No
filme “Guerra mundial Z”, depois que a epidemia zumbi tomou conta
do planeta, o protagonista parte para Israel, pois existem indícios
de uma resistência naquele
local. Chegando
lá,
ele descobre que o que salvou as pessoas foi o fato de um indivíduo
ter acreditado na possibilidade de um ataque zumbi, por mais
improvável que isso fosse; esse sujeito se apresenta como o “décimo
homem”, uma figura na administração da informação onde, depois
de a mesma ser levada as outras 9 autoridades e refutada, tem como
função cogitar que o fato, por mais absurdo ou ignorável, possa
ser real.
Fico
pensando como um “décimo homem” faz falta nas empresas e mesma
em nossa vida social no mundo real. Na sociedade em que vivemos, onde
as pessoas se cercam quase exclusivamente por seus iguais, seja
física ou ideologicamente, uma opinião diferente passou a ser
demonstração de inimizade e, caminhamos a cada momento para
vivermos isolados em bolhas sociais onde apenas os privilegiados de
nossos grupos de Whatsapp desfrutam de nossa opinião sincera (mas
que não fere o grupo, ou FORA!) e assim as pessoas, repetem tanto
seus pensamentos sem um contraponto, que nada de novo surge e uma
ideia refutável se torna um dogma inquestionável.
Não
é diferente nas empresas. As lideranças confiam apenas em pessoas
que pensam, se vestem e agem iguais a eles; como se fosse claro que
“apenas quem é igual à minha pessoa pode estar certo” e em um
mundo cada vez mais competitivo, carente de imaginação e atitudes
variadas frente aos problemas diários, temos cinco ou seis pessoas
com a mesma história de vida, ideologia, atitude e visão de mundo,
criando uma pobreza social tão perigosa quanto uma pobreza genética
e colocando a empresa em uma desvantagem competitiva, que muitas
vezes só é percebida tarde demais.
A
questão é, Estamos caminhando para uma sociedade isolada em bolhas,
onde apenas quem pensa e parece igual é aceito em cada uma delas,
onde a competição é cada vez menos entre os diferentes e mais
entre os certos e os errados, onde as ideias que vão de encontro com
as nossas são declarações de guerra e o valor da diversidade, seja
de cores, opiniões ou opções vem sendo diminuído por pura
preguiça de abraçar o novo, uma sociedade que se esconde atrás de
antidepressivos e perfis felizes nas redes sociais para fazer de
conta que tudo está ótimo.
Penso
que seja o tempo de ouvir a opinião contrária, de questionarmos
nossas certezas e dar espaço para o novo, chegou a hora de sermos
aquele décimo homem e pensar que talvez, o que parece totalmente
refutável, seja uma verdade que possa trazer um benefício
potencial, ou caso não, que sirva pelo menos para retirar nosso
pensamento do status de dogma. Chegou a hora de mudar, ou seremos
arrastados pela multidão para lugar nenhum e sem nenhum pensamento
próprio a não ser o instinto de repetir o que nos foi imposto, tal
qual um zumbi que apenas se junta aos seus iguais para atacar o que é
diferente, mas que sem o diferente anda a esmo ou fica parado sem
expectativa nenhuma.
Ah os anos oitenta !! Moças
de permanente no cabelo e calças que iam até o pescoço, rapazes
com grandes topetes e roupas muito coloridas, poucos canais de tv,
músicas gravadas em fita cassete e filmes que falavam de contato
alienígena ou onde monstros bizarros tinham como única pretensão
matar os desavisados. Isso foi à mais de trinta anos e vivemos em um
mundo diferente hoje, mas confesso que tenho saudade desse tempo onde
tudo parecia mais fácil, onde as pessoas conversavam sem olhar toda
hora para o celular, onde o refrigerante de um litro do almoço
sobrava para a janta e quando os amigos se encontravam sem ter de
marcar uma data. Quero dizer, eu tinha saudade, porque desde do dia
15 de Julho, a Netflix abriu um portal que não só matou minha
saudade desse tempo, como a arrastou pelos pés e a comeu, trata-se
da série "STRANGER THINGS" escrita e dirigida pelos irmãos
Duffer e que me pregou no sofá nesse último final de semana.
"STRANGER THINGS" se
passa em 1983 e conta a história de uma série de misteriosos
acontecimentos na pequena cidade de Hawkins nos EUA, tendo inicio com
o desaparecimento de Will Byers, que acontece quando ele volta para
casa após um dia com seus três melhores amigos (Lucas, Mike e
Dustin), ao mesmo tempo, uma estranha menina surge na cidade,
vestindo roupas hospitalares, extremamente assustada e dotada de
habilidades especiais, ela irá ajudar o trio de amigos a encontrar o
integrante perdido do grupo e a enfrentar a misteriosa criatura,
enquanto que uma trama de conspiração e experiencias científicas,
vai sendo investigada pelo obstinado xerife da cidade.
Ok! Minha sinopse tá
horrível, mas eu queria deixar no clima do que se lia nas contra
capas das fitas nas locadoras de vídeo nos anos 80 sem entregar
muito da trama. A série é muito bacana! Para entender o nível de
qualidade da trama e enredo, ela foi a única produção que aborda
um contexto de ficção científica e terror, que minha mulher quis
assistir até o final comigo, pode parecer pouco para quem lê isso,
mas para quem conhece minha mulher (que odeia ficção científica)
isso mostra a qualidade de "Stranger Thing".
