sábado, 14 de março de 2015

Tudo ao mesmo tempo !


    O cartão está atrasado; Preciso comprar uma câmara de ar para o carro, pois na pressa de sair, acabei rodando vazio e cortou o pneu, o para brisa também vai ter de ser trocado; tenho que comprar chocolate porque a páscoa vem chegando; último ano da faculdade e meu computador já não tem jeito, vou ter que comprar outro; na empresa o serviço só aumenta e as cobranças idem; minha enteada quer que eu a leve na pracinha, minha mulher quer conversar sobre obras na casa, meu filho quer atenção. Dei uma respirada funda, querendo que tudo aquilo passasse, sonhando com algum momento de paz, de plenitude e, sem pensar mais, fugi para a internet.

 Passando os olhos pela internet, me deparei com a notícia de um sujeito da minha idade que morreu em um acidente pela manhã. Ele deve ter saído mais cedo para evitar o trânsito, mal se despedindo da família e encontrou seu fim alguns poucos quilômetros de casa. Lendo aquilo enxerguei as preocupações do sujeito, as contas, o trabalho, a vontade de resolver tudo para ontem, de encontrar paz e plenitude no meio do caos do dia-a-dia, mas encontrando apenas o fim

Tudo ao mesmo tempo

     Fiquei pensando sobre a vida em si, mais trabalho do que lazer, mais sofrimento do que prazer, mais dúvida do que certeza, mais dívida do que crédito, mas mesmo assim maravilhosa. Sonhamos todos os dias com paz e plenitude, mas esses dois conceitos só existem por completo na morte, mas quando ela chega, não há mais tempo para nada; na vida, pelo contrário, tudo acontece ao mesmo tempo,mas há tempo para tudo, e, talvez essa seja a melhor definição da vida: “tudo ao mesmo tempo”!



  Pois que assim seja, que venha tudo ao mesmo tempo, as dúvidas e a busca por respostas, o passeio de bicicleta e as tarefas de casa, a manutenção do carro e o TCC, o trabalho dobrado na empresa e as conversas sobre as obras, os lançamentos no cinema e a cerveja com os amigos, o adeus a quem vai e o abraço em quem volta. Aproveitar esse “Tudo ao mesmo tempo”, esse turbilhão de acontecimentos que é a vida e empurrar para um futuro distante essa paz e plenitude, sabendo que os problemas que surgem no caminho são o sinal que o mundo nos dá para sabermos que ainda estamos aqui e seguindo em frente.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

BATMAN: Ataque ao Arkham ( o esquadrão suicida como DEVE ser !)

    Entre DC e Marvel eu sou muito mais a Marvel. Gosto desse universo porque ele me parece menos forçado, mais coerente, as motivações de seus heróis e vilões são mais aceitáveis e a criação e introdução de novos personagens e morte de outros mais natural. A Marvel consegue renovar seu panteão de heróis com uma tranquilidade que a DC não possui, se vê isso apenas comparando o sucesso da Marvel Now e fracasso dos novos 52 da DC e isso vem se confirmando também no cinema com um sucesso atrás do outra da Marvel estúdios. No entanto, no que se trata de animação, a DC comics ainda reina absoluta e isso vem se confirmando a cada ano, desde os clássicos para a TV “Batman a série animada”, que inovou com seu estilo e ficou marcada na minha memória graças a trilha sonora, passando pelo “Batman do Futuro” e a “Liga da Justiça” (não! não estou falando dos superamigos) até chegar nos longas de animação como ponto de ignição e o “Batman, o cavaleiro das trevas” que é a adaptação da obra de Frank Miller e é genial!! Não sei se o pessoal da Warner que trabalha com essa área é escolhido a dedo entre os melhores, ou se a DC vê o sucesso nessa área como questão de honra,o fato é que o universo de animação da espetacular e isso se confirmou mais uma vez com seu último longa “Batman: Ataque ao Arkham”.

   A História é a seguinte, O charada ( aquele velho “vilão” bobo do Batman) conseguiu roubar informações sobre a força tarefa X, também conhecido como esquadrão suicida, e ameaçou revelar publicamente o nome dos atuais, antigos e aspirantes a integrantes desse projeto, colocando em risco os interesses de Amanda Waller (a Nick Fury de saias da DC comics), só que o charada é capturado pelo Batman e enviado para o asilo Arkhan, onde as informações, que estão em um pendrive em sua bengala são arquivados; Amanda resolve então recrutar um time de vilões dispensáveis para invadirem o Arkhan e recuperar o pendrive. O grupo que é formado pelo Pistoleiro , Arlequina , Capitão Bumerangue , Tubarão Rei, Aranha negra e Nevasca têm nano bombas implantados em suas cabeças ,que podem ser detonados caso desobedeçam ou tentem fugir, eles são jogados de paraquedas sobre Gothan para buscarem ajuda logística e abrigo do maior Gangster da Cidade, Oswald Cobbelpot, o Pinguim e depois devem se dirigir até o alvo e sem chamar a atenção recuperar o objeto, tendo em troca redução de penas e benefícios, é claro que colocar um time de vilões de segunda linha dentro de um hospício recheado com os maiores vilões do Batman é indicador de problemas e é justamente o que acontece
Turminha reunida
    O longa é muito bom ! Principalmente porque explora bem os personagens centrais que é o grupo do esquadrão suicida (ignorando o Batman, que tem sua importância, mas fica em segundo plano), a aura de anti-herói durão e líder que dão ao pistoleiro convencem, assim como a canastrice e falta de profissionalismo do capitão Bumerangue, as personalidades e interesses são bem claros e até o clima de romance entre a Nevasca e o tubarão Rei é bacana. O traço do desenho, assim como as cenas de luta, lembram um pouco os animes japoneses, com a câmera correndo e os personagens dando um show de agilidade e ação. O designer dos uniformes dos personagens também é muito legal, o Pistoleiro usando uma roupa discreta e as armas que ele carrega nos pulsos desenhadas de forma que quem veja entenda como funciona, ao contrário daquele colam vermelho dos quadrinhos que parece uma péssima ideia para quem quer ser um assassino que não quer ser pego, O tubarão rei também ficou legal, um brutamontes com uma mandíbula de metal ao invés do tubarão bípede das antigas histórias do Super-boy; O Aranha negra , um ninja assassino falando em honra e disciplina, a luta dele com o Batman no depósito é épico e, é claro, a Arlequina e Nevasca dando um show de sensualidade e assassinatos fecham o grupo com chave de ouro.
"VAI TER FILME??"



   No ano passado a DC/Warner anunciou o filme do esquadrão suicida para 2016. Eu, embora conhecedor os personagens nunca me senti muito fã, mas isso mudou depois de assistir a animação. Se o estudio conseguir manter o clima no mesmo nível que o longa animado é garantia de sucesso, mesmo com as possíveis adaptações que serão necessárias para entrar na faixa de censura 13 anos, pois o desenho está um pouco longe disso, com a descartabilidade de sues personagens principais ao melhor estilo do Sr George R.R Martin e com cabeças explodindo, pessoas sendo esfaqueadas, mulheres apanhando e uma tórrida, embora não mostrada, cena de sexo entre Arlequina e Pistoleiro. “Batman: Ataque ao Arkahn” se transformou em um clássico imediado para mim e espero que a DC consiga transpor essa genialidade que eles apresentam em suas animações para suas HQ's e Filmes, mesmo ao custo da vida de alguns vilões de segunda classe.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Bonnie & Clyde, Lampião & Maria Bonita, Corisco & Dadá e os verdadeiros heróis de suas histórias

  Nesse último domingo assisti a maratona da série “Bonnei & Clyde” na history Channel. A série conta a história da famosa Gang Barrow que aterrorizou o meio-oeste americano durante a década de trinta, partindo da origem dos personagens , passando pela formação da Gang, sua transformação em lenda e culminando com a morte dos dois protagonistas em Bienville Parish em 23.05.1934, quando ambos tinham vinte e cinco anos de idade. Gostei da humanização que deram aos personagens retirando aquela aura de invulnerabilidade que as lendas trazem consigo e do fato de também dar foco aos outros membros da Gang, como o Irmão de Clyde, Buck Barrow e sua mulher Blanche Barrow; mas achei que a ideia de colocar Clyde Barrow quase como um médium, que ante vê os perigos e tem visões de seu destino, assim como Bonnie Parker como a maior manipuladora e exibida que já existiu na terra um tanto forçada (embora as fotos que os bandidos deixaram atesta para tal traço de personalidade).
Bonnie e Clyde
  Na semana anterior, a Globo reexibiu a série “Lampião & Maria Bonita” de 1982 em um especial em formato de filme, onde utiliza argumentos semelhantes para dar mais carisma aos personagens e glamoriza-los. A série conta como foi a vida e a morte do rei do cangaço, que atuou no Brasil quase que no mesmo período que Bonnie & Clyde atuaram nos E.U.A. Lembro de assistir a série quando ela foi reexibida pela primeira vez no “Vale a pena ver de novo” quando o politicamente correto ainda não existia e a violência e o sexo corriam soltos depois das duas da tarde; naquela ocasião, eu com uns oito anos fiquei um pouco chocado com as cenas onde orelhas eram arrancadas e as cabeças dos soldados eram mostradas cortadas em uma bacia, mas gostei bastante, mesmo assim sentia que faltava algo ou tinha alguma coisa um pouco torta na narrativa e foi só depois de rever a série e depois assistindo Bonnie e Clyde que percebi que o que faltava era o aprofundamento do Herói.
 
Frank Hamer
 A Gang Barrow foi riscada da terra devido ao esforço de um homem, Frank Hamer, um oficial dos Rangers americanos que voltou a ativa para caçar “bonnie e Clyde”, na série embora ele tenha uma grande importância, tendo seu faro para perseguição e talento mostrados, ele é muito pouco explorado, tanto que procurando saber mais sobre o personagem histórico não encontrei livros a venda sobre ele e mesmo o Dr Google e a Senhora Wickpedia possuem pouco material do carrasco da Barrow Gang, muito semelhante ao que acontece com as volantes que perseguiam e matavam os cangaceiros no nordeste brasileiro, tudo que se encontra sobre elas só é encontrado quando é referenciado na história dos bandidos e quando isso acontece há uma grave inversão de valores e o bandido se torna um herói, ignorando os crimes e sofrimento que eles causaram; assim como a coragem de quem os eliminou.
      Procurando um pouco sobre esses verdadeiros heróis, não tive sorte ao pesquisar sobre Frank Hamer, mas encontrei o excelente Blog “Lampião aceso”, que conta a história do cangaço e da luta para deter os bandos de bandoleiros que assombravam o interior nordestino no inicio do século XX , lendo o blog fui agraciado com a história e uma entrevista com o Coronel Zé Rufino, o homem que matou uma das lendas do Cangaço, “Corisco”; a entrevista, feita pelo escritor e cineasta Ruy Guerra desenhou na minha mente a imagem de um Herói real que fez o que tinha de ser feito e não esperou aplausos ou glamour pelo feito, assim como Frank Hamer, esquecido pelos livros e ignorado pelo Google.
Abaixo segue a história de zé Rufino e logo após sua entrevista.

Cel. Zé Rufino - "O Matador de Cangaceiros"

Por Ângelo Osmiro Barreto.
Zé Rufino em sua fazendo em 1962


José Osório de Farias, o afamado 
Zé Rufino, conheceu LAMPIÃO- Rei do cangaço quando ainda era um sanfoneiro, percorrendo o sertão brabo das ribeiras do Pajéu e adjacências, no sertão de Pernambuco, estado onde nasceu.

O primeiro encontro entre os dois valentes sertanejos deu-se nas terras do município de Salgueiro. 
Zé Rufino tocava numa festa de casamento e LAMPIÃO era um dos convidados, a empatia do chefe dos cangaceiros com o sanfoneiro foi imediata. LAMPIÃO convidou Zé Rufino para ingressar no bando. Com muita habilidade o futuro matador de cangaceiros disse que não podia acompanhar o grupo, pois sua mãe já era idosa e como "arrimo" de família tinha os irmãos para criar, além de tudo não gostava de armas, o capitão o desculpasse, mas não tinha nascido para aquela vida.

Passado algum tempo, aconteceu um novo encontro com o rei do cangaço, mais uma vez LAMPIÃO convidou 
Zé Rufino para acompanhá-lo. Com medo de negar novamente um pedido do Capitão, disse ao rei do cangaço que antes precisaria solucionar alguns problemas familiares; como iria deixar sua mãe e seus irmãos? Tinha que resolver essas questões.

LAMPIÃO o liberou, entretanto marcou uma data para sua apresentação e dessa vez não aceitaria desculpas. 
Zé Rufino agora tinha que se decidir, ,ou entraria no cangaço para acompanhar aquelas verdadeiras feras humanas ou iria se apresentar como soldado na volante, o que pouco diferenciava de um cangaceiro, como sanfonciro não poderia mais ficar.

LAMPIÃO não o perdoaria. A decisão foi difícil, mas 
Zé Rufino optou por entrar na polícia, seu destino agora seria perseguir cangaceiros. Zé Rufino foi um dos mais temidos perseguidor de cangaceiros, chegou rapidamente ao oficialato, alcançando a posição de Coronel da Policia Militar da Bahia.

Consta na literatura sobre o cangaço cerca de vinte e duas mortes feitas pela volante comandada por 
Zé Rufino. Sua volante ficou famosa no sertão por cortar as cabeças dos cangaceiros mortos em combate. Sua façanha mais conhecida foi à morte do cangaceiro Corisco o "Diabo Louro", um dos mais famosos cangaceiros que se tem noticia. Marcando definitivamente ente o fim do cangaço.

O Coronel 
Zé Rufino, combateu na volante baiana até o extermínio do cangaço.Terminada a campanha contra o banditismo, “comprou algumas fazendas na região de Geremoabo” no estado da Bahia, aonde já idoso veio a falecer.

Zé Rufino em entrevista

O HOMEM QUE MATOU O CANGACEIRO "CORISCO"
Por Ruy Guerra*



O sol do meio-dia fazia da praça de Jeremoabo/BA um imenso deserto.


Lembro-me que tudo se passou naquele ano triste de 1962, ano da morte de Miguel Torres, no acidente desse mesmo jipe agora ali estacionado, coberto de poeira, junto da única loja aberta naquele vazio do mundo.

Só não me lembro como foi que o coronel Rufino surgiu, sentado no bar, esfíngico, vestido de uma camisa e calça caqui, sem atinar muito bem o que queríamos dele. Nós, igualmente calados, sem outro intuito que o de trocar umas palavras com o homem que matou Corisco.

Mas dali para a frente tudo ficou marcado em mim com uma nitidez que chega a assustar. Cada gesto, cada palavra, cada silêncio, foi ficando através do tempo mais depurado, mais definido, mais exato. Não há um detalhe, uma palavra, um sentimento, de que eu não tenha a serena convicção que foi assim, rigorosamente como tudo se passou.

Pedi um cerveja, que chegou morna.

O coronel Rufino, e não sei porque isso devia me surpreender, pediu um sorvete de morango. O Miguel Torres, por uma dessas maldades da memória, deixou de estar presente. Houve um silêncio largo, desses silêncios de quando estranhos se medem e se perguntam a si mesmos como começar essa aventura que é a de se conhecer.

Do coronel Rufino eu sabia tudo o que me parecia importante saber: que era o maior caçador de cangaceiros ainda vivo, que há muito estava aposentado, que era natural dali mesmo, daquele sertão. De nós, imagino, ele sabia apenas que fazíamos cinema e pensávamos filmar por aquelas bandas. E não parecia particularmente interessado em saber mais. Aceitava o encontro como a inevitável curiosidade que desperta quem traz a marca de ter matado o cangaceiro mais mítico de toda a história do cangaço.

Com movimentos pausados, de quem tem toda a velhice diante de si para gastar, ia sorvendo seu sorvete de morango.

O que mais me marcou naquele encontro, logo de saída, foi isso mesmo: o sorvete de morango. A cor desmaiada do sorvete barato, a colherzinha vagabunda na mão grossa, seca, veienta, com o dedo mindinho ridiculamente afastado dos outros dedos.
Por que um sorvete, e ainda mais de morango?

Por causa desse insólito sorvete me custou a lançar a conversa.

Comecei com perguntas banais das quais já conhecia as respostas, e que não justificam o desvio que havíamos feito por aquelas poeiras calorentas do sertão para aquele eventual encontro. Se ele, coronel Rufino, havia comandado muitas volantes atrás de cangaceiros. Se toda a sua vida se havia dedicado a essa caça, se havia perseguido Lampião. Se havia dado voz de sangrar a muito bandido.

A cada pergunta, Rufino ia monossilabicamente confirmando, pausado, aparentemente mais atento ao sorvete de morango que ao óbvio questionário.

- E Corisco? O senhor matou Corisco?
Corisco e Dada


- Matei.

O Coronel Rufino não era um homem alto, nem tinha nada que à primeira vista pudesse impressionar alguém que não soubesse do seu passado. Nos seus, imagino, sessenta e tantos anos, não se sentia nele um grama de gordura. Tinha um rosto marcadamente nordestino, sem emoções visíveis, uns olhos fendidos preparados para os exageros da luz da caatinga e uma voz surpreendentemente jovem.

Parecia desinteressado, embora cortês. Senti que ele estava, não ansioso, mas determinado a terminar o encontro com o final do seu, para mim já irritante, sorvete de morango.

Foi essa certeza e o sentimento da idiotice das minhas perguntas que me fizeram perguntar de supetão gratuitamente:

- O senhor, coronel, torturou muita gente?

- O coronel Rufino parou de comer o seu sorvete, a mão pesada, suspensa no ar, a meio caminho.
Pela primeira vez senti que pensava rápido, embora o tempo durasse. Depois, delicadamente, pousou a colher. Até então ele nunca me havia encarado, e continuou assim.
Limitou-se a olhar a imensa praça vazia, assustadoramente amarelada pela crueza do sol.

- Seu João!

A voz continuava controlada, e embora o tom não tivesse aparentemente subido, atravessou a distância. Foi então que eu notei que um camponês desgarrado estava passando.

O homem entrou no bar. As alpercatas de couro sem ruído, o chapéu de palha agora respeitosamente na mão, um olhar rápido para os forasteiros.

- Sim, coronel? O coronel falou num tom macio, quase afetuoso.
- Seu João, o senhor me conhece há muito tempo, não é verdade?
- Conheço sim, coronel.
- Quem sou eu?

Uma leve estranheza na voz do camponês.

- O senhor?... O senhor é o coronel Rufino.
- Eu persegui muito cangaceiro, não persegui? - Perseguiu, coronel.
- Eu matei muito cangaceiro, não matei? - Matou, coronel.

A voz de Rufino continuou, inalterada.

- Eu torturei muito cangaceiro, não torturei? A voz do coronel Rufino parecia ainda mais mansa, mais paciente.
- Eu torturei muito cangaceiro, não torturei? Os olhos do camponês correram por nós, intrigados.
- Não, coronel... Não, senhor.
- Obrigado, seu João. Pode dispor!

Com um leve aceno de cabeça para todos o camponês afastou-se. O coronel Rufino esperou que o homem desaparecesse no sol da praça e só então me encarou, pela primeira vez.
Os olhos fendidos sem expressão, talvez por isso mais inquietantes, aprisionando os meus. A voz sempre igual, mas onde se podia sentir agora, nítida, uma intensa paixão.

- "Toda a minha vida eu persegui cangaceiro. Prendi muitos, também dei fuga a muito pobre-diabo que se meteu nessa vida por injustiça que sofreu. Mas matei muitos, muitos mesmo. De bala, de faca, de todo o jeito. Era a minha profissão".

Levantou a mão, espalmada, à altura do rosto. Essa mesma mão, que até então tinha servido para comer aquele irritante sorvete de morango. Foi uma pausa curta, mas guardo aqueles breves instantes como os de uma indefinível angústia.

- "Mas esta mão, esta mão que o senhor está vendo aqui, nunca tocou o rosto de um homem, fosse quem fosse, nem do pior bandido. Porque homem a gente mata, sangra..."

Passou a mão suavemente pela própria cara.

- Mas tocar o rosto de um homem, só sua mulher e o barbeiro têm o direito de tocar".

O coronel Rufino retomou a colher e continuou a comer o interminável sorvete de morango. Lembro-me de ter sentido um imenso alívio, como se tivesse vindo de muito longe. E tinha, como compreendi mais tarde.

Daí para diante não me lembro de mais nada. Não sei como nos separamos, se trocamos mais alguma palavra - o que duvido - além de alguma banal despedida. Mas ao longo dos anos comecei a relembrar e a contar, obsessivamente, este encontro. Não com o sentimento de ter escapado de algum perigo - embora ainda hoje não esteja muito certo disso -, mas com a desconfortável convicção de ter ido tão fundo naquele sertão para ingenuamente insultar um homem na sua hospitalidade, na sua memória, no seu mundo.


Zé Rufino ao lado da prisioneira Dadá


Texto publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 1993, e reproduzido do livro "20 Navios", de Ruy Guerra. Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1996, prefácio de Chico Buarque, 228 páginas.

# RUY GUERRA: Cineasta, escritor, dramaturgo, compositor (parceiro de Chico Buarque, Edu Lobo, Francis Hime etc..), ator..etc..


      Na minha opinião, nenhuma frase define melhor o que esses homens fizeram quanto a dita pelo escritor francês Victor Hugo:
                   " Quem poupa o Lobo, Sacrifica a Ovelha!"

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"DEIXA ELA ENTRAR" - muito do livro e um pouquinho dos filmes

    Em 2008 o cinema sueco trazia ao mundo uma grande surpresa ao reviver com dignidade a imagem do vampiro; se tratava de “Deixa ela entrar” do diretor Tomas Alfredson. O filme, que conquistou o cenário mundial no ano seguinte, rapidamente se tornou um clássico, recebendo uma refilmagem americana em 2010 com a Eterna Hit-gril, Chloë Grace Moretz , no papel da vampira ELI e dirigido por Matt Reeves que viria a dirigir o elogiadíssimo “Plane dos macacos: o confronto” em 2014. Eu, quando assisti ao filme o achei ótimo, mas na minha infinita ignorância sempre achei que ele era fruto de um roteiro original, no melhor estilo cinema autoral europeu, mas ao pesquisar um pouco mais sobre a obra após ouvir o excelente Cinecast Cult ( do site os cinéfilos) sobre o original sueco, acabei por descobrir que o roteiro é adaptado do livro homônimo do escritor John Ajvide Lindqvist e que a Globo livros o havia lançado no Brasil em 2012; Então eu não resisti, comprei o livro e o devorei.
   A história central do livro não tem nada de diferente dos filmes, ela se foca em Oskar e Eli; Oskar é um menino solitário dos subúrbios de Estocomo , que vive com a mãe, que é separada do pai alcoólatra , e divide seu tempo entre casa, onde está sempre só e a escola onde sofre bullyng dos colegas; Eli por sua vez é uma menina misteriosa que se muda, junto com seu “pai” para o apartamento vizinho ao de Oskar e acaba firmando uma amizade com ele, o fazendo refletir sobre autoestima, amor, solidão, sexualidade, medo e violência; enquanto essa amizade vai crescendo, estranhos assassinatos vão sendo realizados nas proximidade de Blackeberg, bairro onde os protagonistas moram, criando tensão e medo entre os habitantes, é entre esse acontecimentos que Oskar descobre que Eli é uma vampira, o que muda para sempre sua vida e sua forma de ver o mundo e a si mesmo. A trama central já é bem rica pelos temas que aborda e pela maneira como expõem esses assuntos , de forma que utilizaram apenas esse arco para roteirizar os filmes; no entanto, algo que não existe nos filmes é o aprofundamento das outras pessoas afetadas pela situação e as ações e reações que os protagonistas precisam tomar para sobreviver naquela sociedade, o que ao meu ver é muito bem conduzido pelo escritor, pois o livro tem diversos personagens que foram diminuidos ou excluídos nos filmes e que são importantíssimos para que possamos entender o mundo onde Oskar vive e aceitar suas decisões.

   Já no inicio do livro, Quase que junto com os personagens centrais somos apresentados a Hakan, que Oskar imagina ser o pai de sua nova amiga, mas que na verdade é seu ajudante; um pedófilo apaixonado por Eli e que é responsável de conseguir sangue para a sua amada de modo que esta não precise se expor. Nos filmes, a relação deles é distante e muitas vezes Eli o despreza como se ele já não fosse mais útil, já no livro há uma grande cumplicidade entre os dois, de modo que a Vampira não se zanga quando seu ajudante diz que não quer mais matar e vai a busca de sangue ela mesma, recomendando que Hakan descanse e esqueça um pouco a vida que eles levam; A história de Hakan vai sendo exposta lentamente, partindo de um momento atual onde ele caça e executa vítimas para retirar o sangue e, sua vida anterior, onde vemos seus atos de pedófilo; também somos apresentados a suas frustrações e arrependimentos e surpreendidos com momentos onde ele tenta realizar gestos genuínos de bondade, mesmo quando sua consciência grita que não há redenção. Diferente dos filmes o “fim” de Hakan ainda abre espaço para mais situações assustadoras e converge com o final de outros personagens em momentos aterrorizantes que ficariam muito legais no cinema.
   Há também o grupo do Bar Chinês, que não aparece por completo nos filmes; esse grupo é composto por Joke, Gösta, Larry, Morgan, Lake e Virginia ( no filme o grupo se resume aos amantes Lake e Virginia), esse grupo é a representação da solidão humana e de um underground que eu não sabia que existia na suécia; Morgam faz bicos para viver e está sempre de porre, Joke trabalha em um ferro velho as vezes, Gösta  vive em um fétido apartamento com vinte e oito gatos, Larry é aposentado por doença (qual ninguém sabe), Lake vive do dinheiro da venda da casa da família e dos selos raros que herdou do pai e Virginia é uma solitária cinquentona que bebe para esquecer as frustrações de sua vida e emprego medíocres, todos eles são descritos sempre usando roupas gastas e surradas quando não sujas, cambaleando pela noite, com o olhar vazio e o rosto e o corpo marcados pela bebida; deles, apenas Virginia tem uma filha e um neto, os demais só possuem uns aos outros, mas mesmo assim, não se pode dizer que eles são companheiros, na verdade é um grupo de várias solidões juntas. Esse grupo é responsabilizado por nos mostrar duas questões ( além de exporem uma sociedade Sueca desconhecida), as consequências que um crime, como o assassinato, causam no circulo social da vítima e as questões que se apresentam quando alguém é contaminado por um vampiro. O primeiro caso surge quando Joke, um dos bêbedos do grupo, é vítima de Eli, que sai para caçar após a resposta negativa de seu ajudante; o desaparecimento de Joke causa um forte impacto no grupo a que ele pertencia, especialmente em seu melhor amigo, Lake, que se desespera e se torna obcecado em descobrir o que aconteceu ao amigo; motivo que o leva a descontar, dias mais tarde, suas frustrações e raiva em Virgínia, sua amante, que acaba sendo atacada por Eli quando a fome a havia dominado. A partir daí acompanhamos todas as etapas da transformação de Virgínia, sua alergia a luz solar, sua fome e a descoberta pelo prazer de beber sangue (que é muito bem ilustrado pelo escritor), uma pseudo explicação científica que informa o porque o coração é o ponto franco dos vampiros, passando por delírios onde a infectada se imagina sugando o sangue de seu próprio neto. Devo dizer que os capítulos onde , após ser atacada pelos gatos de Gösta (que ela visitou para matar, mas que foi frustrada pela presença de Lake no lugar), onde Lake está com ela no hospital e lhe conta o sonho que tinha de morar no interior com ela e comprar uma casa para sua filha, tirando lágrimas dos olhos da vampirizada ,são muito bonitos e emocionantes, embora o final seja tão aterrador quanto o filme, quando a manhã chega e a enfermeira abre as janela para o sol entrar.
o sol anda forte não?!
   Também temos Tommy, sua mãe Yvonne e seu futuro padrasto , o policial Staffan. Tommy é um garoto mais velho que mora em um apartamento vizinho ao de Oskar, ele é uma das poucas pessoas que parecem respeitar o menino, dando-lhe conselhos e conversando sobre o dia a dia, ele passa grande parte do tempo no porão do prédio com seus amigos, cheirando cola e pratica pequenos furtos para conseguir dinheiro; Yvonne é uma viuva perdida que só é relatada fumando, sem saber como tratar com o filho ou observando seu namorado com olhos alegres; Staffan por sua vez é um dos policiais responsáveis por investigar os assassinatos que vem acontecendo na região de Blackeberg, campeão de tiro e cristão devoto, é através de seus relatos que somos apresentados a como a sociedade lida com a presença de um assassino em série em seu meio. Os motivos da rebeldia de Tommy e a consequência disso na relação de sua mãe com staffan são lentamente desenvolvidas e divertidamente trabalhadas. Esses personagens foram cortados dos filmes, talvez para dar um ar ainda mais solitário ao protagonista, mas que no livro são importantes pois são uma especie de espelho da vida que Oskar poderia ter também, deixando claro que ele não teria quase nenhuma esperança caso essa fosse sua situação.
   Um outro arco, que embora pequeno é muito bom e eu não esperava, é o de Johnny, o garoto que faz Bulling em Oskar. O autor o apresenta como o segundo filho de uma família de seis irmão, sendo apenas ele e Jimmy, seu irmão mais velho, filhos do mesmo pai. O capitulo único onde o foco é Johnny, apresenta uma conversa entre ele e o irmão mais velho onde o assunto é o pai que trabalha em uma plataforma de petróleo na Noruega, em poucas linhas , embora não justifique o modo como o personagem age, acabamos por entende-lo e o aceitar, a forma como o autor o humaniza, relatando a casa bagunçada, a mãe alcoólatra e sempre grávida, a falta de esperança e base, faz com que tenhamos mais pena do que raiva e nos coloca um nó na garganta quando o fim desses personagens é anunciado, ao mesmo tempo em que lá no fundo dizemos “Bem feito!”. É brilhante!
Dois outros personagens se impõem na trama, o clima do inverno Sueco e a solidão de seus personagens. No livro o clima tem um papel importante, a ideia do branco do gelo que representa a pureza e ao mesmo tempo a frieza; O clima também tem destaque nas partes tensas como quando um assassinato vai acontecer, o autor frisa o derretimento do gelo e a lama negra que corre pelas ruas, fazendo com que carros derrapem e armadilhas para os desavisados se formem. A solidão, como já falei, está em todos lugares do livro, no protagonista que sem amigos, se sente só mesmo que acompanhado da mãe, da Vampira que caminha entre as pessoas durantes séculos sem conhecer o que é a amizade verdadeira, Johnny que usa o bulling como armadura e que sente a falta de um pai e que vê no estilo de vida do irmão o único elo com algo que ele reconhece como verdadeiro, Hakan que ciente de seus defeitos vaga sozinho e triste reconhecendo seus crimes, o grupo do Bar chinês e suas desesperanças, as mulheres, sempre retratadas como submissas às vidas que lhe foram impostas, todos personagens estão sozinhos por mais que estejam acompanhados, analisando bem o livro, penso que a história é muito mais sobre a solidão do que uma simples história de vampiro.
Sempre fico feliz quando gosto de um filme e descubro que o livro onde foi baseado é ainda melhor que ele e “Deixa ela entrar” é um exemplo disso. O filme é muito bom, mas o livro o supera quando apresenta os personagens periféricos citados e as consequências da situação em suas vidas, além de levantar diversas outras questões, como a Origem de Eli, que é ignorada nos filmes e que nos é mostrada através de um sensacional elo psíquico que se forma entre ela e Oskar quando eles se beijam, Oskar é colocado dentro da mente de Eli e vê, como se fosse ela, seu passado e como aconteceu sua contaminação, de forma que descobrimos que Eli na verdade é Elias!isso mesmo, um menino!! Elias foi emasculado e contaminado para saciar a sede de sanguem do senhor feudal onde sua família era serva, isso a mais de duzentos e vinte anos.... o que responde a uma pergunta que a (ou o) vampira(o) faz a Oskar quando a amizade de ambos começa a crescer : “se eu não fosse uma menina, você gostaria de mim?”... e a resposta de Oskar se confirma apesar das dúvidas que a revelação perturbadora levantam em sua cabeça de menino de doze anos..., “Sim!”, o que também é claramente sentido por Eli , algo que nos filmes parece ser um sentimento simulado na busca de um novo ajudante.
   Outra questão é o Bulling, nos filmes a situação vivida por Oskar pode ser caracterizada como terro psicológico, mas no livro o medo é devido a uma verdadeira possibilidade de dor física acompanhada pela certeza de humilhação constante, Oskar é perseguido a todo momento, o obrigam a imitar um porco, o surram, sujam e prejudicam de toda maneira, conseguimos sentir através das linhas a falta de força e esperança que o personagem apresenta frente a tudo e acompanhamos a alegria quando ele consegue reagir e começa a se tornar alguém diferente, o final do livro me arrancou um sorriso quando fala o que acontece com os covardes irmãos Johnny e Jimmy na piscina de treinamento da escola.

  Por tuuuuuuuuuuudo isso, considerei “Deixe ela entrar” um dos melhores livros que li nos últimos anos e o melhor romance sueco que eu já li na vida (só li ele), um livro de fantasia que não ofende a inteligência de ninguém mas que ao mesmo tempo consegue ser divertido e empolgante, consegue explorar bem seus personagens expondo suas motivações, sentimentos e vida; mostra uma lado diferente do comumente apresentado da Suécia, traz novamente a dignidade que foi roubada dos vampiros ultimamente, apresentando aquele quê de violência e revanche que deixa um gostinho de sangue na boca, sem trocadilho.
  
capa do filme original 2008

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

PENNY DREADFUL - O suave, doce e classudo terror londrino

   Quando eu penso em um ambiente de terror e tensão clássicos, nenhum lugar “melhor” me vem a cabeça do que a Londres vitoriana, com seus casarões antigos e aparentemente desabitados, o ar poluído das fábricas, a névoa constante e o clima miserável de seus abitantes; muito dessa visão é culpa dos próprios autores ingleses como Conan Doyle e Oscar Wilde, ou dos filmes e documentários sobre Jack, o estripador , que criavam na minha cabeça a ideia de um lugar terrível e impossível de escapar. E para minha alegria, foi essa mesma sensação que encontrei ao assistir “Penny Dreadful” série da Showtime exibida no Brasil pela HBO (sempre ela) entre Maio e Julho de 2014 mas que, como de costume, terminei de assistir dias atrás.
Eva Green como Vanessa Ives
   O nome da série vem das publicações de terror que eram vendidas por centavos na Inglaterra no século IXX e que foram apelidadas de “centavos de terror” , Penny dreadful em inglês; a história tem como protagonista Vanessa Ives (Eva green) Uma médiun perturbada por uma entidade sobrenatural que a persegue desde sua adolescência, a mantendo entre a loucura e a sanidade; ao lado de Vanessa se encontra Sir. Malcon Murray (Timothy Dalton), lord Inglês, explorador e aventureiro que recorre aos dons da médium quando a filha , Mina, é raptada por uma criatura das trevas (bUuUu...); a partir daí pessoas com talentos específicos vão sendo recrutadas para buscar encontrar respostas e ajudar em um possível resgate, tais como Ethan Chandler (Josh Hartnett) misterioso pistoleiro americano, que primeiramente aparece como um ator circense, fútil e mercenário, mas que aos poucos vai se mostrando mais complicado e familiar ao que os terrores da noite tem a oferecer, ou o Dr. Victor Frankeinstein, jovem médico obcecado pelo único mistério que o atormenta, a tênue linha entre o que se considera vida e morte; não podemos deixar de falar da participação especial do Dr. Van helsing, hematólogo que traz consigo o trauma de ter encontrado a escuridão e perdido algo de valioso para ela, outra figura importante é o imortal e conquistador Doryan Gray, que passeia pela história atrás de sensações e prazeres que deem sentido a sua vida; Juntos eles buscarão vencer as trevas das ruas de Londres e de seus próprios passados.

Josh Hatnett como Ethan Chandler
 O seriado é ótimo! Ao meu ver , dentro destas séries pequenas com inicio, meio e fim em poucos episódios, como vem se tornando tendência,só perde para “true detective”, da própria HBO e “Sereia” da Globo e o fator importante para isso é que o foco principal são os personagens e não a trama em si; as pessoas com seus traumas, medos e erros abrem espaço para um universo que converge para situação onde elas são enseridas e que cria a empatia com o telespectador, herança de “Sopranos” e “Breaking Bad”. Outro fator são as atuações, Eva Green está fantástica como a perturbada médiumVanessa Ives, não acho a atriz a mais bonita ou charmosa dessa nova safra de beldades do cinema, seu papel de maior apelo sensual foi em “007 Cassino Royale”, mas depois disso só consigo lembrar dela em papeis meio sem graça em sequências desastrosas, como em “300 a acensão de um império” ou em “Sym city, a dama fatal”, em que ficam forçando um sex appel que ela não tem, já em “Penny dreadful” ela rouba a cena, principalmente quando aparece possuída pelo demônio, revelando os segredos mais íntimos de seus companheiros em meio a deboches, ataques de raiva e frases gritadas em línguas mortas, a melhor possessão desde “O exorcista”!. Timothy Dalton que a meu ver seria um ator que não combinaria com esse tipo de série ( acho que a imagem dele com James Bond ainda está presa na minha mente) convence sempre, Lorde Inglês explorador no melhor estilo Sir Richard Francis Burton, buscando encontrar a origem do Nilo e explorando as savanas da África mantendo a família em segundo plano e a arrastando para a destruição, a decisão de colocar um explorador como pai da pobre Mina, a amante de Drácula e assim explicar a mente aberta e reação da família após o seu rapto foi muito bacana e o ator com aquela postura de lord sem perder o ar de líder durão faz com que tu confie nele até quando seus podres são revelados. Os mistérios e reações que cercam Ethan Chandler talvez não fossem tão intrigantes se quem o viveu fosse alguém diferente de Josh Hartnett que abandona aquele visual de galãzinho dos tempos de 40 dias e 40 noites e se apresenta como o misterioso e atormentado pistoleiro que cai de paraquedas no meio dessa trama toda, mas que aos poucos vai se tornando o elo entre a realidade e os segredos que o grupo vai conhecendo, os mistérios de suas batalhas internas só chamam menos a atenção do que sua tórrida cena de paixão com Doryan Gray . Falando em Doryan Gray, justamente o ator que o interpreta, assim como o que vive o Dr Frankeintein não me convenceram, é como se faltasse alguma coisa aos dois, não sei se devido a ótima atuação do restante do elenco ou do carisma dos outros personagens, que são o sinistro mordomo negro de Sir Malcon, Sembene, vivido por Danny Sapani e a criatura de Frankeinstein, que recebe o nome de Calibã, trabalha no Backstage do teatro londrino e assombra seu criador no sonho de ter uma noiva ( O episódio onde ele conta sua história é fantástico ); perto disso os dois jovens parecem frageis e quase deslocados, embora a cena de diálogo quando o jovem doutor pensa em matar sua criatura seja emocionante e mesmo o Doryan Gray da série bata fácil o apresentado em “A liga Extraordinária” .

