sábado, 9 de janeiro de 2016

O PLANETA DOS MACACOS (O livro)

Se eu perguntar sobre o planeta dos macacos, um grande número de pessoas vai citar a cena de Charlton Heston gritando “seus maníacos”, ao se deparar com a estátua da liberdade atolada em uma praia, no final do filme dos anos sessenta, outros, mais jovens, vão falar dos dois últimos filmes, que foram surpreendentemente bons e contar sobre a jornada heroica do chipanzé Cesar, e, existirão ainda os que se lembrarão do terrível filme do Tim Burton, com seu clima sombrio e pouco sentido. Mas, o que eu duvido é que metade de quem se lembra desses filmes, saiba que o roteiro de “O planeta dos macacos” foi baseado em um livro homônimo de ficção científica francesa.

O livro “O planeta dos macacos”, foi lançado em 1963, pelo escritor francês Pierre Boulle, que já tinha em seu currículo “A ponte do rio Kwai” outro livro que veio a se tornar um clássico do cinema e pelo qual ele ganhara um Oscar pelo roteiro. “O planeta dos macacos” conta a história de Ulisse Mérou, um repórter francês que no ano de 2500 é convidado por um ilustre cientista à ser um dos três membros de uma expedição espacial até uma distante estrela. Viajando quase a velocidade da Luz, os tripulantes atravessam o universo ao encontro da estrela Betelgeuse e do sistema que a tem como centro; um desses planetas, cujos níveis de oxigênio, presença de água e clima são idênticos ao da terra, se apresenta convidativo a tripulação, que o batiza de Soror e parte em sua direção. No entanto, os três tripulantes desconhecem que nesse planeta exista vida, incluindo uma raça idêntica a humana, mas que não passam de animais selvagens controlados por instinto e que servem de caça, animais de estimação e cobaias para a verdadeira  raça dominante, os macacos.

Cornellius, Zira e Mérou
O que eu achei bacana do livro é que o conceito presente é tão amplo que consegue ter trechos reconhecidos em todos os filmes acima citados. Obviamente o que tem um esboço mais parecido é o clássico de 1968, com a ideia de viagem espacial e a presença do casal de chipanzés cientistas Zira e Cornélius, assim como do pedante orangotango Zeius; O plot twist do final também remete ao livro com uma carga semelhante de desesperança, embora sejam bem diferentes entre si. Lendo o livro retirei grande parte do crédito que eu havia dado aos roteiristas do filme “Planeta dos macacos: A origem”, pois entendi que o que fizeram no filme foi apenas colocar o chipanzé Cesar na mesma situação de Ulisse Mérou no livro, a de ser um animal que pensa e que busca a principio ser reconhecido como um igual e, depois de se deparar com as barbaridades da raça dominante, resolve se tornar o agente libertador de seus iguais, fato em que Cesar é infinitamente mais bem sucedido do que Ulisse. Até o final aleatório do filme de Tim Burton ficou mais claro para mim ao ler o livro, embora que sua realização ainda continue a não fazer sentido.

Não precisava né Tim Burtom
Outra coisa que gostei foi pequena a sátira da nossa sociedade apresentada pelo autor nas entre linhas. A sociedade macaca (acho o termo muito engraçado) se divide em três grandes grupos, os Gorilas, que conforme o protagonista vem a descobrir através de pesquisa, foram os grandes líderes de um passado onde a força imperava, mas que passaram a dominar através da capacidade administrativa e política; Os pedantes e orgulhosos orangotangos, que são considerados a personificação da ciência e conhecimento, sendo responsáveis pela escrita dos livros didáticos, presidindo os conselhos científicos e estabelecimentos de ensino; e, os chipanzés, que são tratados como uma classe menor pelas outras duas, mas que se apresentam no livro como cientistas menos presos a dogmas e de emoções mais genuinamente humanas.



Através as três classes de macacos o autor parece colocar um espelho na frente da raça humana e expor suas lideranças como que agindo de forma a macaquear as gerações que a precederam evoluindo muito a custo. Com essa sátira o autor parece sinalizar uma defesa do direito dos animais (nos anos sessenta!!), invertendo o papel de poder e de descarte das cobaias usadas em estudos, fato que parece claro no longo relato que Pierre Boulle faz das experiências em humanos, além disso, o livro também parece sinalizar sobre o preconceito racial e social ao mostrar as três famílias de símios se menosprezando entre si para se acreditar superior cada uma a seu modo; mas talvez essa última observação pertença apenas a mim e nada tenha passado pela cabeça de Pierre Boulle, pelo fato de o livro ser fruto de seu tempo e como tal carregar em si seus preconceitos não intencionais.


ao meu sinal
Gostei do livro. Achei as duas surpresas do final bem tristes para quem esperava um fechamento edificante para o protagonista, mas é um plot twist bem legal e enriquece o livro. A leitura é fácil e divertida, embora por vezes pareça rebuscada demais para ser narrada por um cara do ano 2500, os últimos capítulos onde o autor tenta dar uma explicação sobre o porquê daquela troca de papéis entre humanos e macacos, utilizando uma humana que tem acesso as lembranças com inconsciente coletivo é demais. Em resumo, “O planeta dos macacos” é uma ótima leitura para quem quer relaxar e se divertir e, essencial para quem gosta de ficção científica, recomendo além de ler o livro assistir o filme de 1968 e o reboot de 2011 e verificar as semelhanças e diferenças entre as obras. Aproveita antes que os símios tomem conta de tudo... SEUS MANÍACOSSSS !!!

AITZAZ HASAN

Em
 Em um mundo cruel em que lunáticos tiram a vida de crianças inocentes com estiletes, histórias de heróis parecem resgatar a nossa tão abalada fé na humanidade. Infelizmente, a grande mídia carece de boas notícias e de exemplos a serem seguidos, tudo que vemos é o caos e a maldade, e muitos se deixam contaminar pela energia negativa.


A historia que tenho para contar não aconteceu no Brasil, aconteceu no distante Paquistão, terra da jovem ganhadora do Nobel da Paz, Malala Yousafzai, mas não é sobre ela que falarei, é sobre outro jovem, um adolescente de 15 anos chamado Aitzaz Hasan e como ele se tornou um herói de verdade.

O Paquistão é um país constantemente ameaçado por ataques de extremistas islâmicos cujo objetivo é impor a Sharia ( Direito Islâmico) no país. Sendo assim, os principais alvos são os locais que vão de encontro a uma visão retrograda do Islã, como escolas que tenham uma visão secular. Na manhã do dia 06 de janeiro, a escola em que estudava Aitzaz Hasan estava recebendo miliares de crianças e adolescentes; entretanto, o mal estava a espreita, um terrorista circundava a escola esperando o momento certo para se explodir e levar consigo o maior número de pessoas possíveis, mas o jovem Aitzaz Hasan percebeu o olhar estranho do homem e o jeito desconfiado e apressado dele.Não pensou duas vezes, ao perceber quando o homem caminhou em direção à escola, foi até ele e o segurou com toda a força, o homem se explodiu, levando Aitzaz Hasan junto - Hasan havia morrido, mas havia evitado que 2.000 jovens se ferissem ou morressem pelas mãos sanguinárias daquele homem-bomba.


Assim, morria um jovem de 15 anos, mas nascia um herói que, como Malala, entrou para história do Paquistão. Como o próprio pai de Aitzaz Hasan disse: " Meu filho fez sua mãe chorar, mas salvou cetenas de mães de chorarem por seus filhos. " O mundo está cheio de pessoas boas, é por isso que o mal jamais vencerá!

que o paraíso e nossas lembranças sejam reservados aos verdadeiros heróis

texto de Leandro Rolim Guerreiro

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A PRO

Voltei a ler quadrinhos. Há bastante tempo que não fazia isso direto e não queria começar com as edições mensais já de saída, então resolvi pegar alguns que fugissem um pouco do padrão e do estilo já estabelecido e tendo isso como guia, resolvi por matar a curiosidade de ler algo do Garth Ennis que não fosse o aclamado "Preacher" (que já aproveito para dizer que não sou o maior fã), assim escolhi "A Pro", roteirizado por Ennis e desenhado pela Excelente Amanda Conner. E não é que o bendito roteirista me surpreendeu! Enquanto meu filho e enteada assistiam à "cúmplices de um resgate" tive um divertido final de tarde dando muita risada da zoação ácida que Ennis faz com os super-heróis.


A HQ conta a história de Pro, uma prostituta de rua, especializada em gato-bola, que tem um filho recém nascido e vive na merda. Ela é observada por um alienígena que se intitula de "O inspetor", o qual aposta com seu fiel robô assistente, que qualquer pessoa tem as qualidades para se tornar um herói e assim lhe concede poderes e a indica para a "liga da Honra" para os ajudar a combater o crime, no entanto, sua personalidade, boca suja e visão do mundo real vão se apresentando como os maiores desafios tanto para seus novos companheiros, quanto para ela.

O que mais gostei em "A pro" é o fato de ser uma história ágil, não tem aquele lenga lenga desnecessário para te fazer comprar dez edições, além disso, a história é muito engraçada e suja, a personagem realmente transmite aquele olhar de sarcasmos e desesperança de alguém que veio da pior merda possível e tudo que ganhar é lucro. A protagonista é sempre mostrada como estivesse de saco cheio, com cara de cansaço, fumando e nos poucos momentos em que ela parece estar relaxando é quando está sentada no vaso e grande parte desse efeito transmitido se deve aos desenhos de Amanda Conner, que consegue apresentar em um tom cartunesco, um mundo que tem a presença de super-heróis (mesmo que toscos) mas que as misérias e a dureza estão expostas como ,no caso, na vida de merda de uma prostituta de rua.

A liga da honra merece um parágrafo. Garth Ennis, que odeia trabalhar com super-heróis (e isso fica claro quando lemos outros de seus trabalhos, em destaque "The Boys"), não tem a menor vontade de esconder que aquela ali é a liga da justiça da DC, ali encontramos o Santo, que é a versão do Super-man, mas que trás até no seu alter ego a timidez e inocência de um Clark Kent da era de ouro; temos o cavaleiro e seu fiel ajudante o escudeiro, versão de Batman e Robin, onde o escudeiro é sempre retratado ou agarrado as pernas de seu mentor ou sendo encochado por ele, dando forte referência a homo sexualidade da dupla; a Dama, que seria a mulher maravilha que se revela com tendências lésbica; O veloz que seria o Flash trajando apenas cuecas e um suspensório e o Lima como a versão do lanterna verde John Stwart e falando feito um mano. Todos eles são retratados tão cheios de si, tão focados apenas no seu mundo que cabe a protagonista, como toda sua falta de sutiliza e sensibilidade esfregar o quanto eles são uma piada e essa é uma das grandes partes da HQ, quando a Pro começa a apontar os defeitos de cada um e questionar para quê se precisariam de heróis que não são eficientes, o humor negro impera e é muito bom.

Ainda sobre a "liga da Honra", embora , aparentemente, a intenção do autor seja realmente tirar sarro do ícone, que deveria ser um exemplo de perfeição, mas que de perto se apresentam como um bando digno de risos, quando buscamos fazer uma leitura mais profunda da história, podemos relacionar esses ícones com nossos líderes , tanto políticos como os sociais, tais como os chefes do trabalho ou lideranças religiosas, que estão focados tanto em seu ponto de vista em relação a sociedade e seus interesses, que por vezes não conseguem enxergar como um igual quem os rodeia ou quem sofre com suas decisões. Levando isso em consideração, o fato de "A pro" ter uma origem e interesses bem diferentes da liga da honra a expõem à desconfiança e subtrai sua credibilidade por parte de seus colegas, o que faz com que ela apenas reafirme sua personalidade e erros recorrentes de sua vida, até que uma decisão feita em um momento crítico a faz se tornar a heroína que o Inspetor acreditava que ela seria.


Achei a história bem bacana. O enredo é simples, mas é original pelo atrevimento e sujeira contido nele; Garth Ennis me surpreendeu, porque eu não conseguia mais desvincula-lo ao roteiro de "Preacher" (que já falei que não gosto muito e um dia eu explico porquê.) e do "the Boys". O desenho é muito bem feito, chamando a atenção tanto pelas formas caricatas como são apresentados os super-heróis, quanto pelos detalhes sórdidos que podemos ver em segundo plano em alguns quadros da história; as cores forma bem escolhidas para transitar entre um universo de fantasia das HQ's e a sujeira da vida real e a agilidade da história torna tudo divertido e leve (até ali né). Uma história engraçada, crítica, ácida e suja, que eu deixo aqui como dica, para quem gosta de quadrinhos de super-heróis e principalmente para quem não gosta e quer dar boa risadas.


sábado, 2 de janeiro de 2016

A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA - ESQUERDA REWIEW

Me formei em 2015! Agora sou bacharel em administração (antes tarde do que nunca!) e, quando estava finalizando o TCC, em meio a dados que se acumulavam em umas três montanhas aguardando utilização, prometi que assim que a banca avaliadora me liberasse faria uma revisita aos livros, filmes e quadrinhos que me marcaram de alguma forma (prometi também ler todos os livros do “Game Of Thrones”, mas não sei se tenho tempo para tanto.).
Resolvi começar com “A mulher que escreveu a bíblia” de Moacyr Scliar, talvez pela onda crescente de feminismos cada vez mais em voga e que eu acredito ser extremamente necessária (apesar de não apoiar nenhum evento extremo) ou talvez por ser apaixonado pela obra do autor, o qual eu prometi a muito tempo ler todos os livros e nunca saí dos quatro que possuo (considero assim essa releitura um homenagem ao escritor). Pois bem, seja lá por qual motivo conhecido apenas pelo meu subconsciente, “A mulher que escreveu a bíblia” foi o livro escolhido e, senhoras e senhores, que livro bacana!
Não! Não vou me atrever a avaliar a forma de narrativa de um imortal da academia brasileira de letras, tão pouco questionarei qualquer mérito de um livro premiado com o Jabuti, meu interesse é falar um pouco sobre a experiência divertida de ler Moacyr Scliar e frisar os pontos que me colocaram um sorriso no rosto durante a leitura, para que, quem sabe, eu fomente em pelo menos uma pessoa o desejo de visitar o maravilhoso universo Scliariniano.
capa da versão de bolso

Qual a história do livro?
Ajudada por um ex-historiador que se converteu em “terapeuta de vidas passadas”, uma mulher descobre que, no século X a.C, foi uma das setecentas esposas do rei Salomão ( a mais feia de todas, mas a única capaz de ler e escrever), Fato inusitado que encanta o rei, que a encarrega de escrever a história da humanidade, tarefa árdua, que uma junta de escribas se dedica a anos sem sucesso. Com linguagem que transita entre a elevada dicção bíblica e o mais baixo calão, ela conta sua trajetória, desde o tempo em que não passava de uma solitária e feia filha de um obscuro chefe tribal. ( transcrição quase que idêntica à contracapa da minha edição da Cia das Letras)

Gostei muito da protagonista. Seus medos, sonhos e anseios são muito bem desenvolvidos e o fato dela não ter o nome dito em nenhum momento, me parece uma ferramenta para gerar catarse com o leitor, o que dá extremamente certo, somos um pouco nós que estamos ali vivendo seus medos e sonho, e, nos preocupando com a situação de quem ela se importa. Isso torna a personagem muito real, muito contemporânea, tanto que, embora que se trate (até certo ponto) de um romance histórico (é? sei não!) ambientado no oriente médio mil anos antes de Cristo, a feia (como se auto intitula a protagonista) é extremamente moderna e decidida. Esse fato remete a própria história do livro que, conforme citado anteriormente, é como se fosse o texto de uma mulher de nosso tempo narrando sua vida passada; utilizando isso, o autor se permitiu narrar a história sem a necessidade da utilização de termos que remetessem a época ou se prender a apresentação mais aprofundada da sociedade e ambiente, podendo partir logo para a construção da história, tanto que sobram momentos onde os personagens se tratam por “cara” e acham as coisas “legais” isso dá o tom do humor sutil do livro que nos conduz de forma suave pela leitura.
Ainda sobre a protagonista, o fato de ela ser uma personagem mulher escrita por um homem e que me parece tão feminina (e quando falo feminina, falo humana e não perfeita) é o que realmente mais gosto no livro. Talvez pelo fato de as poucas personagens femininas da minha infância e juventude (Dostoievski, muita história em quadrinhos e filmes dos anos 80 e 90) serem apenas muletas pouco exploradas e esse livro quebre esse paradigma de forma espetacular, apresentando uma mulher inteligente, que sabe de suas limitações e que busca ferramentas para contorna-las e que principalmente seja humana antes de mulher. Ela manipula, utiliza de silêncios para gerar expectativa, controla sua raiva, premedita suas atitudes; mesmo a índole da personagem que desde o inicio já é apontada como sendo boa, não há maniqueísmo e por vezes ela ultrapassa alguns limites para alcançar o que quer.
Quanto aos desejos da feia, há quem possa criticar o autor pelo fato dela ter o único objetivo de conquistar Salomão através do livro, voltando a velha mítica de que as mulheres só agem tendo os homens como foco. Mas eu fico inclinado a discordar disso, a força da personagem está em realizar o que nenhum homem ou grupo de homens conseguiu anteriormente, a transcrição (de redação carismática) das histórias “sagradas” e se o plano dela é arrastar Salomão para sua cama isso não diminui em nada o seu trabalho ( além do mais o corpo é dela e suas regras também).
Aquele humor...
Outro fato marcante na leitura são os personagens periféricos da história, como o pai da feia, que ela descreve como mulherengo e ausente, coisa que Moacyr Scliar consegue transmitir quando descreve os olhares pretensiosos e silêncios obtusos do patriarca do deserto, fato que se repete quando ele descreve o primeiro amor da protagonista, que só é citado pelo epiteto de “pastorzinho”, a quem nos é mostrado, pelo olhar da protagonista, como um simplório e limitado, no entanto gentil jovem sem perspectiva o qual vamos acompanhando em todo o seu azar durante  o livro; mas quem realmente me colocou um sorriso no rosto, foi Mikol, uma das concubinas de Salomão e que fica presente no livro por não mais de três páginas, mas pela qual o autor consegue transmitir o significado da amizade verdadeira nascida da cumplicidade. O trecho onde a feia fala sobre o conhecimento de Mikol sobre sinais gráficos é tão doce e de detalhes tão bem apresentados que eu tenho de transcrever uma parte aqui:

“Ela não sabia ler nem escrever, mas conhecia todos sinais gráficos, o ponto, a vírgula – que sempre a deixava pensativa – a interrogação e a exclamação, que lhe provocavam barrigadas de riso. E o travessão: também conhecia o travessão. Contudo, gostava mesmo era das reticências; sabia que aquilo era prazer a pessoa, com olhar perdido, pensar sobre a vida, sobre o mundo...
- “Sim, nas reticências talvez haja um lugar para mim...” (acho que perfeição não define essa parte do livro.)

Não posso terminar de falar sobre o livro sem fazer uma pequena comparação entre este livro de Moacyr Scliar e os dois livros com a mesma temática bíblica escritos pelo autor Português José Saramago ( “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”). Posso começar dizendo que não gosto da escrita de Saramago. Longe de mim depreciar o autor, até acho algumas partes de “Caim” bem divertidas, mas parece que o Autor português tem como único objetivo subverter os relatos bíblicos sem a vontade de escrever algo conclusivo que nos remeta a um olhar diferente da história conhecida. Em “O evangelho segundo Jesus Cristo” a trama se prende a momentos recorrentes de sexo entre Jesus e Madalena e parece vincular Lúcifer a religião islâmica quando cita como o anjo caído reza e descreve sua aparência, também não desenvolve muito dos personagens com potencial como Thiago (que é citado como irmão de Jesus, mas nada faz) e até perde tempo explicando eventos como a água com vinagre dada a Jesus na cruz para mostrar que os romanos não eram Tãão maus assim... um reflexo dos preconceitos do autor, e,  nisso o livro não engrena e se torna até chato. Em Caim, já temos uma narrativa mais rápida e é interessante porque foge da linearidade do tempo e isso é bacana, pois coloca o protagonista inserido em todos grandes episódios da bíblia, mas ao fim o autor comete o mesmo erro do que no livro anterior e dá um final que parece feito as pressas a história. Já em “A mulher que escreveu a bíblia” tudo parece mais redondo, tanto que o final, embora previsível pela situação que vai se desenhando, não decepciona e terminamos a leitura com um belo sorriso de satisfação, por sermos apresentados a outros pontos de vista e aprofundamentos. As  obras desses autores com esse tema, talvez tenham esse diferente impacto em mim devida a própria mensagem que eles tenham buscado transmitir nas entre linhas. Embora ambos fossem ateus (os dois já se foram) a vontade de diminuir a religião em Saramago era claramente observável, enquanto que Scliar, como Judeu, trazia ainda em si a religiosidade apenas como tradição, uma forma de carinho por suas origens, ,e o carinho gera mais frutos que a raiva (star War nos ensinou isso!). De qualquer forma, se eu precisasse escolher um para ler sobre o tema eu leria Scliar.

De qualquer forma eu quero dizer que valeu muito a pena reler “A mulher que escreveu a bíblia”, tive aquela mesma sensação que tive da primeira vez de surpresa e encantamento. Acredito que o Brasil deve redescobrir Moacyr Scliar, tanto através de seus livros quanto colunas e artigos, o cara era um gênio. Quanto a esse livro eu indicaria para quem está em transição entre leituras mais fáceis para contextos mais profundos, ele traz referencias de fácil acesso e um humor para todos, mas sem deixar de ser inteligente e ágil. Uma bela leitura e um livro para se destacar na estante e na memória. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

JESSICA JONES - A série



A DC tem muito a aprender com a Marvel! Eu sei que digo isso a cada  produção que a Marvel lança, mas fazer o quê? É a mais pura verdade! E foi exatamente isso que eu pensei ao terminar de assistir à “Jéssica Jones”, segunda produção conjunta entre a Netflix (essa linda) e Marvel (esse monstro sagrado).
Idealizada por Melissa Rosemberg e estrelada por Krysten Ritter, a série conta a história de Jessica Jones (é mesmo?!), uma ex aspirante a super-heroína, dotada de força sobre humana e capacidade de voo, ganhos em um acidente na adolescência, que após um grande trauma torna-se detetive particular e acaba sendo assombrada tanto pela culpa de seus erros, quanto pela uma psicopática figura  do passado (uuUUUuuuu que meda).


Cara! Eu gostei bastante da série, é claro que não teve o mesmo impacto em mim do que o Demolidor, até porque o demolidor tinha sofrido uma humilhação terrível nas mãos da fox e o resgate que a Netflix fez do personagem foi como uma virada aos quarenta e cinco com um gol de letra do zagueiro reserva (inesperado ao máximo), mas mesmo assim Jessica Jones me agradou bastante (foi um gol de cabeça do camisa 10) . A começar pela representatividade, eu sei que ando falando bastante sobre o assunto, mas é que eu acho importantíssima a ideia de dar voz e vez a personagens que não sigam o mesmo padrão recorrente, do homem, branco, hetero, ocidental, de trinta a quarenta anos e blá,blá,blá e nisso a série acerta em cheio, a protagonista é uma mulher, e mulher de verdade, que apesar de endurecida pela culpa e trauma não perde seu lado feminino e isso é bem bacana, porque a série não apresenta Jéssica como um homem de saia, ou como uma mulher perfeitinha, muito pelo contrário, há profundidade em sua personalidade e isso vai pouco a pouco se revelando quando conhecemos sua dependência pelo álcool, o trauma que carrega e que não a abandona e até seu pavio curto e ironia.  

Outro ponto positivo são os personagens coadjuvantes. Começando pelo grande vilão da série, Killgrave (a figura psicopática do passado), interpretado fodamente por David Tennant, ele é o melhor vilão do universo Marvel até agora, fazendo o Rei do crime parecer um menino chorão e Loki um playboy mimado. O cara é mau de verdade e inconsequente como poucos, seu poder de manipular as pessoas e sua personalidade doentia lhe torna omisso a culpa, fato que somado a seu carisma e sangue frio o colocam no mesmo nível de um coringa do Heath Ledger (sem falar no terno roxo), Luke Cage, que será o terceiro  personagem a ganhar uma série da Netflix também está muito bem representado por Mike Colter, o cara transmite carisma e seriedade, ficou longe do Luke Cage mais zoeiro que eu lia nas velhas revistinhas que a abril lançava por aqui nos meados dos anos oitenta, lembrando sim o Luke do selo Marvel Max; o tempo todo o cara é um cavalheiro (mas com aquele 1%) e o assunto que coloca o personagem no caminho de Jéssica é totalmente orgânico e deixa pontas soltas para serem exploradas na série do herói. Rachael Taylor, que interpreta Trish Walker , melhor amiga de Jéssica (que nas HQ’s é a heroína “Felina” (quem sabe, heim netflix?)), Eka Darville, que interpreta o drogado vizinho Malcolm, Wil Traval como Will Simpson (bazuca) e Carrie-Anne Moss, no papel da advogada Jeri Hogarth fecham os destaques do elenco, todos muito bem.

Aliás a presença de bazuca, faz um link direto com a série do Demolidor e uma possível “queda de Murdock”; do mesmo modo que deixa claro, junto com os traumas causados por Killgrave à protagonista que o tema central da série é o abuso. Frases recorrentes como “Tenho medo de encontra-lo na rua”, ou “Eu não era eu mesma...” dão o tom a série que o grande trauma de Jéssica (transformado em alegoria)  foi um relacionamento abusivo e isso se comprova quando surge o personagem  Will Simpson e este vem a se envolver com Trish Walker. No inicio do relacionamento Will se porta como um bem intencionado e arrependido sujeito, mas conforme a série avança vemos se tornar em um sujeito possessivo e violento, o que remete aos traumas da protagonista e quebra a empatia que temos pelo personagem a principio. Situação muito bem apresentada e explorada desde o primeiro episódio.

Mas o que eu realmente mais gostei da série, tenho que reafirmar, foi a protagonista. Estávamos com falta de uma personagem feminina forte e não sexualizada, mas não masculina; alguém em três dimensões, com problemas e relacionamentos críveis ( que se alternam entre cos e confusão e momentos de verdadeira cumplicidade). Dou grande crédito ao que a personagem transmite à escolha acertada de Krysten Ritter no papel de Jessica Jones, não que eu seja fã da atriz, na verdade só a vi em “Breaking Bad” e não me passava muita naturalidade, o que me fez ter um pouco de medo do que esperar dela na série, por sorte aquele cara nada simpática e olhos que parecem querer saber o que a outra pessoa está pensando combinaram com o papel e ela me convenceu.

A independência da personagem (embora existam pessoas que a cerquem) é muito bacana, e É isso que a DC deve aprender com a Marvel!! Existem problemas sérios acontecendo, mas não é necessária uma equipe de cientistas, hakers e sidekicks para dar apoio, como vemos em Arrow, Flash e supergirl (sempre a mesma coisa DC??), Jéssica tem seus problemas, seus poderes e seus métodos e isso já é mais do que o suficiente, além disso, como toda série de sucesso, o ser humano e seus problemas são o que movem tudo e o “super-herói” é colocado em segundo plano isso dá um ar de realismo fantástico à série e causa empatia em quem assiste, um grande acerto da Marvel herdado do Homem-Aranha do Sam Raimi.

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Outro ponto que a DC tem que aprender com a Marvel, é a utilização de personagens mais obscuros nas suas produções. Não sei quanto a vocês, mas eu não aguento mais produções com o Batman, Superman e Flash (e seu universo), a DC tem dezenas de bons personagens, como Hitman, Starman, a liga da Justiça sombria entre outros, mas parece presa a seus personagens mais icônicos, como os citados acima e quando tenta utilizar algum que foge de sua constelação central, temos produções capengas ou ignoradas, parece que a DC/Warner tem medo de jogar com cartas menores e fugir de sua fórmula de séries.

Adicionar legenda
O que parece motivo para a DC tremer parece ser o segredo do sucesso de “Jéssica Jones”. Assim como em “Os guardiões da Galáxia” o grande segredo da série foi o fato de o personagem ser muito pouco conhecido, o que favoreceu que os roteiristas não ficassem restritos demais a personalidade do personagem dos HQ’s e essa liberdade favoreceu a série, algo que seria pouco aceito em relação a um Wolverine ou Capitão América e que eu espero que a DC imite em seu “Esquadrão Suicida”.


Pois bem, gostei bastante da série “Jessica Jones”, embora eu sinta algumas pequenas quebras de ritmo durante a série, mas isso influencia muito pouco na trama, a qual eu achei bem concisa e me fez querer assistir ao próximo episódio assim que o que estava assistindo terminava e torcer por uma nova temporada. Grande trabalho de Melissa Rosemberg e de atuações primorosas como a de Krysten Ritter e David Tennant, mais um acerto da Netflix/Marvel que nos faz contar os dias pelas estreias de “Luke Cage” e “Punho de Ferro”.  Uma grande dica de diversão para quem tiver um tempinho para dar chance a uma série bem bacana e fora dos estereótipos e arquétipos tradicionais e uma grande aula de utilização de personagens obscuros a nossa querida DC comics.