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segunda-feira, 26 de junho de 2017

VIDA (2017)


Nesse contestado 2017 que já se encontra pela metade, ainda estou aguardando a estreia de alguns filmes que jogaram minha expectativa nas alturas desde que assisti aos seus primeiros trailers, mas enquanto estes não chegam, vou seguindo os conselhos do célebre cantor Latino e "se não encontro os filmes certos, me divirto com os errados!".

Pois fazendo tal qual esse genial músico brasileiro, que assisti nesse final de semana, "Vida", filme escrito por Rhett Reese e Paul Wernick, a mesma dupla responsável pelo roteiro de "Deadpool" e "Zumbilândia" e estrelado por Ryan Reynolds e Jake Gyllenhaal, que por pouco mais de uma hora e meia, não só matei (e matei mesmo) minha nostalgia em relação aos clássicos do "terror no espaço", como fui soterrado de referências destes.

"Vida" conta a história de uma equipe de seis astronautas enviados até a estação espacial internacional, para estudar uma forma de vida unicelular descoberta nas amostras de terreno retiradas de Marte. Essa espécime, que é batizada de Calvin, é composta de células fotossensíveis, tecido muscular e nervoso , ou seja, é simplesmente, músculos, olhos e cérebro e , cresce extremamente rápido. Em um acidente, o ser é dado como morto e reanimado pelo tripulante responsável, ao fato que reage com hostilidade e passa a atacar a tripulação. Resta agora aos sobreviventes, fazer o possível e o impossível para evitar que a criatura chegue até a terra.

Pois bem, há quem cante que "Vida, é um grito de gol, é um banho de mar, é inverno everão", mas quem não tem TV a cabo e é obrigado a assistir aos telejornais da Band, sabe bem que "a Vida bate forte,irmão!" e esse filme, reciclando os conceitos apresentados nos clássicos do cinema de horror espacial, em especial o primeiro "Alien", assim como muitos dos filmes de John Carpenter, onde o foco no desespero em encarar o desconhecido e a morte em meio a solidão dão o tom da trama , consegue mostrar de forma divertida (entenda "diversão" como quiser) todo terror que a vida pode nos reservar.


Pode-se mesmo tratar o filme como uma alegoria sobre a vida real, em que se seguindo ao meio do desconhecido, oscilamos por momentos de total expectativa e frustração, que podem ser seguidos de esperança ou terror em decorrência de nossas escolhas. E um fator que corrobora para essa mensagem passada, mesmo que de forma rasa pelo filme, são os personagens de Jake Gyllenhaal e Rebeca Ferguson, o primeiro um médico que trabalhou na Síria e que perdeu sua esperança na raça humana, mas que toma para si a missão de se sacrificar para evitar que a criatura chegue até o nosso planeta e destrua tudo o que ele não acredita mais e, a segunda, que é a responsável pelo isolamento do ser na nave, representa ideia falha de que estamos sempre preparados, mesmo para o desconhecido; isso sem mencionar a esperança, que é encarnada pelo personagem do cientista paralítico, que vê na descoberta da nova forma de vida, uma possível cura para seus problemas.

No entanto, o que vida trás de mais divertido são suas referências aos filmes antigos. A criatura rondando o grupo de viajantes espaciais, lembra o tempo todo "Alien" e não só pela aparência cheia de tentáculos que remete ao monstro do filme de Ridley Scott ao ficar presa no rosto do John Hurt o filme de 1979, como também pela ideia inicial de matar a criatura com um lança chamas e pelo fato desta entrar pela boca de uma das vítimas e crescer dentro dela, sem contar que, somando-se ao rato que serve como cobaia no laboratório da estação, o alienígena também é o oitavo passageiro.

Porém, o filme não consegue se sustentar além de suas referências e diversão violenta, devido a velocidade com que as coisas são apresentadas. Mesmo com uma hora e cinquenta, parece não haver tempo para que criemos elos com os personagens, sabendo muito pouco de suas histórias, relacionamentos ou expectativas e, quando estes começam a morrer, por maior que seja o sacrifício ou angustia em sua morte, acabamos por não nos importarmos com eles e isso diminui o impacto que os acontecimentos deveriam ter sobre o espectador.

Outra coisa que não funciona como deveria na trama é a criatura. Embora ela tenha um conceito extremamente interessante de ser feito para matar (músculo+cérebro+olhos e uma BAITA inteligência), está longe de possuir o carisma de um "Predador" ou de um "Alien", nem mesmo de causar o estranhamento que a criatura de "O enigma de outro mundo" consegue causar em quem assiste ao filme e isso faz com que o coloquemos no nível de uma ameaça genérica, o que , por um lado é bom, pois surpreende a tripulação do filme, que o subestima (e até a nós mesmos ao final do filme), mas o torna esquecível quando os créditos sobem.


Pois então, "Vida" é um filme mediano, mas que consegue divertir quem assiste devido a chuva de referências que trás e alguns momentos de tensão e terror que matam a saudades de quem, assim como eu, é fã do estilo. Não chega a ser um filme para ficar guardado na memória, mas não é totalmente esquecível, principalmente quando se pensa no final que mistura tragédia total com comédia nonsense (pelo menos eu achei isso). Com certeza não foi o filme mais certo lançado nesse ano cheio de expectativas, mas como um sábio me disse e já citei acima, "enquanto não encontro os filmes certos..." , segue a expectativa e que venham "Homem-aranha", "Atômica Blondie" e "Baby Driver" e que com estes, a vida não nos frustre ou aterrorize!!




sexta-feira, 23 de junho de 2017

CORRA! (2017)



Certa vez, li em algum lugar que a leitura de romances é um exercício de empatia, pois faz o leitor se colocar no lugar dos personagens, encarando, como se fossem seus, os problemas e situações apresentados na trama e, em consequência disso, quem lê mais, tem menos medo do próximo, porque adquire maior facilidade em vê-lo como um igual. Guardei esse argumento para mim e sempre que, em uma roda de amigos, eu citava um livro e alguém perguntava o porquê de eu ler tanto, dizia sem pestanejar: "É um exercício de empatia!". No entanto, não lembro de nenhuma vez em que tenha sido questionado por citar um filme, talvez porque o cinema tenha se transformado em diversão pura e simples, como se tivéssemos nos tornado mal acostumados pelas grandes franquias, blockbusters milionários e universos expandidos a não enxergar que o cinema, assim como a literatura, também é uma forma de nos colocar no lugar do outro, nos colocando como passageiros de suas experiências e, nos enriquecendo como pessoas.

Por sorte, de tempos em tempos, surge uma produção que nos lembra o verdadeiro poder do cinema, como é o caso de "Get out", ou como foi traduzido no Brasil: "Corra!", trhiller escrito e dirigido por Jordan Peele e estrelado por Daniel Kaluuya e Allison Willians, que estreou no Brasil em Maio, mas que só agora tive o prazer de assistir e que me deixou boquiaberto tanto com a história que conta, como com o que o filme conseguiu revelar sobre mim mesmo.

