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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O REI DE AMARELO (Robert W. Chambers)

Em Janeiro de 2014, estreava na HBO a série "True Detective". Tendo como protagonistas Matthew McConaughey e Woody Harrelson, e com o roteiro de Nick Pizzolatto, a produção contava a história de dois detetives atrás de respostas sobre uma série de assassinatos envolvendo uma misteriosa seita. A série foi um sucesso de público e crítica, tanto pela qualidade das atuações e roteiro, quanto pela inovação na forma de narrativa, onde a história era apresentada em três linhas de tempo diferentes, 1995 , 2002 e 2012, de forma não linear, para que o espectador pudesse entender como foram descobertos cada pista sobre o caso e apresentar a situação dos detetives, suas famílias e os envolvidos.

"True Detective" me pegou desde sua abertura arrepiante ao som de The Handsome Family, mas o que me deixou fascinado foi o "estranho" que permeava a sua história. A série trazia um flertar com o sobrenatural, que ficava longe de transformar a história em um conto de terror ou magia, mas que a afastava da normalidade das histórias policiais normais, Isso fez com que eu procurasse saber mais sobre o roteiro e com isso soube que toda a mitologia por trás da história da primeira temporada de "True Detective" era inspirada em um pequeno livro de contos escrito por um autor que, entre contos de terror e ficção científica que inspiraram gênios do calibre de Lovecraft e Stephen King, conseguiu considerável fortuna e fama através de livros de romances que miravam a atenção de senhoras; tratava-se de Robert W. Chambers e esse livro é "O REI DE AMARELO", lançado originalmente em 1895 e que a editora Intrínseca publicou no Brasil logo após o sucesso da produção de Pizzolatto e que me senti obrigado a ler na busca de mais daquele estranhamento que senti assistindo a série.

"O rei de amarelo" é uma antologia de contos, com dez histórias que tratam de terror, suspense, maldição, ficção científica e até romance. Destes dez contos, cinco compõe, explicitamente ou em suas entre linhas, a mitologia que desenvolve o estranho universo onde um misterioso livro, homônimo ao que trás os contos de Chambers, enlouquece, perturba e amaldiçoa a vida da pessoa que ousa -lo.

Os contos que tem em comum a presença da maldição do livro, tem como primeiro "O reparador de reputações" onde o autor nos apresenta uma história que se passa 25 anos no futuro (da data que o livro foi lançado, 1895) em que o narrador conta sobre uma trama para tomar o trono da América (EUA) para si, tudo isso com a benção dos súditos do Rei de amarelo; a esse, segue "A Máscara", onde um escultor descobre uma formula que transforma todo ser vivo que a toca em uma estátua, o que acaba por ocorrer com a mulher que ama após essa ousar folhar o livro desgraçado. A terceira história é "No Pátio do Dragão", onde um jovem arquiteto busca conforto espiritual em uma igreja, após três dias de pesadelos depois de ler "O rei de amarelo" e vai percebendo de maneira paranoica que o organista o vigia e tenta se aproximar com ares de ódio, O conto que segue é "O emblema amarelo" que narra a história de um pintor e sua modelo preferida, que após encontrarem o malfadado livro, percebem que estão sendo observados por um vigia da igreja que é descrito de forma monstruosa e acabam entrando em uma espiral de loucura . Por último temos diversos trechos da suposta peça presente no livro maldito reunidos no conto intitulado "O paraíso do profeta", que fecha o pequeno deslumbre que temos do estranho universo criado por Chambers.

Se eu posso dizer algo sobre esse livro é que ele cumpriu sua missão de causar estranhamento, pelo menos em mim. Suas histórias contendo um mistura de situações e sentimentos, somadas a uma irregularidade de ritmo e ao estilo de escrita do século XIX, por vezes me deixaram confuso, mas cumpriram seu papel de apresentar um terror que busca ser como algo que não pode ser alcançado pela compreensão humana, tanto dos personagens que sofrem com a maldição, como pelo leitor que se vê envolto a situações que mal consegue conceber.
Penso que "O rei de Amarelo" seja a semente ocidental da ideia de terror que ganhou fama através dos filmes japoneses, onde os personagens são amaldiçoados e não há forma de escapar ou de redimir, pois o que lhes envolveu é maior do que eles e seu entendimento, algo que ganhou força por aqui com filmes como "O chamado", "O grito" e recentemente em "Corrente do mal".




Quanto as histórias que compõe o livro, a edição brasileira da editora Intrínseca parece acertar na disposição dos contos, pois consegue nos apresentar toda a mitologia em uma crescente através da ordem desses contos. "O reparador de reputações" me pareceu confuso a principio, pois joga o leitor sem paraquedas no meio de uma trama que mistura muitos elementos, se passando em um futuro (em relação ao livro) onde Judeus e negros foram banidos da América e os EUA lutaram contra a Alemanha pelas ilhas Samoanas, tais acontecimentos só ganham uma forma de explicação na última linha, quando a sanidade do narrador é colocada em xeque, remetendo aos contos de Lovecraft e a ideia de que uma verdade poderosa pode tornar instável a razão de quem a contempla. Já "A máscara" traz uma carga muito pesada de romantismo e tem um desenvolvimento lento, que torna quase oitenta por cento da história, muito mais uma trama sobre um triângulo amoroso do que uma história de terror e isso é bem chatinho, embora tente recupera ao final um pouco do que é apresentado como intenção inicial da história. Por outro lado, os contos "No pátio do Dragão" e " O emblema amarelo" são meus dois contos preferidos de Chambers, neles o terror da maldição do livro são muito bem demonstradas e o clima crescente de medo e insanidade muito bem desenvolvidos; posso citar por exemplo a observação paranoica e toda a descrição de fuga e pesadelo que o protagonista de "No pátio do Dragão" faz ao contar de toda sua aflição ao se sentir perseguido pelo tocador de órgão da igreja onde buscava conforto após ler o livro amaldiçoado, ou os detalhes presentes no desenvolvimento de "O emblema amarelo" e que vão sendo citados lentamente em uma espiral de loucura e desespero que envolve um pintor e sua modelo preferia após contato com o livro e o emblema amarelo; estes dois contos ainda tem em comum o final que não permite nenhuma ilusão de esperança ou redenção.

