sábado, 9 de janeiro de 2016

AITZAZ HASAN

Em
 Em um mundo cruel em que lunáticos tiram a vida de crianças inocentes com estiletes, histórias de heróis parecem resgatar a nossa tão abalada fé na humanidade. Infelizmente, a grande mídia carece de boas notícias e de exemplos a serem seguidos, tudo que vemos é o caos e a maldade, e muitos se deixam contaminar pela energia negativa.


A historia que tenho para contar não aconteceu no Brasil, aconteceu no distante Paquistão, terra da jovem ganhadora do Nobel da Paz, Malala Yousafzai, mas não é sobre ela que falarei, é sobre outro jovem, um adolescente de 15 anos chamado Aitzaz Hasan e como ele se tornou um herói de verdade.

O Paquistão é um país constantemente ameaçado por ataques de extremistas islâmicos cujo objetivo é impor a Sharia ( Direito Islâmico) no país. Sendo assim, os principais alvos são os locais que vão de encontro a uma visão retrograda do Islã, como escolas que tenham uma visão secular. Na manhã do dia 06 de janeiro, a escola em que estudava Aitzaz Hasan estava recebendo miliares de crianças e adolescentes; entretanto, o mal estava a espreita, um terrorista circundava a escola esperando o momento certo para se explodir e levar consigo o maior número de pessoas possíveis, mas o jovem Aitzaz Hasan percebeu o olhar estranho do homem e o jeito desconfiado e apressado dele.Não pensou duas vezes, ao perceber quando o homem caminhou em direção à escola, foi até ele e o segurou com toda a força, o homem se explodiu, levando Aitzaz Hasan junto - Hasan havia morrido, mas havia evitado que 2.000 jovens se ferissem ou morressem pelas mãos sanguinárias daquele homem-bomba.


Assim, morria um jovem de 15 anos, mas nascia um herói que, como Malala, entrou para história do Paquistão. Como o próprio pai de Aitzaz Hasan disse: " Meu filho fez sua mãe chorar, mas salvou cetenas de mães de chorarem por seus filhos. " O mundo está cheio de pessoas boas, é por isso que o mal jamais vencerá!

que o paraíso e nossas lembranças sejam reservados aos verdadeiros heróis

texto de Leandro Rolim Guerreiro

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A PRO

Voltei a ler quadrinhos. Há bastante tempo que não fazia isso direto e não queria começar com as edições mensais já de saída, então resolvi pegar alguns que fugissem um pouco do padrão e do estilo já estabelecido e tendo isso como guia, resolvi por matar a curiosidade de ler algo do Garth Ennis que não fosse o aclamado "Preacher" (que já aproveito para dizer que não sou o maior fã), assim escolhi "A Pro", roteirizado por Ennis e desenhado pela Excelente Amanda Conner. E não é que o bendito roteirista me surpreendeu! Enquanto meu filho e enteada assistiam à "cúmplices de um resgate" tive um divertido final de tarde dando muita risada da zoação ácida que Ennis faz com os super-heróis.


A HQ conta a história de Pro, uma prostituta de rua, especializada em gato-bola, que tem um filho recém nascido e vive na merda. Ela é observada por um alienígena que se intitula de "O inspetor", o qual aposta com seu fiel robô assistente, que qualquer pessoa tem as qualidades para se tornar um herói e assim lhe concede poderes e a indica para a "liga da Honra" para os ajudar a combater o crime, no entanto, sua personalidade, boca suja e visão do mundo real vão se apresentando como os maiores desafios tanto para seus novos companheiros, quanto para ela.

O que mais gostei em "A pro" é o fato de ser uma história ágil, não tem aquele lenga lenga desnecessário para te fazer comprar dez edições, além disso, a história é muito engraçada e suja, a personagem realmente transmite aquele olhar de sarcasmos e desesperança de alguém que veio da pior merda possível e tudo que ganhar é lucro. A protagonista é sempre mostrada como estivesse de saco cheio, com cara de cansaço, fumando e nos poucos momentos em que ela parece estar relaxando é quando está sentada no vaso e grande parte desse efeito transmitido se deve aos desenhos de Amanda Conner, que consegue apresentar em um tom cartunesco, um mundo que tem a presença de super-heróis (mesmo que toscos) mas que as misérias e a dureza estão expostas como ,no caso, na vida de merda de uma prostituta de rua.