"Corra!" conta a história de Chris Washington, um fotógrafo (negro) que é convidado por sua namorada Rose (que é branca) para passar o final de semana em sua casa de campo e conhecer seus pais e irmão. Mesmo tenso pela diferença étnica e social que existe entre ele a a família da namorada, Chris aceita o convite e é extremamente bem recebido pelo casal de progenitores da namorada, Dean e Missy. Mas as coisas começam a ficar estranhas, quando ele se vê presente em uma misteriosa reunião na casa, contendo um grande número de pessoas da alta classe, todas extremamente interessadas em seu gosto por esporte, visão de mundo e constituição física, e tudo só piora, quando Chris percebe que as pessoas negras presentes no local (não mais de três, dois empregados e um jovem convidado que se veste como um senhor de idade) agem de maneira mecânica e artificial. Resta agora a Chris, tentar entender o que está acontecendo naquele lugar afastado e misterioso e, fazer o possível para dar o fora dali.


Brother! Que filmaço! Fazia um tempinho que eu não assitia a um filme que me prendesse na poltrona, com os dentes serrados de tensão e mergulhado no que está acontecendo em tela, méritos do roteirista e diretor Jordan Peele, que nos entrega uma história inteligente, que consegue ser pesada, sem deixar de ser divertida e até humorada quando necessário; resultado, não só do aparente background de cinéfilo, que o diretor parece ter, ao trazer conceitos que lembram os clássicos de Hitchcock, mas também seu histórico pessoal de escritor e ator de comédia, fatos que podem ser confirmados ao assistirmos um pouco de seu trabalho em seus antigos programas do canal "Comedy central", que expõem toda sua agilidade e competência como roteirista; no entanto, seu talento como diretor, exceto no filme "Keanu", uma comédia nonsense onde ele atua e co-dirige algumas cenas, sem fugir de seu terreno mais conhecido, nunca havia sido exposto como agora; uma grata surpresa em uma área cada vez mais carente de cineastas autorais e competentes.

Somando-se ao talento do diretor, outro fator que favorece o filme são as atuações, principalmente do protagonista, que é interpretado por Daniel Kaluuya e por seu par romântico a atriz Allison Willians. O ator britânico, já havia chamado minha atenção por seu papel em Black Mirror, principalmente por sua capacidade expressiva; o cara é craque em transmitir sentimentos sem precisar utilizar uma única palavra e em uma trama onde a suspense e a estranheza são ingredientes de destaque, um ator que consegue transmitir no olhar a perturbação e medo que sente, facilita o andamento da história de maneira visível. Já Allison Willians, de quem eu nunca havia ouvido falar, me surpreendeu pela naturalidade com que compõe seu personagem e pela química que desenvolve com Daniel, assim como a quebra dessa química no arco final da história, quando a personagem tem uma virada e a própria forma de atuar da atriz parece seguir aquele novo modo de agir, sendo que o momento final da história (que para mim é o ponto alto) me parece ser tão completo por deixar apenas os dois brilharem.
Ei!! Afrodescendente!! você acha que tem mais ou menos vantagens na sociedade moderna?

Apesar das ótimas atuações e direção, o destaque é a história do filme. Para começar, a trama contém toda força necessária que um filme de suspense que aborda o racismo deve ter para o momento atual de um mundo cada vez mais preconceituoso e extremista, principalmente no que toca os EUA. Basta prestarmos o mínimo de atenção nos diálogos dos personagens, ou nas frases soltas no jantar da família ou no encontro na casa e vamos, aos poucos montando o cenário de preconceito que parece cristalizado em toda parte, seja quando uma convidada da casa de campo pergunta se os negros são melhores (na cama), ou quando o irmão de Rose, pergunta por que Chris não se interessa por MMA, pois com sua constituição física se tornaria uma fera, ou mesmo quando outro convidado diz que o preto está na moda; todas essas pequenas migalhas vão desenhando uma situação onde o negro vais sendo descrito como uma coisa, ou um animal, que, segunda a visão do não-negro (presente no filme) tem suas únicas utilidades em suas possíveis vantagens físicas, mas como pessoa, são totalmente dispensáveis, como no discurso dado pelo pai de rose, quando conhece o protagonista e este lhe conta que na vinda, haviam atropelado um cervo, ao que o futuro sogro diz que esses animais estão por toda parte, poluindo e destruindo o ecossistema e que quando sabe que alguém deu um fim neles fica feliz, pois é menos um para incomodar, em uma brilhante alegoria feita pelo roteiro em que o cervo (símbolo clássico de animal caçado) é comparado aos negros e, o genial é que tanto o próprio cervo, quanto cada palavra citada pelos personagens do filme não está lá por acaso, nem mesmo a ideia de que que apenas as vantagens físicas dos negros é a única coisa que importa.


Mas mesmo abordando e expondo essas situações e fatos que todo negro já presenciou (como diriam os racionais: Quem é preto como eu já tá ligado qual é...), o filme não tenta ser panfletário (não que ser panfletário seja errado), se tornando genial e tão especial justamente pela pitada de comédia (muito disso apresentado pelo ator Lil Rel Howery, que faz o papel do melhor amigo do protagonista e que tenta mostrar a ele a roubada onde está se metendo) que serve para exorcizar o peso dessas questões sociais abordadas de maneira periférica no filme sem as colocar em segundo plano, lembrando em muito o clássico "O grande Ditador" de Chaplin, que foi um dos primeiros filmes a utilizar o cinema e o humor para combater o extremismo e preconceito. Esse humor, herança da carreira do diretor de seus tempos de comediante de TV, se soma a sua experiência de vida, ele mesmo filho de um casal multiétnico e casado com uma mulher branca, que deve ter presenciado e vivido muitas cenas semelhantes a do jantar ou do encontro presentes no filme e comprovam a importância da representatividade no cinema, ao colocar escrevendo e dirigindo, alguém que realmente sente na pele um pouco do que a história tenta transmitir.

Jordan Peele
E falando em transmitir uma mensagem, como disse no início do texto, esse filme revelou para mim, que até em mim que sou negro, o preconceito está presente. Percebi que eu mesmo já vivi muitas das cenas iguais as vividas pelo protagonista, onde o mesmo se via questionado, coagido ou observado como algo diferente (não como uma pessoa) e assim como ele, sempre levei esse comportamento que vem da parte do outro como plenamente aceitável, como quando o policial de trânsito pede os documentos de Chris, mesmo ele não sendo o motorista, ou quando, no final do filme, após tudo que tinha que dar errado (ou certo) acontece e vi chegar um carro da polícia, meu primeiro reflexo foi pensar: "Ferrou! Agora acabou pra ele!" uma frase que diz mais do que eu espero do mundo em que vivo e aceito como "normal", do que da trama saída da mente de um talentoso roteirista e que reafirma o verdadeiro sentido do cinema ao apresentar o ponto de vista de uma pessoa, fora dos padrões habituais do cinema popular, a toda uma platéia e gerando empatia com a história de Chris Washington e catarse em relação a sua história e atitudes.

Pois bem, mais do que um filmaço de suspense, "Corra!" é uma obra obrigatória. Bem escrito e dirigido por uma mente cheia de frescor e com muito a agregar ao cinema, com grandes atuações e momentos de tensão e ação dignas do respeito de fãs de Hitchcock e Tarantino e, acima de tudo, possuidor de uma mensagem forte, embora sutil, sobre nós mesmos e a sociedade onde vivemos. Traz a visão de um grupo que quando não é totalmente estereotipado é muito pouco representada no cinema e o coloca em seu devido lugar de Pessoas e, faz através de alegorias e diálogos brilhantes, que olhemos para dentro de nós mesmos e reconheçamos nossos próprios preconceitos e falta de empatia, reafirmando com talento o verdadeiro sentido do cinema que, tanto quanto divertir e maravilhar, é também de nos fazer viver várias vidas e nos enriquecer como pessoas.






segunda-feira, 12 de junho de 2017

MULHER-MARAVILHA (2017)


Havia resolvido dar uma pausa nos filmes de Super-heróis esse ano. Salvo "Logan", que era a despedida decente de Hugh Jackman como Wolverine e que me senti obrigado a assistir depois de tudo que a Fox fez com o personagem anteriormente e, "Homem-Aranha: De volta ao lar", que agendei mentalmente com a intenção de exorcizar os últimos dois filmes do herói, minha vontade de assistir qualquer produção dos grandes selos americanos era totalmente zero. Esse desinteresse se devia em parte, a fórmula repetitiva da Marvel, que depois de dez anos começou a me enjoar e, das decepções que a DC me proporcionou com "Batman vs Superman" e "Esquadrão Suicida". Então chegou junho, e da misteriosa e secreta ilha paraíso de Themyscira um símbolo de esperança surgiu e me fez voltar a ter fé que os filmes de Super-Heróis podem fugir das fórmulas pré-prontas e surpreender, Trata-se de "Mulher-Maravilha", filme estrelado por Gal Gadot e dirigido Por Patty Jenkins que chegou com tudo, quebrando paradigmas com sua espada e mostrando ao mundo tudo que o universo DC precisava ouvir e confessar, sem nem precisar usar o laço da verdade contra a editora.

"Mulher-Maravilha" é o primeiro (de vários) Prequels organizados pela Warner DC para contar a origem de seus personagens após os mesmos aparecerem no filme "Batman vs Superman"(2016)". Conta a história de Diana (Gal Gadot),a princesa das amazonas e filha da rainha Hipólita, que após ser treinada em segredo pela general Antiope e entrar em choque em seu último teste, se refugia na praia, onde acaba presenciando um acidente aéreo e resgatando o piloto britânico Steve Trevor (Chris Pine). Horrorizada com os relatos que o piloto faz a amazonas, de que o mundo está em guerra e, acreditando que a culpa desse mal se deve a Ares, o Deus da Guerra, Diana se dispõem a acompanhar o piloto em uma jornada de volta a Europa para caçar o responsável pelo sofrimento dos homens e restituir a paz, cumprindo o sagrado papel das Amazonas da ilha paraíso.

Terminei o filme empolgadaço e com um sorriso de orelha a orelha. Logo eu, que cheguei a pensar que o dia que eu elogiaria os filmes da DC jamais chegaria! Mas o que fazer? "Mulher-Maravilha" é um filmaço e que surge depois das decepções dirigidas por Zack Snyder e David Ayer, quase como uma aula de como entregar um filme honesto, como de o que é seu um herói de verdade.

Essa Aula, e o grande motivo do filme ser tão bom, sem sombra de dúvidas se deve a diretora, Patty Jenkins. A diretora de "Monster", filme que deu o Oscar a Charlize Theron, é pontual em suas escolhas para apresentar o mundo das amazonas e o primeiro contato de uma inocente Diana (inocente quanto a personalidade das pessoas, do resto ela manja muito!) e colocar a personagem em um lugar de destaque, tanto no universo DC, quanto no da cultura pop no geral, reafirmando a Mulher-Maravilha com símbolo de poder feminino e de força sem truculência (como infelizmente vimos nos últimos filmes da Warner/DC)



No entanto, é quase inegável, que a grande responsável pelo sucesso do filme é Gal Gadot. A atriz Israelense se impõem tão bem no filme, que rouba a cena estando em primeiro plano ou mesmo quando fica parada ao fundo. Além de linda (do tipo que sorri com os olhos) a atriz consegue passar realidade em sua interpretação, por mais estranho que isso possa parecer se tratando de um filme de super-heróis. Sua beleza só perde para seu carisma, que faz com que torçamos para ela, desde o primeiro minuto em que ela dá seu primeiro sorriso, isso tudo já havia sido percebido em "B vs S", onde a maioria do público concordou que a Mulher-Maravilha era a melhor coisa do filme e que se comprova nessa produção com grande mérito a atriz que a interpreta.

Outra outro fato que tem destaque no sucesso de "Mulher Maravilha" é o roteiro. Escrito por dois escritores de HQ, Geoff Johns, que é chefe criativo da DC nos cinemas (Sendo seu primeiro trabalho este maravilhoso filme) e Allan Heimberg que ganhou destaque em 2006 escrevendo os "Jovens Vingadores" para a concorrente; o roteiro acerta no alvo, ao optar em não fazer grandes mudanças na história da personagem em relação com sua origem nos quadrinhos e nem apresentar uma trama complexa demais, dando espaço para que todo tipo de pessoa presente no público se sinta fisgado pelo filme por um motivo diferente, pois embora simples, não faltam cenas engraçadas, de ação empolgante e até mesmo românticas nas quase duas horas e meia de história.

Além disso, o trabalho em equipe (direção / atuação/ roteiro) contribuem para uma série de momentos marcantes e importantes que o filme consegue traz para nos fazer pensar sobre nossa sociedade, sem torna-lo panfletário. Temos então uma cena cômica onde Steve Trevor, depois de interrogado pelas Amazonas, está tomando banho nu em uma piscina quando, ao sair é surpreendido por Diana que pergunta se todo homem é igual a ele, que responde que é acima da média, então ela pergunta o que é aquilo logo abaixo, e depois de alguns segundos de suspense cômico ele estende a mão e mostra um relógio e explica para ela que serve para dizer quando se deve acordar, comer, ir trabalhar, ao passo que a princesa das amazonas sorri e questiona de como uma coisa pequenina assim pode ordenar o que as pessoas podem fazer. Uma brilhante e sútil alegoria do roteiro e direção, utilizando o relógio como se falasse do pênis, para questionar o poder que a ele é atribuído por quem se acha acima da média.

Também temos a cena icônica da guerra, onde Diana parte sozinha em direção as metralhadoras alemãs, disposta a morrer para poder libertar as famílias que estavam sendo aprisionadas do outro lado da terra de ninguém e destruindo quase que sozinha toda linha alemã. Ou mesmo quando, presente na base britânica, ela dá uma lição de moral nos generais que diziam que a perda da vida de alguns soldados era algo aceitável. Lições de heroísmo e sacrifício que os filmes dos bombadões e destruidores de Zack Snyder ficaram devendo com juros alto. Sem contar que "Mulher maravilha" possui uma sequência final de batalha épica e um plot twist surpreendente.

No entanto, como eu sempre digo, nada é perfeito e o filme peca por ter muitas semelhanças com o primeiro "Capitão América" da Marvel. Para começar temos um super-herói (portando um escudo) que está disposto a combater os alemães; ambos juntam um grupo multi étnico para os ajudar; ambos perdem seus grandes amores (diana-Esteve Trevor e o Capitão América o Bucky (amizade também é uma forma de amor)) e acabam ao final de volta a ação nos dias de hoje; sem contar que assim como Steve Rogers (o capitão America) , Steve Trevor também desaparece em um acidente de avião (2 Steves e 2 Aviões). talvez até por isso, resolveram ambientar a trama na primeira guerra e não na segunda, mas ao final isso passa quase despercebido frente a todo o resto que a história traz (com a vantagem de que a Diana foi para cama com alguém em seu primeiro filme, enquanto o Capitão América está desde 1940 aguardando o "par perfeito para sua dança". Ponto para a princesa de Themyscira.

Eu poderia me estender por páginas e mais páginas para falar de com o filme "Mulher-Maravilha" é bom e vale a pena ser assistido, mas prefiro que, embora meus pequenos spoiler, as pessoas tenham a oportunidade de se surpreender com o primeiro filme bom da DC desde "Batman o cavaleiro das trevas" do Nolan. Mulher Maravilha é sem dúvida um marco para o cinema de Super-heróis, colocando no lugar de destaque tanto a personagem, quanto tudo que ela representa para as mulheres. Um ótimo filme, inteligente, bem humorado e com ação e drama na dose certa para não enjoar. Fico agora no aguardo para que todo o trabalho primoroso e ágil de Patty Jenkins e Gal Gadot não seja destruído com o filme da Liga de Zack Snyder e seus slow motions sem fim. Resta orar para que Zeus nos ilumine e a princesa da amazonas nos defenda.






sábado, 13 de maio de 2017

A vigilante do amanhã: Ghost in the Shell (2017)


Em 1995, a Bandai, trazia para o cinema, com a direção de Mamoru Oshii e baseado no mangá de Shirow Masamune, "Ghost in the Shell" (ou o Fantasma do futuro, no Brasil), a animação que se tornaria tanto um ícone do estilo japonês de produzir desenhos animados, quanto um clássico da ficção científica cyberpunk, influenciando, acima de tudo, as irmãs Wachowski a escrever, produzir e dirigir "Matrix" o filme que revolucionou o cinema no início desse século. Pois, vinte e dois anos depois da estréia do anime japonês, chegou aos cinemas mundiais, cercada de polêmica, dúvida e crítica, o live action dessa aclamada obra, agora produzida pelos estúdios americanos da Paramount e DreamWorks, com direção de Rupert Sanders e estrelada por Scarllet Johansson e Takeshi Kitano; e eu, que sempre sonhei em ver uma superprodução baseada em um dos clássicos dos animes, me despi de meu sobre-tudo de "ouvi dizer", coloquei meus óculos-scanners de curiosidade, liguei minha camuflagem holo-térmica e me joguei de cabeça para assistir "A vigilante do amanhã" disposto a tirar minhas próprias conclusões.


"A vigilante do amanhã: Ghost in the shell", se passa em um futuro onde o aperfeiçoamento dos cérebros e corpos humanos através de próteses biônicas já é possível, nesse mundo conhecemos a Major Mira Kilian ( Johansson), a primeira pessoa a ter seu cérebro transferido para um casco totalmente biônico. Mira, trabalha para o setor 9, uma força do governo especializada em terrorismo cibernéticos e, após uma missão de rotina, se depara com Kuze, um perigoso hacker, que está utilizando os robôs e pessoas com implantes cerebrais para assassinar diversos membros da cúpula e cientistas ligados à Hanka Robotics, a empresa que criou o corpo de Mira e efetuou o seu transplante; junto a isso, ela passa a ter visões e possíveis lembranças que a fazem se perguntar quem e o que realmente ela é, Resta agora à major, encontrar Kuze e investigá-lo tanto quanto a Hanka, para descobrir não só as intenções desse terrorista, como as da empresa que a criou, assim como seu próprio passado.


Como disse na introdução, fui assistir ao filme despido de meus preconceitos e do peso das opiniões dos outros, tentando acompanhar a produção sem compara-la ao anime de 1995, de forma a avaliar se o filme se sustenta sozinho, se é bom, divertido ou se realmente merecia as críticas que ouvi falar por aí. Então, o que eu poderia dizer sobre "Ghost in the shell (2017)"?

setor 9
O principal elemento do filme (como não poderia deixar de ser para um blockbuster de ficção científica) são os efeitos especiais. Achei muito bacana o designer futurista da cidade onde a trama se desenrola, com hologramas interagindo com as pessoas no meio da rua, outdoors 3-d em toda parte, assim como todos envolvidos na história (mesmo os figurantes) possuírem alguma parte biônica em seus corpos (exceto Togusa), a utilização dos efeitos para expor a situação dessa sociedade quase pós humana, ainda é somada a pluralidade étnica presente e seu modelo e cultura de rua, que embora tenda a nos dizer que é uma cidade asiática, não nos é permitido confirmar, por desconhecer qual sua língua oficial ou localização, nos passando um ar de superlotação e esmagamento do indivíduo, elementos típicos de obras cyberpunks e que automaticamente nos remete, pela semelhança, ao clássico "Blade Runner" de Ridley Scott.
Mas apesar de os conceitos e ferramentos estarem presentes e serem utilizados de maneira visual, o pouco tempo do filme e as decisões de roteiro os deixam muito em segundo plano no tocante a influência dessa solidão e do peso dos rumos dessa sociedade em cada cidadão, não sendo possível identificar seus reflexos nem na vida dos protagonistas, com exceção da Major (quando descobrimos um pouco de seu passado). Essa descoberta, e mais do que isso, sua busca, são um problema no enredo do filme, pois diminuem o peso dos vilões e torna necessário a diminuição do papel dos coadjuvantes para que protagonista se torne ainda mais forte e isso é uma falha que vem se repetindo de mais em adaptações, e , nesse filme não é diferente.


Falando dessas escolhas de roteiro para engrandecer o protagonista (fato que reclamo desde que o primeiro filme dos x-men, saiu em 2000) enxergo toda a seção 9 como vítima. O filme ganharia muito mais, se, embora a protagonista puxasse a história, todos seus companheiros tivessem relevância no desenrolar da trama, um ajudando a hakear o terrorista, outro investigando a Hanka, outro coordenando investigação sobre os assassinatos, de modo a montarem o quebra-cabeça no final, como em um bom filme policial. Nesse erro, penso que quem mais sofre é o parceiro da major, o Sargento Batou, que fora um conselho ou outro e algumas cenas de combate, pouco faz na trama além de ter seus olhos trocados por lentes biônicas.
Sempre Brava!

Junto a isso, também vem a somar a atuação da Scarllet Johansson. Eu sou fã da atriz e acho que ela tem um grande potencial, mas parece que depois de "os vingadores" de 2012, a atriz está revivendo o papel da Viúva Negra o tempo todo! Sua expressão é sempre carrancuda ou apática, não diferente da apresentada nos filmes "Lucy" e "Sob a pele" e seus movimentos parecem de quem não se sente confortável ou confiante. Entendo que isso é mais culpa da direção, que deve ter pedido que ela passasse a quem vê o filme que a Major Mira Kilian é mais que uma pessoa, é uma arma e então andasse como se estivesse entrando em um octógono, mas quem desempenhou o papel foi ela e esses pequenos detalhes parecem se sobrepor a trama, que talvez ganhasse um pouco mais de simpatia e destaque, se tanto sua protagonista, quanto seus coadjuvantes transparecem o mínimo de humor ou sarcasmo em algumas situações.


E por falar em trama, as motivações de alguns personagens e algumas respostas me deixaram um pouco confuso. Para começar, no que se refere ao pretenso vilão da história, o "Hacker" Kuze, ele mata, hackeia, manipula e chega a criar uma rede cerebral utilizando humanos para tentar descobrir quem realmente ele é, mas mesmo antes disso, ele parece perder a relevância na história e se transforma em um motivador vazio da major em busca de seu passado, sem contar que ele mesmo diz que foi um experimento "desmembrado e descartado", mas em nenhum lugar fica exposto que o montou novamente e como ele conseguiu se tornar relevante e uma ameaça para a Hanka. Dúvida semelhante eu tenho no tocante a própria indústria Hanka, um gigante da robótica e que além de contato e poder dentro da política daquela sociedade, fornece armas e equipamentos para o setor de segurança, mas que não consegue se livrar das investigações do setor 9 e ainda resolve utilizar um grupo obscuro de hippies de DCE de humanas como cobaias em seus experimentos, só porque estes protestavam contra o avanço da tecnologia na vida das pessoas; ora, se é um universo Cyberpunk, onde os grandes conglomerados dominam a sociedade e tem poder maior do que o próprio estado, qual a ameaça de um grupo de adolescentes rebeldes? E, qual a necessidade de tamanha maldade e força por parte da Hanka? É quase como se a Coca-cola se revoltasse e caçasse toda pessoa que fala mal de seu produto (e resolvesse lhes dar corpos biônicos), ao invés de apenas os ignorar e focar no mercado, o que parece pouco crível na realidade ou no cinema e essa motivação, tal qual a do suposto vilão, acabam por tirar um pouco do crédito da história do filme.

E.U.A x Japão

No entanto, mesmo eu tentando, é impossível evitar alguma comparação em relação a obra japonesa, em parte porque muito do que é bacana nesse filme de 2017 é apenas uma transposição para olive action do que já foi apresentado no anime de 1995, sem o mesmo aprofundamento e clima. O maior exemplo é a cena da perseguição até a lamina d'água, onde um bandido é perseguido pela Major, que se encontra invisível e ela o ataca o arremessando para um lado e para o outro e mais tarde se descobre que a mente do sujeito foi apagada e nela colocadas memórias falsas. No filme, é bem legal, mas no anime, toda situação e o desespero que toma conta do bandido ao descobrir que não possui filha nenhuma dão um exemplo ainda maior da solidão e exposição que as pessoas que vivem nesse mundo sofrem. O anime também é superior como trama policial, porque ele contém exatamente o que eu citei anteriormente sobre acompanhar uma equipe policial que se divide em grupos para investigar e monta uma situação ao final, dando destaque a todos na medida do possível; sem falar que todo o universo que cerca a trama no anime é um pano de fundo simplesmente aceito por quem vive lá e não contestado o tempo todo como apresentado no live action.
Cidade do Futuro

O aprofundamento filosófico que a trama japonesa tem, o filme americano também ficou devendo. No anime de 1995, somos expostos a muitas cenas de reflexão e silêncio, onde percebemos que os personagens estão se questionando, quando não apavorados com a situação, sem contar nos shots contendo frases bíblicas para buscar explicar a tomada de consciência do programa "mestre do fantoches" (vilão do anime) e até mesmo a utilização do nome original da Major, que seria Motoko Kusanagi e que faz referência a espada Kusanagi, uma lendária arma japonesa que foi tirada de dentro de um demônio, tudo a ver com a personagem, que é uma arma criada por um conglomerado gigantesco que se revela mal intencionado e onipresente. Certo, dirão que esse aprofundamento iria quebrar o ritmo do filme, mas se "Matrix", que é baseado em "Ghost in the Shell" conseguiu fazer, porque "A vigilante do amanhã" não seria capaz quase vinte anos depois de "Matrix"?


Apesar de todos esses problemas, "A vigilante do amanhã" não é um desastre, na verdade ele está muito a frente de filmes como "esquadrão suicida" e "Transformers". O universo da trama, embora confuso, pois mesmo imerso em um futuro onde a tecnologia e aperfeiçoamento dos corpos se faz presente, ainda possui cidadãos adolescentes que contestam essas mudanças; é apresentado de maneira razoavelmente satisfatório e encanta, como citado acima, pelo uso competente dos efeitos especiais e, embora não haja um aprofundamento nos personagens periféricos, a presença e as poucas falas que eles possuem, dão o ar (embora leve) de distrito policial e somando isso ainda as cenas de ação, que são legais, embora que muitas sejam bem escuras, posso dizer que o filme se sustenta sozinho ( se bem que as vezes se segurando na parede), podendo ser visto como um filme mediano, esses que passam na TV aberta e ser assistido tranquilamente por quem viu ou não os animes, pois diverte bastante para quem quer apenas desligar a mente e ver um bom filme de ação.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

THE WARRIORS - os selvagens da noite (1979) #Zerocult 6


Nova York, 1979. Antes da Máfia ser esmagada, antes da economia americana voltar a crescer, antes do talco sem cheiro dominar os embalos de sábado e, principalmente, antes de proibirem crianças com menos de seis anos de escreverem um roteiro para cinema, um grupo de nove membros de uma turma da pesada parte em uma fuga alucinante depois de serem acusados de um crime que não cometeram. Sim meus amigos! hoje falaremos sobre "The Warriors", ou como foi chamado em nossas terras tupiniquins, "Guerreiros, os selvagens da noite", a maior Ode já feita ao tosto mundo das gangues novaiorquinas e que, além de comprovar que entre os anos setenta e oitenta o mundo entrou em outra dimensão, foi a produção responsável pela uma frase que me persegue por décadas:

"Guerreiiiroosss... Venham aqui Brigaaarrrr!"


"The Warriors", conta a história de nove representantes da Gangue dos Guerreiros, originária de Coney Island, que, assim como outras cem gangues da cidade, é convidada a participar de uma "assembleia" organizada por Cyrus, o líder da maior gangue de Nova York, "Os Riffs", com a intenção de organizar e unir os grupos divergentes e assim dominar a cidade. A reunião, que ocorre no território dos Riffs, no Bronx, começa a empolgar os representantes das Gangues, mas no meio do discurso, Cyrus é assassinado por Luther, o líder do "Rogues", que percebendo, em meio a confusão, que um dos membros dos Guerreiros viu quem atirou, os incrimina, fazendo com que a turma de Coney Island passe a ser alvo da perseguição de todas as outras gangues em uma fuga do Bronx até o seu território, a mais de trinta e cinco quilometros de distância. Restará agora aos Guerreiros, provarem que realmente são uma "Turma da pesada".


O filme é um clássico, não tem como não falar isso. Sua trama, mesmo datada, ainda hoje consegue prender o expectador, mesmo que seja para arrancar dele umas boas gargalhadas. Baseado no livro homônimo de Sol Yurick (que no Brasil se encontra a venda pela Darkside Books), com uma forte inspiração no musical clássico "West side story", o filme foi roteirizado e dirigido por Walter Hill, que além dessa pérola das madrugadas, dirigiu "Ruas de Fogo", que é outro clássico do corujão, "inferno vermelho", com Schwarzenegger e Jim Belushi e o "Lutador de Rua", com o mito Charles Bronson, além de produzir "Alien - o oitavo passageiro", e trouxe no elenco uma galerinha jovem que, fora dois ou três não tiveram uma vida muito produtiva e extensa no meio do cinema. Mas quem se importa com a vida profissional dos atores, quando temos diante de nós uma obra de tal magnitude, cheio de personagens marcantes e , acima de tudo, abençoada pela maravilhosa dublagem brasileira do início dos anos oitenta?



