertido e terrível. 
    Inclui o livro na categoria "romance histórico distópico retro", pois reconta reconta a história do Brasil do final dos anos trinta e começo dos quarenta em um universo onde ao invés de se alinhar aos aliados, o país houvesse tomado outro rumo e firmado um acordo de ajuda mútua com o estado Nazista. Essa história, que se passa nos estados do sul do país, em maior parte em Blumenau e Porto Alegre, nos é apresentada pela ótica de dois personagens, Adolfo Ventura, um engenheiro negro que trabalha na prefeitura da cidade catarinense e vê sua vida ser destruída a medida que as ideias nazista vão dominando a colônia (RS, SC e PR) e, Hertha, considerada a mais bela ariana da colônia e que é incumbida de realizar uma tarefa que se pode descrever como pouco ortodoxa para a Gestapo e que marca seu destino para sempre.
    O livro se divide em quatro capítulos sendo o primeiro e o último destinado a Adolfo Ventura e seus circulo de familiares (Mãe, pai e Filho) e os dois do meio explorando Hertha e suas desventuras. No primeiro capítulo, que se passa em 1941, vemos uma sociedade firme em preconceito e perseguição, com ideias nazistas cristalizadas na cabeça de grande parte dos descendentes de europeus onde vemos Adolfo tentando fugir das multidões com seu filho mestiço e vendo seu espaço na sociedade sendo minado ao ponto de ao final acabar sendo tratado como um animal. O segundo Capítulo , que se passa em 1938, retrocede para esse período para nos mostrar uma Hertha Jovem e insaciável que beira de uma personagem de Jorge Amado pelo desejo e sensualidade que insinua, nesse capítulo , que se passa em porto alegre, o crescimento do fanatismo e a indiferença do governo brasileiro indicam o rumo que o país tomará a seguir, o que a visita de Hitler a Porto Alegre, marca como ponto de partida. Os outros dois capítulos colhem o que os dois primeiros plantam, entregando ao leitor toda dor e desperança que, não só, uma teoria de superioridade causa na sociedade mestiça por nascença pode sofrer como que qualquer guerra pode causar.
  A profundidade que o autor dá aos personagens, mesmo os que possuem uma participação mínima, faz com que eles se desenhem quase como reais na cabeça do leitor. Adolfo Ventura é o negro que não se enxerga como tal e que ignora a diferença que os outros o atribuem, como ele mesmo diz "eu não me via como diferente" e para encontrar a si mesmo ele tem de passar por uma odisseia terrível, que o colocará frente a frente com seu lado ancestral e selvagem; ao redor dele temos principalmente sua mãe ,que é a expressão da força e coragem de mãe, que vence os medos e limitações pelo amor ao filho e neto, temos também seus colegas de "campo de isolamento",que expressam mais organização e razão do que os nazistas que os tratam como animais, sem, no entanto serem perfeitos. Nos que rodeiam Hertha temos seu tio Karl, que embora simpatize com o nazismo no inicio, entende que a mestiçagem é o que define no Brasil e não vê nada de ruim nisso ao final, se colocando quase que publicamente contra o fanatismo , é dele que sai a analogia mais bacana do livro ao se falar dessa mestiçagem tão citada, quando ao conversar com a sobrinha, próximo a uma floresta de eucaliptos plantados de forma organizada , expressa sua tristeza, ao perceber que quando chegará ao país havia odiado as misturas de árvores que aqui dominavam as florestas, todas se interlaçando e se misturando e que agora entendia que a organização militar e uniforme daqueles eucaliptos e que estavam no lugar errado. O livro ainda dá voz a personagens históricos ,como o presidente Getúlio Vargas e seu guarda costas Gregório Fortunato (que tem uma participação foda!) , Oswaldo Aranha , Hitler e Gobels, em participações extremamente verossímeis.
   Gostei de mais do livro! Ele tem uma pegada parecida com "O homem do castelo Alto" de Philip K. Dick, em uma história do tipo "o que aconteceria se...?", mas em " A segunda pátria" o fanatismo e destruição da sociedade estão muito mais gritantes e a história segue uma linha mais densa e realista,o que inclui um final não muito alegre. A leitura do livro é fácil, não há nele nada de rebuscado e diversão (embora os socos no estômago) garantida; ouso dizer ,que se fosse de um escritor americano se tornaria filme já no ano que vem, mas já que se trata de um livro nacional resta a nós lê-lo e relê-lo , sorvendo tudo que esse maravilhoso romance histórico distópico retro pode nos ensinar sobre a terrível e maravilhosa sociedade humana.
