quarta-feira, 21 de setembro de 2016

ARQ (2016)



As vezes acho que o que acontece na minha vida está se repetindo eternamente. Comecei a ter essa sensação depois dos trinta e essa percepção só tem crescido nesses últimos cinco anos; com os mesmos problemas no trabalho, mesmos problemas nos relacionamentos, mesmos problemas de grana, mesmas histórias contadas nos aniversários e churrascos da vida; acho que se eu não tivesse meu filho do lado para acompanhar seu crescimento, eu poderia ter certeza de que estou dentro de um loop temporal e que em determinada época do ano (Shazan!!) o tempo volta para um exato dia e lá vamos nós outra vez.
Só que nem todos tem a sorte de possuir um totem, como um filho, um peão que não para de girar, ou perceber uma falha na matrix, para saber se o que está vivendo é real, sonho ou repetição; e, esse é exatamente o caso que acontece com os personagens do filme "ARQ", escrito e dirigido por Tony Elliott e estrelado por Robbie Amell e Rachael Taylor, que a Netflix produziu e disponibilizou em seu catálogo no último dia 16/09.

O filme começa assim: Robbie Amell é Renton, um jovem, bonito e malhado cientista que acorda com um susto em seu quarto as 06:16, ao lado da não menos gata Hannah (Rachael Taylor), ele houve barulho na porta e de repente três homens com mascaras de gás entram e um deles desfere uma coronhada no rosto de nosso protagonista e o arrastam pelos pés em direção a outro comodo; Renton se agarra nos pés do corrimão da escada e tenta fugir, mas acaba tropeçando, bate de cabeça no degrau e ( katapow!!) acorda com um susto em seu quarto as 06:16, ao lado de Hannah , ele houve barulho na porta e de repente três homens com máscaras de gás entram e um deles desfere uma coronhada no rosto de nosso protagonista....

O que foi escrito na humilde sinopse que antecede esse parágrafo não foi um erro de digitação, o que ocorre com Renton (ou Ren, para os mais chegados) é um loop temporal. Sendo assim, Ren percebe ,após "morrer" na escada, que o dia que ele está vivendo vem se repetindo e, não importando o que faça, ele sempre morre e acorda as 06:16 ao lado de Hannah na cama de seu quarto. Ren começa a suspeitar de que o "Arq", um projeto que buscava gerar energia ilimitada e do qual fez parte quando trabalhava na maior corporação mundial, a Torus, e que roubou quando saiu fugido da empresa, está, de alguma maneira fazendo com que o dia se repita. Sabendo desse eterno restart, o protagonista passa a usar as informações do dia repetido para buscar uma chance contra os invasores, mas o que Ren vai poder fazer quando todos os invasores, repetição após repetição, começarem a lembrar também de que o dia está se voltando?

"ARQ" remete a outras produções que também exploram a ideia de loop temporal, como o clássico "O feitiço do tempo", onde Bill Murray fica preso no dia da marmota em uma cidade do interior americano, ou ao episódio "segunda-feira" do Arquivo X, onde após uma assalto frustrado a um banco, um ladrão detona explosivos presos a seu corpo, matando Mulder e Scully e, fazendo com que a segunda-feira se repita diversas vezes, ou mais recentemente, com "No limite do amanhã" onde após entrar em contato com alienígenas, o personagem de Tom Cruise, passa a voltar no tempo sempre que morre. No entanto, o diferencial de "ARQ", talvez seja pensar no micro, tornando a história menos grandiosa e mais intimista, concentrando o filme em apenas um cenário e tendo somente seis atores em ação. Essa proposta menos grandiosa dá ao filme espaço para explorar bem os personagens e apostar em polt twists que aos poucos vão revelando, além da personalidade de cada um, as peculiaridades do universo onde o filme se passa.



Achei o filme divertido e interessante. Confesso que a principio fiquei um pouco confuso, pois somos jogados no meio da situação sem nenhum aviso prévio, mas o final da trama, tanto justifica totalmente essa imersão repentina, quanto acrescenta qualidade ao roteiro e a opção de montar o filme da forma que foi feito. Gostei especialmente do fato de o roteiro se prender ao momento vivido pelos personagens e a busca por resolver a situação onde eles estão presos, deixando todos problemas de fora da casa como um pano de fundo que justifica a invasão e confronto, algo parecido com o que acontece no filme "Colateral" onde Tom Cruise (toda hora esse cara) é um assassino contratado por mafiosos que persegue e mata testemunhas, sendo o que o levou até ali é ignorado, ou o livro "Battle Royale" de Koushun Takami, onde o importante é o que acontece na ilha em que estudantes devem se matar até sobrar apenas um e o estado totalitário que está por trás de tudo é apenas mencionado em pequenos trechos, sem importância para a trama.