Os personagens são fantásticos e tem muito para falar ao mundo de hoje sobre personalidade. Para começar, os protagonistas se deslocam pela noite Novaiorquina, ostentando apenas um colete de couro vermelho, suas calças jeans e tênis, dentre eles, temos Cleon, que usa uma bandana tigrada na cabeça e Snow, que possui um black power aerodinâmico, mas nenhum dos outros oito protagonistas, chega aos pés de Cochise, o guerreiro, que além de ser dublado pelo mesmo dublador do Eddy Murphy, é um cidadão afro-americano, que além do blackpower da moda daqueles dias, utiliza adornos indígenas, um tapa na cara de quem hoje em dia vem falar de moda étnicas ou apropriação cultural. Cochise é o meu personagem preferido, sendo seguido de perto por Luther, o líder assassino dos Rogues, que do alto de seus um metro e sessenta, com sua cara quadrada e voz de taquara rachada, é o emissor da frase que me atormenta e a qual já cite acima, mas que além de tudo, ainda traz em si o mais clássico talento para agente do Caos, sendo o responsável por toda confusão e azar, que os guerreiros e os Riffs acabam vivenciando.

Guerreiiiroossssss
Falando da Voz de taquara de Luther, é impossível assistir ao filme dublado e não ficar completamente hipnotizado pela dublagem brasileira. Com vozes consagradas como a do ator Nizo Neto (filho de Chico Anísio (que dublou Ferris Bueller e o Presto de "a caverna do Dragão)) no papel de Vermim; Mário Jorge de Andrade ( Eddy Murphy) como Cochise e o dublador clássico do Stallone (que esqueci o nome) dando o sotaque malandro brasileiro ao Luther. Nesse show de dublagem, temos o prazer de ver traduzidas para nossa língua as gírias americanas do final dos anos setenta e o resultado é maravilhosamente bizarro, não faltam "Aê meu cumpadi", "acho que cês tão tudo virando a mão" e até a frase de ouro do filme, que é proferida quando o líder dos fugitivos, forjado no calor da fuga, fica a sós com a "mocinha" e no meio de uma conversa filosófica sobre a vida e perspectivas, fala para a jovem: " Vem cá, tu é chegada em uma horizontal, heim! Já pensou em amarrar um colchão nas costas pra facilitar?!". Pura elegância!

Vocês sacarammm??
Fora suas falas, muitas vezes sem sentido ou seus tropeços de roteiro (como: de onde o Snow tirou aquele coquetel molotov?) , a produção traz cenas bem legais de luta. Como quando Cyrus é assassinado e o Líder Guerreiro Cleon, vai conferir o que houve e tem que se defender da multidão na mão, ou quando Cisne ( que passa ser o líder) bola uma armadilha em um banheiro contra a gangue dos patinadores e a porrada come solta, com direito a taco de basebol quebrado em barriga e porta quebrada com a cabeça.


Além disso, não me ocorre nenhum outro filme de fuga nesse mesmo estilo antes de "the Warriors", me passando a sensação de que Apocalypto", filme de Mel Gibson de 2006, que é basicamente uma fuga de um território inimigo até o seu, tem muito de inspiração na obra de Walter Hill de 1979, assim como o último "Mad Max"e isso não é pouco.
Para Complementar sobre a influência e carinho que o filme cativa, os irmãos Russo, que dirigiram Capitão América 2 e 3, anunciaram a produção de uma série baseada no livro/filme "The Warriors" e que deve chegar para nós nos próximos anos, mostrando que muita gente ainda guarda esse filme no coração e sonha em usar aquele colete de couro vermelho.

Pois bem, "Guerreiros - Os selvagens da noite" é um desses clássicos cults, que por muito tempo habitaram as madrugadas dos canais abertos e que todo mundo conhece ou já ouviu falar. É a representação máxima, embora muito caricata, de um período histórico americano onde a falta de perspectiva é o que norteava a vida de muitos jovens e que até hoje encanta pela melancolia ou pelo tosco carismático, suas falas são datadas, o roteiro quase não existe, a estética é brega, mas mesmo assim o filme é extremamente divertido, o típico filme que é tão ruim, que dá a volta e fica ótimo, que tanto merece, como deve ser assistido, entendeu bem aê ô meu chegado?!

Da esquerda para direita: Snow, Ajax, Vermim, Cowboy, Cochise, Rembrant, Foxy, Cisne ( The Warriors)



quinta-feira, 9 de março de 2017

LOGAN (2017)



Empolgado pela ação, angustiado pela trama, chocado pelas revelações, emocionado pelos momentos finais e triste pela despedida. Esse mix de sentimentos, foi o que senti ao sair da sala de cinema depois de assistir ao filme mais aguardo por mim (e por qualquer outro fã dos X-men) no ano de 2017, "LOGAN", o terceiro filme do mutante canadense mais querido da Marvel e que abriu a temporada de filmes de super-heróis com chave de ouro e garras de adamantium.

"Logan" se passa em 2029 e mostra um futuro onde James "Logan" Howlett, outrora conhecido como Wolverine, trabalha como um discreto e amargurado motorista de limusine no sul dos estados unidos, seus poderes estão falhando devido a idade e ele se revesa com o mutante Caliban para tomar conta do nonagenário professor Charles Xavier que sofre de alzheimer.
Os X-men já não existem mais e não há indícios do nascimento de mutantes a pelo menos vinte e cinco anos, sendo a raça dada como extinta. Mas no meio de um trabalho, Logan é reconhecido e acaba descobrindo uma menina com poderes semelhantes aos seus e aceitando o apelo da acompanhante da menina (ou ao dinheiro que esta lhe oferece) aceita atravessar o país para leva-las, no que a acompanhante da menina acredita ser, o último lugar seguro para os poucos mutantes que restaram, o Éden.
Mas como nada é fácil para um sujeito nascido no século XIX, que foi vítima de experiências do governo, teve suas memórias apagadas e viu sua raça desaparecer, a menina, chamada Laura, que também atende pelo registro x-23, está sendo perseguida por uma organização que a vê como posse e que mandou em seu encalço um grupo de mercenários conhecidos como carniceiros.
Restará a Logan atravessar os Estados Unidos com o professor X e a menina na esperança de que o Éden seja real e que eles possam fugir de todos os erros e tragédias ocorridos no passado, em uma viagem que poderá ser a derradeira para esses últimos mutantes conhecidos.

Humano
Meus amigos, que filmaço!! Denso, dramático, humano (ou mutante) , tem toda a profundidade que todos os filmes anteriores do Wolverine (somados) não conseguiam ter, e isso me faz feliz, pois tivemos uma despedida digna do interprete do personagem, o ator Hugh Jackman, em um filme que fez justiça tanto a ele, quanto ao mutante mais famoso das HQ's, tão mal tratado em "X-men Origens" e "Wolverine imortal", mas ao mesmo tempo a competência desse filme me incomoda, não por ele em si, mas pelo fato disso não ter sido feito antes é só acontecer devido ao retorno positivo obtido com o filme do "Deadpool" um ano antes.

A FOX teve que aprender com "Deadpool", que não é necessário efeitos mirabolantes ou roteiros que explicam cada fala, para ganhar dinheiro e agradar os fãs, pois foi necessário o sucesso do filme do mercenário tagarela para o estúdio dar liberdade aos roteiristas e diretores de criar livremente e só assim se colocar no mesmo nível que a Marvel studios (porque sim, esse filme está no mesmo nível de Capitão América 2), isso fica claro, quando percebemos que o diretor de "Logan", James Mangold, é o mesmo de "Wolverine Imortal", nos mostrando quanta porcaria os produtores nos fazem engolir. Claro que não podemos generalizar, pois os filmes dirigidos por Bryan Singer ainda são mais do mesmo, piorando a cada vez que ele dá seu toque autoral, mas agora que sabemos que temos Tim Miller e James Mangold por aí, acho que já está na hora do diretor de "X-men" de 2001, partir para outra.

Mas voltando ao Filme, confesso que a primeira coisa que fiquei preocupado foi quando soube que a trama seria baseada em "Old Logan", a graphic novel escrita por Mark Millar, pois a história lançada em 2008 utilizava todos personagens da Marvel, para contar sobre um futuro distópico onde os vilões venceram e um Wolverine derrotado e apático busca sustentar sua família e fugir de em segredo terrível, o que não seria possível acontecer no cinema, pois os personagens da Marvel são propriedades da Marvel Studios e os X-men, da FOX, mas com muita criatividade e talento, o roteiro entregou uma solução tão aterradora e triste, quanto o segredo que o personagem guarda na HQ de 2008 e que conforme vai se revelando justifica uma série de coisas, culminando em uma cena, protagonizada pelo debilitado professor Xavier, que é uma das partes mais tocantes do filme.

Tocante
Um dos grandes destaques da produção e que demonstra a qualidade do roteiro é o fato dele referenciar fatos ocorridos em outros filmes onde o personagem participou, para esclarecer que a história faz parte do mesmo universo. Assim, temos conversas entre Logan e o professor X, que remetem a luta entre X-men e a irmandade mutante em "X-men" O filme, menção à vacina anti-mutante de "X-men: O confronto final", a bala de adamantiun usada pelo Coronel Stricker em "X-men Origens: Wolverine" e mais algumas pequenas citações que vão costurando a trama e a prendendo naquele mundo onde Logan viveu sua vida, agregando tanto a trama dessa produção, quanto acrescentando mais credibilidade aos filmes anteriores, por pior que alguns tenham sido.

Ainda falando de referências, a história parece trazer muita inspiração de outros filmes com uma temática "road movie". De forma mais clara me vem a mente "Mad Max: Fury Road", devido as intensas perseguições de carro e dos antagonistas com protesesn bizarras e artilharia pesada, sem falar do cenário desértico e isolado onde o protagonista vive escondido com seus poucos amigos; mas a questão de a trama tratar da missão de alguém, que parece ter desistido, de proteger quem ele acredita ser um dos últimos de sua espécie até um lugar seguro e que talvez nem exista, me fez pensar muito no filme "Filhos da esperança" de 2006, ainda mais quando temos a cena final do protagonista.

Outra coisa que, não só eu, mas todos os fãs do Carcaju sempre sentiram falta, foi a violência e selvageria naturais do personagem e que o cinema nos privou desde o primeiro filme dos "X-men" e esse desejo foi saciado com força. O filme é um banho de sangue onde não faltam braços decepados, decapitações, gargantas cortadas, mas tudo isso exatamente dentro do contexto do personagem onde nada é de graça ou apenas para agradar, com o aditivo do carisma e fúria da personagem X-23, a silenciosa e expressiva mutante, interpretada por Dafne Keen.

Violento
X-23, além de trazer mais sentimento e humanidade a história, pois ignorando seus poderes, não passa de uma criança em perigo, é a protagonista de diversas cenas fenomenais e divertidas que dão destaque a coadjuvante, um fato que era um dos problemas principais que eu tinha com os outros filmes do Wolverine, onde TODOS outros personagens tinham que ser diminuídos para que apenas o protagonista chamasse a atenção, assim fazendo aquele absurdo de selar a boca do Deadpool em "X-men Origens" e transformando o Samurai de prata em um robô em "Wolverine Imortal", além de cometerem o absurdo de matar o Ciclope em "X-men o confronto final" apenas para dar à Logan o título de líder dos X-men; erros que esse filme, muito mais maduro, mostrou serem desnecessários .


Pois bem, como já falei acima e repito: "Logan" é um filmaço. Um daqueles filmes que mesmo sendo uma adaptação bem diferente da ideia original da HQ, deixa os fãs extremamente felizes. Uma rara produção que eu não faço a mínima questão de dar spoilers porque quero que todos tenham o mesmo mix de sentimentos que eu tive ao sair do cinema. Um filme que fez justiça ao personagem e ao ator que dedicou mais de quinze anos de sua vida dando interpretando o herói no cinema e que superou minhas expectativas de quando assisti ao primeiro trailer e me emocionei. Nos resta agora esperar que a FOX siga esse caminho iniciado com "Deadpool" e tão bem direcionado com "LOGAN" e siga nos entregando filmes cada vez mais densos e humanos desse universo mutante que sempre foi tão rico e meu preferido.
Que venham, "DeadPool 2" e "Os novos Mutantes".







quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

"THEY LIVE" (Eles Vivem) - 1988 #zerocult 5




O ano de 2017 vem sendo marcado por uma constatação fantástica: Voltamos no tempo! É só olhar o noticiário ou correr os olhos pelas timelines das rede sociais e as provas vão ser atiradas em nossas caras; é caça aos comunistas, ultra nacionalismo ganhando força, luta contra os direitos humanos, inflação, desemprego, extremismo religioso, em fim, parece que retrocedemos, pelo menos, trinta anos e vivemos agora em uma realidade focada na ignorância, onde a maioria serve de massa de manobra para um pequeno grupo.

Talvez eu esteja sendo pessimista com o ano, afinal ele apenas começou e nem passamos do carnaval, mas eu, que sou fã de distopias, penso que estamos as portas de uma e tenho plena convicção de que tudo que anda acontecendo no mundo, daria uma boa base para o roteiro de um filme de ficção científica. Só que tem um problema, esse filme já foi feito e para se somar as estranhezas desse ano, foi filmado a exatos trinta anos. Trata-se de "They Live" (ou, "Eles vivem"), um dos clássicos dirigido pelo mestre do terror e ficção científica oitentista John Carpenter e que revendo hoje, me parece estar mais para um documentário do que para um filme.

Obedeça
"They live" conta a história de George Nada, um andarilho que transita pelos Estados unidos a procura de uma vida melhor. Em uma dessas viagens ele desembarca em uma grande cidade onde se emprega na construção civil e consegue abrigo em uma comunidade apoiada por uma igreja. Desconfiado dos movimentos noturnos dessa igreja, Nada, resolve investigar e se depara com uma misteriosa reunião e com um laboratório e, vendo diversas caixas fechadas, resolve furtar uma, descobrindo depois que se tratavam de óculo escuros. Sem saber como conseguir lucro com o que pegou na igreja, ele pega um óculos para si, fato que mudará para sempre seu ponto de vista em relação ao mundo.

Os óculos fabricados na igreja, mostram ao protagonista uma verdade que ele não tinha acesso a olhos nus, onde propagandas em outdoors e matérias inteiras de revistas são substituídas por simples ordens que mandam "reproduzir", "consumir" e "obedecer", no dinheiro se vê a frase "esse é seu Deus" e até o semáforo da rua emite a frase "durma" repetidamente para quem anda por ali. Para finalizar, George ainda descobre que ao usar os óculos, algumas pessoas se apresentam como figuras assustadoras, com o rosto de uma caveira azul e olhos prateados, fatos que o levam a perceber, depois que se envolve em muitas confusões, que a terra foi invadida por uma raça de alienígenas, que se infiltrou e tomou o poder para si, transformando os humanos em uma massa de manobra e mão de obra hipnotizada e, que a única maneira de se livrar do julgo dos invasores é se juntar a pequena resistência que ele havia espionado na igreja. Mas como uma resistência, composta por meia dúzia de pessoas desacreditadas, poderá enfrentar quem comanda o planeta inteiro e nem mesmo é percebido?

Eu sou muito suspeito para falar de qualquer filme de John carpenter, de quem já me declarei fã inúmeras vezes. O cara deu a cara ao cinema de terror moderno através de clássicos como "Halloween" (1978), "O enigma de outro mundo" (1982), "À beira da Loucura" (1994) entre outros, mas tenho de dizer que "Eles vivem" se coloca para mim um degrau acima devido ao fato de seu flerte com a ficção científica e a mensagem de questionamento que o autor tenta passar ao espectador, assim como os conceitos e a maneira visual tremendamente original que o diretor opta por utilizar para transmitir as ideias do filme.

Consuma
A critica social que o filme traz em suas entrelinhas é apresentada no exato momento que percebemos que o protagonista tem o sugestivo nome de "Nada", fato o que vem a somar a trama, se relacionando tanto ao poder do mesmo frente ao inimigo que enfrenta, quanto ao sentimento dos trabalhadores americanos dentro do contexto histórico que passava os Estados Unidos quando o filme foi produzido. Vale lembrar que nos meados dos anos oitenta, os E.U.A ainda sofriam com a crise do Petróleo e que sua industria automotiva vinha perdendo espaço para a Japonesa, fatores que geraram desemprego e desesperança , o que é demonstrado de forma semelhante em outros filmes, como na comédia "Fábrica de loucuras" (1986) de Ron Howard, onde uma montadora americana é fechada e um funcionário vai até Tóquio buscar auxilio da industria japonesa, mostrando a crise no cenário americano, ou "Robocop" de 1988, onde o cineasta Paul Verhoeven utiliza uma ideia pessimista para mostrar uma Detroit, outrora símbolo da industrialização, como uma cidade pobre, violenta e perdida, tal qual a cidade onde nosso protagonista desembarca com o sonho de dias melhores, mas que só lhe apresenta recusas, miséria e força bruta, como se ele realmente, nada fosse.

Essa desumanização, que no filme é apresentada de maneira muito sutil, ao nomear o protagonista de Nada, faz um paralelo extremamente importante com a questão da distopia e o momento que vivemos hoje. Da mesma forma que no filme, hoje existe a influência por não dar rostos e vozes à grupos de pessoas que pensam diferente de nós e nossas bolhas sociais, apagando seu individualismo e os relegando a massa, como se todos que pensam diferentes de nós tivessem os mesmos desejos e pontos de vista; meros números que não somam aos nossos interesses, fato semelhante que ocorre em distopias, como "1984", ou "Uma história de amor real e super triste" e que vemos quase diariamente na internet, quando manifestações por melhorias ou buscando direitos, são rechaçadas com violência e comemoradas por quem pensa de forma diferente.

Eu vim aqui pra mascar chicletes e chutar traseiros...
Outra coisa que é bacana e original para a época, é o fato dos vilões, serem os típicos representantes do "sonho americano". Em uma época onde a guerra fria ainda dava seus últimos suspiros, colocar o bem sucedido cidadão americano como o responsável pela degradação da sociedade, mesmo que afirmando que o grosso destes eram alienígenas, era algo quase impensável no cinema, mas é exatamente o que Carpenter faz, ao mostrar através das mensagens subliminares que o protagonista descobre através de seus óculos, que o poder dos extraterrestres vem do consumismo e da futilidade que se tornaram o objetivo final da raça humana, algo que ia totalmente no sentido oposto as mensagens passadas pela maioria dos filmes de ação da época, que apresentavam inimigos comunistas que tinham por objetivo destruir a sociedade perfeita americana, uma olhadinha em "Rocky IV" exemplifica exatamente o que estou dizendo.

O fato de os extraterrestres serem as pessoas que dominam o planeta financeiramente e por isso manipulam os seres humanos através dos desejos e não da força, também fala muito sobre os dias atuais. Em uma sociedade que vem se baseando na satisfação pelo consumo e buscando uma felicidade que só tem valor quando é aplaudida pelos outros, utilizar de força bruta é desperdício de energia, quando se pode induzir as pessoas a desejar ter tudo que se diz que é bom. Dessa forma, o filme apresenta um cartaz com uma bela Praia e, ao colocar os óculos, o protagonista lê apenas consuma, e, aquela viagem passa a ser o objetivo das pessoas que passam por ali, da mesma forma que hoje, ao colocar-se propagandas na TV de celulares da última geração, ou do "carro do ano" buscar conseguir esses itens, será o objetivo de vida de quem se encontra distraído em frente ao televisor, sem perceber que ele foi reduzido de pessoa, para um simples consumidor angustiado e, muitas vezes, frustrado.

Esse é seu Deus
Esse desconforto com o que a vida vem se tornando e a crítica social que John Carpenter faz ao mundo que estava surgindo, é o fato que mais me fascina nesse filme. A ideia de que poucos são sustentados por muitos e que estes, hipnotizados por televisores e a promessa de um amanhã melhor, defendem uma minoria abastada como uma massa de manobra sonolenta, que ignora a verdade que está na frente de todos, mas que ninguém está olhando de verdade, pois estão entorpecidos por sonhos e cores brilhantes, quando na verdade o mundo se apresenta em distintos tons de preto e branco, onde se gritam palavras de ordem que são obedecidas sem o mínimo questionamento.

Case e se reproduza
No entanto, o diretor não nega que muitos daqueles que são chamados de povo, também possuem seu quinhão de culpa, até porque ninguém se torna opressor, sem um pouco da ajuda dos próprios oprimidos. Assim temos alguns personagens, que mesmo em posição de servidão, optam por ajudar os invasores, na esperança de partilhar com eles do poder e riqueza que estes ostentam; como o personagem que passa toda primeira parte da trama assistindo TV e reclamando de dores de cabeça quando a transmissão dos aliens é interrompida pelo sinal da resistência, acabando por se mostrar um colaborador e, possivelmente, informante dos invasores no final do filme.

Personagens como estes são recorrentes em distopias. Em "Matrix" temos Cypher, que busca um acordo com as máquinas para ter a vantagem de voltar para a matriz, em "1984" temos o vizinho de Smith, que mesmo fora dos padrões do partido apoia tudo que este faz, se sentindo orgulhos até em seus derradeiros momentos, quando seus filhos o delatam; gente assim vem ganhando espaço casa vez maior em nosso mundo, buscando vantagem e apoiando cegamente os interesses de quem acreditam poder acompanhar no crescimento, não percebendo que são reles números servido de escada para alguns privilegiados.


Por toda sua crítica a uma sociedade que vem se tornando cada vez mais consumista e menos racional, além da diversão que proporciona, "They Live" é um filme obrigatório para quem é fã de ficção científica, distopias ou apenas sente um desconforto com os movimentos extremos que vem cada dia mais ganhando força. Um filme que, além de divertir com um toque de teoria da conspiração, ainda nos mostra que tudo nessa nossa sociedade é cíclico e beneficia alguém, mesmo as crises e épocas difíceis. Uma obra prima de John Carpenter em sua melhor forma que, fora os ET's, beira ao documentarismo. Então se você se sente desconfortável, oprimido, hipnotizado, ou mesmo se tem uma esperança crescente em se dar bem na vida com base nas propagandas de TV, ou mesmo quem não sente nada e quer ver uma trama oitentista, que mistura luta livre, alienígenas e teoria da conspiração, assista a esse filme e te garanto que será como ver o mundo através de uma lente da verdade.


Trailer: