segunda-feira, 18 de julho de 2016

STRANGER THINGS ( 2016) O melhor dos anos oitenta na série do ano.



Ah os anos oitenta !! Moças de permanente no cabelo e calças que iam até o pescoço, rapazes com grandes topetes e roupas muito coloridas, poucos canais de tv, músicas gravadas em fita cassete e filmes que falavam de contato alienígena ou onde monstros bizarros tinham como única pretensão matar os desavisados. Isso foi à mais de trinta anos e vivemos em um mundo diferente hoje, mas confesso que tenho saudade desse tempo onde tudo parecia mais fácil, onde as pessoas conversavam sem olhar toda hora para o celular, onde o refrigerante de um litro do almoço sobrava para a janta e quando os amigos se encontravam sem ter de marcar uma data. Quero dizer, eu tinha saudade, porque desde do dia 15 de Julho, a Netflix abriu um portal que não só matou minha saudade desse tempo, como a arrastou pelos pés e a comeu, trata-se da série "STRANGER THINGS" escrita e dirigida pelos irmãos Duffer e que me pregou no sofá nesse último final de semana.

"STRANGER THINGS" se passa em 1983 e conta a história de uma série de misteriosos acontecimentos na pequena cidade de Hawkins nos EUA, tendo inicio com o desaparecimento de Will Byers, que acontece quando ele volta para casa após um dia com seus três melhores amigos (Lucas, Mike e Dustin), ao mesmo tempo, uma estranha menina surge na cidade, vestindo roupas hospitalares, extremamente assustada e dotada de habilidades especiais, ela irá ajudar o trio de amigos a encontrar o integrante perdido do grupo e a enfrentar a misteriosa criatura, enquanto que uma trama de conspiração e experiencias científicas, vai sendo investigada pelo obstinado xerife da cidade.

Ok! Minha sinopse tá horrível, mas eu queria deixar no clima do que se lia nas contra capas das fitas nas locadoras de vídeo nos anos 80 sem entregar muito da trama. A série é muito bacana! Para entender o nível de qualidade da trama e enredo, ela foi a única produção que aborda um contexto de ficção científica e terror, que minha mulher quis assistir até o final comigo, pode parecer pouco para quem lê isso, mas para quem conhece minha mulher (que odeia ficção científica) isso mostra a qualidade de "Stranger Thing".

Essa qualidade é apresentada de diversas forma, seja na maneira da produção nos colocar dentro dos anos 80, com as roupas, cortes de cabelo, música e etc; seja no ótimo roteiro que vai aos poucos juntando as pontas da trama ou pelas referências que a série joga na nossa cara de cinco em cinco minutos; seja qual o motivo que se preferir, o capricho com que "Strange Things" foi feito não deixa ninguém desistir da gostosa maratona de oito horas para se descobrir o que diabos está acontecendo com a cidade de Hawins e o que aconteceu com Will Byers.

"Stranger Things" me levou direto para os anos oitenta. Para começar, Hawkins é típica cidadezinha americana dos filmes daquela década, cercada de árvores e com poucos habitantes é o lugar perfeito e sinistro, onde o inexplicável acontece e aos poucos vai envolvendo a todos. Suas ruas estão sempre vazias e seus habitantes parecem tão presos em suas rotinas, que ignoram até o fato de existir uma empresa misteriosa próxima a suas residências, não diferente da cidade onde acontece "E.T" de Spielberg ou à do filme "super 8", de J.J Abrans, que homenageia o diretor. O Capricho das locações só fica atrás do figurino. O estilo das roupas e penteados são tão fieis, que me senti assistindo uma filmagem da época, só faltou a dublagem ruim com um eco no fundo. As roupas são exatamente iguais as que eu lembro de minhas primas usarem e o penteado de cabelo da mãe do personagem Mike é igual ao que a minha mãe usava quando eu tinha uns cinco anos, uma imersão total e uma viagem de volta no tempo para quem viveu aquela época.

Além do trabalho de ambientação e figurino, a série ainda trás uma enxurrada de referências sobre os próprios anos oitenta e a cultura POP da época. A série já começa com os quatro amigos jogando uma partida de RPG, o que já mostra de forma pratica e através de ação, como é a relação desses personagens e como eles pensam. Na mesma cena, podemos ver um poster de "Enigma do outro mundo" de John Carpenter e "Tubarão" de Spielberg, dando uma singela dica sobre o estilo de terror e suspense que a série trará.

Não faltam referências a Spielberg e principalmente a "E.T". Os quatro amigos se deslocam com bicicletas do estilo cross, como no filme de 1982, além de Mike possuir uma irmãzinha loira e de chiquinhas no mesmo estilo Drew Barrymore da época. Além disso, no episódio onde eles levam a menina, que atende pelo nome de onze, na escola; os vemos disfarça-la com um vestido e peruca loira e no baú de onde eles pegam essas roupas vemos um chapéu, referência ao disfarce do alienígena no filme de Spilberg.

Muitos outros filmes e figuras dos anos oitenta também são referenciados, como Tom Cruise, que era o frenesi das meninas depois de "Negócio arriscado"; Carl Sagan e a série "cosmos", que são citados pelos amigos quando percebem a situação que estão presenciando, a menção à "Poltergeist" com o monstro rasgando a parede com dificuldade para pegar suas vítimas, e , até um poster de Edgar Alan Poe, que enfeita a parede da sala de aula da irmã do protagonista como um lembrete que se trata de um conto de terror.