A liga da honra merece um parágrafo. Garth Ennis, que odeia trabalhar com super-heróis (e isso fica claro quando lemos outros de seus trabalhos, em destaque "The Boys"), não tem a menor vontade de esconder que aquela ali é a liga da justiça da DC, ali encontramos o Santo, que é a versão do Super-man, mas que trás até no seu alter ego a timidez e inocência de um Clark Kent da era de ouro; temos o cavaleiro e seu fiel ajudante o escudeiro, versão de Batman e Robin, onde o escudeiro é sempre retratado ou agarrado as pernas de seu mentor ou sendo encochado por ele, dando forte referência a homo sexualidade da dupla; a Dama, que seria a mulher maravilha que se revela com tendências lésbica; O veloz que seria o Flash trajando apenas cuecas e um suspensório e o Lima como a versão do lanterna verde John Stwart e falando feito um mano. Todos eles são retratados tão cheios de si, tão focados apenas no seu mundo que cabe a protagonista, como toda sua falta de sutiliza e sensibilidade esfregar o quanto eles são uma piada e essa é uma das grandes partes da HQ, quando a Pro começa a apontar os defeitos de cada um e questionar para quê se precisariam de heróis que não são eficientes, o humor negro impera e é muito bom.

Ainda sobre a "liga da Honra", embora , aparentemente, a intenção do autor seja realmente tirar sarro do ícone, que deveria ser um exemplo de perfeição, mas que de perto se apresentam como um bando digno de risos, quando buscamos fazer uma leitura mais profunda da história, podemos relacionar esses ícones com nossos líderes , tanto políticos como os sociais, tais como os chefes do trabalho ou lideranças religiosas, que estão focados tanto em seu ponto de vista em relação a sociedade e seus interesses, que por vezes não conseguem enxergar como um igual quem os rodeia ou quem sofre com suas decisões. Levando isso em consideração, o fato de "A pro" ter uma origem e interesses bem diferentes da liga da honra a expõem à desconfiança e subtrai sua credibilidade por parte de seus colegas, o que faz com que ela apenas reafirme sua personalidade e erros recorrentes de sua vida, até que uma decisão feita em um momento crítico a faz se tornar a heroína que o Inspetor acreditava que ela seria.


Achei a história bem bacana. O enredo é simples, mas é original pelo atrevimento e sujeira contido nele; Garth Ennis me surpreendeu, porque eu não conseguia mais desvincula-lo ao roteiro de "Preacher" (que já falei que não gosto muito e um dia eu explico porquê.) e do "the Boys". O desenho é muito bem feito, chamando a atenção tanto pelas formas caricatas como são apresentados os super-heróis, quanto pelos detalhes sórdidos que podemos ver em segundo plano em alguns quadros da história; as cores forma bem escolhidas para transitar entre um universo de fantasia das HQ's e a sujeira da vida real e a agilidade da história torna tudo divertido e leve (até ali né). Uma história engraçada, crítica, ácida e suja, que eu deixo aqui como dica, para quem gosta de quadrinhos de super-heróis e principalmente para quem não gosta e quer dar boa risadas.


sábado, 2 de janeiro de 2016

A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA - ESQUERDA REWIEW

Me formei em 2015! Agora sou bacharel em administração (antes tarde do que nunca!) e, quando estava finalizando o TCC, em meio a dados que se acumulavam em umas três montanhas aguardando utilização, prometi que assim que a banca avaliadora me liberasse faria uma revisita aos livros, filmes e quadrinhos que me marcaram de alguma forma (prometi também ler todos os livros do “Game Of Thrones”, mas não sei se tenho tempo para tanto.).
Resolvi começar com “A mulher que escreveu a bíblia” de Moacyr Scliar, talvez pela onda crescente de feminismos cada vez mais em voga e que eu acredito ser extremamente necessária (apesar de não apoiar nenhum evento extremo) ou talvez por ser apaixonado pela obra do autor, o qual eu prometi a muito tempo ler todos os livros e nunca saí dos quatro que possuo (considero assim essa releitura um homenagem ao escritor). Pois bem, seja lá por qual motivo conhecido apenas pelo meu subconsciente, “A mulher que escreveu a bíblia” foi o livro escolhido e, senhoras e senhores, que livro bacana!
Não! Não vou me atrever a avaliar a forma de narrativa de um imortal da academia brasileira de letras, tão pouco questionarei qualquer mérito de um livro premiado com o Jabuti, meu interesse é falar um pouco sobre a experiência divertida de ler Moacyr Scliar e frisar os pontos que me colocaram um sorriso no rosto durante a leitura, para que, quem sabe, eu fomente em pelo menos uma pessoa o desejo de visitar o maravilhoso universo Scliariniano.
capa da versão de bolso

Qual a história do livro?
Ajudada por um ex-historiador que se converteu em “terapeuta de vidas passadas”, uma mulher descobre que, no século X a.C, foi uma das setecentas esposas do rei Salomão ( a mais feia de todas, mas a única capaz de ler e escrever), Fato inusitado que encanta o rei, que a encarrega de escrever a história da humanidade, tarefa árdua, que uma junta de escribas se dedica a anos sem sucesso. Com linguagem que transita entre a elevada dicção bíblica e o mais baixo calão, ela conta sua trajetória, desde o tempo em que não passava de uma solitária e feia filha de um obscuro chefe tribal. ( transcrição quase que idêntica à contracapa da minha edição da Cia das Letras)

Gostei muito da protagonista. Seus medos, sonhos e anseios são muito bem desenvolvidos e o fato dela não ter o nome dito em nenhum momento, me parece uma ferramenta para gerar catarse com o leitor, o que dá extremamente certo, somos um pouco nós que estamos ali vivendo seus medos e sonho, e, nos preocupando com a situação de quem ela se importa. Isso torna a personagem muito real, muito contemporânea, tanto que, embora que se trate (até certo ponto) de um romance histórico (é? sei não!) ambientado no oriente médio mil anos antes de Cristo, a feia (como se auto intitula a protagonista) é extremamente moderna e decidida. Esse fato remete a própria história do livro que, conforme citado anteriormente, é como se fosse o texto de uma mulher de nosso tempo narrando sua vida passada; utilizando isso, o autor se permitiu narrar a história sem a necessidade da utilização de termos que remetessem a época ou se prender a apresentação mais aprofundada da sociedade e ambiente, podendo partir logo para a construção da história, tanto que sobram momentos onde os personagens se tratam por “cara” e acham as coisas “legais” isso dá o tom do humor sutil do livro que nos conduz de forma suave pela leitura.
Ainda sobre a protagonista, o fato de ela ser uma personagem mulher escrita por um homem e que me parece tão feminina (e quando falo feminina, falo humana e não perfeita) é o que realmente mais gosto no livro. Talvez pelo fato de as poucas personagens femininas da minha infância e juventude (Dostoievski, muita história em quadrinhos e filmes dos anos 80 e 90) serem apenas muletas pouco exploradas e esse livro quebre esse paradigma de forma espetacular, apresentando uma mulher inteligente, que sabe de suas limitações e que busca ferramentas para contorna-las e que principalmente seja humana antes de mulher. Ela manipula, utiliza de silêncios para gerar expectativa, controla sua raiva, premedita suas atitudes; mesmo a índole da personagem que desde o inicio já é apontada como sendo boa, não há maniqueísmo e por vezes ela ultrapassa alguns limites para alcançar o que quer.
Quanto aos desejos da feia, há quem possa criticar o autor pelo fato dela ter o único objetivo de conquistar Salomão através do livro, voltando a velha mítica de que as mulheres só agem tendo os homens como foco. Mas eu fico inclinado a discordar disso, a força da personagem está em realizar o que nenhum homem ou grupo de homens conseguiu anteriormente, a transcrição (de redação carismática) das histórias “sagradas” e se o plano dela é arrastar Salomão para sua cama isso não diminui em nada o seu trabalho ( além do mais o corpo é dela e suas regras também).
Aquele humor...
Outro fato marcante na leitura são os personagens periféricos da história, como o pai da feia, que ela descreve como mulherengo e ausente, coisa que Moacyr Scliar consegue transmitir quando descreve os olhares pretensiosos e silêncios obtusos do patriarca do deserto, fato que se repete quando ele descreve o primeiro amor da protagonista, que só é citado pelo epiteto de “pastorzinho”, a quem nos é mostrado, pelo olhar da protagonista, como um simplório e limitado, no entanto gentil jovem sem perspectiva o qual vamos acompanhando em todo o seu azar durante  o livro; mas quem realmente me colocou um sorriso no rosto, foi Mikol, uma das concubinas de Salomão e que fica presente no livro por não mais de três páginas, mas pela qual o autor consegue transmitir o significado da amizade verdadeira nascida da cumplicidade. O trecho onde a feia fala sobre o conhecimento de Mikol sobre sinais gráficos é tão doce e de detalhes tão bem apresentados que eu tenho de transcrever uma parte aqui:

“Ela não sabia ler nem escrever, mas conhecia todos sinais gráficos, o ponto, a vírgula – que sempre a deixava pensativa – a interrogação e a exclamação, que lhe provocavam barrigadas de riso. E o travessão: também conhecia o travessão. Contudo, gostava mesmo era das reticências; sabia que aquilo era prazer a pessoa, com olhar perdido, pensar sobre a vida, sobre o mundo...
- “Sim, nas reticências talvez haja um lugar para mim...” (acho que perfeição não define essa parte do livro.)

Não posso terminar de falar sobre o livro sem fazer uma pequena comparação entre este livro de Moacyr Scliar e os dois livros com a mesma temática bíblica escritos pelo autor Português José Saramago ( “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”). Posso começar dizendo que não gosto da escrita de Saramago. Longe de mim depreciar o autor, até acho algumas partes de “Caim” bem divertidas, mas parece que o Autor português tem como único objetivo subverter os relatos bíblicos sem a vontade de escrever algo conclusivo que nos remeta a um olhar diferente da história conhecida. Em “O evangelho segundo Jesus Cristo” a trama se prende a momentos recorrentes de sexo entre Jesus e Madalena e parece vincular Lúcifer a religião islâmica quando cita como o anjo caído reza e descreve sua aparência, também não desenvolve muito dos personagens com potencial como Thiago (que é citado como irmão de Jesus, mas nada faz) e até perde tempo explicando eventos como a água com vinagre dada a Jesus na cruz para mostrar que os romanos não eram Tãão maus assim... um reflexo dos preconceitos do autor, e,  nisso o livro não engrena e se torna até chato. Em Caim, já temos uma narrativa mais rápida e é interessante porque foge da linearidade do tempo e isso é bacana, pois coloca o protagonista inserido em todos grandes episódios da bíblia, mas ao fim o autor comete o mesmo erro do que no livro anterior e dá um final que parece feito as pressas a história. Já em “A mulher que escreveu a bíblia” tudo parece mais redondo, tanto que o final, embora previsível pela situação que vai se desenhando, não decepciona e terminamos a leitura com um belo sorriso de satisfação, por sermos apresentados a outros pontos de vista e aprofundamentos. As  obras desses autores com esse tema, talvez tenham esse diferente impacto em mim devida a própria mensagem que eles tenham buscado transmitir nas entre linhas. Embora ambos fossem ateus (os dois já se foram) a vontade de diminuir a religião em Saramago era claramente observável, enquanto que Scliar, como Judeu, trazia ainda em si a religiosidade apenas como tradição, uma forma de carinho por suas origens, ,e o carinho gera mais frutos que a raiva (star War nos ensinou isso!). De qualquer forma, se eu precisasse escolher um para ler sobre o tema eu leria Scliar.

De qualquer forma eu quero dizer que valeu muito a pena reler “A mulher que escreveu a bíblia”, tive aquela mesma sensação que tive da primeira vez de surpresa e encantamento. Acredito que o Brasil deve redescobrir Moacyr Scliar, tanto através de seus livros quanto colunas e artigos, o cara era um gênio. Quanto a esse livro eu indicaria para quem está em transição entre leituras mais fáceis para contextos mais profundos, ele traz referencias de fácil acesso e um humor para todos, mas sem deixar de ser inteligente e ágil. Uma bela leitura e um livro para se destacar na estante e na memória. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

JESSICA JONES - A série



A DC tem muito a aprender com a Marvel! Eu sei que digo isso a cada  produção que a Marvel lança, mas fazer o quê? É a mais pura verdade! E foi exatamente isso que eu pensei ao terminar de assistir à “Jéssica Jones”, segunda produção conjunta entre a Netflix (essa linda) e Marvel (esse monstro sagrado).
Idealizada por Melissa Rosemberg e estrelada por Krysten Ritter, a série conta a história de Jessica Jones (é mesmo?!), uma ex aspirante a super-heroína, dotada de força sobre humana e capacidade de voo, ganhos em um acidente na adolescência, que após um grande trauma torna-se detetive particular e acaba sendo assombrada tanto pela culpa de seus erros, quanto pela uma psicopática figura  do passado (uuUUUuuuu que meda).


Cara! Eu gostei bastante da série, é claro que não teve o mesmo impacto em mim do que o Demolidor, até porque o demolidor tinha sofrido uma humilhação terrível nas mãos da fox e o resgate que a Netflix fez do personagem foi como uma virada aos quarenta e cinco com um gol de letra do zagueiro reserva (inesperado ao máximo), mas mesmo assim Jessica Jones me agradou bastante (foi um gol de cabeça do camisa 10) . A começar pela representatividade, eu sei que ando falando bastante sobre o assunto, mas é que eu acho importantíssima a ideia de dar voz e vez a personagens que não sigam o mesmo padrão recorrente, do homem, branco, hetero, ocidental, de trinta a quarenta anos e blá,blá,blá e nisso a série acerta em cheio, a protagonista é uma mulher, e mulher de verdade, que apesar de endurecida pela culpa e trauma não perde seu lado feminino e isso é bem bacana, porque a série não apresenta Jéssica como um homem de saia, ou como uma mulher perfeitinha, muito pelo contrário, há profundidade em sua personalidade e isso vai pouco a pouco se revelando quando conhecemos sua dependência pelo álcool, o trauma que carrega e que não a abandona e até seu pavio curto e ironia.  

Outro ponto positivo são os personagens coadjuvantes. Começando pelo grande vilão da série, Killgrave (a figura psicopática do passado), interpretado fodamente por David Tennant, ele é o melhor vilão do universo Marvel até agora, fazendo o Rei do crime parecer um menino chorão e Loki um playboy mimado. O cara é mau de verdade e inconsequente como poucos, seu poder de manipular as pessoas e sua personalidade doentia lhe torna omisso a culpa, fato que somado a seu carisma e sangue frio o colocam no mesmo nível de um coringa do Heath Ledger (sem falar no terno roxo), Luke Cage, que será o terceiro  personagem a ganhar uma série da Netflix também está muito bem representado por Mike Colter, o cara transmite carisma e seriedade, ficou longe do Luke Cage mais zoeiro que eu lia nas velhas revistinhas que a abril lançava por aqui nos meados dos anos oitenta, lembrando sim o Luke do selo Marvel Max; o tempo todo o cara é um cavalheiro (mas com aquele 1%) e o assunto que coloca o personagem no caminho de Jéssica é totalmente orgânico e deixa pontas soltas para serem exploradas na série do herói. Rachael Taylor, que interpreta Trish Walker , melhor amiga de Jéssica (que nas HQ’s é a heroína “Felina” (quem sabe, heim netflix?)), Eka Darville, que interpreta o drogado vizinho Malcolm, Wil Traval como Will Simpson (bazuca) e Carrie-Anne Moss, no papel da advogada Jeri Hogarth fecham os destaques do elenco, todos muito bem.

Aliás a presença de bazuca, faz um link direto com a série do Demolidor e uma possível “queda de Murdock”; do mesmo modo que deixa claro, junto com os traumas causados por Killgrave à protagonista que o tema central da série é o abuso. Frases recorrentes como “Tenho medo de encontra-lo na rua”, ou “Eu não era eu mesma...” dão o tom a série que o grande trauma de Jéssica (transformado em alegoria)  foi um relacionamento abusivo e isso se comprova quando surge o personagem  Will Simpson e este vem a se envolver com Trish Walker. No inicio do relacionamento Will se porta como um bem intencionado e arrependido sujeito, mas conforme a série avança vemos se tornar em um sujeito possessivo e violento, o que remete aos traumas da protagonista e quebra a empatia que temos pelo personagem a principio. Situação muito bem apresentada e explorada desde o primeiro episódio.

Mas o que eu realmente mais gostei da série, tenho que reafirmar, foi a protagonista. Estávamos com falta de uma personagem feminina forte e não sexualizada, mas não masculina; alguém em três dimensões, com problemas e relacionamentos críveis ( que se alternam entre cos e confusão e momentos de verdadeira cumplicidade). Dou grande crédito ao que a personagem transmite à escolha acertada de Krysten Ritter no papel de Jessica Jones, não que eu seja fã da atriz, na verdade só a vi em “Breaking Bad” e não me passava muita naturalidade, o que me fez ter um pouco de medo do que esperar dela na série, por sorte aquele cara nada simpática e olhos que parecem querer saber o que a outra pessoa está pensando combinaram com o papel e ela me convenceu.

A independência da personagem (embora existam pessoas que a cerquem) é muito bacana, e É isso que a DC deve aprender com a Marvel!! Existem problemas sérios acontecendo, mas não é necessária uma equipe de cientistas, hakers e sidekicks para dar apoio, como vemos em Arrow, Flash e supergirl (sempre a mesma coisa DC??), Jéssica tem seus problemas, seus poderes e seus métodos e isso já é mais do que o suficiente, além disso, como toda série de sucesso, o ser humano e seus problemas são o que movem tudo e o “super-herói” é colocado em segundo plano isso dá um ar de realismo fantástico à série e causa empatia em quem assiste, um grande acerto da Marvel herdado do Homem-Aranha do Sam Raimi.

xxx

Outro ponto que a DC tem que aprender com a Marvel, é a utilização de personagens mais obscuros nas suas produções. Não sei quanto a vocês, mas eu não aguento mais produções com o Batman, Superman e Flash (e seu universo), a DC tem dezenas de bons personagens, como Hitman, Starman, a liga da Justiça sombria entre outros, mas parece presa a seus personagens mais icônicos, como os citados acima e quando tenta utilizar algum que foge de sua constelação central, temos produções capengas ou ignoradas, parece que a DC/Warner tem medo de jogar com cartas menores e fugir de sua fórmula de séries.

Adicionar legenda
O que parece motivo para a DC tremer parece ser o segredo do sucesso de “Jéssica Jones”. Assim como em “Os guardiões da Galáxia” o grande segredo da série foi o fato de o personagem ser muito pouco conhecido, o que favoreceu que os roteiristas não ficassem restritos demais a personalidade do personagem dos HQ’s e essa liberdade favoreceu a série, algo que seria pouco aceito em relação a um Wolverine ou Capitão América e que eu espero que a DC imite em seu “Esquadrão Suicida”.


Pois bem, gostei bastante da série “Jessica Jones”, embora eu sinta algumas pequenas quebras de ritmo durante a série, mas isso influencia muito pouco na trama, a qual eu achei bem concisa e me fez querer assistir ao próximo episódio assim que o que estava assistindo terminava e torcer por uma nova temporada. Grande trabalho de Melissa Rosemberg e de atuações primorosas como a de Krysten Ritter e David Tennant, mais um acerto da Netflix/Marvel que nos faz contar os dias pelas estreias de “Luke Cage” e “Punho de Ferro”.  Uma grande dica de diversão para quem tiver um tempinho para dar chance a uma série bem bacana e fora dos estereótipos e arquétipos tradicionais e uma grande aula de utilização de personagens obscuros a nossa querida DC comics.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

STAR WARS VII: O despertar da força (2015)

Felicidade ! Foi esse sentimento que o episódio VII de Star Wars despertou em mim. Tudo o que eu queria estava ali naquelas duas horas e quinze minutos de filme; personagens carismáticos, uma trama pertinente e princialmente, muito respeito a série clássica, mas sem por isso encher o filme de referências, fato que faz o filme se sustentar sozinho, isca perfeita para quem queria ver o filme mas não havia assistido os anteriores. Saí emocionado do cinema e contando os dias para assistir aos próximos episódios.

Minha felicidade foi tão grande que não quis escrever nada logo em seguida, preferi deixar a empolgação baixar e depois ir analisando os pontos fortes e fracos do filme para poder traçar uma opinião mais sensata, mas como já se passaram três dias e eu continuo empolgado e remoendo na minha cabeça as cenas marcantes, resolvi escrever assim mesmo. Vamos então falar de Star Wars VII: O despertar da Força.

Dirigido por J.J Abrams, que também assina o roteiro junto com Lawrence Kasdan, o filme se passa trinta anos após os eventos de "O retorno de Jedi", onde o império galático é derrotado pela aliança rebelde e o imperador Palpatine morto. Nessa nova história somos apresentados a Rey, uma misteriosa catadora de sucata moradora do planeta Jakku, a Poe Dameron, o melhor piloto da ,agora chamada, resistência e a Finn, um desertor dos Stormtroopers, criado desde bebê para servir aos ideais da misteriosa primeira ordem, um grupo poderoso que busca derrubar novamente a república e instaurar uma nova ditadura baseada nas ideias de seu misterioso líder chamado apenas de Smoke, que tem como aprendiz e braço direito, o misterioso Kylo Ren.

Dessa vez não vou dar Spoliers, o filme é tão bacana que, mesmo empolgado, não quero estragar a sensação de assisti-lo sem saber nada. Como já disse vou listar algumas coisas que achei positivas as poucas que não achei grande coisa, mas que mesmo assim não atrapalham em nada o filme.


Tudo que há de bom

Com certeza o grande ponto positivo do filme (como de todo bom filme, a propósito!) são os personagens. J.J Abrams consegue nos entregar personagens centrais muito bem construídos e matar a nossa saudade da personalidade dos personagens da trilogia clássica. Através dos olhos desses novos personagens, dois em especial (Finn & Rey) somos apresentados a situação atual da galáxia e a relação e decisões de ambos são o que movem a história. Rey é uma solitária catadora de sucata em Jakku, um planeta inóspito, é ela o grande enigma da trama ( quem é Rey?), lutando pela sobrevivência desde menina, a vida dura não tirou dela a vontade de fazer a coisa certa, o que a leva ao encontro de seu destino junto à resistência. Finn por sua vez é o olhar de quem desperta de uma realidade que percebe não ser a certa e que, mesmo repleto de medo, não se acovarda, suas tiradas cômicas são muito legais, dando um alívio cômico a situação sem tornar o personagem em alívio cômico, o que faz acreditar nele quando a situação pede.

Além de tudo, Rey e Finn tem um papel muito importante dentro dessa nova saga, que é a representatividade. Desde que o roteiro foi parcialmente divulgado surgiram protestos por parte dos fãs (poucas graças a força) que criticavam o fato de os novos protagonistas serem um homem negro e mulher, presentas representativas que eram quase nulas nos filmes anteriores e que dessa vez chamam a atenção sem interferir em nada na trama, na verdade apenas a enriquecem pois segue o espirito da história que diz que todos e qualquer um podem fazer a diferença, é o que acontece no episódio IV, quando um fazendeiro se torna o herói da galáxia, e isso me tornou muito mais fã da saga e deu um tapa na cara de quem acha que é dono da bola. A história de vida desses personagens também é importante, J.J faz algo maravilhoso ao dar rosto a figuras esquecidas ao longo da série, como quem vive em planetas pouco envolvidos com a trama central e dar voz a personagens tidos como descartáveis, como os Stormtroopers, isso dá uma nova perspectiva e gás à história.
A amizade e a química entre os personagens é algo muito legal e que também remete a trilogia clássica, onde todos os vínculos parecem acontecer de forma muito rápidas e espontâneas, mas que nem por isso pareçam artificiais. Isso me parecia meio forçado na trilogia clássica, ma o diretor conseguiu transformar os motivos em algo tão orgânico e natural, que até a amizade de Luke, han e Léia, na trilogia clássica, tornaram-se mais naturais para mim; Vivem-se momentos de guerra, na verdade todos esses novos personagens nasceram em meio à guerra e quando se encontram sendo vistos como pessoas e sendo bem quistos pelos outros, suas relações tendem a se tornar fortes e verdadeiras, tanto que nos sentimos felizes com seus reencontros e compartilhamos de seus medos quando se separam, é muito bacana!

A ação no filme é algo extasiante. Embora seja um filme que apresenta personagens e elementos novos, é uma continuação, então o ambiente de guerra já está estabelecido e somos jogados em cenas de ação fantástica de batalhas aéreas e de campo, sem contar o corpo a corpo com sabres de luz (muito foda!). Com habilidade, o roteiro faz um mix dos três episódios anteriores, com a apresentação da lenda Jedi, a seita Ren (que seguem os conceitos dos antigos Sith),uma revelação familiar, a ameaça de uma arma definitiva e as batalhas aéreas entre Tie-figthers e X-Wings; é pra prender um cara na cadeira!

O Pouco que me incomodou (mas me incomodou muito pouco)

Uma das coisas que me incomodou foi o status dos personagens clássicos. Fora Luke que se tornou um mestre Jedi e que carrega um fardo mais amargo do que de seu mestre Obi-wan ( desculpa o spolier, mas ele quase não aparece no filme) , Léia, Han e Shewbacca estão exatamente onde começam no episódio IV, fora o título de Léia, que não é mais princesa, seu propósito e ações tem o mesmo foco, a derrota de um inimigo sinistro e a restauração da república; Han Solo e Shewbacca novamente são contrabandistas e, embora carreguem o peso de ter pertencido a aliança rebelde, se aventuram no espaço buscando não se vincularem a nada, mas tal como no episódio IV recebem um chamado da situação para agirem e isso define seus destinos. Eu entendo que a trama diz que tudo é um ciclo, mas a situação desses personagens clássicos poderia ser um pouco diferente, de forma a mostrar uma evolução tanto deles quanto do universo onde estão inseridos. Outra coisa que espero que seja explicado nos filmes posteriores é a o surgimento da primeira ordem e dos Ren, isso é bom e ruim ao mesmo tempo. O bom é que torna mais perto da realidade a situação da derrota do império, óbvio que nem todo mundo ficou feliz com a queda do império galático e forças beneficiadas por vinte anos de ditadura, viriam a convergir para buscar estabelecer a ordem que lhes era mais conveniente, mas como que a república deixou a primeira ordem criar um poder de destruição e intervenção tão grande? Talvez se os rebeldes tivessem um talento político mais apurado do que o militar tal situação não ocorresse, mas isso ainda será explicado (assim espero!)

Outro ponto que eu já havia falado no post "Tudo que eu não quero no novo Star wars" eram os personagens pouco explorados, e isso infelizmente continua. Quando soube da presença de Max Von Sydow e Simon Pegg fiquei achei show, ambos são grandes atores, infelizmente a presença de seus personagens é mínima. O Pegg ainda é tranquilo, pois , assim como Daniel Craig, sua participação é apenas para ter o prazer de estar no filme, o rosto deles nem aparece, mas eu esperava mais de Max Von Sydow, por toda história e presença que tem o ator, sem falar da capitã Phasma, que tinha até um pequeno destaque nos trailers e que não dá um único tiro, servindo apenas como muleta para uma cena dramática e outra cômica de Finn, quase uma Bobba fet de saias. Mas assim como no caso da primeira ordem, ainda se pode explorar a origem e o destino desses personagens nos filmes posteriores e essa pequena lacuna não diminui em nada o filme.

Cara, que filmaço!! seria até ridículo eu indicar esse filme, pois ele é auto indicável. Não é por menos que está quebrando todos os recorde de arrecadação e acumulando críticas positivas e fãs por onde é assistido. Um filme bonito e empolgante, que respeita a trilogia clássica e não deleta a trilogia ruim (episódios 1,2 e 3), me colocou novamente no universo fantástico que havia me conquistado quando eu tinha seis anos, dando ares de modernidade à trama e abrangendo assuntos importantes da sociedade atual, como a representatividade e oportunidade, um trabalho primoroso de roteiro, direção e produção, que com certeza será mais um marco na história do cinema. Que venham mais episódios .

Que a força esteja com vocês !