domingo, 21 de agosto de 2016

FARGO - A série (1° temporada)






Esse post é baseado em uma história real. Os eventos ocorreram em 2006 em Minesota.
A pedido dos sobreviventes os nomes foram alterados.
Por respeito aos mortos o restante foi retratado exatamente como ocorreu.

Eu sou muito fã dos irmãos Coen. Existe algo na obra deles que não consigo explicar e que me deixa meio hipnotizado, não sei se a capacidade deles conseguirem ser profundos e divertidos tanto em grandes produções como "Bravura Indômita" de 2010, como em filmes menores tal qual "Na roda da fortuna" de 1994, ou simplesmente pelo humor negro e pelo inexplicável estranhamento que cercam as histórias de filmes, como em " Um homem sério" de 2009 e "O grande Lebowski" de 1998. Mas o certo é que sou fã dos caras.
Talvez por isso, quando em 2014 o canal FX, trouxe para a TV uma obra baseada em um dos melhores filmes dos Irmãos Coen, "FARGO" de 1996, ignorei o projeto idealizado e escrito por Noah Hawley, tanto pelo fato de não ser o maior fã de adaptações de grandes títulos para a TV, como pela simples impossibilidade de assistir a série devido a FX Brasil não transmitir a série aqui em terras tupiniquins, mal sabia eu, que perdi a chance de acompanhar em tempo real o nascimento de um clássico da TV, repleto de personagens marcantes, roteiro primoroso e execução impecável, que me tornou fã aos dez minutos do episódio piloto.




A série trás uma história que lembra a contada no filme pelos conceitos e cenários, mas composta por elementos muito mais profundos e uma trama muito mais complexa do que a obra original. Nessa história somos apresentados a Lester Nygaard (Martin Freeman), um pacato e desprezado vendedor de seguros na pequena cidade de Bemidji em Minesota, que vê sua vida mudar quando, depois de ser humilhado por um valentão ex-colega do tempo de escola, ao se encontrar e confessar suas frustrações a um misterioso homem (Billy Bob Thornton) na fila da emergência de um hospital, expressa a vontade de que seu agressor seja morto, o que é levado a cabo por seu confessor. A partir dessa morte, Lester entra em um espiral de violência e mudança de percepção da vida que ira transformar a vida de todas pessoas que tem contato com ele, incluindo a policial Molly Solverson, que percebe que problemas maiores estão por surgir devido ao assassinato, envolvendo extorsão, morte de policiais, chuva de peixes e assassinos da máfia.

A série é fantástica! Noah Hawley soube trazer para a TV todo espirito das obras dos Coen com o humor negro desconcertante que faz com que não saibamos se devemos rir ou ficar envergonhados, cenas de ação e momentos de tensão que te grudam na cadeira e personagens marcantes, que transitam entre o cara comum, o durão e o indivíduo totalmente sem crédito.
Lester Nygaar
Sobre os personagens, penso que eles sejam o grande trunfo de "Fargo", pois antes de ser uma história policial ou comédia de humor negro, a série é uma história de pessoas e isso cria um vínculo quase imediato com os três personagens centrais da trama, que aliás correspondem aos três Arquétipos (ou seriam esteriótipos?) trabalhados pelos Coen em seus filmes. Dessa maneira temos Lester Nygaard, o pobre vendedor de seguros que é humilhado por ex-colegas, diminuído por seu irmão mais novo, ignorado no trabalho e ridicularizado pela própria esposa, ele é a representação do perdedor que tanto povoa o universo de filmes americanos e que ninguém quer ser, tanto que quando sua vida começa a dar sinais de melhoras, não levando em conta sua gigantesca capacidade de errar, torcemos por ele, mesmo sabendo que o responsável por todos os problemas da série é ele.
Em contraponto ao pobre Lester, temos o misterioso assassino interpretado por Billy Bob Thornton, que mais tarde passa a ser conhecido como Lorne Malvo. Ele é um agente do caos, não muito diferente do Coringa interpretado por Heath Ledger, mas com toda uma questão de princípios tais como o Assassino de "Onde os fracos não tem vez", sua interação com o personagem de Martin Freeman é perfeita, criando uma tensão tanto em Lester Nygaard como no espectador para quem os discursos de Malvo parecem ser direcionados. Lone Malvo não respeita nada e não teme nada, parece entender que a vida é um amontoado de convenções presididas por pessoas que dão mais crédito as aparências do que aos resultados e possibilidades e, usa essa fraqueza das pessoas em seu próprio favor. Lorne Malvo é o meu personagem preferido da série e grande parte disso se deve a interpretação primorosa do Thornton, que consegue se impor através de olhares e silêncios, se tornando ameaçador mesmo possuindo o porte de um corredor de maratonas que não se hidratou corretamente.
Lorne Malvo 

Fechando o trio de protagonistas, temos a policial Molly Solverson, que se enquadra no personagem desacreditado citado acima. Molly (interpretada por Allison Tolman) é uma obstinada assistente do xerife, que enxerga nos acontecimentos ocorridos em Bemidji muito mais do que crimes isolados, o que faz com que ela não desista de buscar a verdade a todo custo para descobrir os verdadeiros culpados, no entanto, cercada por pessoas que apreciam muito mais a aparência do que o talento e que preferem saborear uma bela xícara de café com rosquinhas a resolver problemas reais, assim, quase todos seus esforços ficam relegados a fé de que outras pessoas fora de sua delegacia acreditem em seu ponto de vista, como seu Pai , Lou Solverson, um ex-policial dono de uma lanchonete e Gus Grimli ( Colin Hanks), um policial da cidade vizinha, que após um contato com Lorne Malvo passa a ajudar Molly. O Humor e persistência do personagem de Allison Tolman são tão marcantes, que penso que não fique devendo em nada para o interpretado por Frances MacDormand no filme homônimo à série, assim como a sua interpretação não fica devendo nada a ganhadora do Oscar de 1996.

Para complementar a ótima exploração dos personagens, a série ainda tem ótimas cenas de ação que surgem com força para que lembremos que, mais do que uma série sobre pessoas e escolhas, trata-se de uma história policial. Estas cenas não surgem de forma gratuita, todos são lentamente construídas de forma lenta e sutil, onde o telespectador pode saborear toda a tensão que vem surgindo a partir do momento onde a ação torna-se inevitável. Não quero estragar a experiência de ninguém com a série, então cito apenas a cena do capítulo seis, onde Lone Malvo, após chantagear o dono do supermercado ligado a organização que contrata seus serviços e colocar a culpa no personal treiner da ex-mulher desse empresário, o deixando amarrado a uma arma enquanto a Swat resolve invadir sua casa, parte para a cidade vizinha durante uma tempestade de neve e é emboscado por uma dupla de assassinos da máfia de Fargo, com quem Sam Hess tinha conexão, começa aí uma cena extremamente tensa, onde os policiais Molly e Grimly se unem no tiroteio e em que Malvo perde sua arma e conta apenas com sua frieza e calma para se ver livre da situação. O capítulo é fantástico e daria um media metragem de ação de alta qualidade, a ação é empolgante e a fotografia perfeita, sem falar do desfecho do problema que vai do espetacular ao absurdo de forma brilhante (se é que isso é possível).

Molly Solverson
Para finalizar, a série ainda tem uma história fechada em cada temporada. Ou seja, não é necessário esperar um anos para saber o que vai acontecer com os personagens, tal qual um livro bom, a história tem início, meio e fim e isso eu considero uma vantagem, é como se assistíssemos um filme de quase dez horas. A segunda temporada foi exibida em 2015 e conta a história, que se passa em 1979, conta a história de Lou Solverson, pai de Molly, em seus tempos de policial e a história é tão boa ou melhor que a da primeira temporada, mas falaremos disso em uma outra postagem, do mesmo modo que espero falar da terceira, que estreará em 2017 e já tem confirmado o ator Ewan McGregor no elenco.


"Fargo" a série, é mais que uma adaptação para a TV de um grande filme, é uma obra que se sustenta por sua história inteligente, tensa e cheia de grandes diálogos, com personagens ricos e complexos que falam diretamente com o espectador. Um clássico que surge da cabeça de Noah Hawley com o espirito e o humor dos irmãos Coen e que me surpreendeu demais por sua qualidade de roteiro, direção e atuações. Agradeço a dica do meu amigo Caleb Garcia, que me indicou a série e a insistência de meu irmão Leandro Guerreiro para que eu assistisse . Assim que possível vou resenhar a segunda temporada, com a história de Lou Solverson e a saga trágica da família Gerhardt e a máfia de Kansas,  aguardando com ansiedade a estréia da terceira história em 2017, mas sabendo que regras não existem e é preciso mostrar ao mundo que viemos os gorilas e por vezes precisamos mostrar ao mundo que ainda temos um pouco deles em nós.



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

ESQUADRÃO SUICIDA (2016) - quando o maior vilão é o roteirista

Quando eu era criança, lembro que na escola, a professora contou uma pequena história que falava o seguinte:
"Era uma vez um menino que viu na TV como Passas eram deliciosas e passou a sonhar em comer passas. Perguntando para sua mãe quando poderia realizar seu sonho, ela respondeu que apenas no natal a família poderia realizar o desejo do menino e como ele era muito bom e obediente esperou até a data indicada; sempre imaginando o sabor, a textura e o aroma do objeto de seu desejo. Então o Natal chegou e sua mãe lhe entregou um pacotinho da tão sonhada iguaria que, sem pensar, o menino colocou na boca, mas logo sua felicidade se transformou em decepção ao perceber que as tão desejadas passas não passavam de uvas secas."
O que a história contada pela minha professora, na terceira série, queria explicar era um conceito que me acompanharia pela vida toda e que só com muita experiência e baixando a expectativa frente a qualquer promessa, não amargaria meus dias, esse conceito se chama Frustração. Conto essa história para tentar explicar como me senti na data de ontem, ao assistir a "Esquadrão Suicida", filme dirigido por David Ayer, estrelado por Will Smith, Margot Robie, Jared Leto, Viola Davis, entre outros, que, depois da decepção com "Batman vs Superman", colocou minhas expectativas acima do céu, me convencendo através de seus trailers que era a possibilidade de redenção da DC/Warner no cinema, apenas para, após assistir ao filme, me fazer lembrar dessa história antiga e ter certeza de que a resposta à ilusão da expectativa é uma realidade amarga.




SINOPSE

O filme começa logo após os eventos ocorridos em "Batman vs Superman", que culminaram na morte do Kriptoniano mais famoso do mundo. Amanda Waller, uma alta funcionária do serviço de defesa norte americano, resolve levar às autoridades o plano de formar uma equipe que possa combater problemas espetaculares do mesmo nível dos resolvidos pelo Super-man, mas de uma forma que não comprometa ou seja vinculado ao governo e dessa forma resolve utilizar bandidos para a execução dessas missões, para que no caso de algo ocorrer de errado, a responsabilidade recaia toda sobre os mesmos.
Assim Waller, recruta o assassino conhecido como Pistoleiro, o ladrão Capitão Bulmerang, o pirocinético chamado de El Diablo, o bandido conhecido como Crocodilo, uma louca apelidada de Arlequina e um bucha de alcunha Amarra, para executar seu plano e para comanda-los em campo, Amanda conta com a liderança de Rick Flag um militar de alta formação, que por sua vez tem como guarda costas a guerreira katana.
Todos bandidos viviam suas deprimentes vidas de presidiários até que "Magia", uma bruxa de 6320 anos presa no corpo da pior arqueóloga do mundo e que foi o primeiro membro convocado pelo projeto presidido por Waller, roubou o artefato onde seu irmão estava preso e o liberta na cidade de Midlletown, na intenção de torna-lo mais forte e em conjunto com este dominar o mundo, forçando a recém formada equipe à ação para dar fim ao problema e salvar a humanidade.

Vou te decepcionar
Queria começar falando que não tenho nada contra a DC comics. Muito pelo contrário, tenho um carinho especial por todos seus personagens e em especial pela família Batman, então fazer outra resenha mostrando, em sua maioria, todo o lado negativo de um filme dos personagens da editora é uma coisa que não me faz feliz, até porque, ninguém se propõem a perder tempo e dinheiro assistindo a um filme, só para apontar defeitos; o que a pessoa quer é que tudo que lhe foi prometido durante meses e meses de publicidade seja verdade e que sua experiência seja maravilhosa, então começo essa crítica pedindo desculpas aos fãs da DC pelo que vou falar de "Esquadrão suicida", mas a Warner mentiu para mim durante um ano e não posso deixar barato.

Lá vai...


O filme é ruim! Queria dizer ao contrário, mas o filme é ruim. "Esquadrão suicida" é mal escrito, mal dirigido, mal editado, mal explorado, brega, piegas, raso, bobo e infantil. E, podemos explicar porque o filme é do jeito que é, falando um pouco sobre o roteiro, ou pelo vício de roteiro que acompanham os filmes da DC/Warner desde "O homem de aço" e que parecem a única alternativa para os escritores responsáveis criarem uma forma da trama andar, sobre os personagens e suas motivações e como a história é apresentada para o inocente que vai no cinema esperando o clima dos trailers.
A coisa mais notória nos filmes da editora é o fato de todos problemas que seus personagens enfrentam partem deles mesmos. sendo assim, em "O homem de aço", os Kriptonianos chegam a terra com a intenção de destruir a raça humana e criar uma colônia, logo após o Super-man entrar em contato com eles para conhecer melhor seu passado; em "Batman vs Superman", os problemas encabeçados por Lex Luthor só crescem depois que o Batman resolve largar tudo e caçar o Kriptoniano, causando sua morte e; assim é em "Esquadrão Suicida", com a intenção de criar o grupo, Amanda Waller utiliza de meios pouco gentis com uma bruxa de 6320 anos, que acaba por se voltar contra ela e buscar destruir o mundo... me parece que essa gente do universo Dc é meio burra e inconsequente.



Sobre os personagens, o filme não consegue coloca-los como vilões e nem ao menos como anti-heróis carismáticos que poderiam ser se fossem melhor aproveitados, nem vou falar muito do grupo em si, mas gostaria de falar de três em especial, Começando por Amanda Waller, cuja atriz foi a pessoa mais elogiada na Comic-com por sua atuação no filme. O plano da idealizadora do grupo é um plano estúpido e que não faz sentido, ainda mais quando vemos o filme se desenrolar. Criar um grupo de vilões para defender os interesses do governo não é uma coisa muito inteligente, principalmente porque a maioria dos vilões que ela apresenta não possui nenhuma habilidade especial e as crises que o planeta passou recentemente envolvem um ataque alienígena de seres ultrapoderosos e o despertar de um monstro capaz de destruir o mundo sozinho; em resposta a isso, Waller recruta um bêbado que atira bumerangues, uma louca que conta piadas, um franco atirador e um cara com cara de jacaré? Ok, tem o Pirocinético, mas ele não quer lutar... Nos quadrinhos, esse mesmo grupo (ou parecido) faz sentido, porque é mandado para resolver problemas com terroristas, gangster e outras ameaças menores ou internacionais, não contra uma entidade milenar incorpórea extra dimensional e mágica, o que mostra que Amanda deve ter batido a cabeça quando pensou em criar o grupo e que não se deu nem o trabalho de ler a ficha de todos os possíveis recrutáveis, pois se assim fosse, não deixaria a disposição de uma pessoa que se teleporta, entra em espelhos e cria raios mortais (A magia ), o ídolo onde seu irmão hiperpoderoso descansava. Ainda bem que não dizem no filme que Amanda Waller trabalha na Inteligência, porque aí seria piada. Mas as perguntas que ficam são: Por que ela não formou um grupo com os heróis, que tinham o mesmo interesse de salvar a humanidade que o Super-man, ao invés de se arriscar com esses vilões meia boca? Até porque no final vemos quela sabe quem são e como encontrar esses heróis. E, se o esquadrão suicida age para não vincular o governo a suas ações, porque eles são acompanhados de militares?

Tio Phil mandando bala
Mas existe alguém muito pior em planos e motivos que Waller, alguém que serviu como âncora para a publicidade do filme e que agora serve de peso para afunda-lo, uma participação especial que foi desagradável a ponto de me sentir envergonhado pelo David Ayer, um cara que é tido como o maior vilão dos quadrinhos, o palhaço do crime, aquele que só quer o caos, aquele que estava além das ideias lúcidas da humanidade, mas que nesse filme é um coitado, megalomaníaco e que não impressiona, causa medo ou conquista respeito de ninguém, o Coringa. Desde que saiu o primeiro trailer o assunto da galerinha era "Esse coringa vai ser foda" e as reportagens só turbinava essa sensação ao publicar que o ator Jared Leto mandava presentes assustadores a seus colegas de elenco e tal, no entanto , nos doze minutos que temos o coringa em cena, o que podemos ver é um cosplay ruim de um cara que bebeu demais e acordou sem sobrancelha, todo tatuado e achando que vive dentro de um clip de hip-hop do anos 90, ele é ridiculamente caricato e tem muito pouco a ver com o coringa dos quadrinhos que conhecemos. Ele é vaidoso e descuidado, capaz de ficar quietinho para ser tatuado e aproveitar a noite em festas regadas a champanhe e passeios de Lamborghinis escandalosas, sua relação com Arlequina, que sempre foi de desrespeito e manipulação, sempre tendo o abuso como pano de fundo, no filme é apresentada como romântica e vemos o vilão ter ciumes de suas parceira e gastar 90% de seu tempo em tela buscando resgata-la, algo que não faz sentido e desagrada no personagem, pelo fato dele ser um ícone grande demais para ter seus valores e representação invertidos assim. O Coringa de Leto é tão ridículo, que fiquei me perguntando ao assistir o filme, que se o Batman de S vs B, era tão malvadão, porque não matou esse idiota de uma vez?

Tiozão bêbado Cracolância
Outro personagem que me faz cerrar os dentes quando lembro é a tal de Magia e seu alter ego Julie Moon. É difícil de imaginar os pensamentos e planos de uma entidade mágica milenar de outra dimensão, mas criar uma máquina para causar o terror nos seres humanos para que eles voltem a adora-la e assim dominar o mundo me parece muito, mas muito idiota; despertar o irmão monstrengo para chamar a atenção de todos então parece mais idiota ainda e dançar igual ao didi imitando o Ney matoGrosso enquanto realiza feitiços, aí já é um desrespeito para quem pagou para assistir essa coisa. Para piorar, quando o roteiro vê necessidade, essa mesma bruxa terrível e milenar se torna fraca e prefere lutar corpo a corpo contra uma palhaça que usa uma bastão de basebol e seu irmão, que transformou toda uma cidade em zumbis, não consegue matar um cara com uma pistola, outro com bumerangues e meia dúzia de soldados. Em contra partida a essa vilã terrível (que deveria casar com o Loki de vingadores e ter filhos burros e com planos bestas) temos sua versão humana, que é Julie Moon, que é a pior arqueóloga do mundo! Sério pessoal, cês não tão entendendo, ela descoberto um sítio arqueológico entra sozinha e , do nada, destrói uma relíquia milenar acabando possuída por essa entidade... quem assistiu ao national geografic uma vez, ou tem o minimo de conhecimento, sabe que sítios arqueológicos não são propriedades pessoais e que são responsabilidades de faculdades, governos, entidades, não de uma arqueóloga modelo de 30 anos e o pior é que a personalidade da personagem é tão frágil e dependente que para a estabilizar Amanda força um romance entre Julie Moon e Rick Flag, o que me faz lembrar de outra coisa ruim, a Montagem.

família, cachorro, gato, galinha
O filme tem a pior montagem desde "Armagedom" de Michael Bay. Não se consegue entender nada na apresentação dos personagens e os diálogos parecem ser sempre correndo, tornando tudo mais confuso do que ágil, no meio dessa loucura toda, o que se destaca é a quantidade de bobagem repicada que Amanda Waller fala ao explicar seus planos na mesa com o secretário de segurança, quando ela conta a história dos recrutáveis enquanto temos imagens mostrando da forma mais brega possível como a Arlequina acabou presa e piegas da prisão do pistoleiro, tudo isso repleto de uma música por segundo. Sem falar no romance entre Julie Moon e Rick Flag, que é apresentado tão rápido, que não dá o menor tempo de fazer com que nos importemos com o casal, o que ainda é aditivado pelo fato de os dois atores que interpretam o casal terem o carisma de uma cenoura seca; a montagem ainda peca estragando as piadas dos filme, como na hora em que depois que dá merda, Rick Flag diz que todo mundo pode ir embora e o Capitão bumerangue se levanta e sai, a cena corta e menos de dois minutos depois vemos ele com o grupo indo atrás do vilão final, que sentido tem isso?
Para completar a bagunça que é a montagem do filme, temos a trilha sonora descoladinha. O filme tem mais músicas do que a vilã tem anos de vida, é muita música! A primeira cena do filme, onde temos a apresentação do personagem do Will Smith, começa com "House of the rising sun" dos The Animals, corta para apresentação da Arlequina, temos outra música, em seguida corta para a apresentação da Amanda Waller e lá vem "Symphaty for the devil" dos Rolling Stones, não tem como a pessoa não ficar tonta. Completando temos ainda Arlequina dançando na boate ao som de música eletrônica, música do Emminen quando os uniformes e armas são dados aos membros do grupo e acabando o filme com a música do "Queen", o que faz a gente pensar se o filme não foi dirigido por um Dj ao invés de um diretor de cinema.

Coisas Boas...

O filme não é o pior da história. Mas em comparação ao que a publicidade apresentou, ele é uma mentira, mas entre essas mentiras temos coisas boas, como a interpretação de Viola Davis como Amanda Waller, que consegue passar bem o tom de pessoa calculista e sem escrúpulos que só pensa em poder e até a Margot Robie, que , fora as piadas sem timing, parece ter captado o tom da personagem Arlequina, Além dessas duas e do Pistoleiro (Will Smith) que são bem explorados, um destaque é o personagem "El Diablo", que tem todo um arco, começa a história agindo e pensando de um jeito e termina crescendo e sendo fundamental para o encerramento da trama (embora tenha momentos bem piegas). Outra coisa bacana é a participação do Flash, que é de um segundo e empolga mais do que todas as outras cenas de ação do filme... e só.

Muito bem (ou muito mal) ! Eu poderia me estender ainda falando desse filme, contando mais sobre a trama, sobre as cenas de ação e como os problemas se resolvem, mas vou parar por aqui porque só de lembrar desse filme já faz com que eu me sinta mal. Esquadrão Suicida é uma mentira, que tem como mérito para sua arrecadação inicial, não o fato de ser um bom filme, mas sim de ter uma indústria publicitária competente por trás, que lhe garantiu rentabilidade inicial, mas que certamente não pode lhe assegurar o mesmo retorno após a quantidade de críticas negativas que surgiram depois da primeira semana de cartaz. Um filme decepcionante que faz com que cada vez mais se perca a fé nas produções DC/Warner e no futuro desse universo, me deixou apenas a lição de que nunca devemos nutrir expectativas e que bons atores juntos, nem sempre significam um bom filme ao final.
Minha dica final, para quem quer se divertir assistindo esquadrão suicida em uma história adulta, cheia de reviravoltas, violência e personagens de ética duvidosa é: Assista a "Batman:Ataque ao Arkham", desenho de 2014 que consegue com muito menos pretensões ser tudo o que o filme não consegue.

"Esquadrão Suicida" é um filme raso e ruim, cheio de falhas de roteiro e ritmo, irritante com suas milhares de músicas e personagens pouco desenvolvidos, com seu marketing gigante e mentiroso e sua montagem maluca. Um filme que serve apenas para diminuir a impressão negativa de filmes como "Batman e Robin", quando comparados a ele, um filme esquecível e mal produzido, que prometeu trazer uma história sobre os vilões da DC comics, mas que apresentou a história dos vilões reais da Warner, que são seus roteiristas, tanto que quase consigo imaginar David Ayer falando a frase da Arlequina ao ser questionado de como surgiu esse roteiro primoroso: "Somos os caras maus, é isso que fazemos!" , sim, eles são.. os maus escritores.

Vou sair de fininho

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

EU SOU A LENDA ( o livro de Richard Matheson)

Se eu falar sobre "Eu sou a lenda", nove em cada dez pessoas se lembrará do filme de 2007 protagonizado pelo Will Smith, onde um cientista se encontra sozinho em Nova York, logo após um vírus misterioso transformar a população mundial em uma espécie de zumbis noturnos muito malfeitos por CGI. No entanto, o que quase ninguém sabe é que o terrível roteiro do filme "Eu sou a lenda" foi baseado em um clássico livro da ficção científica de terror (se é que esse gênero existe) de mesmo nome, escrito em 1954, por Richard Matheson e que marcou a cultura pop, influenciando cinema e literatura desde então e que tive o prazer de ler recentemente.

O livro conta a história de Robert Neville, um cara comum, morador do subúrbio de uma grande cidade e trabalhador da indústria, que se vê sendo o último humano do planeta logo após uma misteriosa doença transformar o restante da pessoas em vampiros (SIM!VAMPIROS!). Neville passa então a seguir uma solitária rotina para sobreviver, se abrigando em sua casa protegida com alho e símbolos religiosos a noite, onde estuda o que pode ter levado a sociedade à destruição e, buscando mantimentos e caçando as criaturas sanguinárias durante o dia; vendo crescer suas desesperança e tendo como companhia apenas seus pensamentos e suas garrafas de Whisky.

Como já mencionado, o livro é um clássico da ficção científica e trouxe conceitos que nortearam muitas das grandes obra de terror e suspense da cultura pop, como por exemplo o filme "A noite dos mortos vivos", de 1968 dirigido por George Romero e que deu origem ao estilo "Apocalipse Zumbi", onde um grupo de pessoas se refugia em um lugar e busca alternativas para sobreviver.

O livro também é bem convidativo, por ser curto e divertido, com linguagem de fácil compreensão e trama que não se expande para outros núcleos e conflitos (até porque Neville é o último humano), esses fatos colocam a obra como uma possível porta para a literatura para quem quer começar a ler, ou para quem quer ter uma experiência de leitura que seja legal, porém não muito complexa.

A forma como a história é contada é um grande ponto positivo. Se assemelhando com um roteiro cinematográfico e narrado em terceira pessoa, o livro é ágil e direto, jogando o leitor em um mundo onde quase nada é explicado, onde nos vemos acompanhando a vida solitária do protagonista, com ele executando tarefas de seu cotidiano durante o dia, sem sabermos o que a noite nos reserva. Apenas a situação presente de Neville importa e o pouco que vamos saber de seu passado nos são revelados através de pequenos flash backs que dão dicas do que ocorreu com sua família, sobre uma mal citada guerra ocorrida, sobre sua vida antes da epidemia e suas experiências sobre o vampirismo em seu tempo extremamente livre.



A parte mais bacana do livro são seus questionamentos sobre a natureza dos vampiros e as experiências executadas por Neville na busca de respostas. Com tempo sobrando e procurando encontrar uma possível cura, ou no mínimo uma explicação sobre o que aconteceu, o protagonista passa a testar de forma prática todas armas lendárias contra seus antagonistas. Assim sendo, ele descobre que o vampirismo é uma doença espalhada por um germe e que esse mesmo germe faz dos vampiros alérgicos a alho e que o melhor jeito de mante-los longe é enchendo a casa desse vegetal; descobre que uma estaca perfurando o coração faz com que o sistema criado por esse germe se destrua e que o corpo da criatura se desfaça, que a luz do sol destrói o germe e o hospedeiro e, que os símbolos religiosos afugentam as criaturas, pelo fato de uma pequena parte de seu consciente permanecer funcionando e lembrar que esses símbolos DEVERIAM machucar os vampiros, sendo assim uma cruz, afugenta um vampiro que era cristão, uma torá um que era Judeu e assim por diante.

Todos os conceitos e questionamentos, intercalados por flash backs e caçadas, ainda são complementados por um clima de extrema solidão que faz o protagonista viver as portas da loucura. A cada página que vamos vendo o tempo seguir, sem que Robert Neville encontre algo que lhe dê esperança, o vemos indo de um extremo a outro de sanidade, com momentos de foco total, onde pesquisa a doença que destruiu a raça humana e situações de loucura, onde fala consigo mesmo e se repreende como se fosse uma outra pessoa e pensa em suicídio, esses momentos são amenizados com a descoberta de um outro sobrevivente, um cão, que aparece misteriosamente na porta de Robert, lhe trazendo esperança por uma pequena parte do livro e assim nos mostrando a que nível de solidão o personagem se encontra. Essa solidão também pode ser percebida na atenção especial que Neville dá a seu ex-vizinho agora vampirizado, Ben Cortman, que é uma das poucas lembranças de sua antiga vida e que ele poupa de matar por ser quem pronuncia a única frase que o identifica como pessoa, gritando toda a noite "Saia de casa, Neville", na esperança de sugar o sangue de seu ex-amigo.

O Livro, que foi escrito em 1954, foi um sucesso. Rapidamente seus direitos foram adquiridos e ele se tornou filme ainda na década de 1950, tendo uma nova versão em 1971, protagonizada por Chralton Reston (planeta dos macacos), sob o nome de "Omega man" ( no Brasil: "A última esperança da terra) e fechando com aversão de 2007, protagonizada pelo maluco no pedaço. Não assisti as duas primeiras versões, mas, como dito antes, é impossível não comprar a história do livro com a do filme, e fazer isso é muito simples, basta dizer: "O livro não tem absolutamente nada a ver com o filme de 2007!". No livro Robert Neville é um industrial morador do subúrbio que nem imagina como tudo chegou ao ponto que está e nem porque apenas ele é imune, já no filme ele é um cientista de alta relevância no exército e tem participação na busca pela cura; No livro, sua mulher e filha morrem em decorrência da epidemia, enquanto no filme elas morrem em um acidente de helicóptero; no livro, Neville passa um bom tempo tentando conquistar a confiança de outro sobrevivente, um cão, que acaba morrendo de uma hora para outra, já no filme ele tem uma fiel cadela de estimação que trata como filha; No livro ele é loiro e passa as noites ouvindo música clássica e bebendo Whisky, no filme ele só ouve Bob Marley e faz exercícios; No livro há a aparição de outro sobrevivente no final, uma mulher, que é determinante para o encerramento da trama; no filme temos a Alice Braga e um gurizinho, que só vem par encher linguiça e conseguirem o que o protagonista não conseguiu, contato com mais humanos e, por fim, o livro explica por que a história se chama "Eu sou a lenda" (ou eu sou lenda, como seria o correto e o autor queria) , já no filme nada remete a uma resposta.


"Eu sou a lenda" é um bom livro. Direto e limpo, de narrativa ágil e divertida, que até hoje consegue trazer um ar de inovação, mesmo depois de ter sido vampirizado por todo escritor de apocalipse zumbi. Em míseras 150 páginas, consegue abordar questões como solidão e sanidade disfarçando a história em um conto de terror e, de quebra, busca responder aquelas perguntas que nos fazemos após umas três ou oito cervejas, de como um vampiro muçulmano reage a ver um cruz e etc, o que torna a leitura ainda mais divertida. Minha dica é que esse livro deve ser lido por todo amante de ficção científica, terror ou fantasia, pois é uma marco do gênero e exemplo de criatividade. Só digo para se apressarem , pois existem rumores de um vírus que anda transformando as pessoas em vampiros ou zumbis de CGI e antes dessa doença chegar por aqui o melhor é estar informado, ou adotar um cachorro.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

TROPAS ESTELARES (de Robert A. Heinlein)

Um arrepio percorreu meu corpo e um sorriso surgiu no meu rosto, permanecendo ali por longos minutos enquanto eu olhava fixamente para a capa do livro. Essa frase, que poderia ser o final de um poema ruim, descreve o que senti ao terminar de ler "Tropas Estelares", o clássico livro de Robert A. Heinlein, que graças a editora Aleph, agora enfeita a minha estante em lugar de destaque.

O livro se passa em um futuro não datado porém distante, onde a raça humana superou suas diferenças e passou a colonizar outros planetas, se unindo em uma federação altamente militarizada, onde apenas quem cumpre o serviço militar torna-se um cidadão, podendo assim exercer seu direito a voto e participar da vida política. É nesse ambiente que conhecemos Juan "Johnny" Rico, que após completar dezoito anos, por influência de seu melhor amigo e orgulho frente a seu interesse romântico, decide se alistar no serviço militar e por não ter nenhum talento especial é designado para a infantaria móvel. Durante seu tempo de serviço, a federação "terrana" entra em guerra contra uma raça alienígena conhecida como insetos e esse evento mudará para sempre o destino e ideias do protagonista ao lhe mostrar os horrores da guerra e o valor de seus companheiros de armas.

Como fã de ficção científica, quis ler "Tropas estelares" desde quando era criança, após descobrir que o filme (ruim) de Paul Verhoeven era baseado em um livro e, meu desejo só cresceu com o tempo ao descobrir da influência da obra e do autor, tanto na literatura, quanto no cinema. E não é pra menos, o cara é gênio! Consegue prender a atenção do leitor do início ao fim e transformar em interessante até mesmo a listagem da hierarquia da infantaria móvel, ou como são divididas as tropas durante a guerra e sua forma de transporte.
O livro já começa nos colocando no front de batalha, de uma forma tão ágil e vertiginosa, que dá a sensação que somos soldados inexperientes acompanhando veteranos. Esse simples truque narrativo, de mostrar a ação, para depois contar como se chegou até aquele momento, fato que a industria de cinema utiliza em muitos casos (inclusive no próprio filme baseado no livro), me pegou na hora e em menos de cinco páginas já estava fisgado pela história. O fato dele ser narrado em primeira pessoa, foi outra coisa que colaborou para o livro me agradar desde o inicio, pois deu uma ar de intimidade, de desabafo a história contada. Somos assim todos confidentes das dúvidas, frustrações, medos e expectativas de Juan Rico e vamos aprendendo e crescendo na trama junto com ele.

Ainda sobre a narrativa, temos que destacar que a história do protagonista tem muito da jornada do herói (https://pt.wikipedia.org/wiki/Monomito) mas isso não diminui em nada o gênio do autor, muito pelo contrário, mas podemos resumir a trama da seguinte forma, usando os passos do monomito: Rico começa o livro com sua vida civil (mundo comum), seguindo com a chamada para a aventura feita por seu amigo Carl; onde ele pensa em recusar e seguir a vida de seu pai, mas acaba se alistando para impressionar a "pequena Carmen"; encontra seu mentor primeiramente no professor Dubois e depois no sargento Zim; sofre provações e testes no acampamento Currier; sobrevive a batalha de klendathu; Vê sua tropa se abalar quando o tenente morre, é recompensado por seus esforços quando resolve se inscrever na escola de formação de oficiais, Volta para um teste em campo, onde tem êxito, porém sofre um acidente onde quase morre, mas essa experiência o aprova como oficial e proporciona a ele levar a sabedoria a seus companheiros.

Armadura da animação de 2012
Embora a história contenha a estrutura do monomito, o universo criado por Heinlein e seus conceitos científicos e sociais, são o que mais chamam atenção. As aulas de história e filosofia da moral, que são relembradas pelo protagonista sempre que este se depara com uma situação de conflito pessoal ou é exposto a questões mais profundas, foram para mim o grande ponto profundo do livro; ali se encontram o conteúdo onde a sociedade apresentada se baseia e isso é muito interessante, principalmente porque os debates levantados pelo professor Dubois são extremamente atuais, quando paramos para pensar que o livro foi escrito em 1959. Nesses debates, Rico e seus colegas vão analisando escolhas e princípios da sociedade através do período histórico e assim vamos descobrindo com base em quais visões, aquela sociedade se moldou, então temos a ideia da "violência controlada para alcançar um objetivo", onde é exposto que se o inimigo não pode revidar, o problema está solucionado, somos apresentados a argumentos sobre direito e dever que nos remetem a sociedade atual e também a ideia de castigo físico como corretivo e base da educação, esse último argumento tão bem debatido, que li o capítulo duas vezes e terminei convencido que o professor Dubois não está tão errado (a Xuxa que não me ouça).

Em complemento as questões sociais, Heinlein ainda apresenta alguns conceitos científicos bem bacanas desse futuro e que dão uma ideia mais ampla da sociedade onde a história se passa. Um exemplo desses conceitos são as armas da infantaria móvel, o autor utiliza um capítulo inteiro para descrever como é e funciona a armadura utilizada pelos soldados, indicando com riqueza de detalhes como a tecnologia supriu as necessidades humanas nas batalhas em outros planetas, sem dizer que ele ainda cita a aceleração Cherenkov, como explicação para como a marinha espacial atravessa as grandes distâncias de uma estrela a outra; além disso, Heinlein ainda fala de manipulação genética com a apresentação do grupo K-9, que utilizam duplas de homens e "neo-cães" (uma especie de cão inteligente falante) que é totalmente ligado e dependente de seu parceiro. Durante o livro também somos a presentados a supostas evoluções humanas, na misteriosa menção a "homens sorte", "telepatas" e ao final, na misteriosa presença de um sensitivo, fatos que tornam o universo do livro tão amplo, que parece impossível perceber todos seus detalhes apenas com uma leitura.

Deu Bug
Além de todas as questões abordadas em relação a sociedade, conceitos científicos interessantes e debates instigantes, o livro ainda conta com cenas de ação e batalhas muito empolgantes. Como citei anteriormente, o livro começa nos mergulhando em um conflito, sem explicar quase nada, apenas mostrando como as coisas acontecem em uma batalha naquele universo; conforme vamos lendo o livro e outras batalhas vão sendo descritas, vamos crescendo em experiência juntamente com o protagonista e nos tornando disciplinados na forma de operação da infantaria móvel. Porém, o autor não tenta glamorizar a situação e descreve as consequências da guerra com o mesmo talento utilizado para sustentar a opinião dos professores nas aulas de História e filosofia da moral, de forma direta e crua e assim temos cabeças se soltando do corpo, cães inteligentes que se matam por medo e cidades argentinas esmagadas por alienígenas inimigos, mostrando que a guerra, seja no futuro ou nos dias de hoje, não é algo bonito e celebrável. Além de tudo, o autor ainda consegue diminuir a tenção dos horrores das experiencia de guerra do protagonista utilizando de um senso de humor sutil, abordando muitas dos problemas, principalmente os citados nos treinamento com ironia e até deboche pontual, nos fornecendo momentos de escape que nos transmitem empatia e dão ares de realidade meio a uma história de ficção futurista.

arte clássica
Durante a leitura, a obra ainda me proporcionou uma grande surpresa. Ao postar no twitter que devido ao discurso que falava de mérito e dever em preferência a ideia de direito e oportunidade, eu enxergava os pensamentos do autor como sendo um contraponto as ideias dos personagens de Philip K. Dick, que , no meu entender, sempre criticou a sociedade através de personagens marginalizados e que viviam angustiados buscando seu espaço em uma sociedade que os oprimia. Para minha surpresa, o tradutor de "tropas estelares", Carlos Angelo, respondeu meu questionamento e , através de um discurso tão convincente quanto do professor Dubois, me mostrou que na verdade os personagens de Heinlein tinham tantos dilemas sociais quanto os de Dick, sendo o próprio autor de "O homem do castelo alto" influenciado pela obra e pensamento de Heinlein (não importando a visão política dos dois). Angelo ainda me fez a gentileza de indicar alguns livros para complementar essa visão sobre a obra do autor (que com certeza lerei em breve) e tivemos uma conversa bem bacana sobre o universo do autor (dentro do que 140 carácteres nos permitiram).

O que mais eu poderia falar sobre esse livro, a não ser que ele é uma das melhores obras do gênero que já li?! É um livro escrita com primor e genialidade, misturando com competência ação, debates filosóficos e até crítica social; consegue ser divertido e profundo sem parecer forçado e plantou em mim a vontade de ler tudo que Heinlein escreveu (tanto que já reservei "Um estranho numa terra estranha" para próxima semana). Posso definir minha experiência de leitura dizendo que uma das melhores sensações do mundo é quando desejamos muito uma coisa e quando a temos, ela supera todas nossas expectativas e, foi exatamente isso que senti quando terminei as 364 páginas desse clássico. Tropas estelares é um livro fantástico, cheio de ação e questionamentos que vão te fazer querer reler o livro assim que terminá-lo, um clássico obrigatório para quem é fã de ficção científica e uma possível porta para a literatura para quem quer começar a ler, me apresentou a genialidade de Robert. A Heinlein, autor que pretendo ler toda obra e indicar para todos meus amigos, para honra e glória da infantaria.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

O DÉCIMO HOMEM (ou a necessidade do diferente)


  No filme “Guerra mundial Z”, depois que a epidemia zumbi tomou conta do planeta, o protagonista parte para Israel, pois existem indícios de uma resistência naquele local. Chegando , ele descobre que o que salvou as pessoas foi o fato de um indivíduo ter acreditado na possibilidade de um ataque zumbi, por mais improvável que isso fosse; esse sujeito se apresenta como o “décimo homem”, uma figura na administração da informação onde, depois de a mesma ser levada as outras 9 autoridades e refutada, tem como função cogitar que o fato, por mais absurdo ou ignorável, possa ser real.

Fico pensando como um “décimo homem” faz falta nas empresas e mesma em nossa vida social no mundo real. Na sociedade em que vivemos, onde as pessoas se cercam quase exclusivamente por seus iguais, seja física ou ideologicamente, uma opinião diferente passou a ser demonstração de inimizade e, caminhamos a cada momento para vivermos isolados em bolhas sociais onde apenas os privilegiados de nossos grupos de Whatsapp desfrutam de nossa opinião sincera (mas que não fere o grupo, ou FORA!) e assim as pessoas, repetem tanto seus pensamentos sem um contraponto, que nada de novo surge e uma ideia refutável se torna um dogma inquestionável.

Não é diferente nas empresas. As lideranças confiam apenas em pessoas que pensam, se vestem e agem iguais a eles; como se fosse claro que “apenas quem é igual à minha pessoa pode estar certo” e em um mundo cada vez mais competitivo, carente de imaginação e atitudes variadas frente aos problemas diários, temos cinco ou seis pessoas com a mesma história de vida, ideologia, atitude e visão de mundo, criando uma pobreza social tão perigosa quanto uma pobreza genética e colocando a empresa em uma desvantagem competitiva, que muitas vezes só é percebida tarde demais.

A questão é, Estamos caminhando para uma sociedade isolada em bolhas, onde apenas quem pensa e parece igual é aceito em cada uma delas, onde a competição é cada vez menos entre os diferentes e mais entre os certos e os errados, onde as ideias que vão de encontro com as nossas são declarações de guerra e o valor da diversidade, seja de cores, opiniões ou opções vem sendo diminuído por pura preguiça de abraçar o novo, uma sociedade que se esconde atrás de antidepressivos e perfis felizes nas redes sociais para fazer de conta que tudo está ótimo.

Penso que seja o tempo de ouvir a opinião contrária, de questionarmos nossas certezas e dar espaço para o novo, chegou a hora de sermos aquele décimo homem e pensar que talvez, o que parece totalmente refutável, seja uma verdade que possa trazer um benefício potencial, ou caso não, que sirva pelo menos para retirar nosso pensamento do status de dogma. Chegou a hora de mudar, ou seremos arrastados pela multidão para lugar nenhum e sem nenhum pensamento próprio a não ser o instinto de repetir o que nos foi imposto, tal qual um zumbi que apenas se junta aos seus iguais para atacar o que é diferente, mas que sem o diferente anda a esmo ou fica parado sem expectativa nenhuma.




segunda-feira, 18 de julho de 2016

STRANGER THINGS ( 2016) O melhor dos anos oitenta na série do ano.



Ah os anos oitenta !! Moças de permanente no cabelo e calças que iam até o pescoço, rapazes com grandes topetes e roupas muito coloridas, poucos canais de tv, músicas gravadas em fita cassete e filmes que falavam de contato alienígena ou onde monstros bizarros tinham como única pretensão matar os desavisados. Isso foi à mais de trinta anos e vivemos em um mundo diferente hoje, mas confesso que tenho saudade desse tempo onde tudo parecia mais fácil, onde as pessoas conversavam sem olhar toda hora para o celular, onde o refrigerante de um litro do almoço sobrava para a janta e quando os amigos se encontravam sem ter de marcar uma data. Quero dizer, eu tinha saudade, porque desde do dia 15 de Julho, a Netflix abriu um portal que não só matou minha saudade desse tempo, como a arrastou pelos pés e a comeu, trata-se da série "STRANGER THINGS" escrita e dirigida pelos irmãos Duffer e que me pregou no sofá nesse último final de semana.

"STRANGER THINGS" se passa em 1983 e conta a história de uma série de misteriosos acontecimentos na pequena cidade de Hawkins nos EUA, tendo inicio com o desaparecimento de Will Byers, que acontece quando ele volta para casa após um dia com seus três melhores amigos (Lucas, Mike e Dustin), ao mesmo tempo, uma estranha menina surge na cidade, vestindo roupas hospitalares, extremamente assustada e dotada de habilidades especiais, ela irá ajudar o trio de amigos a encontrar o integrante perdido do grupo e a enfrentar a misteriosa criatura, enquanto que uma trama de conspiração e experiencias científicas, vai sendo investigada pelo obstinado xerife da cidade.

Ok! Minha sinopse tá horrível, mas eu queria deixar no clima do que se lia nas contra capas das fitas nas locadoras de vídeo nos anos 80 sem entregar muito da trama. A série é muito bacana! Para entender o nível de qualidade da trama e enredo, ela foi a única produção que aborda um contexto de ficção científica e terror, que minha mulher quis assistir até o final comigo, pode parecer pouco para quem lê isso, mas para quem conhece minha mulher (que odeia ficção científica) isso mostra a qualidade de "Stranger Thing".

Essa qualidade é apresentada de diversas forma, seja na maneira da produção nos colocar dentro dos anos 80, com as roupas, cortes de cabelo, música e etc; seja no ótimo roteiro que vai aos poucos juntando as pontas da trama ou pelas referências que a série joga na nossa cara de cinco em cinco minutos; seja qual o motivo que se preferir, o capricho com que "Strange Things" foi feito não deixa ninguém desistir da gostosa maratona de oito horas para se descobrir o que diabos está acontecendo com a cidade de Hawins e o que aconteceu com Will Byers.

"Stranger Things" me levou direto para os anos oitenta. Para começar, Hawkins é típica cidadezinha americana dos filmes daquela década, cercada de árvores e com poucos habitantes é o lugar perfeito e sinistro, onde o inexplicável acontece e aos poucos vai envolvendo a todos. Suas ruas estão sempre vazias e seus habitantes parecem tão presos em suas rotinas, que ignoram até o fato de existir uma empresa misteriosa próxima a suas residências, não diferente da cidade onde acontece "E.T" de Spielberg ou à do filme "super 8", de J.J Abrans, que homenageia o diretor. O Capricho das locações só fica atrás do figurino. O estilo das roupas e penteados são tão fieis, que me senti assistindo uma filmagem da época, só faltou a dublagem ruim com um eco no fundo. As roupas são exatamente iguais as que eu lembro de minhas primas usarem e o penteado de cabelo da mãe do personagem Mike é igual ao que a minha mãe usava quando eu tinha uns cinco anos, uma imersão total e uma viagem de volta no tempo para quem viveu aquela época.

Além do trabalho de ambientação e figurino, a série ainda trás uma enxurrada de referências sobre os próprios anos oitenta e a cultura POP da época. A série já começa com os quatro amigos jogando uma partida de RPG, o que já mostra de forma pratica e através de ação, como é a relação desses personagens e como eles pensam. Na mesma cena, podemos ver um poster de "Enigma do outro mundo" de John Carpenter e "Tubarão" de Spielberg, dando uma singela dica sobre o estilo de terror e suspense que a série trará.

Não faltam referências a Spielberg e principalmente a "E.T". Os quatro amigos se deslocam com bicicletas do estilo cross, como no filme de 1982, além de Mike possuir uma irmãzinha loira e de chiquinhas no mesmo estilo Drew Barrymore da época. Além disso, no episódio onde eles levam a menina, que atende pelo nome de onze, na escola; os vemos disfarça-la com um vestido e peruca loira e no baú de onde eles pegam essas roupas vemos um chapéu, referência ao disfarce do alienígena no filme de Spilberg.

Muitos outros filmes e figuras dos anos oitenta também são referenciados, como Tom Cruise, que era o frenesi das meninas depois de "Negócio arriscado"; Carl Sagan e a série "cosmos", que são citados pelos amigos quando percebem a situação que estão presenciando, a menção à "Poltergeist" com o monstro rasgando a parede com dificuldade para pegar suas vítimas, e , até um poster de Edgar Alan Poe, que enfeita a parede da sala de aula da irmã do protagonista como um lembrete que se trata de um conto de terror.

No que tange a Trama, achei o enredo bem amarrado e extremamente divertido. Gostei muito do jeito que a série começa, dividida em quatro núcleos; com os meninos procurando o amigo e encontrando a onze, a Mãe e o irmão de Will percebendo os estranhos acontecimentos em sua casa, a irmã de Mike e seu namorado descobrindo da pior forma da existência do monstro e o xerife investigando a misteriosa empresa instalada na cidade. Todos unidos ao final pelos estranho acontecimentos vão aos poucos fazendo que as histórias convirjam para um desfecho comum a todos. A maneira como os acontecimentos sobre-naturais vão sendo revelados também é muito legal, sendo apresentado com flash backs da menina 11, com o auxilio das explicações do professor de ciências dos meninos e de suas analogias nerds com Senhor dos anéis e "Dungeons & Dragons". Gostei também do fato da trama ser enxuta em apenas oito episódios, de forma que não há tempo para barriga ou episódios de enrolação desnecessária, send que as pontas que ficam soltas são propositais servem como deixa para a próxima temporada, onde com certeza saberemos mais sobre as outras dez cobaias dos experimentos, sobre o destino de onze ,do mundo invertido e do monstro.

As atuações são muito bacanas. Começando por Millie Brown, a menina que interpreta a "estranha" Onze, ela rouba a cena com sua expressão, ar de pavor e suas poucas palavras, transmitindo com o olhar a aflição de não saber se expressar e carregar consigo todos os horrores de que foi vítima. Winona Ryder também está muito bem, fazendo o papel de uma mãe desesperada que sabe uma verdade que ninguém mais acredita, mas que nem por isso desiste, fora isso ainda temos as boas interpretações de todo o elenco e a participação de Matthew Modine, como o verdadeiro vilão da trama.

"Corra!"
Por isssssso tuuuudo, acredito que "Stranger Things" foi a boa surpresa do ano. Trouxe todo o clima das produções dos anos oitenta com a qualidade das séries atuais e o selo Netflix de qualidade. Muito mais que um portal para os estranhos anos oitenta, uma história muito bem contada, divertida e assustadora, repleta de referências inteligentes e bem dispostas, boas atuações e um ritmo perfeito. Ficamos (minha mulher e eu) no aguardo da segunda temporada para termos as respostas para as pontas soltas deixadas nessa primeira, enquanto isso, acho que vou fazer uma maratona de filmes de John Carpenter, Steven Spilberg, ler os clássicos do Stephen King e ouvir um pouco de AC/DC, Whitesnake e Van Halen e aproveitar ,nesse meio tempo, tudo que há de melhor dessas coisas estranhas.


sábado, 16 de julho de 2016

NINJAS (CURTA -2010) - Sim! O cinema brasileiro pode.


Já falei aqui da minha experiência ao assistir o filme argentino "Relatos Selvagens" e do questionamento que ficou na minha cabeça de por que no Brasil filme do mesmo quilate não são possíveis. Nosso país parece dar exclusividade a produções que falam de conflito social, comédias românticas e cinebiografias, afastando do cinema o público que procura diversidade de temas e experiências. No entanto, se no cinema Mainstream tudo parece mais do mesmo, as produções independentes representam uma luz no fim do túnel para o cinema nacional e, em resposta a meu próprio questionamento, eu queria falar hoje sobre uma produção nacional que achei espetacular, "NINJAS" dirigida pelo promissor cineasta Dennison Ramalho.


"Ninjas" conta a história de Jailton, um policial novato, que em perseguição a um suspeito pelas vielas de São Paulo acaba matando, por engano, um estudante. Coagido por seu parceiro de viatura, ele ajuda a forjar uma cena onde demonstra agir em legítima defesa responsabilizando a vítima. Após o assassinato, a culpa toma conta de Jailton que passa a ser assombrado pela figura do menino morto, entrando em desespero e tendo ataques de pânico; para cura-lo de seu problema, o comandante de seu batalhão o leva para um tratamento de choque, que trará paz a sua consciência ao mesmo tempo que destruirá sua humanidade.

O filme de vinte e cinco minutos que estreou em 2010, é baseado no conto "O Bom policial" (link do conto na íntegra abaixo), do escritor Marco de Castro. Ex-repórter policial, Marcos de Castro acompanhou a guerra das favelas Paulistas e a rotina da violência nas noites da maior cidade do país quando trabalhava no Diário de São Paulo e resolveu usar sua experiência como inspiração para contos de terror.

O curta, que custou sessenta mil Reais, foi estrelado por Flávio Bauraqui, que recebeu o prêmio de melhor ator no festival de cinema de Gramado, por sua atuação como o inexperiente PM Jailton. A produção foi co-roteirizada e dirigida por Dennison Ramalho, diretor Gaúcho natural de Porto Alegre, que vem se tornando um expoente em produções do gênero de terror no país; antes de "Ninjas", o diretor já havia roteirizado e dirigido o curta "Amor sé de Mãe" em 2003 e escrito o roteiro do filme "Encarnação do Demônio" de José Mojica Marins (o Zé do Caixão), após "Ninjas", o diretor partiu para um mestrado sobre roteiro e direção na universidade de Nova York buscando o conhecimento para, quem sabe em breve, apresentar produções do mesmo nível, ou melhores, que o seu filme de 2010.

"Ninjas" é um exemplo de que as produções nacionais podem sim possuir a mesma qualidade das tão badaladas produções estrangeiras, assim como deixa claro que nosso cinema não precisa trilhar sempre o mesmo caminho e abordar temas considerados batidos mas sem, no entanto, perder sua alma. Basta agora que a industria mainstream perceba o potencial de produções como esta e as financiem a iniciativa de modo a tornar, futuramente, o cinema brasileiro uma indústria rentável e auto-suficiente. Enquanto esse dia não chega, só nos resta prestigiar as produções independentes e torcer para que diretores como Dennison Ramalho sigam apresentando filmes de qualidade e pensando fora da caixa para nos entregar filmes que falem com todos os públicos, mas sem perder o jeitinho e a cara do cinema brasileiro.


"UM BOM POLICIAL" – Conto completo publicado na revista Vice:


" NINJAS" – Curta completo disponível no Vimeo: