quarta-feira, 18 de maio de 2016

AS CAÇA-FANTASMAS o trailer mais odiado (ou como deixar de ser um babaca preconceituoso)



Dia três de Março desse ano, foi lançado mundialmente o primeiro trailer do filme "Caça-fantasmas", que tem a direção e roteiro de Paul Feig. O filme, reboot do clássico da sessão da tarde, teve uma aceitação negativa desde que o estúdio anunciou que nessa nova versão os protagonistas seriam mulheres e essa onda de rejeição se concretizou no final do mês de abril, quando foi divulgado que o trailer do filme ,que estreia dia quinze de Julho , conquistou o amargo título de trailer mais odiado do Youtube, com mais de quinhentas mil negativações.

Não vou mentir. Quando anunciaram que no lugar dos personagens clássicos o filme teria um grupo de mulheres como protagonistas, eu torci o nariz. Esperei muito tempo para uma continuação dos dois filmes dos Caça-fantasmas que marcaram a minha infância e a decisão de fazer um reboot com outros personagens me desagradou porque colocaria uma pedra sobre a possibilidade dos antigos personagens retornarem. Também não posso ser sínico em dizer que não me senti contrariado pelo fato de serem mulheres nos papéis principais e logo procurei argumentos dando exemplos de filmes ruins com protagonistas femininos, como "Elektra" (filme de 2005) e " À prova de morte" (2007, o filme que menos gosto do Tarantino) para justificar o que até aquele momento eu não identificava como puro preconceito.

Mas depois de um certo tempo pensando sobre o assunto eu percebi como eu estava sendo babaca. Na ânsia de encontrar no cinema um filme que me fizesse ter uma experiência semelhante a que tive ao assistir os anteriores mais de vinte anos atrás, ignorei duas questões de extrema importância nos dias de hoje: a empatia e a representatividade.

Era o máximo da representatividade dos anos 80
     Sobre empatia, comecei a me imaginar qual seria a reação das mulheres de hoje se o filme tivesse a mesma pegada dos filmes originais dos anos oitenta. Nos dois filmes anteriores, temos apenas duas personagens femininas relevantes, a primeira (interpretada por Sigourney Weaver) é o interesse romântico do Dr Peter Venkman (Bill Murray) e praticamente é a mocinha em perigo que serve para dar rumo a trama, embora seja independente e uma musicista profissional, ela transmite uma certa insegurança e trabalha com sua sensualidade na maior parte do filme (após ser possuída) sendo sua presença voltada exclusivamente para ser um objeto à ser alcançado pelo personagem masculino e isso fica claro no segundo filme, quando a personagem explica que terminou o relacionamento com o Dr Venkman após este começar a apresenta-la nas festas como sua "escrava sexual". A outra personagem feminina era a telefonista Janine, que aparecia com todo esteriótipo possível da secretária, lixando as unhas, chateada com o emprego e ainda dando em cima do patrão Egon Spengler (Harold Ramis). Me coloquei no lugar das mulheres ao assistir um filme desses sem a desculpa do Zeitgeist da época e me senti incomodado, percebi então que só poderia haver uma maneira de uma franquia que teve essas marcas (discretas mas reais) funcionar nos dias de hoje e que seria focando na diversidade e representatividade.

     A representatividade é uma questão importante com a qual tive o primeiro contato justamente nos filmes dos Caça-fantasmas. Eu, uma criança negra dos anos oitenta, não era acostumado a ver negros em papeis de protagonismo em nada que fosse positivo na TV ou cinema e, foi assistindo o filme original da franquia, que me deparei com o personagem Winston, um negro que chega para pedir emprego nos caça-fantasmas e se torna parte do grupo; a entrada dele no grupo é meio idiota, mas tenho de dizer que quando vi um homem negro que não era figurante e sim parte dos heróis em um filme tão legal como aquele, me senti mais conectado ainda a história. Então, como eu poderia odiar um filme, que traria uma experiência parecida para milhões de pessoas, mesmo que eu não esteja incluído nesse grupo?

Quem você vai chamar?
Penso que as pessoas que negativaram o filme tem muito medo, pois foram acostumadas a ser hiper representadas e a possibilidade mínima de apresentar outro tipo de pessoa e visão de mundo que não se assemelhe a delas faz com que imaginem que serão colocadas de lado, o que é um absurdo. É só pegar os grandes produções para vermos que em sua grande maioria, os protagonistas são homens brancos, sem problemas financeiros, de idade entre trinta e cinquenta anos e onde a mulher é apenas o motivo para que a trama ande (como em caça fantasmas 1 de 1984) e o negro é apenas o amigo fiel (gay então nem pensar em um filme desses). Mas os tempos estão mudando e não existe mais motivo ( e nunca houve) para prender a pessoa que é diferente à um exteriótipo ou papel secundário, por isso acredito de verdade que o filme DAS Caça-Fantasmas possa ser um divisor de águas na história do cinema, mesmo que seja ruim (mas espero que seja ótimo) porque se somará à "Star Wars VII" e "Mad Max: estrada da fúria" trazendo luz novamente o fato de que qualquer pessoa, seja homem branco ou negro, mulher hétero ou homossexual, de participar de algo colocando o fato de ser um ser humano, à frete de ser um clichê do cinema e antes de tudo apresentando a diversidade as novas gerações.


Por tudo isso deixo aqui a minha promessa de assistir AS Caça-fantasmas no cinema e ser um dos primeiros a escrever sobre ele não poupando elogios caso o filme seja bom ou criticas caso não seja, focando na história, direção, roteiro e atuações e não no preconceito e medo que infelizmente é inerente a nossa sociedade.
Me despeço pedindo a todos mais tolerância e empatia. Lembrem que são as nossas diferenças que fazem que nos completemos com os outros e não nossas igualdades que são apenas ecos , muitas vezes, sem graça de nós mesmos.

Não é errado ser babaca as vezes, errado é não querer mudar.





terça-feira, 10 de maio de 2016

ARQUIVO - X : 6 episódios para se ver e rever

As séries se tornaram uma mania mundial. Novas temporadas de "Game of Thrones", "Demolidor" e "Black Mirror" são mais aguardadas do que a estréia de grandes títulos no cinema. Grande parte disso se deve ao fato de a série conseguir aprofundar muito mais os personagens e criar um vínculo maior e duradouro entre o expectador o universo apresentado, chegando por vezes ao fanatismo.
No Brasil, a série que inaugurou essa mania, arrebanhando fãs em todo lugar em que foi apresentada, foi "Arquivo-X". Criada por Chris Carter e estrelada por David Duchovny e Gillian Anderson, a série teve nove temporadas (1993-2002), somando 208 episódios e contava a história dos agentes do FBI Fox Mulder (Duchovny) e Dana Scully (Anderson), responsáveis por investigar mistérios aparentemente não solucionáveis que iam de abduções alienígenas a monstros que se escondiam na sociedade, passando por casas mal assombradas e problemas no espaço tempo, tudo isso ainda bem costurado por uma trama de conspiração governamental, doses exatas de humor e abrilhantado pelo carisma dos protagonistas.
Tive sorte de assistir grande parte de "Arquivo X" quando passava em horário nobre na TV Record (antes das novelas bíblicas tomarem o horário) e quando a Fox anunciou a 10° temporada quinze anos depois que o último episódio foi ao ar, corri para reassistir alguns dos episódios que não precisam da mitologia da série para ser entendidos (quase como curtas), entre os que assisti escolhi seis que me prenderam no sofá e que não ficaram datados mesmo depois de mais de quinze anos.

6 – HOME (T:4 x ep:02)

só gatinho
Nesse episódio, um corpo deformado de bebê é encontrado enterrado em um campo de baseball em uma pequena cidade do interior do sul dos EUA. Mulder e Scully são chamados pelas autoridades locais para investigar e acabam se deparando com a misteriosa família Peacok, isolados em suas terras, sem energia elétrica ou água encanada, os três irmãos Peacoks e sua mãe, todos deformados, agem como animais , inclusive praticando incesto e agindo com a violência mais selvagem possível para resolver seus problemas.
Episódio tão sinistro quanto o discurso da mãe Peacok, que amputada e mantida escondida em baixo da cama e servindo apenas para parir os filhos de seus filhos, diz que o mais importante para um Peacok é a família.

5-SMALL POTATOES (T:4 x ep:20)

Quando várias crianças, filhas de pacientes de uma clinica de inceminação artificial, nascem com um rabo; Mulder e Scully partem para saber o que pode estar acontecendo e descobrem que o faxineiro dessa clinica tem a estranha capacidade de se transformar em qualquer pessoa e vem usando isso para ter relações com mulheres.
O episódio é muito engraçado, principalmente quando o vilão (que nem é tão vilão assim) toma a forma de Mulder e começa a dar em cima de sua parceira, quane conseguindo concretizar seu objetivo.


4-FAMINTO (T:7 x ep:03)

Rob Roberts parece um rapaz normal que trabalha em uma lanchonete, gente boa com os colegas, educado no tratamento com estranhos, mas o que ninguém sabe é que Rob na verdade é um monstro predador viciado em comida e o pior é que a comida preferida dele são cérebros humanos.
Rob seu morto de fome
Esse é meu vilão preferido, porque o autor conseguiu dar humanidade e motivos para o monstro. Rob não é mau por inteiro, segue apenas sua natureza, tanto que no final sua consciência fala mais auto, mesmo agindo contra si próprio.
Ver o personagem sonhando com cérebros fritos, tomando pílulas contra o apetite e falando no grupo de comedores anônimos é a parte mais bacana. Episódio que se segura como um curta fácil fácil.

3- TRÊS DESEJOS (T:7 x ep:21)

Outro episódio com uma levada cômica. Nesse um faxineiro encontra uma gênia enrolada em um tapete e causa a maior confusão ao começar a usar seus três desejos que tem direito.
Gosto bastante desse episódio pelo humor e conceitos apresentados. O humor fica por conta do resultado dos desejos que são realizados, como quando o faxineiro pede um iate e a genia o coloca no pátio de trailer onde ele mora, ou quando ela pergunta se pode dar uma dica e aponta para as pernas do irmão paraplégico do faxineiro e nada lhes ocorre, ou ainda quando Mulder tem a chance de realizar três desejos e pede paz na terra e em passe de mágica a humanidade some.
O final do episódio é bem bacana, com a Mulder usando seu último desejo para libertar a genia de sua maldição, terminando com uma mensagem de que tudo que é desejado e vem fácil, talvez seja uma maldição.

2- SEGUNDA-FEIRA (T:6 x ep:14)

Mulder vai até o banco depositar o pagamento de seu aluguel, após seu colchão d'água ter furado queimado seu celular e despertador e alagado a casa. O banco está sendo assaltado e o ladrão, ao saber que não tem chance de escapar detona explosivos presos em seu corpo destruindo o banco e matando todos que estão lá dentro, incluindo Mulder e Scully que vai atrás do parceiro, então Mulder acorda novamente em seu colchão furado sem lembrar de nada e vemos tudo acontecer novamente, ao melhor estilo de "O feitiço do tempo" com Bill Murray, apenas a namorada do assaltante se lembra da repetição e após notar que Mulder é a unica pessoa que depois de vários dias iguais tomou uma atitude diferente descobre que ele pode ser a chave e busca sua ajuda para tentar parar as repetições.

1-MEDO (T:7 x ep:12)

x-cops
O episódio "Medo" (x-cops no original) é um episódio onde Mulder e Scully investigam uma entidade que toma a forma do maior medo de quem ela persegue. Então vemos uma senhora sendo atacada pelo Fred Kruger, outro cara por um lobisomem e uma prostituta por seu cafetão (que havia sido encontrado morto minutos antes). A maldita entidade é tão esperta que vive no bairro mais violento da cidade e por isso não pode ser identificada.
O legal desse episódio, além do conceito do monstro, é a forma como foi realizado. Decidiram gravar o episódio como se fosse um capítulo da série "COPs" e utilizam iluminação irregular e câmeras de mão, além de a abertura utilizar o tema de "cops" (música "Bad boys") na entrada do capitulo. Muito bom!

Arquivo X, foi um divisor de águas no que se refere as séries de TV e revisita-la foi muito bacana. Divertida, engraçada, inteligente e cheia de mistérios, a série continua vencendo o tempo e conquistando fãs, principalmente depois que a décima temporada foi lançada pela FOX esse ano. Se você não assistiu procure e torne-se também um fã como eu e nunca se esqueça que , embora o governo negue ter conhecimento, A VERDADE ESTÁ LÁ FORA.





terça-feira, 3 de maio de 2016

CAPITÃO AMÉRICA: Guerra civil (2016)

Em 2011, os estúdios Marvel traziam aos cinemas “Capitão América: O primeiro vingador”, filme sessão da tarde, feito muito mais para apresentar outro dos personagens centrais da editora no cinema antes de sua grande cartada, que foi “Vingadores”, do que para satisfazer o desejo dos fãs. Isso se deve ao fato de que o Capitão América nunca ter sido o personagem mais querido da Marvel e muitas pessoas até o consideravam ultrapassado e brega, mas isso começou a mudar depois do sucesso da sequência de seu filme solo, “Capitão América: O soldado invernal”, de 2014, que chegou com um tom mais sério e produção de qualidade, consolidando o personagem não só como um líder dentro do universo Marvel, mas também como ícone e símbolo do que é o certo a se fazer. Esse aprofundamento e crescimento do personagem favoreceu o conflito de personalidade e interesses com a principal e mais marcante figura da editora no cinema, o Homem de ferro, que se anunciou no primeiro filme dos vingadores, se intensificou no segundo e chega às vias de fato em 2016, com o ótimo e divertidíssimo “Capitão América: Guerra civil”, que estreou dia 28/04 nesse Brasilzão em crise de meu Deus e que tive o prazer de assistir em um domingo gelado no sul do país.

O filme segue os acontecimentos de “Vingadores: A era de Ultron”, onde, no final, uma parte dos vingadores originais se afastou e um novo time de heróis, liderados pelo Capitão América, foi montado para seguir operando. E é em uma missão desse novo time, para capturar o vilão Ossos Cruzados, que o grupo acaba causando um acidente que dá movimento a trama. Wanda Maxmoff, a feiticeira escarlate, para salvar o capitão de um ataque suicida do vilão acaba atingindo um prédio, matando uma dezena de pessoas e ferindo outra centena e, esse evento faz com que as autoridades busquem alternativas para colocar limites nas atuações dos Vingadores ao redor do mundo e assim surge o acordo de sokovia (batizado assim em referência a cidade destruída por Ultron no segundo filme dos vingadores), onde os artigos mais relevantes se referem ao monitoramento dos super-seres e sua liberdade de atuação; sendo essa última, permitida ou não apenas após a aprovação de uma junta da ONU.
O acordo de Sokovia surge como a primeira fissão entre as lideranças do grupo de heróis, que aparece como divergência ideológica e vai jogando os personagens para polos distintos que melhor representam suas personalidades e pontos de vista. Isso é muito bem-apresentado pelo roteiro explorando a culpa que rodeia Tony Stark (O homem de ferro) que, ao ser confrontado por uma mãe que perdeu o filho na cidade de Sokovia, abraça o acordo como única alternativa capaz de amenizar os desastres que são consequências das atuações dos super-seres, assim como coloca em contraponto o ideal de liberdade de atuação defendido pelo Capitão América, que enxerga a submissão dos Vingadores a um grupo de políticos ainda mais perigoso do que atitudes oriundas das escolhas dos próprios indivíduos envolvidos.

No meio desse arco, no dia em que o acordo deve ser assinado, a cede das nações unidas em Viena sofre um atentado vitimando o rei de Wakanda, onde câmeras acabam por registrar a presença do soldado invernal e colocando mais lenha no conflito anunciado, dando a deixa para o surgimento de mais um personagem icônico na editora, o Pantera Negra, que surge de forma fantástica caçando o pretenso assassino de seu pai. A partir desse ponto, o filme passa a ser um filme de perseguição, onde o Capitão parte na busca de seu amigo desaparecido e acusado de terrorismo na esperança de protegê-lo e o levar em segurança para esclarecimento, enquanto o Pantera Negra o procura para vingar a morte do pai. Achei essa parte do filme bem bacana, apresentando o novo herói como um personagem obstinado e implacável, o uniforme do Pantera está muito fiel aos quadrinhos e seu estilo de luta (mesmo sem o uniforme e acessórios) empolga bastante, o cara é imponente e de todos que estavam presentes na tela é o que mais mereceu o meu respeito durante as quase duas horas e meia de filme.

O Soldado Invernal é capturado depois da citada sequência de perseguição e levado às instalações de segurança das nações unidas. É lá que o vilão que aparece aos poucos em cenas que se intercalam com as dos conflitos internos do grupo de heróis se mostra pela primeira vez aos mesmos. Infiltrado como o psicólogo que faria a avaliação de Bucky Barnes (o soldado Invernal) ele utiliza uma sequência de palavras que servem para forçar o amigo do capitão voltar ao estado de obediência dos tempos de assassino da Hidra, pede o relatório da missão de 16/12/1991 e solta o detento na instalação mais programado para matar que o Schwarzenegger. Depois de várias confusões e de uma atuação ninja do Pantera Negra sem uniforme, o soldado invernal é capturado pelo Capitão América e pelo Falcão e, quando questionado sobre o que o misterioso vilão queria, informa que não é o único soldado invernal, revelando que em uma instalação na Sibéria outros sete assassinos de elite se encontram em hibernação aguardado o comando para voltar à ativa; a partir desse momento tornasse prioridade do Capitão e seus aliados, deter as supostas intenções do inimigo que se apresentou, enquanto que para o homem de ferro e a junta de segurança da ONU, a recaptura do soldado invernal passa a ser caso de segurança pública e cumprimento da lei.

Depois do atentado em Viena e na junta da ONU, vemos os conflitos se intensificarem, com o Capitão América recrutando novos e velhos conhecidos para o seu grupo e o Homem de ferro para o seu. Dentre esses recrutados dois se destacam mais que os outros, o Homem-Formiga para o lado do Capitão e o Homem-Aranha para o lado do Homem de Ferro. O Homem-Formiga conquista qualquer um pelo apelo cômico e pela surpresa que apresenta na cena do embate do aeroporto, suas piadas são ágeis e os diretores voltam a utilizar truques de câmera presentes no filme solo do personagem para mostrar as diferentes perspectivas do herói, sem contar com sua total falta de noção, começando com o momento onde ele é apresentado ao Capitão América. Já o Homem-Aranha aparece sem muito mistério, sendo descoberto por Tony Stark e colocando um sorriso no rosto do espectador quando escuta a tia May (linda por sinal) chamando seu nome e mostrando seu tom de humor já no primeiro diálogo sobre uma possível bolsa nas indústrias Stark, isso tudo sem deixar de dar um ar de drama e maturidade ao falar de como uma pessoa que pode fazer algo especial, pode perder alguém com quem se importa ao deixar de tomar uma atitude.

Depois do recrutamento surge o auge do filme. Quando os aliados do Capitão se organizam para partir para a Sibéria prevendo o perigo e são interceptados pelo grupo comandado pelo Homem de ferro, é quando somos presenteados por uma sequência épica de batalha envolvendo todos os Heróis. Nessa sequência é impossível não se empolgar com o estilo de luta e obstinação do Pantera Negra, ou com as tomadas de perseguição aérea do Máquina de Guerra e Homem de ferro com o Falcão, mas como já disse, é o Homem-Aranha e o Homem-formiga que roubam a cena nesse momento.
Homem-Aranha. O destaque dos destaques
O Homem-Aranha é fantástico desde o momento que surge de uniforme e pega o escudo do capitão, sua perseguição ao falcão e ao Soldado invernal é muito divertida propiciando pelo menos três cenas marcantes; a primeira quando o soldado invernal tenta dar um soco no personagem e ele agarra o braço biônico do super soldado, outra quando ele é pego pelo Falcão e começa a gritar “Você tem o direito de ficar calado” e o final da sequência, quando ele é capturado pelo drone do falcão e sai voando pela janela (de chorar de rir), sem falar na luta dele contra o capitão onde ele fala a maior verdade que alguém poderia falar ao herói: “Moço esse seu escudo não obedece as leis da física”.

O Homem-formiga é fantástico também em três cenas. A primeira é quando usa a flecha do gavião arqueiro como veículo para chegar até o Homem de ferro causar danos em sua armadura por dentro, a segunda é quando joga um caminhão em miniatura na direção do Máquina de guerra e pede para o capitão arremessar um dos discos de crescimento que ele usa como arma no caminhão, a miniatura cresce e atinge o adversário causando uma grande explosão, ao que o Homem-Formiga comenta estarrecido: “eu pensava que era um caminhão pipa!” e a terceira cena marcante é quando ele se torna gigante para favorecer a fuga do capitão, é muito bacana com ele gigantesco arremessando pedaço de aviões e chutando veículos para todos os lados, sendo derrotado apenas após a ideia do Homem-aranha de imitar o que os X-Wings fizeram contra os veículos andarilhos em “O império contra-ataca” e derrubando o gigante.
A sequência do Aeroporto termina em um tom amargo, quando visão agindo de forma distraída, acerta o Máquina de Guerra durante o voo quase matando o vingador que fazia parte de seu grupo. Com o final do embate e a fuga do Capitão e do Soldado invernal para Sibéria, o grupo que os apoiava (Falcão, Homem-formiga, Gavião Arqueiro e Feiticeira Escarlate) são detidos e mandados para uma prisão especial no meio do oceano, a Viúva Negra, que deixou a dupla de foragidos escaparem parte para a clandestinidade e o Homem de ferro passa a investigar mais afundo o atentado de Viena, descobrindo que o psicólogo mandado para avaliar Bucky havia sido morto e identificando que quem se passou por ele era um ex agente especial de Sokovia chamado Zemo, então, ciente de seu erro, ele pede informações para o aprisionado falcão e parte para Sibéria atrás de seus ex-aliados, sendo seguido à distância pelo Pantera Negra.

Pantera Negra. O cara
Na Sibéria, o Homem de ferro se junta ao Soldado invernal e ao Capitão, acreditando que o plano de Zemo é ativar os outros soldados invernais para seu beneficio próprio, no entanto quando chegam no local onde estes hibernam, todos estão mortos e vemos Zemo protegido em um buncker de onde começa a mostrar um vídeo de câmera de segurança onde é mostrado o assassinato dos pais de Tony Stark pelas mãos do Soldado invernal ( a tal missão de 16/12/91), daí em diante a porrada come solta entre a dupla de amigos e o ferroso. Enquanto isso o Pantera observa com paciência e percebe que perseguiu o homem errado, partindo ao encontro do verdadeiro assassino de seu pai e o encontrando ouvindo antigas mensagens de áudio onde sua mulher falava da ansiedade de seu filho pelo seu retorno. Acontece que tanto sua mulher, como seu filho e pai, morreram em Sokovia no final dos acontecimentos do segundo filme dos vingadores e para se vingar (ops) ele, que sabia não poder lutar de maneira franca contra os maiores heróis da terra, resolveu destruí-los de dentro para fora arquitetando um plano onde os vingadores lutassem entre eles. Após a confissão, Zemo tenta o suicídio, mas é impedido pelo Pantera Negra e levado para a junta de segurança da ONU. Enquanto isso Bucky e o Capitão se veem em combate contra um enlouquecido Homem de ferro, que recusa todos os apelos e tenta matar Bucky de todas as formar, sendo impedido apenas após o capitão destruir sua armadura, não sem antes do feioso destruir o braço biônico do Bucky “soldado Invernal” Barnes; A cena termina com o capitão levando seu amigo carregado enquanto larga o escudo para trás ao escutar de Stark que ele não era digno deste.

Qual o seu lado?
Depois de todo ocorrido e problemas resolvidos, o filme mostra a recuperação do Máquina de combate, que passa a precisar de um aparato mecânico para poder caminhar e a solidão do Visão após a evasão e clandestinidade dos vingadores e a entrega de um telefone e uma carta para Tony remetida pelo capitão e explicando que sempre estará a disposição e o filme termina com o capitão resgatando seus amigos da prisão.

Achei o filme fantástico! Diversão garantida com a dose de humor, ação e drama sob medida ao que os filmes da Marvel se propõem. Os efeitos especiais são fantásticos e as cenas de luta e perseguição de tirar o fôlego.
Achei que os irmãos Russo conseguiram fazer um trabalho tão bom quanto o feito no segundo filme do Capitão, explorando na proporção exata os personagens presentes na trama, mas sem tirar o foco dos passos do personagem que o filme leva o nome. Foi um ótimo ensaio para os dois próximos filmes dos vingadores que os irmãos dirigirão e uma bela introdução de personagens que estrelarão filmes solos pela Marvel, como o Pantera Negra e o Homem-Aranha.
O roteiro é muito bem escrito e vai em uma crescente que faz com que não se sinta que se passou quase duas horas e meia. As motivações são muito bem apresentadas e os personagens desenvolvidos, não fizeram muita questão de fazer revelações finais e isso deu mais fluidez ao filme.
Gosto de pensar que o grande vilão da trama é a situação, pois pensando assim, o filme parece ainda melhor do que é, mas se pensarmos que o grande conspirador que gerou a situação é o “Barão Zemo”, que no filme é um espião sedento de vingança e que consegue todas as informações e acessos de forma tão simples, a trama perde um pouco, pelo vilão ser totalmente esquecível e ficar à sombra do combate de liderança e força entre o Homem de Ferro e o Capitão América.
Mas mesmo um vilão fraco não é suficiente para tirar a qualidade de “Capitão América: Guerra Civil” e posso dizer que ele entrou para meu top five de filmes de Super-Heróis (onde já se encontra o segundo filme do Herói). Um filmaço que valeu cada centavo suado do ingresso e que me deu confiança em dizer que na Marvel eu confio. Agora é só esperar filmes do Pantera, Aranha e ainda esse ano Dr.Estranho, aguardando que em 2018 a guerra infinita comece.

Que venha o Thanos!!



sábado, 23 de abril de 2016

RUA CLOVERFIELD, 10 (2016)

Você acorda em um quarto em um bunker, algemado pela perna à um cano de metal na parede, com soro na veia e lembrando apenas que sofreu um acidente de carro; ouve barulho no que parece ser uma escada e se depara com o Fred flinstone psicótico como seu carcereiro e recebe dele a informação de que não podes sair daquele lugar por dois ou três anos porque houve um grande atentado químico ou nuclear que pode ser de origem alienígena e o ar está contaminado, sendo que tudo que se pode fazer é jogar jogos de tabuleiro, ouvir música dos anos sessenta, assistir filmes antigos ou ler revistas de moda... Isso não seria um pesadelo (ou roteiro de filme b)? ... Poderia! Mas é a trama central de "Rua cloverfield, 10", bom filme estrelado por Mary Elizabeth Winsted e John Goodman e que dá sequência (ou outro ponto de vista) aos acontecimentos do filme "Cloverfield" de 2008 e que chega de surpresa para trazer diversão claustrofóbica ao público e mostrar ao mundo como se revitaliza uma franquia.

O filme conta a história de Michelle que, depois de brigar com seu namorado, parte de carro em direção de uma vida nova. No caminho ela sofre um acidente e acorda tempos depois com uma fratura na perna e presa em um quarto de um abrigo subterrâneo, lá ela descobre por seu "salvador", que se apresenta como Howard, que houve um atentado e que o ar está contaminado, sendo que, por motivos de segurança, ele só permitirá que ela saia de lá entre dois e três anos. Dentro do Bunker, ela também conhece Emmett (John Gallagher, Jr.), ex-funcionário da construção do abrigo que se refugiou junto a Howard quando os atentados começaram e que conhece um pouco do passado do misterioso dono da fazenda; juntos, Michelle e Emmett, irão buscar entender o que se passa fora do abrigo e na cabeça do estranho e paranoico anfitrião.

O que gostei do filme é que ele usa elementos do filme anterior, sem se prender no mesmo. Mostra uma situação totalmente diferente e sem conexão nenhuma com o que acontece no Cloverfield de 2008, tendo os eventos mundiais (pelo menos somos levados a entender que existem eventos mundiais) servindo apenas como pano de fundo para o que realmente interessa nessa nova história, que é o que está ocorrendo dentro do abrigo e quem são aquelas pessoas, revertendo a tensão da população em pânico do primeiro filme, pela tensão mais intimista de um grupo de pessoas presas em um lugar e sem saber o que acontece lá fora, e, isso enriquece todo o universo a que os filmes pertencem.

tem algo lá em cima
Outro fator que torna o filme bacana são os personagens. Diferente dos personagens do primeiro filme, que, fora o protagonista, não tinham uma motivação aceitável para atravessar uma cidade com um monstro gigante as soltas só para salvar uma pessoa que pouco, ou nada, tema ver com elas, nesse filme as motivações são totalmente reais. Michelle, a personagem de Mary Elizabeth Winsted, não aceita as explicações de seu carcereiro e quer fugir daquele ambiente a todo custo e para isso vai investigando todas as situações que giram em torno daquele lugar; Emmett, por sua vez é um cara frustrado, que não leva nada muito a sério e quer apenas sobreviver; enquanto Howard é um psicótico e paranoico, ex-militar, fissurado por teoria da conspiração e segurança que não admite ser contrariado, é violento e desconfiado e materializa a figura da filha (pelo menos é o que ele diz) em Michelle e por isso não admite que ela pense em sair do abrigo.

"Que cara estranho"
Muito do que os personagens apresentam de bom, é fruto da interpretação magistral dos atores e da boa direção de Dan Trachtenberg. Sobre as atuações, John Goodman rouba a cena convencendo como alguém com sérios problemas mentais e de relacionamento, seu personagem consegue fazer a tensão crescer só de estar presente (tanto que nesse filme poderiam chama-lo de John Badman), sua expressão vai de calma e complacência ao extremo da ira e fúria em segundos e faz com que a gente esqueça na hora o simpático Fred Flinstone do passado. John Gallagher, Jr. Também está muito bem, embora não seja muito exigido, sua cara de medo constante e seus olhares de quem sente que desperdiçou a vida marcam bem o personagem no filme, fato que se soma ainda a um monologo bem bacana onde ele conta um pouco de seu passado à protagonista, que vivida por Mary Elizabeth Winsted esbanja carisma usando seu olhar e muita expressão corporal para transmitir o desconforto que a personagem sente ao se encontrar dentro da situação apresentada. As atuações ainda são valorizadas pela ótima direção do estreante Dan Trachtenberg, que através de recursos técnicos como os closes nos olhares e expressões dos atores e tomadas abertas do cenário claustrofóbico que passam ao expectador o ambiente sufocante tanto do lugar quanto da situação e imprimindo no filme um tipo de tensão que vai se alongando aos poucos e prendendo quem assiste na cadeira.

Pernas pra que te quero !!
A meu gosto, o filme perde um pouco no final do terceiro arco, quando parece que foi tomada a decisão de entregar ao expectador a informação de que o que se passa fora do bunker é um ataque alienígena (pelo menos é o que parece, pois nada é explicado), o que corrobora com as teorias do personagem de John Goodman e complementa o primeiro filme (De que depois do ataque de massa do primeiro filme, o segundo passo seria um ataque de solo) e durante dez minutos a protagonista se depara com uma espécie de monstro que a caça e um tipo de disco voador, esquecendo sua fratura na perna e correndo mais que o Usain Bolt e bolando uma bomba para se desvencilhar dos oponentes, mas isso não diminui em nada a qualidade geral do filme e eu coloco esse trecho da trama apenas como uma espécie de Fan-service.


Achei "Rua Cloverfield, 10" um bom e divertido filme. Despretensioso e bem dirigido, revitaliza e enriquece uma franquia que se tornou cult e sempre se mostrou promissora para quem gosta de filmes de terror e ficção científica. Com atuações e direção bem ponderadas, efeitos especiais que não exageram e roteiro competente, "Rua Cloverfield,10" chega surpreendendo e deixa um gostinho de quero mais que, se a cena final não nos trair, se concretizará em um futuro próximo. Assista antes que os aliens ataquem!


quarta-feira, 20 de abril de 2016

O CANTO DA SEREIA (A série x O livro)

A rede Plim-plim vem fuzilando seus telespectadores com todo tipo de produção para tentar voltar a ser a primeira e principal opção de entretenimento do país. De tanto em tanto tempo somos apresentados a novos programas de "humor" (com muitas aspas), dia-a-dia das celebridades, remakes de novelas que marcaram época, Realitys e mini-séries. Quase todos esses projetos são esquecíveis, quando não ignorados durante a própria apresentação, no entanto, por vezes a emissora acerta no ponto oferecendo diversão, qualidade e originalidade, surpreendendo muita gente e deixando quem assiste com um gostinho de quero mais. Um desses casos foi a mini-série "O canto da Sereia", exibida em 2013 sob a direção de José Luiz Villamarim, estrelada por Ísis Valverde e Marcos Palmeira e baseada no livro homônimo de Nelson Motta, que me senti obrigado a ler após assistir a série e que me fez mergulhar novamente naquele universo.

O que acontece?

Carnaval, Salvador. A estrela do momento, Sereia, sacode as ruas da capital baiana do alto de seu trio-elétrico, disfarçado como convidado junto à banda que a acompanha, Augustão Matoso chefe de segurança do Trio a acompanha de perto, uma forte chuva cai e refresca os foliões que se encontram em êxtase, no auge da festa, em meio a raios e trovões, uma bala corta o ar e acerta o coração da cantora, transformando o dia da maior festa popular do Brasil em uma data de luto e ecoando por toda Bahia com a pergunta: Quem matou sereia?

O mote da história é bem simples e remete as histórias de detetives. Ocorre o assassinato e o chefe da segurança da cantora, Agostinho Matoso, vulgo Augustão (interpretado por Marcos Palmeira na série), contratado pela empresária da Cantora (Mara Moreira, vivida por Camila Morgado) começa a investigar o caso em buscas de respostas e atrás de uma misteriosa agenda que suspeitam conter uma série de segredos capazes de comprometer figuras relevantes da sociedade baiana. Durante as investigações Augustão vai formando um perfil de quem realmente é a cantora através do testemunho de quem a cercava e da descoberta de segredos que vão se revelando dos lugares menos imaginados, apresentando não só a verdade por trás do assassinato ou da personalidade da vítima, mas também os segredos e maquinações da industria música responsáveis pela criação de uma pop star.

O que tem de bom?

A série me pegou desde o início pelo tema e originalidade na TV aberta. Sou uma dessas pessoas que se cansou do "cine favela" que o cinema brasileiro se transformou depois do sucesso de "cidade de Deus" e que não suporta mais releituras de fatos históricos, então qualquer coisa que fuja desses dois temas já ganha pontos comigo e uma história de detetive, que busque ser realista sem ser chocante demais e não abraça com força os clichês, me pareceu tão original que me prendeu na cadeira aguardando que cada segredo fosse desvendado.
capa do livro
Como eu disse, a trama é simples, mas a construção de como ela é desenvolvida é o ponto alto. No melhor estilo Alan More somos apresentados a vítima que faz a ação correr através de flashbacks narrados por quem fazia parte de sua vida e assim temos uma ideia de sua sensualidade através do depoimento de seu ex-namorado Paulinho de Jesus, do poder de sua sensualidade e carisma pela boca de seu maior fã conhecido como "Só love", de sua frieza e temperamento pela boca de Mara Moreira, de sua ambição através de seu marqueteiro Tuta Tavares e de suas tristezas e dores pela boca de sua mãe de santo Marina de Oxum. Esses depoimentos pontos de vista são entrecortados pelas investigações e o cotidiano de Augustão, onde somos apresentados a vielas e mercados da Bahia, pontos turísticos e ruas simples que vão desenhando tanto as características da cidade de Salvador, como o ambiente que proporciona aos personagens serem o que são.

No tocante a ser o que se é, Augustão, personagem de Marcos Palmeira se apresenta como um protagonista para se guardar na memória. É um herói moderno e portanto está longe da perfeição, muito pelo contrário sua tendencia a pequenas falhas dão a ele um ar verossímil, se acredita que seu modo de ação seja a tentativa e erro, muito mais como um repórter xereta (como ele é no livro) do que como um investigador particular no pior estilo dos filmes ingleses; tanto que gostei mais do personagem da série, que era menos forçado e mais simpático do que o do livro, que apesar de estar no meio de tudo e conhecer a todos não convence cem por cento. O mesmo ocorre com a própria sereia, que na série é interpretada por Isis Valverde e que dá um show de sensualidade e carisma. Enquanto no livro a personagem parece uma boneca moldada pelo marketing e publicidade, que tem seus mistérios revelados até um limite, mas que por vezes lembra só alguém desequilibrado, na série ela me pareceu mais dona de si e focada em seus objetivos e por vezes tendendo à autodestruição como uma estrela do rock das antigas, personalidade que nos faz acreditar no carinho de seu fã clube e impacto que sua morte causa no país.


O que difere o livro da série?

Falando em diferenças entre o livro e a série, existem algumas que no livro são melhores e outras que na série são superiores. O fato de Algustão ser solteiro e sem filhos na série torna a trama mais ágil para ele, no livro ele tem um casamento fracassado e é pai de duas filhas, só que tanto sua mulher como suas filhas passam o livro todo no Rio de Janeiro, sendo apenas mencionadas (e o livro se passa no carnaval...meio caro ir para o Rio e depois voltar para Salvador) qual a utilidade delas então? Por outro lado, o livro trás um Augustão que além de tudo é repórter e escreve pequenos artigos com um pseudônimo se dizendo correspondente nordestino, que na verdade são engraçadas ou violentas Fanfics baseadas nos casos que ele desvenda como bico e essa veia jornalística explica muito mais da personalidade do personagem do que um desejo obsessivo de procurar a verdade, mas não a revelar, assim como esclarece seus contatos na busca de informações sigilosas da polícia e envolvidos.
Augustão
Outra diferença é a relevância de mãe Marina de Oxun. Entre o livro e a série existe muita diferença nesse personagem, para começar pela etnia, pois enquanto na série a personagem é branca (representada por Fabiula Nascimento), no Livro ela é descrita como uma negra da cor da noite, o que faz muito mais sentido por se tratar de uma mãe de santo baiana. Outra diferença é sua personalidade, que no livro é muito mais sublime e decidida, ignorando mesmo a traição de Sereia com seu Marido e se colocando acima de muitas questões mundanas, embora se revele uma mulher normal e comum fadada a paixões e ao amor nos capítulos finais, o que na série fica muito aquém com seu amargor transbordando através de olhares lacrimejosos, dúvidas confessadas a suas ajudantes e o medo que o romance com Paulinho de Jesus trás no final.

Spoiler
A maior diferença que existe entre a série e o Livro é o assassino. O que é notados por quem conhece as duas mídias da obra, pois o assassino do livro não está na série e vice-versa e tenho que dizer que o assassino da série é bem mais crível que o do livro. Na série o assassino é o fã numero um de Sereia, conhecido como "Só love" e seu motivo é justamente esse amor que ele tanto ostenta, sabe-se depois pela boca do próprio personagem e se confirma através e laudos médicos, que Sereia estava em fase terminal de câncer no cérebro e pediu para que "Só Love" dar fim a seu sofrimento de forma inesperada e secreta, para que não visse ela morrer sofrendo em uma cama de hospital e vítima da piedade e boa vontade dos outros. Já no livro, que aperta o gatilho que da fim a seu sofrimento é um amigo de Paulinho de Jesus e que, fugindo da cadeia, se abriga no terreiro de mãe Marina, mudando de nome e de vida, passando a ser uma especie de faz tudo e filho de santo da mesma e, que ao ajudar a personagem tema acaba por contar seu passado e se compromete a ajuda-la para não a ver sofrer, o que não faz muito sentido pelo caminho que o mesmo resolve tomar quando se abriga no terreiro e como o autor o descreve, sendo alguém que realmente resolveu mudar.


No entanto, nenhuma das diferenças entre a Série e o livro diminuem um ao outro, apenas dão visões diferentes da mesma história e mais possibilidades de diversão e finais alternativos. Ambas as obras existem e são competentes no que se propõem sem precisar se apoiar uma na outra e esse é o grane mérito das duas, tanto a série quanto livro são duas grandes obras, divertidas e originais que valem a pena ser visitadas, uma viagem as ruelas antigas de salvador e ao mundo da industria musical brasileira, com aquele charme de caso de detetives noir, matéria jornalística e tempero Baiano.
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domingo, 10 de abril de 2016

THE LOBSTER (2015)

Quem me conhece sabe o quanto sou fã de distopias. Mundo destruídos pela ignorância, violência e repressão, tipo... o nosso; talvez venha daí meu gosto pelo gênero, a realidade por trás da obra, para mim uma distopia bem apresentada mostra através de alegoria, critica e, por vezes, ironia o verdadeiro espirito humano, essa coisa maravilhosa, terrível cheia de facetas, tanto que mesmo depois de ter lido os clássicos e os Pop's e, assistido a muitos filmes, parece que sempre se pode ir mais além. E nessa busca por mais me deparei com uma obra inesperada, vindo das ilhas britânicas no ano de 2015 e cheia do espirito grego, trata-se de "The Lobster" escrito e dirigido por Yorgos Lanthimos e estrelado por Colin Farrell e Rachel Weisz, e que me deu outra visão do que pode ser uma distopia.

A história é a seguinte:

Em um futuro próximo, as pessoas são proibidas de serem solteiras e, após completarem a idade apropriada (ou se separar, ou ficar viúvo) são enviadas para um lugar conhecido apenas como "O hotel", onde durante 45 dias (após deixar clara sua orientação sexual) irão interagir com outras pessoas na busca de um novo conjugue. Neste lugar, entre um baile e um passeio no campo, os hospedes são reunidos para ir à floresta caçar "solitários" (pessoas que fugiram do sistema e vivem em bando no meio do mato, mas sem um parceiro), cada solitário capturado dá direito a um dia a mais ao caçador no Hotel, se esse prazo de dias vencer e o hospede não encontra um parceiro, ele é transformada em um animal de sua preferência e solto na natureza.
Nesse mundo somos apresentados ao protagonista (Colin Farrel), um homem que depois de onze anos de casado percebe que sua mulher não o ama mais e resolve se hospedar no Hotel na busca de uma nova parceira. Acompanhado por Bob, seu irmão, que anos antes não conseguiu encontrar alguém que o completasse nessa mesma instituição e agora vive seus dias na pele de um cachorro, o protagonista ficará hospedado no quarto 101 e na busca de um novo amor, fará "amigos", se apresentará ao público, participará de bailes e palestras, sairá em caçada na floresta, verá gente desistindo da vida e mentindo para encontrar alguém, e no final encontrará o amor que busca entre os solitários que era obrigado a caçar para obter mais tempo , mas não sem antes nos apresentar os sutis terrores de uma sociedade que sacrifica a originalidade e individualidade de seus integrantes.



E aí vale a pena?

A primeira coisa que chamou minha atenção em "The Lobster" foi a narrativa do filme. O filme tem um quê de conto literário no melhor estilo Phillip K. Dick, com a narradora explicando os pensamentos do protagonista, como Dick fez em certos momentos de "O homem duplo", utilizando de uma ironia fatalista quase imperceptível, enquanto os personagens presentes na tela dispõem de momentos de silêncios cheios de expectativa que explicam mais da realidade onde eles estão inseridos do que diálogos longos fariam. Por tal motivo, a narração em off, que em muitos filmes é extremamente criticada, aqui serve como uma luva,nos mostrando um mundo sínico e desconfortável através do conhecimento de uma pessoa ( Rachel Weisz ) sobre o ponto de vista de outra ( Colin Farrell).

A montagem, a fotografia e a trilha sonora são muito bacanas. O filme segue uma sequência de acontecimentos onde a boa montagem consegue nos apresentar todo o contexto de forma competente tapando as lacunas sobre a realidade do que acontece fora do Hotel, que propositadamente é quase que ignorada, mas não sem antes permitir pequenos vislumbres que nos expliquem como a sociedade apresentada funciona. Já a fotografia é muito bonita, apresentando planos abertos com lindas paisagens inglesas e closes em detalhes que ajudam a narrativa do filme a não depender de diálogos para explicar o pensamento dos personagens, ou até excluindo certas figuras e pessoas do foco para demonstrar sua irrelevância ou pequenez em relação ao todo, sendo isso tudo ainda acompanhado por uma trilha sonora que por vezes aditiva a tensão e ainda reafirma a solidão que aqueles personagens vivenciam, destaque para a música da primeira caçada que o protagonista participa (Fron inside Dead (cantada em grego)) e que fala justamente de solidão e superficialidade, e para a música cantada pela diretora do Hotel e seu parceiro (something's gotten hold of my heart), que fala sobre se sentir completo, enquanto os cantores estão visivelmente se sentindo vazios.



Sobre o protagonista, o próprio fato de a narração de sua história ser efetuada por uma pessoa que ele só conhecerá no segundo arco da história fala muito sobre ele. Sua personalidade parece estar sempre em conflito entre quem ele é e quem deve ser, como se houvesse em si uma semente de revolta reprimida por um mundo tão hostil e que exige que tudo seja tão absolutamente controlado, que essa semente vive latente e se manifestando em suas dúvidas. Desde o início nos deparamos com o protagonista questionando e ao mesmo tempo aceitando a vida como ela é, no ato de cadastro do hotel , ao perguntarem sua preferência sexual ele opta por heterossexualidade, mas confessa ter tido uma experiência homossexual na faculdade, o que o faz pensar durante longos segundos sobre qual deveria aderir; o mesmo caso se faz presente quando ao passar pela triagem na instalação, uma das empregadas lhe pergunta o tamanho do sapato , ao que ele responde 44 e meio, o que causa uma nova escolha entre 44 e 45, deixando claro sua natureza questionadora em uma sociedade onde não há meio termos e sua tendência de acabar indo ao encontro da maioria. Colin Farrel está ótimo, claro que parecer um porta sem personalidade não deve ser difícil, mas ele convence com seus silêncios e olhares, assim como com sua aparência que foge a do galãzinho que lhe deu fama. Algo que também parece ocorrer com Rachel Weisz que também está muito bem no papel, embora não seja tão marcante quanto em "O jardineiro fiel", mas que consegue fazer com que o espectador se importe com seu personagem e torça por ele. Uma parte disso se deve a capacidade da atriz conseguir transmitir doçura e fragilidade, mas com aquele toque de personalidade través de seu personagem, sem falar da narração que ela faz, de forma monótona do filme, é muito engraçada e é perfeita na marcação da história.

Como distopia o filme me surpreendeu e me apresentou novas possibilidades. Um fato marcante na história é semelhante ao que acontece no livro "Batle Royale" de Koushun Takami, onde somos jogados dentro da história como se fossemos amigos que chegam no meio de uma conversa e não entendem todo o assunto, então o fato é que existe uma série de questões, mas dentro destas somos apresentados a um caso especifico que nos permite saber apenas poucos pormenores relativos a uma realidade mais rica e complexa e , isso eu acho muito legal! É o não explicar e mesmos assim não confundir; há algo maior e terrível, mas não precisa ser exposto ali, porque não é importante para o contexto que vamos seguir enquanto a história é contada. No entanto, a grande distopia se apresenta sempre através de quem a sofre e nesse filme vemos isso pelo comportamento robótico e amargurado dos personagens, vítimas de um mundo que os obriga ao "amor" forçado, talvez para evitar que tenham tempo de pensar sozinhos sobre os problemas que os cercam, o mais terrível do filme é ver que o mundo apresentado já está tão cristalizado que até mesmo quem se rebela contra o sistema, ainda assim é vítima de suas leis tal qual nosso casal de protagonistas


O filme vale muito a pena. Apresenta um novo modelo de distopia, não tão violenta como um "1984", ou tensa como a presente em "O homem do castelo alto", mas tão esmagadora como ambas e, isso para mim já é 50%, mas além disso há uma profundidade delicada no filme, que faz com que nos coloquemos no lugar daqueles personagens e sintamos o amargor da imposição e tristeza da solidão, é um filme que nos faz pensar sobre o mundo onde vivemos, que exige cada vez mais que façamos parte de algo e ignorar e excluir quem pensa e age diferente. Por esse mérito, além da parte técnica, das interpretações e estilo, considero "The Lobster" um filmaço, que merece ser assistido e re-assistido, poderia me estender ainda mais falando sobre os solitários e o plano de sua líder para desestabilizar o sistema, ou sobre os amigos do protagonista e seus destinos, ou ser mais sacana e falar como o casal de protagonistas acaba, mas não quero estragar a surpresa de quem , assim como eu, gosta do estilo, posso apenas dizer que o filme tem esse nome, pois é o animal que o protagonista escolheria se tornar caso não encontrasse alguém, uma Lagosta, pois, segundo ele, as Lagostas vivem mais de cem anos, permanecem férteis durante toda vida e tem sangue azul como a aristocracia (ignorando o fato de que são apreciadas como prato refinado). Um filmaço, distopia para valer, com aquela humor negro inglês e um profundo espirito Grego recomendadíssimo.