Além dos cinco contos que tratam da mitologia amarela, o livro ainda trás mais cinco que não tem ligação com nada e parecem estar presente apenas para apresentar um pouco mais do talento do escritor. No entanto entre estes, existe um que se destaca por flertar com o sobre natural e o estranho, que é o intitulado "A Demoiselle d'Ys", onde um jovem apresentado como Robert, o estranho, sai para caçar e conhece uma garota que o leva para seu castelo e apresenta seus amigos e parentes, um clima surge entre os dois e no final uma revelação surge para deixar tanto o leitor, quanto personagem de queixo caído.


Pela construção de uma mitologia que inspirou grandes escritores, além de proporcionar um estranhamento e flerte com o sobrenatural semelhante ao presente na série "True detective" considero "O rei de Amarelo" um leitura obrigatória para quem busca saber como grandes universos de fantasia e suspense são criados, que a editora intrínseca disponibilizou por um preço acessível em nosso país para se ter na estante em lugar de destaque . Uma obra de terror que utiliza de sutilizas e até futilidades para colocar o leitor frente a algo que não pode ser explicado ou se quer compreendido, uma viagem sem volta até as assustadoras torres de Carcosa e aos gelado lago de Hali, onde os céus pendem estrelas negras por de trás da lua azul, na morada da morte e das almas perdidas, onde o rei de amarelo sussurra das trevas com voz de trovão, "Horrenda coisa é cair nas mãos do deus vivo" enquanto se mergulha nas profundezas.


               Fechando com a abertura de True Detective para tirar o amargo da boca

domingo, 26 de junho de 2016

O ORFANATO DA SRTA. PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES ( O livro)

Não sou muito de ficção fantástica. No meu currículo tenho apenas os livros e filmes do “Senhor dos anéis” e a série “Game of Thrones”, mas não desprezo o gênero e se surge algo que chame minha atenção vou buscar conhecer. Foi por essa curiosidade que comecei a ler “O orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs, logo após de assistir ao trailer do filme baseado na obra que sairá este ano e ver estampado na capa da edição brasileira, que o livro foi eleito uma das cem obras mais importantes da literatura de todos os tempos.

O livro conta a história de Jacob Portmann, um garoto de dezesseis anos, rico e entediado, que tem o avô, um veterano da segunda guerra, como grande amigo e ídolo. Desde criança Jacob ouve as histórias de seu avô sobre a ilha mágica onde foi criado, repleta de crianças com dons fantásticos (ou peculiares) e protegidas pela dedicada Srta. Peregrine, um lugar no país de Gales, onde ninguém adoece ou morre; ouve também relatos sobre monstros terríveis que caçavam essas crianças. Com o passar dos anos, Jacob passa a tratar as histórias de seu avô como fantasia e acreditar em sua senilidade, até o dia em que recebe uma ligação desesperada deste dizendo que os monstros o acharam, parte ao seu auxílio, por achar que é um ataque de loucura e o encontra morto na floresta, com marcas de ataque de animais, mas em meio a tudo visualiza uma criatura semelhante à descrita a ele nas histórias que ouvia quando criança.

Após meses de acompanhamento psiquiátrico, Jacob descobre na casa do avô falecido cartas remetidas do país de Gales e convence seu pai a acompanha-lo até a ilha onde o avô se refugiou quando criança, na esperança de descobrir mais sobre o passado deste. Nisso ele acaba encontrando algumas destas crianças e as perseguindo, encontra uma passagem secreta na ilha, onde quem passa volta no tempo para o dia 3 de Setembro de 1940, lá ele encontra a Srta. Pergrine e suas Crianças, enganando o tempo em um eterno dia que nunca passa e vivendo eternamente longe dos olhares dos humanos. Mas mal Jacob tem tempo de conhecer toda história do avô e já se vê envolto em um conflito maior que ele, os Acólitos e os Etéreos (os monstros citados por seu avô), estão sequestrando todas Ymbrynes (guardiãs das crianças e que manipulam o tempo) para executarem um plano que os tornarão cheios de poder e imortalidade e com a ajuda de Jacob, as crianças vão buscar se defender e frustrar as expectativas dos monstros.

Não vou mentir para ninguém aqui. Eu peguei esse livro para ler por duas questões em especial: O título e o selo na capa dizendo que era uma das cem obras mais importantes da história.
O título do livro faz total menção à “Escola para jovens superdotados do Professor Xavier”, do mesmo modo que as criança “peculiares” não são diferentes dos mutantes presentes nos X-men e esse conceito copiado é tão claro até no nome que o autor escolhe para designar os inimigos desses peculiares, “Acólitos”, o mesmo nome dos seguidores do mutante rebelde Magneto. O pensamento dos acólitos de Ransom Riggs também não é diferente da forma de pensar do arqui-inimigo dos X-men, acreditando que os peculiares são superiores aos humanos e que devem governa-los, enquanto as ideias das Ymbrynes, seguem as do professor Xavier, pregando uma convivência pacifica, mas se resguardando e protegendo dos olhares curiosos dos humanos.

Ainda sobre cópia de conceitos, o livro tem fatos que parecem ser referir a Harry Potter. Para começar temos o sobrenome do protagonista, Portman, total referência ao protagonista da obra de J.K Rowling. Além disso, ainda temos a questão de que as crianças peculiares se escondem em uma fenda no tempo onde apenas quem é peculiar pode atravessar, tal qual a conhecida dos bruxos em Hogwarts, mas não dos trouxas, e, para terminar, Jacob é o escolhido que salvará os peculiares e derrotará os Etéreos (excelente!).
Sobre o fato de o livro ser escolhido uma das cem obras literárias mais importantes de todos os tempos, eu fico pensando quem escolheu? Em um mundo com obras de Tostoi, Dostoieviski, Machado de Assis, Jorge Amado, Phillip K. Dick, Isaac Asimov, Clarice Lispector, J.K Rowling, entre tantos outros, quem escolheu um livro cheio de conceitos copiados e história rasa, como uma obra que merece estar no mesmo nível desses autores que foram infinitamente mais relevantes e nos entregaram trabalhos, se não geniais, pelo menos brilhantes?

Realmente não entendi o que nesse livro o colocaria entre os cem mais da história. Para começar a única inovação é o fato de o autor introduzir fotos dos personagens no livro e o curioso é que descobrimos ao final que as fotos apresentadas são reais e antigas, cedidas por colecionadores que colaboraram no projeto, o que faz pensar que a história é uma colcha de retalhos baseada em imagens e conceitos que não são de quem escreveu. Já falando como é escrito, o autor não inova em nada, usando uma narração em primeira pessoa, o protagonista inicia a história dando a entender que os acontecimentos citados são lembranças e isso tira bastante peso dos perigos que acontecem com ele, o pior é que por vezes o protagonista usa analogias e referências que não fazem sentido na boca de um moleque de dezesseis anos, como quando ele diz que uma situação se assemelhava a uma pintura de Normam Rockwell, ou ainda quando ele descreve o rosto da peculiar Emma como sendo Belo e alvo... Poxa!! Quem está preso no tempo são os peculiares e não ele.

Sobre o protagonista, o Sr. Portman é um babaquinha, humilha o único amigo que tinha em sua cidade e não se arrepende, descreve o próprio pai como um fracassado e mãe uma esnobe, o autor ainda o coloca como um rico herdeiro de uma rede de farmácias, para facilitar o fato de o chatinho ter de atravessar o mundo para encontrar seu destino. Ele descobre, depois de mais de noventa páginas, que também é um peculiar e seu poder é ver os Etéreos... ou seja, seu poder é o mais inútil e específico do mundo e mesmo assim ele é o escolhido... Por favor, senhor escritor, por favor!!
Sobre a trama, tudo parece muito bobo. Começando pelos vilões que segundo o que e contado, eram peculiares que tentaram se transformar em imortais e acabaram se transformando em monstros. A Sr. Peregrine conta que se esses Etéreos comerem muitos peculiares (com a boca), transformam-se em Acólitos, que são visíveis e tem forma humana, exceto pelo fato de não possuírem pupilas e conseguem se transformar em outros humanos e ... só! Ajudando os outros Etéreos que ainda são monstros a caçarem mais peculiares, para depois... Viver como humanos sem pupilas, eu acho.
novela Olho no olho
Mas o pior são as Ymbrynes, para mim as verdadeiras vilãs da história, Elas tem o poder de manipular o tempo e fazer com que os peculiares que se escondem lá vivam para sempre, mas repetindo eternamente o mesmo dia, tendo a mesma idade (a maioria pré-adolescente) e sem perspectiva de nada, o pior é que, se depois de muito tempo o peculiar resolve viver no tempo real, ele envelhece tudo de uma noite para o dia, podendo morrer no processo... Não é sacanagem?! Quem tomou a decisão de trancar essa criançada lá? E o mais importante, se a maioria dos peculiares está escondida em fendas temporais e vivem coo crianças, como eles se reproduzem? ... Quer saber?! Deixa pra lá!


Com uma história boba até para o público alvo, com conceitos copiados e personagens pouco carismáticos “O orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs, entra para minha lista de livros que poderiam ser bem mais e são mais do mesmo. Uma repetição de clichês e decisões de roteiro que parecem tratar quem lê como um idiota, uma mistura de Harry Portter e X-men que saiu estragada e o pior é que o livro é o primeiro de uma séria, afinal, a tradição é escrever três, seis, nove livros da mesma saga, pois se não for assim, não é Fantasia, mas pra mim um já foi de mais, se é para perder meu tempo com crianças para normais, que sejam as originais do Professor Xavier, ou os  da novela “Olho no olho” da Globo.


Abaixo o Trailer dos Novos mutantes, digo Orfanato da Srta Peregrine

  

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O CANTO DA SEREIA (A série x O livro)

A rede Plim-plim vem fuzilando seus telespectadores com todo tipo de produção para tentar voltar a ser a primeira e principal opção de entretenimento do país. De tanto em tanto tempo somos apresentados a novos programas de "humor" (com muitas aspas), dia-a-dia das celebridades, remakes de novelas que marcaram época, Realitys e mini-séries. Quase todos esses projetos são esquecíveis, quando não ignorados durante a própria apresentação, no entanto, por vezes a emissora acerta no ponto oferecendo diversão, qualidade e originalidade, surpreendendo muita gente e deixando quem assiste com um gostinho de quero mais. Um desses casos foi a mini-série "O canto da Sereia", exibida em 2013 sob a direção de José Luiz Villamarim, estrelada por Ísis Valverde e Marcos Palmeira e baseada no livro homônimo de Nelson Motta, que me senti obrigado a ler após assistir a série e que me fez mergulhar novamente naquele universo.

O que acontece?

Carnaval, Salvador. A estrela do momento, Sereia, sacode as ruas da capital baiana do alto de seu trio-elétrico, disfarçado como convidado junto à banda que a acompanha, Augustão Matoso chefe de segurança do Trio a acompanha de perto, uma forte chuva cai e refresca os foliões que se encontram em êxtase, no auge da festa, em meio a raios e trovões, uma bala corta o ar e acerta o coração da cantora, transformando o dia da maior festa popular do Brasil em uma data de luto e ecoando por toda Bahia com a pergunta: Quem matou sereia?

O mote da história é bem simples e remete as histórias de detetives. Ocorre o assassinato e o chefe da segurança da cantora, Agostinho Matoso, vulgo Augustão (interpretado por Marcos Palmeira na série), contratado pela empresária da Cantora (Mara Moreira, vivida por Camila Morgado) começa a investigar o caso em buscas de respostas e atrás de uma misteriosa agenda que suspeitam conter uma série de segredos capazes de comprometer figuras relevantes da sociedade baiana. Durante as investigações Augustão vai formando um perfil de quem realmente é a cantora através do testemunho de quem a cercava e da descoberta de segredos que vão se revelando dos lugares menos imaginados, apresentando não só a verdade por trás do assassinato ou da personalidade da vítima, mas também os segredos e maquinações da industria música responsáveis pela criação de uma pop star.

O que tem de bom?

A série me pegou desde o início pelo tema e originalidade na TV aberta. Sou uma dessas pessoas que se cansou do "cine favela" que o cinema brasileiro se transformou depois do sucesso de "cidade de Deus" e que não suporta mais releituras de fatos históricos, então qualquer coisa que fuja desses dois temas já ganha pontos comigo e uma história de detetive, que busque ser realista sem ser chocante demais e não abraça com força os clichês, me pareceu tão original que me prendeu na cadeira aguardando que cada segredo fosse desvendado.
capa do livro
Como eu disse, a trama é simples, mas a construção de como ela é desenvolvida é o ponto alto. No melhor estilo Alan More somos apresentados a vítima que faz a ação correr através de flashbacks narrados por quem fazia parte de sua vida e assim temos uma ideia de sua sensualidade através do depoimento de seu ex-namorado Paulinho de Jesus, do poder de sua sensualidade e carisma pela boca de seu maior fã conhecido como "Só love", de sua frieza e temperamento pela boca de Mara Moreira, de sua ambição através de seu marqueteiro Tuta Tavares e de suas tristezas e dores pela boca de sua mãe de santo Marina de Oxum. Esses depoimentos pontos de vista são entrecortados pelas investigações e o cotidiano de Augustão, onde somos apresentados a vielas e mercados da Bahia, pontos turísticos e ruas simples que vão desenhando tanto as características da cidade de Salvador, como o ambiente que proporciona aos personagens serem o que são.

No tocante a ser o que se é, Augustão, personagem de Marcos Palmeira se apresenta como um protagonista para se guardar na memória. É um herói moderno e portanto está longe da perfeição, muito pelo contrário sua tendencia a pequenas falhas dão a ele um ar verossímil, se acredita que seu modo de ação seja a tentativa e erro, muito mais como um repórter xereta (como ele é no livro) do que como um investigador particular no pior estilo dos filmes ingleses; tanto que gostei mais do personagem da série, que era menos forçado e mais simpático do que o do livro, que apesar de estar no meio de tudo e conhecer a todos não convence cem por cento. O mesmo ocorre com a própria sereia, que na série é interpretada por Isis Valverde e que dá um show de sensualidade e carisma. Enquanto no livro a personagem parece uma boneca moldada pelo marketing e publicidade, que tem seus mistérios revelados até um limite, mas que por vezes lembra só alguém desequilibrado, na série ela me pareceu mais dona de si e focada em seus objetivos e por vezes tendendo à autodestruição como uma estrela do rock das antigas, personalidade que nos faz acreditar no carinho de seu fã clube e impacto que sua morte causa no país.


O que difere o livro da série?

Falando em diferenças entre o livro e a série, existem algumas que no livro são melhores e outras que na série são superiores. O fato de Algustão ser solteiro e sem filhos na série torna a trama mais ágil para ele, no livro ele tem um casamento fracassado e é pai de duas filhas, só que tanto sua mulher como suas filhas passam o livro todo no Rio de Janeiro, sendo apenas mencionadas (e o livro se passa no carnaval...meio caro ir para o Rio e depois voltar para Salvador) qual a utilidade delas então? Por outro lado, o livro trás um Augustão que além de tudo é repórter e escreve pequenos artigos com um pseudônimo se dizendo correspondente nordestino, que na verdade são engraçadas ou violentas Fanfics baseadas nos casos que ele desvenda como bico e essa veia jornalística explica muito mais da personalidade do personagem do que um desejo obsessivo de procurar a verdade, mas não a revelar, assim como esclarece seus contatos na busca de informações sigilosas da polícia e envolvidos.
Augustão
Outra diferença é a relevância de mãe Marina de Oxun. Entre o livro e a série existe muita diferença nesse personagem, para começar pela etnia, pois enquanto na série a personagem é branca (representada por Fabiula Nascimento), no Livro ela é descrita como uma negra da cor da noite, o que faz muito mais sentido por se tratar de uma mãe de santo baiana. Outra diferença é sua personalidade, que no livro é muito mais sublime e decidida, ignorando mesmo a traição de Sereia com seu Marido e se colocando acima de muitas questões mundanas, embora se revele uma mulher normal e comum fadada a paixões e ao amor nos capítulos finais, o que na série fica muito aquém com seu amargor transbordando através de olhares lacrimejosos, dúvidas confessadas a suas ajudantes e o medo que o romance com Paulinho de Jesus trás no final.

Spoiler
A maior diferença que existe entre a série e o Livro é o assassino. O que é notados por quem conhece as duas mídias da obra, pois o assassino do livro não está na série e vice-versa e tenho que dizer que o assassino da série é bem mais crível que o do livro. Na série o assassino é o fã numero um de Sereia, conhecido como "Só love" e seu motivo é justamente esse amor que ele tanto ostenta, sabe-se depois pela boca do próprio personagem e se confirma através e laudos médicos, que Sereia estava em fase terminal de câncer no cérebro e pediu para que "Só Love" dar fim a seu sofrimento de forma inesperada e secreta, para que não visse ela morrer sofrendo em uma cama de hospital e vítima da piedade e boa vontade dos outros. Já no livro, que aperta o gatilho que da fim a seu sofrimento é um amigo de Paulinho de Jesus e que, fugindo da cadeia, se abriga no terreiro de mãe Marina, mudando de nome e de vida, passando a ser uma especie de faz tudo e filho de santo da mesma e, que ao ajudar a personagem tema acaba por contar seu passado e se compromete a ajuda-la para não a ver sofrer, o que não faz muito sentido pelo caminho que o mesmo resolve tomar quando se abriga no terreiro e como o autor o descreve, sendo alguém que realmente resolveu mudar.


No entanto, nenhuma das diferenças entre a Série e o livro diminuem um ao outro, apenas dão visões diferentes da mesma história e mais possibilidades de diversão e finais alternativos. Ambas as obras existem e são competentes no que se propõem sem precisar se apoiar uma na outra e esse é o grane mérito das duas, tanto a série quanto livro são duas grandes obras, divertidas e originais que valem a pena ser visitadas, uma viagem as ruelas antigas de salvador e ao mundo da industria musical brasileira, com aquele charme de caso de detetives noir, matéria jornalística e tempero Baiano.
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A PRO

Voltei a ler quadrinhos. Há bastante tempo que não fazia isso direto e não queria começar com as edições mensais já de saída, então resolvi pegar alguns que fugissem um pouco do padrão e do estilo já estabelecido e tendo isso como guia, resolvi por matar a curiosidade de ler algo do Garth Ennis que não fosse o aclamado "Preacher" (que já aproveito para dizer que não sou o maior fã), assim escolhi "A Pro", roteirizado por Ennis e desenhado pela Excelente Amanda Conner. E não é que o bendito roteirista me surpreendeu! Enquanto meu filho e enteada assistiam à "cúmplices de um resgate" tive um divertido final de tarde dando muita risada da zoação ácida que Ennis faz com os super-heróis.


A HQ conta a história de Pro, uma prostituta de rua, especializada em gato-bola, que tem um filho recém nascido e vive na merda. Ela é observada por um alienígena que se intitula de "O inspetor", o qual aposta com seu fiel robô assistente, que qualquer pessoa tem as qualidades para se tornar um herói e assim lhe concede poderes e a indica para a "liga da Honra" para os ajudar a combater o crime, no entanto, sua personalidade, boca suja e visão do mundo real vão se apresentando como os maiores desafios tanto para seus novos companheiros, quanto para ela.

O que mais gostei em "A pro" é o fato de ser uma história ágil, não tem aquele lenga lenga desnecessário para te fazer comprar dez edições, além disso, a história é muito engraçada e suja, a personagem realmente transmite aquele olhar de sarcasmos e desesperança de alguém que veio da pior merda possível e tudo que ganhar é lucro. A protagonista é sempre mostrada como estivesse de saco cheio, com cara de cansaço, fumando e nos poucos momentos em que ela parece estar relaxando é quando está sentada no vaso e grande parte desse efeito transmitido se deve aos desenhos de Amanda Conner, que consegue apresentar em um tom cartunesco, um mundo que tem a presença de super-heróis (mesmo que toscos) mas que as misérias e a dureza estão expostas como ,no caso, na vida de merda de uma prostituta de rua.

A liga da honra merece um parágrafo. Garth Ennis, que odeia trabalhar com super-heróis (e isso fica claro quando lemos outros de seus trabalhos, em destaque "The Boys"), não tem a menor vontade de esconder que aquela ali é a liga da justiça da DC, ali encontramos o Santo, que é a versão do Super-man, mas que trás até no seu alter ego a timidez e inocência de um Clark Kent da era de ouro; temos o cavaleiro e seu fiel ajudante o escudeiro, versão de Batman e Robin, onde o escudeiro é sempre retratado ou agarrado as pernas de seu mentor ou sendo encochado por ele, dando forte referência a homo sexualidade da dupla; a Dama, que seria a mulher maravilha que se revela com tendências lésbica; O veloz que seria o Flash trajando apenas cuecas e um suspensório e o Lima como a versão do lanterna verde John Stwart e falando feito um mano. Todos eles são retratados tão cheios de si, tão focados apenas no seu mundo que cabe a protagonista, como toda sua falta de sutiliza e sensibilidade esfregar o quanto eles são uma piada e essa é uma das grandes partes da HQ, quando a Pro começa a apontar os defeitos de cada um e questionar para quê se precisariam de heróis que não são eficientes, o humor negro impera e é muito bom.

Ainda sobre a "liga da Honra", embora , aparentemente, a intenção do autor seja realmente tirar sarro do ícone, que deveria ser um exemplo de perfeição, mas que de perto se apresentam como um bando digno de risos, quando buscamos fazer uma leitura mais profunda da história, podemos relacionar esses ícones com nossos líderes , tanto políticos como os sociais, tais como os chefes do trabalho ou lideranças religiosas, que estão focados tanto em seu ponto de vista em relação a sociedade e seus interesses, que por vezes não conseguem enxergar como um igual quem os rodeia ou quem sofre com suas decisões. Levando isso em consideração, o fato de "A pro" ter uma origem e interesses bem diferentes da liga da honra a expõem à desconfiança e subtrai sua credibilidade por parte de seus colegas, o que faz com que ela apenas reafirme sua personalidade e erros recorrentes de sua vida, até que uma decisão feita em um momento crítico a faz se tornar a heroína que o Inspetor acreditava que ela seria.


Achei a história bem bacana. O enredo é simples, mas é original pelo atrevimento e sujeira contido nele; Garth Ennis me surpreendeu, porque eu não conseguia mais desvincula-lo ao roteiro de "Preacher" (que já falei que não gosto muito e um dia eu explico porquê.) e do "the Boys". O desenho é muito bem feito, chamando a atenção tanto pelas formas caricatas como são apresentados os super-heróis, quanto pelos detalhes sórdidos que podemos ver em segundo plano em alguns quadros da história; as cores forma bem escolhidas para transitar entre um universo de fantasia das HQ's e a sujeira da vida real e a agilidade da história torna tudo divertido e leve (até ali né). Uma história engraçada, crítica, ácida e suja, que eu deixo aqui como dica, para quem gosta de quadrinhos de super-heróis e principalmente para quem não gosta e quer dar boa risadas.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

BLADE RUNNER : O livro x O filme


Duas semanas de chuva e, Quando não chove, é tão úmido que verte água do chão e paredes . Nas ruas, carros da polícia e ambulância passam correndo com suas sirenes pedindo passagem ,sem contar da névoa que, a noite, deixa tudo invisível, transformando o trânsito em lentas filas quilométricas. Foi nesse clima apropriado, gentilmente proporcionado por minha cidade, que terminei de ler “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, livro que inspirou o filme “Blade Runner” do diretor Ridley Scott .O que se pode adiantar é que o livro não é tão profundo como outras obras do autor como “O homem do castelo alto” ou “ O homem duplo”, mas apresenta uma distopia bacana (se é que se pode chamar uma distopia de bacana) que possui camadas pouco ou não exploradas no filme, que se compreende melhor ao sermos apresentados através da leitura do que da mídia visual, do mesmo modo que o roteiro enxuto do filme nos foca em uma situação e ambiente impares, objetivo demais para um livro , ou seja, ambos se completam e expandem o universo da obra, de maneira que comparações e diferenças merecem ser comentados.

LOS ANGELES - 2019
  O filme “Blade Runner” é o maior referencial de ficção científica no cinema para quem nasceu nos anos oitenta. Lançado em vinte e cinco de Junho de 1982 (No dia em que eu completava um ano!), estrelado por Harrison Ford , que vinha em uma crescente após o sucesso de “Indiana jones “ e dirigido por Ridley scott, que ganhou fama com o sucesso de “Alien”, o filme criou uma grande expectativa quando anunciado, porém , problemas com atrasos nas filmagens, que tiraram o projeto das mãos do diretor e colocaram nas mãos dos produtores e publicidade equivocada, que vendia o filme como um filme de ação pura, transformaram o filme em um fracasso de bilheteria .No entanto, o tempo se encarregou de torná-lo cult ,devido aos fãs que conseguiu nesses trinta e dois anos que se seguiram, tendo em mim um representante fiel. Assisti a “Blade Runner” pela primeira vez no supercine, nos anos oitenta pesados,eu devia ter uns sete ou oito anos e a rede Globo era a única alternativa da época, lembro que não entendia quase nada da trama, chovia o tempo todo e a música, em grande parte, era semelhante a um gato no cio; mas os carros voando e a caçada aos fugitivos chamaram minha atenção de criança ;anos depois, por volta dos vinte anos revisitei o filme, já com uma carga razoável de cinema e percebi um filme mais denso, que utilizava do estilo noir para colocar em destaque ideias sobre o valor da vida e o que é considerado real, assim como os princípios e motivações do caçador e seus alvos, visão que mantive vendo o filme novamente a poucos dias, porém ciente de se tratar de uma distopia e as consequências da situação e ambiente onde estavam inseridos os personagens e conhecedor dos assuntos recorrentes da literatura de Dick, como a dúvida quanto a realidade, vida e escolhas .
Rick Deckard : vamos a caçada
  A trama do filme conta a história de Rick Deckard, um ex-caçador de recompensa do departamento de policia de Los Angeles (conhecidos como Blade Runners) , que é reativado após outro caçador ser vítima de um atentado por um Nexus-6 ( androides /escravos das colônias espaciais) durante um teste de identificação ;é lhe dada a missão de substituir seu colega e informado que se tratam de androides que se rebelaram e mataram a tripulação de uma nave e fugiram de uma colônia espacial para a terra, sendo originalmente seis, tendo dois deles morrido ao tentar invadir a corporação Tirell ( empresa criadora e fornecedora desse modelo de androide) ,e quatro ainda vagando pela cidade oferecendo perigo a população. Em sua busca, Deckard contará com o auxilio do investigador Gaff e de Rachel Tyrell (uma androide propriedade da corporação que possui as lembranças da sobrinha do dono da mesma) e daí se desenrola a história.

O livro tem um cenário um pouco diferente, mostra um mundo devastado por uma guerra nuclear, onde a poeira radioativa transformou parte da população em “especiais”, pessoas afetadas pela radioatividade que tiveram seu intelecto e capacidades diminuídas e por isso, são proibidos de migrar para as colônias espaciais e de terem filhos, a propaganda para essa migração é constante (embora pouco se fale de como as pessoas vivem nessas colônias),Os animais foram quase extintos o que deu origem a uma nova religião o Merceanismo, que tem como coluna dorsal o apresso por toda a vida e obriga, através da pressão social, que cada ser humano possua e cuide de um animal, sendo essa posse o simbolo de status e sinônimo de fé na religião que ajudam os indivíduos a terem destaque e sonharem em crescerem na sociedade apresentada, do mesmo modo, os androides são doados a cada pessoa que se voluntariar para colonização espacial, sendo esses androides (de inteligência e aspectos humanos, embora sem a empatia) considerados coisas não vivas e tratadas com desdem e repudio na terra. É nesse ambiente onde vive Deckard, que, no livro, é um caçador de recompensas ligado a delegacia de San Francisco e que é incumbido da aposentadoria (eliminação) )do grupo de androides fugidos de marte(nessa versão), após o caçador responsável (e considerado melhor) ser ferido em ação; Deckard aceita a tarefa por passar por um momento difícil, a ovelha que lhe foi dada por seu sogro (no livro ele é casado com Iran, uma dona de casa) morreu , sendo ele obrigado a substituí-la por uma imitação elétrica,o que significa um desrespeito ao Mercerianismo e repulsa social, sendo a recompensa pela caçada dos androides o valor necessário para a aquisição de um animal de verdade.

Rachael Tyrell - existe sentimento?

  No livro, os aspectos social e religioso são muito mais presentes. Socialmente a posse de um animal é tudo que alguém que pensa em galgar degraus sociais precisa, tanto que lojas de animais são citadas como grandes corporações e o catálogo mensal da “Sidney’s”( revista mensal que atualiza o valor de cada animal à venda ) é item obrigatória a todo ser humano, esse desejo pela posse de um animal explicaria o dialogo entre Rachell e Rick , quando o segundo vai até a fundação Tyrell no filme ( fundação Hoden no livro) e lá se encanta com uma coruja, é nos dito ali o motivo daquele encanto, pois os pássaros foram as primeiras vítimas da poeira radioativa sendo esses animais totalmente extintos ( o que impossibilitaria a pomba nos braços de Roy batti em sua cena derradeira no cinema). Porém, vai se percebendo com a leitura que valor da vida fica em segundo plano, um animal é visto e explicado, tal como em nossos dias se fala de um carro ou de uma casa recém-adquiridos ou seja, um simbolo de status e referencia ao grupo, são substituíveis e são feitas trocas e compras dos mesmos, o que mostra o cinismo doa adeptos da religião vigente; além disso, o repudio aos androides, que são criaturas orgânicas engenhadas, mas que são vistos como meras ferramentas e tratados como se possuíssem menor valor do que um animal elétrico, mostra a pouca percepção da ideia de vida e a declinante empatia presentes na sociedade mostrada .

Outra camada que não é apresentada no filme é a derivada da religião. Presente em grande parte dos livros de Dick, nesse em especial ela encontra um papel de destaque através do Merceanismo, religião fundada por Wilbur Mercer e que além do respeito e cuidado com toda a vida, busca a unidade da consciência humana através do culto que utiliza da “caixa de empatia”, equipamento que unifica toda a consciência humana que a utiliza no mesmo momento em um só ser, a fim de reviver o caminho de provação vivido pelo profeta até alcançar seu ápice de consciência. Mercer é a linha que costura a trama, suas ideias são o que mantem a sociedade terrena viva (embora pouco sã) dando a possibilidade de “especiais” (ou cabeças de galinha, como são chamados pejorativamente) e humanos normais compartilharem experiências e sentimentos entre si, simulando uma interação social empática que se torna um alívio as pessoas nessa distopia .Essa experiencia empática é o principal diferenciador entre humanos e androides, já que os segundos não possuem a capacidade de se colocar no lugar dos outros e se importarem com o sofrimento e dor alheia, ou se alegrarem com a presença e realizações de terceiros, o que lhes limita como sociedade; no livro essa é a razão para revolta de Roy Batty , que rouba drogas alucinógenas e para ligação empática para tentar buscar uma união de consciência entre androides, imitando o culto de Mercer.

Roy Batty - liderança guerreira e religiosa

O que mais chama a atenção são as diferenças entre os personagens do livro e do filme, desde o protagonista até a coadjuvantes periféricos. O Rick Deckard do filme é citado pelo capitão Briant como o melhor “blade runner” que já existiu, no entanto no livro ele é apresentado como um caçador medíocre e que só entra no caso pela impossibilidade do colega ferido; além dele não ser um solitário e outsider , é casado com Iran, mulher com quem compartilha de desejos sociais comuns e busca destaque social através da compra de um animal verdadeiro, sendo um caçador de recompensas , desde sempre, ligado a delegacia de San Francisco e que não possui questionamentos sobre a ética e frieza presentes em seu trabalho. No filme, os androides contam com a ajuda de J.F Sebastiam, um engenheiro da corporação tyrell , que sofre de envelhecimento precoce , para alcançarem o dono da empresa que os construiu, no livro o personagem que os abriga é J.R Isidore e é através dele que somos apresentados aos “cabeças de galinha” ou especiais, sendo ele um especial é motorista de caminhão de uma empresa de conserto de animais falsos que descobre Pris Stauton (uma dos seis androides foragidos, pois no livro são oito que fogem e seis são caçados), morando em um apartamento abandonado e oferece ajuda, entrando em contato com Roy Batty e sua esposa mais tarde ; muito do que é mostrado sobre a religião e sobre a personalidade dos androides é narrado pela ótica desse personagem. Mas que apresenta a maior diferença, sem dúvida é Roy Batty, enquanto no filme ele é apresentado como um modelo de combate, o que lhe daria traços de líder guerreiro, no livro ele está mais para líder espiritual,sendo dito que era um farmacêutico em marte que buscava a união mental dos androides e criação de uma sociedade paralela ao invés de mais vida como é buscado no filme. Por falar nisso, a busca por mais vida nem ao menos é citada no livro, Rachel Roden (Rachael Tyrell no filme), comenta com Rick que seu tempo útil é de quatro anos, mas isso não parece incomodar nem um pouco a ela ou a qualquer outro androide , talvez devido a falta de empatia até por eles mesmos. Existem alguns outros personagens e detalhes que o filme deixa de lado e que não fazem falta, como o fato de Pris Stauton (vivida por Deryl Hanna no cinema) ser do mesmo modelo de Rachel hoden, ou seja, ambas são idênticas; ou de Roy Batty ser casado com outra androide, de nome Imgrad, personagem que foi fundido ao Personagem de Hanna no cinema.


Penso que “Blade Runner” é um daqueles filmes que acabam sendo superiores a obra da qual é adaptada, do mesmo jeito que “O clube da Luta” de David Fincher, ele corta os excessos e foca na trama principal e questionamentos que derivam dessa. Mas a superioridade do filme não torna o livro é ruim, pelo contrário, o livro te insere e expande um universo que satiriza a nossa realidade, principalmente a realidade atual; ao simular o interesse das pessoas por símbolos que na verdade representam status ao invés de preocupação genuína (como o cuidado com os animais), ao precisar de estímulos externos para aguentar o cotidiano, como as máquinas que regularizam o ânimo da pessoa conforme seu desejo, semelhante aos ,cada vez mais usados, antidepressivos de hoje, ou a caixa de empatia, que busca a interação social e empática do indivíduo , como as redes sociais simulam; isso tudo torna o livro interessantíssimo, principalmente ao pensar que foi escrito nos anos sessenta. No entanto o filme consegue passar todo o clima de solidão e vazio que são a sombra do livro, apresentando o mesmo ambiente através da ótica de seus personagens sobre esse mundo cínico e devastado que se tornou a terra, mas sem precisar ir tão profundamente nas questões de passado e religião, o que aconteceu ,aconteceu e fica subentendido o que importa é a situação atual e as vezes já é demais. Em resumo , “Androides sonham com ovelhas elétricas?” é um livro obrigatório para quem é fã de Philip K. Dick e o filme “Blade runner” um marco da ficção científica que merece ser revisitado, e, caso você não tem nenhum sentimento pelo filme ou curiosidade pelo livro, não faça o teste Voight-Kampff ou será descoberto e aposentado.

Você será aposentado

sexta-feira, 20 de junho de 2014

"A síndrome de Copérnico" - dica de livro

Li  alguns meses atrás o livro “ A síndrome de copérnico” de Henri Loevenbruck, lançado no Brasil pela Bertrand . O livro conta a história de Vigo Ravel, homem de 36 anos, diagnosticado com esquizofrenia paranoide, que sobrevive a um atentado terrorista (por ler a mente de um dos participantes do atentado) e que devido a isso se obrigado a mergulhar em uma investigação atrás de respostas sobre uma possível conspiração , sobre o próprio passado e se a realidade e ambiente que os cercam são reais ou se todas as surpreendentes situações a que é exposto não são frutos de sua diagnosticada doença mental.
 O livro , embora grande, é divertido e fácil de ler, segue a linha de livros americanos que tem como seu objetivo contar uma história sem se preocupar muito com a forma. É um trhiller de ação misto de suspense, mistério e ficção científica e como tal agrada os fãs de todos esses gêneros, tanto que pelo estilo quase cinematográfico, que por vezes lembra um roteiro de filme de ação, não me surpreenderá se em alguns anos Vigo Ravel aparecer nas Telas de cinema
A “síndrome de copérnico “ que dá nome ao livro, é explicada por uma personagem da trama como sendo a ideia ,derivada da própria doença do protagonista, de que ele possuía uma verdade essencial a qual só ele tem total certeza mas que precisa expô-la ao mundo (ou, traze-la a luz, para não fugir do tema!) , tal qual Nicolau Copérnico, astrônomo e matemático Polonês, que desenvolveu a teoria do heliocentrismo , em oposição ao geocentrismo defendido pela igreja e aceita por todos como verdade inquestionável.

Fica a dica de leitura


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Se as obras literárias tivessem títulos politicamente corretos

 Na onda do politicamente correto levado à última instância , seguem algumas obras com os títulos que teriam, caso fossem lançadas nos dias de hoje :

"O cortiço" de Aluisio Azevedo, teria o título de "A comunidade" e seria eleito como livro de cabeceira da Regina Casé



 "Branca de Neve e o sete anões" receberia um título que colocasse a princesa dentro de seu grupo étnico correto e que não depreciasse os pequenos mineradores


 O Mesmo ocorreria com "Negro Bonifácio" de Simões Lopes Neto



A Idade da sabedoria e experiência também ganharia seu representante com a versão de "O velho e o Mar"



Depois de um tempo, o contexto nem importaria mais, como na capa de "O vermelho e o Negro"

E a obra de Dostoiévski, "O Idiota", se tornaria a bandeira e definição de uma época
















segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Bilionários por Acaso - A criação do Facebook

   Quando li no Judão que iriam fazer um filme sobre o facebook pensei: "estão jogando dinheiro fora", afinal ,o que tem de interessante para se falar sobre a origem de uma rede social? Ignorante dos fatos, só fui saber que o filme se baseava em um livro que contava a história dos bastidores, não só da criação de um site,  após ler o Post do Seiiti Arata na série "Homens que você deveria conhecer" do blog Papo de homem, Lendo o post, me interessei imediatamente pela história, principalmente ao saber que havia um brasileiro envolvido na criação da empresa, e ,antes de conseguir checar se tinha dinheiro para comprar o livro já havia feito o pedido para a livraria.
    Para Quem vê a capa do Livro "Bilionários por acaso, Criação do facebook", sem ler seu título, pode até imaginar que o livro trate de um imperador Romano,A capa trás a éfige de Mark Zukerberg, com seu rosto impassível mirando deus sabe o quê, no estilo das antigas moedas romanas; a capa já deixa claro que a história que será contada trata de algo grandioso, algo que transforma homens em lendas, e o que pode ser mais digno disso do que a criação de uma empresa bilionária?
   Escrito por Bem Mezrich ( quebrando a Banca), o livro é fácil e tem a cadência cinematográfica que é tradição norte-americana, às vezes lembrando a ironia de um Mark Twain, ora retratando o ambiente e glamour das festa da alta sociedade como um Scott Fitzgerald ( talvez não);baseado em entrevistas  com o brasileiro Eduardo Saveri ( o citado Brasileiro co-fundador),ex-amigo e ex-sócio de Mark Zuckerberg ,assim como em depoimentos de envolvidos com a história do facebook e de documentos presentes nos processos envolvendo a empresa e seus fundadores, o livro pinta com cores vivas a história de amizade, dinheiro e traição que fizeram a empresa e , principalmente Mark Zukerberg, chegarem onde estão; da Faculdade Havard, com seus clubes finais, o alojamento de Kirkland e a criação do Facemash ( episódio que quase causou a expulsão de Mark da faculdade), passando pela apropriação ilícita (para não dizer roubo) das ideias dos gêmeos Wiklevoss , a entrada de Sean Parker ( criador do Napster) como consultor , do investimento de Peter Thiel e da traição à Eduardo, até chegar ao ápice do sucesso .Não se trata de um conto de fadas, trata-se da história de um herói americano, na verdade um anti-herói, descrito como frio, impassível e brilhante; . É uma novela homenageando o "sonho americano", começar do nada e conquistar o mundo, custe o que custar.
    Ainda não vi o filme, que estreou este mês ,mas se ele seguir à risca o que o livro propõe deve ser um baita filme, ainda mais por ser dirigido pelo David Fincher ( clube da Luta) que para o meu entendimento está entre os 10 mais dos diretores mundiais. soube que deram uma porpurinada, turbinando a personalidade de Mark Zukerberg e a importância de Sean Parker, isso é normal, cinema é cinema; Espero ver em breve.
   Sobre o livro, o que eu tenho à dizer é que "Bilionários por Acaso" é um livro interessante e divertido, que prende o leitor e vale muito a pena ser lido.
 Indicado à quem duvida que " Amigos, amigos, negócios à parte"