quarta-feira, 20 de abril de 2016

O CANTO DA SEREIA (A série x O livro)

A rede Plim-plim vem fuzilando seus telespectadores com todo tipo de produção para tentar voltar a ser a primeira e principal opção de entretenimento do país. De tanto em tanto tempo somos apresentados a novos programas de "humor" (com muitas aspas), dia-a-dia das celebridades, remakes de novelas que marcaram época, Realitys e mini-séries. Quase todos esses projetos são esquecíveis, quando não ignorados durante a própria apresentação, no entanto, por vezes a emissora acerta no ponto oferecendo diversão, qualidade e originalidade, surpreendendo muita gente e deixando quem assiste com um gostinho de quero mais. Um desses casos foi a mini-série "O canto da Sereia", exibida em 2013 sob a direção de José Luiz Villamarim, estrelada por Ísis Valverde e Marcos Palmeira e baseada no livro homônimo de Nelson Motta, que me senti obrigado a ler após assistir a série e que me fez mergulhar novamente naquele universo.

O que acontece?

Carnaval, Salvador. A estrela do momento, Sereia, sacode as ruas da capital baiana do alto de seu trio-elétrico, disfarçado como convidado junto à banda que a acompanha, Augustão Matoso chefe de segurança do Trio a acompanha de perto, uma forte chuva cai e refresca os foliões que se encontram em êxtase, no auge da festa, em meio a raios e trovões, uma bala corta o ar e acerta o coração da cantora, transformando o dia da maior festa popular do Brasil em uma data de luto e ecoando por toda Bahia com a pergunta: Quem matou sereia?

O mote da história é bem simples e remete as histórias de detetives. Ocorre o assassinato e o chefe da segurança da cantora, Agostinho Matoso, vulgo Augustão (interpretado por Marcos Palmeira na série), contratado pela empresária da Cantora (Mara Moreira, vivida por Camila Morgado) começa a investigar o caso em buscas de respostas e atrás de uma misteriosa agenda que suspeitam conter uma série de segredos capazes de comprometer figuras relevantes da sociedade baiana. Durante as investigações Augustão vai formando um perfil de quem realmente é a cantora através do testemunho de quem a cercava e da descoberta de segredos que vão se revelando dos lugares menos imaginados, apresentando não só a verdade por trás do assassinato ou da personalidade da vítima, mas também os segredos e maquinações da industria música responsáveis pela criação de uma pop star.

O que tem de bom?

A série me pegou desde o início pelo tema e originalidade na TV aberta. Sou uma dessas pessoas que se cansou do "cine favela" que o cinema brasileiro se transformou depois do sucesso de "cidade de Deus" e que não suporta mais releituras de fatos históricos, então qualquer coisa que fuja desses dois temas já ganha pontos comigo e uma história de detetive, que busque ser realista sem ser chocante demais e não abraça com força os clichês, me pareceu tão original que me prendeu na cadeira aguardando que cada segredo fosse desvendado.
capa do livro
Como eu disse, a trama é simples, mas a construção de como ela é desenvolvida é o ponto alto. No melhor estilo Alan More somos apresentados a vítima que faz a ação correr através de flashbacks narrados por quem fazia parte de sua vida e assim temos uma ideia de sua sensualidade através do depoimento de seu ex-namorado Paulinho de Jesus, do poder de sua sensualidade e carisma pela boca de seu maior fã conhecido como "Só love", de sua frieza e temperamento pela boca de Mara Moreira, de sua ambição através de seu marqueteiro Tuta Tavares e de suas tristezas e dores pela boca de sua mãe de santo Marina de Oxum. Esses depoimentos pontos de vista são entrecortados pelas investigações e o cotidiano de Augustão, onde somos apresentados a vielas e mercados da Bahia, pontos turísticos e ruas simples que vão desenhando tanto as características da cidade de Salvador, como o ambiente que proporciona aos personagens serem o que são.

No tocante a ser o que se é, Augustão, personagem de Marcos Palmeira se apresenta como um protagonista para se guardar na memória. É um herói moderno e portanto está longe da perfeição, muito pelo contrário sua tendencia a pequenas falhas dão a ele um ar verossímil, se acredita que seu modo de ação seja a tentativa e erro, muito mais como um repórter xereta (como ele é no livro) do que como um investigador particular no pior estilo dos filmes ingleses; tanto que gostei mais do personagem da série, que era menos forçado e mais simpático do que o do livro, que apesar de estar no meio de tudo e conhecer a todos não convence cem por cento. O mesmo ocorre com a própria sereia, que na série é interpretada por Isis Valverde e que dá um show de sensualidade e carisma. Enquanto no livro a personagem parece uma boneca moldada pelo marketing e publicidade, que tem seus mistérios revelados até um limite, mas que por vezes lembra só alguém desequilibrado, na série ela me pareceu mais dona de si e focada em seus objetivos e por vezes tendendo à autodestruição como uma estrela do rock das antigas, personalidade que nos faz acreditar no carinho de seu fã clube e impacto que sua morte causa no país.


O que difere o livro da série?

Falando em diferenças entre o livro e a série, existem algumas que no livro são melhores e outras que na série são superiores. O fato de Algustão ser solteiro e sem filhos na série torna a trama mais ágil para ele, no livro ele tem um casamento fracassado e é pai de duas filhas, só que tanto sua mulher como suas filhas passam o livro todo no Rio de Janeiro, sendo apenas mencionadas (e o livro se passa no carnaval...meio caro ir para o Rio e depois voltar para Salvador) qual a utilidade delas então? Por outro lado, o livro trás um Augustão que além de tudo é repórter e escreve pequenos artigos com um pseudônimo se dizendo correspondente nordestino, que na verdade são engraçadas ou violentas Fanfics baseadas nos casos que ele desvenda como bico e essa veia jornalística explica muito mais da personalidade do personagem do que um desejo obsessivo de procurar a verdade, mas não a revelar, assim como esclarece seus contatos na busca de informações sigilosas da polícia e envolvidos.
Augustão
Outra diferença é a relevância de mãe Marina de Oxun. Entre o livro e a série existe muita diferença nesse personagem, para começar pela etnia, pois enquanto na série a personagem é branca (representada por Fabiula Nascimento), no Livro ela é descrita como uma negra da cor da noite, o que faz muito mais sentido por se tratar de uma mãe de santo baiana. Outra diferença é sua personalidade, que no livro é muito mais sublime e decidida, ignorando mesmo a traição de Sereia com seu Marido e se colocando acima de muitas questões mundanas, embora se revele uma mulher normal e comum fadada a paixões e ao amor nos capítulos finais, o que na série fica muito aquém com seu amargor transbordando através de olhares lacrimejosos, dúvidas confessadas a suas ajudantes e o medo que o romance com Paulinho de Jesus trás no final.

Spoiler
A maior diferença que existe entre a série e o Livro é o assassino. O que é notados por quem conhece as duas mídias da obra, pois o assassino do livro não está na série e vice-versa e tenho que dizer que o assassino da série é bem mais crível que o do livro. Na série o assassino é o fã numero um de Sereia, conhecido como "Só love" e seu motivo é justamente esse amor que ele tanto ostenta, sabe-se depois pela boca do próprio personagem e se confirma através e laudos médicos, que Sereia estava em fase terminal de câncer no cérebro e pediu para que "Só Love" dar fim a seu sofrimento de forma inesperada e secreta, para que não visse ela morrer sofrendo em uma cama de hospital e vítima da piedade e boa vontade dos outros. Já no livro, que aperta o gatilho que da fim a seu sofrimento é um amigo de Paulinho de Jesus e que, fugindo da cadeia, se abriga no terreiro de mãe Marina, mudando de nome e de vida, passando a ser uma especie de faz tudo e filho de santo da mesma e, que ao ajudar a personagem tema acaba por contar seu passado e se compromete a ajuda-la para não a ver sofrer, o que não faz muito sentido pelo caminho que o mesmo resolve tomar quando se abriga no terreiro e como o autor o descreve, sendo alguém que realmente resolveu mudar.


No entanto, nenhuma das diferenças entre a Série e o livro diminuem um ao outro, apenas dão visões diferentes da mesma história e mais possibilidades de diversão e finais alternativos. Ambas as obras existem e são competentes no que se propõem sem precisar se apoiar uma na outra e esse é o grane mérito das duas, tanto a série quanto livro são duas grandes obras, divertidas e originais que valem a pena ser visitadas, uma viagem as ruelas antigas de salvador e ao mundo da industria musical brasileira, com aquele charme de caso de detetives noir, matéria jornalística e tempero Baiano.
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domingo, 10 de abril de 2016

THE LOBSTER (2015)

Quem me conhece sabe o quanto sou fã de distopias. Mundo destruídos pela ignorância, violência e repressão, tipo... o nosso; talvez venha daí meu gosto pelo gênero, a realidade por trás da obra, para mim uma distopia bem apresentada mostra através de alegoria, critica e, por vezes, ironia o verdadeiro espirito humano, essa coisa maravilhosa, terrível cheia de facetas, tanto que mesmo depois de ter lido os clássicos e os Pop's e, assistido a muitos filmes, parece que sempre se pode ir mais além. E nessa busca por mais me deparei com uma obra inesperada, vindo das ilhas britânicas no ano de 2015 e cheia do espirito grego, trata-se de "The Lobster" escrito e dirigido por Yorgos Lanthimos e estrelado por Colin Farrell e Rachel Weisz, e que me deu outra visão do que pode ser uma distopia.

A história é a seguinte:

Em um futuro próximo, as pessoas são proibidas de serem solteiras e, após completarem a idade apropriada (ou se separar, ou ficar viúvo) são enviadas para um lugar conhecido apenas como "O hotel", onde durante 45 dias (após deixar clara sua orientação sexual) irão interagir com outras pessoas na busca de um novo conjugue. Neste lugar, entre um baile e um passeio no campo, os hospedes são reunidos para ir à floresta caçar "solitários" (pessoas que fugiram do sistema e vivem em bando no meio do mato, mas sem um parceiro), cada solitário capturado dá direito a um dia a mais ao caçador no Hotel, se esse prazo de dias vencer e o hospede não encontra um parceiro, ele é transformada em um animal de sua preferência e solto na natureza.
Nesse mundo somos apresentados ao protagonista (Colin Farrel), um homem que depois de onze anos de casado percebe que sua mulher não o ama mais e resolve se hospedar no Hotel na busca de uma nova parceira. Acompanhado por Bob, seu irmão, que anos antes não conseguiu encontrar alguém que o completasse nessa mesma instituição e agora vive seus dias na pele de um cachorro, o protagonista ficará hospedado no quarto 101 e na busca de um novo amor, fará "amigos", se apresentará ao público, participará de bailes e palestras, sairá em caçada na floresta, verá gente desistindo da vida e mentindo para encontrar alguém, e no final encontrará o amor que busca entre os solitários que era obrigado a caçar para obter mais tempo , mas não sem antes nos apresentar os sutis terrores de uma sociedade que sacrifica a originalidade e individualidade de seus integrantes.



E aí vale a pena?

A primeira coisa que chamou minha atenção em "The Lobster" foi a narrativa do filme. O filme tem um quê de conto literário no melhor estilo Phillip K. Dick, com a narradora explicando os pensamentos do protagonista, como Dick fez em certos momentos de "O homem duplo", utilizando de uma ironia fatalista quase imperceptível, enquanto os personagens presentes na tela dispõem de momentos de silêncios cheios de expectativa que explicam mais da realidade onde eles estão inseridos do que diálogos longos fariam. Por tal motivo, a narração em off, que em muitos filmes é extremamente criticada, aqui serve como uma luva,nos mostrando um mundo sínico e desconfortável através do conhecimento de uma pessoa ( Rachel Weisz ) sobre o ponto de vista de outra ( Colin Farrell).

A montagem, a fotografia e a trilha sonora são muito bacanas. O filme segue uma sequência de acontecimentos onde a boa montagem consegue nos apresentar todo o contexto de forma competente tapando as lacunas sobre a realidade do que acontece fora do Hotel, que propositadamente é quase que ignorada, mas não sem antes permitir pequenos vislumbres que nos expliquem como a sociedade apresentada funciona. Já a fotografia é muito bonita, apresentando planos abertos com lindas paisagens inglesas e closes em detalhes que ajudam a narrativa do filme a não depender de diálogos para explicar o pensamento dos personagens, ou até excluindo certas figuras e pessoas do foco para demonstrar sua irrelevância ou pequenez em relação ao todo, sendo isso tudo ainda acompanhado por uma trilha sonora que por vezes aditiva a tensão e ainda reafirma a solidão que aqueles personagens vivenciam, destaque para a música da primeira caçada que o protagonista participa (Fron inside Dead (cantada em grego)) e que fala justamente de solidão e superficialidade, e para a música cantada pela diretora do Hotel e seu parceiro (something's gotten hold of my heart), que fala sobre se sentir completo, enquanto os cantores estão visivelmente se sentindo vazios.



Sobre o protagonista, o próprio fato de a narração de sua história ser efetuada por uma pessoa que ele só conhecerá no segundo arco da história fala muito sobre ele. Sua personalidade parece estar sempre em conflito entre quem ele é e quem deve ser, como se houvesse em si uma semente de revolta reprimida por um mundo tão hostil e que exige que tudo seja tão absolutamente controlado, que essa semente vive latente e se manifestando em suas dúvidas. Desde o início nos deparamos com o protagonista questionando e ao mesmo tempo aceitando a vida como ela é, no ato de cadastro do hotel , ao perguntarem sua preferência sexual ele opta por heterossexualidade, mas confessa ter tido uma experiência homossexual na faculdade, o que o faz pensar durante longos segundos sobre qual deveria aderir; o mesmo caso se faz presente quando ao passar pela triagem na instalação, uma das empregadas lhe pergunta o tamanho do sapato , ao que ele responde 44 e meio, o que causa uma nova escolha entre 44 e 45, deixando claro sua natureza questionadora em uma sociedade onde não há meio termos e sua tendência de acabar indo ao encontro da maioria. Colin Farrel está ótimo, claro que parecer um porta sem personalidade não deve ser difícil, mas ele convence com seus silêncios e olhares, assim como com sua aparência que foge a do galãzinho que lhe deu fama. Algo que também parece ocorrer com Rachel Weisz que também está muito bem no papel, embora não seja tão marcante quanto em "O jardineiro fiel", mas que consegue fazer com que o espectador se importe com seu personagem e torça por ele. Uma parte disso se deve a capacidade da atriz conseguir transmitir doçura e fragilidade, mas com aquele toque de personalidade través de seu personagem, sem falar da narração que ela faz, de forma monótona do filme, é muito engraçada e é perfeita na marcação da história.

Como distopia o filme me surpreendeu e me apresentou novas possibilidades. Um fato marcante na história é semelhante ao que acontece no livro "Batle Royale" de Koushun Takami, onde somos jogados dentro da história como se fossemos amigos que chegam no meio de uma conversa e não entendem todo o assunto, então o fato é que existe uma série de questões, mas dentro destas somos apresentados a um caso especifico que nos permite saber apenas poucos pormenores relativos a uma realidade mais rica e complexa e , isso eu acho muito legal! É o não explicar e mesmos assim não confundir; há algo maior e terrível, mas não precisa ser exposto ali, porque não é importante para o contexto que vamos seguir enquanto a história é contada. No entanto, a grande distopia se apresenta sempre através de quem a sofre e nesse filme vemos isso pelo comportamento robótico e amargurado dos personagens, vítimas de um mundo que os obriga ao "amor" forçado, talvez para evitar que tenham tempo de pensar sozinhos sobre os problemas que os cercam, o mais terrível do filme é ver que o mundo apresentado já está tão cristalizado que até mesmo quem se rebela contra o sistema, ainda assim é vítima de suas leis tal qual nosso casal de protagonistas


O filme vale muito a pena. Apresenta um novo modelo de distopia, não tão violenta como um "1984", ou tensa como a presente em "O homem do castelo alto", mas tão esmagadora como ambas e, isso para mim já é 50%, mas além disso há uma profundidade delicada no filme, que faz com que nos coloquemos no lugar daqueles personagens e sintamos o amargor da imposição e tristeza da solidão, é um filme que nos faz pensar sobre o mundo onde vivemos, que exige cada vez mais que façamos parte de algo e ignorar e excluir quem pensa e age diferente. Por esse mérito, além da parte técnica, das interpretações e estilo, considero "The Lobster" um filmaço, que merece ser assistido e re-assistido, poderia me estender ainda mais falando sobre os solitários e o plano de sua líder para desestabilizar o sistema, ou sobre os amigos do protagonista e seus destinos, ou ser mais sacana e falar como o casal de protagonistas acaba, mas não quero estragar a surpresa de quem , assim como eu, gosta do estilo, posso apenas dizer que o filme tem esse nome, pois é o animal que o protagonista escolheria se tornar caso não encontrasse alguém, uma Lagosta, pois, segundo ele, as Lagostas vivem mais de cem anos, permanecem férteis durante toda vida e tem sangue azul como a aristocracia (ignorando o fato de que são apreciadas como prato refinado). Um filmaço, distopia para valer, com aquela humor negro inglês e um profundo espirito Grego recomendadíssimo.


domingo, 3 de abril de 2016

BATMAN vs SUPERMAN: A Origem da decepção .


Em 2014 uma guerra foi declarada. Depois de anos apenas olhando o sucesso da rival, a DC/ Warner resolveu mostrar suas armas e dar início a construção de seu universo no cinema. Para isso recrutou o diretor Zack Snyder e o roteirista David Goyer, ambos responsáveis pelo último filme do Superman (O Homem de aço, de 2013), para comandarem a primeira batalha, colocando pela primeira vez na mesma tela, dois dos maiores ícones da cultura pop de todos os tempos, Batman e Superman. No entanto, em tempos de guerra nem tudo dá certo e alguns tiros saíram pela culatra em um projeto que tinha tudo para dar certo, mas que apresentou um filme "Dcpcionante" perto das expectativas geradas.



Sinopse

Um ano e meio após os eventos de "O homem de aço", a comunidade mundial humana terrestre do planeta terra tem sua opinião altamente dividida sobre (política, futebol, MARVELvs DC, religião... Não!) o Superman, tanto que o congresso americano está em um processo de investigação sobre a responsabilidade de nosso mais famoso krytoniano nos eventos ocorridos em Metrópolis no filme anterior (para quem não assistiu, o Superman pegou outro Kryptoniano pelo colarinho e saiu atravessando todos os prédio da cidade, mesmo sabendo que isso não faria nenhum efeito no cara, mas sim para a cidade.) e assim temos uma crise de popularidade para o pobre Kal-el. Em meio a isso, surge a figura do empresário Mark Zukerberg Lex Luthor, gênio, filantropo e milionário (tenho dúvidas sobre os dois primeiros adjetivos) que se envolve com a comissão de Impeachment do Superman pelo fato de ter descoberto a Kriptonita e assim (o motivo verdadeiro que levou o governo a aceitar suas condições me escaparam) consegue acesso total a nave kryptoniana e ao corpo do vilão do filme anterior, o General Zod para experiências ( assim surge um plano malígno). No mesmo momento, vemos o retorno do Batman à ativa (embora em nenhum momento ele chegue realmente a dizer que estava aposentado antes dos eventos em Metrópolis.), ele está mais velho, mais violento e assumidamente eleitor de Donald Trump e fã de Bolsonaro, chegando a marcar à ferro os bandidos que atravessam seu caminho, comportamento que aparentemente surgiu após ver as instalações da Wayne Interprise em Metrópolis destruídas e seus funcionários mortos (pelo menos dois eu sei que morreram) durante a invasão kryptoniana ( assim surge um desejo de vingança.) . Junte tudo isso, coloque cebola (porque é de chorar), acrecente muito fã service, não explique quase nada, leve ao fogo baixo por duas horas e meia e pronto! Temos um filme.... Bem?!...mais ou menos .

Muito irritado !!
Cara! O filme é ruim! Por favor não me odeiem por dizer isso, porque também sou fã e desde que o filme foi anunciado sonhei em dizer algo diferente, mas a verdade está aí para ser dita e o filme é ruim sim! Não que seja uma bomba como o último Quarteto fantástico ( até porque eu disse ruim e filme , não terrível e merda!), mas Batman vs Superman: A origem da justiça (Até o título é ruim!) fica muito, mas muito aquém das expectativas geradas pela produção. Para começar pelo discurso prepotente do Zack Snyder onde ele dizia que o universo DC, diferente do da Marvel era mais adulto, sombrio e profundo. Onde? Tá bom, sombriu é mesmo, mas não porque queira parecer mais dark, mas sim pelo fato de se enxergar a necessidade de esconder na escuridão os péssimos CGI, principalmente o Apocalipse, que parece um Trol do senhor dos anéis (e o senhor dos anéis foi filmado em 1999) e que bosta de vilão é aquele?! Profundo? Credo! O filme não explora nada, nem a personalidade dos protagonistas como super-heróis e nem seus alter egos (te pergunto: como chamam a mulher maravilha no Filme?), a cena que eu achei que me causaria uma emoção, que seria a presença da armadura do Robin pichada já tava toda no trailer (e o desgraçado do Wayne não fala nada só olha (te pergunto: quem não conhece a história do Batman da HQ, entendeu?)... o filme é superficial e raso. E quanto a sua visão adulta, a unica coisa mais madura é a intimidade de Lois e Clark e mesmo assim isso fere a mitologia do Superman pelo fato da desgraçada sempre estar na hora errada no lugar errado e fazer com que nosso querido azulão largue tudo e todos para salva-la...Muito frustrante! Mas tem coisas legais e realmente ruins, vamos falar um pouco delas então.

Coisas legais

Tô furioso !!
Como já disse, apesar de não ser bom, o filme não é uma bomba completa, existem coisas bacanas, quase todas relacionadas ao Batman, que é o mocinho torto desse filme mas que são bacanas não dá para negar. O início mesmo é bem empolgante apresentando a cena onde os pais de Bruce Wayne são mortos, misturado com o enterro dos mesmos e com o jovem Bruce encontrando a Batcaverna, e fazendo uma ligação com ele chegando desesperado em Metropolis durante o ataque alienígena do filme do Superman. Outra coisa bacana é reconhecer algumas frases de títulos clássicos do Batman, como a mencionada em "Cavaleiro das trevas" de Frank Miller, pelo mordomo Alfred quando vai até o apartamento de Bruce Wayne e encontrando garrafas de vinho vazias fala: "espero que a próxima geração da família Wayne não herde uma adega vazia, se bem que nas condições atuais eu duvido que exista uma próxima geração da família Wayne", é legal também ver o Alfred em ação como se fosse uma base de apoio à operações, guiando o bat-wing como se fosse um drone e analisando antes a zona de batalha, ou o Batman de armadura dizendo a famosa frase de que a vida só faz sentido se a gente fizer ela ter sentido e usando o recurso do Gás de kriptonita (que na HQ do cavaleiro das trevas é o Arqueiro verde que lança contra o Superman) bem na cara do azulão; a nova batcaverna está bem mais legal e a entrada que o Batmovel faz parecer mais um esconderijo do que nos outros filmes (por mais que eu me pergunte quem foi o pedreiro que construiu aquilo tudo e quem instalou os computadores). A mulher maravilha também é uma parte legal do filme nas cenas de batalha (porque profundidade ela não tem nenhuma), mas a parte mais legal mesmo é a sequência onde o Batman vai resgatar a Marta Kent dos capangas de Lex Lutor, pena que todas essas coisas somadas não chegam a fechar vinte minutos em um filme de duas horas e meia.

Os problemas

O filme tem três grandes problemas: O início, meio e fim. Mas dentro destes, as soluções de roteiro para os problemas que se apresentam durante a trama são os mais gritantes. Para começar, desde o início o filme tem o propósito de nos colocar ao lado do Batman, apresentando o Superman como inconsequente e indiferente as pessoas ( O que de fato é verdade, porque ele só se importa com sua namorada, tanto que vai na África salva-la, mas não salva o fotógrafo antes (que a propósito era o Jimmy Olsen, seu melhor amigo nos quadrinhos)), mas não há durante as duas horas e tanto, a mínima tentativa de mostrar um Superman diferente da opinião pública que permeia o filme do inicio ao fim, de que o último kryptoniano é uma ameaça, sendo, aparentemente existir uma única pessoa a seu favor entre os personagens centrais da trama (fora sua mãe) , Lois Lane, que a propósito é a única pessoa que ele salva no filme ( três vezes), então por que diabos existes uma estátua do Superman em homenagem as vítimas da invasão alienígena? O pior é que a oposição não está errada, para vocês terem uma noção , uma bomba explode no capitólio dos EUA e nosso querido homem de aço, presente no recinto, nem se move, apenas se lamenta depois no meio de chamas e cadáveres É RIDÍCULO!! Poxa o cara é o Superman mais incompetente da história!

Vamos nos juntar para pedir reembolso
As Motivações do Batman e Lex Luthor não convencem ninguém. Tá certo que o Batman parece ter ficado extremamente revoltado com o que aconteceu em Metropolis e culpado o azulão, mas o verdadeiro Batman investigaria ao máximo para saber as intenções do Superman, conheceria suas origens na terra, suas ligações humanas e pontos fracos e depois conversaria com Kal-el, de boa para traçar um perfil psicológico e saber se deveria utilizar de força ou de influência psicológica para manter o alienígena sob controle, mas o Batman desse filme é um playboy praticante de Jyu-jtsu do Leblon que não possui a capacidade de raciocinar. Ele mete a porrada em todo mundo, não escuta ninguém, não investiga nada é apenas uma máquina de fazer voz roca e bater em todo mundo, além de sonhar, porque meu Deus!! Como o tal de Bruce Wayne sonha! O cara sonha que está visitando os túmulos de seus pais quando de dentro desse tumulo sai um homem morcego monstruoso e o ataca ( outra referência ao cavaleiro das trevas de Miller), depois ele sonha com um futuro tipo madmax onde ele é tipo um terrorista contra o Superman e, na esperança de encontrar a kriptonita para derrota-lo, é traído e morto pelo homem de aço sendo que no final desse sonho ainda tem uma visão do The Flash ( talvez você não tenha reconhecido mas era ele) dizendo que a Louis Lane é a chave e para ele salva-la (é como se o Batman fosse um precog com defeito). E o Luthor? por que ele é vilão? De acordo com o filme, é porque seu pai lhe batia quando ele era pequeno e Deus nunca o ajudou quando ele rezava pedindo proteção. Só isso (ponto). Não tem motivo algum para ele querer que o Superman morra, motivos há para que ele queira que Bruce Wayne morra, pois são rivais de negócios, mas nas filmagens dos meta humanos ( que falaremos a seguir) ele não mostra uma pasta com imagens de Wayne agindo como Batman e se quisesse Bruce morto era só mandar um de seus capangas para apertar o gatilho, mas isso ele não faz. O Luthor está muito ruim MESMO!!Todas as vezes que Jesse Eisenberg aparece interpretando Lex Luthor, minha vontade era rir de desespero ou gritar de raiva, o cara é ridículo e bobo, não convence ninguém, o arco que o envolve é tão ridículo que até o motivo que o fez ficar sem cabelo é o mais babaca possível, ele não é vítima de experiências com kriptonita ou algum acidente causado pelo Superman, ele apenas tem seu cabelo raspado na cadeia (hahaah) e para terminar ele nem foi o cara foda e genial que criou sua própria empresa, nessa versão como ele bem diz, é seu pai o Lex antes do Corp, mas quem é afinal esse pai que tantos traumas causaram no simplório e besta Alex Luthor?? Nunca saberemos!

Mais problemas ( repetições de outros filmes e modinhas)

"Você se decepciona? Se decepcionará!"
Além de tudo, "Batman vs Superman: a origem da cagada Justiça", tem a péssima mania de tentar repetir situações que em outros filmes ficaram bacanas dentro de seu contexto (ou nem tão bacanas) e usar situações da moda que vão datar o filme. Acho que todo mundo lembra da perseguição em "Batman: o cavaleiro das trevas " de 2008 do Cristopher Nolan, onde Bruce Wayne vai de carro esporte protegendo um cara que havia dito que sabia quem era o Batman das emboscadas do Coringa e depois vai de moto atrás do Coringa até que o comissário Gordon prende o bandido... nesse filme há uma cena de perseguição quase igual ( até a bazuca atirando no carro é igual) , mas enquanto aquela tem todo um contexto de salvar um "inocente" que se encontra perseguido e prender o bandido através de um truque, nessa cena de perseguição nosso herói sai atropelando carros com seu Batmóvel e os arremessando uns contra os outros e contra caminhões de combustível, dispara uma metralhadora , que mais parece uma bateria anti-aerea contra um cara na carroceria de uma caminhonete, atira o batmóvel contra o contêiner cheio de gente... Tudo isso para poder pegar a Kriptonita que ele sabia que iriam para as instalações da Lexcorp e poderia roubar de boa. Outra coisa é a mania do Superman de atravessar prédio. Depois de todos eventos do primeiro filme que acabaram desembocando nessa obra, nosso querido escoteiro alienígena ainda segue atravessando os lugares e agora ele faz isso com as pessoas junto. Na primeira cena que vemos o "Herói" ele atravessa as paredes de um bunker agarrando um terrorista pelo pescoço e quando fica frente a frente com o Batman atravessa um prédio com o morcegão (aí não tem como te defender né Kal-el). Quanto a modinha o que mais me chamou a atenção é o Luthor agindo como CEO do Google (ou facebook na verdade), jogando basquete e com o escritório no meio da operação (seja lá qual for o tipo de serviço que a Lexcorp preste ou produto que venda), andando de motoca e usando roupas descoladas. O Bruce Wayne não vai longe ao praticar Crossfit, puxando pneus, erguendo pneus, martelando pneus...tipo um super-borracheiro!! fato que com certeza vai datar o filme ainda mais.

Tá bom, chega!! Vale a pena gastar para ver esse filme??

Papai me batia...Xuxa me salva
Eu poderia ainda citar a cena da invasão do CPD da Lexcorp pelo "Gênio Bruce Wayne" onde a central de computadores fica ao lado da cozinha, fechada com portas de vidro sem chave onde o Batman coloca um drive gigante preso em um fio que está por fora (muito bom Snyder), Ou citar o fato de que Bruce diz que sua honesta família enriqueceu através de especulação imobiliária, petróleo e estrada de ferro (três das coisas que mais exploraram gente no mundo) ou ainda que foi do senhor Alex Luthor quem criou os símbolos dos Meta humanos ( todos organizados em pastinhas em seu servidor da empresa) (UAU!), ou até gritar irritadíssimo contra a solução que o roteiro encontrou para que o morcegão não desse um fim no azulão, que foi o maldito fato de que a mãe de ambos se chamam Martha...mas vou poupa-los disso e ser direto ao dizer que, embora o filme tenham bons momentos (embora poucos) e reunir pela primeira vez Batman e Superman, ele não merece ser visto nos cinemas, tão pouco em Blueray ou DVD, minha dica é que se espere para vê-lo quando o SBT voltar a passar os filmes da Warner, por que o filme é muito fraco, é uma decepção e um deboche com os fãs e um atentado para quem gosta de bons filmes e boas histórias; mal montado, confuso, barulhento, escuro, com uma trama e personagens rasos, um verdadeiro balde de água fria em quem esperava por algo sensacional. Espero realmente que Warner se livre desse projeto e principalmente de David Goyer e Zack Snyder, porque enquanto a produção for desleixada do jeito que esse filme foi, a direção incapaz e o roteiro capenga, a MARVEL continuará vencendo a guerra sem muito esforço. Agora é só esperar por esquadrão suicida e rezar para que a DC encontra seu caminho... e torcer que quanto a isso, Luthor esteja errado e os deuses se mostrem bons!

                                                 O trailer é melhor que o filme





quinta-feira, 24 de março de 2016

DOPE (2015)

Eu sou negro. E como negro, sempre senti falta de filmes que me representassem de forma descente. Quando digo isso, não estou falando de filmes que façam um estudo cinematográfico, mostrando as dificuldades do negro, sua cultura e contribuição social; quando falo sobre representatividade, digo que quero ver filmes onde o negro, assim como o branco, a mulher, o gay e todo mundo, seja retratado e aprofundado como pessoa, tendo suas características inatas presentes para explorar melhor suas atitudes e escolhas, mas como um plano de fundo que influencia na vida dos personagens sem os paralisar, não os definindo como um todo, mas pelo contrário enriquecendo sua individualidade. Passei vendo todo tipo de filme e nunca tinha encontrado um onde eu pudesse dizer que me via presente ali naquele tempo em que a história se desenrolava, até que assisti a "DOPE", filme de 2015 escrito e dirigido por Rick Famuyiwa e pude dizer com um sorriso no rosto : Agora sim!

Dope é um filme de formação. Conta a história de Malcolm, um geek, filho de mãe solteira que vive em um bairro da periferia apelidado de "buraco". Malcolm e seus dois amigos, Jib e Dig são fãs de rap dos anos noventa e consomem essa cultura de todas as formas possíveis chegando a utilizar suas gírias, roupas e cortes de cabelo, eles possuem uma banda que definem como punk e como bons geeks do ensino médio, pertencem ao grupo de estudantes que são ignorados por todos e sofrem com a perseguição dos valentões e membros de gangues. Suas vidas seguem uma rotina relativamente comum para o caminho que opiaram por seguir, até o dia em que um traficante local pede que Malcolm leve um recado a uma garota do bairro a convidando para uma festa que ele dará em um club, e , a garota aceita com a condição de que ele também vá. A partir dessa noite, Malcolm e seus amigos irão descobrir mais sobre o mundo das drogas e quem está por trás das gangues de rua, abrirão uma loja virtual, se questionarão sobre o limite da virgindade, farão sucesso no youtube, participarão da feira de ciência do google, aprenderão qual a diferença entre uma bolsa verdadeira e outra falsa e entenderão como funciona a transação financeira através de Bitcoins.

Dope é um filmaço! Se eu pudesse defini-lo com uma única palavra seria desconstrução. Desde o início o filme desconstrói todo esteriótipo que Hollywood se esforçou tanto para impor às pessoas que não seguem o padrão por ela ditado, e, isso fica claro já pela forma que os protagonistas se apresentam, Um negro, uma lésbica e um Indiano (ou latino,ou 14% negro), geeks da periferia que gostam de "coisas de branco", como skate, pensar em ir para faculdade e rock, que se vestem e falam como se fossem rapers dos anos noventa, mostrando que estão desde seu estilo fora do ambiente que os cerca; ambiente este que aos poucos também é desconstruindo ao nos apresentar personagens periféricos que, embora estejam absorvidos pelo que a sociedade esperou deles, não se mostram como esteriótipos totais, nos proporcionando diálogo engraçadíssimos repletos de referências pop e inteligência, ou seja, um filme que trata as pessoas como pessoas, independente de onde nasceram e o que em um primeiro olhar se espera delas e isso é maravilhoso.
Jib, Dig e Malcolm

O roteiro é bem redondo, não deixando barrigas ou elementos que sejam desnecessários. Situações como a conversa que o protagonista tem com sua mãe vai fazer sentido lá no final quando o seu plano é revelado ao antagonista que se apresenta; assim como a bronca que o diretor da escola dá em Malcolm por ele escrever uma redação, em sua concepção, arrogante e pouco pessoal, é destruída quando o protagonista resolve seguir esse conselho escrevendo algo mais íntimo e te dá um tapa na cara. A estética do filme é bem bacana, misturando temas meio retrô como a cultura Rap dos anos 90 a Gangues no estilo GTA San Andreas e cultura pop moderna como videos do Youtube, citações a Steve Jobs ,rastreamento de i-phones e hakers anarquistas; temos ainda, complementando a trama, pequenas homenagens a "vivendo a vida adoidado", pelo fato de o protagonista, no final, quebrar a quarta parede e pelo filme se tratar de uma aventura de três amigos adolescentes que acaba mudando suas vidas, mas com muito mais alcance social e realismo. Para fechar ainda tem a trilha sonora que é de mais! Com música escolhidas a dedo pelo Rapper Pharrell Williams, com temas que vão do rap do anos 90 ao Rock progressivo da banda punk "Awreeoh" do protagonista e seus amigos, passando por hip hop indie e clássico. Sonzeira de primeira que é pontual nas situações e te faz ficar cantarolando por dias!

Malcolm e sua banda
Como eu já disse, Dope é um filmaço ! Deve ser assistido por todos, independente de etnia ou cultura. É um filme engraçado, inteligente e com uma pegada social que não transforma ninguém em coitadinho e não tenta chocar com a violência, muito pelo contrário coloca as pessoas no contexto individual, mostrando origens e cultura em segundo plano e focando nas opções e escolhas que cada um toma. Me fez lembrar que quando os indicados ao Oscar 2016 foram divulgados, surgiu o fato de não existirem negros entre as indicações, fato que levantou a polêmica sobre a representatividade e fez com que alguma das pessoas envolvidas com a industria de cinema americano boicotassem o prêmio, vi muito absurdo criticando o fato de alguns falarem sobre possíveis cotas para filmes com representatividade, mas também vi o vídeo do talkshow "Last Week Tonigth" com John Oliver na HBO que deixa claro que antes de cotas o que se precisa é de espaço verdadeiro e que a industria pare de enxergar filmes como DOPE como produtos de nicho, feitos para um único segmento e com isso eu concordo plenamente, pois esse filme merecia estar entre os indicados (quem sabe no lugar de "perdido em marte" aquela coisa chata?!). Por isso eu digo, assista a DOPE e abra sua mente para as diferenças, ria e entenda que cada pessoa é única, por mais que cor, religião e cultura pareçam as agrupar e , assim como eu, sinta-se representado no cinema.


sexta-feira, 18 de março de 2016

LADY SNOWBLOOD (1973)



Japão, 1874, o ano 7 da Era Meiji. Inspirado pelos progressos europeus, o país passa por fortes transformações, os samurais estão sendo extintos e costumes ocidentais começam a ser absorvidos; é nesse cenário, onde entre o período de tempo de atuação de Kenshin batosai, o samurai X e luta de Tom Cruise em "O último Samurai", em uma prisão de Tóqui, nasce uma menina, uma criança do submundo, fadada a saciar a sede de vingança de sua mãe e inspirar Quentin Tarantino em seus filmes, seu nome é Yuki, mas todos a conhecem como Lady snowblood.

Dirigido por Toshyia Fujita, baseado no mangá Homônimo de Kazuo Koike e estrelado por Meiko Kaji, o filme foi lançado no Japão em 1973 e conta a história de Yuki ( Ah vá!), que é concebida como a personificação do desejo de vingança de sua mãe, que anos antes tem a vida destruída quando o marido é enviado como professor para um remoto vilarejo e lá um grupo de quatro golpistas cobram proteção ao espalhar entre os agricultores que homens de branco vagam pelo Japão alistando à força no exército os filhos das famílias de lavradores, dotado do maior azar do mundo, o marido de Kashima Sayo ( a mãe de Yuki) se depara com o grupo quando está chegando no vilarejo e trajando um indefectível terno branco acaba sendo assassinado sumariamente juntamente com seu filho, para que o bando de golpistas demonstre a eficácia de sua "proteção" aos campesinos, do mesmo modo passam a violentar a mulher, que mais tarde ainda é levada por um integrante do grupo como uma espécie de escrava sexual para Tóquio. Na capital, Sayo mata seu raptor e é presa por assassinato e condenada à prisão perpétua, passa então a se envolver (no sentido bíblico) com todos os homens que tem contato, seja ele monge budista, carcereiro ou officeboy da cadeia pretendendo ter um filho que termine o que começou e é assim que durante uma nevasca, ao custo da vida da mãe, nasce nossa protagonista, que vai buscar dar cabo aos três assassinos que restaram.


O filme traz toda aquela aura de vingança que se tornou pop com os filmes do Park Chan-wook (oldboy), onde a história é construída sobre o alicerce da filosofia grega e sabedoria oriental, em que é mostrado que quando um plano de vingança é executado ninguém saí inteiro. Para começar pela protagonista que não é vista como uma mulher, mas como uma arma viva, uma pessoa que sacrificou toda sua vida buscando estar preparada para cumprir sua missão de matar os responsáveis pela tragédia que ocorreu em sua família; Yuki nunca ri ou parece ter empatia e todos sentimentos que parece ter são o ódio e a frustração que a atriz transmite através do olhar, apenas no final do filme, em sua hora derradeira a personagem esboça um sorriso, que me pareceu muito mais de compreensão e alívio, do que de alegria.
Outra coisa bem legal é o fato de a vingança se concretizar vinte anos depois do que a inspirou e esse espaço de tempo agir nos antagonistas de forma transformadora, ou aditivado seus defeitos ou destruindo suas vidas. Embora os "Vilões" não sejam muito aprofundados quando aparecem jovens, vamos notando que uma mudança neles ocorreu até o dia que Yuki entra em suas vidas e a maior mudança parece acontecer com Takemura Banzo, que Yuki encontra doente e alcoolatra vivendo as custas do trabalho da filha, que se prostitui mas que o pai acredita vender cestos, ele parece que carrega o peso dos pecados do passado e sua transição de algoz para vítima corrobora para a frase que transita em todo filme "Oldboy" de 2003 "Seja pedra, seja grão de arei, na água todos afundam"... ou seja, arrependido ou não o cara tá lascado.
Destinos parecidas são reservados aos outros dois golpistas, O ganancioso Gishiro e a maliciosa Okono. Esses dois ainda enriquecem a história quando incluem a questão da frustração no enredo, imagina tu ser treinado desde pequeno para uma determinada missão, matar três pessoas e acaba descobrindo que uma morreu em um acidente e quando tu vai atrás da outra essa se mata... frustrante não? Mas é o que acontece, depois de Okono se revelar, Yuki vai atrás dela para dar fim a sua vida e após vencer seus seguranças, encontra o corpo enforcado de seu alvo, não tendo outra atitude perante a essa situação do que cortar o corpo em dois e se entregar a frustração.
No Caso de Gishiro, Yuki sofre uma decepção ainda maior ao se deparar com a lápide do líder dos assassinos, atirando sobre esta toda sua fúria contida, sem imaginar que o líder dos assassinos de sua família, para escapar da justiça que o perseguia por tráfico de ópio, fingiu sua própria morte e só é descoberto porque se vê obrigado a passar uma mensagem a uma pessoa próxima essa pessoa leva Yuki para sua última missão dentro do palácio de Gishiro. O embate final é muito bacana e nele os fins justificam os meios, ao custo até das pessoas que ela ama. A cena da morte de Gishiro é simples e marcante, tenho certeza que inspirou uma história do Justiceiro que li quando era pequeno e a frase "Olho por olho" , com close nos olhos de Meiko Kaji , antes do banho de sangue, nos põe um sorrisinho maroto nos lábios.

O final faz jus a todo embasemento sobre o qual é construído o enredo do filme, ou seja, se for procurar vingança cave duas covas, uma para seu alvo e outra para você. Yuki cumpre seu papel de vingadora, mas perde seu objetivo de vida, como representante viva do niilismo, não resta nada para ela a não ser a morte e essa chega não só de seus ferimentos, mas também do punhal da filha de Takemura Banzo que busca vingança pela morte do pai e assim o ciclo de vingança segue seu caminho e vemos a neve manchada de sangue e os gritos de dor e ódio da Lady Snowblood.

Achei um filmaço! Fico pensando que talvez eu nunca tivesse chegado a esse filme se não fossem as referencias do Tarantino. O visual do filme é muito bacana combinando cenas em estúdio que parecem fake, mas dão um ar de originalidade, com cenas em locação aberta que parecem meio amadoras, mas que constroem a narrativa do filme bem colocada entre as produções dos anos 70. As cenas de luta são divertidas, com muito, mas muito sangue mesmo e a trilha sonora é marcante, com a própria Meiko Kaji cantando. Repito, um filmaço diversão garantida e vingança saciada.


segunda-feira, 14 de março de 2016

CANTIGA DE NINAR - Chuck Palahniuk (Esquerda Rewiew #2)

Fiz uma promessa a mim mesmo pouco antes de me formar, reler todas os livros bacanas que me marcaram. Foi assim que comecei meu rewill com “A mulher que escreveu a bíblia” de Moacyr Scliar e como sequência, hoje trago um livro muito especial, cheio de ironia, tristeza, loucura e magia; tal qual a vida, mas um pouco mais sucinta; Falo de “Cantiga de Ninar”, livro do escritor americano Chuck Palahniuk, publicado em nossas terras tupiniquins em 2004 pela editora Rocco e que confirmou (pelo menos para mim) o talento do escritor que chamou minha atenção quando assisti ao filme baseado em seu livro “Clube da luta”.

Capa da edição da rocco 2004
"Cantiga de Ninar” conta a história de Carl Streator, um jornalista em uma grande cidade que é incumbido de realizar uma série de reportagens sobre morte infantil súbita (ou morte no berço). Seguindo pistas de mortes recentes de crianças, ele descobre que em muitos casos sem causa de morte aparente, os pais estavam de posse do livro “Poemas e rimas ao redor do mundo” e sempre marcados na página vinte e sete, após uma sinistra experiência ele descobre que o poema dessa página mata quem o ouve e, preso em sua mente como uma música que se ouve logo pela manhã, o poema (ou cantiga de poda, como passa ser conhecido logo depois) o transforma em um assassino compulsivo. Buscando a cura para essa compulsão Streator acaba por encontra Helen Hover Boyle , a proprietária de uma imobiliária que é especialista em comprar, vender, recomprar e revender casas mal assombradas e que perdeu um filho em situação parecida com a investigada; junto com ela e contando com a ajuda de sua secretária Mona, uma hippie que se diz aprendiz de bruxaria e o namorado desta última, Ostra, um extremista ecológico, Streator parte em viagem pelos Estados Unidos para destruir todas as cópias da cantiga de poda sem imaginar que esse será apenas um entre todos os problemas que surgirão a partir do começo dessa viagem e mudarão sua vida para sempre.


Definitivamente “Cantiga de Ninar” não é um livro para iniciantes, sua forma de narrativa é tão veloz e ágil que por vezes nos sentimos tontos devido a tanta informação. Confesso que tanto da primeira vez como agora, só consegui me acostumar com a forma que autor decidiu contar a história a partir do terceiro capítulo. Sua forma de escrita me lembrou muito a apresentada por Alan More em “Do inferno”, apresentando todos os fato relevantes das personalidades das personagens em uma torrente de situações que as vão definindo, no início isso pode causar um estranhamento, porque ficamos meio perdidos, mas quando a história engrena tudo fica muito claro, fluindo naturalmente e essa estranheza inicial não diminui em nada a sensação de amargo prazer quando se termina de ler a obra.

O livro é muito divertido, e, para mim, o grande responsável por essa diversão é o flerte com o sobrenatural que o livro traz. Não se trata de uma história de terror ou de fantasmas, mas nem por isso eles deixam de aparecer, mas daquela forma sutil e que serve como pano de fundo para algo maior, que nesse livro (assim como na maioria dos livros do autor) são a solidão e a miséria humana. Quem já leu algo de Palahniuk ou viu uma entrevista do autor, sabe que a solidão é o cerne das histórias dele e que seus personagens são sempre pessoas da periferia do mainstream buscando alguém que lhes compreenda e os aceite e isso não é diferente nesse livro, temos um repórter solitário, uma corretora durona porém solitária e o casal de jovens que os acompanham, formando uma família torta com um objetivo torto, mas uma família (até ali!).

Essa “família”, sua relação e a busca por alcançar seus objetivos, que no decorrer do livro vão se mostrando divergentes, é o que enriquece a história, mas que também causa uma certa frustração conforme a história avança. Todos os personagens presentes nesse livro (exceto um talvez) estão naquela área cinza tão comumente falada nos dias de hoje, onde não se é totalmente mau e nem totalmente bom; mas eu definiria melhor dizendo que todos mereciam no mínimo um bom e belo soco no meio da cara. Para começar pelo narrador, Carl Streator, o cara é um enigma que aos poucos vai se revelando quando conhecemos o seu passado, perdeu a mulher e a filha muitos anos atrás, vítimas (sabemos depois) da cantiga de poda e após o evento, fugiu, mudou de nome e vive na solidão da cidade grande, escrevendo pequenas matérias para um jornal local. Ele odeia a barulheira das multidões e carrega consigo muitas frustrações e traumas, fatores que acabam por turbinar o poder da cantiga de poda que se instala em seu cérebro como uma música chiclete como que se houve pela manhã e que ele não tem pudor e nem controle de usar contra todos que o incomodam, seja um policial que barra sua passagem, seja um conquistador em um bar, ou seus chefes no trabalho, quando li o livro a primeira vez, lembro de ter ficado com certa pena do destino desse personagem, mas relendo agora, vejo que ele procurou seu destino desde o início e ouso dizer que ainda ficou barato.

O autor
Seguindo a hierarquia dessa “família” temos Helen Rover Boylle, que divide com Streator a tristeza da perda de seus entes queridos, no entanto conforme os capítulos vão passando, vamos descobrindo que, ao contrário do protagonista, ela não se manteve inocente por muito tempo e entendeu o potencial da arma que tinha em mãos (ou no cérebro) muito antes dele. Helen utiliza a muito tempo a cantiga de poda para retirar pedras de seu caminho, além de ganhar dinheiro como assassina de aluguel, é assim que ela controla seu vício de matar, matando uma pessoa por dia, por dinheiro e nem o drama que sofre nas últimas páginas a redime e faz pensar que seu destino seja menos merecido, embora não seja agradável.

Fechando essa força tarefa de busca de livros assassinos, temos Mona e Ostra. Mona é uma jovem hippie metida a bruxa, que trabalha como secretária de Helen em sua imobiliária e a ajuda a identificar casas mal assombradas que lhe tragam um grande retorno financeiro, crente nas forças ocultas e conhecedora de lendas e histórias das bruxas, serve como guia dentro da viagem que o grupo se propõem fazer; tem uma personalidade dependente e é manipulada por seu namorado Ostra o tempo todo, mas a guinada que tem no final do livro faz pensar quem manipula quem dentro dessa família. Já Ostra é um fanático ecológico que busca uma maneira de retirar a maior praga da natureza de ação, o homem. Trambiqueiro, sobrevive através de golpes onde promove ações judiciais que cobram indenizações de todo tipo de empresas, sua personalidade é arrogante e seus interesses claros desde a primeira linha onde o citam, deixando como única resposta pelo fato de o grupo resolver levá-lo para a viagem, a dependência que o mesmo causa a Mona, mas essa resposta não me satisfaz até hoje ao me questionar por que ninguém matou esse chato quanto tinham tempo? Talvez porque assim como na vida real, as vezes damos chances demais a quem não é merecedor… talvez.

Outra coisa legal no livro, são os coadjuvantes que aparecem em pequenas participações quando o grupo está na estrada e que servem para dar a visão aterradora do poder e dilema que os protagonistas estão lidando. Existem dois desses coadjuvantes no livro que me marcaram demais, o primeiro é uma mulher, que serve para que os segredos de Helen acabem por ser revelados; A mulher mora em um trailer e recebe o grupo achando que se tratam de consultores de beleza (tipo avon), quando na verdade eles estão procurando o livro que ela locara na biblioteca para contar histórias ao filho e acaba por matá-lo. A tristeza e solidão daquela mulher, que é apontada como culpada da morte do filho por omissão é apresentada de uma forma tão sutil e esmagadora que quando eu li me deu um nó na garganta, assim como a homem que é acusado de matar o filho e recebe o grupo acreditando que se tratam de religiosos, explodindo em um monologo sobre a existência e desejo de Deus que, eu como pai, me senti conectado ao personagem e agradecido pelo fim que o protagonista resolve dar a sua dor.


Minha dica é “LEIA CANTIGA DE NINAR”. Seja porque você gosta de histórias de terror, seja porque gosta de contos de detetives, seja porque gosta do autor ou porque ficou sabendo que o filme baseado nessa obra já está em pré-produção (foi o que ouvi), não importa, apenas leia. É um livrão desses que fica na cabeça da gente como uma música chiclete que se repete sem controle; sua ironia, dureza e tristeza, estão no mesmo nível do divertimento e emoção que o livro tem, seus personagens são riquíssimos e complexos, sua narrativa é ágil e estonteante, um legítimo Chuck Palahniuk (em caixa alta, negrito e sublinhado), um livro que te enfeitiça e embora eu não acredite em bruxas, que las hay, las hay.

sexta-feira, 4 de março de 2016

"OS 8 ODIADOS" de Tarantino (2016)



Eu não pensei que viveria para dizer isso, mas "Os 8 odiados", o último filme do tarantino foi engolido pelos outros lançamentos da época e esquecido pelo público apenas dois meses depois de sua estréia. A duração exagerada da temporada de blockbusters americanos de 2015, que começou em Abril de 2015, com a estreia de "Vingadores: A era de Ultron" e se estendeu até Fevereiro de 2016 com o lançamento do surpreendente "Deadpool", contribuiu muito para que o filme não tivesse a mesma notoriedade de outras obras do diretor, principalmente pelo fato desse filme estrear no auge da bilheteria de "Star Wars VII". No entanto, o filme está longe de ser ruim e em contribuição a expectativa que ele me causou quando seu primeiro trailer foi lançado, queria falar um pouco sobre esse injustiçado e ignorado filme.

Nas montanhas do Wyoming, uma diligência vence corajosamente a neve, trasendo em seu interior um misterioso casal. Durante a viagem, O.B, o condutor do veículo, se depara com um Cowboy negro sentado sobre três corpos no meio da estrada, seu nome é Marquis Warren, um ex-Major da cavalaria americana, que trabalha como caçador de recompensas e quer uma carona até a cidade de Red Rock, pois seu cavalo não resistiu ao frio extremo e ele deve entregar os corpos dos procurados o quanto antes se quiser pegar o prêmio oferecido; O.B diz que é uma viagem privada e se ele quiser um lugar na diligência, deve convencer quem contratou os seus serviço, e, assim o Major Warren se depara com John Ruth, o Enforcador, outro caçador de recompensas conhecido seu, que está levando Daisy Dormegue, uma condenada para ser enforcada em Red Rock; Ruth permite a carona a Warren e assim os três partem pela estrada congelada. Após alguns problemas a diligencia é obrigada a parar e eles encontram outra figura perdida em meio a neve, trata-se de Chris Mannix, o filho de um general sulista, que diz que ser o novo xerife de Red Rock e que também precisa de uma carona até a cidade, em meio a tanta dúvida e desconfiança, John Ruth permite a carona a mais este andarilho pela possibilidade de ser a verdade e assim sendo Mannix o responsável pelo pagamento da recompensa pela prisioneira. Como uma Tempestade de neve se aproxima, a diligência vai procurar abrigo na casa de Minnie, um paradouro e abrigo aos pés da montanha, chegando lá os quatro personagens (mais o condutor O.B), vão se juntar a outros quatro misteriosas figuras, O vaqueiro John Gage, que diz ter vindo de longe para passar o natal com mãe que mora do outro lado da montanha; O inglês Oswaldo Mobray, que se apresenta como o carrasco que irá enforcar a condenada; O general sulista Sanford Smithers e, O Mexicano BOB, que diz trabalhar no abrigo a quatro meses e que está tomando conta do negócio pois Minie e seu companheiro sairam para vizitar sua mãe. Pronto, apartir de agora e nas próximas duas horas e meia, dentro de uma pequena casa nas montanhas geladas a tensão será esticada ao máximo, duelos de diálogos serão travados, desconfianças surgirão, rixas raciais e políticas emergirão, alianças inesperadas e traições se revelarão para o deleite de muitos e desespero de alguns.


muito ódio
O filme está longe de ser ruim, mas não é um filme excelente. Retoma aquela pegada de tensão, com diálogos longos e sínicos que deram fama ao diretor, mas por vezes, o filme parece um mix de temas e situações já abordadas por Tarantino, e isso dá um ar de mais do mesmo a obra.
Achei bacana o fato do filme priorizar mais o estudo dos personagens, como em "Cães de aluguel", do que a ação e violência que conquistaram muitos fãs para o diretor como "Kill Bill" e "Bastardos Inglórios", tanto que penso que esse filme poderia muito bem se tornar uma peça de teatro, devido a toda trama passar, quase que 90 %, em um único cenário e focar nas histórias e reações dos personagens e no conflito que surge entre os mesmos. Também achei massa a referencia central da trama, que é o filme "enigma de outro mundo" (já comentado aqui) do diretor John Carpenter, várias pessoas isoladas no meio de um lugar distante, castigados pelo frio, em um clima de tensão onde uma, ou mais pessoas, não é quem diz que é ...e o final deixa essa referência clara, além da presença de Kurt Russel, é claro!
O ponto auto realmente é a tenção que a trama traz e a performance dos atores Walton Goggins (Chris Mannix) e Jennifer Jason Leigh (Daisy Domergue), que robam a cena. O ponto baixo é que a história poderia ter uma meia hora a menos, que não faria diferença e a trilha sonora, que sempre foi um traço marcante dos filmes do diretor, retomando clássicos da era disco e Motown, além de trilhas de séries e filmes antigos e que agora aparece muito de fundo, tendo apenas destaque e relevância quando a personagem de Jennifer Jason Leigh canta para o de Kurt Russel; talvez faça parte do contexto de solidão que o ambiente tem a opção da utilização do silêncio e de temas menos animados para compor a experiência, mas eu esperava mais dessa parte musical em um filme do Tarantino.

De qualquer forma, digo que esse não é o pior filme do diretor e digo ainda que esse é o melhor dele com a presença do Kurt Russel, mas está bem abaixo de outras produções que ele já nos apresentou. Gostei da referência a John Carpenter e da atuação de Walton Goggins que achei surpreendente , mas não achei esse retorno suficiente devida expectativa que o lançamento de um filme desse diretor cria no mundo. Em todo caso, "Os oito odiados" é um filme que merece ser visto e espero que ele seja redescoberto assim que essa onda gigantesca de filmes que 2016 promete baixar e que no próximo filme, Tarantino aborde outras situações e temas para voltar a ser marcante seja no inverno, seja no verão americano.