quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SIREN (2016)

Parece que virou tendência transformar curtas em longas e, quando falo isso, me refiro a cinema e não ao uso das famosas bombinhas de sucção. Pois é, em tempos de escassez de roteiros originais, aprofundar , em loga metragem, as ideias e conceitos já explorados em menos tempo de tela vem se tornando uma opção para muita gente. Exemplos disso, são os ótimos "Whiplash" e "Distrito 9", que surgiram como curtas quase obscuros e chamaram a atenção do público quando suas histórias foram expandidas, no entanto, reciclar e aprofundar conceitos nem sempre é certeza de sucesso, podendo, pelo contrário, evidenciar um roteiro raso e uma história esquecível.

Talvez o grande trunfo para o sucesso da transformação de um curta em um longa, seja o drama e tensão que a história contenha e que podem ser elevados, conforme o talento do diretor, quando a história é aprofundada. Isso explicaria o sucesso dos dois filmes citados acima, que contem drama e tensão de sobra e ajudaria a entender porque que o gênero que menos obtém sucesso nessa nova tendência é o terror.

Um filme que demonstra isso, e que fiquei particularmente ansioso para assistir, foi "Siren", inspirado no curta "Amateur Night" de David Brukner, presente no filme "V.H.S", de 2012 e que conta , semelhante à produção original, a história de um grupo de amigos, que partem para uma despedida de solteiro atrás de diversão e loucura, indo parar em um casarão no meio de um pântano onde os mais estranhos e diversos fetiches são realizados. Lá eles são convencidos a pagar uma experiência dita como única ao noivo (Jonah), que acaba se deparando com uma mulher presa em uma sala, que, só Deus sabe porque, ele resolve liberta; acontece que essa aparente indefesa prisioneira é uma súcubo chamada Lylyth, um demônio devorador de homens, que passa a ver Jonah como um prêmio, matando todos que se colocam em seu caminho. Jonah e seus amigos, terão de fazer de tudo para escapar dessa noite que deveria ser uma das melhores de suas vidas e que se torna um pesadelo.



Fiquei ansioso para assistir a esse filme, porque dos curtas presentes no filme "V.H.S", esse foi o que mais deixou com cagaço. David Brukner, que dirigiu e escreveu aquele curta ( o filme tem a direção de Gregg Bishop) conseguia guiar o expectador por uma escala que começava no total descaso e acabava no verdadeiro medo, tudo isso utilizando poucas locações (na maioria fechadas), muita sombra e não dando quase nenhuma explicação sobre o passado dos personagens ou o que a criatura que eles encontram quer realmente, ou seja, fazendo o que um curta tem que fazer, que é focar em uma questão (no caso o medo) e trabalhar em cima disso; Já no filme, essa mesma sensação não se repete e penso que, da mesma forma que ocorreu em "quando as luzes se apagam" outro filme baseado em um curta de terror, o responsável é o próprio gênero das produções.

Pareço meiga, mas como as pessoas

Diferente de histórias que envolvem dramas pessoais e que podem ser exploradas e aprofundadas de diferente formas em um filme, os filme de terror tem o medo e tensão como combustível para a ação, nesse caso, histórias que se fundamentam apenas no contato com o desconhecido, tem no próprio desconhecido a essência de seu sucesso. O que quero dizer é que, quando explicamos a situação que originou o medo, ela passa a ,tanto não ser mais assustadora, como muitas vezes se mostrar uma ideia rasa e pouco original, e exatamente isso que acontece nesse filme.

Para começar, o filme deixa o estilo sombria da obra original para trás e apresenta um tom mais claro que beira as produções baratas feitas para a TV americana (e TV municipal) e, tendo dito que grande parte da tensão da obra original vinha da escuridão, penumbra e desconhecido, isso já acaba de início com grande parte do clima do filme. Outra questão é que o curta é filmado em primeira pessoa, no estilo de Found footage (aquele onde alguém acha uma fita contendo uma história fantástica, tipo "Bruxa de Blair"), o que te torna participante daquele pesadelo tentando escapar de qualquer maneira, o que não acontece no filme, que é filmado de forma convencional e acaba mostrando muito mais do que deveria.
Os cenário também parecem trabalhar contra o filme, pois as ambientações parecem sempre vazias e pouco naturais e os poucos coadjuvantes que aparecem são tão mal dirigidos que só não olham para as câmeras para não perder o pagamento de um salgado e um refri, fato que não é diferente com os personagens principais da trama são tão mal explorados e interpretados, que quando ameaçados, ninguém se importa com o triste destino que o filme promete lhes reservar.

No entanto, o pior do filme, é o próprio roteiro. Como a história original foi concebida para fazer sentido dentro de um curta, para alongar a história é necessária a introdução de itens que preencham lacunas e nisso, é incluído mais um vilão e motivos para o mesmo, o que faz com que a ideia original se perca de Vez. O filme traz como o outro antagonista, o Sr. Nyx, que, pelo que ele mostra, é um exorcista, demologista, bruxo, vendedor de artigos místicos e dono de bordel, não deixando claro sua principal atividade, mas não conseguindo causar medo em nenhuma cena onde dá as caras, na verdade, o próprio personagem não parece levar a sério as próprias loucuras que o cercam, sendo que quando ele morre, tanto faz, a vida segue. Além dele, ainda somos apresentados a uma bartender, que rouba as lembranças das pessoas através de sangue-sugas que crescem em sua cabeça no pior estilo Medusa e que não tem a menor necessidade de estar na trama, um enxerto que só mostra quanto o roteiro é parco.
fica quieto, porque esse filme é uma bomba
Junto a introdução desse outro vilão e sua bartender sinistra, é cometido outro grande erro, que é dar um passado ao demônio Lylyth. Como já disse, grande parte do que assusta nos filmes de terror é o desconhecido e, fora casos como filmes igual a "O chamado", que conseguem passar uma pegada investigativa e vamos descobrindo junto com os personagens o que está acontecendo, um filme que te entrega tudo e ao mesmo tempo não diz nada, apenas dilui sua própria relevância e Gregg Bishop fez isso quando, não somente mostra como Lylyth acabou em nossa dimensão, como também lhe dá uma cauda de capeta e asas de morcego, que embora ficassem implícitas no curta, não eram mostradas como no filme, fatos que se somam e acabam por, além de diminuir o medo causado pela história, transforma-la em uma comédia involuntária e o final do filme, assim como a cena de sexo entre o protagonista e a mulher demônio, parecem confirmar isso.

"Siren" é um exemplo de que algumas ideias devem permanecer no micro. Um filme que parece ter sido esticado de tal maneira que cresceu mas não consegue se sustentar (talvez o diretor tenha usado bombinhas de sucção), uma trama ruim e rasa que nasceu de um ótimo e assustador curta e que reúne em menos e vinte minutos mais qualidades do que o longa com quatro vezes o seu tamanho. Então se alguém lhe apresentar esse filme fuja para as montanhas ou corra para o mato para não perder uma hora e vinte de sua vida, ou convença a pobre alma a assistir à "V.H.S" de 2012, que realmente vale a pena ser assistido.




domingo, 8 de janeiro de 2017

PASSAGEIROS (2016)

A ficção científica vem há anos tomando um lugar mais iluminado dentre os estilos mais populares de cinema. Com produções como “Interstellar”, de Christopher Nolan, e “Gravidade” de Alfonso Cuarón, se tornando novos clássicos e abocanhando, além do aplauso da crítica e público, prêmios como o Oscar, Globo de ouro e o BAFTA, o estilo vem crescendo a cada ano e atraindo para si um grande número de astros e diretores. No entanto, o sucesso do estilo, depende bem mais do que o esmero nos efeitos visuais e a visão futurista da sociedade perfeita, pois a ficção científica de qualidade é aquela que reflete os problemas vividos no momento onde sua trama foi escrita, mas imaginada tendo consequências em um futuro distante, ou servindo de pano de fundo para apresentar problemas pessoais dos personagens, onde todos se identificam; justamente como fazem os filmes de Nolan e Cuarón, e, o que tenta fazer o mais novo filme estrelado por Jennifer Lawrence, Chris Pratt e dirigido por Morten Tyldum; “Passageiros”, que conta uma história de amor e (quase) catástrofe em meio a uma viagem intergaláctica.

“Passageiros” conta a história de Jim Preston (Pratt), um engenheiro mecânico, que na busca de maiores oportunidades parte, em animação suspensa, abordo da nave Avalon para ser um colonizador do planeta Homestead II juntamente com mais cinco mil pessoas. A viagem de cento e vinte anos é considerada rotineira e os equipamentos à prova de falhas, no entanto Jim é acordado noventa anos antes do prazo e se vê sozinho e impossibilitado de conseguir ajuda. Após um ano de solidão o engenheiro resolve acordar Aurora Lane (Lawrence), uma jovem escritora cuja obra foi a responsável pelo mesmo não perder sua sanidade, o tempo passa e o relacionamento de dois vai se estreitando até se transformar em uma romance, mas o que acontecerá quando Aurora descobrir que Jim a condenou a viver seus dias em uma viagem sem fim tendo apenas ele como sua companhia? E, o que eles farão ao descobrirem que a Avalon está indo de encontro com uma falha iminente que poderá causar a morte, não só deles, como das demais cinco mil pessoas?

Pois bem, “Passageiros” tem uma premissa bacana, fala sobre colonização espacial, em especial da viagem centenária para alcançar outro planeta habitável, e, como toda história de ficção científica que se destaque, aborda temas em que todas as pessoas conseguem se identificar, como solidão, romance, perdão e sacrifício. No entanto, o filme, que não chega a ser ruim, parece ficar devendo alguma coisa, uma ausência presente em toda trama, que, alias, parece nunca engrenar. Talvez o que falte seja um antagonista digno do elenco, ou diálogos mais densos e um aprofundamento maior naquela sociedade futurista, mas o fato é que, fora o enredo que fala de um futuro fantástico, “Passageiros” é um grande “Lagoa Azul” no espaço.

Talvez o pessoal mais novo não conheça, mas “Lagoa Azul” era um clássico da sessão da tarde da Globo, que repetiu inúmeras vezes e que contava a história de um casal de crianças que sobrevive a um naufrágio e vai parar em uma ilha deserta, crescendo junto, se apaixonando e vivendo as delícias e perigos do isolamento, exatamente a mesma premissa que o filme “passageiros” nos traz. Essa referência ganha força quando percebemos que a  produção é protagonizada por dois dos atores que, além de serem dois dos nomes em maior ascensão no cinema atual, são dois símbolos de beleza do momento, Chris Pratt, o Star Lord de “Os guardiões da Galáxia” e a oscarizada Jennifer Lawrence, a Mística dos últimos filmes dos “X-men”, o que nos leva a pensar que o enredo do filme tem como motivo o simples fetiche de se ter um belo casal preso a sós em um lugar onde tudo de que precisam está disponível e ninguém pode os incomodar, o que não foi má ideia para um filme dos anos oitenta como “A Lagoa Azul” e pode funcionar ainda hoje em um curta e até para um soft porn, mas que deixa muito a desejar no que se trata de uma produção de ficção científica.



 Um fator que talvez nos fizesse ignorar as questões que deixam a desejar na trama seria se a química entre os protagonistas funcionasse de forma perfeita, no entanto não é o que acontece. Chris Pratt que tem o humor como seu maior trunfo, não consegue convencer como o solitário e apaixonado Jim Preston, parecendo não possuir as qualidades necessárias para cativar Aurora Lane, a personagem de Jennifer Lawrence que, nesse filme, longe das rotineiras atuações de luxo que lhe renderem um oscar, transparece,  uma apresentação forçada e nos passa até um ar snobe e superior. Problemas que acabam por fazer com que não nos preocupemos de verdade com o destino de ambos os personagens.

No entanto, as mesmas características que parecem não unir o casal os abrilhantam quando os temos separados em tela. Chris Pratt, que domina solitário um quarto do filme, consegue arrancar algumas risadas quando decide viver tudo que a nave Avalon tem a oferecer a seu único hospede desperto e emociona sem precisar usar uma única palavra, quando sozinho faz um tour por fora da nave contemplando a imensidão do vazio externo que é semelhante o seu interno. O mesmo serve para Jennifer Lawrence, que se mostra sensual e sensível, quando , escrevendo seu livro em meio a viagem, aborda temas como solidão e passado, sem, contudo repetir o que Pratt oferece.

Partiu espaço?
Mas apesar de tudo, o filme ainda parece carecer de um motivo melhor para aquelas pessoas se encontrarem naquela situação inusitada e de um problema digno que os conecte de vez. Descobrimos, após mais de uma hora e meia de filme, que o problema que pode causar a morte de todos na nave e que despertou Jim Preston dois anos antes, foi um meteoro que atravessou os comandos de refrigeração do reator da nave; mas desde o início da trama sempre é dito que a nave é a prova de meteoros, falhas nas câmaras de hibernação e erros de sistema, mas erros são tudo que ocorrem na Avalon, nos remetendo agora ao “Titanic” de James Cameron, que era , segundo seus construtores, inaufragável, mas que foi a pique em sua primeira viagem. O pior é que, mesmo com Preston sendo engenheiro, é necessário que outro personagem (Lawrence Fishburne, com seu primeiro “magical negro”) surja para lhe mostrar onde estão os problemas que devem ser solucionados, para logo depois morrer, em uma das pontas mais desnecessárias dos últimos tempos, perdendo apenas para a que Andy Garcia faz nessa mesma produção, que se resume a sair de uma sala, parar na porta e fazer uma cara de espanto pouco antes dos créditos começarem a subir, de qualquer forma, se espera mais de um filme que junta dois astros em ascensão e traz um elenco de apoio de peso como o citado acima.

Bora !
Para encerrar, o filme ainda parece querer nos passar uma ideia de felicidade simples, baseada na cumplicidade e dependência mutua sustentada por uma forma de releitura de contos da bíblia. Assim temos um Adão e uma Eva, a bordo de um Éden futurista (talvez daí o nome Avalon da Nave, que na lenda era uma ilha famosa por suas belas maças), onde ao contrário do que fala no velho testamento, o pecado parte do homem que se apaixona e não mede as consequências em tentar ter a mulher ao seu lado. Da mesma forma a trama parece referenciar a história da arca de Noé, com o casal enfrentando um grande problema para conseguir com que os demais passageiros e tripulação cheguem ao seu destino e perpetuem o legado da humanidade, mas isso fica tão em segundo plano, que acaba esquecido quando o diretor resolve transformar a história de amor em tema central.


Enfim, “Passageiros”, embora não seja um filme que desmereça a ficção científica, ou que seja realmente ruim, não é uma produção que deva ficar muito tempo na lembrança de quem assistir, alcançando, no máximo, o status de filme divertido. O filme, que tem uma premissa bacana e consegue, até certo ponto, conectar o expectador com os personagens (principalmente o de Chris Pratt), falha ao não se aprofundar no universo a que aqueles personagens pertencem ou nos apresentar um problema excepcional que além de criar uma mudança dentro da história, justifique o que acontece ao final da história, dando á produção ares de sessão da tarde que jogam um balde de água fria em quem teve expectativa por um filme protagonizado por dois atores muito queridos pelas gerações mais novas e dirigido pelo mesmo diretor de “O jogo da Imitação”, desaparecendo assim no horizonte das produções de ficção científica como só mais um filme desliga cérebro.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O ROUBO DA TAÇA (2016)

O cinema brasileiro sempre foi visto com desconfiança pelos próprios brasileiros. Talvez pela pouca qualidade técnica, herança do tempo onde a maioria dos filmes que o Brasil produzia vinha da boca do lixo, com suas pornochanchadas e produções de baixo orçamento, ou pelo fato de grande parte das histórias levadas ao público tratarem sempre de tramas pouco diversificadas, vividas no período de ditadura ou retratando problemas sociais vividos em favelas. Mas esse quadro vem mudando bastante e hoje, com melhor acesso a equipamentos de qualidade e a visibilidade dada pela internet, o que favorece o patrocínio a quem pensa fora da caixa, o cinema tupiniquim vem crescendo gradualmente no que tem a oferecer a seu espectador, deixando pouco, ou nada a desejar a produções estrangeiras.

Uma produção que ilustra essa mudança em nosso cinema, mesmo ainda tendo laços com os temas miséria e ditadura militar, é o ótimo filme, dirigido por Caíto Ortiz e roteirizado pelo mesmo junto com Lusa Silvestre, "O roubo da Taça", que conta de maneira divertida e inteligente o episódio do roubo da taça Jules Rimet, ocorrido em Dezembro de 1983 e que, assim como o Curta "Ninjas", de Dennison Ramalho, me deu novas esperanças sobre o futuro da sétima arte brasileira.


"O roubo da Taça" conta a história de Sérgio Peralta, um malandro carioca, corretor de seguros, viciado em jogo e apaixonado por futebol, que após ser ameaçado de morte por um credor, resolve, junto com seu amigo "Borracha", roubar a cópia da taça Jules Rimet, que havia se tornado propriedade da CBF após a seleção de futebol brasileira vencer três copas do mundo. O que Peralta desconhece é que na terra da malandragem, camarão que dorme a onda leva e, por engano, a CBF deixou a taça verdadeira exposta e colocou a cópia em um cofre, entregando um abacaxi na mão dos ladrões e deixando o expectador boquiaberto ao saber que essa história maluca é baseada em fatos reais.

O filme é uma grata surpresa em todos os aspectos. Seja com o modo como conta e desenvolve a trama, ou no que se refere a montagem, ou mesmo na fotografia, "O roubo da taça" mostra que é possível fazer cinema de qualidade no Brasil. O roteiro do filme é bem redondinho e divertido, não deixando grandes pontas soltas na trama (a não ser, onde foi parar o Bispo?) e consegue desenvolver bem os personagens envolvidos e até justificar e tornar bacana a narração feita de forma didática pela personagem de Taís Araujo. A palheta de cores que o filme tem, onde se vê grande predominância amarelo e marrom, cores da moda no início dos anos oitenta, me pareceram remeter a cor da camisa da seleção brasileira e a um sinal de que vai dar "M"; fato que ainda se sustenta pela investigação feita pelo personagem de Milhem Cortaz, que fica em segundo plano no filme, mas aumenta a tenção da história e, pela montagem que lembra a forma dos filmes americanos de roubo e suspense.

Comparando com produções estrangeiras, é impossível de não lembrar de "Fargo" dos irmãos Coen, ao assistir "O roubo da taça". Os dois filmes contam histórias de erros absurdos envolvendo crimes, ambos possuem uma dupla de marginais nada ortodoxa e terminam com uma mulher se dando bem, se tornando opostos apenas no que se refere ao clima das locações, pois enquanto "Fargo" se passa na gélida Minesota, ao Norte dos E.U.A, "O roubo da Taça" tem o tropical Rio de Janeiro como cenário e, embora o filme dos irmãos Coen se destaque mais pela violência, o filme brasileiro tem a vantagem de realmente ser baseado em uma história real.

Vai dar "m"
Sobre a verdadeira história do roubo da taça Julles Rimet, fiquei tão impressionado com o que vi no filme, que fui obrigado a procurar mais sobre o que aconteceu naquela noite de 19 de Dezembro de 1983 no prédio da CBF no Rio de Janeiro, e, me deparei com um capítulo de um programa que fazia muito sucesso nos anos 90, na rede Globo, o "Linha direta", um programa semanal jornalístico, que misturava documentário com investigação e, toda semana, trazia casos que variavam entre crimes famosos, denuncias de fugitivos da lei e casos fantásticos. Nesse capítulo do "linha direta", pessoas do nível de Pelé e Carlos Alberto Torres falam como receberam a notícia do roubo da taça e especialistas, como o responsável pelas investigações na época, contam como as investigações procederam e o que supostamente ocorreu com o troféu do tri, que nunca mais foi encontrado; o programa é muito bom e está todo no youtube. (link abaixo)

O elenco é fantástico. Protagonizado pelo não tão famoso Paulo Tiefenthaler, que mesmo assim chama pra si e se apresenta como uma grande opção na comédia, o filme tem ainda Taís Araujo, esbanjando beleza e malícia, no papel de Dolores, a companheira de Sérgio Peralta e narradora da história; Milhem Cortaz, como o investigador durão da polícia civil que busca resolver o caso do crime, Mister Catra, como um comprador de ouro fanático pela copa de 70 e Stepan Nercesian, como o presidente da CBF; o que mais se precisa dizer?

Pois bem, sabendo que o filme foi baseado em um episódio real ocorrido em nosso querido Brasil-sil-sil e deixando claro que o filme me agradou de mais e me deu esperanças para um cinema Brasileiro que abocanhará muitos prêmios internacionais e faturará muita grana, não posso estragar a experiência de quem quer ver "O roubo da Taça" dando mais detalhes, só dizer uma coisa: Assista!, pois com certeza o filme de Caíto Ortiz irá mudar sua percepção de cinema brasileiro daqui para a frente, pois "O roubo da taça" é um filme original e inteligente, repleto de humor, que conta com agilidade um dos episódios mais tragi-cômicos ocorridos no país do futebol e da malandragem, deixando claro que, muito antes dos fatídicos 7x1, nosso país já tinha muito para explicar ao mundo de como funciona nossas organizações e sociedade.

TRAILER:




LINHA DIRETA: O ROUBO DA TAÇA


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

INVASÃO ZUMBI (2016): Trem para Busan



Se o século vinte e um trouxe uma certeza para o mundo, é que a Coréia do Sul sabe fazer cinema. Com filmes que se tornaram clássicos, como a trilogia da vingança de Park Chan-Wook, e produções que reinventaram os estilos a que pertenciam, como “O hospedeiro”, “Sede de Sangue” e “Eu vi o Demônio”, o cinema Sul Coréia conquistou o público e a crítica, tornando-se ele, inspiração para produções ocidentais. No entanto, depois do massacre no colégio técnico de Virgínia, nos EUA, efetuado pelo estudante sul Coreano Cho Seung Hui, onde foram divulgadas fotos onde o mesmo fazia poses com um martelo, fato que foi identificado como referência ao filme “Old Boy”, filmes daquele país acabaram perdendo espaço e por muito tempo o acesso aos mesmos se tornou mais difícil.

Porém, mesmo com as dificuldades, o cinema Coreano seguiu se aprimorando e agregando seu ponto de vista a estilos e conceitos já conhecidos, e até batidos aqui por estas bandas, tornando algumas de suas produções impossíveis de ser desprezadas. Um ótimo exemplo, é o filme que estreou quase na véspera do Natal de 2016 aqui no Brasil e que chamou minha atenção pela forma que conta uma história que está muito saturada em nossa cultura, trata-se de “Trem Para Busan”, ou como foi nomeado em nosso país, “Invasão Zumbi”, do diretor Yeon Sang-Ho, que de forma simples, divertida e emocionante me deu nova energia para encarar mais uma produção com um tema já tão explorado e me manteve preso na cadeira, em suas quase duas horas, com uma mistura de emoções que nenhum outro filme do estilo me causou na vida.




Sinopse:

Seok-woo, um gestor financeiro, resolve atender o pedido de aniversário de sua filha e levá-la para a cidade de Busan para ver sua mãe; no mesmo trem, o time de Baseball estudantil onde joga Young-Guk parte para um jogo do campeonato; o truculento Sang-Hwa vai com sua esposa Sung-Kyung para casa de parentes e Young-suk vai voltar para casa. Tudo parece normal, mas o que todos ignoram na viagem de trem até Busan, é que na noite anterior, um acidente na usina de Ansan contaminou um grande número de pessoas, tornando-as violentas e irracionais, e, que entrando escondido no trem, existe um passageiro infectado, o que desencadeará uma onda de violência e luta pela sobrevivência dos passageiros; resta agora saber se eles chegarão seguros em sua última parada ao enfrentar um vírus que se espalha mais rápido do que um trem-bala.


Mas, o que esse filme tem?

Lendo a sinopse de “Trem para Busan”, ele parece mais um filme de zumbis iguais a muitos que vemos hoje em dia, onde suas referências são bem claras, como o fato de os protagonistas estarem isolados em um local fechado, tal qual “a Noite dos mortos-vivos” ou “Madrugada dos Mortos”, e, também a ideia de apocalipse zumbi, que se tornou famosa com a série “the walking dead”. No entanto, o filme traz em si questionamento e pontos de vista que, tanto se opõem à visão de sociedade dessas produções, como aprofunda ideias e situações atuais de nosso mundo usando a trama do filme como alegoria.

Dentre os argumentos que se opõem a outras produções do gênero, em especial a “the Walking Dead”, está a ideia de que a gentileza e o sacrifício é o que salvariam a humanidade em uma situação como a apresentada no filme. Enquanto na série criada por Robert Kirkman, a sociedade se tornou egoísta e violenta, se defendendo em pequenos bandos, na sociedade que se forma em “Trem para Busan” a sobrevivência depende de todos e é importante buscar salvar a todos, mesmo os que não tenham uma utilidade prática ou que sejam desconhecidos, e isso é exposto pouco a pouco e vai sendo ensinado ao protagonista (Seok-woo), por quem ELE deveria ensinar, que é sua filha, culminando em uma cena final, onde a capacidade de se emocionar, que é o que define o humano, é o que assegura o destino dos sobreviventes, cena que também acaba se opondo a tomada final do clássico “Anoite dos mortos-vivos”
Mesmo ignorando toda diferença de tempo das situações apresentadas na série da AMC e do filme Sul Coreano, onde, no filme, o vírus se espalhou por menos de um dia e na série a infecção já devastou o planeta por anos, o que fez as pessoas se obrigaram a tornarem-se mais duras, acredito que esse diferencial ético seja válido e engrandeça a produção oriental por nortear sua história com uma visão mais nobre sem ser nada piegas.

Ainda falando sobre ética, o filme traz reflexões em seu desenrolar, que remetem ao momento atual vivido por nossa sociedade. Um deles se dá, quando após uma parada frustrada, os sobreviventes se encontram divididos em vagões distantes, sendo necessário que alguns deles atravessem vagões cheios de mortos-vivos para encontrar seus amigos e parentes. Chegando lá, após muito sacrifício, grande parte das pessoas que estava seguras resolve expulsá-los por medo de que algum estivesse contaminado por virem de uma área mais perigosa. Essa sequência me remeteu muito a crise dos refugiados que estamos vivendo nos dias atuais, onde vemos milhares de pessoas buscando salvação ao sair de suas casas em zonas de guerra e que, muitas vezes, são alvo de desconfiança e medo de quem os vê chegando em seu país, aparentemente tão seguro; resposta que o roteiro dá, ao deixar claro que as vezes o perigo está exatamente onde nos achamos seguros.

Agora o bicho vai pegar
Mas além de levantar questionamentos e fazer menção ao momento atual em nossa sociedade, o filme é extremamente divertido e tenso. Quanto a tensão, ela surge desde o prólogo que temos antes da apresentação do título da produção, onde vemos um caminhão atropelando um cervo e o mesmo levantando “Zumbificado”, em uma cena que me lembrou bastante o início do também Sul Coreano “O Hospedeiro”, e, a tensão só cresce com o decorrer da história, nos passando aquela sensação de que vai dar tudo errado, quando vemos o passageiro infectado com uma mordida na perna e rezando no banheiro para que não se transforme. Já falando de diversão, o segundo ato do filme é fantástico, onde temos, praticamente, um jogo de plataforma, com três personagens, batendo nos zumbis para conseguirem atravessar quatro vagões e alcançar seus entes queridos, destaque para o truculento Sang-Hwa, que sai no braço com os mortos-vivos.

Para encerrar, o filme ainda tem uma mensagem de esperança ao final, que é precedida por uma das cenas mais bonitas que já assisti em um filme de terror ou thriller de ação e que vai se desenhando desde a primeira conversa entre Seok-woo e sua filha Soo-An, passa pelos diálogos entre os sobreviventes, quando estes precisam lutar contra os zumbis, e termina com a própria Soo-An, cantando a música que cantou em uma apresentação da escola onde o pai não foi por causa do trabalho, encerrando o filme com um trio de sobreviventes inusitados e símbolos máximos de esperança, me deixando com um nó na garganta.

Pois bem, nada que eu vá dizer poderá substituir a experiência de assistir esse que foi uma das grandes surpresas boas que 2016 me deu, então se tiver um tempinho, assista “Trem para Busan”, ou como ficou por aqui, “Invasão Zumbi” e se emocione e aterrorize-se nessa viagem de duas horas na busca por um lugar seguro em um trem cheio de emoções, referências e questionamentos que vão te fazer pensar sobre a vida e nosso mundo.

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A CHEGADA (2016)

Comunicação com alienígenas tem sido um tema recorrente na minha cabeça já algum tempo. Falei um pouco disso quando escrevi sobre o filme "Oblivion", mas a questão já me perturbava muito tempo antes e parece me perseguir a cada dia mais; não sei se tudo deriva do fato de eu trabalhar em um ramo onde as pessoas tem muita dificuldade de se comunicar, ou pelo momento de extremismo no mundo que venho acompanhando, onde ninguém quer realmente ouvir o que o outro lado tem a dizer; só sei que a dificuldade sobre como entenderíamos uma língua pertencente a seres vindos do outro lado da galáxia, com cultura, conceitos e percepções inimagináveis para nós, já que não conseguimos entender nem mesmo nossos vizinhos, me fascina.
Foi para saciar essa minha fascinação sobre como seria nosso primeiro diálogo com alienígenas, que fui atrás de histórias que buscassem se aprofundar na questão de, tanto nós entendermos os visitantes, quanto eles nos entenderem; me deparando assim com livros como "Contato"de Carl Sagan e "estranho em uma terra estranha" de Robert A. Heinlein e, mais recentemente com um filme que considero como um dos melhores de 2016 e que me deu ainda mais conceitos e questões para refletir. Trata-se de "A chegada", filme dirigido por Denis Villeneuve e estrelado por Amy Adams e Jeremy Renner, que esperei com ansiedade desde o surgimento de seu primeiro trailer e que superou minhas expectativa com tudo que me trouxe.

O filme gira em torno da Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista de prestígio que, após a aparição de doze gigantescos Ovnis espalhados pelo mundo, é convocada pelo governo americano, assim como o físico Ian Donnely (Jeremy Renner), para traduzir a língua dos alienígenas e buscar compreender qual a intenção dos mesmos para com o nosso planeta. Correndo contra o tempo, Louise e Ian terão de superar o medo que se espalha na sociedade, a imposição por parte do governo e a desunião entre os países envolvidos, para assim desvendarem as reais intenções dos visitantes e com isso, descobrirem muito mais sobre si mesmos.

Humano
O filme é muito competente ao abordar o que o roteiro propõe, se aprofundando na questão da dificuldade de diálogo entre duas raças que não possuem absolutamente nada em comum, do mesmo modo que é uma produção bonita de se ver e que trás uma mensagem muito bacana e atual de união e tolerância. Os protagonistas são plenamente críveis, apresentados como cientistas racionais e brilhantes, mas antes de tudo muito humanos com seus medos, traumas e erros, sem, porém, perder o foco em suas pesquisas e estudos e, se colocando no outro extremo de personagens de ficção científica que não os habituais heróis que resolvem tudo com explosões e gritaria. O destaque entre as interpretações é Amay Adams, que consegue expressar todo melancolia e sentimento que circundam a trama principal do filme utilizando muito de breves silêncios e fortes olhares para passar ao expectador muito de sua personagem sem precisar utilizar uma única palavra; Jaremy Renner também não deixa nada a desejar, sendo carismático e natural, entregando um Ian Donnely leve e muito mais simpático que os personagens que ele vem interpretando ultimamente. A direção, que ficou nas mãos do diretor canadense Denis Villeneuve, o mesmo de "Sicário", é extremamente competente e precisa, dando um ritmo lento e cíclico, mas não chato, na trama, o que faz total sentido quando por fim compreendemos o que os alienígenas querem e como história é montada, cravando uma exclamação em nossa mente ao final do terceiro ato quando temos várias revelações que são apontadas desde o primeiro minuto por um roteiro primoroso.



O roteiro do filme é baseado no conto "A história de sua vida" do escritor Ted Chiang, outro jovem escritor, que assim como Andy Weir, que escreveu "Perdido em Marte", foca mais na atuação da ciência em casos extraordinários, do que em uma solução utilizando a ação como protagonista. Então, toda a situação sobre a dificuldade de manter contato se torna a missão central do filme e serve de base para abordar e criticar temas de nosso dia a dia, como a boa ficção cientifica sempre fez e, assim o filme traça um paralelo sobre a dificuldade de compreensão entre as pessoas e sobre a tolerância com o que (ou quem) é diferente.
O filme me lembrou muito o livro "estranho em uma terra estranha", onde o protagonista, criado por alienígenas, não conseguia entender os conceitos humanos e ficava em grande parte paralisado frente a ironia e violência, sendo visto como alguém de intelecto baixo ou incapaz, quando na verdade a realidade de seu pensamento era totalmente dispare do pensamento humano. Da mesma forma, conforme a trama vai se desenrolando, enxerguei muito do livro e filme "contato", de 1997, e do filme "Interstellar" de 2014, dirigido por Christopher Nolan; com o primeiro, a semelhança é que formas de vida alienígenas ensinam uma maneira da humanidade se comunicar com elas, apenas para informar-nos que esse é o primeiro passo e que temos de nos preparar para aceitar o diferente, com o segundo, a ideia de que "o amor é a única coisa que transcende o tempo e espaço" e responsabilidade de nossos atos, coisas que parecem piegas, mas que ao assistir o filme tornam-se doces e verdadeiras.


