quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

"THEY LIVE" (Eles Vivem) - 1988 #zerocult 5




O ano de 2017 vem sendo marcado por uma constatação fantástica: Voltamos no tempo! É só olhar o noticiário ou correr os olhos pelas timelines das rede sociais e as provas vão ser atiradas em nossas caras; é caça aos comunistas, ultra nacionalismo ganhando força, luta contra os direitos humanos, inflação, desemprego, extremismo religioso, em fim, parece que retrocedemos, pelo menos, trinta anos e vivemos agora em uma realidade focada na ignorância, onde a maioria serve de massa de manobra para um pequeno grupo.

Talvez eu esteja sendo pessimista com o ano, afinal ele apenas começou e nem passamos do carnaval, mas eu, que sou fã de distopias, penso que estamos as portas de uma e tenho plena convicção de que tudo que anda acontecendo no mundo, daria uma boa base para o roteiro de um filme de ficção científica. Só que tem um problema, esse filme já foi feito e para se somar as estranhezas desse ano, foi filmado a exatos trinta anos. Trata-se de "They Live" (ou, "Eles vivem"), um dos clássicos dirigido pelo mestre do terror e ficção científica oitentista John Carpenter e que revendo hoje, me parece estar mais para um documentário do que para um filme.

Obedeça
"They live" conta a história de George Nada, um andarilho que transita pelos Estados unidos a procura de uma vida melhor. Em uma dessas viagens ele desembarca em uma grande cidade onde se emprega na construção civil e consegue abrigo em uma comunidade apoiada por uma igreja. Desconfiado dos movimentos noturnos dessa igreja, Nada, resolve investigar e se depara com uma misteriosa reunião e com um laboratório e, vendo diversas caixas fechadas, resolve furtar uma, descobrindo depois que se tratavam de óculo escuros. Sem saber como conseguir lucro com o que pegou na igreja, ele pega um óculos para si, fato que mudará para sempre seu ponto de vista em relação ao mundo.

Os óculos fabricados na igreja, mostram ao protagonista uma verdade que ele não tinha acesso a olhos nus, onde propagandas em outdoors e matérias inteiras de revistas são substituídas por simples ordens que mandam "reproduzir", "consumir" e "obedecer", no dinheiro se vê a frase "esse é seu Deus" e até o semáforo da rua emite a frase "durma" repetidamente para quem anda por ali. Para finalizar, George ainda descobre que ao usar os óculos, algumas pessoas se apresentam como figuras assustadoras, com o rosto de uma caveira azul e olhos prateados, fatos que o levam a perceber, depois que se envolve em muitas confusões, que a terra foi invadida por uma raça de alienígenas, que se infiltrou e tomou o poder para si, transformando os humanos em uma massa de manobra e mão de obra hipnotizada e, que a única maneira de se livrar do julgo dos invasores é se juntar a pequena resistência que ele havia espionado na igreja. Mas como uma resistência, composta por meia dúzia de pessoas desacreditadas, poderá enfrentar quem comanda o planeta inteiro e nem mesmo é percebido?

Eu sou muito suspeito para falar de qualquer filme de John carpenter, de quem já me declarei fã inúmeras vezes. O cara deu a cara ao cinema de terror moderno através de clássicos como "Halloween" (1978), "O enigma de outro mundo" (1982), "À beira da Loucura" (1994) entre outros, mas tenho de dizer que "Eles vivem" se coloca para mim um degrau acima devido ao fato de seu flerte com a ficção científica e a mensagem de questionamento que o autor tenta passar ao espectador, assim como os conceitos e a maneira visual tremendamente original que o diretor opta por utilizar para transmitir as ideias do filme.

Consuma
A critica social que o filme traz em suas entrelinhas é apresentada no exato momento que percebemos que o protagonista tem o sugestivo nome de "Nada", fato o que vem a somar a trama, se relacionando tanto ao poder do mesmo frente ao inimigo que enfrenta, quanto ao sentimento dos trabalhadores americanos dentro do contexto histórico que passava os Estados Unidos quando o filme foi produzido. Vale lembrar que nos meados dos anos oitenta, os E.U.A ainda sofriam com a crise do Petróleo e que sua industria automotiva vinha perdendo espaço para a Japonesa, fatores que geraram desemprego e desesperança , o que é demonstrado de forma semelhante em outros filmes, como na comédia "Fábrica de loucuras" (1986) de Ron Howard, onde uma montadora americana é fechada e um funcionário vai até Tóquio buscar auxilio da industria japonesa, mostrando a crise no cenário americano, ou "Robocop" de 1988, onde o cineasta Paul Verhoeven utiliza uma ideia pessimista para mostrar uma Detroit, outrora símbolo da industrialização, como uma cidade pobre, violenta e perdida, tal qual a cidade onde nosso protagonista desembarca com o sonho de dias melhores, mas que só lhe apresenta recusas, miséria e força bruta, como se ele realmente, nada fosse.

Essa desumanização, que no filme é apresentada de maneira muito sutil, ao nomear o protagonista de Nada, faz um paralelo extremamente importante com a questão da distopia e o momento que vivemos hoje. Da mesma forma que no filme, hoje existe a influência por não dar rostos e vozes à grupos de pessoas que pensam diferente de nós e nossas bolhas sociais, apagando seu individualismo e os relegando a massa, como se todos que pensam diferentes de nós tivessem os mesmos desejos e pontos de vista; meros números que não somam aos nossos interesses, fato semelhante que ocorre em distopias, como "1984", ou "Uma história de amor real e super triste" e que vemos quase diariamente na internet, quando manifestações por melhorias ou buscando direitos, são rechaçadas com violência e comemoradas por quem pensa de forma diferente.

Eu vim aqui pra mascar chicletes e chutar traseiros...
Outra coisa que é bacana e original para a época, é o fato dos vilões, serem os típicos representantes do "sonho americano". Em uma época onde a guerra fria ainda dava seus últimos suspiros, colocar o bem sucedido cidadão americano como o responsável pela degradação da sociedade, mesmo que afirmando que o grosso destes eram alienígenas, era algo quase impensável no cinema, mas é exatamente o que Carpenter faz, ao mostrar através das mensagens subliminares que o protagonista descobre através de seus óculos, que o poder dos extraterrestres vem do consumismo e da futilidade que se tornaram o objetivo final da raça humana, algo que ia totalmente no sentido oposto as mensagens passadas pela maioria dos filmes de ação da época, que apresentavam inimigos comunistas que tinham por objetivo destruir a sociedade perfeita americana, uma olhadinha em "Rocky IV" exemplifica exatamente o que estou dizendo.

O fato de os extraterrestres serem as pessoas que dominam o planeta financeiramente e por isso manipulam os seres humanos através dos desejos e não da força, também fala muito sobre os dias atuais. Em uma sociedade que vem se baseando na satisfação pelo consumo e buscando uma felicidade que só tem valor quando é aplaudida pelos outros, utilizar de força bruta é desperdício de energia, quando se pode induzir as pessoas a desejar ter tudo que se diz que é bom. Dessa forma, o filme apresenta um cartaz com uma bela Praia e, ao colocar os óculos, o protagonista lê apenas consuma, e, aquela viagem passa a ser o objetivo das pessoas que passam por ali, da mesma forma que hoje, ao colocar-se propagandas na TV de celulares da última geração, ou do "carro do ano" buscar conseguir esses itens, será o objetivo de vida de quem se encontra distraído em frente ao televisor, sem perceber que ele foi reduzido de pessoa, para um simples consumidor angustiado e, muitas vezes, frustrado.

Esse é seu Deus
Esse desconforto com o que a vida vem se tornando e a crítica social que John Carpenter faz ao mundo que estava surgindo, é o fato que mais me fascina nesse filme. A ideia de que poucos são sustentados por muitos e que estes, hipnotizados por televisores e a promessa de um amanhã melhor, defendem uma minoria abastada como uma massa de manobra sonolenta, que ignora a verdade que está na frente de todos, mas que ninguém está olhando de verdade, pois estão entorpecidos por sonhos e cores brilhantes, quando na verdade o mundo se apresenta em distintos tons de preto e branco, onde se gritam palavras de ordem que são obedecidas sem o mínimo questionamento.

Case e se reproduza
No entanto, o diretor não nega que muitos daqueles que são chamados de povo, também possuem seu quinhão de culpa, até porque ninguém se torna opressor, sem um pouco da ajuda dos próprios oprimidos. Assim temos alguns personagens, que mesmo em posição de servidão, optam por ajudar os invasores, na esperança de partilhar com eles do poder e riqueza que estes ostentam; como o personagem que passa toda primeira parte da trama assistindo TV e reclamando de dores de cabeça quando a transmissão dos aliens é interrompida pelo sinal da resistência, acabando por se mostrar um colaborador e, possivelmente, informante dos invasores no final do filme.

Personagens como estes são recorrentes em distopias. Em "Matrix" temos Cypher, que busca um acordo com as máquinas para ter a vantagem de voltar para a matriz, em "1984" temos o vizinho de Smith, que mesmo fora dos padrões do partido apoia tudo que este faz, se sentindo orgulhos até em seus derradeiros momentos, quando seus filhos o delatam; gente assim vem ganhando espaço casa vez maior em nosso mundo, buscando vantagem e apoiando cegamente os interesses de quem acreditam poder acompanhar no crescimento, não percebendo que são reles números servido de escada para alguns privilegiados.


Por toda sua crítica a uma sociedade que vem se tornando cada vez mais consumista e menos racional, além da diversão que proporciona, "They Live" é um filme obrigatório para quem é fã de ficção científica, distopias ou apenas sente um desconforto com os movimentos extremos que vem cada dia mais ganhando força. Um filme que, além de divertir com um toque de teoria da conspiração, ainda nos mostra que tudo nessa nossa sociedade é cíclico e beneficia alguém, mesmo as crises e épocas difíceis. Uma obra prima de John Carpenter em sua melhor forma que, fora os ET's, beira ao documentarismo. Então se você se sente desconfortável, oprimido, hipnotizado, ou mesmo se tem uma esperança crescente em se dar bem na vida com base nas propagandas de TV, ou mesmo quem não sente nada e quer ver uma trama oitentista, que mistura luta livre, alienígenas e teoria da conspiração, assista a esse filme e te garanto que será como ver o mundo através de uma lente da verdade.


Trailer:



 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A ILHA DO DR. MOREAU - H.G Wells


Meu gosto por ficção científica nasceu da vontade de enxergar através da visão dos outros como poderia ser o futuro, por esse motivo, sempre preferi autores que me entregassem mundos que fossem uma evolução do nosso em algum sentido, seja introduzindo a inteligência artificial como algo normal e corriqueiro, seja nos apresentando uma sociedade dividida em grupos, ou mesmo mostrando aonde os absurdos que o extremismo pode acabar nos levando. Mas nesse meu desejo de olhar para frente, acabei dando pouca atenção para obras de escritores que foram responsáveis por, além de fundamentar o gênero e inspirar muitas outras histórias e produções, falar diretamente com seu tempo e mostrar pioneirismo em utilizar muitos conceitos abordados até hoje. Um desses autores, foi H.G Wells, a mente criativa responsável por obras como "A máquina do tempo", "O Homem invisível", "A guerra dos mundos" e "A ilha do Dr.Moreau", livro de 1896, que li recentemente e que me surpreendeu por abordar, além das questões relativas a ciência da época, muito sobre ética, religião e filosofia, reabrindo meus olhos sobre a necessidade de se conhecer os clássicos.

"A ilha do Dr. Moreau" conta a história de Prendick, um náufrago sobrevivente do navio Senhora Altiva, que é resgatado em auto mar e levado, pelo médico Montgomery, que alugava a embarcação que o salvou para transportar animais, para uma ilha vulcânica no pacífico. Nessa Ilha, ele conhece o Dr. Moreau, um cientista que usa o lugar como laboratório de suas misteriosas experiências. Conforme os dias vão passando, todo mistério presente naquela porção de terra isolada vai se esclarecendo e Prendick descobre que Moreau e Montgomery, na busca por humanizar animais, utilizando experiências de Vivissecção e hipnose, criaram uma assustadora sociedade de seres disformes, meio homens e meio animais, com leis e religião própria. Mas será que os esforços dos cientistas serão o bastante para que os homens-animais consigam ignorar sua natureza inata?




Quando comecei a ler o livro tinha a sensação de que a história tinha pouco de novidade, como se eu já tivesse encontrado tudo que o autor queria me passar em outras obras, sem perceber que essa sensação era originada justamente da influência de H.G Wells na cultura pop. Isso me veio a mente ao lembrar que meu primeiro contato com esse livro, foi a adaptação para o cinema lançada em 1996, exatamente cem anos após a primeira publicação da história, sendo que esta foi a terceira produção áudio-visual baseada na obra, antes foram lançados outro filme homônimo em 1977 e "A ilha das almas selvagens", em 1932; só após perceber isso e buscar ler o livro com olhos da época, assim compreendendo que o que o escritor entregava era algo original e pioneiro, pude apreciar toda criatividade e visão do autor, mergulhando em um universo que, mesmo datado no que tange a muito que ele aborda como ciência (a final, o livro tem mais de 120 anos), apresenta conceitos presentes até hoje na ficção e discussões sociais interessantes que deixam claro porque Wells se tornou um dos maiores nomes da ficção científica da história.

Homem-Leopardo (filme de 1996)
O que mais chamou minha atenção no livro foi a questão social que a história aborda. A obra trás todo um paralelo impossível de se ignorar sobre a ideia de superioridade que muitos povos, no decorrer dos tempos, acreditavam possuir, assim como a violência de se impor os costumes e ideais sobre quem se encontra sob o julgo destes povos. Os homens animais que vivem na ilha, são forçados a ignorar sua natureza, cumprindo regras impostas que não lhes permitem caçar ou consumir carne, andar de quatro patas e não sugar a água com a língua, em resumo, eles não podem ser o que são por contrariarem as ideias que Moroe tem de sociedade, mesmo o doutor e seu associado representando uma minoria na ilha e sendo eles próprios desprezados pela sociedade que usam como base por ignorar a ética em suas experiências, uma evidente representação da opressão colonizadora européia do século XIX. O próprio choque com os costumes e aparência dos nativos da ilha, que se torna frequente na narrativa do protagonista, corrobora para a visão de superioridade social que parece ser parodiada diretamente do contexto histórico inglês, sociedade a qual o escritor pertencia e que na época da publicação do livro, se encontrava dominando lugares tidos como exóticos, como a índia e Hong-kong, onde impunham suas maneiras,cultura e mesmo a religião.

Falando em religião, o uso da mesma como ferramenta de dominação é outra parte muito interessante da trama. Na história, o autor traz como regulador dos desejos e instintos da sociedade da ilha uma série de leis que, somadas a superioridade intelectual e de personalidade dos cientistas, atuam como uma religião para os homens animais, impondo limites a seus instintos primitivos mesmo quando as criaturas se encontram longe dos olhos de seus criadores e fornecendo a esses, status de deuses imortais e de poderes absolutos de vida e de morte dentro daquela sociedade, sendo, ao grupo das criaturas, reservado o destino de servos e escravos passivos, temerosos de um castigo proveniente de qualquer deslize.

A hiena entre outros (filme de 1996)
Um fato que não me agradou muito no livro é a forma descritiva que o autor faz de todos pormenores que o protogonista encontra na ilha. Fora os animais humanizados, que são o tema central da trama e que refletem as experiências nada éticas do cientista que tem seu nome estampado no título do livro, descrever todos detalhes da ilha, incluindo como se forma sua costa, o tipo de terreno e vegetação, parece uma forma de enxerto para estender a história e por vezes isso cansa; essa forma detalhista era bastante utilizada em muitos textos da época e até um pouco depois, como visto em "Senhor dos anéis", onde Tolkien chega a falar do formatos das folhas das árvores, mas , embora não prejudique a leitura em si, ou atrapalhe a reflexão sobre o tema central, quebra bastante o ritmo de quem está acostumado as dinâmicas tramas modernas.

No entanto, mesmo com uma variação no ritmo, "A ilha do Dr. Moreau" se apresenta como um livro obrigatório para quem é fã de ficção científica, do mesmo modo que toda obra de Wells. Consegue se sustentar e entregar uma história divertida e por vezes assustadora, onde, embora pareça datada por utilizar conceitos de ciência biológicas do século XIX, é bastante atual quando trata de ciências sociais, batendo em pontos que até hoje são abordados, como opressão cultural, o poder da religião e a ética científica. Uma aula de como utilizar a ficção para desconstruir a sociedade onde vivemos, me fez reabrir os olhos para os clássicos e perceber que não há visão de futuro, se não observarmos com certa reverência o passado que o moldou.





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

DEAD SET - Quando Big Brother bom é Big Brother morto


Quando assisto a TV aberta, a maioria dos programas e notícias me faz pensar que a humanidade regrediu para um estado de bestialidade. As novelas, que mesmo piegas, procuravam abordar temas relacionados a coisas positivas, trazendo alguma lição de moral, hoje, ultrapassaram o tom de cinza de seus personagens, apresentam temas mais escuros, repletas de vilões, que muitas vezes não chegam a ser punidos por seus crimes, confessando ou não, ao final da trama, no máximo um pouco de arrependimento e só; Os tele jornais se tornaram verdadeiros noticiários de terror, utilizando o sofrimento e medo como escada para alcançar a audiência; e mesmo os programas infantis que povoavam as manhãs, sucumbiram as novas tendências sendo substituídos por shows que falam sobre a aparência "perfeita" e a pseudocultura do corpo e felicidade eterna, em resumo, estamos vivendo a era da superficialidade e nada reflete mais isso, do que o entretenimento televisivo que nos acompanha anualmente a quase vinte anos, os reality shows.

Os Realitys são programas que mostram a reação de pessoas comuns quando colocadas em situações extremas, ou pelo menos, deveriam mostrar. No Brasil, o primeiro a surgir foi "No limite", onde um grupo de pessoas era largado em um lugar desabitado, tendo de passar por diversas adversidades para conseguir comida, sendo desafiados durante dias pela natureza e pela quebra de rotina, o programa era baseado no "Suvivor" americano e tinha a superação física como principal chamariz, mas sua vida na TV brasileira durou relativamente pouco e com menos de cinco temporadas o programa foi cancelado. A Tendência atual são os programas de culinária, como "Cozinha sob pressão" e "Master chef", que disputam a cada temporada a atenção dos curiosos para saber quem se sai vitorioso em meio a tortura psicológica e o assédio moral proporcionado pelos Chefs e juízes, em um retrato distorcido do que é o profissionalismo e produtividade. Mas, embora as novas tendências arrematem cada vez mais fãs, ninguém ainda conseguiu superar a longevidade e alcance do reality mais popular de todos os tempos e que nesse ano completa dezessete edições, criando bordões, debates e sub-celebridades como nenhum outro programa jamais fez, trata-se do "Big Brother".


O programa "Big Brother" foi criado pela produtora de TV Holandesa Emdemol, com base na ideia de um dos sócios fundadores, John de Mol, que apresentou o projeto onde quinze pessoas ficavam confinadas em uma casa, sem acesso ao mundo exterior por qualquer forma e vigiadas vinte e quatro horas por dia, durante três meses, na busca de um prêmio, sendo o convívio o maior adversário que os estranhos poderiam ter na busca dessa conquista. O nome do programa veio de como era conhecido o grande ditador do país continente "Oceania" no livro 1984 de George Orwell, que, por meio de equipamentos chamados tele-telas, presentes nas casas de todos habitantes do país, vigiava a todos, os mantendo como cativos livres. O programa foi realizado em diversos países, como no Brasil onde estreou em 2002 e virou febre desde então, já na Inglaterra, país adotado por Orwell e que serve de cenário para trama de seu livro mais famoso, o reality teve seu primeiro episódio transmitido em 2000 e as reações não foram muito diferentes do que em nossas terras tropicais. No entanto, parece que os ingleses perceberam muito antes de nós para onde todo aquele show de falsa realidade estava apontando e da mente brilhante de Charlie Brooker (ele mesmo, o criador de Black Mirror) estreava em outubro de 2008, “Dead Set” uma das críticas mais bacanas que o programa já teve.

Os sobreviventes
“Dead set” é uma mini-série inglesa, transmitida originalmente pelo canal E4 e gira em torno de Kelly, uma assistente de produção da casa do Big Brother que no 64° dia de transmissão do programa e durante a votação de um paredão se vê em meio de um apocalipse Zumbi que devasta a Inglaterra, terminando por chegar até as portas da emissora de TV. Com muita sorte, Kelly consegue se salvar ao se refugiar no único lugar totalmente seguro que sobra, a casa do Big Brother e tendo de mostrar de forma prática aos participantes que sua presença na casa não é mais uma prova e o que ela diz é verdade. Enquanto isso, Riq, o namorado de Kelly se encontra do outro lado da cidade e parte em sua direção sem saber o que encontrará nas ruas, Já o diretor do programa, Patrick, junto com a última eliminada se encontram presos em uma sala cercada por zumbis, resta agora que os sobreviventes se reúnam para buscar entender o que está acontecendo e como eles podem escapar da casa mais vigiada do reino unido.



O plot da série é bem simples e lendo a sinopse “Dead set” pode se passar por mais uma série de zumbis genérica, mas na verdade a produção inglesa de cinco episódios é muito mais que isso, é um retrato de nosso tempo e de nosso rumo como sociedade.
Baseando os personagens dos participantes em participantes reais, a série vai nos apresentando estereótipos que o próprio programa popularizou, como o mulherengo escroto, a gostosa fútil, a vaidosa burra, o pseudo-intelectual, o marrento e por aí vai, todos fazendo menção a participantes reais, mas também representando um pouco da personalidade de quem assiste e se identifica, mas a produção dá um passo além, quando mostra o mundo da produção do programa, que se apresenta tão baixo quanto o show que produzem. Lá temos o Patrick, que é o diretor e produtor, que age com extrema grosseria com todos, é arrogante, relaxado e egoísta; até mesmo Kelly, a protagonista, é apresentada como um personagem com camadas de cinza, buscando destaque no meio onde trabalha e traindo o namorado com um colega da produção e o próprio ambiente onde ambos trabalham é cheio de inveja, descaso e pretensão, mostrando que o programa é o que é porque é  reflexo de uma sociedade vazia.

Essa crítica social é representada não só pelos personagens que aparecem dentro da casa ou pelos membros da produção, mas também pelos zumbis. Em Dead Set, os zumbis tem uma relevância muito maior do que na maioria das produções desse gênero de filmes, pois na série os zumbis somos nós, a sociedade. O zumbi é o cara comum anestesiado frente ao entretenimento mais raso, reduzido a bestialidade sem pensamento que apenas corre em direção a quem faz mais barulho, com a diferença que na série a ideia de consumir conteúdo fica no sentido gastronômico.

Além de todo peso da critica social e de uma grande quantidade de tripas ao longo dos seus cinco episódios, “Dead Set” ainda consegue referenciar o pai dos filmes de Zumbis, George Romero, em momentos como quando um dos participantes, debochando do que Kelly diz ao chegar na casa, brinca com sua namorada dizendo “vou te pegar barbará” , sendo que esse é o nome da mulher que foge para se abrigar em uma casa aparentemente abandonada na versão de 1968 de “A noite dos mortos vivos” do diretor americano. Do mesmo modo, a personalidade de Patrick, o diretor do programa também lembra muito a de Harry, o outro personagem do filme original de Romero que não mede esforços e usa quem precisa para sobreviver.

Mas de todas as coisas bacanas que “Dead Set” tem o que eu acho impressionante é o fato da série ter sido transmitida originalmente no canal E4, um dos canais que transmitia o Big Brother UK, e não só isso, a própria apresentadora original do programa no país, Davina McCall faz uma participação como ela mesma zumbificada, um deboche típico do humor inglês, que junto com a crítica social passada pelo criador, deve ter trazido bastante dinheiro aos cofres da emissora, mas que mesmo assim surpreende bastante.

É por essas e outras que considero “Dead Set” uma série obrigatória. Misturando critica social, humor e terror a produção se antecipou oito anos à TV brasileira, que fez algo superficialmente parecido quando lançou “Supermax” em 2016, sem passar uma mensagem parecida e obter a mesma resposta da critica e público. Dead Set é uma série que nos faz pensar no que estamos nos tornando, quando valorizamos apenas a aparência, quando parecemos não pensar e corremos trás de tragédias ou entretenimento vazio na TV ou em qualquer outro lugar, então não perca tempo e assista “Dead set” seja por ser fã do gênero, seja por ser fã de Charlie Brooker ou simplesmente para se divertir, mas seja rápido, pois a zumbificação já  começou e não há para onde correr.



domingo, 5 de fevereiro de 2017

DR. ESTRANHO (2016)

Ano passado o cinema foi invadido por um tsunami de filmes de super-heróis e eu, como fã, me programei para assistir a todos. Tudo começou muito bem, com "Deadpool" se coroando o melhor e mais engraçado filme do gênero de 2016, resvalou com o frustrante "Batman vs Superman", subiu aos céus com "Guerra civil", mas depois foi ladeira abaixo até chegar ao fundo do poço com "esquadrão suicida", tanto, que após mais uma produção deprimente da DC/Warner, somada a crise que bate sem piedade, resolvi guardar meus ricos trocados e ignorar, por um tempo, os filmes baseados em HQ's. Mal sabia eu, que no final do ano, a Marvel daria mais um passo certeiro na expansão de seu universo, incluindo magia, múltiplas dimensões e universos (chupa flash), através de um personagem pouco conhecido por mim, mas que ganhou minha atenção depois desse filme (assim como minha torcida por uma sequência), trata-se de "Dr. Estranho", estrelado por Benedict Cumberbatch e dirigido por Scott Derrickson, que resolvi assistir só agora após o lançamento do Blue Ray.

O filme conta a história de Stephen Strange, um brilhante e orgulhoso médico neurocirurgião que sofre um acidente de carro e acaba por ter o movimentos de suas mãos comprometidos. Atrás de uma cura para seu estado, ele acaba por descobrir uma possibilidade no Nepal, em um lugar chamado Kamar-taj; é nesse misterioso lugar onde conhece o Ser Ancião, que lhe mostrará que todo seu conhecimento não passa de um grão de poeira em múltiplos universos de possibilidades e o ensinará as artes místicas para que ele abra sua mente e ajude a Ordem dos magos a defender nossa dimensão. Mas o que Dr. Strange não sabe é que apoiados por entidades cheias de ganância e malícia, um grupo de dissidentes da mesma ordem que o acolheu, pretende destruir a proteção de nosso mundo e abrir uma porta para joga-lo na dimensão negra, restando ao Doutor a missão de superar a si mesmo e, junto de seus amigos, por fim na ameaça.

Ok, eu sei que me empolguei na sinopse, mas é que fiquei muito surpreso e contente com que a Marvel conseguiu me apresentar com o filme do personagem; não que eu conheça muito sobre ele, na verdade tudo que li do Dr. Estranho foi uma história aleatória em formatinho, do tempo que a Marvel era publicada pela Abril jovem (chuta uns trinta anos atrás), ou algumas pontas do personagem em arcos como a guerra infinita e nunca imaginei que ia assistir a um filme do herói, mas o certo é que Gosto muito quando um personagem ,baseado em HQ, que eu conheço pouco, chega ao cinema e depois que assisto ao filme, fica a vontade de ler suas histórias para conhecer mais daquele universo, e isso não acontecia comigo desde os "Guardiões da Galáxia.
Embora o filme não fuja da receita Marvel presente em todos seus treze filmes anteriores do selo, Dr Estranho consegue, de certa forma, inovar por, além de apresentar seu universo místico, mas que não desrespeita os conceitos mostrados nos filmes anteriores, flertar também com o terror cósmico, além de entregar boas doses de humor e efeitos especiais de cair o queixo. O mérito por esse tempero a mais é do diretor Scott Derrickson, que é uma figura carimbada do cinema de terror, sendo responsável por filmes como "O exorcismo de Emily Rose" e " Livrai-nos do Mal" e que além de dirigir, também foi um dos responsáveis por roteirizar o longa.



Junto do talento do diretor, soma-se como responsáveis pelos bons momentos proporcionados pelo filme, a força do elenco do longa. Protagonizando o filme, temos o cara do momento, Benedict Cumberbatch, que vem se tornando figurinha carimbada, não somente no que se refere a cinema de qualidade , como também em produçõe para TV, como "Sherlock Holmes", fato que vira uma piadinha dentro do filme. como par romântico do personagem, mas que fica longe da ideia de mocinha em perigo e acaba mesmo salvando o protagonista, temos Rachel McAdans, interpretando a Dra. Palmer, que embora fique em segundo plano na história, tem momentos bem marcantes, logo após o acidente que destrói as mãos do Dr Stephen; Sem falar em Tilda Swinton, como a Anciã, que tem, com o protagonista, um dos diálogos mais bonitos presentes em um filme de super-heróis que já vi e Chiwetel Ejiofor, como o inflexível e reto Barão Mordo, que é trabalhado o filme todo para nos ser apresentado na cena pós crédito como vilão da sequência da história, e não nos esquecemos de Mads Mikkelsen, outro ator que parece ter se tornado onipresente em todos filmes que assisto e que interpreta o dissidente Kaecilius; Todos atores extremamente a vontade e parecendo se divertir com a produção que participaram, coisa que contribui bastante para a aceitação e sucesso de um filme.

Além de tudo que já foi falado, o filme possui uma qualidade técnica fantástica, com uma identidade visual maravilhosa. Os efeitos visuais de Dr. Estranho, embora já tenham sido apresentados em filmes como "Inseption", fazem toda diferença na história, dando todo uma ar de psicodelismo e viagem dimensional que quase foge a compreensão de quem está assistindo. Assim temos muitos efeitos caleidoscópio, brincadeiras com luz e sombra, abuso das cores, cenários gigantescos se partindo e se dividindo ao infinito em cenas que merecem elogios à produção e um lamento da minha parte, que não vi o filme no cinema.


Mas embora tenha gostado muito do filme, um fato que me incomodou um pouco, foi a extrema semelhança com o primeiro filme do Homem- de -Ferro. Para começar temos dois cientistas arrogantes e egocêntricos, geniais no que fazem, que são obrigados a procurar uma alternativa para suas vidas depois que um acidente os deixa quase sem opção, Ambos possuem um par romântico que, embora não esqueçam deles, se apresentam como independentes, os dois possuem amigos que os contestam (Tony Stark tem Rhodes e Dr. Strange tem Mordo) e os dois filmes possuem vilões de pouco carisma, sendo quase esquecíveis. Outro fato é que o visual dos dois personagens é bem parecido, com ambos usando um cavanhaque, sem contar que os dois atores que protagonizam os dois filmes, já interpretaram Sherlock Holmes. O que salva o filme de não se passar por uma espécie de reboot, além do fato que, em homem de ferro, a história se direcione para tecnologia e em Dr. Estranho o caminho seja a magia, é o carisma do personagem e a competência do roteiro, que conseguiu trazer para o cinema um super-herói que eu acha inadaptável.


Pois bem, "Dr. Estranho" é um ótimo filme e traz tudo o que o selo de qualidade Marvel tem como marca, é divertido, empolgante, engraçado e cheio de ação, tanto que salvou o final do ano dos filmes de Super-heróis depois das resvaladas da DC. O filme conseguiu tornar visível um personagem dos menos conhecidos da editora e isso não é pouca coisa, mostrando a força da Marvel studios. Fica agora, a torcida pela sequência do longa , apresentado na segunda cena extra, que terá um vilão que foi muito bem trabalhado por todo esse filme, além da expectativa com o próximo filme dos estúdios, que a primeira cena extra nos apresenta quando coloca frente a frente o Dr Estranho e o Thor. Então, que mais um tsunami de filmes de super-heróis venha nesse 2017, só esperando que dessa vez, com quatro filmes com o Carimbo dos estúdios Marvel, a empolgação se mantenha até Dezembro. 




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

UBIK - de Philip K. Dick

Philip K. Dick é meu escritor preferido. Não só por ser um dos mestres da ficção científica ou por ter muitas de suas obras adaptadas com sucesso para o cinema, mas por ser uma máquina de conceitos que te levam a refletir sobre coisas que fogem totalmente de nossa realidade. É dele o livro "Androides sonham com ovelhas elétricas", que foi adaptado para o cinema como "Blade Runner" e que, usando um tom noir e futurista levanta o questionamento, ao falar sobre os androides (replicantes), se um ser feito em laboratório, que tem consciência e parece um humano, realmente é uma pessoa, ou deve ser tratado como uma coisa; é dele também o conto que originou o filme "Minority report", em que a polícia utilizando precogs (videntes) cria um batalhão pré-crime que prende e condena o bandido antes que este possa fazer o mal, nos levando a questionar sobre destino e se não existe crime, se há culpado. No entanto, mesmo entregando nas entre linhas questões de cunho filosófico e conceitos trabalhados, sempre encontrei em seus livros histórias bem amarradas, com inicio, meio e fim, onde se enxergavam claramente as motivações de seus personagens, mas não consegui alcançar isso no último livro que li do autor, UBIK que ficou na minha mente, como um livro que explora apenas alguns conceitos, mas que traz uma história que não se fecha.

UBIK se passa em um futuro onde a raça humana conseguiu encontrar uma maneira de enganar a morte, mantendo os mortos em um estado chamado meia-vida, onde, dentro de caixões congelados (chamados bolsas térmicas) que preservam seus corpos, os mortos ficam em animação suspensa (muito suspensa, já que estão mortos), com suas consciências "vivendo" em um mundo simulado e aguardando o chamado de uma próxima encarnação, podendo assim serem consultados por seus amigos e entes queridos quando estes quiserem algum conselho ou orientação de quem já se foi. Nesse futuro, a evolução da raça humana deu um passo a frente e existem algumas pessoas que possuem dons especiais, como telepatia ou precognição e, muitas destas, são utilizadas por empresas especializadas para espionagem industrial e pessoal; em resposta a isso, surgiram empresas de prudência, que utilizam outras pessoas, com dons que anulam o dos espiões, para, mediante um pagamento, proteger quem não deseja ser espionado. A maior dessas empresas de prudência é a Runciter & associados, comandada por Glen Runciter, um idoso executivo que, aconselhado por sua esposa morta, mantém um império que só é desafiado por Ray Hollis, um misterioso empresário do ramo da espionagem.
Seguindo uma pista do rival, Runciter e seus funcionários acabam sendo atraídos para uma armadilha em uma base na lua, onde acontece uma explosão e Runciter é morto, restando a Joe Chip, um avaliador e contratador de inerciais (pessoas com dom de anular os dons dos outros) investigar o que aconteceu e tentar contato com a consciência do morto, mas algo está errado, pois tudo que os cerca começa a envelhecer e regredir até quase virar pó, inclusive os próprios amigos de Chip, para os salvar e dar o tempo necessário para descobrir a verdade, surge o spray UBIK, mas antes das respostas aparecerem, a dúvida que surge é :quais seriam as perguntas certas?

O livro traz a marca de criador de conceitos geniais que deu fama a Dick. A ideia de um mundo assombrado com a presença de pessoas que podem ler as mentes dos outros e retirar seus segredos, assim como as que antecipam tudo que acontecerá e a utilização destas de forma comercial é algo fantástico e que lembra muito a ideia apresentada em "Inception", filme do diretor Christopher Nolan de 2010, onde ladrões invadem os sonhos das pessoas para descobrir seus maiores segredos; da mesma forma que a conservação dos mortos em "meia-vida" remete ao filme "abra tu ojos", de 1997, que inspirou "Vanilla Sky" de 2001, onde após sofrer um acidente que o desfigura, um jovem milionário , após passar por diversas frustrações, decide se entregar a um método revolucionário e se congelar até que no futuro, exista uma cura para o seu mal, sendo sua mente entretida em uma realidade simulada onde ele consegue tudo o que deseja, mas que começa a falhar devido a seus traumas; dois exemplo do poder que o autor tem de inspirar grandes histórias através de suas ideias e que estão presentes na trama de UBIK.

O Autor
O suspense presente na história também é um ponto positivo. Depois que os personagens sofrem o atentado na lua, a dúvida toma conta da história e Joe Chip e seu amigo Al, passam a investigar o que está acontecendo com tudo a sua volta, se deparando com situações inusitadas, como mensagens de seu patrão morto escritas dentro de pacotes de cigarros fechados ou em multas de trânsito e o mistério vai sendo revelado lentamente, fazendo com que o leitor tenha tantas, ou mais dúvidas, que os personagens da história e o ar de investigação dá folego ao livro, quando a história oscila em seu ritmo.

Outra coisa bacana é a reutilização de ideias que o autor já havia abordado em outras histórias. A principal são os precogs, pessoas que conseguem ver o futuro como se este fosse imutável, abordando uma ideia de destino; personagens como estes foram utilizados no conto "Minority report", que virou filme com Tom Cruise e que trabalha justamente com o fato que se opõem a percepção dos precog's indicando livre arbítrio e dúvida quanto a suas visões; já nesse livro, muitos dos precogs trabalham para empresa de Hollis como videntes e a personagem Pat Conley, que é filha de um casal com esse dom surge com sua habilidade e coloca mais um questionamento quanto a autenticidade do dom dos videntes, que é, se o passado mudasse, o futuro também não mudaria? Ideias fora da caixa que, mesmo expostas entre linhas, elevam a qualidade da história.



Mas mesmo o livro possuindo muitas qualidades, que são expressas pelo jeito característico do autor de contar histórias, ele deixa muitas pontas soltas e quando terminei de lê-lo fiquei com mais perguntas do que respostas, o que em muitos casos é bom, pois faz com que uma história permaneça em nossa mente e se expanda em possibilidades, no entanto, não é bem o que aconteceu com esse livro.
Na primeira parte da história, a trama parece tratar das questões relacionadas à disputa entre a empresa de prudência de Runciter e a de espionagem de Hollis e apresenta personagens e um universo que convergem para que a trama se fundamentasse nisso; mas depois da tragédia na lua, o livro sofre uma mudança gigante de direção e parte para a investigação circular de Joe Chip sobre as regressões e morte de Runciter, ignorando o desaparecimento dos Psi citados no inicio do livro e quase que ignorando totalmente Hollis, que causou o atentado. Isso acontece também com alguns personagens que surgem na primeira parte e que aparentam um grande potencial e importância, como a mencionada Pat Conley, que é apresentada como uma pessoa de dom único, que seria de mandar sua consciência para o passado e, assim, mudar o futuro e que, aparentemente, teria relevância na história mas, fora alguns fatos que são revelados no fim do livro (mas que mal afetam a trama), nem precisava estar ali, pois pouco acrescenta.

Outra questão que me incomodou, foi a descrição de como os personagens se vestiam. As ideias de costume de PKD as vezes parecem distantes demais da realidade para serem levadas a sério. Duas dessas são as descrições de como, Stanton Mick, o investidor que contrata os serviços da Runciter & associados, e do piloto do helicóptero movido a energia solar, que chega para buscar o corpo de Runciter após o atentado, se vestem. O primeiro é descrito usando calças capri fúcsia, sapatilhas rosa de pele de iaque, blusa sem mangas de pele de cobra e uma fita no cabelo branco que ia até a cintura; o outro usava uma toga de tweed, mocassins, faixa carmesim na cintura e uma touca roxa com hélice de avião (tá de sacanagem!); somando essas formas estranhas de vestimenta, que lembram um futuro pós apocalíptico dos cafetões dos filmes blaxpoitation, ainda temos a mania do autor criar palavras extravagantes para descrever os itens representados nesse seu futuro, então temos o homeojornal, os condaptos (apartamentos), os vidphones, dentre muitas palavras, que percebemos como ilustrações de algo que seria visto em um futuro distante, assim como a moda que o autor nos descreve, mas que não parecem necessárias ou sérias, ainda mais pelo fato de a história do livro se passar apenas vinte e três anos após o mesmo ser publicado (o livro é de 1969 e a história se passa em 1992) e mudanças de costume e tecnologia no porte que o livro apresenta, necessitariam de séculos.

Capa da edição da Aleph -2014
Mas como disse a pouco, o que me incomodou foram as pontas soltas. Intendo que o livro traga em si , também, uma pequena crítica ao consumismo, não é por pouco que a história começa com uma briga entre empresas e que nesse universo futurista tudo é pago, desde a porta do seu próprio apartamento (se deve depositar moedas, para entrar e sair), como a TV do escritório e nessa levada, após a "morte" de Runciter o próprio idealizador do atentado é deixado de lado e só se referem ao mesmo, para citar que ele será processado (e não por assassinato) deixando claro a sociedade materialista onde a trama se passa, mesmo com a questão da reencarnação e meia-vida, sendo um espectro dentro da história.

Esse mesmo desprendimento de atenção ao causador do assassinato, me levou a questionar quem era o real vilão da trama e quais as motivações dos envolvidos. Embora Ray Hollis seja apresentado como uma ameaça, como disse anteriormente, ele mal aparece ou pouco é citado após o incidente na lua, Pat Conley, que se mostra pouco digna de confiança e extremamente ardilosa, vai perdendo a importância no decorrer da história e quando sabemos a grande verdade ao final, percebemos que ela é uma das vítimas (e que nem sabe disso), por fim ainda temos um personagem, que aparece como uma falha no inicio e que ao final tem uma participação "deus ex machina", que ao terminar de ler, parece pouco convincente (embora seu conceito, como sempre, seja bem bacana)


Apesar de suas pontas soltas, o livro está longe de ser ruim, apenas não é o melhor do autor na minha opinião. Os conceitos que Philip K. Dick utiliza, novamente mostram o gênio que o autor era e deixam claro sua importância na história da Ficção científica, inspirando dezenas de obras desde sempre. A maneira de reutilizar ideias e transitar entre o fantástico, o trágico e cômico, ainda trazendo critica social, filosofia e um tom de suspense impulsionam o leitor a seguir adiante em sua trama; mas a forma como muitos diálogos e situações parecem incluídos, apenas para que uma ideia que poderia ser definida em cem páginas se desenvolva em mais de duzentas, cansa um pouco. De qualquer forma, UBIK é uma obra obrigatória para quem é fã de ficção científica, um texto original, que fora alguns detalhes, pode claramente ser percebido como inspiração para diversas outras obras e um exemplo da mente criativa desse escritor fantástico que foi Philip K. Dick.

Use UBIK - está em toda parte


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A AUTÓPSIA DE JANE DOE (2016)

Quem já perdeu alguns minutos de sua vida lendo o que eu escrevo, deve ter percebido como eu dou destaque às obras de ficção científica e fujo de produções que foquem no terror. Eu poderia dizer que é culpa da minha criação e das coisas que me acostumei a ver e ler na minha infância, ou afirmar que simplesmente não gosto do gênero, mas a grande verdade é que sou um cagão!

Cresci em um tempo em que toda semana um filme slasher estrelados por Freddy Krueger ou Jason Voorhees passava na Globo e onde se podia assistir “Colheita Maldita” e “Um lobisomem americano em Londres” as duas da tarde, no falecido cinema em casa do SBT e a possibilidade de assistir a esses filmes de adulto era muito bacana para mim, na época com sete ou oito anos, ainda mais quando acompanhado de amigos e primos, mas uma experiência vivida no meio do dia, não tinha um reflexo tão prazeroso quando era hora de dormir e tive tantos pesadelos, que resolvi deixar o cinema de terror meio que de lado por muito, muito tempo.

Só me reaproximei daquele estilo de filmes novamente, quando virou moda as produções orientais terem uma versão americana. Foi nessa época que me deparei com o filme “O Chamado” (2002), uma obra que me impressionou e que inaugurou (pelo menos no ocidente e de forma popular) um terror que focava muito mais na tensão, medo e susto, do que na contagem de corpos e cenas gore. Pois parece que, quinze anos depois, a influência daquele jeito oriental de fazer terror está dando frutos, através de filmes realizados por jovens diretores e roteiristas, com forte ligação com o cinema independente, que colocam as mortes em segundo plano e apostam no medo mais primitivo e no tom investigativo ou de estranheza para construir um suspense que prende o espectador na cadeira sem conseguir desviar os olhos.

Um filme que assisti recentemente e que exemplifica bem esse novo estilo de filme de terror, é a sinistra obra do diretor norueguês André Ovredal, “A Autópsia de Jane Doe”, de 2016, estrelado por Emile Hirsch e Brian Cox, que conhecendo a mim mesmo, resolvi assistir em uma tarde de sol, com toda casa aberta e usando cueca marrom, o que não evitou algumas noites de pesadelo.

O filme conta a história dos Tilden, pai (cox) e filho (Hirsch) que trabalham como legistas em Granthan, na Virgínia. Os dois seguem suas vidas , efetuando autópsias para a polícia e mantendo uma relação normal de pai e filho, até que em uma noite, o xerife da cidade (Michael McElhatton), traz para perícia, o corpo de uma mulher desconhecida (Jane doe, Nos E.U.A, significa mulher desconhecida) encontrado semienterrado no porão de uma casa sem sinal de arrombamento e onde as três outras pessoas encontradas mortas, aparentemente, estavam tentando sair. Sendo o caso um mistério, o Xerife pede urgência na descoberta da causa da morte, o que leva os legistas a decidirem passar a noite buscando respostas sobre o que pode ter acontecido com aquela mulher, sem imaginar que a presença daquele corpo vai colocar em xeque todas suas noções de razão, ciência e realidade.



O que mais me agradou nesse filme, foi sua estrutura de conto. Como falei, quando tratava do filme “Siren”, gosto dos contos porque eles se prendem em uma situação sem precisar aprofundar demais os personagens ou universo onde eles se encontram, explorando de forma pontual a situação que o personagem, ou grupo de personagens, está enfrentando e isso é exatamente o que acontece em “A autópsia de Jane Doe”. Embora tenhamos um vislumbre da história dos personagens, com uma pequena mostra do relacionamento do filho e com o monologo do pai sobre a perda da mulher, ou até mesmo com a apresentação do ambiente, onde o diretor, de forma inteligentíssima, mostra uma sequência de fotos que explicam que a família já trabalha naquele ramo a gerações, nada é maior do que a situação onde ambos são mergulhados, o que dá mais peso ao momento e tensão as ações.

Os Tilden
Um filme de terror deve manter uma tensão calculada, oscilando entre suspense e medo, até o susto; e nesse requisito, “A autópsia de Jane Doe” merece os parabéns graças a seu diretor. André Ovredal, consegue instigar o expectador apresentando os dois legistas quase como detetives, que vão resolvendo um enigma que foge totalmente as suas realidades e, conforme as revelações vão sendo feitas e a ideia de impossível desfeita, vamos nos tornando tão apreensivos quanto eles, acabando, também, por nos sentirmos presos naquele porão cheio de corpos. E o bacana, é que o diretor faz isso sem pressa, nos apresentando seus elementos de forma lenta e gradual, construindo toda uma ambientação que favorece o susto e o medo, e quando esses chegam, vem de forma instintiva, sem quase nunca mostrar nada, deixando que apenas nossa imaginação trabalhe, como nos contos de Lovecraft e isso é assustador e fantástico.

Outro fato que vem a somar ao filme, é a qualidade da atuação dos protagonistas. Emile Hirsch fazendo o papel do filho que sonha em interromper a linhagem de médicos legistas de sua família e ir embora com a namorada, ao mesmo tempo que não quer decepcionar o pai, parece despretensioso no filme, mas nem por isso menos crível no papel, já Brian Cox, rouba a cena como um médico cético, focado em seu trabalho para fugir do trauma de ter perdido a esposa e com dificuldades de aproximação com o filho. A iteração de ambos é muito bem orquestrada e conseguimos sentir o elo de pai e filho entre os dois, assim como seus problemas de relacionamento, que por muito só são expressos em olhares. As boas atuações, são outro fator, que em filmes todos os filmes, mas em especial os de terror, fazem toda a diferença para que nos preocupemos com os personagens e essa preocupação agregue tensão a trama e, Emile Hirsch e Brian Cox, possuem as qualidades necessárias para tal.

Outra coisa que me agradou bastante no filme, foi o respeito com o corpo da mulher. Como se trata da autópsia de uma mulher, fiquei com medo que em determinado momento, aquele corpo nu em cima de uma mesa, poderia ser alvo de fetichização, mas isso não ocorre em nenhum momento do filme, o corpo é tratado apenas como um corpo, ou seja, como restos mortais; em nenhum momento existe um olhar malicioso ou mesmo um gesto ou piada que sexualize a situação e essa atitude não apelativa, mostra a qualidade do roteiro e diretor.

Pois bem, não posso e nem vou falar mais desse filme, porque o achei muito bom, mas como história de terror, qualquer coisa que eu venha a revelar, só estragaria a experiência de assisti-lo. O que posso reafirmar é que ele é um exemplo dessa nova safra de filmes que apostam no susto e tom investigativo para prender o expectador e faz isso com extrema competência, com boas atuações, direção cuidadosa e trama redondinha e divertida (melhor dizer assustadora), falo para que ninguém espere um filme perfeito, mas garanto alguns sustos e mãos suadas por uma hora e meia.
Então se tiver oportunidade, assista “A autópsia de Jane Doe” e se for um cagão como eu, coloque uma cueca marrom, espere um dia de sol forte, abra toda a casa e aguarde os sustos, porque eles virão com certeza, então aproveite.

Fica a indicação.





quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SIREN (2016)

Parece que virou tendência transformar curtas em longas e, quando falo isso, me refiro a cinema e não ao uso das famosas bombinhas de sucção. Pois é, em tempos de escassez de roteiros originais, aprofundar , em loga metragem, as ideias e conceitos já explorados em menos tempo de tela vem se tornando uma opção para muita gente. Exemplos disso, são os ótimos "Whiplash" e "Distrito 9", que surgiram como curtas quase obscuros e chamaram a atenção do público quando suas histórias foram expandidas, no entanto, reciclar e aprofundar conceitos nem sempre é certeza de sucesso, podendo, pelo contrário, evidenciar um roteiro raso e uma história esquecível.

Talvez o grande trunfo para o sucesso da transformação de um curta em um longa, seja o drama e tensão que a história contenha e que podem ser elevados, conforme o talento do diretor, quando a história é aprofundada. Isso explicaria o sucesso dos dois filmes citados acima, que contem drama e tensão de sobra e ajudaria a entender porque que o gênero que menos obtém sucesso nessa nova tendência é o terror.

Um filme que demonstra isso, e que fiquei particularmente ansioso para assistir, foi "Siren", inspirado no curta "Amateur Night" de David Brukner, presente no filme "V.H.S", de 2012 e que conta , semelhante à produção original, a história de um grupo de amigos, que partem para uma despedida de solteiro atrás de diversão e loucura, indo parar em um casarão no meio de um pântano onde os mais estranhos e diversos fetiches são realizados. Lá eles são convencidos a pagar uma experiência dita como única ao noivo (Jonah), que acaba se deparando com uma mulher presa em uma sala, que, só Deus sabe porque, ele resolve liberta; acontece que essa aparente indefesa prisioneira é uma súcubo chamada Lylyth, um demônio devorador de homens, que passa a ver Jonah como um prêmio, matando todos que se colocam em seu caminho. Jonah e seus amigos, terão de fazer de tudo para escapar dessa noite que deveria ser uma das melhores de suas vidas e que se torna um pesadelo.



Fiquei ansioso para assistir a esse filme, porque dos curtas presentes no filme "V.H.S", esse foi o que mais deixou com cagaço. David Brukner, que dirigiu e escreveu aquele curta ( o filme tem a direção de Gregg Bishop) conseguia guiar o expectador por uma escala que começava no total descaso e acabava no verdadeiro medo, tudo isso utilizando poucas locações (na maioria fechadas), muita sombra e não dando quase nenhuma explicação sobre o passado dos personagens ou o que a criatura que eles encontram quer realmente, ou seja, fazendo o que um curta tem que fazer, que é focar em uma questão (no caso o medo) e trabalhar em cima disso; Já no filme, essa mesma sensação não se repete e penso que, da mesma forma que ocorreu em "quando as luzes se apagam" outro filme baseado em um curta de terror, o responsável é o próprio gênero das produções.

Pareço meiga, mas como as pessoas

Diferente de histórias que envolvem dramas pessoais e que podem ser exploradas e aprofundadas de diferente formas em um filme, os filme de terror tem o medo e tensão como combustível para a ação, nesse caso, histórias que se fundamentam apenas no contato com o desconhecido, tem no próprio desconhecido a essência de seu sucesso. O que quero dizer é que, quando explicamos a situação que originou o medo, ela passa a ,tanto não ser mais assustadora, como muitas vezes se mostrar uma ideia rasa e pouco original, e exatamente isso que acontece nesse filme.

Para começar, o filme deixa o estilo sombria da obra original para trás e apresenta um tom mais claro que beira as produções baratas feitas para a TV americana (e TV municipal) e, tendo dito que grande parte da tensão da obra original vinha da escuridão, penumbra e desconhecido, isso já acaba de início com grande parte do clima do filme. Outra questão é que o curta é filmado em primeira pessoa, no estilo de Found footage (aquele onde alguém acha uma fita contendo uma história fantástica, tipo "Bruxa de Blair"), o que te torna participante daquele pesadelo tentando escapar de qualquer maneira, o que não acontece no filme, que é filmado de forma convencional e acaba mostrando muito mais do que deveria.
Os cenário também parecem trabalhar contra o filme, pois as ambientações parecem sempre vazias e pouco naturais e os poucos coadjuvantes que aparecem são tão mal dirigidos que só não olham para as câmeras para não perder o pagamento de um salgado e um refri, fato que não é diferente com os personagens principais da trama são tão mal explorados e interpretados, que quando ameaçados, ninguém se importa com o triste destino que o filme promete lhes reservar.

No entanto, o pior do filme, é o próprio roteiro. Como a história original foi concebida para fazer sentido dentro de um curta, para alongar a história é necessária a introdução de itens que preencham lacunas e nisso, é incluído mais um vilão e motivos para o mesmo, o que faz com que a ideia original se perca de Vez. O filme traz como o outro antagonista, o Sr. Nyx, que, pelo que ele mostra, é um exorcista, demologista, bruxo, vendedor de artigos místicos e dono de bordel, não deixando claro sua principal atividade, mas não conseguindo causar medo em nenhuma cena onde dá as caras, na verdade, o próprio personagem não parece levar a sério as próprias loucuras que o cercam, sendo que quando ele morre, tanto faz, a vida segue. Além dele, ainda somos apresentados a uma bartender, que rouba as lembranças das pessoas através de sangue-sugas que crescem em sua cabeça no pior estilo Medusa e que não tem a menor necessidade de estar na trama, um enxerto que só mostra quanto o roteiro é parco.
fica quieto, porque esse filme é uma bomba
Junto a introdução desse outro vilão e sua bartender sinistra, é cometido outro grande erro, que é dar um passado ao demônio Lylyth. Como já disse, grande parte do que assusta nos filmes de terror é o desconhecido e, fora casos como filmes igual a "O chamado", que conseguem passar uma pegada investigativa e vamos descobrindo junto com os personagens o que está acontecendo, um filme que te entrega tudo e ao mesmo tempo não diz nada, apenas dilui sua própria relevância e Gregg Bishop fez isso quando, não somente mostra como Lylyth acabou em nossa dimensão, como também lhe dá uma cauda de capeta e asas de morcego, que embora ficassem implícitas no curta, não eram mostradas como no filme, fatos que se somam e acabam por, além de diminuir o medo causado pela história, transforma-la em uma comédia involuntária e o final do filme, assim como a cena de sexo entre o protagonista e a mulher demônio, parecem confirmar isso.

"Siren" é um exemplo de que algumas ideias devem permanecer no micro. Um filme que parece ter sido esticado de tal maneira que cresceu mas não consegue se sustentar (talvez o diretor tenha usado bombinhas de sucção), uma trama ruim e rasa que nasceu de um ótimo e assustador curta e que reúne em menos e vinte minutos mais qualidades do que o longa com quatro vezes o seu tamanho. Então se alguém lhe apresentar esse filme fuja para as montanhas ou corra para o mato para não perder uma hora e vinte de sua vida, ou convença a pobre alma a assistir à "V.H.S" de 2012, que realmente vale a pena ser assistido.