Um homem abre um manuscrito e
segue uma história, ele fala sobre a vinda de Vikings à América,
antes das cogitadas vindas dos mesmos Vikings para o novo mundo.
Descreve suas péssimas condições e as dificuldades de vencer um
mar que não quer ser vencido e de desembarcar em uma terra que não
os aceita, esclarecendo que a hostilidade presente naquele lugar era
fruto da força dos Deuses. Para atrair ventos favoráveis e voltar
para casa, os homens resolvem chamar a atenção de seu deus através
de sacrifícios, que vão desde mutilações a completa carnificina
entre eles mesmos e assim, logo após pintarem com sangue e violência
as praias daquele lugar desconhecido, são abençoados com a
permissão de partir.
Wednesday
Assim começa o primeiro
episódio da tão aguardada série "Deuses americanos", que
estreou no Brasil, nesse último primeiro de Maio. A Série, baseada
no cultuado livro Homônimo do escritor Neil Gaiman e que conta a
História de Shadow Moon, um ex-presidiário contratado como
segurança pelo misterioso Wednesday, para o acompanhar por uma
viagem pelos Estados Unidos que testará os limites de suas crenças
e sanidade, chegou metendo o pé na porta e saciando a expectativa de
quem é fã do Autor e reivindicando seu lugar entre o panteão das
grandes produções do ano.
Essa reivindicação se torna
válida desde o momento do prólogo, onde vemos o tom violento que
deve se seguir na trama, com cabeças sendo esmagadas e braços
arrancados, até ao banho de sangue do último minuto do episódio,
passando por cenas picantes e assustadoras, sem falar da apresentação
de alguns desses deuses, que dão um ar de mistério a história,
principalmente a quem não leu o livro e assim como Shadow, fica sem
saber direito onde acabou se metendo.
Eu, que de forma sacrílega,
nunca li o livro, também fiquei entorpecido com esse ar de mistério,
como se existisse muita coisa além do que é visto e que as
respostas devam ser descobertas lentamente. Uma sensação com a
qual posso comparar ao assistir o primeiro episódio de "Deuses
americanos", foi a que tive ao descobrir o universo de "Game
of Thrones" na TV e que também nunca tinha lido nada e que só
pretendo ler após o termino da série, pois o que a o universo no
áudio-visual oferece é tão consistente e denso, que não parece
precisar de complementos ou aditivos para se sustentar, embora eu
imagine que os livros referentes dessas duas franquias, devam ser
ainda melhores que as obras televisivas que delas se originaram.
Shadow
Falo em "Game of
Thrones", pois parece que o maior sucesso do canal HBO ganhou
mais um rival e talvez um substituto no coração dos fãs, mas para
isso, a Starz , canal que veícula a série, tem que conseguir manter
o fôlego no mesmo nível de seu episódio piloto e não cair na
mesma levada de produções como "Black Sails", que com
perdão do trocadilho, foi afundando com o tempo.
Pois bem, agora é só esperar
para ver o que "Deuses americanos" irá nos trazer nesses
próximos dois meses e meio e nos regozijar com o sangue e sacrifício
feitos em honra desesperada aos velhos e novos Deuses. Se ainda não
viu o piloto, o mesmo já está disponível no Amazon prime vídeo,
esperando apenas que você sele o acordo com três copos de vinho de
mel e um aperto de mão escarrado. Então não perca tempo, louve a
seu deus assistindo a "Deuses Americanos" e aguarde as
bençãos e maldições que a produção baseada na obra de Gaiman
irão te proporcionar.
Se o ano de 2016 trouxe algo
de bom no meio de tanta tragédia, foi um novo foco às produções
de ficção científica. Com a apresentação da terceira temporada
de "Black Mirror" e a estréia de "West World"
encabeçando o seguimento, o Sci-fi conquistou mais e mais fãs dia
após dia nesse último ano; Porém, o término das temporadas dessas
duas séries, deixou um vazio na vida de quem vinha se acostumando
aos conceitos e surpresas apresentados por elas. No entanto, longe
dos grupos de debates sobre as teorias que envolvem essas séries tão
cultuadas, existem outras obras, de qualidade semelhante, mas bem
menos vistas, que podem agradar e surpreender muita gente, além de
ocupar aquele espaço vago que as histórias contadas por Charlie
Brooker e Jonathan Nolan deixaram no inicio desse ano.
Uma dessas obras, que me
prendeu no sofá, sem piscar durante os dezesseis episódios das suas
duas temporadas, me fazendo sair por aí a indicando aos quatro
ventos logo depois, foi uma série inglesa que, tal qual as duas
séries citadas acima, também fala sobre tecnologia e tomada de
consciência pelas máquinas, mas conseguindo ir muito além, ao
abordar as consequências na sociedade ao ocorrer o surgimento dessas
consciências e, de quebra, fazer um paralelo com diversas situações
enfrentadas no mundo atual. Trata-se de "Humans", série
inglesa criada por Sam Vincent e Jonathan Brackley, exibida pela
Channel 4 e AMC, baseada na série Sueca "Real Humans", que
parece que ninguém assiste, mas que merece e DEVE ser vista por
todo mundo já.
"Humans" se passa em
uma realidade paralela, onde a utilização de androides
(sintéticos) para serviços domésticos e de ajuda pessoal, se
tornou usual. Nesse universo encontramos Joe, um pai de três filhos
que se vê perdido entre as tarefas de casa e do emprego, quando sua
esposa Laura se ausenta a trabalho. Pressionado pelas tarefas, Joe
decide comprar um sintético para ajuda-lo a organizar sua vida
enquanto a esposa não retorna, o que ele não sabe é que a
sintética batizada de Anitta por sua filha mais nova, se chama na
verdade Mia e pertence a um pequeno grupo de androides que poderão
revolucionar o mundo, por serem as primeiras máquinas conscientes e
que, tanto Joe, quanto sua família, irão testemunhar da primeira
fila todas as transformações que a revelação da existência de
maquinas pensantes causará na sociedade.
OK!! Minha sinopse não ajuda
a cativar ninguém a ver a série, mas se eu posso me desculpar pela
falta de inspiração ao descrever o contexto da série, é dizendo
que nem se eu escrevesse um post inteiro falando apenas do que se
trata "Humans" eu conseguiria falar sobre tudo que a série
questiona e aborda, então o mais interessante, acredito, será eu
falar sobre todos os pormenores que chamaram a atenção dentro da
história.
Para começar, a trama traz
uma questão que vem se tornando cada vez mais presente nas produções
cinematográficas, que é a singularidade, aquele momento em que as
máquinas tomarão consciência de que são indivíduos ou entidades,
com pontos de vista, ideias e personalidade, fato que é destaque não
só em "Westworld", mas no ótimo "Ex-machina",
entre diversas outras produções, mas na história de "Humans"
, não é o ponto alto da trama, mas sim o ponto de partida para toda
a discussão que surge na série. Assim, em um mundo onde os
androides estão presentes em todo lugar, mas são tratados como
coisas, o surgimento de alguns que pensem, questionem e ajam como
humanos, traz a dúvida de se o fato os torna humanos? Se eles devem
ter direitos e deveres como tais? Quem fala por eles e quais os
limites que esses sintéticos devem ter? Essas são algumas de muitas
as perguntas que a trama já nos traz de início e que norteiam a
história em meio a uma enxurrada de acontecimentos e diversos
personagens interessantes.
Quanto aos personagens, a
produção consegue entregar indivíduos que são a representação de
todo tipo de personalidade e a faceta de um argumento em si, e não
só isso, como apresentar um elenco diverso e bem explorado, que
consegue mostrar desde os traços étnicos dos androides a revolução
que eles representam. Essa diversidade étnica que aparece nos
sintéticos conscientes do inicio da série (onde temos uma asiática,
dois negros e uma loira), parece, além de sinalizar a ideia de
diversidade humana, traçar um paralelo mesmo com a questão dos
imigrantes ao colocar como personagens centrais da discussão, atores
com traços não tão comuns dentro das produções clássicas
inglesas, essa fato ainda é reforçado, quando somos apresentados
aos problemas sociais decorrentes da utilização desses androides,
como a substituição de pessoas por máquinas em postos de trabalho,
não só pela sua melhor eficiência, mas como pelo seu menor custo,
o que cria grupos de resistência que se intitulam "humanos de
verdade" e buscam a reversão do status social daquele universo,
não muito diferente dos grupos que apontam para a entrada de pessoas
não nascidas em determinados centros, como o fator responsável por
todos problemas sociais existentes em uma localidade.
Esse problema social criado
pela existência dos sintéticos nesse universo, vai além da tomada
dos empregos. A própria evolução dessas máquinas, causa temor
aos jovens, que se frustram ao perceberem que pode não haver
expectativa de um futuro bem sucedido dentro de qualquer área de
interesse, ao perceberem que em alguns anos, os androides estarão
tão aperfeiçoados, que poderão efetuar qualquer função e com um
desempenho maior do que qualquer humano; somando-se a esse problema
do primeiro arco, a segunda temporada ainda nos apresenta um grupo de
adolescentes que, em resposta a frustração dos outros, se veste e
age como os sintéticos, pois perceberam a vantagem que as máquinas
tem ao não se frustrarem, sentirem medo, não precisarem tomar
decisões sozinhas ou se questionarem; de encontro a isso, temos as
máquinas conscientes buscando desfrutarem seus direitos de
"pessoas", assim como seus deveres e até mesmo pensando em
suicídio frente ao amargo de uma vida social com decisões e
dúvidas; tais questões surgem em seguidos debates que tornam
"Humans" ainda mais complexa e reflexiva do que a grande
maioria das séries atuais.
Complementando esses problemas
sociais mais amplos, "Humans" aborda questões ainda mais
pessoais, como o caso da utilização dos sintéticos para satisfação
sexual, o que nos é apresentado como algo aceitável, ao nos mostrar
os androides como máquinas, mas que nos faz questionar se aquilo
tudo é correto quando nos faz ver toda situação de humilhação
através dos olhos de duas personagens sintéticas obrigadas a
desempenhar esse papel, mesmo tendo consciência e ego idênticos aos
dos humanos. Em resposta a isso, temos humanos que são trocados por
androides, pelo fato desses últimos serem programados para
satisfazerem todos seus desejos e dar a eles toda atenção possível
sem distrações.
Além de tudo, a série ainda
traz muitas referências a filosofia e aos clássicos de ficção
científica, além de menção aos grandes autores do gênero Sci-fi,
como quando é falado que o suposto assassinato executado por um
sintético, fere as leis Asimov, sem contar que toda linha que a
produção segue, remete ao questionamento que foi, em parte, base
para a criação de todo universo de Philip K. Dick, de que se algo
pensa e age como um humano, é humano? O que nos torna humanos? Em
uma adaptação mais simples do "penso, logo existo" de
Descartes, que, a propósito, aparece em um poster ao fundo na
série, e não apenas uma vez.
Mas nem tudo é exatamente
perfeito na série e algumas coisas me desagradaram. A principal, foi
a substituição do antagonista da primeira temporada, que surge na
segunda apenas para vender seus segredos ao novo "vilão",
e desaparece, como se todas as situações que o levaram até ali, e
as quais eram de seu interesse pessoal, simplesmente tivessem deixado
de ser importantes para ele e isso eu achei uma grande falha de
constância no roteiro. A segunda coisa é o desaparecimento de
alguns personagens e o sub-aproveitamento de outros, como no caso do
androide Fred ( um dos sintéticos conscientes originais), que mal
aparece na primeira temporada e some na segunda e o sintético
ultrapassado Odi, que tem todo um potencial e razão para estar
dentro de um arco na primeira temporada, nos faz questionar muitas
coisas na segunda e deixa a série (aparentemente) sem nos apresentar
as respostas e ações que poderia dar. Essas duas questões me
incomodaram, mas como nada na vida é perfeito, seguimos aproveitando
o que há de bom e deixando de lado o que fica mal explicado.
Apesar de um detalhe ou outro,
"Humans" ficou marcado para mim, como o grande achado do
início desse ano (mesmo a série ter estreado em 2015). Sua trama
complexa e os paralelos que podemos traçar através de sua
história, são um elemento poderoso e que nos leva a reflexão, não
só ao pensar em uma sociedade como a mostrada na trama de Sam
Vincent e Jonathan Brackley, como nas situações presentes em nosso
cotidiano. Serve para, além de saciar a saudade de séries mais
prestigiadas, enriquecer quem é fã de ficção científica de
conceitos e questionamentos, nem sempre bem abordados nessas outras
séries. Espero que todos assistam e se divirtam bastante, enquanto a
mim, fico na torcida que a terceira temporada chegue logo, fica a
dica.
Estamos vivendo tempos
estranhos. Dias de verdades alternativas e ignorância histórica,
onde a promessa da construção de muros que dividirão os escolhidos
dos condenados é aplaudida de pé por grande parte da população,
onde quem se impõem através de uma propaganda violenta é chamado
de "mito" e o diferente se tornou errado e inimigo, e, isso
tudo acontece enquanto as pessoas estão absortas em seus celulares e
compartilhando suas vidas através de redes sociais, ignorando o rumo
do mundo e os perigos do que podem estar por vir. Estamos a um passo
de uma distopia e em dias como estes, obras que conversem com o
momento da sociedade e nos apresentem uma ideia de onde o próximo
passo pode nos levar são de extrema importância.