Essa qualidade é apresentada
de diversas forma, seja na maneira da produção nos colocar dentro
dos anos 80, com as roupas, cortes de cabelo, música e etc; seja no
ótimo roteiro que vai aos poucos juntando as pontas da trama ou
pelas referências que a série joga na nossa cara de cinco em cinco
minutos; seja qual o motivo que se preferir, o capricho com que
"Strange Things" foi feito não deixa ninguém desistir da
gostosa maratona de oito horas para se descobrir o que diabos está
acontecendo com a cidade de Hawins e o que aconteceu com Will Byers.
"Stranger Things" me
levou direto para os anos oitenta. Para começar, Hawkins é típica
cidadezinha americana dos filmes daquela década, cercada de árvores
e com poucos habitantes é o lugar perfeito e sinistro, onde o
inexplicável acontece e aos poucos vai envolvendo a todos. Suas ruas
estão sempre vazias e seus habitantes parecem tão presos em suas
rotinas, que ignoram até o fato de existir uma empresa misteriosa
próxima a suas residências, não diferente da cidade onde acontece
"E.T" de Spielberg ou à do filme "super 8", de
J.J Abrans, que homenageia o diretor. O Capricho das locações só
fica atrás do figurino. O estilo das roupas e penteados são tão
fieis, que me senti assistindo uma filmagem da época, só faltou a
dublagem ruim com um eco no fundo. As roupas são exatamente iguais
as que eu lembro de minhas primas usarem e o penteado de cabelo da
mãe do personagem Mike é igual ao que a minha mãe usava quando eu
tinha uns cinco anos, uma imersão total e uma viagem de volta no
tempo para quem viveu aquela época.
Além do trabalho de
ambientação e figurino, a série ainda trás uma enxurrada de
referências sobre os próprios anos oitenta e a cultura POP da
época. A série já começa com os quatro amigos jogando uma partida
de RPG, o que já mostra de forma pratica e através de ação, como
é a relação desses personagens e como eles pensam. Na mesma cena,
podemos ver um poster de "Enigma do outro mundo" de John
Carpenter e "Tubarão" de Spielberg, dando uma singela dica
sobre o estilo de terror e suspense que a série trará.
Não faltam referências a
Spielberg e principalmente a "E.T". Os quatro amigos se
deslocam com bicicletas do estilo cross, como no filme de 1982, além
de Mike possuir uma irmãzinha loira e de chiquinhas no mesmo estilo
Drew Barrymore da época. Além disso, no episódio onde eles levam a
menina, que atende pelo nome de onze, na escola; os vemos disfarça-la
com um vestido e peruca loira e no baú de onde eles pegam essas
roupas vemos um chapéu, referência ao disfarce do alienígena no
filme de Spilberg.
Muitos outros filmes e figuras
dos anos oitenta também são referenciados, como Tom Cruise, que era
o frenesi das meninas depois de "Negócio arriscado"; Carl
Sagan e a série "cosmos", que são citados pelos amigos
quando percebem a situação que estão presenciando, a menção à
"Poltergeist" com o monstro rasgando a parede com
dificuldade para pegar suas vítimas, e , até um poster de Edgar
Alan Poe, que enfeita a parede da sala de aula da irmã do
protagonista como um lembrete que se trata de um conto de terror.
No que tange a Trama, achei o
enredo bem amarrado e extremamente divertido. Gostei muito do jeito
que a série começa, dividida em quatro núcleos; com os meninos
procurando o amigo e encontrando a onze, a Mãe e o irmão de Will
percebendo os estranhos acontecimentos em sua casa, a irmã de Mike
e seu namorado descobrindo da pior forma da existência do monstro e
o xerife investigando a misteriosa empresa instalada na cidade.
Todos unidos ao final pelos estranho acontecimentos vão aos poucos
fazendo que as histórias convirjam para um desfecho comum a todos.
A maneira como os acontecimentos sobre-naturais vão sendo revelados
também é muito legal, sendo apresentado com flash backs da menina
11, com o auxilio das explicações do professor de ciências dos
meninos e de suas analogias nerds com Senhor dos anéis e "Dungeons
& Dragons". Gostei também do fato da trama ser enxuta em
apenas oito episódios, de forma que não há tempo para barriga ou
episódios de enrolação desnecessária, send que as pontas que
ficam soltas são propositais servem como deixa para a próxima
temporada, onde com certeza saberemos mais sobre as outras dez
cobaias dos experimentos, sobre o destino de onze ,do mundo invertido
e do monstro.
As atuações são muito
bacanas. Começando por Millie Brown, a menina que interpreta a
"estranha" Onze, ela rouba a cena com sua expressão, ar de
pavor e suas poucas palavras, transmitindo com o olhar a aflição de
não saber se expressar e carregar consigo todos os horrores de que
foi vítima. Winona Ryder também está muito bem, fazendo o papel de
uma mãe desesperada que sabe uma verdade que ninguém mais acredita,
mas que nem por isso desiste, fora isso ainda temos as boas
interpretações de todo o elenco e a participação de Matthew
Modine, como o verdadeiro vilão da trama.
"Corra!"
Por isssssso tuuuudo, acredito
que "Stranger Things" foi a boa surpresa do ano. Trouxe
todo o clima das produções dos anos oitenta com a qualidade das
séries atuais e o selo Netflix de qualidade. Muito mais que um
portal para os estranhos anos oitenta, uma história muito bem
contada, divertida e assustadora, repleta de referências
inteligentes e bem dispostas, boas atuações e um ritmo perfeito.
Ficamos (minha mulher e eu) no aguardo da segunda temporada para
termos as respostas para as pontas soltas deixadas nessa primeira,
enquanto isso, acho que vou fazer uma maratona de filmes de John
Carpenter, Steven Spilberg, ler os clássicos do Stephen King e ouvir
um pouco de AC/DC, Whitesnake e Van Halen e aproveitar ,nesse meio
tempo, tudo que há de melhor dessas coisas estranhas.
Já falei aqui da minha
experiência ao assistir o filme argentino "Relatos Selvagens"
e do questionamento que ficou na minha cabeça de por que no Brasil
filme do mesmo quilate não são possíveis. Nosso país parece dar
exclusividade a produções que falam de conflito social, comédias
românticas e cinebiografias, afastando do cinema o público que
procura diversidade de temas e experiências. No entanto, se no
cinema Mainstream tudo parece mais do mesmo, as produções
independentes representam uma luz no fim do túnel para o cinema
nacional e, em resposta a meu próprio questionamento, eu queria
falar hoje sobre uma produção nacional que achei espetacular,
"NINJAS" dirigida pelo promissor cineasta Dennison Ramalho.
"Ninjas" conta a
história de Jailton, um policial novato, que em perseguição a um
suspeito pelas vielas de São Paulo acaba matando, por engano, um
estudante. Coagido por seu parceiro de viatura, ele ajuda a forjar
uma cena onde demonstra agir em legítima defesa responsabilizando
a vítima. Após o assassinato, a culpa toma conta de Jailton que
passa a ser assombrado pela figura do menino morto, entrando em
desespero e tendo ataques de pânico; para cura-lo de seu problema, o
comandante de seu batalhão o
leva para um tratamento de choque, que trará paz a sua consciência
ao mesmo tempo que destruirá sua humanidade.
O filme de vinte e cinco
minutos que
estreou em 2010, é
baseado no conto "O Bom policial" (link
do conto na íntegra abaixo),
do escritor Marco de Castro. Ex-repórter policial, Marcos de Castro
acompanhou a guerra das favelas Paulistas e a rotina da violência
nas noites da maior
cidade do país quando
trabalhava no Diário de São Paulo e
resolveu usar sua experiência como inspiração para contos de
terror.
O curta, que custou sessenta
mil Reais, foi estrelado
por Flávio Bauraqui, que recebeu o prêmio de melhor ator no
festival de cinema de Gramado, por sua atuação como o inexperiente
PM Jailton. A produção foi
co-roteirizada
e dirigida
por Dennison Ramalho, diretor Gaúcho natural de Porto Alegre, que
vem se tornando um expoente em produções do gênero de
terror no país; antes
de "Ninjas", o diretor já havia roteirizado e dirigido o
curta "Amor sé de Mãe" em 2003 e escrito
o roteirodo
filme "Encarnação do Demônio" de José Mojica Marins (o
Zé do Caixão), após "Ninjas",
o diretor partiu
para um mestrado sobre roteiro e direção na universidade de Nova
York buscando o conhecimento para, quem sabe em breve, apresentar produções do
mesmo nível, ou melhores, que o seu filme de 2010.
"Ninjas" é um
exemplo de que as produções nacionais podem sim possuir a mesma
qualidade das tão
badaladas produçõesestrangeiras, assim
como deixa claro que nosso cinema não precisa trilhar sempre o mesmo
caminho e abordar temas considerados batidos mas sem, no entanto,
perder sua alma. Basta agora que a industria mainstream perceba o
potencial de produções como esta e as financiem a iniciativa de
modo a tornar, futuramente, o cinema brasileiro uma indústria
rentável e auto-suficiente. Enquanto
esse dia não chega, só nos resta prestigiar as produções
independentes e torcer para que diretores como Dennison Ramalho sigam
apresentando filmes de qualidade e pensando fora da caixa para nos
entregar filmes que falem com todos os públicos, mas sem perder o
jeitinho e a cara do cinema brasileiro.
"UM BOM POLICIAL" –
Conto completo publicado na revista Vice:
Feliz e triste, empolgado
e deprê. Essa mistura
estranha foi o que senti quando acabei de assistir “River”, uma
produção da BBC, estrelada pelo ator sueco Stellan Skargard, criada
e escrita por Abi Morgan e dirigida por Richard Laxton, que comecei a
assistir sem pretensão nenhuma na Netflix e que me ganhou nos
primeiros quinze minutos do episódio piloto.
"River” conta a história
de John River (Skargard), um detetive de Londres que lutará para
solucionar o assassinato de sua parceira Jakie Stevenson (Nicola
Walker), mesmo afastado do caso devido a seu envolvimento pessoal e
assombrado pelo fantasma da amiga morta. Essa investigação o levará
aos poucos a enfrentar seus problemas pessoais e questionar sua
sanidade, colocando sua carreira em risco e o confrontando com
verdades esmagadoras.
Conhecia a série seguindo as
ótimas dicas do podcast Mamilos e, como citei acima, comecei a
assistir sem nenhuma pretensão, mas em menos da metade do primeiro
episódio eu já estava rendido ao que a trama me mostrava, começando
pela atuação brilhante de Stellan Skargard. O ator sueco está
muito bem na produção, transmitindo seriedade, medo, fragilidade,
fúria e dúvida; e o mais bacana é que muito do que ele passa para
o espectador não é expresso por palavras, mas através do olhar ou
de seus movimentos e até de sorrisos; confesso que sempre que ele
tinha um dialogo eventual com a “fantasma” de sua colega que
terminava em uma boa risada eu os seguia e me via rindo feito bobo na
frente do computador.
Essa química entre o
protagonista e sua parceira e a atuação de Nicola Walker como a
falecida, mas sempre presente Jakie Stevenson foram outros pontos
fortes da série. Nicola parece iluminar o ambiente quando sempre que
presente, munida apenas de seu sorriso largo, grande olhos verdes e
muito bom humor; confesso que foi a cena onde ela provoca o
protagonista no episódio piloto cantando o clássico de Tina Charles
“I love to love”, que me cativou para ver a série toda em uma
maratona.
Além das atuações, a série
ainda tem a maravilhosa trilha sonora que traz uma mistura de
nostalgia e empolgação utilizando pontualmente hits da era disco
como a já citada “I love to love” e clássicos da soul music
como “Sunny” cantada por Bobby Hebb. Temos também a apresentação
de uma sociedade londrina moderna e representativa, onde a capitã da
polícia é uma mulher forte, porém com problemas com seus filhos e
marido, mas sem perder sua feminilidade; o novo parceiro de River,
Ira King é filho de imigrantes do oriente médio e toda trama de
fundo toca no assunto de imigração e busca por condições melhores
de vida, o que achei que deu um ar de realidade moderna a série.
Sobre a história, não vou
revelar nada sobre a trama central da série, pois se eu contar tudo
se perde, mas posso dizer que as revelações finais sobre o que
levou a detetive Stevenson à morte são esmagadoras e a identidade
do assassino e o motivo dá um amargo na boca. Mas durante as
investigações da morte de sua parceira, River ainda segue
trabalhando e resolvendo casos paralelos e estes são bem bacanas,
como o suposto assassinato de uma menina por seu namorado e a
tentativa de suicídio de um empreiteiro no local de trabalho. Junto
a isso ainda temos as reveladoras sessões de análise que o
protagonista é forçado a comparecer e que vão nos apresentando o
perfil do personagem, sua origem e crenças sem que seja necessário
algum artifício como narração em off ou explicação pelos olhos
de uma terceira pessoa, o que é revelador para saber o porquê do
personagem ser do jeito que é, principalmente nos episódios finais.
River é uma excelente série
e está ali na Netflix a pleno alcance dos dedos e fechadinha em
apenas seis episódios. Me proporcionou muitas horas de diversão,
suprindo minha carência de Game of thrones e me tornou fã do ator
Stellan Skargard. Brilhante em roteiro, embora não seja inovador;
policial investigativa que prioriza a inteligência dos personagens
em relação a violência e apresenta uma visão cosmopolita e
realista da sociedade. Torço para que mais dessas produções
cheguem até nós, mas enquanto não chegam, vou ficar por aqui
curtindo esse mix de sentimentos que a série me proporcionou e
cantando “I love to love”.
"Por que o cinema
brasileiro não consegue se desvincular da situação politico-social
do país e entregar produções que conversem com qualquer ser
humano?", Essa foi a pergunta que minha mente repetia em looping
ontem ao assistir "Relatos selvagens", brilhante filme
argentino de 2014, dirigido por Damián
Szifron e
estrelado por um grande elenco, que
foge a tudo que o nosso cinema tupiniquim vem apresentado desde
sempre e
é tão bom, que dá raiva ter de dizer que essa obra de arte é uma
produção de nossos hermanos.
O
filme reúne seis histórias curtas e independeres, que se conectam
por tratarem do mesmo assunto, a vingança. Durante
duas horas de dez minutos somos levados a nossos limites de tensão
com tramas que por vezes são tão exageradas e sínicas que poderiam
muito bem ser verdadeiras, da mesma forma que os diálogos são tão
bem construídos, tão humanos, bem atuados e dirigidos que tanto
assistido na Argentina, Japão ou sudão, é impossível que os
sentimentos e atitudes dos personagens presentes nas histórias não transcendam qualquer questão social, religiosa e política e calem
fundo no espectador.
Na
primeira dessas histórias, que podemos entender como o prólogo de
um livro, vemos uma modelo pegando um avião e em uma conversa
informal descobrindo que o passageiro ao lado conhece seu
ex-namorado, assim como a senhora sentada a sua frente, que foi sua
professora e o do acento atrás que foi seu colega de serviço e, no
final, descobre-se que todos reunidos nesse voo são conhecidos desse
homem que, de tão desprezado, não tem nem ao menos seu rosto
revelado na
história onde deveria ser o protagonista. Pois
esse ninguém, arquitetou um plano de dar fim a todos que o magoaram
em sua vida: jogar o avião que pilota (ele é comissário de bordo,
e sequestra o avião) sobre a casa de
quem mais o frustrou e o exigiu,
seus próprios pais! E
assim ele faz; dando inicio ao filme de maneira chocante e mostrando
a quê veio. Mas não se
desespere pelo spoiler (que serão poucos) eu poderia falar tudo
sobre esse filme e mesmo assim ao assisti-lo pareceria que ninguém
disse nada, pois ele consegue de maneira primorosa, passar uma tensão
e suspense que mesmo sabendo o que vai acontecer não se pode deixar
de sentir ; a narrativa com a qual o diretor conduz a trama,
apresentando uma situação aparentemente corriqueira e que muitos
desavisados levarão para outro lado, mas que resultará em um acontecimento terrível e lapidada
sutil e pacientemente, utilizando de todos elementos disponíveis
para prender quem assiste duro na poltrona, então temos a excelente
fotografia e cortes de câmeras e a música, que muda do tom de
tranquilidade para de terror e suspense. (muito bom).
Além
desse conto inicial, ainda temos "Ratazanas ", onde uma
garçonete encontra no trabalho, em uma noite chuvosa e sem nenhum
outro cliente, o agiota que destruiu sua família e
deve decidir, se segue o conselho da cozinheira e envenena o sujeito,
ou baixa sua cabeça para sua consciência e segue sua vida. Também
temos a história intitulada "Bombinha", em que um engenheiro (interpretado por Ricardo Darín (se ele não estiver em
um filme Argentino é porque não é um filme argentino)),
após ter seu carro rebocado duas vezes pelo serviço de trânsito de
Buenos Aires e obrigado a arcar com multas que ele não concorda, vê
sua vida desmoronar e resolve dar o troco na sociedade. Seguindo
as histórias o filme apresenta "A proposta", onde o filho
de um casal de milionários, após sair de uma festa, atropela e mata
um mulher grávida, fugindo sem prestar socorro, sendo que o pai do
jovem chama seu advogado para buscar uma solução antes de a Polícia
identifique o condutor, parte daí um plano para retirar a
responsabilidade das constas do jovem, onde todos os envolvidos vão
se mostrando corruptos e no final temos as consequências. Ainda
temos "Até que a morte nos separe", onde durante a festa
de casamento, a noiva descobre que seu marido a traia com uma colega
de serviço e que a convidou para o evento, despertando na noiva o
mais intenso e destrutivo desejo de vingança e demonstração de
dúvida quanto a seus caminhos, o que , somado a traição, põe em
risco a história do casal, ou não.
No
entanto, dentre todas as seis histórias que o filme trás, a que
mais gostei foi a intitulada "O mais forte". Nessa
história vemos um cidadão transitando por uma estrada deserta com
um carro novinho e de repente se vê barrado por um velho carro que
segue lentamente a sua frente em zig-zag, incomodado o motorista do
carrão ultrapassa o outro pela direita, mas não sem antes, abrir a
janela e gritar uns desaforos e dar o dedo do meio ao que ficava para
trás. Mas o mundo dá voltas e alguns quilômetros depois do
ocorrido, chegando
em uma ponte no meio do nada,
um dos pneus do
carrão fura e ele é alcançado pelo carro velho do motorista
desrespeitado, que vai tirar satisfação da maneira mais extrema
possível, trincando o para-brisa do carro do inimigo, arrancando o
limpador de para-brisa e o retrovisor, e, depois de tudo defecando e
urinando em seu capô; mas após
completar sua vingança, a vítima se enfurece e quando o agressor
entra em seu carro este acelera e atira o carro velho com seu
motorista da ponte e foge enquanto seu inimigo sai do meio dos
destroços e parte para cima dele. Passam-se poucos metros e o dono
do carrão, sabe que mesmo fugindo ele pode ser encontrado, resolve
voltar e terminar o serviço matando seu rival, no entanto, nessa
tentativa ele acaba caindo no rio também e ficando preso no carro
destruído de seu inimigo, é quando esse adentra
o carro pelo porta malas com um pé de cabra em mãos, enquanto lá
dentro
o outro se prepara segurando um extintor e aí a porrada come solta e
depois
de muita pancada, o
rustico dono do carro velho consegue amarrar o pescoço do adversário
com o cinto
de segurança e forçando a porta o deixa pendurado pelo pescoço
para morrer enforcado e na fuga coloca uma bucha com fogo na boca do
tanque de combustível, mas o dono do carrão, mesmo enforcado não se
entrega e puxa seu desafeto para dentro do carro e de repente BUMMM!!
o carro explode. A cena corta e vemos a perícia no local perplexa
com a situação, então um dos responsáveis questiona "Será
que foi um crime passional?" então vemos, o
corpo dos dois homens abraçados e carbonizados. Ambos
preferem perder a vida juntos do que baixar a cabeça e esquecer seu
inimigo eventual, acabam mortos muito mais pelo seu próprio orgulho
do que pelas mão de seu antagonista.
O Mai forte
Além
de um roteiro primoroso e atuações e direção brilhante, o filme
ainda conta com uma trilha sonora muito pontual, que vai desde música
clássica até
o trance (seja lá o que for isso) e que oscila conforme a tensão cresce na trama. O filme também trás uma
fotografia maravilhosa e uma palheta de cores que acompanha o clima
de cada história, assim como cenários
fantásticos e escolhas de narrativa que cabem perfeito para cada
história, como o
plano sequência na
história inicial, ou as cenas picotadas e em câmera lenta no conto
do engenheiro bombinha. O que dizer mais? O filme é uma obra prima!
"Relatos
selvagens" é um filmaço que merece e deve ser assistido. Uma
aula de cinema repleto de tensão, ira e beleza; um resumo de tudo que o áudio-visual pode proporcionar no que se refere a
sentimentos ao espectador, um filme
que vai além do idioma, da sociedade e situação política de seu
país de origem e que deveria servir de exemplo para nossos cineastas
que depois de tanto tempo ainda batem nas mesmas teclas com seus
filmes sobre favela, ditadura militar e comédias sem graça, temas
regionais e curtos que
a indústria
do maior país da América do Sul já
deveria ter transcendido a muito tempo.
O
que me faz perguntar: "Por
que o cinema brasileiro não consegue se desvincular da situação
politico-social do país e entregar produções que conversem com
qualquer ser humano?"
Não sou muito de
ficção fantástica. No meu currículo tenho apenas os livros e filmes do “Senhor
dos anéis” e a série “Game of Thrones”, mas não desprezo o gênero e se surge
algo que chame minha atenção vou buscar conhecer. Foi por essa curiosidade que
comecei a ler “O orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de
Ransom Riggs, logo após de assistir ao trailer do filme baseado na obra que
sairá este ano e ver estampado na capa da edição brasileira, que o livro foi
eleito uma das cem obras mais importantes da literatura de todos os tempos.
O livro conta a
história de Jacob Portmann, um garoto de dezesseis anos, rico e entediado, que
tem o avô, um veterano da segunda guerra, como grande amigo e ídolo. Desde
criança Jacob ouve as histórias de seu avô sobre a ilha mágica onde foi criado,
repleta de crianças com dons fantásticos (ou peculiares) e protegidas pela
dedicada Srta. Peregrine, um lugar no país de Gales, onde ninguém adoece ou
morre; ouve também relatos sobre monstros terríveis que caçavam essas crianças.
Com o passar dos anos, Jacob passa a tratar as histórias de seu avô como
fantasia e acreditar em sua senilidade, até o dia em que recebe uma ligação
desesperada deste dizendo que os monstros o acharam, parte ao seu auxílio, por
achar que é um ataque de loucura e o encontra morto na floresta, com marcas de
ataque de animais, mas em meio a tudo visualiza uma criatura semelhante à
descrita a ele nas histórias que ouvia quando criança.
Após meses de
acompanhamento psiquiátrico, Jacob descobre na casa do avô falecido cartas
remetidas do país de Gales e convence seu pai a acompanha-lo até a ilha onde o
avô se refugiou quando criança, na esperança de descobrir mais sobre o passado
deste. Nisso ele acaba encontrando algumas destas crianças e as perseguindo,
encontra uma passagem secreta na ilha, onde quem passa volta no tempo para o
dia 3 de Setembro de 1940, lá ele encontra a Srta. Pergrine e suas Crianças,
enganando o tempo em um eterno dia que nunca passa e vivendo eternamente longe
dos olhares dos humanos. Mas mal Jacob tem tempo de conhecer toda história do
avô e já se vê envolto em um conflito maior que ele, os Acólitos e os Etéreos
(os monstros citados por seu avô), estão sequestrando todas Ymbrynes (guardiãs
das crianças e que manipulam o tempo) para executarem um plano que os tornarão
cheios de poder e imortalidade e com a ajuda de Jacob, as crianças vão buscar
se defender e frustrar as expectativas dos monstros.
Não vou mentir
para ninguém aqui. Eu peguei esse livro para ler por duas questões em especial:
O título e o selo na capa dizendo que era uma das cem obras mais importantes da
história.
O título do
livro faz total menção à “Escola para jovens superdotados do Professor Xavier”,
do mesmo modo que as criança “peculiares” não são diferentes dos mutantes
presentes nos X-men e esse conceito copiado é tão claro até no nome que o autor
escolhe para designar os inimigos desses peculiares, “Acólitos”, o mesmo nome
dos seguidores do mutante rebelde Magneto. O pensamento dos acólitos de Ransom
Riggs também não é diferente da forma de pensar do arqui-inimigo dos X-men,
acreditando que os peculiares são superiores aos humanos e que devem
governa-los, enquanto as ideias das Ymbrynes, seguem as do professor Xavier,
pregando uma convivência pacifica, mas se resguardando e protegendo dos olhares
curiosos dos humanos.
Ainda sobre
cópia de conceitos, o livro tem fatos que parecem ser referir a Harry Potter.
Para começar temos o sobrenome do protagonista, Portman, total referência ao
protagonista da obra de J.K Rowling. Além disso, ainda temos a questão de que
as crianças peculiares se escondem em uma fenda no tempo onde apenas quem é
peculiar pode atravessar, tal qual a conhecida dos bruxos em Hogwarts, mas não
dos trouxas, e, para terminar, Jacob é o escolhido que salvará os peculiares e
derrotará os Etéreos (excelente!).
Sobre o fato de
o livro ser escolhido uma das cem obras literárias mais importantes de todos os
tempos, eu fico pensando quem escolheu? Em um mundo com obras de Tostoi,
Dostoieviski, Machado de Assis, Jorge Amado, Phillip K. Dick, Isaac Asimov,
Clarice Lispector, J.K Rowling, entre tantos outros, quem escolheu um livro
cheio de conceitos copiados e história rasa, como uma obra que merece estar no
mesmo nível desses autores que foram infinitamente mais relevantes e nos
entregaram trabalhos, se não geniais, pelo menos brilhantes?
Realmente não
entendi o que nesse livro o colocaria entre os cem mais da história. Para
começar a única inovação é o fato de o autor introduzir fotos dos personagens
no livro e o curioso é que descobrimos ao final que as fotos apresentadas são
reais e antigas, cedidas por colecionadores que colaboraram no projeto, o que faz
pensar que a história é uma colcha de retalhos baseada em imagens e conceitos
que não são de quem escreveu. Já falando como é escrito, o autor não inova em
nada, usando uma narração em primeira pessoa, o protagonista inicia a história
dando a entender que os acontecimentos citados são lembranças e isso tira
bastante peso dos perigos que acontecem com ele, o pior é que por vezes o
protagonista usa analogias e referências que não fazem sentido na boca de um
moleque de dezesseis anos, como quando ele diz que uma situação se assemelhava
a uma pintura de Normam Rockwell, ou ainda quando ele descreve o rosto da
peculiar Emma como sendo Belo e alvo... Poxa!! Quem está preso no tempo são os
peculiares e não ele.
Sobre o
protagonista, o Sr. Portman é um babaquinha, humilha o único amigo que tinha em
sua cidade e não se arrepende, descreve o próprio pai como um fracassado e mãe
uma esnobe, o autor ainda o coloca como um rico herdeiro de uma rede de
farmácias, para facilitar o fato de o chatinho ter de atravessar o mundo para
encontrar seu destino. Ele descobre, depois de mais de noventa páginas, que
também é um peculiar e seu poder é ver os Etéreos... ou seja, seu poder é o
mais inútil e específico do mundo e mesmo assim ele é o escolhido... Por favor,
senhor escritor, por favor!!
Sobre a trama,
tudo parece muito bobo. Começando pelos vilões que segundo o que e contado,
eram peculiares que tentaram se transformar em imortais e acabaram se
transformando em monstros. A Sr. Peregrine conta que se esses Etéreos comerem
muitos peculiares (com a boca), transformam-se em Acólitos, que são visíveis e
tem forma humana, exceto pelo fato de não possuírem pupilas e conseguem se
transformar em outros humanos e ... só! Ajudando os outros Etéreos que ainda
são monstros a caçarem mais peculiares, para depois... Viver como humanos sem
pupilas, eu acho.
novela Olho no olho
Mas o pior são
as Ymbrynes, para mim as verdadeiras vilãs da história, Elas tem o poder de manipular
o tempo e fazer com que os peculiares que se escondem lá vivam para sempre, mas
repetindo eternamente o mesmo dia, tendo a mesma idade (a maioria
pré-adolescente) e sem perspectiva de nada, o pior é que, se depois de muito
tempo o peculiar resolve viver no tempo real, ele envelhece tudo de uma noite
para o dia, podendo morrer no processo... Não é sacanagem?! Quem tomou a
decisão de trancar essa criançada lá? E o mais importante, se a maioria dos
peculiares está escondida em fendas temporais e vivem coo crianças, como eles
se reproduzem? ... Quer saber?! Deixa pra lá!
Com uma história
boba até para o público alvo, com conceitos copiados e personagens pouco
carismáticos “O orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de Ransom
Riggs, entra para minha lista de livros que poderiam ser bem mais e são mais do
mesmo. Uma repetição de clichês e decisões de roteiro que parecem tratar quem
lê como um idiota, uma mistura de Harry Portter e X-men que saiu estragada e o
pior é que o livro é o primeiro de uma séria, afinal, a tradição é escrever
três, seis, nove livros da mesma saga, pois se não for assim, não é Fantasia,
mas pra mim um já foi de mais, se é para perder meu tempo com crianças para
normais, que sejam as originais do Professor Xavier, ou os da novela “Olho no olho” da Globo.
Abaixo o Trailer dos Novos mutantes, digo Orfanato da Srta Peregrine
Quem me conhece sabe o quanto
sou fã de ficção científica. Gosto do estilo, em parte, pelo
escapismo que ele me trás quando leio, fugir do cotidiano em uma
história que me apresenta um universo que se diferencia do nosso me
ajuda a relaxar e exercitar a imaginação; por outro lado, o modo
como alguns autores conseguem pensar fora da caixa , questionando
nossa sociedade e resolvendo problemas imaginativos é o que me
fascina nesse tipo de literatura. E,nesse segundo quesito, poucos
livros foram uma surpresa tão bacana como "Perdido em Marte"
de Andy Weir, que li recentemente.
"Perdido em Marte",
conta a história de Mark Watney, décima sétima pessoa a pisar no
planeta vermelho e sexto em hierarquia da tripulação de seis
pessoas da Ares-3, formado em Botânica e Engenharia, suas funções
na expedição consistiam em coletar amostras de solo e efetuar
reparos em casos de necessidade. A missão da Ares-3 vinha sendo
realizada com sucesso até que no sexto dia uma tempestade, que põe
em risco a tripulação, força os mesmos a abortar a missão e,
durante o processo de retira, Watney é atingido por uma antena que
se solta do alojamento e dado como morto; no meio da tempestade e sem
conseguir encontrar o corpo do suposto falecido, a equipe evade do
planeta. Watney acorda horas depois, com uma antena presa na lateral
de seu corpo e um planeta inóspito todinho para chamar de seu,
restando os suprimentos que sobraram da missão e sua inteligência
para ajuda-lo a sobreviver e buscar contatar a NASA na esperança de
ser resgatado.
Soube que "Perdido em
Marte" ( ou "The Martian", no original) era um livro,
apenas quando, no Oscar, o filme baseado nele concorreu a melhor
roteiro adaptado. Vi o filme por causa da direção de Ridley Scott,
que eu sentia que estava em débito comigo desde "Prometheus"
e fiquei contente com o que vi, um filme inteligente mas divertido,
leve sem deixar de ser dramático e muito bem conduzido pelo diretor
de clássicos como "Blade Runner" e "Alien",
acontece que o livro eleva tudo que se vê no filme a nona potência.
Andy Weir escreve de forma que
parece tão fundamentada, que foi a primeira vez que um livro de
ficção científica conseguiu me convencer que tudo que ocorria em
suas linhas poderia ser verdade. Para começar com a quantidade de
explicações científicas que ele utiliza para informar como que
cada evento ocorrido com Watney é superado, só isso mostra um
trabalho de pesquisa incrível por parte do autor e um talento para
didática empolgante, porque ele consegue transformar física e
química em algo divertido e prático, e que, embora seja apresentado
como elemento de narrativa ( e por isso superficial), fazem até um
cara como eu de humanas, achar o assunto fascinante. Outra qualidade
do autor que o livro trás é a imaginação da evolução das
tecnologias atuais, ele evolui muitas tecnologias que já estão em
uso ou teste e além de descreve-las, as mostra sendo utilizadas na
história, isso o coloca em um nível bem auto de futurólogo e já
fico imaginando quando chegarmos a Marte as pessoas dizendo "Olha
aí, o Andy Weir estava certo!".
Outra coisa que me surpreendeu
no livro foi a quantidade de problemas a serem resolvidos pelo
protagonista. Meu Deus!! se fosse eu morreria em duas horas. O cara
tem que calcular e racionar comida, energia, oxigênio, Gás
Carbônico, pensarem como produzir alimento, modificar o veículo de
exploração, se comunicar com a terra, aprender código morse e
sobreviver as músicas e séries dos anos 70 e tudo isso na maior
parte do tempo sem uma única pessoa (ou tutorial do Youtube) para
ajudar, é um livro que realmente utiliza a ciência como grande
estrela e isso o torna um em milhões, porque embora seja ficção
científica, a ciência é muito real, muito pé no chão; o autor
poderia colocar a história para daqui a trezentos anos e assim focar
no drama humano ou sociedade e tratar a questão da viagem espacial
como alegoria, mas ao contrário disso, seu foco é total na ciência
e isso da mais valor a leitura de sua obra.
Além do citado acima, o livro
ainda é muito bem humorado. Mark Watney é uma figuraça que mesmo
sozinho a milhões de quilômetros de casa, nunca perde o bom humor e
a esperança. Seus monólogos questionando até onde suas gambiarras
vão aguentar são pontuais para dar aquela aliviada em momentos onde
a história usa muitos termos técnicos e explicações científicas,
e, suas conversas com a terra e a nave Ares-3, após ele conseguir
contato novamente, contém tantas piadas e sarcasmos que é impossível
não colocoar um sorriso no rosto de quem está lendo, deixando além
de tudo uma mensagem de otimismo e bom humor aliada a inteligência e
razão.
A forma como o autor conta a
história ajuda demais a colocar o leitor dentro da história,
embora por vezes canse um pouco. Andy Weir utiliza uma narração em
primeira pessoa em formato de diário e isso reforça a sensação de
solidão do protagonista nas primeiras cinquenta páginas do livro,
mas confesso que essa solidão me incomodou um pouco a principio
porque me dava uma agonia ao querer saber como seus companheiros e a
equipe na terra estavam reagindo com sua "morte", para o
meu alívio, depois de uma parte do livro somos apresentados a essas
reações e opiniões dos outros ambientes da história e aí a trama
engrena em uma sucessão de ideias e pontos de vista que dão ainda
mais riqueza ao livro.
Essa escolha por,
primeiramente apresentar toda solidão e escolhas do protagonista, é
muito inteligente, porque gera uma empatia tremenda com Watney; no
inicio do livro estamos tão perdido quanto o astronauta e mal
sabemos como o acidente que o isolou em Marte ocorreu, o fato só é
explicado no meio do livro, em um flashback que nos da deslumbres da
personalidade de toda equipe, nos fazendo simpatizar por eles e
apoia-los em suas decisões. A partir daí, a tensão que o texto
segue faz com que um capítulo (ou sol) seja devorada
compulsoriamente, só parando quando a última palavra é lida, uma
construção de texto realmente hipnotizante.
Como já mencionei acima,
"Perdido em Marte" é um ótimo livro. Inteligente,
engraçado e bem escrito ,dá muito mais profundidade a história
contada no filme e dentro dessa leva nova de ficção científica o
coloco como obrigatório. Sua construção e narrativa parecem muito
mais o trabalho de um escritor experimentado do que o primeiro
trabalho de um jovem engenheiro de software e esse é outro fato que
surpreende e me alegra como fã de ficção científica, a percepção
de que o estilo vem renovando e a esperança de descobrir mais livro
como este, assim como a expectativa dos próximos trabalhos de Andy
Weir. Em resumo, "Perdido em Marte" é um livrão e
recomendo demais e a propósito, Alguém poderia me dizer por que o
Aquaman controla baleias? Elas são mamíferos... não faz sentido!!