sábado, 16 de julho de 2016

NINJAS (CURTA -2010) - Sim! O cinema brasileiro pode.


Já falei aqui da minha experiência ao assistir o filme argentino "Relatos Selvagens" e do questionamento que ficou na minha cabeça de por que no Brasil filme do mesmo quilate não são possíveis. Nosso país parece dar exclusividade a produções que falam de conflito social, comédias românticas e cinebiografias, afastando do cinema o público que procura diversidade de temas e experiências. No entanto, se no cinema Mainstream tudo parece mais do mesmo, as produções independentes representam uma luz no fim do túnel para o cinema nacional e, em resposta a meu próprio questionamento, eu queria falar hoje sobre uma produção nacional que achei espetacular, "NINJAS" dirigida pelo promissor cineasta Dennison Ramalho.


"Ninjas" conta a história de Jailton, um policial novato, que em perseguição a um suspeito pelas vielas de São Paulo acaba matando, por engano, um estudante. Coagido por seu parceiro de viatura, ele ajuda a forjar uma cena onde demonstra agir em legítima defesa responsabilizando a vítima. Após o assassinato, a culpa toma conta de Jailton que passa a ser assombrado pela figura do menino morto, entrando em desespero e tendo ataques de pânico; para cura-lo de seu problema, o comandante de seu batalhão o leva para um tratamento de choque, que trará paz a sua consciência ao mesmo tempo que destruirá sua humanidade.

O filme de vinte e cinco minutos que estreou em 2010, é baseado no conto "O Bom policial" (link do conto na íntegra abaixo), do escritor Marco de Castro. Ex-repórter policial, Marcos de Castro acompanhou a guerra das favelas Paulistas e a rotina da violência nas noites da maior cidade do país quando trabalhava no Diário de São Paulo e resolveu usar sua experiência como inspiração para contos de terror.

O curta, que custou sessenta mil Reais, foi estrelado por Flávio Bauraqui, que recebeu o prêmio de melhor ator no festival de cinema de Gramado, por sua atuação como o inexperiente PM Jailton. A produção foi co-roteirizada e dirigida por Dennison Ramalho, diretor Gaúcho natural de Porto Alegre, que vem se tornando um expoente em produções do gênero de terror no país; antes de "Ninjas", o diretor já havia roteirizado e dirigido o curta "Amor sé de Mãe" em 2003 e escrito o roteiro do filme "Encarnação do Demônio" de José Mojica Marins (o Zé do Caixão), após "Ninjas", o diretor partiu para um mestrado sobre roteiro e direção na universidade de Nova York buscando o conhecimento para, quem sabe em breve, apresentar produções do mesmo nível, ou melhores, que o seu filme de 2010.

"Ninjas" é um exemplo de que as produções nacionais podem sim possuir a mesma qualidade das tão badaladas produções estrangeiras, assim como deixa claro que nosso cinema não precisa trilhar sempre o mesmo caminho e abordar temas considerados batidos mas sem, no entanto, perder sua alma. Basta agora que a industria mainstream perceba o potencial de produções como esta e as financiem a iniciativa de modo a tornar, futuramente, o cinema brasileiro uma indústria rentável e auto-suficiente. Enquanto esse dia não chega, só nos resta prestigiar as produções independentes e torcer para que diretores como Dennison Ramalho sigam apresentando filmes de qualidade e pensando fora da caixa para nos entregar filmes que falem com todos os públicos, mas sem perder o jeitinho e a cara do cinema brasileiro.


"UM BOM POLICIAL" – Conto completo publicado na revista Vice:


" NINJAS" – Curta completo disponível no Vimeo:


quinta-feira, 14 de julho de 2016

RIVER (série 2015)

Feliz e triste, empolgado e deprê. Essa mistura estranha foi o que senti quando acabei de assistir “River”, uma produção da BBC, estrelada pelo ator sueco Stellan Skargard, criada e escrita por Abi Morgan e dirigida por Richard Laxton, que comecei a assistir sem pretensão nenhuma na Netflix e que me ganhou nos primeiros quinze minutos do episódio piloto.

"River” conta a história de John River (Skargard), um detetive de Londres que lutará para solucionar o assassinato de sua parceira Jakie Stevenson (Nicola Walker), mesmo afastado do caso devido a seu envolvimento pessoal e assombrado pelo fantasma da amiga morta. Essa investigação o levará aos poucos a enfrentar seus problemas pessoais e questionar sua sanidade, colocando sua carreira em risco e o confrontando com verdades esmagadoras.



Conhecia a série seguindo as ótimas dicas do podcast Mamilos e, como citei acima, comecei a assistir sem nenhuma pretensão, mas em menos da metade do primeiro episódio eu já estava rendido ao que a trama me mostrava, começando pela atuação brilhante de Stellan Skargard. O ator sueco está muito bem na produção, transmitindo seriedade, medo, fragilidade, fúria e dúvida; e o mais bacana é que muito do que ele passa para o espectador não é expresso por palavras, mas através do olhar ou de seus movimentos e até de sorrisos; confesso que sempre que ele tinha um dialogo eventual com a “fantasma” de sua colega que terminava em uma boa risada eu os seguia e me via rindo feito bobo na frente do computador.

Essa química entre o protagonista e sua parceira e a atuação de Nicola Walker como a falecida, mas sempre presente Jakie Stevenson foram outros pontos fortes da série. Nicola parece iluminar o ambiente quando sempre que presente, munida apenas de seu sorriso largo, grande olhos verdes e muito bom humor; confesso que foi a cena onde ela provoca o protagonista no episódio piloto cantando o clássico de Tina Charles “I love to love”, que me cativou para ver a série toda em uma maratona.

Além das atuações, a série ainda tem a maravilhosa trilha sonora que traz uma mistura de nostalgia e empolgação utilizando pontualmente hits da era disco como a já citada “I love to love” e clássicos da soul music como “Sunny” cantada por Bobby Hebb. Temos também a apresentação de uma sociedade londrina moderna e representativa, onde a capitã da polícia é uma mulher forte, porém com problemas com seus filhos e marido, mas sem perder sua feminilidade; o novo parceiro de River, Ira King é filho de imigrantes do oriente médio e toda trama de fundo toca no assunto de imigração e busca por condições melhores de vida, o que achei que deu um ar de realidade moderna a série.

Sobre a história, não vou revelar nada sobre a trama central da série, pois se eu contar tudo se perde, mas posso dizer que as revelações finais sobre o que levou a detetive Stevenson à morte são esmagadoras e a identidade do assassino e o motivo dá um amargo na boca. Mas durante as investigações da morte de sua parceira, River ainda segue trabalhando e resolvendo casos paralelos e estes são bem bacanas, como o suposto assassinato de uma menina por seu namorado e a tentativa de suicídio de um empreiteiro no local de trabalho. Junto a isso ainda temos as reveladoras sessões de análise que o protagonista é forçado a comparecer e que vão nos apresentando o perfil do personagem, sua origem e crenças sem que seja necessário algum artifício como narração em off ou explicação pelos olhos de uma terceira pessoa, o que é revelador para saber o porquê do personagem ser do jeito que é, principalmente nos episódios finais.


River é uma excelente série e está ali na Netflix a pleno alcance dos dedos e fechadinha em apenas seis episódios. Me proporcionou muitas horas de diversão, suprindo minha carência de Game of thrones e me tornou fã do ator Stellan Skargard. Brilhante em roteiro, embora não seja inovador; policial investigativa que prioriza a inteligência dos personagens em relação a violência e apresenta uma visão cosmopolita e realista da sociedade. Torço para que mais dessas produções cheguem até nós, mas enquanto não chegam, vou ficar por aqui curtindo esse mix de sentimentos que a série me proporcionou e cantando “I love to love”.

terça-feira, 5 de julho de 2016

RELATOS SELVAGENS (2014)

"Por que o cinema brasileiro não consegue se desvincular da situação politico-social do país e entregar produções que conversem com qualquer ser humano?", Essa foi a pergunta que minha mente repetia em looping ontem ao assistir "Relatos selvagens", brilhante filme argentino de 2014, dirigido por Damián Szifron e estrelado por um grande elenco, que foge a tudo que o nosso cinema tupiniquim vem apresentado desde sempre e é tão bom, que dá raiva ter de dizer que essa obra de arte é uma produção de nossos hermanos.

O filme reúne seis histórias curtas e independeres, que se conectam por tratarem do mesmo assunto, a vingança. Durante duas horas de dez minutos somos levados a nossos limites de tensão com tramas que por vezes são tão exageradas e sínicas que poderiam muito bem ser verdadeiras, da mesma forma que os diálogos são tão bem construídos, tão humanos, bem atuados e dirigidos que tanto assistido na Argentina, Japão ou sudão, é impossível que os sentimentos e atitudes dos personagens presentes nas histórias não transcendam qualquer questão social, religiosa e política e calem fundo no espectador.

Na primeira dessas histórias, que podemos entender como o prólogo de um livro, vemos uma modelo pegando um avião e em uma conversa informal descobrindo que o passageiro ao lado conhece seu ex-namorado, assim como a senhora sentada a sua frente, que foi sua professora e o do acento atrás que foi seu colega de serviço e, no final, descobre-se que todos reunidos nesse voo são conhecidos desse homem que, de tão desprezado, não tem nem ao menos seu rosto revelado na história onde deveria ser o protagonista. Pois esse ninguém, arquitetou um plano de dar fim a todos que o magoaram em sua vida: jogar o avião que pilota (ele é comissário de bordo, e sequestra o avião) sobre a casa de quem mais o frustrou e o exigiu, seus próprios pais! E assim ele faz; dando inicio ao filme de maneira chocante e mostrando a quê veio. Mas não se desespere pelo spoiler (que serão poucos) eu poderia falar tudo sobre esse filme e mesmo assim ao assisti-lo pareceria que ninguém disse nada, pois ele consegue de maneira primorosa, passar uma tensão e suspense que mesmo sabendo o que vai acontecer não se pode deixar de sentir ; a narrativa com a qual o diretor conduz a trama, apresentando uma situação aparentemente corriqueira e que muitos desavisados levarão para outro lado, mas que resultará em um acontecimento terrível e lapidada sutil e pacientemente, utilizando de todos elementos disponíveis para prender quem assiste duro na poltrona, então temos a excelente fotografia e cortes de câmeras e a música, que muda do tom de tranquilidade para de terror e suspense. (muito bom).

Além desse conto inicial, ainda temos "Ratazanas ", onde uma garçonete encontra no trabalho, em uma noite chuvosa e sem nenhum outro cliente, o agiota que destruiu sua família e deve decidir, se segue o conselho da cozinheira e envenena o sujeito, ou baixa sua cabeça para sua consciência e segue sua vida. Também temos a história intitulada "Bombinha", em que um engenheiro (interpretado por Ricardo Darín (se ele não estiver em um filme Argentino é porque não é um filme argentino)), após ter seu carro rebocado duas vezes pelo serviço de trânsito de Buenos Aires e obrigado a arcar com multas que ele não concorda, vê sua vida desmoronar e resolve dar o troco na sociedade. Seguindo as histórias o filme apresenta "A proposta", onde o filho de um casal de milionários, após sair de uma festa, atropela e mata um mulher grávida, fugindo sem prestar socorro, sendo que o pai do jovem chama seu advogado para buscar uma solução antes de a Polícia identifique o condutor, parte daí um plano para retirar a responsabilidade das constas do jovem, onde todos os envolvidos vão se mostrando corruptos e no final temos as consequências. Ainda temos "Até que a morte nos separe", onde durante a festa de casamento, a noiva descobre que seu marido a traia com uma colega de serviço e que a convidou para o evento, despertando na noiva o mais intenso e destrutivo desejo de vingança e demonstração de dúvida quanto a seus caminhos, o que , somado a traição, põe em risco a história do casal, ou não.


No entanto, dentre todas as seis histórias que o filme trás, a que mais gostei foi a intitulada "O mais forte". Nessa história vemos um cidadão transitando por uma estrada deserta com um carro novinho e de repente se vê barrado por um velho carro que segue lentamente a sua frente em zig-zag, incomodado o motorista do carrão ultrapassa o outro pela direita, mas não sem antes, abrir a janela e gritar uns desaforos e dar o dedo do meio ao que ficava para trás. Mas o mundo dá voltas e alguns quilômetros depois do ocorrido, chegando em uma ponte no meio do nada, um dos pneus do carrão fura e ele é alcançado pelo carro velho do motorista desrespeitado, que vai tirar satisfação da maneira mais extrema possível, trincando o para-brisa do carro do inimigo, arrancando o limpador de para-brisa e o retrovisor, e, depois de tudo defecando e urinando em seu capô; mas após completar sua vingança, a vítima se enfurece e quando o agressor entra em seu carro este acelera e atira o carro velho com seu motorista da ponte e foge enquanto seu inimigo sai do meio dos destroços e parte para cima dele. Passam-se poucos metros e o dono do carrão, sabe que mesmo fugindo ele pode ser encontrado, resolve voltar e terminar o serviço matando seu rival, no entanto, nessa tentativa ele acaba caindo no rio também e ficando preso no carro destruído de seu inimigo, é quando esse adentra o carro pelo porta malas com um pé de cabra em mãos, enquanto dentro o outro se prepara segurando um extintor e aí a porrada come solta e depois de muita pancada, o rustico dono do carro velho consegue amarrar o pescoço do adversário com o cinto de segurança e forçando a porta o deixa pendurado pelo pescoço para morrer enforcado e na fuga coloca uma bucha com fogo na boca do tanque de combustível, mas o dono do carrão, mesmo enforcado não se entrega e puxa seu desafeto para dentro do carro e de repente BUMMM!! o carro explode. A cena corta e vemos a perícia no local perplexa com a situação, então um dos responsáveis questiona "Será que foi um crime passional?" então vemos, o corpo dos dois homens abraçados e carbonizados. Ambos preferem perder a vida juntos do que baixar a cabeça e esquecer seu inimigo eventual, acabam mortos muito mais pelo seu próprio orgulho do que pelas mão de seu antagonista.

O Mai forte
Além de um roteiro primoroso e atuações e direção brilhante, o filme ainda conta com uma trilha sonora muito pontual, que vai desde música clássica até o trance (seja lá o que for isso) e que oscila conforme a tensão cresce na trama. O filme também trás uma fotografia maravilhosa e uma palheta de cores que acompanha o clima de cada história, assim como cenários fantásticos e escolhas de narrativa que cabem perfeito para cada história, como o plano sequência na história inicial, ou as cenas picotadas e em câmera lenta no conto do engenheiro bombinha. O que dizer mais? O filme é uma obra prima!

"Relatos selvagens" é um filmaço que merece e deve ser assistido. Uma aula de cinema repleto de tensão, ira e beleza; um resumo de tudo que o áudio-visual pode proporcionar no que se refere a sentimentos ao espectador, um filme que vai além do idioma, da sociedade e situação política de seu país de origem e que deveria servir de exemplo para nossos cineastas que depois de tanto tempo ainda batem nas mesmas teclas com seus filmes sobre favela, ditadura militar e comédias sem graça, temas regionais e curtos que a indústria do maior país da América do Sul já deveria ter transcendido a muito tempo.

O que me faz perguntar: "Por que o cinema brasileiro não consegue se desvincular da situação politico-social do país e entregar produções que conversem com qualquer ser humano?"

domingo, 26 de junho de 2016

O ORFANATO DA SRTA. PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES ( O livro)

Não sou muito de ficção fantástica. No meu currículo tenho apenas os livros e filmes do “Senhor dos anéis” e a série “Game of Thrones”, mas não desprezo o gênero e se surge algo que chame minha atenção vou buscar conhecer. Foi por essa curiosidade que comecei a ler “O orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs, logo após de assistir ao trailer do filme baseado na obra que sairá este ano e ver estampado na capa da edição brasileira, que o livro foi eleito uma das cem obras mais importantes da literatura de todos os tempos.

O livro conta a história de Jacob Portmann, um garoto de dezesseis anos, rico e entediado, que tem o avô, um veterano da segunda guerra, como grande amigo e ídolo. Desde criança Jacob ouve as histórias de seu avô sobre a ilha mágica onde foi criado, repleta de crianças com dons fantásticos (ou peculiares) e protegidas pela dedicada Srta. Peregrine, um lugar no país de Gales, onde ninguém adoece ou morre; ouve também relatos sobre monstros terríveis que caçavam essas crianças. Com o passar dos anos, Jacob passa a tratar as histórias de seu avô como fantasia e acreditar em sua senilidade, até o dia em que recebe uma ligação desesperada deste dizendo que os monstros o acharam, parte ao seu auxílio, por achar que é um ataque de loucura e o encontra morto na floresta, com marcas de ataque de animais, mas em meio a tudo visualiza uma criatura semelhante à descrita a ele nas histórias que ouvia quando criança.

Após meses de acompanhamento psiquiátrico, Jacob descobre na casa do avô falecido cartas remetidas do país de Gales e convence seu pai a acompanha-lo até a ilha onde o avô se refugiou quando criança, na esperança de descobrir mais sobre o passado deste. Nisso ele acaba encontrando algumas destas crianças e as perseguindo, encontra uma passagem secreta na ilha, onde quem passa volta no tempo para o dia 3 de Setembro de 1940, lá ele encontra a Srta. Pergrine e suas Crianças, enganando o tempo em um eterno dia que nunca passa e vivendo eternamente longe dos olhares dos humanos. Mas mal Jacob tem tempo de conhecer toda história do avô e já se vê envolto em um conflito maior que ele, os Acólitos e os Etéreos (os monstros citados por seu avô), estão sequestrando todas Ymbrynes (guardiãs das crianças e que manipulam o tempo) para executarem um plano que os tornarão cheios de poder e imortalidade e com a ajuda de Jacob, as crianças vão buscar se defender e frustrar as expectativas dos monstros.

Não vou mentir para ninguém aqui. Eu peguei esse livro para ler por duas questões em especial: O título e o selo na capa dizendo que era uma das cem obras mais importantes da história.
O título do livro faz total menção à “Escola para jovens superdotados do Professor Xavier”, do mesmo modo que as criança “peculiares” não são diferentes dos mutantes presentes nos X-men e esse conceito copiado é tão claro até no nome que o autor escolhe para designar os inimigos desses peculiares, “Acólitos”, o mesmo nome dos seguidores do mutante rebelde Magneto. O pensamento dos acólitos de Ransom Riggs também não é diferente da forma de pensar do arqui-inimigo dos X-men, acreditando que os peculiares são superiores aos humanos e que devem governa-los, enquanto as ideias das Ymbrynes, seguem as do professor Xavier, pregando uma convivência pacifica, mas se resguardando e protegendo dos olhares curiosos dos humanos.

Ainda sobre cópia de conceitos, o livro tem fatos que parecem ser referir a Harry Potter. Para começar temos o sobrenome do protagonista, Portman, total referência ao protagonista da obra de J.K Rowling. Além disso, ainda temos a questão de que as crianças peculiares se escondem em uma fenda no tempo onde apenas quem é peculiar pode atravessar, tal qual a conhecida dos bruxos em Hogwarts, mas não dos trouxas, e, para terminar, Jacob é o escolhido que salvará os peculiares e derrotará os Etéreos (excelente!).
Sobre o fato de o livro ser escolhido uma das cem obras literárias mais importantes de todos os tempos, eu fico pensando quem escolheu? Em um mundo com obras de Tostoi, Dostoieviski, Machado de Assis, Jorge Amado, Phillip K. Dick, Isaac Asimov, Clarice Lispector, J.K Rowling, entre tantos outros, quem escolheu um livro cheio de conceitos copiados e história rasa, como uma obra que merece estar no mesmo nível desses autores que foram infinitamente mais relevantes e nos entregaram trabalhos, se não geniais, pelo menos brilhantes?

Realmente não entendi o que nesse livro o colocaria entre os cem mais da história. Para começar a única inovação é o fato de o autor introduzir fotos dos personagens no livro e o curioso é que descobrimos ao final que as fotos apresentadas são reais e antigas, cedidas por colecionadores que colaboraram no projeto, o que faz pensar que a história é uma colcha de retalhos baseada em imagens e conceitos que não são de quem escreveu. Já falando como é escrito, o autor não inova em nada, usando uma narração em primeira pessoa, o protagonista inicia a história dando a entender que os acontecimentos citados são lembranças e isso tira bastante peso dos perigos que acontecem com ele, o pior é que por vezes o protagonista usa analogias e referências que não fazem sentido na boca de um moleque de dezesseis anos, como quando ele diz que uma situação se assemelhava a uma pintura de Normam Rockwell, ou ainda quando ele descreve o rosto da peculiar Emma como sendo Belo e alvo... Poxa!! Quem está preso no tempo são os peculiares e não ele.

Sobre o protagonista, o Sr. Portman é um babaquinha, humilha o único amigo que tinha em sua cidade e não se arrepende, descreve o próprio pai como um fracassado e mãe uma esnobe, o autor ainda o coloca como um rico herdeiro de uma rede de farmácias, para facilitar o fato de o chatinho ter de atravessar o mundo para encontrar seu destino. Ele descobre, depois de mais de noventa páginas, que também é um peculiar e seu poder é ver os Etéreos... ou seja, seu poder é o mais inútil e específico do mundo e mesmo assim ele é o escolhido... Por favor, senhor escritor, por favor!!
Sobre a trama, tudo parece muito bobo. Começando pelos vilões que segundo o que e contado, eram peculiares que tentaram se transformar em imortais e acabaram se transformando em monstros. A Sr. Peregrine conta que se esses Etéreos comerem muitos peculiares (com a boca), transformam-se em Acólitos, que são visíveis e tem forma humana, exceto pelo fato de não possuírem pupilas e conseguem se transformar em outros humanos e ... só! Ajudando os outros Etéreos que ainda são monstros a caçarem mais peculiares, para depois... Viver como humanos sem pupilas, eu acho.
novela Olho no olho
Mas o pior são as Ymbrynes, para mim as verdadeiras vilãs da história, Elas tem o poder de manipular o tempo e fazer com que os peculiares que se escondem lá vivam para sempre, mas repetindo eternamente o mesmo dia, tendo a mesma idade (a maioria pré-adolescente) e sem perspectiva de nada, o pior é que, se depois de muito tempo o peculiar resolve viver no tempo real, ele envelhece tudo de uma noite para o dia, podendo morrer no processo... Não é sacanagem?! Quem tomou a decisão de trancar essa criançada lá? E o mais importante, se a maioria dos peculiares está escondida em fendas temporais e vivem coo crianças, como eles se reproduzem? ... Quer saber?! Deixa pra lá!


Com uma história boba até para o público alvo, com conceitos copiados e personagens pouco carismáticos “O orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs, entra para minha lista de livros que poderiam ser bem mais e são mais do mesmo. Uma repetição de clichês e decisões de roteiro que parecem tratar quem lê como um idiota, uma mistura de Harry Portter e X-men que saiu estragada e o pior é que o livro é o primeiro de uma séria, afinal, a tradição é escrever três, seis, nove livros da mesma saga, pois se não for assim, não é Fantasia, mas pra mim um já foi de mais, se é para perder meu tempo com crianças para normais, que sejam as originais do Professor Xavier, ou os  da novela “Olho no olho” da Globo.


Abaixo o Trailer dos Novos mutantes, digo Orfanato da Srta Peregrine

  

quinta-feira, 16 de junho de 2016

PERDIDO EM MARTE - O livro

Quem me conhece sabe o quanto sou fã de ficção científica. Gosto do estilo, em parte, pelo escapismo que ele me trás quando leio, fugir do cotidiano em uma história que me apresenta um universo que se diferencia do nosso me ajuda a relaxar e exercitar a imaginação; por outro lado, o modo como alguns autores conseguem pensar fora da caixa , questionando nossa sociedade e resolvendo problemas imaginativos é o que me fascina nesse tipo de literatura. E,nesse segundo quesito, poucos livros foram uma surpresa tão bacana como "Perdido em Marte" de Andy Weir, que li recentemente.

"Perdido em Marte", conta a história de Mark Watney, décima sétima pessoa a pisar no planeta vermelho e sexto em hierarquia da tripulação de seis pessoas da Ares-3, formado em Botânica e Engenharia, suas funções na expedição consistiam em coletar amostras de solo e efetuar reparos em casos de necessidade. A missão da Ares-3 vinha sendo realizada com sucesso até que no sexto dia uma tempestade, que põe em risco a tripulação, força os mesmos a abortar a missão e, durante o processo de retira, Watney é atingido por uma antena que se solta do alojamento e dado como morto; no meio da tempestade e sem conseguir encontrar o corpo do suposto falecido, a equipe evade do planeta. Watney acorda horas depois, com uma antena presa na lateral de seu corpo e um planeta inóspito todinho para chamar de seu, restando os suprimentos que sobraram da missão e sua inteligência para ajuda-lo a sobreviver e buscar contatar a NASA na esperança de ser resgatado.

Soube que "Perdido em Marte" ( ou "The Martian", no original) era um livro, apenas quando, no Oscar, o filme baseado nele concorreu a melhor roteiro adaptado. Vi o filme por causa da direção de Ridley Scott, que eu sentia que estava em débito comigo desde "Prometheus" e fiquei contente com o que vi, um filme inteligente mas divertido, leve sem deixar de ser dramático e muito bem conduzido pelo diretor de clássicos como "Blade Runner" e "Alien", acontece que o livro eleva tudo que se vê no filme a nona potência.
Andy Weir escreve de forma que parece tão fundamentada, que foi a primeira vez que um livro de ficção científica conseguiu me convencer que tudo que ocorria em suas linhas poderia ser verdade. Para começar com a quantidade de explicações científicas que ele utiliza para informar como que cada evento ocorrido com Watney é superado, só isso mostra um trabalho de pesquisa incrível por parte do autor e um talento para didática empolgante, porque ele consegue transformar física e química em algo divertido e prático, e que, embora seja apresentado como elemento de narrativa ( e por isso superficial), fazem até um cara como eu de humanas, achar o assunto fascinante. Outra qualidade do autor que o livro trás é a imaginação da evolução das tecnologias atuais, ele evolui muitas tecnologias que já estão em uso ou teste e além de descreve-las, as mostra sendo utilizadas na história, isso o coloca em um nível bem auto de futurólogo e já fico imaginando quando chegarmos a Marte as pessoas dizendo "Olha aí, o Andy Weir estava certo!".

Outra coisa que me surpreendeu no livro foi a quantidade de problemas a serem resolvidos pelo protagonista. Meu Deus!! se fosse eu morreria em duas horas. O cara tem que calcular e racionar comida, energia, oxigênio, Gás Carbônico, pensarem como produzir alimento, modificar o veículo de exploração, se comunicar com a terra, aprender código morse e sobreviver as músicas e séries dos anos 70 e tudo isso na maior parte do tempo sem uma única pessoa (ou tutorial do Youtube) para ajudar, é um livro que realmente utiliza a ciência como grande estrela e isso o torna um em milhões, porque embora seja ficção científica, a ciência é muito real, muito pé no chão; o autor poderia colocar a história para daqui a trezentos anos e assim focar no drama humano ou sociedade e tratar a questão da viagem espacial como alegoria, mas ao contrário disso, seu foco é total na ciência e isso da mais valor a leitura de sua obra.



Além do citado acima, o livro ainda é muito bem humorado. Mark Watney é uma figuraça que mesmo sozinho a milhões de quilômetros de casa, nunca perde o bom humor e a esperança. Seus monólogos questionando até onde suas gambiarras vão aguentar são pontuais para dar aquela aliviada em momentos onde a história usa muitos termos técnicos e explicações científicas, e, suas conversas com a terra e a nave Ares-3, após ele conseguir contato novamente, contém tantas piadas e sarcasmos que é impossível não colocoar um sorriso no rosto de quem está lendo, deixando além de tudo uma mensagem de otimismo e bom humor aliada a inteligência e razão.

A forma como o autor conta a história ajuda demais a colocar o leitor dentro da história, embora por vezes canse um pouco. Andy Weir utiliza uma narração em primeira pessoa em formato de diário e isso reforça a sensação de solidão do protagonista nas primeiras cinquenta páginas do livro, mas confesso que essa solidão me incomodou um pouco a principio porque me dava uma agonia ao querer saber como seus companheiros e a equipe na terra estavam reagindo com sua "morte", para o meu alívio, depois de uma parte do livro somos apresentados a essas reações e opiniões dos outros ambientes da história e aí a trama engrena em uma sucessão de ideias e pontos de vista que dão ainda mais riqueza ao livro.

Essa escolha por, primeiramente apresentar toda solidão e escolhas do protagonista, é muito inteligente, porque gera uma empatia tremenda com Watney; no inicio do livro estamos tão perdido quanto o astronauta e mal sabemos como o acidente que o isolou em Marte ocorreu, o fato só é explicado no meio do livro, em um flashback que nos da deslumbres da personalidade de toda equipe, nos fazendo simpatizar por eles e apoia-los em suas decisões. A partir daí, a tensão que o texto segue faz com que um capítulo (ou sol) seja devorada compulsoriamente, só parando quando a última palavra é lida, uma construção de texto realmente hipnotizante.


Como já mencionei acima, "Perdido em Marte" é um ótimo livro. Inteligente, engraçado e bem escrito ,dá muito mais profundidade a história contada no filme e dentro dessa leva nova de ficção científica o coloco como obrigatório. Sua construção e narrativa parecem muito mais o trabalho de um escritor experimentado do que o primeiro trabalho de um jovem engenheiro de software e esse é outro fato que surpreende e me alegra como fã de ficção científica, a percepção de que o estilo vem renovando e a esperança de descobrir mais livro como este, assim como a expectativa dos próximos trabalhos de Andy Weir. Em resumo, "Perdido em Marte" é um livrão e recomendo demais e a propósito, Alguém poderia me dizer por que o Aquaman controla baleias? Elas são mamíferos... não faz sentido!!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

CURTINDO A VIDA ADOIDADO (1986) #esquerda_rewiew 3

Dia 11 de Junho de 1986, estreava nos cinemas o filme que viria a se tornar o maior clássico da sessão da tarde de todos os tempos, ”Ferris Bueller’s day off”, ou como ficou chamado no Brasil “Curtindo a vida adoidado”, e eu, que tive minha personalidade moldada pela TV dos anos oitenta (e isso explica minhas piadas sem graça e respostas sem sentido), não poderia deixar passar em branco o trigésimo aniversário dessa obra prima.

O filme foi escrito e dirigido por John Hughes, famoso cineasta responsável por muitos filmes de temática jovem dos anos oitenta como “Gatinhas e gatões” e “O clube dos cinco”, além de escrever o roteiro de “Esqueceram de mim” e, estrelado por Matthwel Broderick no papel de Ferris Bueller, um adolescente do último ano do ensino médio que, ao saber que sua entrada na faculdade pode estar sendo ameaçada pela sua infrequência nas aulas, resolve matar aula pela última vez e convoca sua namora e seu melhor amigo para aproveitarem o que há de melhor na cidade vivendo altas aventuras.
Para começar eu acho “Curtindo a vida adoidado” um clássico não por ser um filme com um roteiro fantástico ou com parte técnica intocável, como um “psicose”, “Cidadão Kane” e “Ikiru”,  o filme é um clássico porque é um daqueles que todo mundo ou  já ouviu falar, ou já assistiu; uma obra tão marcante, que coloquei a sinopse apenas por obrigação porque todo mundo conhece a história.

Um dos responsáveis por criar essa marca foi Matthwel Broderick com uma atuação tão estupenda, que soterrou todos outros papéis que o ator veio a fazer depois. Sempre enxerguei o Ferris apresentado por Broderick como um super-herói, muito além dos problemas das pessoas comuns e talvez esse seja o motivo dele ser tão lembrado e tão referenciado, Ferris não tem dúvidas, não demonstra medo nem quando se depara com o pai no táxi ao lado ou com o diretor na porta de casa, além de ter um talento de convencer qualquer pessoa, cativar  todos com quem tem contato e ser querido por todo mundo; se ele falasse apenas com Cameron (seu melhor amigo) se poderia dizer que Ferris é uma criação da cabeça do amigo e que nem existe, tal qual sua falta de dificuldade que tem em tudo. Falando em Cameron, depois de reassistir “Curtindo a vida adoidado” fiquei pensando que ele é, de certa forma, o verdadeiro protagonista, pois a jornada dramática é toda dele e é ele quem tem a grande mudança ao final do filme, pois, ao contrário de Ferris que é só vitória, ele tem todas dificuldades do mundo, seus pais não se importam com ele, ele está sempre doente, tem medo de tudo, não tem personalidade e depois de um dia vivendo tudo que a cidade tem a oferecer e destruir uma Ferrari, termina a história mais decidido e disposto a enfrentar suas dificuldades de frente.

Ainda sobre esses dois personagens, a própria amizade de Ferris e Cameron não faz muito sentido. Ferris, como diz a secretária do diretor, é amado pela equipe de xadrez e pelos jogadores de futebol americano, sua amizade com uma cara depressivo e apresentado como uma das pessoas menos legais da escola como Cameron é algo irreal. A não ser que sua amizade com um cara tão destoante de si seja para, em comparação com seu amigo, parecer que ele é ainda mais brilhante do que já é, e prestando a atenção em Bueller no filme isso parece crível, pois quando ele está ao lado de Cameron parece se destacar ainda mais com o que apronta, sem contar que o amigo é rico, sem personalidade e tem acesso aos carros do pai, o que o torna útil; essa teoria é de fácil aceitação porque prestando atenção nos detalhes percebemos que Ferris é um tremendo FDP e isso fica claro ao pensar que ele hackeia o sistema da escola para deletar suas faltas, mente para seus pais para poder matar aula, manipula Cameron, humilha o metre de um restaurante e sai sem pagar, além de  ridiculariza o diretor da escola em que estuda, mas quem se importa, todo mundo adora filme e série de vilão, afinal, quem é que prefere o Luke Skywalker em comparação com o Darth Vader?


O filme ainda é inovador ao utilizar a quebra da quarta parede como nunca havia sido feito antes. Os trechos onde vemos o protagonista sair do ambiente onde se desenrola a trama, olhando para o espectador e falando sobre a situação são tão marcantes, que renderam referências e homenagens em filmes como “Clube da luta” e “Deadpool”, esse último plagiando por completo a cena pós-créditos do filme de 1986, sem precisar explicar nada, o que mostra como o filme foi marcante.
Outra coisa que marcou no filme foi a trilha sonora. O filme possui uma trilha sonora espetacular, que ficou lembrada por duas músicas em especial: a música “Oh Yeah!” do grupo “Yello”, que toca também em “Akira” e “Twist and Shout” dos Beatles; Essa última a propósito, lembro que na segunda-feira após a primeira vez que o filme foi exibido na globo (no supercine, e eu assisti), um músico foi convidado pelo jornal do almoço ( o jornal do meio-dia aqui no RS) para comentar sobre a versão da música do filme, acredite ou não! Além desses dois temas, o filme ainda toca “Danken Shoen” de Wayne Newton, como uma homenagem ao que é a vida onde se agradece por todo prazer e dor que fazem nossa existência fazer sentido, muito bacana!

O filme ficou lembrado ainda por sua “filosofia”, que hoje é tida como autoajuda meio piegas. Mas a frase “a vida passa muito rápido, se você não aproveitar ela vai acabar e você não vai ver.”, ainda ecoa na cabeça de muita gente que envelheceu assistindo ao filme e que depois de uma semana de trabalho mecânico, se pergunta qual a esquina que entrou por engano e resultou em uma mesa cheia de documentos e nenhuma expectativa (incluindo este que vos fala), Assim como a visão que o filme trás dos adultos caricaturados, que parecem meio bobos em seus serviços que parecem não entender e cumprindo suas obrigações que pouca gente se importa (como muita gente que eu conheço).
Como já disse acima, tive a honra de assistir a primeira vez que “Curtindo a vida adoidado” passou na Rede Globo, acho que em 1989 ou 90. O filme foi exibido no Supercine e lembro que o assunto da aula no outro dia era a parte do desfile onde ele cantava a música dos Beatles e a novidade que era de o personagem falar conosco que estávamos assistindo ao filme. De lá para cá o filme foi exibido mais ou menos setecentas vezes na sessão da tarde, o termo “save Ferris” se tornou nome de banda, camisetas com as frases do filme foram feitas e roteiros para a sequência imaginados e escritos, mas a originalidade do filme de 1986 nunca foi esquecida e superada e penso que uma sequência seja impossível.
Falando sobre a originalidade do roteiro do filme, uma coisa que pouca gente sabe é que a versão original do filme tinha uma hora a mais e que, após ser exibida apenas para os atores e executivos do estúdio e ninguém rir, ou entender o filme, John Hughes, se reuniu com seu montador e reduziu o filme ao mínimo, excluindo várias sub-tramas, incluindo o fato de que Ferris tinha mais dois irmãos (MAIS DOIS IRMÃOS) , o fato só mostra a genialidade do diretor que conseguiu montar um filme de sucesso de uma versão inicialmente fracassada.
“Curtindo a vida adoidado” é um clássico e Tudo mais que eu falar será redundância. Uma comédia referenciada em muitos outros sucessos do cinema, séries e publicidade, repleta de força, ironia, deboche e (para honrar a sessão da tarde) altas aventuras. O papel da vida de Matthew Broderick e a obra prima de John Hughes, genial no que tange a idealização de uma geração, inovador no que diz respeito a narrativa, engraçado e inspirador, para resumir, um filmaço! Nada mais me resta  a dizer a não ser Parabéns e SAVE FERRIS.


Ainda estão aí? Acabou! Vão pra casa... vão !!







segunda-feira, 6 de junho de 2016

X-MEN: Apocalipse (2016)

Os X-men são meus super-heróis preferidos. Já contei minha história com os personagens aqui mesmo, dois anos atrás, quando foi lançado "X-men: Dias de um futuro esquecido "e confesso que, devido a esse carinho, sempre que um filme com o selo X sai pela FOX fico apreensivo. Não foi diferente dessa vez, quando dia 19 de Maio, estreou o nono filme da franquia pelo estúdio, "X-men: Apocalipse", dirigida novamente por Bryan Singer e estrelada por James Mcavoy , Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Oscar Isaac entre outros, e, que assisti recentemente com uma mistura de medo e esperança.

O filme se passa dez anos depois dos acontecimentos de "dias de um futuro esquecido", Quando Bolívar Trask buscou apoio do governo para caçar e estudar os mutantes, Causando a fúria de Magneto que ameaçou matar o presidente e a decisão de Mística em impedir o amigo. Estamos em 1983 e o professor Xavier reabriu sua escola integrando humanos e mutantes; Mística é tida como uma heroína e percorre o mundo libertando e ajudando outros mutantes; Magneto, por sua vez, se escondeu em sua terra natal (A Polônia) buscando ter uma vida normal, casou, tem uma filha e trabalha em uma metalúrgica. Em meio a isso, no Egito, En Sabbar Nur, o primeiro mutante, desperta depois de três mil anos e percebendo que o mundo é dominado pelos fracos (humanos) resolve utilizar a força para dominar o planeta e transforma-lo em um lugar onde apenas os fortes tem espaço.

Assisti ao filme com aquela ponta de cinismo de quem quer ver algo decente, mas aguarda uma decepção para poder confirmar sua falta de perspectiva. Mas, embora o filme tenha escolhas de roteiro e diálogos bem contestáveis, fui surpreendido por um filme divertido, que embora não fuja do estilo de direção de Bryan Singer, consegue dar mais cor e ar super-heróico aos mutantes da Marvel.

Essa "cor" começa pela escolha dos atores que interpretam Jean Grey e Scott Summers (O Ciclope). Pela primeira vez sentimos uma química entre o casal, que surge desde o momento onde os dois se esbarram e cresce até o momento de cumplicidade quando os dois partem com a equipe para sua primeira missão, soma-se isso ao casal o fato que é a primeira vez que vemos uma Jean Grey carismática e que lembre aquela citada em "X-men 3, o confronto final" com um poder capaz de mudar a humanidade e um Ciclope que finalmente demonstra uma certa liderança e protagonismo ao mesmo tempo que não age feito um babaca. Outras apresentações legais são as de Tempestade e Noturno , além da consolidação de Mercúrio como personagem fixo da franquia; Tempestade é encontrada por Apocalipse no Egito praticando pequenos furtos, bem parecida com a origem da personagem nos HQ's e embora o motivo de sua mudança de lado seja contestável no final, a mudança em si é plenamente crível, além da atriz ter seu carisma e simpatia; Já o Noturno que é salvo pela Mística no início do filme, tem seus momentos de protagonismo quando luta contra o anjo e de alívio cômico e superação no trabalho em equipe; e o Mercúrio volta a ser destaque por seus momentos de ação que são alguns dos mais legais do filme e se une à equipe em uma cena que lembra a do filme anterior (o que fica chato) mas que não interfere em nada nos motivos do personagem ou o colocando ali apenas como um fan-service e a cena onde ele senta a mão no Apocalipse na última batalha é bem bacana.

Ciclope
O Filme parece querer recontar o que os filmes da trilogia anterior mostraram dessa vez com uma roupagem mais super-heroica e ágil (tanto que ele conta o que há em três filme em um!). A primeira coisa é a descoberta de um novo mutante, que em "X-men, o filme" era a Vampira e nesse é Ciclope e, esse evento, vai guiando grande parte da trama e dando destaque ao verdadeiro líder de campo dos X-men mas sem apagar os demais personagens nesse primeiro arco, além de apresentar a nós através dos olhos do personagem, como funciona a escola Xavier. Junto a isso temos a apresentação do projeto Arma X e uma nova versão para a fuga de Wolverine do laboratório, agora libertado pelos próprios alunos de Xavier, além disso temos o despertar dos poderes da Fênix em Jean Grey, dois fatos que foram explorados em "X-men 2"; e por final temos toda aquela ameaça mundial causada pela Fênix em "X-men 3" agora sendo desencadeada pelo personagem Apocalipse. O bacana desse resumo e reapresentação desses fatos é que norteia os heróis para um novo rumo, porque o filme termina de mostrar que as linhas temporais foram refeitas, o que dá a possibilidade para o novo a partir de agora e o fator que possibilita recontar essa nova versão das histórias sem que o filme fique chato é o bom ritmo que não oscila muito durante as duas horas e onze minutos de filme, mérito do diretor.

Mas nem tudo são flores e o filme tem algumas escolhas e momentos que deixam a desejar. O principal deles é o vilão Apocalipse, que nos quadrinhos sempre foi um personagem assustador e misterioso e que nos cinemas parece um velhinho cheio de convicções baseadas em achismo e que, embora ameace quando desperta no Egito e vai ao encontro de Tempestade demonstrando seus poderes aos desavisados comerciantes locais, parece perder peso conforme a trama anda, dando a entender que leu e não entendeu Darwin com suas ideias de "Só os fortes sobrevivem", poxa! Mutantes também são pessoas e ele quer destruir o planeta para que apenas os mutantes mais fortes fiquem por aqui sem banheiro, agua encanada, energia elétrica e internet (ele viu muito Madmax), sem dizer que o plano dele é exatamente igual ao do Sebastian Shaw em "X-men: primeira classe".

O cara que não entendeu Darwin

O Apocalipse passa o filme todo dizendo que é o pai de todos, o bam-bam-bam e tal, mas acho que o grande poder dele é a pilha fraca, poque nem seus quatro cavaleiros ele sabe escolher direito, pegando qualquer um que está no caminho. A tempestade e o Magneto fazem todo o sentido como cavaleiros do apocalipse, até porque um controla qualquer metal e o outro o clima, mas o que justifica o Anjo e a Psyloke? O Apocalipse esteve cara a cara com o Destrutor, que controla o plasma e tem um poder destrutivo gigante, assim como com o poder do Xavier ele poderia descobrir a Jean Grey que é uma das mais poderosas mutantes da história, mas não! ele quis um cara que ficava voando e apanhou para um noturno de quinze anos e uma ninja genérica que nem telepata é no filme. O pior é o plano dele transferir sua consciência para o corpo de Xavier, o que ele faria? Seria o cadeirante mais poderoso da história? E aquele papinho de só os fortes sobrevivem? Quem vai empurrar tua cadeira pelo deserto depois que o mundo acabar? Se ele usasse o Xavier para encontrar o Wolverine e ficar de posse de um corpo imortal e indestrutível seria mais inteligente. Mas não pára por aí, além de pilheiro e mal maquiado, o Apocalipse ainda deve ter transferido sua consciência para o corpo do Arlindo do Esquadrão da moda do SBT, porque depois de turbinar os poderes de seus cavaleiros, ele ainda cria roupinhas fashion par eles sem lá muito motivo. Mas acho que essas escolhas polêmicas relacionadas ao personagem sejam uma forma de seguir a péssima tradição da MARVEL não emplacar um vilão convincente no cinema e se for assim, todas escolhas foram muito bem feitas, caso contrário foi uma pisada na bola tremenda.

Outra coisa chata que já vinha incomodando desde o primeiro trailer é a onipresença da Mística e o peso de seus papel na trama. De cinco em cinco minutos alguém lembra que ela é uma heroína, que é demais e que é um símbolo, fato que não tem absolutamente nada a ver com a mística dos quadrinhos, que sempre foi uma terrorista da causa mutante, capaz de tudo para mostrar a superioridade do Homo superior. O diretor comete com a Mística da Jennifer Lawrence, o mesmo erro que teve com a Tempestade interpretada pela Halle Berry na trilogia antiga, onde o fato de a atriz ganhar um Oscar mudou totalmente o peso de seu personagem na trama e , a meu ver, foi o primeiro passo em X-men 2, para que o filme seguinte fosse tão ruim como foi. Devido a importância de Mística na história e pelo fato de não ser um personagem tão poderoso, roteiro a transforma em uma negociante e líder conselheira, que tem como maior poder, frases de efeito tipo "orgulhem-se de quem são", "Eu não quero o peso de ser uma heroína", "É uma guerra, não controlem seus poderes" e bla,bla, bla. Sem falar que ela quase nunca aparece em sua forma azul, mas sim com a aparência da Jennifer Lawrence, o que faz a gente pensar onde está aquela história de "seja mutante e orgulhoso" que ela fala para o Fera no "primeira classe"? Pois é! Sua Poser!

Fera (ou seria O Abrahan Lincolm azul?)
Falando em Mística, não dá para deixar de comentar sobre a Maquiagem. Como já disse a personagem da Jennifer Lawrence quase nunca aparece em sua forma real, mas quando aparece ela parece pintada com a tinta dos "Blue man Group", não parece que a cor é dela. O mesmo acontece com o Apocalipse, que lembra muito o inimigo dos Power Rangers, principalmente por ainda ser um nanico magrelo, ao invés de um monstrão de mais de dois metros ; mas o pior, sem sombra de dúvidas, é o Fera! O doutor Hank Mccoy, em sua forma animalesca parece o Abrahan Lincolm pintado de azul. É o terceiro filme onde temos o fera (nessa nova trilogia) e a produção ainda não conseguiu encontrar um tom de pele (ou pêlo) que não pareça ridículo, minha dica é para que eles leiam a fase dos X-mem onde o Fera evoluiu em sua mutação se transformando quase que em uma pantera negra (não azul).
Ainda sobre a maquiagem, é impossível deixar de questionar porque os personagens dessa nova trilogia não envelhecem. "Primeira classe" se passa em 1964, "Dias de um futuro esquecido" em 1973 e este filme de agora em 1983, ou seja, do primeiro para o último se passaram quase vinte anos, mas não vemos traços de envelhecimento nos personagens; tá certo que o Fera e a Mística tem uma desculpa que no primeiro filme é apresentada, mas e o Destrutor, que deveria parecer que tem trinte e cinco ou trinta e seis anos e parece não ter passado dos vinte? E o que dizer do magneto que tinha dez anos em 1945 e em 1983 (48 anos) e trabalhando em uma metalúrgica, tem um rosto tratado com nívea? Custava envelhecer um pouco os personagens? Ou existe a desculpa de algum mutante que emane renew? Acho que foi falha mesmo.

Libera essa fênix garota!!

Para fechar o que não curti muito, temos que falar sobre o grande motivo que criou os X-men, que o preconceito. Os X-men surgiram nos anos sessenta baseados nos movimentos pelos direitos civis liderados por Marthin Luter King e Malcon X ( Xavier e Magneto respectivamente) e onde até os poderes dos primeiros mutantes tinham a ver com o preconceito, então o Ciclope seria aquele cara que destruía tudo o que olhava, o Fera que mesmo sendo um gênio seria julgado apenas pela sua aparência bestial e assim por diante; Acontece que nesse filme esse preconceito não existe! Desde a cena inicial nos anos oitenta, onde é mostrado Scott Summers (ciclope) na escola, a professora está falando bem dos mutantes e isso se confirma quando Jubileu, Jean, Scott e Noturno vão passear no shopping e ninguém parece se importar com o fato de ter um ser com aparência demoníaca e azul andando pela rua, Achei isso muito caído, porque se as pessoas ainda hoje tem preconceito com gays, negros e até com mulheres, o que dirá se se descobrisse, àpenas dez anos atrás, que convivemos com uma raça super-poderosa cujo alguns indivíduos poderiam nos matar apenas pensando nisso? Óbvio que existiria muito preconceito e hostilidade, infelizmente o filme não faz menção nenhuma a uma situação como essa e isso foge ao propósito da luta dos mutantes por aceitação, o que é uma pena.


X-men reunidos
Mas apesar de o filme possuir muitos defeitos, ele não é ruim e confesso que me diverti bastante. O diretor pareceu querer dar uma visão mais super-heroica a franquia, seguindo as propostas dos filmes da Marvel onde a diversão vem antes de tudo. Um ponto que ainda me incomoda é a mania do diretor de sempre fazer um filme de origem e "X-men: Apocalipse" não é diferente, novamente temos o mutante novo no grupo, a equipe se formando e o Magneto novamente tomando na cabeça e depois tentando ser legal novamente, mas, como eu disse anteriormente, o Ritmo do filme é muito bom e consegue que esqueçamos esses por menores enquanto o assistimo. Os personagens em sua maioria são muito carismáticos, assim como as cenas de ação são bem bacanas. Espero que o futuro da franquia sai das mãos de Bryan Singer e Caia na de um diretor mais novo e de ideias novas, como o de Deadpool, só assim teremos filmes dos mutantes que fujam ao eterno ciclo de histórias de origem e partam para uma ação mais aprofundada e discussões mais relativas ao problema da aceitação mutante pelos humanos. De qualquer forma, repito que o filme é bem divertido e merece ser visto e, espero que o próximo, que será contra o Sr. Sinistro, seja melhor que esse, que foi contra o Apocalipse mal maquiado e dirigido pelo Bryan Singer meio repetitivo, mas que, graças a En Sabbar Nur, não foi nenhum fim do mundo.