Foi buscando uma obra que
espelhasse o que vivemos, que me deparei com um livro muito pouco
comentado, mas que me ganhou desde suas primeiras linhas, me
apresentando um universo distópico tão real e assustador quanto
fantástico. Estou falando de "Uma história de amor real e
supertriste" de Gary Shteyngart, publicada no Brasil pela
editora Rocco, que além de reafirmar minha paixão por distopias, me
passou a ideia de que o futuro de uma sociedade consumista e vaidosa,
pode ser ainda mais amargo e vazio do que imaginamos.
Capa da Edição da Rocco
"Uma história de amor
real e supertriste" se passa em um futuro próximo, onde os EUA
estão vivendo os piores de seus dias, vítimas de uma crise
econômica e política que foi intensificada com um fracasso militar
na Venezuela, o que colocou o país em um cenário de caos, postes de
crédito ornamentam as ruas, registrando os dados dos "Apparats"
(equipamentos que todos possuem e que servem para mandar mensagens,
como identificação e acesso a dados pessoais) e em que pessoas de
baixo patrimônio ficam a mercê do estado e veteranos de guerra não
recebem suas pensões, sendo obrigados a ocupar o Central park na
procura de abrigo, manifestações eclodem em toda parte e são
contidas com violência pelo exército de segurança nacional, o
braço armado do partido "bi-partidário", a última
lembrança dos tempos de democracia, a economia é baseada na moeda
chinesa, que comanda o FMI e as grande empresas são todas fatias de
enormes conglomerados financeiros.
Nesse mundo, que parece mais
crível do que distante, encontramos Lenny Abramov, um novaiorquino
de 39 anos, filho único de imigrantes russos, possível último fã
de literatura e escritor de um diário, que trabalha para uma
multinacional na divisão de serviços Pós-humanos, oferecendo
imortalidade a pessoas de alto nível social e financeiro. A procura
de clientes ele á mandado para Itália, onde acaba conhecendo
Eunice Park, uma vaidosa e orgulhosa jovem, descendente de Coreanos
por quem se apaixona perdidamente. No entanto, com o fracasso em
convencer os ricos europeus em participar dos projetos de seu
empregador, Lenny se vê obrigado a retornar a Nova York e a
realidade de seu país, mas sem esquecer Eunice, a convida para vir
morar com ele, resta agora ao pertenço casal, tentar se entender e
adaptar-se, não só ao mundo em sua volta que desmorona frente a
violência e ignorância, mas um ao outro, tão diferentes pela
origem, idade e pontos de vista.
Como disse acima, o livro me
ganhou em suas primeiras páginas, sei que é suspeito vindo de uma
pessoa que se confessa fã de ficção científica e distopias sempre
que tem oportunidade, mas o fato é que "Uma história de amor
real e supertriste" mexeu comigo por apresentar um cenário
assustador, personagens profundos e com motivações bem claras e
conseguir dar atenção tanto ao mundo catastrófico que serve de
palco para a história, quanto nos passar a evolução desses mesmos
personagens no decorrer da leitura, seguindo a cartilha da boa ficção
científica que está além da apresentação de tecnologias ou
especulação de um futuro, mas na apresentação do impacto que
todas as mudanças que podem ocorrer no mundo, podem causar na vida
das pessoas e isso, esse livro faz com qualidade.
Um fator que achei importante
no livro, e que conecta ainda mais o leitor a história, é o fato
desta ser escrita em primeira pessoa, apresentando os pontos de vista
do casal em capítulos que se alternam entre o diário de Lenny, que
escreve para desabafar e se planejar, e, as mensagens de Eunice no
"Globalteens" a rede social da época, que teima em dar
dicas sobre como agradar os garotos e frisar que fotos e vídeos são
mais interessantes do que textos. Esse clima íntimo nos coloca como
cúmplices de seus pecados e frustrações, revelando também o
choque de gerações que existe entre ambos, ele mais velho quase
quinze anos, barrigudo e ficando careca, totalmente fora dos padrões
de beleza e estilo vigentes em uma sociedade toda voltada para os
jovens e seus hábitos fitness, e ela, o retrato de sua geração,
extremamente magra, irônica e consumista, não desgrudando de seu
"Apparat", por onde faz compras, conversa com amigos e
família, faz "Streams" e ranquei as pessoas que a cercam
por seus níveis de beleza, sensualidade e "fodabilidade",
mas ambos demonstrando, através de seus depoimentos, o peso de se
viver em uma sociedade vazia de valores e voltada para a aparência.
Essa mesma sociedade, que
serve como pano de fundo da história de amor de Lenny e Eunice, é a
parte mais fantástica do livro. O vazio e amargo futuro imaginado
por Shteyngart, consegue ser original, extremamente real e ao mesmo
tempo homenagear os clássicos sem os imitar, nos entregando uma
sociedade que é um amalgama das duas distopias mais famosas de todos
os tempos, "1984" e "Admirável mundo novo", com
o tempero ácido dos dias de hoje, onde temos tanques nas ruas,
violência do estado, pessoas vistas como descartáveis, ao mesmo
tempo em que a sociedade é alienadas em seu mundo de prazer virtual,
ignorando a cultura mais crítica e em especial a literatura
(chegando a dizer que livros fedem e que é preferível que não se
tenha contato) e o sexo é algo tão banalizado que a protagonista
chega a fazer menção a uma amiga sobre uma atriz pornô que elas
assistiam quando estavam no jardim de infância!! Uma mistura
pontual entre repressão violenta e descaso total presentes
separadamente nos dois clássicos, fatos que são somados à
dependência pelas mídias sociais e tecnologias, tão presente em
nosso cotidiano e que no livro é personifica no onipresente Apparat,
o elemento que desempenha um papel de destaque por pautar o estilo de
vida das pessoas e as ranqueando dentro da sociedade.
Gary Shteyngart
Esse "Aparat", que
representa a evolução da forma atual de nossa própria sociedade
interagir, parece demonstrar a qualidade e impacto da história
contada pelo autor dentro da própria cultura pop, ao lembrar
bastante o modo de utilização do aparelho visto no primeiro
episódio da terceira temporada da aclamada série "BlackMirror", onde temos uma sociedade tão vaidosa e vazia como a
presente no livro de Gary Shteyngar, que embora não sofra dos mesmos
problemas sociais (pelo menos, não dentro do arco que o episódio
mostra) também é toda baseada na ideia que o próximo tem de cada
um e no ranking de seus cidadãos para o crescimento social.
Somado ao onipresente Apparat,
Shteyngart ainda imagina uma divisão empresarial que entrega aos
poucos cidadãos de alto nível financeiro a possibilidade de viver
para sempre, através da utilização de nano robôs, dentre outras
coisas, que manipulam a saúde dos clientes da "Wapachung",
empresa de Joshie Goldmann, patrão de Lenny e que por principio age
de encontro a toda situação em que se encontra a grande maioria da
população, que luta para sobreviver, em um mundo onde a escassez é
a lei e quem não possui dinheiro tem de se esconder dos postes de
crédito para não correr o risco de ser deportado ou mesmo morto,
frisando assim o egocentrismo e falta de empatia presente naquele
mundo.
Os motivos para se ler "Uma
história de amor real e supertriste " são muitos; sua
narrativa cúmplice, seu universo deprimente e extremamente real e
seus personagens bem explorados, tudo parece colaborar para que a
obra de Gary Shteyngar seja muito mais do só mais um livro na
estante, mas como eu disse no inicio, o que me fez encontrar esse
livro é o fato de que ele reflete com intensidade o momento atual de
nosso mundo e isso o torna extremamente relevante para todos, que
assim como eu, enxergam nuvens negras se aproximando no horizonte.
Empolgado pela ação,
angustiado pela trama, chocado pelas revelações, emocionado pelos
momentos finais e triste pela despedida. Esse mix de sentimentos, foi
o que senti ao sair da sala de cinema depois de assistir ao filme
mais aguardo por mim (e por qualquer outro fã dos X-men) no ano de
2017, "LOGAN", o terceiro filme do mutante canadense mais
querido da Marvel e que abriu a temporada de filmes de super-heróis
com chave de ouro e garras de adamantium.
"Logan" se passa em
2029 e mostra um futuro onde James "Logan" Howlett, outrora
conhecido como Wolverine, trabalha como um discreto e amargurado
motorista de limusine no sul dos estados unidos, seus poderes estão
falhando devido a idade e ele se revesa com o mutante Caliban para
tomar conta do nonagenário professor Charles Xavier que sofre de
alzheimer.
Os X-men já não existem mais
e não há indícios do nascimento de mutantes a pelo menos vinte e
cinco anos, sendo a raça dada como extinta. Mas no meio de um
trabalho, Logan é reconhecido e acaba descobrindo uma menina com
poderes semelhantes aos seus e aceitando o apelo da acompanhante da
menina (ou ao dinheiro que esta lhe oferece) aceita atravessar o país
para leva-las, no que a acompanhante da menina acredita ser, o último
lugar seguro para os poucos mutantes que restaram, o Éden.
Mas como nada é fácil para
um sujeito nascido no século XIX, que foi vítima de experiências
do governo, teve suas memórias apagadas e viu sua raça desaparecer,
a menina, chamada Laura, que também atende pelo registro x-23, está
sendo perseguida por uma organização que a vê como posse e que
mandou em seu encalço um grupo de mercenários conhecidos como
carniceiros.
Restará a Logan atravessar os
Estados Unidos com o professor X e a menina na esperança de que o
Éden seja real e que eles possam fugir de todos os erros e tragédias
ocorridos no passado, em uma viagem que poderá ser a derradeira para
esses últimos mutantes conhecidos.
Humano
Meus amigos, que filmaço!!
Denso, dramático, humano (ou mutante) , tem toda a profundidade que
todos os filmes anteriores do Wolverine (somados) não conseguiam
ter, e isso me faz feliz, pois tivemos uma despedida digna do
interprete do personagem, o ator Hugh Jackman, em um filme que fez
justiça tanto a ele, quanto ao mutante mais famoso das HQ's, tão
mal tratado em "X-men Origens" e "Wolverine imortal",
mas ao mesmo tempo a competência desse filme me incomoda, não por
ele em si, mas pelo fato disso não ter sido feito antes é só
acontecer devido ao retorno positivo obtido com o filme do
"Deadpool" um ano antes.
A FOX teve que aprender com
"Deadpool", que não é necessário efeitos mirabolantes ou
roteiros que explicam cada fala, para ganhar dinheiro e agradar os
fãs, pois foi necessário o sucesso do filme do mercenário tagarela
para o estúdio dar liberdade aos roteiristas e diretores de criar
livremente e só assim se colocar no mesmo nível que a Marvel
studios (porque sim, esse filme está no mesmo nível de Capitão
América 2), isso fica claro, quando percebemos que o diretor de
"Logan", James Mangold, é o mesmo de "Wolverine
Imortal", nos mostrando quanta porcaria os produtores nos fazem
engolir. Claro que não podemos generalizar, pois os filmes dirigidos
por Bryan Singer ainda são mais do mesmo, piorando a cada vez que
ele dá seu toque autoral, mas agora que sabemos que temos Tim Miller
e James Mangold por aí, acho que já está na hora do diretor de
"X-men" de 2001, partir para outra.
Mas voltando ao Filme,
confesso que a primeira coisa que fiquei preocupado foi quando soube
que a trama seria baseada em "Old Logan", a graphic novel
escrita por Mark Millar, pois a história lançada em 2008 utilizava
todos personagens da Marvel, para contar sobre um futuro distópico
onde os vilões venceram e um Wolverine derrotado e apático busca
sustentar sua família e fugir de em segredo terrível, o que não
seria possível acontecer no cinema, pois os personagens da Marvel
são propriedades da Marvel Studios e os X-men, da FOX, mas com muita
criatividade e talento, o roteiro entregou uma solução tão
aterradora e triste, quanto o segredo que o personagem guarda na HQ
de 2008 e que conforme vai se revelando justifica uma série de
coisas, culminando em uma cena, protagonizada pelo debilitado
professor Xavier, que é uma das partes mais tocantes do filme.
Tocante
Um dos grandes destaques da
produção e que demonstra a qualidade do roteiro é o fato dele
referenciar fatos ocorridos em outros filmes onde o personagem
participou, para esclarecer que a história faz parte do mesmo
universo. Assim, temos conversas entre Logan e o professor X, que
remetem a luta entre X-men e a irmandade mutante em "X-men"
O filme, menção à vacina anti-mutante de "X-men: O confronto
final", a bala de adamantiun usada pelo Coronel Stricker em
"X-men Origens: Wolverine" e mais algumas pequenas citações
que vão costurando a trama e a prendendo naquele mundo onde Logan
viveu sua vida, agregando tanto a trama dessa produção, quanto
acrescentando mais credibilidade aos filmes anteriores, por pior que
alguns tenham sido.
Ainda falando de referências,
a história parece trazer muita inspiração de outros filmes com uma
temática "road movie". De forma mais clara me vem a mente
"Mad Max: Fury Road", devido as intensas perseguições de
carro e dos antagonistas com protesesn bizarras e artilharia pesada,
sem falar do cenário desértico e isolado onde o protagonista vive
escondido com seus poucos amigos; mas a questão de a trama tratar da
missão de alguém, que parece ter desistido, de proteger quem ele
acredita ser um dos últimos de sua espécie até um lugar seguro e
que talvez nem exista, me fez pensar muito no filme "Filhos da
esperança" de 2006, ainda mais quando temos a cena final do
protagonista.
Outra coisa que, não só eu,
mas todos os fãs do Carcaju sempre sentiram falta, foi a violência
e selvageria naturais do personagem e que o cinema nos privou desde o
primeiro filme dos "X-men" e esse desejo foi saciado com
força. O filme é um banho de sangue onde não faltam braços
decepados, decapitações, gargantas cortadas, mas tudo isso
exatamente dentro do contexto do personagem onde nada é de graça ou
apenas para agradar, com o aditivo do carisma e fúria da personagem
X-23, a silenciosa e expressiva mutante, interpretada por Dafne Keen.
Violento
X-23, além de trazer mais
sentimento e humanidade a história, pois ignorando seus poderes, não
passa de uma criança em perigo, é a protagonista de diversas cenas
fenomenais e divertidas que dão destaque a coadjuvante, um fato que
era um dos problemas principais que eu tinha com os outros filmes do
Wolverine, onde TODOS outros personagens tinham que ser diminuídos
para que apenas o protagonista chamasse a atenção, assim fazendo
aquele absurdo de selar a boca do Deadpool em "X-men Origens"
e transformando o Samurai de prata em um robô em "Wolverine
Imortal", além de cometerem o absurdo de matar o Ciclope em
"X-men o confronto final" apenas para dar à Logan o título
de líder dos X-men; erros que esse filme, muito mais maduro, mostrou
serem desnecessários .
Pois bem, como já falei acima
e repito: "Logan" é um filmaço. Um daqueles filmes que
mesmo sendo uma adaptação bem diferente da ideia original da HQ,
deixa os fãs extremamente felizes. Uma rara produção que eu não
faço a mínima questão de dar spoilers porque quero que todos
tenham o mesmo mix de sentimentos que eu tive ao sair do cinema. Um
filme que fez justiça ao personagem e ao ator que dedicou mais de
quinze anos de sua vida dando interpretando o herói no cinema e que
superou minhas expectativas de quando assisti ao primeiro trailer e
me emocionei. Nos resta agora esperar que a FOX siga esse caminho
iniciado com "Deadpool" e tão bem direcionado com "LOGAN"
e siga nos entregando filmes cada vez mais densos e humanos desse
universo mutante que sempre foi tão rico e meu preferido.
O que aconteceria se um sujeito com licantropia, ou seja, a
maldição de se transformar em lobisomem fosse um astronauta parte de uma missão
para ir à lua? A resposta para essa pergunta está no filme que nunca será
produzido baseado no conto que nunca escrevi e que resenho abaixo, dando
sinopse e indicando elenco, direção e produção.
Wagner Moura é Erick Mendes
O Ano é 2033 e a Terra se encontra com problemas energéticos.
James Arkin Cane é um geólogo e médico inglês, que é recrutado pelo programa
espacial conjunto entre seu país e a Nasa para participar da missão Selene-7,
que se dirigirá até uma base na lua a fim de seguir os estudos para verificar a
possibilidade da construção de uma usina autônoma de energia solar em nosso
satélite natural.
Acompanhado de mais sete membros, entre eles a piloto sul
coreana You-jim Bae, o engenheiro camaronês Arthur Ngacame Lupindo e o
matemático e programador brasileiro Erick Mendes, James enfrentará uma viagem
de quinze horas até chegar a seu destino e dar continuidade aos estudos que
podem revolucionar a história de nosso planeta.
No entanto, o que nem mesmo o próprio James sabe é que ele é
herdeiro de uma maldição terrível, que é passada de pai para filho e que se
manifesta somente depois da morte de seu progenitor, o médico inglês é um
lobisomem e seu pai que assistiu nervoso ao lançamento do foguete que levaria o
filho até a lua, não resisti à emoção, vindo a falecer quando o filho
vislumbrava o satélite de dentro da nave.
No meio da confusão e perplexidade, resta a tripulação buscar
se proteger durante as seis horas de viagem que ainda restam no que parece ser
um pesadelo ocorrendo dentro de uma nave que viaja a vinte e oito mil
quilômetros por hora em direção ao que torna a criatura cada vez mais forte. A
única esperança é alcançar a base, contatar a terra e juntando o conhecimento
dos sobreviventes, conseguir uma forma de parar o monstro.
Sharlto Copley é James A. Cane
A direção do
filme vai ficar aos cuidados do diretor Sul-africano Neill Blomkamp, por seu
histórico de filmes de ficção científica que contém uma dose de gore e que
carregam em si aquela falta de fé em um futuro brilhante e limpinho, o que
ajudaria na criação da ideia visual de um mundo que precisa se esforçar para
encontrar soluções para problemas como a falta de energia.
O diretor de
fotografia seria Guilhermo Navarro, responsável por “Pacific Rim”, “Jackie
Brown”, “O Labirinto do Fauno” e “Blade II”. O Cara sabe criar ângulos que
favorecem a ação e ao mesmo tempo agregam na dramaticidade da cena e para um
filme que vai ter de oscilar entre o detalhe do medo de cada personagem e
quadros abertos que demonstrem a vastidão do espaço ninguém melhor que o
cineasta mexicano.
A trilha sonora,
deveria ser composta misturando o estilo moderno de Ramin Djawadi e a clássica
de John Williams (não me perguntem como, é só uma ideia). Com o primeiro
teríamos o compasso da ação, do mesmo modo que ele fez com “Pacific Rim” e com
o segundo a parte épica da imensidão espacial.
Gemma Chan é a capitã You-jim Bae
Nos papéis
principais teríamos uma constelação de atores multiétnicos que além de mostrar
a cara de um novo mundo, globalizado e cooperativo, embora caótico do futuro,
ainda deixariam um recado ao público mostrando que diversidade é importante:
No papel do
amaldiçoado médico e geólogo James A. Cane, eu escolho o ator Sul-Africano
Sharlto Copley. Além do cara estar em todos os filmes do diretor Blomkamp (e
que certamente seria exigência do mesmo) o ator tem uma cara estranha típica
das histórias de lobisomem contadas no interior e na cultura brasileira (minha
homenagem ao interior das terras tupiniquins), sem contar que sua expressão
facial e gritos, presentes em todos os filmes onde o ator teve falas, são o que
a produção precisa para chamar a atenção desde os trailers.
Como a Piloto You-jim Bae, minha indicação vai para a
triz inglesa Gemma Chan, não só pelos traços orientais , mas pelo trabalho na
série “Humans”, que me conquistou do mesma forma que a série da AMC e pela
beleza não tão comum nos blockbusters.
Djimon Hounsou é Arthur Ngacame
O papel do Engenheiro Camaronês Arthur Ngacame Lupindo, ficaria
reservado ao ator Djimon Hounsou, que além da experiência, tem o talento e a
força para dar a gravidade que o filme necessita para não ser uma produção
trash, embora toda a trama tenha o tempero de trash que faria o projeto divertido.
E como o Programador brasileiro, indico o ator Baiano Wagner
Moura, que ganhou o papel graças a sua notoriedade nos E.U.A em produções como "Narcos", além de já ter trabalhado anteriormente com o diretor Neill Blomkamp em
“Elisium” o que facilitaria no andamento da produção.
Pensei em chamar o filme de “Lunar”, mas lembrei de que já
havia um filme de ficção científica com esse nome, então pensei em “moonligth”,
o que faria referencia à lua e a luz (já que a tripulação tem por objetivo buscar
energia através da lua), mas me disseram que alguém já usou e ganhou um prêmio
importante com um filme com esse nome, assim cogitei algo como “Space Wolf”, mas além de brega
, me pareceu muito parecido com “space Ghost”, então vou ter de usar algo mais
anos oitenta e acho que vou chamar o filme de “HOWL IN SPACE” que tem muito a ver com a trama.
Como todo filme dos anos oitenta, ele deverá ter um subtítulo e sendo um terror no espaço, pensei em colocar: “No espaço ninguém
pode ouvir você gritar”, mas esse também já usaram, então deixarei sem
subtítulo e no lugar vou surpreender o público com um trailer que unirá
suspense e intensidade, fazendo o público torcer para o verão americano
chegar mais cedo.
Então está aí, a
ideia, o roteiro, elenco, direção e responsáveis pela trilha sonora. Agora só
fico no aguardo da oportunidade de entregar isso nas mãos de um figurão dos
estúdios americanos e sentar e ver a grana pingando na minha conta.
O
ano de 2017 vem sendo marcado por uma constatação fantástica:
Voltamos no tempo! É só olhar o noticiário ou correr os olhos
pelas timelines das rede sociais e as provas vão ser atiradas em
nossas caras; é caça aos comunistas, ultra nacionalismo ganhando
força, luta contra os direitos humanos, inflação, desemprego,
extremismo religioso, em fim, parece que retrocedemos, pelo menos,
trinta anos e vivemos agora em uma realidade focada na ignorância,
onde a maioria serve de massa de manobra para um pequeno grupo.
Talvez
eu esteja sendo pessimista com o ano, afinal ele apenas começou e
nem passamos do carnaval, mas eu, que sou fã de distopias, penso que
estamos as portas de uma e tenho plena convicção de que tudo que
anda acontecendo no mundo, daria uma boa base para o roteiro de um
filme de ficção científica. Só que tem um problema, esse filme já
foi feito e para se somar as estranhezas desse ano, foi filmado a
exatos trinta anos. Trata-se de "They Live" (ou, "Eles
vivem"), um dos clássicos dirigido pelo mestre do terror e
ficção científica oitentista John Carpenter e que revendo hoje, me
parece estar mais para um documentário do que para um filme.
Obedeça
"They
live" conta a história de George Nada, um andarilho que
transita pelos Estados unidos a procura de uma vida melhor. Em uma
dessas viagens ele desembarca em uma grande cidade onde se emprega na
construção civil e consegue abrigo em uma comunidade apoiada por
uma igreja. Desconfiado dos movimentos noturnos dessa igreja, Nada,
resolve investigar e se depara com uma misteriosa reunião e com um
laboratório e, vendo diversas caixas fechadas, resolve furtar uma,
descobrindo depois que se tratavam de óculo escuros. Sem saber como
conseguir lucro com o que pegou na igreja, ele pega um óculos para
si, fato que mudará para sempre seu ponto de vista em relação ao
mundo.
Os
óculos fabricados na igreja, mostram ao protagonista uma verdade que
ele não tinha acesso a olhos nus, onde propagandas em outdoors e
matérias inteiras de revistas são substituídas por simples ordens
que mandam "reproduzir", "consumir" e "obedecer",
no dinheiro se vê a frase "esse é seu Deus" e até o
semáforo da rua emite a frase "durma" repetidamente para
quem anda por ali. Para finalizar, George ainda descobre que ao usar
os óculos, algumas pessoas se apresentam como figuras assustadoras,
com o rosto de uma caveira azul e olhos prateados, fatos que o levam
a perceber, depois que se envolve em muitas confusões, que a terra
foi invadida por uma raça de alienígenas, que se infiltrou e tomou
o poder para si, transformando os humanos em uma massa de manobra e
mão de obra hipnotizada e, que a única maneira de se livrar do
julgo dos invasores é se juntar a pequena resistência que ele
havia espionado na igreja. Mas como uma resistência, composta por
meia dúzia de pessoas desacreditadas, poderá enfrentar quem comanda
o planeta inteiro e nem mesmo é percebido?
Eu
sou muito suspeito para falar de qualquer filme de John carpenter, de
quem já me declarei fã inúmeras vezes. O cara deu a cara ao cinema
de terror moderno através de clássicos como "Halloween"
(1978), "O enigma de outro mundo" (1982), "À beira da
Loucura" (1994) entre outros, mas tenho de dizer que "Eles
vivem" se coloca para mim um degrau acima devido ao fato de seu
flerte com a ficção científica e a mensagem de questionamento que
o autor tenta passar ao espectador, assim como os conceitos e a
maneira visual tremendamente original que o diretor opta por utilizar
para transmitir as ideias do filme.
Consuma
A
critica social que o filme traz em suas entrelinhas é apresentada no
exato momento que percebemos queo
protagonista tem o sugestivo nome de "Nada", fato
o que vem a somar a trama, se relacionando tanto ao poder do mesmo
frente ao inimigo que enfrenta, quanto ao
sentimento dos trabalhadores americanos dentro do
contexto histórico que passava os Estados
Unidos
quando o filme foi produzido. Vale lembrar que nos meados dos anos
oitenta, os E.U.A
ainda
sofriam
com a crise do Petróleo e que sua industria automotiva vinha
perdendo espaço para a Japonesa, fatores que geraram desemprego e
desesperança , o que é demonstrado de forma semelhante em
outros filmes, como na comédia "Fábrica de loucuras"
(1986)
de
Ron Howard, onde uma montadora americana é fechada e um funcionário
vai até Tóquio buscar auxilio da industria japonesa,
mostrando a crise no cenário americano, ou
"Robocop" de 1988, onde o cineasta Paul Verhoeven utiliza
uma ideia pessimista para mostrar uma Detroit, outrora símbolo da
industrialização, como uma cidade pobre, violenta e perdida, tal
qual a cidade
onde nosso protagonista desembarca com o sonho de dias melhores, mas
que só lhe apresenta recusas, miséria e força bruta, como se ele
realmente, nada fosse.
Essa
desumanização, que no filme é apresentada de maneira muito sutil,
ao nomear o protagonista de Nada, faz um paralelo extremamente importante com a questão da distopia e o momento que vivemos hoje.
Da mesma forma que no filme, hoje existe a influência por não dar
rostos e vozes à grupos de pessoas que pensam diferente de nós e
nossas bolhas sociais, apagando seu individualismo e os relegando a
massa, como se todos que pensam diferentes de nós tivessem os mesmos
desejos e pontos de vista; meros números que não somam aos nossos
interesses, fato semelhante que ocorre em distopias, como "1984",
ou "Uma história de amor real e super triste" e que vemos quase diariamente na internet, quando manifestações por melhorias
ou buscando direitos, são rechaçadas com violência e comemoradas
por quem pensa de forma diferente.
Eu vim aqui pra mascar chicletes e chutar traseiros...
Outra
coisa que é bacana e original para a época, é o fato dos vilões,
serem os típicos representantes do "sonho americano". Em
uma época onde a guerra fria ainda dava seus últimos suspiros,
colocar o bem sucedido cidadão americano como o responsável pela
degradação da sociedade, mesmo que afirmando que o grosso destes
eram alienígenas, era algo quase impensável no cinema, mas
é
exatamente
o que Carpenter faz, ao mostrar através das mensagens subliminares
que o protagonista descobre através de seus óculos, que o poder dos
extraterrestres vem do consumismo e da futilidade que se tornaram o
objetivo final da raça humana, algo que ia totalmente no sentido
oposto as mensagens passadas pela maioria dos filmes de ação da
época, que apresentavam inimigos comunistas que tinham por objetivo
destruir a sociedade perfeita americana, uma olhadinha em "Rocky
IV" exemplifica exatamente o que estou dizendo.
O
fato
de os extraterrestres serem as pessoas que dominam o planeta
financeiramente e por isso manipulam os seres humanos através dos
desejos e não da força, também fala muito sobre os dias atuais. Em
uma sociedade que vem se baseando na satisfação pelo consumo e
buscando uma felicidade que só tem valor quando é aplaudida pelos
outros, utilizar de força bruta é desperdício de energia, quando se
pode induzir as pessoas a desejar ter tudo que se diz que é bom.
Dessa forma, o filme apresenta um cartaz com uma bela Praia e, ao
colocar os óculos, o protagonista lê apenas consuma, e, aquela
viagem passa a ser o objetivo das pessoas que passam por ali, da
mesma forma que hoje, ao colocar-se propagandas na TV de celulares da
última geração, ou do "carro do ano" buscar conseguir
esses itens, será o objetivo de vida de quem se encontra distraído
em frente ao televisor, sem perceber que ele foi reduzido de pessoa,
para um simples consumidor angustiado e, muitas vezes, frustrado.
Esse é seu Deus
Esse
desconforto com o que a vida vem se tornando e a crítica social que
John Carpenter faz ao mundo que estava surgindo, é o fato que mais
me fascina nesse filme. A ideia de que poucos são sustentados por
muitos e que estes, hipnotizados por televisores e a promessa de um
amanhã melhor, defendem uma minoria abastada como uma massa de
manobra sonolenta, que ignora a verdade que está na frente de todos,
mas que ninguém está olhando de verdade, pois estão entorpecidos
por sonhos e cores brilhantes, quando na verdade o mundo se apresenta
em distintos tons de preto e branco, onde se gritam palavras de ordem
que são obedecidas sem o mínimo questionamento.
Case e se reproduza
No
entanto, o diretor não nega que muitos daqueles que são chamados de
povo, também possuem seu quinhão de culpa, até porque ninguém se
torna opressor, sem um pouco da ajuda dos próprios oprimidos. Assim
temos alguns personagens, que mesmo em posição de servidão, optam
por ajudar os invasores, na esperança de partilhar com eles do
poder e riqueza que estes ostentam; como o personagem que passa toda
primeira parte da trama assistindo TV e reclamando de dores de cabeça
quando a transmissão dos aliens é interrompida pelo sinal da
resistência, acabando por se mostrar um colaborador e, possivelmente, informante dos invasores no final do filme.
Personagens
como estes são recorrentes em distopias. Em "Matrix" temos
Cypher, que busca um acordo com as máquinas para ter a vantagem de
voltar para a matriz, em "1984" temos o vizinho de Smith,
que mesmo fora dos padrões do partido apoia tudo que este faz, se
sentindo orgulhos até em seus derradeiros momentos, quando seus
filhos o delatam; gente assim vem ganhando espaço casa vez maior em
nosso mundo, buscando vantagem e apoiando cegamente os interesses de
quem acreditam poder acompanhar no crescimento, não percebendo que
são reles números servido de escada para alguns privilegiados.
Por
toda sua crítica a uma sociedade que vem se tornando cada vez mais
consumista e menos racional, além da diversão que proporciona,
"They Live" é um filme obrigatório para quem é fã de
ficção científica, distopias ou apenas sente um desconforto com os
movimentos extremos que vem cada dia mais ganhando força. Um filme
que, além de divertir com um toque de teoria da conspiração,
ainda nos mostra que tudo nessa nossa sociedade é cíclico e
beneficia alguém, mesmo as crises e épocas difíceis. Uma obra prima
de John Carpenter em sua melhor forma que, fora os ET's, beira ao documentarismo. Então se você se sente desconfortável, oprimido,
hipnotizado, ou mesmo se tem uma esperança crescente em se dar bem
na vida com base nas propagandas de TV, ou mesmo quem não sente nada
e quer ver uma trama oitentista, que mistura luta livre, alienígenas
e teoria da conspiração, assista a esse filme e te garanto que será
como ver o mundo através de uma lente da verdade.
Meu gosto por ficção
científica nasceu da vontade de enxergar através da visão dos
outros como poderia ser o futuro, por esse motivo, sempre preferi
autores que me entregassem mundos que fossem uma evolução do nosso
em algum sentido, seja introduzindo a inteligência artificial como
algo normal e corriqueiro, seja nos apresentando uma sociedade
dividida em grupos, ou mesmo mostrando aonde os absurdos que o
extremismo pode acabar nos levando. Mas nesse meu desejo de olhar
para frente, acabei dando pouca atenção para obras de escritores
que foram responsáveis por, além de fundamentar o gênero e
inspirar muitas outras histórias e produções, falar diretamente
com seu tempo e mostrar pioneirismo em utilizar muitos conceitos
abordados até hoje. Um desses autores, foi H.G Wells, a mente
criativa responsável por obras como "A máquina do tempo",
"O Homem invisível", "A guerra dos mundos" e "A
ilha do Dr.Moreau", livro de 1896, que li recentemente e que me
surpreendeu por abordar, além das questões relativas a ciência da
época, muito sobre ética, religião e filosofia, reabrindo meus
olhos sobre a necessidade de se conhecer os clássicos.
"A ilha do Dr. Moreau"
conta a história de Prendick, um náufrago sobrevivente do navio
Senhora Altiva, que é resgatado em auto mar e levado, pelo médico
Montgomery, que alugava a embarcação que o salvou para transportar
animais, para uma ilha vulcânica no pacífico. Nessa Ilha, ele
conhece o Dr. Moreau, um cientista que usa o lugar como laboratório
de suas misteriosas experiências. Conforme os dias vão passando,
todo mistério presente naquela porção de terra isolada vai se
esclarecendo e Prendick descobre que Moreau e Montgomery, na busca por
humanizar animais, utilizando experiências de Vivissecção e
hipnose, criaram uma assustadora sociedade de seres disformes, meio
homens e meio animais, com leis e religião própria. Mas será que
os esforços dos cientistas serão o bastante para que os
homens-animais consigam ignorar sua natureza inata?
Quando comecei a ler o livro
tinha a sensação de que a história tinha pouco de novidade, como
se eu já tivesse encontrado tudo que o autor queria me passar em
outras obras, sem perceber que essa sensação era originada
justamente da influência de H.G Wells na cultura pop. Isso me veio
a mente ao lembrar que meu primeiro contato com esse livro, foi a
adaptação para o cinema lançada em 1996, exatamente cem anos após
a primeira publicação da história, sendo que esta foi a terceira
produção áudio-visual baseada na obra, antes foram lançados outro
filme homônimo em 1977 e "A ilha das almas selvagens", em
1932; só após perceber isso e buscar ler o livro com olhos da
época, assim compreendendo que o que o escritor entregava era algo
original e pioneiro, pude apreciar toda criatividade e visão do
autor, mergulhando em um universo que, mesmo datado no que tange a
muito que ele aborda como ciência (a final, o livro tem mais de 120
anos), apresenta conceitos presentes até hoje na ficção e
discussões sociais interessantes que deixam claro porque Wells se
tornou um dos maiores nomes da ficção científica da história.
Homem-Leopardo (filme de 1996)
O que mais chamou minha
atenção no livro foi a questão social que a história aborda. A
obra trás todo um paralelo impossível de se ignorar sobre a ideia
de superioridade que muitos povos, no decorrer dos tempos,
acreditavam possuir, assim como a violência de se impor os costumes
e ideais sobre quem se encontra sob o julgo destes povos. Os homens
animais que vivem na ilha, são forçados a ignorar sua natureza,
cumprindo regras impostas que não lhes permitem caçar ou consumir
carne, andar de quatro patas e não sugar a água com a língua, em
resumo, eles não podem ser o que são por contrariarem as ideias que
Moroe tem de sociedade, mesmo o doutor e seu associado representando
uma minoria na ilha e sendo eles próprios desprezados pela sociedade
que usam como base por ignorar a ética em suas experiências, uma
evidente representação da opressão colonizadora européia do
século XIX. O próprio choque com os costumes e aparência dos
nativos da ilha, que se torna frequente na narrativa do protagonista,
corrobora para a visão de superioridade social que parece ser
parodiada diretamente do contexto histórico inglês, sociedade a
qual o escritor pertencia e que na época da publicação do livro,
se encontrava dominando lugares tidos como exóticos, como a índia
e Hong-kong, onde impunham suas maneiras,cultura e mesmo a religião.
Falando em religião, o uso da
mesma como ferramenta de dominação é outra parte muito
interessante da trama. Na história, o autor traz como regulador dos
desejos e instintos da sociedade da ilha uma série de leis que,
somadas a superioridade intelectual e de personalidade dos
cientistas, atuam como uma religião para os homens animais, impondo
limites a seus instintos primitivos mesmo quando as criaturas se
encontram longe dos olhos de seus criadores e fornecendo a esses,
status de deuses imortais e de poderes absolutos de vida e de morte
dentro daquela sociedade, sendo, ao grupo das criaturas, reservado o
destino de servos e escravos passivos, temerosos de um castigo
proveniente de qualquer deslize.
A hiena entre outros (filme de 1996)
Um fato que não me agradou
muito no livro é a forma descritiva que o autor faz de todos
pormenores que o protogonista encontra na ilha. Fora os animais
humanizados, que são o tema central da trama e que refletem as
experiências nada éticas do cientista que tem seu nome estampado no
título do livro, descrever todos detalhes da ilha, incluindo como se
forma sua costa, o tipo de terreno e vegetação, parece uma forma de
enxerto para estender a história e por vezes isso cansa; essa forma
detalhista era bastante utilizada em muitos textos da época e até um
pouco depois, como visto em "Senhor dos anéis", onde
Tolkien chega a falar do formatos das folhas das árvores, mas ,
embora não prejudique a leitura em si, ou atrapalhe a reflexão
sobre o tema central, quebra bastante o ritmo de quem está
acostumado as dinâmicas tramas modernas.
No entanto, mesmo com uma
variação no ritmo, "A ilha do Dr. Moreau" se apresenta
como um livro obrigatório para quem é fã de ficção científica,
do mesmo modo que toda obra de Wells. Consegue se sustentar e
entregar uma história divertida e por vezes assustadora, onde,
embora pareça datada por utilizar conceitos de ciência biológicas
do século XIX, é bastante atual quando trata de ciências sociais,
batendo em pontos que até hoje são abordados, como opressão
cultural, o poder da religião e a ética científica. Uma aula de
como utilizar a ficção para desconstruir a sociedade onde
vivemos, me fez reabrir os olhos para os clássicos e perceber que
não há visão de futuro, se não observarmos com certa reverência
o passado que o moldou.