No entanto, para entender a sutileza e a magia desse filme, é preciso revelar algumas partes da trama, ou não será possível uma análise digna de um filme tão bom quanto esse. Então lá vai:



Zona de Spoiler

Esse filme foi vendido errado!! Não é um filme de invasão alienígena, como os trailers tentavam mostrar, é um filme de visita alienígena e mudança de paradigma e, o diretor, roteirista e o montador, souberam tratar disso tudo de forma brilhante usando uma meta linguagem que faz tudo parecer voltar sempre. Para começar, o início do filme é o final, não o final da trama, mas o final das consequências que a trama causou na vida dos personagens, dando a ideia de ciclo, ou história não linear. Isso é apresentado incessantemente na produção, seja pela linguagem dos alienígenas, que é apresentada formando círculos, em frases soltas dos personagens, como quando Ian (Renner) fala consigo mesmo dizendo "tudo morre um dia", com o fato de existirem doze naves, tais quais as horas em um relógio e nos informando que aquela parte da invasão é parte de um todo maior, dando uma visão holística da situação, que os próprios personagens não compreendem a principio e só vão enxergar, quando o presente, ou arma, trazida pelos visitantes é desvendada.

O grande conflito do filme acontece quando a Dra. Banks traduz a proposta dos extraterrestres justamente como "Oferta de arma", que desencadeia uma crise entre os países alvos das visitas e quase cria uma guerra, sendo que mais tarde a protagonista descobre que o conceito de "arma" e "ferramenta" para os visitantes é o mesmo e essa ferramente (ou presente) é a própria linguagem alienígena, que , mais do que uma linguagem unificada entre as raças, carrega em si o poder de consultar e perceber o tempo como aquela raça, que não vive o tempo de forma linear, mas sobreposta, ou seja, para eles não há um futuro, passado e presente separados, mas simultâneo e pode ser acessado por nós (humanos) como lembranças e os aliens vieram nos passar essa linguagem, porque sabem que precisarão da ajuda dos humanos daqui a três mil anos, mas que a falta de união e entendimento, quase certamente, irá colocar em risco nossa existência até lá.

Com isso, o filme ainda toca em questões filosóficas e teóricas. Como , se sabemos o que acontecerá, pois temos lembranças do nosso futuro, será que temos realmente livre arbítrio? E, utilizando essas lembranças do futuro, para proceder no passado não criamos um paradoxo temporal e apagamos uma linha de tempo possível? Mas isso é algo para ser pensado em outra ocasião, porque não ferem a trama central ou mitologia do filme, pois o mesmo parece utilizar a máxima do filosofo romano Boécio em um parentese na "consolação da filosofia", ao falar sobre previsões: "As coisas são previstas porque acontecem e não acontecem porque são previstas", sendo assim, o filme só possui uma linha temporal e as visões do futuro já estariam prevista, pois o tempo é influenciado e medido pela ótica dos aliens e não no jeito humano.

O filme ainda tem um toque de humor, quando nos questionamos se o nome da filha da protagonista é Hannah, por causa que a nave estava em Montana, sendo que o nome também é um palíndromo sendo falado do mesmo jeito de trás para a frente ou de frente para trás, outro exemplo de linguagem cíclica como a escrita alienígena.

A única parte caída do filme é que mesmo tendo uma mensagem otimista, o diretor se apega a questões onde países não alinhados com o pensamento americano, são representados como instáveis e extremistas em suas atitudes (china , Rússia, Paquistão e sudão), uma situação já apresentada anteriormente por Villeneuve em "Sicário", onde temos um EUA racional em um lado e um México selvagem do outro, assim como seus agentes da CIA, que tanto no filme de 2015, quanto nesse, são dois babacas.


Por tudo que o filme me apresentou, considero a grande surpresa boa de 2016. Conseguiu tratar de temas que são extremamente importantes e atuais com competência e inteligencia e, de quebra, nos contou uma história que envolve amor, responsabilidade e união. Jogo minhas fichas que Amy Adams terá seu nome indicado ao Oscar pelo papel na obra, assim como o roteiro estará presente como melhor roteiro adaptado. A produção me trouxe orgulho, por tratar a ficção científica com respeito e me fez sentir muito mais tranquilo ao pensar que a sequência de "Blade Runner" está nas mão do diretor Denis Villeneuve, que vem se mostrando um grande nome dessa nova geração.
"A chegada" é um filmaço, que vai muito além dos filmes clichê de invasão alienígena, Então faça como os visitantes e não perca tempo, porque "A chegada" ainda está no cinema esperando para ser prestigiada, pois se conseguiu me compreender e entendeu esse texto como uma ferramenta ou presente, compre seu ingresso e parta para o cinema o quanto antes para surpreender-se.




domingo, 18 de dezembro de 2016

EX-MACHINA (2015)

"Westworld" finalizou sua primeira temporada a duas semanas atrás e a segunda foi anunciada só para o longínquo 2018; um pouco mais próxima está a estréia da quarta temporada de "Black Mirror", que deve aparecer pela Netflix no segundo semestre do ano que vem; o que é menos ruim, mas não chega a ser bom, pois ambas ausências deixaram um vácuo no coração dos fãs de ficção científica e dos novos apreciadores, que se espantaram com os conceitos apresentados e com a qualidade dos roteiros das duas produções. Mas não há motivo para desespero jovem, porque o cinema, em sua infinita quantidade de possibilidades, é a salvação para você, que assim como eu ficou carente de um sci-fi de qualidade que lhe traga aquelas mesmas sensações em sua vida, e, é justamente sobre um filme, que mais parece um conto de "Black Mirror" abordando os mesmos dilemas de "Westworld", que vim indicar no dia de hoje, trata-se de "Ex-Machina" de 2015, escrito, roteirizado e dirigido por Alex Garland e estrelado por Domhnall Gleeson , Alicia Vikander e Oscar Isaac, que vai colocar um sorriso no rosto de quem é apaixonado pelo estilo e uma pulga atrás da orelha de quem trabalha com inteligência artificial.

O filme conta a história de Caleb Smith (Gleeson), um programador que trabalha na empresa de Nathan Bateman (Isaac), a Bluebook (o maior motor de busca da web) e, é sorteado para passar uma semana nas montanhas do Alasca na companhia de seu patrão participando de um projeto secreto, o qual ele descobre mais tarde se tratar da finalização da construção de um androide, sendo que a ele ficou reservada a aplicação do teste de Turing na inteligência artificial. Assim ele conhece Ava, o androide de aparência feminina e jeito frágil o qual deve testar; mas, efetuando os testes Caleb acaba se afeiçoando a ela e sendo instigado a duvidar dos verdadeiros propósitos de Nathan, questionando seus próprios sentimentos quanto a Ava e caindo em um jogo de manipulação e traição que poderá lhe ensinar a derradeira lição de sua vida.

Ex-Machina ganhou o Oscar de melhores efeitos especiais e o Critic's choise awards nesse ano, além de ganhar o prêmio de melhor filme inglês independente de 2015 e ser indicado para o Bafta e o globo de ouro nas categorias referentes ao elenco e roteiro, fatos que exemplificam a qualidade do filme. Mas longe de medi-lo pelas premiações, podemos apreciar "Ex-Machina" por todas suas qualidade facilmente observáveis e que se sustentam na produção, ao mesmo tempo que conseguem fazer referências a o universo gigantesco da ficção científica, assim como a aposta do diretor/roteirista em colocar suas fichas em uma história instigante e bem contada, que usa os efeitos especiais como coadjuvantes e o elemento humano como protagonista.


O primeiro grande trunfo do filme é seu elenco. Domhnall Gleeson realmente convence como o solitário e inseguro programador Caleb Smith, com seus sorrisos amarelos e aparente desconforto que faz lembrar o maravilhoso episódio da segunda temporada de black Mirror, onde o próprio ator interpreta uma inteligência artificial que é feita para "substituir" pessoas amadas que morreram, mas que não consegue ser autentico, sua interação com Ava e a química que surge entre os dois é plenamente crível e isso também é mérito da atriz Alicia Vikander, que está extremamente charmosa e misteriosa na trama, fazendo com que a torcida pela liberdade da inteligência artificial seja algo natural e nos colocando ao mesmo tempo contra os propósitos do misterioso Nathan, que surge na pele de Oscar Isaaac e que nos é mostrado sempre treinando artes marciais ou bebendo, focando, através do roteiro, na violência e vicio do personagem e nos manipulando assim sem percebermos.

A trama é muito bem construída e orquestrada por Alex Garland em seu primeiro trabalho como diretor. O escritor de "A Praia", livro que se tornou filme protagonizado por Leonardo Dicaprio e, roteirista que transformou o livro "Não me abandone Jamais" de Kazuo Ishiguro em filme, além de escrever sucessos como "Extermínio", mostra que conhece os seus limites, mas que sabe a que veio focando em um conto que possui poucos personagens, mas que usa isso como trunfo para se aprofundar em conceitos e situações instigantes, como as questões sobre a inteligência artificial, vida, amor, solidão e traição, tudo isso sem perder a linha para nenhum caso especifico durante a uma hora e meia de filme.  

O filme tem referências bem claras e muitas são gritantes aos olhos, como a influência da série inglesa "Black Mirror" e as ideias compartilhadas com as obras de Phillip K. Dick. Com a série "Black Mirror", o fato de focar em uma situação de problema humano, mas derivada da tecnologia já mostra bem a ligação que o filme possui com a criação de Charlie Brooker, fora isso, como mencionado anteriormente a produção conta com a participação de Domhnall Gleeson, que além da série inglesa, também teve uma papel de destaque no filme "Star Wars VII", assim como Oscar Isaac, que interpreta Nathan nesse filme e o piloto de Ti-figther Poe Dameron no filme do universo dos Jedi. A própria firma pertencente ao personagem de Isaac é, de certa forma, uma referência a ficção cientítica; A "BlueBook" é um buscador no estilo google, que o misterioso CEO usa para capturar informações e "ensinar" sua inteligência artificial a compreender os humanos, criando assim uma espécie de singularidade bem parecida com a que ocorre no clássico da animação japonesa "Gohst in the Shell" e dando vida e consciência a uma mente construída. Por último temos então as ideias de Phillip K. Dick, que tratou em suas obras sobre a ética de considerar algo criado em laboratório, mas com consciência de si e do mundo, um ser vivo e merecedor de respeito e direitos, fato que o roteiro nos faz apoiar desde o primeiro minuto quando somos apresentado a Ava e que, mesmo com a grande virada do final, não consegue fazer com que pensemos diferente.

Além das referências na literatura e cinema de ficção científica, o filme ainda traz certas referencias bíblicas que guiam o caminho de seus personagens, sendo as principais os nomes dos mesmos. O protagonista se chama Caleb, que vem do hebraico e significa Cão, tendo como significado do nome a ideia de lealdade e proteção, ambos atributos procurados (e abusados) pelos outros personagens; no antigo testamento, Caleb é um dos dois únicos espiões a voltarem com vida de Canaã e um dos poucos judeus a fugir do Egito a chegar na terra prometida, tal qual o personagem do filme que é o único, junto com seu patrão, a sair da Bluebook e partir para as montanhas do Alasca para participar do projeto secreto. Nathan segue essa referência bíblica sendo o significado de seu nome algo como dádiva ou dom, algo que é dado por uma inteligência superior, o conceitos que representam a criação, é o que é fornecido por ele a Ava, sendo que seu nome também aponta para sua percepção distorcida de que ele próprio é quase um deus. Por fim, temos Ava, que faz uma referência a avatar, que seria a humanização de uma entidade superior, na religião Hindu, assim como também remete a Eva, a primeira mulher e portadora do pecado origina, sendo a criação do conflito que surge entre seu criador e seu "interesse romântico" ( com muitas aspas) o caminho que Ava aponta e que resulta no que vemos ao final do filme.

Fato que também chama a atenção são os sobrenomes do personagens. Caleb tem o sobrenome de Smith, que é muito comum na língua inglesa, sendo comparado a Silva na portuguesa, esse fato parece buscar simplificar o personagem, torna-lo só mais um na multidão, um peão e assim justificar o uso que é feito dele por parte dos outros personagens. Já Nathan, atende pelo sobrenome de Batemam, tal qual o personagem de Christian Bale no filme Psicopata americano, que só pensa em seus objetivos e que busca saciar seus desejos e aspirações independente de quem se mostre contra; curiosidades que enriquecem mais ainda o roteiro.

"Ex-Machina" é um filmaço, consegue instigar e fascinar quem assiste com suas ótimas atuações e roteiro brilhante, mostrando que se pode fazer cinema de qualidade com pouco dinheiro, basta ter uma boa história e talento para saber conta-la. Um show de referências que não são entregues de forma gratuita e conceitos que nos fazem parar e pensar com o que o futuro nos espera. "Ex-machina" é exemplo de qualidade de ficção científica e história bem contada que com certeza vai matar a saudade de "Black Mirror" e "Westworld", trazendo de novo a cabeça do expectador todos os conceitos e dúvidas que a tecnologia e o futuro nos reservam em nossos sonhos ou pesadelos.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

NEM TUDO É O QUE PARECE (2004)

Resolvi dar uma freada nos filmes, séries e livros de Ficção científica e fugir para o outro extremo, me atirando nas produções sobre o submundo e criminalidade. Não! Eu não dei as costas para as distopias e viagens espaciais para fazer maratona de “Cidade dos homens” ou ver de novo “Cidade de Deus”, fui atrás de algo mais real, mas não tão real assim e acabei encontrando um filme de 2004, muito pouco comentado, mas com um elenco de respeito, um diretor que eu gosto muito e uma história fantástica. Estou falando de “Nem tudo é o que parece”, dirigido por Matthew Vaughn e estrelado por Daniel Craig, que me entregou uma trama tensa que me deixou preso no sofá até que o último ponto nos créditos finais fosse apagado da tela.

O filme conta a história do senhor X (Daniel Graig) um traficante Londrino, que seguindo seu plano de negócios, resolve se aposentar antes que seja tarde e fique muito envolvido com o submundo. Às vésperas de largar a criminalidade, ele recebe uma missão de seu principal fornecedor: encontrar a filha desaparecida  de um grande amigo; ao mesmo tempo que seus associado lhe convocam para avaliar e procurar compradores para poderosas pílulas de esctasy vindas do leste Europeu trazidas por um conhecido nada confiável. O que o senhor X não sabe é que está entrando em uma trama de traição, ganância e violência muito além dos aceitos dentro de sua ideia de negócios, que pode ser uma viagem sem volta dentro do buraco negro mafioso do submundo de Londres.

O Nome do filme em Inglês é “Layer Cake” (Bolo em camadas), traduzir esse título ao pé da letra para o português ficaria estranho, mas dentro do próprio filme esse título é explicado e acaba por fazer sentido, já a opção de colocar o nome da produção de “Nem tudo é o que parece”, não ajudou em nada como chamariz, acabando por dar pouca credibilidade a história por parecer que se trata de uma comédia para “toda família” protagonizada pelo Leandro Hassum e isso foi o pior desserviço que uma tradução poderia fazer com um filme, pois apesar de (sem trocadilho com o bolo) seguir uma receita conhecida e, por muitas vezes, deixar o expectador tonto devido ao número de personagens e as conexões que eles tem entre si, “Nem tudo é o que parece” é um filme bem inteligente e divertido que não merece ser esquecido.



Falei que o filme segue uma receita, porque ele vem na onda dos primeiros sucessos do diretor Guy Ritchie, “Snatch-porcos e diamantes” e “Jogos trapaças e dois canos fumegantes”, abordando o universo do submundo de Londres, utilizando diversos personagens, com mortes bizarras, tramas que se dividem em dezenas de pequenas sub-tramas e um final surpreendente, sendo a direção tendo ficado, não por acaso, nas mãos de Matthew Vaughn, que já havia produzido “Snatch” em 2000 e emula a direção de Rirchie nesse filme, mas já mostrando muito do diretor que viria a se tornar mais a diante, com suas sequências rápidas, as trocas de cenário para explicar as consequências dos fatos, as cores fortes e a iluminação bem clara sempre presente.

A história tem pelo menos vinte personagens com relevância. Isso pode acabar deixando quem assiste bastante confuso, pois no filme, que possui apenas uma hora e meia, muitos desses personagens são, muitas vezes, apenas citados pelos que estão em cena e, se lembrar dos nomes e apelidos de quatro ou cinco pessoas que conhecemos em um dia não é fácil, imagina o de duas dezenas de personagens de um filme curto? Mas isso acaba por dar mais tensão ao filme, pois somos obrigados a assisti-lo com toda atenção do mundo, ou acabamos por perder o fio que conduz a trama, já que ali nem tudo é o que parece (Pá-bum- Tss).

O roteiro do filme é muito bem escrito por J.J Connolly, sendo baseado em uma novela do próprio roteirista e a história prende porque, penso eu,  os filmes sobre o submundo são fascinantes para a grande maioria das pessoas. Talvez por apresentar um universo secreto, um lugar marginal ao cotidiano e a rotina, que nos faz lembrar que somos animais, refreados muitas vezes, apenas pelas correntes da opinião da sociedade que nos cerca, ou talvez, simplesmente, por exaltar a força e a liberdade que possui quem não segue todas as regras. Seja pelo motivo que for histórias sobre o mundo do crime são quase certeza de sucesso, principalmente se a mesma possuir uma trama complexa, que além de bandido, mostrar o protagonista como um homem de negócios e classe, se aprofundar em suas relações profissionais e nos entregar cenas pontuais de violência e diálogos inteligentes e, justamente isso, é o que a trama apresentada por Connolly nos mostra durante o tempo de tela.

Além do roteiro e direção competente, o filme ainda traz personagens fortes, como Gene, interpretado por Colm Meaney, o segundo no comando da quadrilha para quem o senhor x trabalha e que se impõe como cara durão mesmo não tendo o perfil físico  para isso; do mesmo modo temos o responsável pela segurança do protagonista, Morty (George Harris), sempre sério e impassível e que explode em uma cena que faz quem está assistindo perguntar o que está acontecendo. Também é legal ver alguns atores que hoje são estrelas, começando suas carreiras, como o mirrado Daniel Craig, que estava longe de ser o James Bond dos últimos filmes da franquia 007, ou um Jovem Tom Hardy, grande nome depois de Mad Max, que ali se apresenta como um inexpressivo coadjuvante aliado do senhor X que pouco influencia a trama.


Seja pelo motivo que for, “Nem tudo é o que parece” é um filme muito bacana e merece ser assistido, principalmente para quem, assim como eu, gosta daquele estilo característico inglês fundado por Guy Ritchie. Para se ter uma ideia o filme, mesmo parecendo imitar o estilo do ex-marido da Madona, me parece ter influenciado o mesmo no último filme do diretor  nesse estilo, “Rock n Rolla”, de 2008 e isso por si só mostra a qualidade da produção. Mas o grande trunfo de “Nem tudo é o que parece” é se sustentar sozinho, mesmo fazendo referência a outras produções e nos dias de hoje, onde tudo parece uma repetição de uma repetição de roteiros, um filme que tenta lembrar outros e mesmo assim consegue surpreender é uma joia rara, então não perca tempo, assista, “Nem tudo é o que parece” e preste bem a atenção na trama, pois embora a história se apresente em diversos níveis, como um bolo em camadas, nem tudo é o que parece e o final  vai te deixar com um amargo na boca por um bom tempo.