Hannah e Ren
Mas embora a situação fora da casa não tenha maior importância para a trama de "ARQ", achei todos os conceitos apresentados e que revelam o estado da sociedade mundial ,do universo do filme, extremamente interessantes. Para começar, os três antagonistas estão usando máscaras de ar e nos é informado durante a história, de que o ar está tão poluído, que é impossível andar pelas ruas sem uma proteção adequada, da mesma forma sabemos através de um noticiário, que passa durante uma das tentativas de fuga (ou todas) de que todas as aves foram extintas e que a "Austrália continental" virou um buraco de "cascalho radioativo" graças a um bombardeio nuclear. No entanto, o que chama a atenção é saber que a "Torus", maior conglomerado de empresas do mundo e onde o protagonista trabalhava, é tão poderosa, que praticamente engoliu os EUA e detêm o poder sobre a cidadania e liberdade das pessoas, sendo o único opositor a essa potência, um grupo terrorista autointitulado "O bloco". Essas informações, que transitam ao fundo da história dão ares de distopia ao universo onde a trama se realiza, o que me agradou em muito, por sincronizar perfeitamente com o desfecho que a história tem.

Bem, como eu disse, gostei bastante de "ARQ" e poderia falar bem mais sobre todos os por menores do filme, mas acho que uma hora ou outra eu acabaria me repetindo (piadinha). O filme é uma produção simples e divertida, que consegue segurar o expectador com o mistério e tensão de uma situação inusitada, aborda um quase gênero de ficção científica de forma divertida e interessante e tem um final que mistura desespero com coragem. Um ótimo trabalho de Tony Elliott, de quem eu só conhecia a direção de alguns episódios de "Orphan Black" e uma produção digna da netflix, que tem apostado em todos os gêneros com a mesma qualidade. Então, quando bater uma vontade de ver um filme repetido, mude um pouco a sua ideia e assista "ARQ" e dê chance para o que é um pouco diferente, porque ninguém quer viver em um loop temporal, assim como eu, pois se eu pudesse falar da minha vida, eu começaria assim:

As vezes acho que o que acontece na minha vida está se repetindo eternamente....




quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A BEIRA DA LOUCURA (1994) #Zerocult 4


Imagina um filme com o clima dos contos de Lovecraft, onde tudo gira em torno de um escritor de terror totalmente inspirado em Stephen King, dirigido por um mestre do terror e produzido no meio dos anos noventa, mas com todo espirito dos anos oitenta? Parece estranho demais para ser concebido, não?! Mas existe!! Se trata de "À beira da Loucura" (In the mouth of madness), distribuído em 1994 pela New Line, dirigido pelo Genial John Carpenter e estrelado por Sam Neill, que, em um dia de chuva onde até faltou luz, me trouxe toda aquela sensação que o falecido "cinema em casa" do SBT me trazia quando eu era um guri.

O filme acompanha os passos de John Trent (Sam Neill), um investigador de seguros, que é contatado por uma editora para encontrar um famoso escritor de terror chamado Sutter Cane, que desapareceu um mês atrás, deixando um livro inacabado que já tinha data de lançamento e direitos vendidos para o cinema. Na pista do escritor, John Trent acaba chegando na pequena cidade de "Rob's End" acompanhado de uma funcionária da editora, onde além do escritor, ele encontrará uma verdade tão grande e destruidora que vai abalar pra sempre sua sanidade (uuUUUuuu) .

Que - filme – maluco! Para começar pela escalação de Sam Neill como protagonista, que havia estrelado Jurassic Park, um dos melhores e mais marcantes filmes do início dos anos noventa, onde ele interpretava Alan Grant, que aparecia como um tipo de Indiana Jones da paleontologia em uma atuação memorável, aí nesse filme, que foi lançado apenas um ano após o filme do Spilberg, ele parece que sofreu uma amnésia e age da maneira mais canastrona possível, certo que o roteiro e a direção pedem aquele tipo de atitude, mas seus trejeitos, risos e choros (ainda mais depois que o personagem enlouquece) rivalizam em muito com o Coringa do Jared Leto.


Falando da direção e roteiro, talvez o grande responsável de o filme ter caído no esquecimento, seja o fato (além é claro que nesse mesmo ano estrearam filmes que se tornaram clássicos imediato, como "Pulp Fiction", "O rei Leão", "Forrest Gump", "O corvo", "Entrevista com Vampiro" e "Assassinos por natureza") de que tanto o estilo de como a história é contada, assim como a forma da direção, estarem fora de seu tempo. A direção de John Carpenter, embora boa, mas já não na melhor fase, parece ainda presa aos anos oitenta, trazendo alguns vícios daquela época onde o diretor se destacou com filmes como "Halloween", "Enigma de Outro mundo" e "Eles Vivem" para um tempo onde as pessoas procuravam algo diferente, com argumentos e questões mais profundas e isso fica claro até no uso já tardio de efeitos práticos que tentam repetir a experiência presente nos filmes citados anteriormente do diretor, sendo que isso acaba datando a produção. O roteiro também fica a desejar, parecendo copiar o espírito de alguns dos contos de Stephen King, onde os personagens são envoltos em uma situação muito maior que eles e da qual é impossível sair, mas a forma caricata como esses personagens se mostram, não cria o mesmo laço com que King consegue prender seu leitor, o que transforma uma história que poderia ter um ar de maior tensão e suspense em uma mistura de terror com comédia, mas sem ser muito aterrorizante e nem tão engraçado.



Apesar dos erros, uma coisa que gostei do filme foi o estranhamento que ele consegue passar ao espectador. A história, por ser contada por um louco, é uma maluquice em espiral e conforme vai se encaminhando para o final o clima te deixa meio tonto, no melhor estilo Lovecraftiano, onde eu só achei uma falha mostrarem os monstros, pois se deixassem a narração da acompanhante do protagonista, com o olhar do mesmo mirando a escuridão, acho que imaginação faria um trabalho bem melhor do que aquele bando de monstro de borracha cobertos de óleo, mas isso não estraga por completo o lance da loucura e bizarrice.

Tô doidão
Outra coisa bacana e que também colabora nesse estranhamento é o clima oitentista. As Ruas e becos cobertos de lixo, a umidade da cidade grande, o clima ensolarado e campestre da cidade do interior, tudo isso lembra muito a "sessão da tarde" e "cinema em casa", sem contar que a própria interação dos personagens é total dos anos oitenta, com o protagonista dando em cima da funcionária da editora desde o primeiro minuto que se encontra com a mesma e ela meio que aceitando, a mulher ser a descontrolada que enlouquece de primeiro, sem contar que em um momento de pavor, o protagonista simplesmente mete um soco na cara da mulher para ela desmaiar e ele poder fugir com ela, é muita loucura para uma hora e meia de filme.

Apesar de suas falhas e insanidade, me diverti assistindo "À beira da Loucura". Um filme que trás um pouco da estranheza dos contos de Lovecraft, aliadas as ambientações e terror de um Stephen King e ( por que não?) um pouco das comédias pastelão das tardes de dia de semana. Uma produção interessante, que mesmo estando fora de seu tempo (esse filme deveria ter sido gravado em 1985), ainda trás o último suspiro da genialidade de John Carpenter e só por isso, deixar de assisti-lo seria, para eu que sou fã, atestar minha total insanidade.





quinta-feira, 8 de setembro de 2016

ÁGUAS RASAS (2016)

Menos é mais. Essa proposta que indica que o contrário do exagero é a elegância, dificilmente cabe em filmes do verão americano, com seus efeitos especiais de última geração, trilha sonora grandiosa e publicidade onipresente; no entanto, os filmes de 2016 vem pecando tanto com a expectativa do público em relação aos blockbusters que obras menores vem ganhando espaço e chamando a mais atenção, entre estes, ÁGUAS RASAS do diretor Jaume Collet-Serra, que estreou despretensiosamente dia vinte cinco de Agosto no Brasil e se destacou pela utilização de novos conceitos cinematográficos e pela trama bem construída cheia e de tensão.

Em Águas rasas, acompanhamos Nancy, uma jovem estudante de medicina, que após a morte de sua mãe, por um câncer contra o qual lutou durante anos, decide partir em viagem até uma praia deserta no México, que marcou a juventude de sua mãe, para surfar nas mesmas águas das histórias que ouvia quando era criança e se conectar com parte de suas origens. É passando o dia nessa praia, após visualizar uma baleia morta próxima a costa, que Nancy se depara com um tubarão branco, que a ataca e a deixa encurralada a poucos metros da praia. Agora resta a Nancy buscar uma forma de sobreviver a ameaça, lutando tão bravamente quanto sua mãe lutou contra a doença.

O filme não é o mais profundo do mundo (sem trocadilho), trata-se de uma história de sobrevivência que mistura elementos de suspense e terror no estilo "Tubarão" de Steven Spielberg, com a ideia de superação e solidão, como a presente no "O Naufrago" de Robert Zemeckis, sendo que os destaques da obra ficam por conta da boa atuação de Blake Lively, da direção pontual de Jaume Collet-Serra e de como a trama é montada e desenvolvida.

Quanto a Blake Lively, eu só lembrava dela como a protagonista de Gossip Girl e mesmo assim muito por cima já que eu não assisti a série e , por conhecer quase nada do trabalho da atriz me surpreendi com sua atuação, que, embora não seja digna de um prêmio, convence ao transmitir o pavor e tensão que a situação exige, ainda mais por ela atuar mais de noventa por cento da história sozinha, uma situação que sempre foi passada a atores de carisma e talento já reconhecidos, como o próprio Tom Hanks em "O Naufrago", mas que Blake Lively conseguiu tirar de letra.


Para a atriz, que não tem a maior das experiências e expressão dramática conseguir se destacar em um filme que atua praticamente sozinha, é preciso uma direção muito bem calibrada, e, é aí que entra Jaume Collet-Serra. O diretor espanhol, que apareceu para o grande público com o terror adolescente "Acasa de Cera" de 2005, consegue apresentar um filme que lembra os filmes de terror dos anos oitenta, mas incluindo elementos modernos e dos thillers de ação que também dirigiu, como o "Noite sem fim" de 2015, com Liam Neeson e assim entregar um filme com atos muito claros que se destacam pela luz, fotografia e som diferentes entre si e que somam a montagem para construir um filme com suspense e terror na medida.

No entanto, o que mais se destacou, além do já citado é como a trama é montada visualmente. Podemos enxergar a divisão dos atos do filme pela luz e fotografia, começando a história com uma iluminação muito clara e com imagens extremamente bonitas como as dos canais de viagem da TV a cabo, para reafirmar o ar de paraíso que a protagonista acredita ter encontrado, depois, já na água, somos presentados a imensidão solitária do mar e ao antagonista, que ao aparecer transforma o ambiente em soabriu e sinistro, destruindo a ideia inicial da protagonista de ter encontrado um lugar perfeiro, por último, temos a história se fechando em um ambiente hostil, onde a protagonista e o antagonista se enfrentam em uma fotografia escura e focada em closes, reforçando a ideia de cerco e a não possibilidade de fuga. Essa montagem bem dividida me agradou bastante e conseguiu me prender em cada momento como se cada arco da trama fosse um conto dentro de uma historia maior, um exemplo de montagem que a Warner , com seus filmes bagunçados de super-heróis deveria aprender a fazer.

Águas Rasas é um divertido filme, que surpreende pela parte técnica e pela trama bem construída. Dentro dos filmes de verão que decepcionaram tanto, surge como uma opção que, embora não nos faça sair refletindo sobre a sociedade ou em defesa dos animais, não deixa aquele amargo na boca de ninguém. Um exemplo raro de que até em blockbusters menos pode ser mais e que um filme não precisa ser profundo, para poder contar uma história que mereça ser assistida.








segunda-feira, 5 de setembro de 2016

TERRA PROMETIDA (2016)



Enquanto todos aguardavam a estreia da nova temporada de “NARCOS”, a Netflix disponibilizava dia primeiro de Setembro, data da invasão alemã à Polônia, a série brasileira “Terra Prometida”, produção idealizada por Renato Fagundes e Luís Noronha, que narra histórias da Alemanha nazista através dos olhos dos Judeus e a repercussão da guerra e da imigração europeia no Brasil durante aquele período. 

Desenhos Belli Studio
A série busca dar um olhar mais moderno e menos maniqueísta a um dos períodos mais amargos da nossa história. Apresentando ao expectador uma obra inovadora, que mistura a reprodução de histórias verdadeiras através de animação, com cenas reais da época no melhor estilo documentário, lembrando, por vezes, o premiado “Valsa para Bashir” de Ari Folman, por seguir os passos do diretor israelense, ao humanizar os envolvidos no confronto, em especial os soldados e imigrantes, mostrando o terror e insanidades causadas pela Guerra e ignorância.

Terra prometida” foi transmitido originalmente pela TV cultura em Julho deste ano, chamando a atenção por se tratar de um ponto fora da curva dentre as obras audiovisuais brasileiras, misturando a informação do documentário com a dramatização ilustrada.

