quinta-feira, 8 de setembro de 2016

ÁGUAS RASAS (2016)

Menos é mais. Essa proposta que indica que o contrário do exagero é a elegância, dificilmente cabe em filmes do verão americano, com seus efeitos especiais de última geração, trilha sonora grandiosa e publicidade onipresente; no entanto, os filmes de 2016 vem pecando tanto com a expectativa do público em relação aos blockbusters que obras menores vem ganhando espaço e chamando a mais atenção, entre estes, ÁGUAS RASAS do diretor Jaume Collet-Serra, que estreou despretensiosamente dia vinte cinco de Agosto no Brasil e se destacou pela utilização de novos conceitos cinematográficos e pela trama bem construída cheia e de tensão.

Em Águas rasas, acompanhamos Nancy, uma jovem estudante de medicina, que após a morte de sua mãe, por um câncer contra o qual lutou durante anos, decide partir em viagem até uma praia deserta no México, que marcou a juventude de sua mãe, para surfar nas mesmas águas das histórias que ouvia quando era criança e se conectar com parte de suas origens. É passando o dia nessa praia, após visualizar uma baleia morta próxima a costa, que Nancy se depara com um tubarão branco, que a ataca e a deixa encurralada a poucos metros da praia. Agora resta a Nancy buscar uma forma de sobreviver a ameaça, lutando tão bravamente quanto sua mãe lutou contra a doença.

O filme não é o mais profundo do mundo (sem trocadilho), trata-se de uma história de sobrevivência que mistura elementos de suspense e terror no estilo "Tubarão" de Steven Spielberg, com a ideia de superação e solidão, como a presente no "O Naufrago" de Robert Zemeckis, sendo que os destaques da obra ficam por conta da boa atuação de Blake Lively, da direção pontual de Jaume Collet-Serra e de como a trama é montada e desenvolvida.

Quanto a Blake Lively, eu só lembrava dela como a protagonista de Gossip Girl e mesmo assim muito por cima já que eu não assisti a série e , por conhecer quase nada do trabalho da atriz me surpreendi com sua atuação, que, embora não seja digna de um prêmio, convence ao transmitir o pavor e tensão que a situação exige, ainda mais por ela atuar mais de noventa por cento da história sozinha, uma situação que sempre foi passada a atores de carisma e talento já reconhecidos, como o próprio Tom Hanks em "O Naufrago", mas que Blake Lively conseguiu tirar de letra.


Para a atriz, que não tem a maior das experiências e expressão dramática conseguir se destacar em um filme que atua praticamente sozinha, é preciso uma direção muito bem calibrada, e, é aí que entra Jaume Collet-Serra. O diretor espanhol, que apareceu para o grande público com o terror adolescente "Acasa de Cera" de 2005, consegue apresentar um filme que lembra os filmes de terror dos anos oitenta, mas incluindo elementos modernos e dos thillers de ação que também dirigiu, como o "Noite sem fim" de 2015, com Liam Neeson e assim entregar um filme com atos muito claros que se destacam pela luz, fotografia e som diferentes entre si e que somam a montagem para construir um filme com suspense e terror na medida.

No entanto, o que mais se destacou, além do já citado é como a trama é montada visualmente. Podemos enxergar a divisão dos atos do filme pela luz e fotografia, começando a história com uma iluminação muito clara e com imagens extremamente bonitas como as dos canais de viagem da TV a cabo, para reafirmar o ar de paraíso que a protagonista acredita ter encontrado, depois, já na água, somos presentados a imensidão solitária do mar e ao antagonista, que ao aparecer transforma o ambiente em soabriu e sinistro, destruindo a ideia inicial da protagonista de ter encontrado um lugar perfeiro, por último, temos a história se fechando em um ambiente hostil, onde a protagonista e o antagonista se enfrentam em uma fotografia escura e focada em closes, reforçando a ideia de cerco e a não possibilidade de fuga. Essa montagem bem dividida me agradou bastante e conseguiu me prender em cada momento como se cada arco da trama fosse um conto dentro de uma historia maior, um exemplo de montagem que a Warner , com seus filmes bagunçados de super-heróis deveria aprender a fazer.

Águas Rasas é um divertido filme, que surpreende pela parte técnica e pela trama bem construída. Dentro dos filmes de verão que decepcionaram tanto, surge como uma opção que, embora não nos faça sair refletindo sobre a sociedade ou em defesa dos animais, não deixa aquele amargo na boca de ninguém. Um exemplo raro de que até em blockbusters menos pode ser mais e que um filme não precisa ser profundo, para poder contar uma história que mereça ser assistida.








segunda-feira, 5 de setembro de 2016

TERRA PROMETIDA (2016)



Enquanto todos aguardavam a estreia da nova temporada de “NARCOS”, a Netflix disponibilizava dia primeiro de Setembro, data da invasão alemã à Polônia, a série brasileira “Terra Prometida”, produção idealizada por Renato Fagundes e Luís Noronha, que narra histórias da Alemanha nazista através dos olhos dos Judeus e a repercussão da guerra e da imigração europeia no Brasil durante aquele período. 

Desenhos Belli Studio
A série busca dar um olhar mais moderno e menos maniqueísta a um dos períodos mais amargos da nossa história. Apresentando ao expectador uma obra inovadora, que mistura a reprodução de histórias verdadeiras através de animação, com cenas reais da época no melhor estilo documentário, lembrando, por vezes, o premiado “Valsa para Bashir” de Ari Folman, por seguir os passos do diretor israelense, ao humanizar os envolvidos no confronto, em especial os soldados e imigrantes, mostrando o terror e insanidades causadas pela Guerra e ignorância.

Terra prometida” foi transmitido originalmente pela TV cultura em Julho deste ano, chamando a atenção por se tratar de um ponto fora da curva dentre as obras audiovisuais brasileiras, misturando a informação do documentário com a dramatização ilustrada.

O documentário nos traz imagens de documentos históricos como, por exemplo, o telegrama enviado a Albert Einstein, onde o governo brasileiro rejeita o pedido de entrada de uma de suas amigas, e, de vídeos raros da época, onde podemos ver um pouco do espírito da sociedade alemã, desde a entrada no poder no partido nazista, até sua queda em 1945 e a repercussão da guerra em terras brasileiras, desde a simpatia pelo eixo por parte de Getúlio, até a entrada na guerra ao lado dos aliados.


Complementando a parte documental da obra, a série apresenta trechos em animações baseadas em histórias reais de diversos personagens que vivenciaram os fatos ocorridos na segunda guerra, tanto no Brasil, quanto no fronte de batalha. A produção desses desenhos é trabalho da Belli studio de Blumenau, responsável por ilustrar algumas séries da Discovery Kids, como “O peixonauta” e “Meu Amigãozão” e o estilo simples com que as histórias são retratadas remetem tanto a busca por uma verdade mais leve, quanto ao escapismo que tais situações pedem frente a crueldade e tristeza dos fatos ocorridos.

A série é excelente, exorcizando um período sombrio de nossa história e dando voz e rosto a muitas figuras esquecidas. O episódio que trata do ocorrido com os pracinhas logo após o fim da Guerra e o que fala sobre Aracy Guimarães Rosa, que conseguiu vistos para centenas de refugiados elucida quem acreditava que a história brasileira naquele confronto ficava aquém dos filmes de Hollywood e das histórias de nossos avós.

Pracinha ferido voltando da Guerra recebendo medalha
A obra vem coroar o momento cinematográfico brasileiro que parece querer deixar de lado o estilo panfletário de “cine-ditadura” e “cine-favela” e as comédias sem graça que ninguém precisa. Seu roteiro, que avança e recua no tempo para mostrar diversas histórias ocorridas na segunda guerra, foi escrito por Haná Vaisman, Gabriella Mancini e Rossana Maurell, que contaram com a ajuda de historiadores para tornarem a trama mais próxima ainda da realidade. A direção ficou por conta de Paschoal Samora e a produção teve o apoio do fundo setorial do audiovisual via Ancine e BNDES, sendo uma obra conjunta da Conspiração Filmes e Synapse produções.

Terra Prometida” é uma aula de cinema e inovação e, está com seus capítulos para a apreciação na Netflix desde o dia primeiro de Setembro, se você gosta de história, documentários e animação (ou todos) essa é a oportunidade perfeita para assistir algo de valor e conteúdo feito aqui e por artistas brasileiros.


Não perca tempo, são só seis episódios de 25 minutos. Recomendo. 



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

ELE TIROU SUA PELE POR MIM (2014)



Todo mundo em algum momento da vida já abdicou de algo para agradar outra pessoa, mas até onde estamos dispostos a deixarmos de sermos quem somos por amor? E será que essa outra pessoa faria o mesmo?

Pois é esse o tema do angustiante curta "Ele tirou sua pele por mim" (2014) de Ben Aston.


Coloque a legenda em Português, segure a careta de aflição e assista até o final.




 

Abaixo o link do Vimeo, caso não abra a legenda do Youtube:



domingo, 28 de agosto de 2016

QUANDO AS LUZES SE APAGAM (2016)

Escrevi um texto aqui, uns meses atrás, sobre os curtas de terror de David F. Sandberg e de como ele consegue esticar a tensão prendendo a atenção do espectador até o grande susto, utilizando nossos medos mais primitivos contra nossa própria imaginação. A exploração desses conceitos estão presentes em todo o trabalho do diretor; assinatura que fez com que ele ganhasse fama, reconhecimento e ,agora, a oportunidade de adentrar no mercado mainstream do cinema, transformando seu curta mais famoso, "Quando as luzes se apagam" em um filme produzido por James Wan e realizado pela Warner.

"Quando as luzes se apagam", segue a história de Rebecca , uma jovem tatuadora, que vive afastada de sua família devido a problemas de relacionamento com sua mãe, que sofre de crises de depressão. Tudo muda quando ela é chamada até a escola de seu irmão mais novo para ser questionada se sabe o motivo do garoto andar desmaiando de sono durante as aulas, este então lhe conta que desde que, Diana, uma amiga de infância de sua mãe "voltou", ele não se sente mais seguro na escuridão. As revelações do menino a fazem lembrar do tempo em que era criança e dos estranhos acontecimentos ocorridos em sua casa a noite e que culminaram com o desaparecimento de seu pai e o retorno de sua mãe as medicações controladas, as peças vão se ligando até que Rebecca descobre que Diana é real, existindo nas sombras e escuridão, e, que usará toda sua sorrates e violência para que nada a separe de sua única amiga.

O filme não é ruim, mas prefiro os curtas! Os curtas trabalham com uma situação, não com uma trama elaborada que busca responder as perguntas que vão aparecendo no desenrolar da história, então nos poucos minutos dos curtas temos aquele único momento e isso é o que importa, não sendo necessário o que nos levou até ali e utilizando essa forma de apresentação Sandberg é único. Já em um longa, torna-se necessário uma série de artifícios para esclarecer ao expectador como as situações vão se desenhar e em "Quando as luzes se apagam" o diretor não trouxe nada de novo ou especial, caindo mesmo em clichês bem recorrentes aos modernos filmes de terror.

Sobre esses clichês, podemos começar falando sobre Diana, a entidade da escuridão. O roteiro busca apresenta-la como outra dessas criaturas amaldiçoadas e amaldiçoadoras que surgiram aos montes no cinema americano logo após os sucessos dos filmes japoneses como "O Chamado" e "O grito". O conceito de criatura que só pode ser percebida na escuridão é muito bacana e confesso que a hora em que a protagonista está em seu quarto, acorda e vê a silhueta de uma pessoa arranhando o chão e que desaparece quando a luz se acende é bem perturbador, mas isso é apenas a transposição de uma cena do curta para o longa e como eu já disse, os curtas são melhores. Mas o que menos gosteis em relação a entidade, foi o fato dela ser mostrada no arco final do filme; acho que é muito mais assustador não dar rosto a uma ameaça sobre natural, deixar que nossa imaginação trabalhe, utilizando o medo nos olhos dos personagens para nos fazer conceber a imagem do que pode causar tanto pavor, ou seja, faltou ao antagonista do filme, nos passar o medo primitivo que perturba o inconsciente humano, justamente o que os curtas de Sandberg conseguem nos transmitir de forma tão competente.


Em relação a trama, pode-se dizer que toda a busca para encontrar respostas sobre Diana, nada mais é do que uma cópia do modo de agir dos protagonistas dos filmes com inspiração no cinema oriental citados acima, mas de uma maneira menos trabalhada, para não dizer gratuita. Rebecca tem um encontro com a entidade, um insigth e descobre caixas contendo arquivos médicos onde é explicado como Diana morreu (sim, ela é um fantasma), fotos da mesma com a mãe da protagonista e até uma fita onde supostos médicos falam sobre como Diana foi parar em uma clinica para pessoas perturbadas. Depois disso fica claro que a menina (tal qual Samara de "O chamado") causa perturbações e mexe com a mente de quem a cerca e que a presença dessa entidade é resultado da mãe da protagonista estar ligada mentalmente a amiga morta e surge o plano de combater essa presença fazendo com que Sophie (a Mãe da protagonista) tome seus remédios de forma regular ( Sim! É isso, com a dozagem certa de Prozac a entidade maligna desaparece). Essa resolução de roteiro encontrada, apresenta mais furos na história do que resolve o problema, para começar, em mais de uma cena vemos Sophie saindo da casa de dia, até mesmo após a descoberta que para afastar o monstro é necessário que ela tome seus remédios e ela está claramente perturbada e com medo, porque não tomou os remédios por conta própria ou os filhos deram a ela naquele horário? Por que esperar até a noite para procurar a mãe? Outra coisa que me incomodou foi o fato de a entidade ter a silhueta de uma mulher adulta quando morreu com menos de doze anos, resolvi acreditar que é porque ela é uma representação mental e que a pessoa amaldiçoada só criaria vínculos de temor e respeito por alguém quase da sua idade, imaginei isso para evitar de pensar que o roteirista fez isso para que não ficasse muito na cara que muitos dos conceitos eram "Homenagens" a "O chamado".

O filme ainda serve como campanha publicitária indireta. Sendo uma produção da Warner Bros, temos espalhados no decorrer da história detalhes que fazem menção aos personagens da DC/ Warner, assim temos Martin (o Irmão da protagonista) sendo afagado por sua mãe em uma foto enquanto usa uma camiseta do Batman (Beleza!), a câmera anda lentamente para o lado e entre os porta-retratos temos um boneco do Robin (Hum, ok!), corta a cena e estamos no quarto do moleque e acima de sua cama temos o poster da Liga da Justiça (Santa propaganda morcego!) , sem dizer que a produção do longa é de James Wan, o diretor do filme do Aquaman !! Sabemos que os filmes da DC não tiveram o retorno esperado e que o público de filmes de terror é, em teoria, praticamente o mesmo do de filmes de super-heróis, mas sejamos mais discretos por favor dona Warner.

"Quando as luzes se apagam" é o resumo em longa metragem de todos conceitos que David F. Sandberg buscou trazer à seus expectadores durante sua carreira, mas como resumo que é , fica devendo por apresentar uma história rasa e cheia de clichês, que embora contenha um pouco da tensão presente nos demais trabalhos do diretor, peca por seguir a cartilha dos modernos filmes de terror americanos. Fica o desejo de que nas próximas produções do diretor, tenhamos o retorno da inovação aliada a tensão que o tornaram tão famoso em festivais e na internet , fazendo com que quem vai ao cinema procurando sustos e uma história profunda e bem contado, tenha certeza de encontrar o que procura quando as luzes se apagarem.

                                        Quando as luzes se apagam - trailer 2

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O REI DE AMARELO (Robert W. Chambers)

Em Janeiro de 2014, estreava na HBO a série "True Detective". Tendo como protagonistas Matthew McConaughey e Woody Harrelson, e com o roteiro de Nick Pizzolatto, a produção contava a história de dois detetives atrás de respostas sobre uma série de assassinatos envolvendo uma misteriosa seita. A série foi um sucesso de público e crítica, tanto pela qualidade das atuações e roteiro, quanto pela inovação na forma de narrativa, onde a história era apresentada em três linhas de tempo diferentes, 1995 , 2002 e 2012, de forma não linear, para que o espectador pudesse entender como foram descobertos cada pista sobre o caso e apresentar a situação dos detetives, suas famílias e os envolvidos.

"True Detective" me pegou desde sua abertura arrepiante ao som de The Handsome Family, mas o que me deixou fascinado foi o "estranho" que permeava a sua história. A série trazia um flertar com o sobrenatural, que ficava longe de transformar a história em um conto de terror ou magia, mas que a afastava da normalidade das histórias policiais normais, Isso fez com que eu procurasse saber mais sobre o roteiro e com isso soube que toda a mitologia por trás da história da primeira temporada de "True Detective" era inspirada em um pequeno livro de contos escrito por um autor que, entre contos de terror e ficção científica que inspiraram gênios do calibre de Lovecraft e Stephen King, conseguiu considerável fortuna e fama através de livros de romances que miravam a atenção de senhoras; tratava-se de Robert W. Chambers e esse livro é "O REI DE AMARELO", lançado originalmente em 1895 e que a editora Intrínseca publicou no Brasil logo após o sucesso da produção de Pizzolatto e que me senti obrigado a ler na busca de mais daquele estranhamento que senti assistindo a série.

"O rei de amarelo" é uma antologia de contos, com dez histórias que tratam de terror, suspense, maldição, ficção científica e até romance. Destes dez contos, cinco compõe, explicitamente ou em suas entre linhas, a mitologia que desenvolve o estranho universo onde um misterioso livro, homônimo ao que trás os contos de Chambers, enlouquece, perturba e amaldiçoa a vida da pessoa que ousa -lo.

Os contos que tem em comum a presença da maldição do livro, tem como primeiro "O reparador de reputações" onde o autor nos apresenta uma história que se passa 25 anos no futuro (da data que o livro foi lançado, 1895) em que o narrador conta sobre uma trama para tomar o trono da América (EUA) para si, tudo isso com a benção dos súditos do Rei de amarelo; a esse, segue "A Máscara", onde um escultor descobre uma formula que transforma todo ser vivo que a toca em uma estátua, o que acaba por ocorrer com a mulher que ama após essa ousar folhar o livro desgraçado. A terceira história é "No Pátio do Dragão", onde um jovem arquiteto busca conforto espiritual em uma igreja, após três dias de pesadelos depois de ler "O rei de amarelo" e vai percebendo de maneira paranoica que o organista o vigia e tenta se aproximar com ares de ódio, O conto que segue é "O emblema amarelo" que narra a história de um pintor e sua modelo preferida, que após encontrarem o malfadado livro, percebem que estão sendo observados por um vigia da igreja que é descrito de forma monstruosa e acabam entrando em uma espiral de loucura . Por último temos diversos trechos da suposta peça presente no livro maldito reunidos no conto intitulado "O paraíso do profeta", que fecha o pequeno deslumbre que temos do estranho universo criado por Chambers.

Se eu posso dizer algo sobre esse livro é que ele cumpriu sua missão de causar estranhamento, pelo menos em mim. Suas histórias contendo um mistura de situações e sentimentos, somadas a uma irregularidade de ritmo e ao estilo de escrita do século XIX, por vezes me deixaram confuso, mas cumpriram seu papel de apresentar um terror que busca ser como algo que não pode ser alcançado pela compreensão humana, tanto dos personagens que sofrem com a maldição, como pelo leitor que se vê envolto a situações que mal consegue conceber.
Penso que "O rei de Amarelo" seja a semente ocidental da ideia de terror que ganhou fama através dos filmes japoneses, onde os personagens são amaldiçoados e não há forma de escapar ou de redimir, pois o que lhes envolveu é maior do que eles e seu entendimento, algo que ganhou força por aqui com filmes como "O chamado", "O grito" e recentemente em "Corrente do mal".




Quanto as histórias que compõe o livro, a edição brasileira da editora Intrínseca parece acertar na disposição dos contos, pois consegue nos apresentar toda a mitologia em uma crescente através da ordem desses contos. "O reparador de reputações" me pareceu confuso a principio, pois joga o leitor sem paraquedas no meio de uma trama que mistura muitos elementos, se passando em um futuro (em relação ao livro) onde Judeus e negros foram banidos da América e os EUA lutaram contra a Alemanha pelas ilhas Samoanas, tais acontecimentos só ganham uma forma de explicação na última linha, quando a sanidade do narrador é colocada em xeque, remetendo aos contos de Lovecraft e a ideia de que uma verdade poderosa pode tornar instável a razão de quem a contempla. Já "A máscara" traz uma carga muito pesada de romantismo e tem um desenvolvimento lento, que torna quase oitenta por cento da história, muito mais uma trama sobre um triângulo amoroso do que uma história de terror e isso é bem chatinho, embora tente recupera ao final um pouco do que é apresentado como intenção inicial da história. Por outro lado, os contos "No pátio do Dragão" e " O emblema amarelo" são meus dois contos preferidos de Chambers, neles o terror da maldição do livro são muito bem demonstradas e o clima crescente de medo e insanidade muito bem desenvolvidos; posso citar por exemplo a observação paranoica e toda a descrição de fuga e pesadelo que o protagonista de "No pátio do Dragão" faz ao contar de toda sua aflição ao se sentir perseguido pelo tocador de órgão da igreja onde buscava conforto após ler o livro amaldiçoado, ou os detalhes presentes no desenvolvimento de "O emblema amarelo" e que vão sendo citados lentamente em uma espiral de loucura e desespero que envolve um pintor e sua modelo preferia após contato com o livro e o emblema amarelo; estes dois contos ainda tem em comum o final que não permite nenhuma ilusão de esperança ou redenção.

Além dos cinco contos que tratam da mitologia amarela, o livro ainda trás mais cinco que não tem ligação com nada e parecem estar presente apenas para apresentar um pouco mais do talento do escritor. No entanto entre estes, existe um que se destaca por flertar com o sobre natural e o estranho, que é o intitulado "A Demoiselle d'Ys", onde um jovem apresentado como Robert, o estranho, sai para caçar e conhece uma garota que o leva para seu castelo e apresenta seus amigos e parentes, um clima surge entre os dois e no final uma revelação surge para deixar tanto o leitor, quanto personagem de queixo caído.


Pela construção de uma mitologia que inspirou grandes escritores, além de proporcionar um estranhamento e flerte com o sobrenatural semelhante ao presente na série "True detective" considero "O rei de Amarelo" um leitura obrigatória para quem busca saber como grandes universos de fantasia e suspense são criados, que a editora intrínseca disponibilizou por um preço acessível em nosso país para se ter na estante em lugar de destaque . Uma obra de terror que utiliza de sutilizas e até futilidades para colocar o leitor frente a algo que não pode ser explicado ou se quer compreendido, uma viagem sem volta até as assustadoras torres de Carcosa e aos gelado lago de Hali, onde os céus pendem estrelas negras por de trás da lua azul, na morada da morte e das almas perdidas, onde o rei de amarelo sussurra das trevas com voz de trovão, "Horrenda coisa é cair nas mãos do deus vivo" enquanto se mergulha nas profundezas.


               Fechando com a abertura de True Detective para tirar o amargo da boca

terça-feira, 23 de agosto de 2016

ENGORDAR DE FORMA SAUDÁVEL (2015)

Sempre quando se fala em cinema, pensamos nas produções norte americanas ou nos grandes centros europeus, como o reino unido e França. Mas existe muita coisa boa sendo produzida ao redor do mundo e se não nos dispormos a procurar, acabamos por perder a oportunidade de nos surpreendermos com boas histórias contados sob uma ótica diferente da que nos habituamos. Um exemplo disso é o curta Búlgaro "Engordar de forma saudável" de 2015 escrito e dirigido por Kevork Aslanyan.

O curta de pouco menos de 20 minutos nos apresenta um mundo onde, após o acidente de uma missão americana ao espaço que destruiu parcialmente a lua, a gravidade da Terra foi alterada, expelindo de nossa atmosfera tudo que pesa menos de cento quilos. Nessa realidade conhecemos Constante, um rapaz com seus trinta anos, com dificuldades de ganhar peso e seu pai super protetor, que vivem juntos em um pequeno apartamento vinte anos após o acidente que mudou a história da vida na terra.
A vida de Constantine é uma monótona rotina de sonho e observação pela janela de sua casa, até que um dia ele se apaixona por uma vizinha e esse sentimento lhe dá motivação para buscar sair de casa, o que seu pai vai buscar realizar arriscando perder a pessoa que mais ama.

Eu falei para comer mais arroz e feijão, não falei?!

O curta é bem divertido e traz uma visão de desastre inovador, sem falar nas fortes doses de ficção científica. Imaginar um mundo onde apenas quem está extremamente acima do peso seja capaz de sobreviver é algo surpreendente, desenrolar a história em um subúrbio búlgaro, com todo aquele clima de leste europeu, mas mantendo o respeito e não caindo em esteriótipos (afinal tanto os atores, quanto o diretor são Búlgaros) é perfeito, pois nos transmite um olhar diferente ao que o espectador está acostumado e enriquece mais a história.

Outra coisa bacana que o curta aborda, mas que fica em segundo plano, é o padrão de beleza desse outro mundo. Como todas as pessoas (fora constantine) são gordas, o padrão de beleza é de quem possui muitos quilos a mais e isso interfere até mesmo na confiança do protagonista, que passa a usar enchimentos na barriga, pernas e braços para parecer que está no padrão, ou procurar dietas que lhe forneçam a quantidades de calorias necessárias para se tornar aceito por essa sociedade.


Tá vendo aquela lua que brilha lá no céu?

Além de tudo, "Engordar de forma saudável" é uma história de amor, ali temos o amor de um homem por uma mulher que parece inalcançável a ele (tanto pela natureza quanto pelos padrões), o amor e a saudade do pai de Constantine pela esposa que morreu quando a gravidade da terra mudou e o amor paterno de um homem que aposta tudo para realizar o desejo e sonho de seu filho, até mesmo podendo perde-lo para sempre.

"Engordar de forma saudável" é uma história divertida e inventiva, traz um conceito original sobre ficção científica e aborda assuntos como amor, saudade, sacrifício e solidão. Uma mostra que existe qualidade fora da industria dos grandes centros e que se procuramos um pouco podemos nos deparar com grandes histórias basta ficarmos de olhos bem abertos e os pés no chão (se você tiver mais de 100 kg, assim como eu, será ainda mais fácil).



Quem quiser assistir, o curta está completo no Vimeo, abaixo segue o link:

https://vimeo.com/172389175




domingo, 21 de agosto de 2016

FARGO - A série (1° temporada)






Esse post é baseado em uma história real. Os eventos ocorreram em 2006 em Minesota.
A pedido dos sobreviventes os nomes foram alterados.
Por respeito aos mortos o restante foi retratado exatamente como ocorreu.

Eu sou muito fã dos irmãos Coen. Existe algo na obra deles que não consigo explicar e que me deixa meio hipnotizado, não sei se a capacidade deles conseguirem ser profundos e divertidos tanto em grandes produções como "Bravura Indômita" de 2010, como em filmes menores tal qual "Na roda da fortuna" de 1994, ou simplesmente pelo humor negro e pelo inexplicável estranhamento que cercam as histórias de filmes, como em " Um homem sério" de 2009 e "O grande Lebowski" de 1998. Mas o certo é que sou fã dos caras.
Talvez por isso, quando em 2014 o canal FX, trouxe para a TV uma obra baseada em um dos melhores filmes dos Irmãos Coen, "FARGO" de 1996, ignorei o projeto idealizado e escrito por Noah Hawley, tanto pelo fato de não ser o maior fã de adaptações de grandes títulos para a TV, como pela simples impossibilidade de assistir a série devido a FX Brasil não transmitir a série aqui em terras tupiniquins, mal sabia eu, que perdi a chance de acompanhar em tempo real o nascimento de um clássico da TV, repleto de personagens marcantes, roteiro primoroso e execução impecável, que me tornou fã aos dez minutos do episódio piloto.




A série trás uma história que lembra a contada no filme pelos conceitos e cenários, mas composta por elementos muito mais profundos e uma trama muito mais complexa do que a obra original. Nessa história somos apresentados a Lester Nygaard (Martin Freeman), um pacato e desprezado vendedor de seguros na pequena cidade de Bemidji em Minesota, que vê sua vida mudar quando, depois de ser humilhado por um valentão ex-colega do tempo de escola, ao se encontrar e confessar suas frustrações a um misterioso homem (Billy Bob Thornton) na fila da emergência de um hospital, expressa a vontade de que seu agressor seja morto, o que é levado a cabo por seu confessor. A partir dessa morte, Lester entra em um espiral de violência e mudança de percepção da vida que ira transformar a vida de todas pessoas que tem contato com ele, incluindo a policial Molly Solverson, que percebe que problemas maiores estão por surgir devido ao assassinato, envolvendo extorsão, morte de policiais, chuva de peixes e assassinos da máfia.

A série é fantástica! Noah Hawley soube trazer para a TV todo espirito das obras dos Coen com o humor negro desconcertante que faz com que não saibamos se devemos rir ou ficar envergonhados, cenas de ação e momentos de tensão que te grudam na cadeira e personagens marcantes, que transitam entre o cara comum, o durão e o indivíduo totalmente sem crédito.
Lester Nygaar
Sobre os personagens, penso que eles sejam o grande trunfo de "Fargo", pois antes de ser uma história policial ou comédia de humor negro, a série é uma história de pessoas e isso cria um vínculo quase imediato com os três personagens centrais da trama, que aliás correspondem aos três Arquétipos (ou seriam esteriótipos?) trabalhados pelos Coen em seus filmes. Dessa maneira temos Lester Nygaard, o pobre vendedor de seguros que é humilhado por ex-colegas, diminuído por seu irmão mais novo, ignorado no trabalho e ridicularizado pela própria esposa, ele é a representação do perdedor que tanto povoa o universo de filmes americanos e que ninguém quer ser, tanto que quando sua vida começa a dar sinais de melhoras, não levando em conta sua gigantesca capacidade de errar, torcemos por ele, mesmo sabendo que o responsável por todos os problemas da série é ele.
Em contraponto ao pobre Lester, temos o misterioso assassino interpretado por Billy Bob Thornton, que mais tarde passa a ser conhecido como Lorne Malvo. Ele é um agente do caos, não muito diferente do Coringa interpretado por Heath Ledger, mas com toda uma questão de princípios tais como o Assassino de "Onde os fracos não tem vez", sua interação com o personagem de Martin Freeman é perfeita, criando uma tensão tanto em Lester Nygaard como no espectador para quem os discursos de Malvo parecem ser direcionados. Lone Malvo não respeita nada e não teme nada, parece entender que a vida é um amontoado de convenções presididas por pessoas que dão mais crédito as aparências do que aos resultados e possibilidades e, usa essa fraqueza das pessoas em seu próprio favor. Lorne Malvo é o meu personagem preferido da série e grande parte disso se deve a interpretação primorosa do Thornton, que consegue se impor através de olhares e silêncios, se tornando ameaçador mesmo possuindo o porte de um corredor de maratonas que não se hidratou corretamente.
Lorne Malvo 

Fechando o trio de protagonistas, temos a policial Molly Solverson, que se enquadra no personagem desacreditado citado acima. Molly (interpretada por Allison Tolman) é uma obstinada assistente do xerife, que enxerga nos acontecimentos ocorridos em Bemidji muito mais do que crimes isolados, o que faz com que ela não desista de buscar a verdade a todo custo para descobrir os verdadeiros culpados, no entanto, cercada por pessoas que apreciam muito mais a aparência do que o talento e que preferem saborear uma bela xícara de café com rosquinhas a resolver problemas reais, assim, quase todos seus esforços ficam relegados a fé de que outras pessoas fora de sua delegacia acreditem em seu ponto de vista, como seu Pai , Lou Solverson, um ex-policial dono de uma lanchonete e Gus Grimli ( Colin Hanks), um policial da cidade vizinha, que após um contato com Lorne Malvo passa a ajudar Molly. O Humor e persistência do personagem de Allison Tolman são tão marcantes, que penso que não fique devendo em nada para o interpretado por Frances MacDormand no filme homônimo à série, assim como a sua interpretação não fica devendo nada a ganhadora do Oscar de 1996.

Para complementar a ótima exploração dos personagens, a série ainda tem ótimas cenas de ação que surgem com força para que lembremos que, mais do que uma série sobre pessoas e escolhas, trata-se de uma história policial. Estas cenas não surgem de forma gratuita, todos são lentamente construídas de forma lenta e sutil, onde o telespectador pode saborear toda a tensão que vem surgindo a partir do momento onde a ação torna-se inevitável. Não quero estragar a experiência de ninguém com a série, então cito apenas a cena do capítulo seis, onde Lone Malvo, após chantagear o dono do supermercado ligado a organização que contrata seus serviços e colocar a culpa no personal treiner da ex-mulher desse empresário, o deixando amarrado a uma arma enquanto a Swat resolve invadir sua casa, parte para a cidade vizinha durante uma tempestade de neve e é emboscado por uma dupla de assassinos da máfia de Fargo, com quem Sam Hess tinha conexão, começa aí uma cena extremamente tensa, onde os policiais Molly e Grimly se unem no tiroteio e em que Malvo perde sua arma e conta apenas com sua frieza e calma para se ver livre da situação. O capítulo é fantástico e daria um media metragem de ação de alta qualidade, a ação é empolgante e a fotografia perfeita, sem falar do desfecho do problema que vai do espetacular ao absurdo de forma brilhante (se é que isso é possível).

Molly Solverson
Para finalizar, a série ainda tem uma história fechada em cada temporada. Ou seja, não é necessário esperar um anos para saber o que vai acontecer com os personagens, tal qual um livro bom, a história tem início, meio e fim e isso eu considero uma vantagem, é como se assistíssemos um filme de quase dez horas. A segunda temporada foi exibida em 2015 e conta a história, que se passa em 1979, conta a história de Lou Solverson, pai de Molly, em seus tempos de policial e a história é tão boa ou melhor que a da primeira temporada, mas falaremos disso em uma outra postagem, do mesmo modo que espero falar da terceira, que estreará em 2017 e já tem confirmado o ator Ewan McGregor no elenco.


"Fargo" a série, é mais que uma adaptação para a TV de um grande filme, é uma obra que se sustenta por sua história inteligente, tensa e cheia de grandes diálogos, com personagens ricos e complexos que falam diretamente com o espectador. Um clássico que surge da cabeça de Noah Hawley com o espirito e o humor dos irmãos Coen e que me surpreendeu demais por sua qualidade de roteiro, direção e atuações. Agradeço a dica do meu amigo Caleb Garcia, que me indicou a série e a insistência de meu irmão Leandro Guerreiro para que eu assistisse . Assim que possível vou resenhar a segunda temporada, com a história de Lou Solverson e a saga trágica da família Gerhardt e a máfia de Kansas,  aguardando com ansiedade a estréia da terceira história em 2017, mas sabendo que regras não existem e é preciso mostrar ao mundo que viemos os gorilas e por vezes precisamos mostrar ao mundo que ainda temos um pouco deles em nós.