No que tange a Trama, achei o enredo bem amarrado e extremamente divertido. Gostei muito do jeito que a série começa, dividida em quatro núcleos; com os meninos procurando o amigo e encontrando a onze, a Mãe e o irmão de Will percebendo os estranhos acontecimentos em sua casa, a irmã de Mike e seu namorado descobrindo da pior forma da existência do monstro e o xerife investigando a misteriosa empresa instalada na cidade. Todos unidos ao final pelos estranho acontecimentos vão aos poucos fazendo que as histórias convirjam para um desfecho comum a todos. A maneira como os acontecimentos sobre-naturais vão sendo revelados também é muito legal, sendo apresentado com flash backs da menina 11, com o auxilio das explicações do professor de ciências dos meninos e de suas analogias nerds com Senhor dos anéis e "Dungeons & Dragons". Gostei também do fato da trama ser enxuta em apenas oito episódios, de forma que não há tempo para barriga ou episódios de enrolação desnecessária, send que as pontas que ficam soltas são propositais servem como deixa para a próxima temporada, onde com certeza saberemos mais sobre as outras dez cobaias dos experimentos, sobre o destino de onze ,do mundo invertido e do monstro.

As atuações são muito bacanas. Começando por Millie Brown, a menina que interpreta a "estranha" Onze, ela rouba a cena com sua expressão, ar de pavor e suas poucas palavras, transmitindo com o olhar a aflição de não saber se expressar e carregar consigo todos os horrores de que foi vítima. Winona Ryder também está muito bem, fazendo o papel de uma mãe desesperada que sabe uma verdade que ninguém mais acredita, mas que nem por isso desiste, fora isso ainda temos as boas interpretações de todo o elenco e a participação de Matthew Modine, como o verdadeiro vilão da trama.

"Corra!"
Por isssssso tuuuudo, acredito que "Stranger Things" foi a boa surpresa do ano. Trouxe todo o clima das produções dos anos oitenta com a qualidade das séries atuais e o selo Netflix de qualidade. Muito mais que um portal para os estranhos anos oitenta, uma história muito bem contada, divertida e assustadora, repleta de referências inteligentes e bem dispostas, boas atuações e um ritmo perfeito. Ficamos (minha mulher e eu) no aguardo da segunda temporada para termos as respostas para as pontas soltas deixadas nessa primeira, enquanto isso, acho que vou fazer uma maratona de filmes de John Carpenter, Steven Spilberg, ler os clássicos do Stephen King e ouvir um pouco de AC/DC, Whitesnake e Van Halen e aproveitar ,nesse meio tempo, tudo que há de melhor dessas coisas estranhas.


sábado, 16 de julho de 2016

NINJAS (CURTA -2010) - Sim! O cinema brasileiro pode.


Já falei aqui da minha experiência ao assistir o filme argentino "Relatos Selvagens" e do questionamento que ficou na minha cabeça de por que no Brasil filme do mesmo quilate não são possíveis. Nosso país parece dar exclusividade a produções que falam de conflito social, comédias românticas e cinebiografias, afastando do cinema o público que procura diversidade de temas e experiências. No entanto, se no cinema Mainstream tudo parece mais do mesmo, as produções independentes representam uma luz no fim do túnel para o cinema nacional e, em resposta a meu próprio questionamento, eu queria falar hoje sobre uma produção nacional que achei espetacular, "NINJAS" dirigida pelo promissor cineasta Dennison Ramalho.


"Ninjas" conta a história de Jailton, um policial novato, que em perseguição a um suspeito pelas vielas de São Paulo acaba matando, por engano, um estudante. Coagido por seu parceiro de viatura, ele ajuda a forjar uma cena onde demonstra agir em legítima defesa responsabilizando a vítima. Após o assassinato, a culpa toma conta de Jailton que passa a ser assombrado pela figura do menino morto, entrando em desespero e tendo ataques de pânico; para cura-lo de seu problema, o comandante de seu batalhão o leva para um tratamento de choque, que trará paz a sua consciência ao mesmo tempo que destruirá sua humanidade.

O filme de vinte e cinco minutos que estreou em 2010, é baseado no conto "O Bom policial" (link do conto na íntegra abaixo), do escritor Marco de Castro. Ex-repórter policial, Marcos de Castro acompanhou a guerra das favelas Paulistas e a rotina da violência nas noites da maior cidade do país quando trabalhava no Diário de São Paulo e resolveu usar sua experiência como inspiração para contos de terror.

O curta, que custou sessenta mil Reais, foi estrelado por Flávio Bauraqui, que recebeu o prêmio de melhor ator no festival de cinema de Gramado, por sua atuação como o inexperiente PM Jailton. A produção foi co-roteirizada e dirigida por Dennison Ramalho, diretor Gaúcho natural de Porto Alegre, que vem se tornando um expoente em produções do gênero de terror no país; antes de "Ninjas", o diretor já havia roteirizado e dirigido o curta "Amor sé de Mãe" em 2003 e escrito o roteiro do filme "Encarnação do Demônio" de José Mojica Marins (o Zé do Caixão), após "Ninjas", o diretor partiu para um mestrado sobre roteiro e direção na universidade de Nova York buscando o conhecimento para, quem sabe em breve, apresentar produções do mesmo nível, ou melhores, que o seu filme de 2010.

"Ninjas" é um exemplo de que as produções nacionais podem sim possuir a mesma qualidade das tão badaladas produções estrangeiras, assim como deixa claro que nosso cinema não precisa trilhar sempre o mesmo caminho e abordar temas considerados batidos mas sem, no entanto, perder sua alma. Basta agora que a industria mainstream perceba o potencial de produções como esta e as financiem a iniciativa de modo a tornar, futuramente, o cinema brasileiro uma indústria rentável e auto-suficiente. Enquanto esse dia não chega, só nos resta prestigiar as produções independentes e torcer para que diretores como Dennison Ramalho sigam apresentando filmes de qualidade e pensando fora da caixa para nos entregar filmes que falem com todos os públicos, mas sem perder o jeitinho e a cara do cinema brasileiro.


"UM BOM POLICIAL" – Conto completo publicado na revista Vice:


" NINJAS" – Curta completo disponível no Vimeo:


quinta-feira, 14 de julho de 2016

RIVER (série 2015)

Feliz e triste, empolgado e deprê. Essa mistura estranha foi o que senti quando acabei de assistir “River”, uma produção da BBC, estrelada pelo ator sueco Stellan Skargard, criada e escrita por Abi Morgan e dirigida por Richard Laxton, que comecei a assistir sem pretensão nenhuma na Netflix e que me ganhou nos primeiros quinze minutos do episódio piloto.

"River” conta a história de John River (Skargard), um detetive de Londres que lutará para solucionar o assassinato de sua parceira Jakie Stevenson (Nicola Walker), mesmo afastado do caso devido a seu envolvimento pessoal e assombrado pelo fantasma da amiga morta. Essa investigação o levará aos poucos a enfrentar seus problemas pessoais e questionar sua sanidade, colocando sua carreira em risco e o confrontando com verdades esmagadoras.



Conhecia a série seguindo as ótimas dicas do podcast Mamilos e, como citei acima, comecei a assistir sem nenhuma pretensão, mas em menos da metade do primeiro episódio eu já estava rendido ao que a trama me mostrava, começando pela atuação brilhante de Stellan Skargard. O ator sueco está muito bem na produção, transmitindo seriedade, medo, fragilidade, fúria e dúvida; e o mais bacana é que muito do que ele passa para o espectador não é expresso por palavras, mas através do olhar ou de seus movimentos e até de sorrisos; confesso que sempre que ele tinha um dialogo eventual com a “fantasma” de sua colega que terminava em uma boa risada eu os seguia e me via rindo feito bobo na frente do computador.

Essa química entre o protagonista e sua parceira e a atuação de Nicola Walker como a falecida, mas sempre presente Jakie Stevenson foram outros pontos fortes da série. Nicola parece iluminar o ambiente quando sempre que presente, munida apenas de seu sorriso largo, grande olhos verdes e muito bom humor; confesso que foi a cena onde ela provoca o protagonista no episódio piloto cantando o clássico de Tina Charles “I love to love”, que me cativou para ver a série toda em uma maratona.

Além das atuações, a série ainda tem a maravilhosa trilha sonora que traz uma mistura de nostalgia e empolgação utilizando pontualmente hits da era disco como a já citada “I love to love” e clássicos da soul music como “Sunny” cantada por Bobby Hebb. Temos também a apresentação de uma sociedade londrina moderna e representativa, onde a capitã da polícia é uma mulher forte, porém com problemas com seus filhos e marido, mas sem perder sua feminilidade; o novo parceiro de River, Ira King é filho de imigrantes do oriente médio e toda trama de fundo toca no assunto de imigração e busca por condições melhores de vida, o que achei que deu um ar de realidade moderna a série.

Sobre a história, não vou revelar nada sobre a trama central da série, pois se eu contar tudo se perde, mas posso dizer que as revelações finais sobre o que levou a detetive Stevenson à morte são esmagadoras e a identidade do assassino e o motivo dá um amargo na boca. Mas durante as investigações da morte de sua parceira, River ainda segue trabalhando e resolvendo casos paralelos e estes são bem bacanas, como o suposto assassinato de uma menina por seu namorado e a tentativa de suicídio de um empreiteiro no local de trabalho. Junto a isso ainda temos as reveladoras sessões de análise que o protagonista é forçado a comparecer e que vão nos apresentando o perfil do personagem, sua origem e crenças sem que seja necessário algum artifício como narração em off ou explicação pelos olhos de uma terceira pessoa, o que é revelador para saber o porquê do personagem ser do jeito que é, principalmente nos episódios finais.


River é uma excelente série e está ali na Netflix a pleno alcance dos dedos e fechadinha em apenas seis episódios. Me proporcionou muitas horas de diversão, suprindo minha carência de Game of thrones e me tornou fã do ator Stellan Skargard. Brilhante em roteiro, embora não seja inovador; policial investigativa que prioriza a inteligência dos personagens em relação a violência e apresenta uma visão cosmopolita e realista da sociedade. Torço para que mais dessas produções cheguem até nós, mas enquanto não chegam, vou ficar por aqui curtindo esse mix de sentimentos que a série me proporcionou e cantando “I love to love”.

terça-feira, 5 de julho de 2016

RELATOS SELVAGENS (2014)

"Por que o cinema brasileiro não consegue se desvincular da situação politico-social do país e entregar produções que conversem com qualquer ser humano?", Essa foi a pergunta que minha mente repetia em looping ontem ao assistir "Relatos selvagens", brilhante filme argentino de 2014, dirigido por Damián Szifron e estrelado por um grande elenco, que foge a tudo que o nosso cinema tupiniquim vem apresentado desde sempre e é tão bom, que dá raiva ter de dizer que essa obra de arte é uma produção de nossos hermanos.

O filme reúne seis histórias curtas e independeres, que se conectam por tratarem do mesmo assunto, a vingança. Durante duas horas de dez minutos somos levados a nossos limites de tensão com tramas que por vezes são tão exageradas e sínicas que poderiam muito bem ser verdadeiras, da mesma forma que os diálogos são tão bem construídos, tão humanos, bem atuados e dirigidos que tanto assistido na Argentina, Japão ou sudão, é impossível que os sentimentos e atitudes dos personagens presentes nas histórias não transcendam qualquer questão social, religiosa e política e calem fundo no espectador.

Na primeira dessas histórias, que podemos entender como o prólogo de um livro, vemos uma modelo pegando um avião e em uma conversa informal descobrindo que o passageiro ao lado conhece seu ex-namorado, assim como a senhora sentada a sua frente, que foi sua professora e o do acento atrás que foi seu colega de serviço e, no final, descobre-se que todos reunidos nesse voo são conhecidos desse homem que, de tão desprezado, não tem nem ao menos seu rosto revelado na história onde deveria ser o protagonista. Pois esse ninguém, arquitetou um plano de dar fim a todos que o magoaram em sua vida: jogar o avião que pilota (ele é comissário de bordo, e sequestra o avião) sobre a casa de quem mais o frustrou e o exigiu, seus próprios pais! E assim ele faz; dando inicio ao filme de maneira chocante e mostrando a quê veio. Mas não se desespere pelo spoiler (que serão poucos) eu poderia falar tudo sobre esse filme e mesmo assim ao assisti-lo pareceria que ninguém disse nada, pois ele consegue de maneira primorosa, passar uma tensão e suspense que mesmo sabendo o que vai acontecer não se pode deixar de sentir ; a narrativa com a qual o diretor conduz a trama, apresentando uma situação aparentemente corriqueira e que muitos desavisados levarão para outro lado, mas que resultará em um acontecimento terrível e lapidada sutil e pacientemente, utilizando de todos elementos disponíveis para prender quem assiste duro na poltrona, então temos a excelente fotografia e cortes de câmeras e a música, que muda do tom de tranquilidade para de terror e suspense. (muito bom).

Além desse conto inicial, ainda temos "Ratazanas ", onde uma garçonete encontra no trabalho, em uma noite chuvosa e sem nenhum outro cliente, o agiota que destruiu sua família e deve decidir, se segue o conselho da cozinheira e envenena o sujeito, ou baixa sua cabeça para sua consciência e segue sua vida. Também temos a história intitulada "Bombinha", em que um engenheiro (interpretado por Ricardo Darín (se ele não estiver em um filme Argentino é porque não é um filme argentino)), após ter seu carro rebocado duas vezes pelo serviço de trânsito de Buenos Aires e obrigado a arcar com multas que ele não concorda, vê sua vida desmoronar e resolve dar o troco na sociedade. Seguindo as histórias o filme apresenta "A proposta", onde o filho de um casal de milionários, após sair de uma festa, atropela e mata um mulher grávida, fugindo sem prestar socorro, sendo que o pai do jovem chama seu advogado para buscar uma solução antes de a Polícia identifique o condutor, parte daí um plano para retirar a responsabilidade das constas do jovem, onde todos os envolvidos vão se mostrando corruptos e no final temos as consequências. Ainda temos "Até que a morte nos separe", onde durante a festa de casamento, a noiva descobre que seu marido a traia com uma colega de serviço e que a convidou para o evento, despertando na noiva o mais intenso e destrutivo desejo de vingança e demonstração de dúvida quanto a seus caminhos, o que , somado a traição, põe em risco a história do casal, ou não.


No entanto, dentre todas as seis histórias que o filme trás, a que mais gostei foi a intitulada "O mais forte". Nessa história vemos um cidadão transitando por uma estrada deserta com um carro novinho e de repente se vê barrado por um velho carro que segue lentamente a sua frente em zig-zag, incomodado o motorista do carrão ultrapassa o outro pela direita, mas não sem antes, abrir a janela e gritar uns desaforos e dar o dedo do meio ao que ficava para trás. Mas o mundo dá voltas e alguns quilômetros depois do ocorrido, chegando em uma ponte no meio do nada, um dos pneus do carrão fura e ele é alcançado pelo carro velho do motorista desrespeitado, que vai tirar satisfação da maneira mais extrema possível, trincando o para-brisa do carro do inimigo, arrancando o limpador de para-brisa e o retrovisor, e, depois de tudo defecando e urinando em seu capô; mas após completar sua vingança, a vítima se enfurece e quando o agressor entra em seu carro este acelera e atira o carro velho com seu motorista da ponte e foge enquanto seu inimigo sai do meio dos destroços e parte para cima dele. Passam-se poucos metros e o dono do carrão, sabe que mesmo fugindo ele pode ser encontrado, resolve voltar e terminar o serviço matando seu rival, no entanto, nessa tentativa ele acaba caindo no rio também e ficando preso no carro destruído de seu inimigo, é quando esse adentra o carro pelo porta malas com um pé de cabra em mãos, enquanto dentro o outro se prepara segurando um extintor e aí a porrada come solta e depois de muita pancada, o rustico dono do carro velho consegue amarrar o pescoço do adversário com o cinto de segurança e forçando a porta o deixa pendurado pelo pescoço para morrer enforcado e na fuga coloca uma bucha com fogo na boca do tanque de combustível, mas o dono do carrão, mesmo enforcado não se entrega e puxa seu desafeto para dentro do carro e de repente BUMMM!! o carro explode. A cena corta e vemos a perícia no local perplexa com a situação, então um dos responsáveis questiona "Será que foi um crime passional?" então vemos, o corpo dos dois homens abraçados e carbonizados. Ambos preferem perder a vida juntos do que baixar a cabeça e esquecer seu inimigo eventual, acabam mortos muito mais pelo seu próprio orgulho do que pelas mão de seu antagonista.

O Mai forte
Além de um roteiro primoroso e atuações e direção brilhante, o filme ainda conta com uma trilha sonora muito pontual, que vai desde música clássica até o trance (seja lá o que for isso) e que oscila conforme a tensão cresce na trama. O filme também trás uma fotografia maravilhosa e uma palheta de cores que acompanha o clima de cada história, assim como cenários fantásticos e escolhas de narrativa que cabem perfeito para cada história, como o plano sequência na história inicial, ou as cenas picotadas e em câmera lenta no conto do engenheiro bombinha. O que dizer mais? O filme é uma obra prima!

"Relatos selvagens" é um filmaço que merece e deve ser assistido. Uma aula de cinema repleto de tensão, ira e beleza; um resumo de tudo que o áudio-visual pode proporcionar no que se refere a sentimentos ao espectador, um filme que vai além do idioma, da sociedade e situação política de seu país de origem e que deveria servir de exemplo para nossos cineastas que depois de tanto tempo ainda batem nas mesmas teclas com seus filmes sobre favela, ditadura militar e comédias sem graça, temas regionais e curtos que a indústria do maior país da América do Sul já deveria ter transcendido a muito tempo.

O que me faz perguntar: "Por que o cinema brasileiro não consegue se desvincular da situação politico-social do país e entregar produções que conversem com qualquer ser humano?"

domingo, 26 de junho de 2016

O ORFANATO DA SRTA. PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES ( O livro)

Não sou muito de ficção fantástica. No meu currículo tenho apenas os livros e filmes do “Senhor dos anéis” e a série “Game of Thrones”, mas não desprezo o gênero e se surge algo que chame minha atenção vou buscar conhecer. Foi por essa curiosidade que comecei a ler “O orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs, logo após de assistir ao trailer do filme baseado na obra que sairá este ano e ver estampado na capa da edição brasileira, que o livro foi eleito uma das cem obras mais importantes da literatura de todos os tempos.

O livro conta a história de Jacob Portmann, um garoto de dezesseis anos, rico e entediado, que tem o avô, um veterano da segunda guerra, como grande amigo e ídolo. Desde criança Jacob ouve as histórias de seu avô sobre a ilha mágica onde foi criado, repleta de crianças com dons fantásticos (ou peculiares) e protegidas pela dedicada Srta. Peregrine, um lugar no país de Gales, onde ninguém adoece ou morre; ouve também relatos sobre monstros terríveis que caçavam essas crianças. Com o passar dos anos, Jacob passa a tratar as histórias de seu avô como fantasia e acreditar em sua senilidade, até o dia em que recebe uma ligação desesperada deste dizendo que os monstros o acharam, parte ao seu auxílio, por achar que é um ataque de loucura e o encontra morto na floresta, com marcas de ataque de animais, mas em meio a tudo visualiza uma criatura semelhante à descrita a ele nas histórias que ouvia quando criança.

Após meses de acompanhamento psiquiátrico, Jacob descobre na casa do avô falecido cartas remetidas do país de Gales e convence seu pai a acompanha-lo até a ilha onde o avô se refugiou quando criança, na esperança de descobrir mais sobre o passado deste. Nisso ele acaba encontrando algumas destas crianças e as perseguindo, encontra uma passagem secreta na ilha, onde quem passa volta no tempo para o dia 3 de Setembro de 1940, lá ele encontra a Srta. Pergrine e suas Crianças, enganando o tempo em um eterno dia que nunca passa e vivendo eternamente longe dos olhares dos humanos. Mas mal Jacob tem tempo de conhecer toda história do avô e já se vê envolto em um conflito maior que ele, os Acólitos e os Etéreos (os monstros citados por seu avô), estão sequestrando todas Ymbrynes (guardiãs das crianças e que manipulam o tempo) para executarem um plano que os tornarão cheios de poder e imortalidade e com a ajuda de Jacob, as crianças vão buscar se defender e frustrar as expectativas dos monstros.

Não vou mentir para ninguém aqui. Eu peguei esse livro para ler por duas questões em especial: O título e o selo na capa dizendo que era uma das cem obras mais importantes da história.
O título do livro faz total menção à “Escola para jovens superdotados do Professor Xavier”, do mesmo modo que as criança “peculiares” não são diferentes dos mutantes presentes nos X-men e esse conceito copiado é tão claro até no nome que o autor escolhe para designar os inimigos desses peculiares, “Acólitos”, o mesmo nome dos seguidores do mutante rebelde Magneto. O pensamento dos acólitos de Ransom Riggs também não é diferente da forma de pensar do arqui-inimigo dos X-men, acreditando que os peculiares são superiores aos humanos e que devem governa-los, enquanto as ideias das Ymbrynes, seguem as do professor Xavier, pregando uma convivência pacifica, mas se resguardando e protegendo dos olhares curiosos dos humanos.

Ainda sobre cópia de conceitos, o livro tem fatos que parecem ser referir a Harry Potter. Para começar temos o sobrenome do protagonista, Portman, total referência ao protagonista da obra de J.K Rowling. Além disso, ainda temos a questão de que as crianças peculiares se escondem em uma fenda no tempo onde apenas quem é peculiar pode atravessar, tal qual a conhecida dos bruxos em Hogwarts, mas não dos trouxas, e, para terminar, Jacob é o escolhido que salvará os peculiares e derrotará os Etéreos (excelente!).
Sobre o fato de o livro ser escolhido uma das cem obras literárias mais importantes de todos os tempos, eu fico pensando quem escolheu? Em um mundo com obras de Tostoi, Dostoieviski, Machado de Assis, Jorge Amado, Phillip K. Dick, Isaac Asimov, Clarice Lispector, J.K Rowling, entre tantos outros, quem escolheu um livro cheio de conceitos copiados e história rasa, como uma obra que merece estar no mesmo nível desses autores que foram infinitamente mais relevantes e nos entregaram trabalhos, se não geniais, pelo menos brilhantes?

Realmente não entendi o que nesse livro o colocaria entre os cem mais da história. Para começar a única inovação é o fato de o autor introduzir fotos dos personagens no livro e o curioso é que descobrimos ao final que as fotos apresentadas são reais e antigas, cedidas por colecionadores que colaboraram no projeto, o que faz pensar que a história é uma colcha de retalhos baseada em imagens e conceitos que não são de quem escreveu. Já falando como é escrito, o autor não inova em nada, usando uma narração em primeira pessoa, o protagonista inicia a história dando a entender que os acontecimentos citados são lembranças e isso tira bastante peso dos perigos que acontecem com ele, o pior é que por vezes o protagonista usa analogias e referências que não fazem sentido na boca de um moleque de dezesseis anos, como quando ele diz que uma situação se assemelhava a uma pintura de Normam Rockwell, ou ainda quando ele descreve o rosto da peculiar Emma como sendo Belo e alvo... Poxa!! Quem está preso no tempo são os peculiares e não ele.

Sobre o protagonista, o Sr. Portman é um babaquinha, humilha o único amigo que tinha em sua cidade e não se arrepende, descreve o próprio pai como um fracassado e mãe uma esnobe, o autor ainda o coloca como um rico herdeiro de uma rede de farmácias, para facilitar o fato de o chatinho ter de atravessar o mundo para encontrar seu destino. Ele descobre, depois de mais de noventa páginas, que também é um peculiar e seu poder é ver os Etéreos... ou seja, seu poder é o mais inútil e específico do mundo e mesmo assim ele é o escolhido... Por favor, senhor escritor, por favor!!
Sobre a trama, tudo parece muito bobo. Começando pelos vilões que segundo o que e contado, eram peculiares que tentaram se transformar em imortais e acabaram se transformando em monstros. A Sr. Peregrine conta que se esses Etéreos comerem muitos peculiares (com a boca), transformam-se em Acólitos, que são visíveis e tem forma humana, exceto pelo fato de não possuírem pupilas e conseguem se transformar em outros humanos e ... só! Ajudando os outros Etéreos que ainda são monstros a caçarem mais peculiares, para depois... Viver como humanos sem pupilas, eu acho.
novela Olho no olho
Mas o pior são as Ymbrynes, para mim as verdadeiras vilãs da história, Elas tem o poder de manipular o tempo e fazer com que os peculiares que se escondem lá vivam para sempre, mas repetindo eternamente o mesmo dia, tendo a mesma idade (a maioria pré-adolescente) e sem perspectiva de nada, o pior é que, se depois de muito tempo o peculiar resolve viver no tempo real, ele envelhece tudo de uma noite para o dia, podendo morrer no processo... Não é sacanagem?! Quem tomou a decisão de trancar essa criançada lá? E o mais importante, se a maioria dos peculiares está escondida em fendas temporais e vivem coo crianças, como eles se reproduzem? ... Quer saber?! Deixa pra lá!


Com uma história boba até para o público alvo, com conceitos copiados e personagens pouco carismáticos “O orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs, entra para minha lista de livros que poderiam ser bem mais e são mais do mesmo. Uma repetição de clichês e decisões de roteiro que parecem tratar quem lê como um idiota, uma mistura de Harry Portter e X-men que saiu estragada e o pior é que o livro é o primeiro de uma séria, afinal, a tradição é escrever três, seis, nove livros da mesma saga, pois se não for assim, não é Fantasia, mas pra mim um já foi de mais, se é para perder meu tempo com crianças para normais, que sejam as originais do Professor Xavier, ou os  da novela “Olho no olho” da Globo.


Abaixo o Trailer dos Novos mutantes, digo Orfanato da Srta Peregrine

  

quinta-feira, 16 de junho de 2016

PERDIDO EM MARTE - O livro

Quem me conhece sabe o quanto sou fã de ficção científica. Gosto do estilo, em parte, pelo escapismo que ele me trás quando leio, fugir do cotidiano em uma história que me apresenta um universo que se diferencia do nosso me ajuda a relaxar e exercitar a imaginação; por outro lado, o modo como alguns autores conseguem pensar fora da caixa , questionando nossa sociedade e resolvendo problemas imaginativos é o que me fascina nesse tipo de literatura. E,nesse segundo quesito, poucos livros foram uma surpresa tão bacana como "Perdido em Marte" de Andy Weir, que li recentemente.

"Perdido em Marte", conta a história de Mark Watney, décima sétima pessoa a pisar no planeta vermelho e sexto em hierarquia da tripulação de seis pessoas da Ares-3, formado em Botânica e Engenharia, suas funções na expedição consistiam em coletar amostras de solo e efetuar reparos em casos de necessidade. A missão da Ares-3 vinha sendo realizada com sucesso até que no sexto dia uma tempestade, que põe em risco a tripulação, força os mesmos a abortar a missão e, durante o processo de retira, Watney é atingido por uma antena que se solta do alojamento e dado como morto; no meio da tempestade e sem conseguir encontrar o corpo do suposto falecido, a equipe evade do planeta. Watney acorda horas depois, com uma antena presa na lateral de seu corpo e um planeta inóspito todinho para chamar de seu, restando os suprimentos que sobraram da missão e sua inteligência para ajuda-lo a sobreviver e buscar contatar a NASA na esperança de ser resgatado.

Soube que "Perdido em Marte" ( ou "The Martian", no original) era um livro, apenas quando, no Oscar, o filme baseado nele concorreu a melhor roteiro adaptado. Vi o filme por causa da direção de Ridley Scott, que eu sentia que estava em débito comigo desde "Prometheus" e fiquei contente com o que vi, um filme inteligente mas divertido, leve sem deixar de ser dramático e muito bem conduzido pelo diretor de clássicos como "Blade Runner" e "Alien", acontece que o livro eleva tudo que se vê no filme a nona potência.
Andy Weir escreve de forma que parece tão fundamentada, que foi a primeira vez que um livro de ficção científica conseguiu me convencer que tudo que ocorria em suas linhas poderia ser verdade. Para começar com a quantidade de explicações científicas que ele utiliza para informar como que cada evento ocorrido com Watney é superado, só isso mostra um trabalho de pesquisa incrível por parte do autor e um talento para didática empolgante, porque ele consegue transformar física e química em algo divertido e prático, e que, embora seja apresentado como elemento de narrativa ( e por isso superficial), fazem até um cara como eu de humanas, achar o assunto fascinante. Outra qualidade do autor que o livro trás é a imaginação da evolução das tecnologias atuais, ele evolui muitas tecnologias que já estão em uso ou teste e além de descreve-las, as mostra sendo utilizadas na história, isso o coloca em um nível bem auto de futurólogo e já fico imaginando quando chegarmos a Marte as pessoas dizendo "Olha aí, o Andy Weir estava certo!".

Outra coisa que me surpreendeu no livro foi a quantidade de problemas a serem resolvidos pelo protagonista. Meu Deus!! se fosse eu morreria em duas horas. O cara tem que calcular e racionar comida, energia, oxigênio, Gás Carbônico, pensarem como produzir alimento, modificar o veículo de exploração, se comunicar com a terra, aprender código morse e sobreviver as músicas e séries dos anos 70 e tudo isso na maior parte do tempo sem uma única pessoa (ou tutorial do Youtube) para ajudar, é um livro que realmente utiliza a ciência como grande estrela e isso o torna um em milhões, porque embora seja ficção científica, a ciência é muito real, muito pé no chão; o autor poderia colocar a história para daqui a trezentos anos e assim focar no drama humano ou sociedade e tratar a questão da viagem espacial como alegoria, mas ao contrário disso, seu foco é total na ciência e isso da mais valor a leitura de sua obra.



Além do citado acima, o livro ainda é muito bem humorado. Mark Watney é uma figuraça que mesmo sozinho a milhões de quilômetros de casa, nunca perde o bom humor e a esperança. Seus monólogos questionando até onde suas gambiarras vão aguentar são pontuais para dar aquela aliviada em momentos onde a história usa muitos termos técnicos e explicações científicas, e, suas conversas com a terra e a nave Ares-3, após ele conseguir contato novamente, contém tantas piadas e sarcasmos que é impossível não colocoar um sorriso no rosto de quem está lendo, deixando além de tudo uma mensagem de otimismo e bom humor aliada a inteligência e razão.

A forma como o autor conta a história ajuda demais a colocar o leitor dentro da história, embora por vezes canse um pouco. Andy Weir utiliza uma narração em primeira pessoa em formato de diário e isso reforça a sensação de solidão do protagonista nas primeiras cinquenta páginas do livro, mas confesso que essa solidão me incomodou um pouco a principio porque me dava uma agonia ao querer saber como seus companheiros e a equipe na terra estavam reagindo com sua "morte", para o meu alívio, depois de uma parte do livro somos apresentados a essas reações e opiniões dos outros ambientes da história e aí a trama engrena em uma sucessão de ideias e pontos de vista que dão ainda mais riqueza ao livro.

Essa escolha por, primeiramente apresentar toda solidão e escolhas do protagonista, é muito inteligente, porque gera uma empatia tremenda com Watney; no inicio do livro estamos tão perdido quanto o astronauta e mal sabemos como o acidente que o isolou em Marte ocorreu, o fato só é explicado no meio do livro, em um flashback que nos da deslumbres da personalidade de toda equipe, nos fazendo simpatizar por eles e apoia-los em suas decisões. A partir daí, a tensão que o texto segue faz com que um capítulo (ou sol) seja devorada compulsoriamente, só parando quando a última palavra é lida, uma construção de texto realmente hipnotizante.


Como já mencionei acima, "Perdido em Marte" é um ótimo livro. Inteligente, engraçado e bem escrito ,dá muito mais profundidade a história contada no filme e dentro dessa leva nova de ficção científica o coloco como obrigatório. Sua construção e narrativa parecem muito mais o trabalho de um escritor experimentado do que o primeiro trabalho de um jovem engenheiro de software e esse é outro fato que surpreende e me alegra como fã de ficção científica, a percepção de que o estilo vem renovando e a esperança de descobrir mais livro como este, assim como a expectativa dos próximos trabalhos de Andy Weir. Em resumo, "Perdido em Marte" é um livrão e recomendo demais e a propósito, Alguém poderia me dizer por que o Aquaman controla baleias? Elas são mamíferos... não faz sentido!!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

CURTINDO A VIDA ADOIDADO (1986) #esquerda_rewiew 3

Dia 11 de Junho de 1986, estreava nos cinemas o filme que viria a se tornar o maior clássico da sessão da tarde de todos os tempos, ”Ferris Bueller’s day off”, ou como ficou chamado no Brasil “Curtindo a vida adoidado”, e eu, que tive minha personalidade moldada pela TV dos anos oitenta (e isso explica minhas piadas sem graça e respostas sem sentido), não poderia deixar passar em branco o trigésimo aniversário dessa obra prima.

O filme foi escrito e dirigido por John Hughes, famoso cineasta responsável por muitos filmes de temática jovem dos anos oitenta como “Gatinhas e gatões” e “O clube dos cinco”, além de escrever o roteiro de “Esqueceram de mim” e, estrelado por Matthwel Broderick no papel de Ferris Bueller, um adolescente do último ano do ensino médio que, ao saber que sua entrada na faculdade pode estar sendo ameaçada pela sua infrequência nas aulas, resolve matar aula pela última vez e convoca sua namora e seu melhor amigo para aproveitarem o que há de melhor na cidade vivendo altas aventuras.
Para começar eu acho “Curtindo a vida adoidado” um clássico não por ser um filme com um roteiro fantástico ou com parte técnica intocável, como um “psicose”, “Cidadão Kane” e “Ikiru”,  o filme é um clássico porque é um daqueles que todo mundo ou  já ouviu falar, ou já assistiu; uma obra tão marcante, que coloquei a sinopse apenas por obrigação porque todo mundo conhece a história.

Um dos responsáveis por criar essa marca foi Matthwel Broderick com uma atuação tão estupenda, que soterrou todos outros papéis que o ator veio a fazer depois. Sempre enxerguei o Ferris apresentado por Broderick como um super-herói, muito além dos problemas das pessoas comuns e talvez esse seja o motivo dele ser tão lembrado e tão referenciado, Ferris não tem dúvidas, não demonstra medo nem quando se depara com o pai no táxi ao lado ou com o diretor na porta de casa, além de ter um talento de convencer qualquer pessoa, cativar  todos com quem tem contato e ser querido por todo mundo; se ele falasse apenas com Cameron (seu melhor amigo) se poderia dizer que Ferris é uma criação da cabeça do amigo e que nem existe, tal qual sua falta de dificuldade que tem em tudo. Falando em Cameron, depois de reassistir “Curtindo a vida adoidado” fiquei pensando que ele é, de certa forma, o verdadeiro protagonista, pois a jornada dramática é toda dele e é ele quem tem a grande mudança ao final do filme, pois, ao contrário de Ferris que é só vitória, ele tem todas dificuldades do mundo, seus pais não se importam com ele, ele está sempre doente, tem medo de tudo, não tem personalidade e depois de um dia vivendo tudo que a cidade tem a oferecer e destruir uma Ferrari, termina a história mais decidido e disposto a enfrentar suas dificuldades de frente.

Ainda sobre esses dois personagens, a própria amizade de Ferris e Cameron não faz muito sentido. Ferris, como diz a secretária do diretor, é amado pela equipe de xadrez e pelos jogadores de futebol americano, sua amizade com uma cara depressivo e apresentado como uma das pessoas menos legais da escola como Cameron é algo irreal. A não ser que sua amizade com um cara tão destoante de si seja para, em comparação com seu amigo, parecer que ele é ainda mais brilhante do que já é, e prestando a atenção em Bueller no filme isso parece crível, pois quando ele está ao lado de Cameron parece se destacar ainda mais com o que apronta, sem contar que o amigo é rico, sem personalidade e tem acesso aos carros do pai, o que o torna útil; essa teoria é de fácil aceitação porque prestando atenção nos detalhes percebemos que Ferris é um tremendo FDP e isso fica claro ao pensar que ele hackeia o sistema da escola para deletar suas faltas, mente para seus pais para poder matar aula, manipula Cameron, humilha o metre de um restaurante e sai sem pagar, além de  ridiculariza o diretor da escola em que estuda, mas quem se importa, todo mundo adora filme e série de vilão, afinal, quem é que prefere o Luke Skywalker em comparação com o Darth Vader?


O filme ainda é inovador ao utilizar a quebra da quarta parede como nunca havia sido feito antes. Os trechos onde vemos o protagonista sair do ambiente onde se desenrola a trama, olhando para o espectador e falando sobre a situação são tão marcantes, que renderam referências e homenagens em filmes como “Clube da luta” e “Deadpool”, esse último plagiando por completo a cena pós-créditos do filme de 1986, sem precisar explicar nada, o que mostra como o filme foi marcante.
Outra coisa que marcou no filme foi a trilha sonora. O filme possui uma trilha sonora espetacular, que ficou lembrada por duas músicas em especial: a música “Oh Yeah!” do grupo “Yello”, que toca também em “Akira” e “Twist and Shout” dos Beatles; Essa última a propósito, lembro que na segunda-feira após a primeira vez que o filme foi exibido na globo (no supercine, e eu assisti), um músico foi convidado pelo jornal do almoço ( o jornal do meio-dia aqui no RS) para comentar sobre a versão da música do filme, acredite ou não! Além desses dois temas, o filme ainda toca “Danken Shoen” de Wayne Newton, como uma homenagem ao que é a vida onde se agradece por todo prazer e dor que fazem nossa existência fazer sentido, muito bacana!

O filme ficou lembrado ainda por sua “filosofia”, que hoje é tida como autoajuda meio piegas. Mas a frase “a vida passa muito rápido, se você não aproveitar ela vai acabar e você não vai ver.”, ainda ecoa na cabeça de muita gente que envelheceu assistindo ao filme e que depois de uma semana de trabalho mecânico, se pergunta qual a esquina que entrou por engano e resultou em uma mesa cheia de documentos e nenhuma expectativa (incluindo este que vos fala), Assim como a visão que o filme trás dos adultos caricaturados, que parecem meio bobos em seus serviços que parecem não entender e cumprindo suas obrigações que pouca gente se importa (como muita gente que eu conheço).
Como já disse acima, tive a honra de assistir a primeira vez que “Curtindo a vida adoidado” passou na Rede Globo, acho que em 1989 ou 90. O filme foi exibido no Supercine e lembro que o assunto da aula no outro dia era a parte do desfile onde ele cantava a música dos Beatles e a novidade que era de o personagem falar conosco que estávamos assistindo ao filme. De lá para cá o filme foi exibido mais ou menos setecentas vezes na sessão da tarde, o termo “save Ferris” se tornou nome de banda, camisetas com as frases do filme foram feitas e roteiros para a sequência imaginados e escritos, mas a originalidade do filme de 1986 nunca foi esquecida e superada e penso que uma sequência seja impossível.
Falando sobre a originalidade do roteiro do filme, uma coisa que pouca gente sabe é que a versão original do filme tinha uma hora a mais e que, após ser exibida apenas para os atores e executivos do estúdio e ninguém rir, ou entender o filme, John Hughes, se reuniu com seu montador e reduziu o filme ao mínimo, excluindo várias sub-tramas, incluindo o fato de que Ferris tinha mais dois irmãos (MAIS DOIS IRMÃOS) , o fato só mostra a genialidade do diretor que conseguiu montar um filme de sucesso de uma versão inicialmente fracassada.
“Curtindo a vida adoidado” é um clássico e Tudo mais que eu falar será redundância. Uma comédia referenciada em muitos outros sucessos do cinema, séries e publicidade, repleta de força, ironia, deboche e (para honrar a sessão da tarde) altas aventuras. O papel da vida de Matthew Broderick e a obra prima de John Hughes, genial no que tange a idealização de uma geração, inovador no que diz respeito a narrativa, engraçado e inspirador, para resumir, um filmaço! Nada mais me resta  a dizer a não ser Parabéns e SAVE FERRIS.


Ainda estão aí? Acabou! Vão pra casa... vão !!