O documentário nos traz imagens de documentos históricos como, por exemplo, o telegrama enviado a Albert Einstein, onde o governo brasileiro rejeita o pedido de entrada de uma de suas amigas, e, de vídeos raros da época, onde podemos ver um pouco do espírito da sociedade alemã, desde a entrada no poder no partido nazista, até sua queda em 1945 e a repercussão da guerra em terras brasileiras, desde a simpatia pelo eixo por parte de Getúlio, até a entrada na guerra ao lado dos aliados.


Complementando a parte documental da obra, a série apresenta trechos em animações baseadas em histórias reais de diversos personagens que vivenciaram os fatos ocorridos na segunda guerra, tanto no Brasil, quanto no fronte de batalha. A produção desses desenhos é trabalho da Belli studio de Blumenau, responsável por ilustrar algumas séries da Discovery Kids, como “O peixonauta” e “Meu Amigãozão” e o estilo simples com que as histórias são retratadas remetem tanto a busca por uma verdade mais leve, quanto ao escapismo que tais situações pedem frente a crueldade e tristeza dos fatos ocorridos.

A série é excelente, exorcizando um período sombrio de nossa história e dando voz e rosto a muitas figuras esquecidas. O episódio que trata do ocorrido com os pracinhas logo após o fim da Guerra e o que fala sobre Aracy Guimarães Rosa, que conseguiu vistos para centenas de refugiados elucida quem acreditava que a história brasileira naquele confronto ficava aquém dos filmes de Hollywood e das histórias de nossos avós.

Pracinha ferido voltando da Guerra recebendo medalha
A obra vem coroar o momento cinematográfico brasileiro que parece querer deixar de lado o estilo panfletário de “cine-ditadura” e “cine-favela” e as comédias sem graça que ninguém precisa. Seu roteiro, que avança e recua no tempo para mostrar diversas histórias ocorridas na segunda guerra, foi escrito por Haná Vaisman, Gabriella Mancini e Rossana Maurell, que contaram com a ajuda de historiadores para tornarem a trama mais próxima ainda da realidade. A direção ficou por conta de Paschoal Samora e a produção teve o apoio do fundo setorial do audiovisual via Ancine e BNDES, sendo uma obra conjunta da Conspiração Filmes e Synapse produções.

Terra Prometida” é uma aula de cinema e inovação e, está com seus capítulos para a apreciação na Netflix desde o dia primeiro de Setembro, se você gosta de história, documentários e animação (ou todos) essa é a oportunidade perfeita para assistir algo de valor e conteúdo feito aqui e por artistas brasileiros.


Não perca tempo, são só seis episódios de 25 minutos. Recomendo. 



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

ELE TIROU SUA PELE POR MIM (2014)



Todo mundo em algum momento da vida já abdicou de algo para agradar outra pessoa, mas até onde estamos dispostos a deixarmos de sermos quem somos por amor? E será que essa outra pessoa faria o mesmo?

Pois é esse o tema do angustiante curta "Ele tirou sua pele por mim" (2014) de Ben Aston.


Coloque a legenda em Português, segure a careta de aflição e assista até o final.




 

Abaixo o link do Vimeo, caso não abra a legenda do Youtube:



domingo, 28 de agosto de 2016

QUANDO AS LUZES SE APAGAM (2016)

Escrevi um texto aqui, uns meses atrás, sobre os curtas de terror de David F. Sandberg e de como ele consegue esticar a tensão prendendo a atenção do espectador até o grande susto, utilizando nossos medos mais primitivos contra nossa própria imaginação. A exploração desses conceitos estão presentes em todo o trabalho do diretor; assinatura que fez com que ele ganhasse fama, reconhecimento e ,agora, a oportunidade de adentrar no mercado mainstream do cinema, transformando seu curta mais famoso, "Quando as luzes se apagam" em um filme produzido por James Wan e realizado pela Warner.

"Quando as luzes se apagam", segue a história de Rebecca , uma jovem tatuadora, que vive afastada de sua família devido a problemas de relacionamento com sua mãe, que sofre de crises de depressão. Tudo muda quando ela é chamada até a escola de seu irmão mais novo para ser questionada se sabe o motivo do garoto andar desmaiando de sono durante as aulas, este então lhe conta que desde que, Diana, uma amiga de infância de sua mãe "voltou", ele não se sente mais seguro na escuridão. As revelações do menino a fazem lembrar do tempo em que era criança e dos estranhos acontecimentos ocorridos em sua casa a noite e que culminaram com o desaparecimento de seu pai e o retorno de sua mãe as medicações controladas, as peças vão se ligando até que Rebecca descobre que Diana é real, existindo nas sombras e escuridão, e, que usará toda sua sorrates e violência para que nada a separe de sua única amiga.

O filme não é ruim, mas prefiro os curtas! Os curtas trabalham com uma situação, não com uma trama elaborada que busca responder as perguntas que vão aparecendo no desenrolar da história, então nos poucos minutos dos curtas temos aquele único momento e isso é o que importa, não sendo necessário o que nos levou até ali e utilizando essa forma de apresentação Sandberg é único. Já em um longa, torna-se necessário uma série de artifícios para esclarecer ao expectador como as situações vão se desenhar e em "Quando as luzes se apagam" o diretor não trouxe nada de novo ou especial, caindo mesmo em clichês bem recorrentes aos modernos filmes de terror.

Sobre esses clichês, podemos começar falando sobre Diana, a entidade da escuridão. O roteiro busca apresenta-la como outra dessas criaturas amaldiçoadas e amaldiçoadoras que surgiram aos montes no cinema americano logo após os sucessos dos filmes japoneses como "O Chamado" e "O grito". O conceito de criatura que só pode ser percebida na escuridão é muito bacana e confesso que a hora em que a protagonista está em seu quarto, acorda e vê a silhueta de uma pessoa arranhando o chão e que desaparece quando a luz se acende é bem perturbador, mas isso é apenas a transposição de uma cena do curta para o longa e como eu já disse, os curtas são melhores. Mas o que menos gosteis em relação a entidade, foi o fato dela ser mostrada no arco final do filme; acho que é muito mais assustador não dar rosto a uma ameaça sobre natural, deixar que nossa imaginação trabalhe, utilizando o medo nos olhos dos personagens para nos fazer conceber a imagem do que pode causar tanto pavor, ou seja, faltou ao antagonista do filme, nos passar o medo primitivo que perturba o inconsciente humano, justamente o que os curtas de Sandberg conseguem nos transmitir de forma tão competente.


Em relação a trama, pode-se dizer que toda a busca para encontrar respostas sobre Diana, nada mais é do que uma cópia do modo de agir dos protagonistas dos filmes com inspiração no cinema oriental citados acima, mas de uma maneira menos trabalhada, para não dizer gratuita. Rebecca tem um encontro com a entidade, um insigth e descobre caixas contendo arquivos médicos onde é explicado como Diana morreu (sim, ela é um fantasma), fotos da mesma com a mãe da protagonista e até uma fita onde supostos médicos falam sobre como Diana foi parar em uma clinica para pessoas perturbadas. Depois disso fica claro que a menina (tal qual Samara de "O chamado") causa perturbações e mexe com a mente de quem a cerca e que a presença dessa entidade é resultado da mãe da protagonista estar ligada mentalmente a amiga morta e surge o plano de combater essa presença fazendo com que Sophie (a Mãe da protagonista) tome seus remédios de forma regular ( Sim! É isso, com a dozagem certa de Prozac a entidade maligna desaparece). Essa resolução de roteiro encontrada, apresenta mais furos na história do que resolve o problema, para começar, em mais de uma cena vemos Sophie saindo da casa de dia, até mesmo após a descoberta que para afastar o monstro é necessário que ela tome seus remédios e ela está claramente perturbada e com medo, porque não tomou os remédios por conta própria ou os filhos deram a ela naquele horário? Por que esperar até a noite para procurar a mãe? Outra coisa que me incomodou foi o fato de a entidade ter a silhueta de uma mulher adulta quando morreu com menos de doze anos, resolvi acreditar que é porque ela é uma representação mental e que a pessoa amaldiçoada só criaria vínculos de temor e respeito por alguém quase da sua idade, imaginei isso para evitar de pensar que o roteirista fez isso para que não ficasse muito na cara que muitos dos conceitos eram "Homenagens" a "O chamado".

O filme ainda serve como campanha publicitária indireta. Sendo uma produção da Warner Bros, temos espalhados no decorrer da história detalhes que fazem menção aos personagens da DC/ Warner, assim temos Martin (o Irmão da protagonista) sendo afagado por sua mãe em uma foto enquanto usa uma camiseta do Batman (Beleza!), a câmera anda lentamente para o lado e entre os porta-retratos temos um boneco do Robin (Hum, ok!), corta a cena e estamos no quarto do moleque e acima de sua cama temos o poster da Liga da Justiça (Santa propaganda morcego!) , sem dizer que a produção do longa é de James Wan, o diretor do filme do Aquaman !! Sabemos que os filmes da DC não tiveram o retorno esperado e que o público de filmes de terror é, em teoria, praticamente o mesmo do de filmes de super-heróis, mas sejamos mais discretos por favor dona Warner.

"Quando as luzes se apagam" é o resumo em longa metragem de todos conceitos que David F. Sandberg buscou trazer à seus expectadores durante sua carreira, mas como resumo que é , fica devendo por apresentar uma história rasa e cheia de clichês, que embora contenha um pouco da tensão presente nos demais trabalhos do diretor, peca por seguir a cartilha dos modernos filmes de terror americanos. Fica o desejo de que nas próximas produções do diretor, tenhamos o retorno da inovação aliada a tensão que o tornaram tão famoso em festivais e na internet , fazendo com que quem vai ao cinema procurando sustos e uma história profunda e bem contado, tenha certeza de encontrar o que procura quando as luzes se apagarem.

                                        Quando as luzes se apagam - trailer 2

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O REI DE AMARELO (Robert W. Chambers)

Em Janeiro de 2014, estreava na HBO a série "True Detective". Tendo como protagonistas Matthew McConaughey e Woody Harrelson, e com o roteiro de Nick Pizzolatto, a produção contava a história de dois detetives atrás de respostas sobre uma série de assassinatos envolvendo uma misteriosa seita. A série foi um sucesso de público e crítica, tanto pela qualidade das atuações e roteiro, quanto pela inovação na forma de narrativa, onde a história era apresentada em três linhas de tempo diferentes, 1995 , 2002 e 2012, de forma não linear, para que o espectador pudesse entender como foram descobertos cada pista sobre o caso e apresentar a situação dos detetives, suas famílias e os envolvidos.

"True Detective" me pegou desde sua abertura arrepiante ao som de The Handsome Family, mas o que me deixou fascinado foi o "estranho" que permeava a sua história. A série trazia um flertar com o sobrenatural, que ficava longe de transformar a história em um conto de terror ou magia, mas que a afastava da normalidade das histórias policiais normais, Isso fez com que eu procurasse saber mais sobre o roteiro e com isso soube que toda a mitologia por trás da história da primeira temporada de "True Detective" era inspirada em um pequeno livro de contos escrito por um autor que, entre contos de terror e ficção científica que inspiraram gênios do calibre de Lovecraft e Stephen King, conseguiu considerável fortuna e fama através de livros de romances que miravam a atenção de senhoras; tratava-se de Robert W. Chambers e esse livro é "O REI DE AMARELO", lançado originalmente em 1895 e que a editora Intrínseca publicou no Brasil logo após o sucesso da produção de Pizzolatto e que me senti obrigado a ler na busca de mais daquele estranhamento que senti assistindo a série.

"O rei de amarelo" é uma antologia de contos, com dez histórias que tratam de terror, suspense, maldição, ficção científica e até romance. Destes dez contos, cinco compõe, explicitamente ou em suas entre linhas, a mitologia que desenvolve o estranho universo onde um misterioso livro, homônimo ao que trás os contos de Chambers, enlouquece, perturba e amaldiçoa a vida da pessoa que ousa -lo.

Os contos que tem em comum a presença da maldição do livro, tem como primeiro "O reparador de reputações" onde o autor nos apresenta uma história que se passa 25 anos no futuro (da data que o livro foi lançado, 1895) em que o narrador conta sobre uma trama para tomar o trono da América (EUA) para si, tudo isso com a benção dos súditos do Rei de amarelo; a esse, segue "A Máscara", onde um escultor descobre uma formula que transforma todo ser vivo que a toca em uma estátua, o que acaba por ocorrer com a mulher que ama após essa ousar folhar o livro desgraçado. A terceira história é "No Pátio do Dragão", onde um jovem arquiteto busca conforto espiritual em uma igreja, após três dias de pesadelos depois de ler "O rei de amarelo" e vai percebendo de maneira paranoica que o organista o vigia e tenta se aproximar com ares de ódio, O conto que segue é "O emblema amarelo" que narra a história de um pintor e sua modelo preferida, que após encontrarem o malfadado livro, percebem que estão sendo observados por um vigia da igreja que é descrito de forma monstruosa e acabam entrando em uma espiral de loucura . Por último temos diversos trechos da suposta peça presente no livro maldito reunidos no conto intitulado "O paraíso do profeta", que fecha o pequeno deslumbre que temos do estranho universo criado por Chambers.

Se eu posso dizer algo sobre esse livro é que ele cumpriu sua missão de causar estranhamento, pelo menos em mim. Suas histórias contendo um mistura de situações e sentimentos, somadas a uma irregularidade de ritmo e ao estilo de escrita do século XIX, por vezes me deixaram confuso, mas cumpriram seu papel de apresentar um terror que busca ser como algo que não pode ser alcançado pela compreensão humana, tanto dos personagens que sofrem com a maldição, como pelo leitor que se vê envolto a situações que mal consegue conceber.
Penso que "O rei de Amarelo" seja a semente ocidental da ideia de terror que ganhou fama através dos filmes japoneses, onde os personagens são amaldiçoados e não há forma de escapar ou de redimir, pois o que lhes envolveu é maior do que eles e seu entendimento, algo que ganhou força por aqui com filmes como "O chamado", "O grito" e recentemente em "Corrente do mal".




Quanto as histórias que compõe o livro, a edição brasileira da editora Intrínseca parece acertar na disposição dos contos, pois consegue nos apresentar toda a mitologia em uma crescente através da ordem desses contos. "O reparador de reputações" me pareceu confuso a principio, pois joga o leitor sem paraquedas no meio de uma trama que mistura muitos elementos, se passando em um futuro (em relação ao livro) onde Judeus e negros foram banidos da América e os EUA lutaram contra a Alemanha pelas ilhas Samoanas, tais acontecimentos só ganham uma forma de explicação na última linha, quando a sanidade do narrador é colocada em xeque, remetendo aos contos de Lovecraft e a ideia de que uma verdade poderosa pode tornar instável a razão de quem a contempla. Já "A máscara" traz uma carga muito pesada de romantismo e tem um desenvolvimento lento, que torna quase oitenta por cento da história, muito mais uma trama sobre um triângulo amoroso do que uma história de terror e isso é bem chatinho, embora tente recupera ao final um pouco do que é apresentado como intenção inicial da história. Por outro lado, os contos "No pátio do Dragão" e " O emblema amarelo" são meus dois contos preferidos de Chambers, neles o terror da maldição do livro são muito bem demonstradas e o clima crescente de medo e insanidade muito bem desenvolvidos; posso citar por exemplo a observação paranoica e toda a descrição de fuga e pesadelo que o protagonista de "No pátio do Dragão" faz ao contar de toda sua aflição ao se sentir perseguido pelo tocador de órgão da igreja onde buscava conforto após ler o livro amaldiçoado, ou os detalhes presentes no desenvolvimento de "O emblema amarelo" e que vão sendo citados lentamente em uma espiral de loucura e desespero que envolve um pintor e sua modelo preferia após contato com o livro e o emblema amarelo; estes dois contos ainda tem em comum o final que não permite nenhuma ilusão de esperança ou redenção.

Além dos cinco contos que tratam da mitologia amarela, o livro ainda trás mais cinco que não tem ligação com nada e parecem estar presente apenas para apresentar um pouco mais do talento do escritor. No entanto entre estes, existe um que se destaca por flertar com o sobre natural e o estranho, que é o intitulado "A Demoiselle d'Ys", onde um jovem apresentado como Robert, o estranho, sai para caçar e conhece uma garota que o leva para seu castelo e apresenta seus amigos e parentes, um clima surge entre os dois e no final uma revelação surge para deixar tanto o leitor, quanto personagem de queixo caído.


Pela construção de uma mitologia que inspirou grandes escritores, além de proporcionar um estranhamento e flerte com o sobrenatural semelhante ao presente na série "True detective" considero "O rei de Amarelo" um leitura obrigatória para quem busca saber como grandes universos de fantasia e suspense são criados, que a editora intrínseca disponibilizou por um preço acessível em nosso país para se ter na estante em lugar de destaque . Uma obra de terror que utiliza de sutilizas e até futilidades para colocar o leitor frente a algo que não pode ser explicado ou se quer compreendido, uma viagem sem volta até as assustadoras torres de Carcosa e aos gelado lago de Hali, onde os céus pendem estrelas negras por de trás da lua azul, na morada da morte e das almas perdidas, onde o rei de amarelo sussurra das trevas com voz de trovão, "Horrenda coisa é cair nas mãos do deus vivo" enquanto se mergulha nas profundezas.


               Fechando com a abertura de True Detective para tirar o amargo da boca