Poderia ter sido, por sorte não foi!

   
  

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"DEIXA ELA ENTRAR" - muito do livro e um pouquinho dos filmes

    Em 2008 o cinema sueco trazia ao mundo uma grande surpresa ao reviver com dignidade a imagem do vampiro; se tratava de “Deixa ela entrar” do diretor Tomas Alfredson. O filme, que conquistou o cenário mundial no ano seguinte, rapidamente se tornou um clássico, recebendo uma refilmagem americana em 2010 com a Eterna Hit-gril, Chloë Grace Moretz , no papel da vampira ELI e dirigido por Matt Reeves que viria a dirigir o elogiadíssimo “Plane dos macacos: o confronto” em 2014. Eu, quando assisti ao filme o achei ótimo, mas na minha infinita ignorância sempre achei que ele era fruto de um roteiro original, no melhor estilo cinema autoral europeu, mas ao pesquisar um pouco mais sobre a obra após ouvir o excelente Cinecast Cult ( do site os cinéfilos) sobre o original sueco, acabei por descobrir que o roteiro é adaptado do livro homônimo do escritor John Ajvide Lindqvist e que a Globo livros o havia lançado no Brasil em 2012; Então eu não resisti, comprei o livro e o devorei.
   A história central do livro não tem nada de diferente dos filmes, ela se foca em Oskar e Eli; Oskar é um menino solitário dos subúrbios de Estocomo , que vive com a mãe, que é separada do pai alcoólatra , e divide seu tempo entre casa, onde está sempre só e a escola onde sofre bullyng dos colegas; Eli por sua vez é uma menina misteriosa que se muda, junto com seu “pai” para o apartamento vizinho ao de Oskar e acaba firmando uma amizade com ele, o fazendo refletir sobre autoestima, amor, solidão, sexualidade, medo e violência; enquanto essa amizade vai crescendo, estranhos assassinatos vão sendo realizados nas proximidade de Blackeberg, bairro onde os protagonistas moram, criando tensão e medo entre os habitantes, é entre esse acontecimentos que Oskar descobre que Eli é uma vampira, o que muda para sempre sua vida e sua forma de ver o mundo e a si mesmo. A trama central já é bem rica pelos temas que aborda e pela maneira como expõem esses assuntos , de forma que utilizaram apenas esse arco para roteirizar os filmes; no entanto, algo que não existe nos filmes é o aprofundamento das outras pessoas afetadas pela situação e as ações e reações que os protagonistas precisam tomar para sobreviver naquela sociedade, o que ao meu ver é muito bem conduzido pelo escritor, pois o livro tem diversos personagens que foram diminuidos ou excluídos nos filmes e que são importantíssimos para que possamos entender o mundo onde Oskar vive e aceitar suas decisões.

   Já no inicio do livro, Quase que junto com os personagens centrais somos apresentados a Hakan, que Oskar imagina ser o pai de sua nova amiga, mas que na verdade é seu ajudante; um pedófilo apaixonado por Eli e que é responsável de conseguir sangue para a sua amada de modo que esta não precise se expor. Nos filmes, a relação deles é distante e muitas vezes Eli o despreza como se ele já não fosse mais útil, já no livro há uma grande cumplicidade entre os dois, de modo que a Vampira não se zanga quando seu ajudante diz que não quer mais matar e vai a busca de sangue ela mesma, recomendando que Hakan descanse e esqueça um pouco a vida que eles levam; A história de Hakan vai sendo exposta lentamente, partindo de um momento atual onde ele caça e executa vítimas para retirar o sangue e, sua vida anterior, onde vemos seus atos de pedófilo; também somos apresentados a suas frustrações e arrependimentos e surpreendidos com momentos onde ele tenta realizar gestos genuínos de bondade, mesmo quando sua consciência grita que não há redenção. Diferente dos filmes o “fim” de Hakan ainda abre espaço para mais situações assustadoras e converge com o final de outros personagens em momentos aterrorizantes que ficariam muito legais no cinema.
   Há também o grupo do Bar Chinês, que não aparece por completo nos filmes; esse grupo é composto por Joke, Gösta, Larry, Morgan, Lake e Virginia ( no filme o grupo se resume aos amantes Lake e Virginia), esse grupo é a representação da solidão humana e de um underground que eu não sabia que existia na suécia; Morgam faz bicos para viver e está sempre de porre, Joke trabalha em um ferro velho as vezes, Gösta  vive em um fétido apartamento com vinte e oito gatos, Larry é aposentado por doença (qual ninguém sabe), Lake vive do dinheiro da venda da casa da família e dos selos raros que herdou do pai e Virginia é uma solitária cinquentona que bebe para esquecer as frustrações de sua vida e emprego medíocres, todos eles são descritos sempre usando roupas gastas e surradas quando não sujas, cambaleando pela noite, com o olhar vazio e o rosto e o corpo marcados pela bebida; deles, apenas Virginia tem uma filha e um neto, os demais só possuem uns aos outros, mas mesmo assim, não se pode dizer que eles são companheiros, na verdade é um grupo de várias solidões juntas. Esse grupo é responsabilizado por nos mostrar duas questões ( além de exporem uma sociedade Sueca desconhecida), as consequências que um crime, como o assassinato, causam no circulo social da vítima e as questões que se apresentam quando alguém é contaminado por um vampiro. O primeiro caso surge quando Joke, um dos bêbedos do grupo, é vítima de Eli, que sai para caçar após a resposta negativa de seu ajudante; o desaparecimento de Joke causa um forte impacto no grupo a que ele pertencia, especialmente em seu melhor amigo, Lake, que se desespera e se torna obcecado em descobrir o que aconteceu ao amigo; motivo que o leva a descontar, dias mais tarde, suas frustrações e raiva em Virgínia, sua amante, que acaba sendo atacada por Eli quando a fome a havia dominado. A partir daí acompanhamos todas as etapas da transformação de Virgínia, sua alergia a luz solar, sua fome e a descoberta pelo prazer de beber sangue (que é muito bem ilustrado pelo escritor), uma pseudo explicação científica que informa o porque o coração é o ponto franco dos vampiros, passando por delírios onde a infectada se imagina sugando o sangue de seu próprio neto. Devo dizer que os capítulos onde , após ser atacada pelos gatos de Gösta (que ela visitou para matar, mas que foi frustrada pela presença de Lake no lugar), onde Lake está com ela no hospital e lhe conta o sonho que tinha de morar no interior com ela e comprar uma casa para sua filha, tirando lágrimas dos olhos da vampirizada ,são muito bonitos e emocionantes, embora o final seja tão aterrador quanto o filme, quando a manhã chega e a enfermeira abre as janela para o sol entrar.
o sol anda forte não?!
   Também temos Tommy, sua mãe Yvonne e seu futuro padrasto , o policial Staffan. Tommy é um garoto mais velho que mora em um apartamento vizinho ao de Oskar, ele é uma das poucas pessoas que parecem respeitar o menino, dando-lhe conselhos e conversando sobre o dia a dia, ele passa grande parte do tempo no porão do prédio com seus amigos, cheirando cola e pratica pequenos furtos para conseguir dinheiro; Yvonne é uma viuva perdida que só é relatada fumando, sem saber como tratar com o filho ou observando seu namorado com olhos alegres; Staffan por sua vez é um dos policiais responsáveis por investigar os assassinatos que vem acontecendo na região de Blackeberg, campeão de tiro e cristão devoto, é através de seus relatos que somos apresentados a como a sociedade lida com a presença de um assassino em série em seu meio. Os motivos da rebeldia de Tommy e a consequência disso na relação de sua mãe com staffan são lentamente desenvolvidas e divertidamente trabalhadas. Esses personagens foram cortados dos filmes, talvez para dar um ar ainda mais solitário ao protagonista, mas que no livro são importantes pois são uma especie de espelho da vida que Oskar poderia ter também, deixando claro que ele não teria quase nenhuma esperança caso essa fosse sua situação.
   Um outro arco, que embora pequeno é muito bom e eu não esperava, é o de Johnny, o garoto que faz Bulling em Oskar. O autor o apresenta como o segundo filho de uma família de seis irmão, sendo apenas ele e Jimmy, seu irmão mais velho, filhos do mesmo pai. O capitulo único onde o foco é Johnny, apresenta uma conversa entre ele e o irmão mais velho onde o assunto é o pai que trabalha em uma plataforma de petróleo na Noruega, em poucas linhas , embora não justifique o modo como o personagem age, acabamos por entende-lo e o aceitar, a forma como o autor o humaniza, relatando a casa bagunçada, a mãe alcoólatra e sempre grávida, a falta de esperança e base, faz com que tenhamos mais pena do que raiva e nos coloca um nó na garganta quando o fim desses personagens é anunciado, ao mesmo tempo em que lá no fundo dizemos “Bem feito!”. É brilhante!
Dois outros personagens se impõem na trama, o clima do inverno Sueco e a solidão de seus personagens. No livro o clima tem um papel importante, a ideia do branco do gelo que representa a pureza e ao mesmo tempo a frieza; O clima também tem destaque nas partes tensas como quando um assassinato vai acontecer, o autor frisa o derretimento do gelo e a lama negra que corre pelas ruas, fazendo com que carros derrapem e armadilhas para os desavisados se formem. A solidão, como já falei, está em todos lugares do livro, no protagonista que sem amigos, se sente só mesmo que acompanhado da mãe, da Vampira que caminha entre as pessoas durantes séculos sem conhecer o que é a amizade verdadeira, Johnny que usa o bulling como armadura e que sente a falta de um pai e que vê no estilo de vida do irmão o único elo com algo que ele reconhece como verdadeiro, Hakan que ciente de seus defeitos vaga sozinho e triste reconhecendo seus crimes, o grupo do Bar chinês e suas desesperanças, as mulheres, sempre retratadas como submissas às vidas que lhe foram impostas, todos personagens estão sozinhos por mais que estejam acompanhados, analisando bem o livro, penso que a história é muito mais sobre a solidão do que uma simples história de vampiro.
Sempre fico feliz quando gosto de um filme e descubro que o livro onde foi baseado é ainda melhor que ele e “Deixa ela entrar” é um exemplo disso. O filme é muito bom, mas o livro o supera quando apresenta os personagens periféricos citados e as consequências da situação em suas vidas, além de levantar diversas outras questões, como a Origem de Eli, que é ignorada nos filmes e que nos é mostrada através de um sensacional elo psíquico que se forma entre ela e Oskar quando eles se beijam, Oskar é colocado dentro da mente de Eli e vê, como se fosse ela, seu passado e como aconteceu sua contaminação, de forma que descobrimos que Eli na verdade é Elias!isso mesmo, um menino!! Elias foi emasculado e contaminado para saciar a sede de sanguem do senhor feudal onde sua família era serva, isso a mais de duzentos e vinte anos.... o que responde a uma pergunta que a (ou o) vampira(o) faz a Oskar quando a amizade de ambos começa a crescer : “se eu não fosse uma menina, você gostaria de mim?”... e a resposta de Oskar se confirma apesar das dúvidas que a revelação perturbadora levantam em sua cabeça de menino de doze anos..., “Sim!”, o que também é claramente sentido por Eli , algo que nos filmes parece ser um sentimento simulado na busca de um novo ajudante.
   Outra questão é o Bulling, nos filmes a situação vivida por Oskar pode ser caracterizada como terro psicológico, mas no livro o medo é devido a uma verdadeira possibilidade de dor física acompanhada pela certeza de humilhação constante, Oskar é perseguido a todo momento, o obrigam a imitar um porco, o surram, sujam e prejudicam de toda maneira, conseguimos sentir através das linhas a falta de força e esperança que o personagem apresenta frente a tudo e acompanhamos a alegria quando ele consegue reagir e começa a se tornar alguém diferente, o final do livro me arrancou um sorriso quando fala o que acontece com os covardes irmãos Johnny e Jimmy na piscina de treinamento da escola.

  Por tuuuuuuuuuuudo isso, considerei “Deixe ela entrar” um dos melhores livros que li nos últimos anos e o melhor romance sueco que eu já li na vida (só li ele), um livro de fantasia que não ofende a inteligência de ninguém mas que ao mesmo tempo consegue ser divertido e empolgante, consegue explorar bem seus personagens expondo suas motivações, sentimentos e vida; mostra uma lado diferente do comumente apresentado da Suécia, traz novamente a dignidade que foi roubada dos vampiros ultimamente, apresentando aquele quê de violência e revanche que deixa um gostinho de sangue na boca, sem trocadilho.
  
capa do filme original 2008