Timothy Dalton como Sir. Malcon Murray
  E por falar em “Liga Extraordinária”, acredito que a série seja mais digna do nome do que o terrível filme de 2003, que não soube levar para a tela grande a tensão presente nas HQ's, quando terminei de assistir a série a primeira coisa que pensei foi “E o que será que Alan Morre pensou disso tudo?” … Bom, isso eu não sei, mas o que achei foi que “Penny Dreadful” Não me decepcionou ,muito pelo contrário, foi uma série divertida, repleta de suspense, ótimas atuações e momentos espetaculares, misturando a origem de personagens clássicos da literatura de terror Inglesa sem apelar para o estilo blockbuster de ação sem limites ou debochar da inteligência de quem assiste. Recomendo muito! Nota 8,5

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Guardiões da Galáxia - O filmaço de 2014

   Eu vivi a era de ouro dos heróis da MARVEL no espaço. Nasci nos anos oitenta e as aventuras de Adam Warlock , Capitão Marvel e surfista prateado eram as que mais apareciam naquela época, não sei se pelo fato de a Abril Jovem (antiga distribuidora da MARVEL no Brasil) ser muito atrasada e publicar aqui coisas do final dos anos setenta e que era muito contaminadas pelo recente sucesso de Star Wars, ou pelo simples fato de que mais de oitenta por cento dos quadrinhos que eu lia, vinham de um sebo que ficava perto da minha casa. De qualquer forma eu não gostava muito daquele universo espacial, eram questões muito distantes e eu não me identificava, e, acredito que não era só eu, pois acompanhei o declínio das histórias do surfista e a morte de Adam Warlock e Capitão Marvel, típico caminho tomado pelas editoras quando seus personagens não vão bem. Por isso tudo, que quando anunciaram o filme GUARDIÕES DA GALÁXIA, meu pensamento logo após me questionar quem diabos eram aqueles caras, foi “Aventuras no espaço? Que tiro no pé!” e foi muito bom que ao terminar de ver o filme me senti feliz de estar errado.
indo para a batalha Cheios de Pose

   Com um sorriso no rosto! Foi assim que eu fiquei após assistir à GUARDIÕES DA GALAXIA; o melhor filme da MARVEL estúdios até agora e o melhor filme do ano para mim; não que eu não tenha gostados dos outros filmes lançados na fase dois (exceto homem de ferro 3, que realmente é uma porcaria), Thor 2 é divertido e satisfaz ao que se propõe e Capitão América: O soldado invernal, é um filmaço de ação e espionagem que elevam o líder dos vingadores a outro nível, mas faltava algo a esses filmes que eu não sabia que era, um tempero, um tchan, faltava um toque de... Humor, porque estes filmes, fora as tiradas cômicas, que são características do estúdio, possuíam um enredo muito sério e então vieram os GUARDIÕES DA GALÁXIA e não faltou mais nada.
    O filme conta a história dos guardiões tendo como protagonista Peter Quill (Chris Pratt), ou Star lord (como ele gostaria de ser chamado) que após presenciar a morte de sua mãe, vítima de câncer, é abduzido e se torna um saqueador,uma espécie de pirata espacial, que viaja todo universo furtando, saqueando e roubando (coisas de saqueador) ,e, é através do roubo de um artefato escondido em um planeta abandonado, que ele se vê no meio de uma guerra anunciada entre os Xandrianos ,liderados pela tropa Nova ( que ainda não são aqueles NOVAS das HQ’s) e Ronan, um fanático religioso da raça dos Kree, que tem como objetivo destruir o planeta Xandar e apagar suas ideias e cultura que para ele são hereges. A cena de apresentação dos dias atuais em que Star lord vai até o planeta em que se encontra o artefato (que se revela sendo uma das jóias do infinito apresentadas ao longos filmes da MARVEL) e que começa com um inicio meio sombrio, mas que logo depois o herói retira o capacete, coloca os fones de ouvido, dá o play e sai cantando e dançando ao som de “Come and get your love” do “Redbone”, já mostra a energia positiva e a que veio o filme: uma grande comédia de ação! Que se segue apresentando seus personagens em uma sequência de perseguição para nenhum “piratas do caribe” botar defeito, é quando Peter Quill vai ao planeta Xandar vender o fruto e seu “trabalho” e somos apresentados a Roket Raccon e Groot, dois caçadores de recompensas que são atraídos pela recompensa oferecida pela captura de Quill, sendo o primeiro um Guaxinin geneticamente modificado e o segundo uma arvore humanoide gigantesca, os dois personagens criados por CGI mais humanos e carismáticos da história do cinema ; É também aí onde Gamora, a filha adotiva e assassina particular de Thanos ( que a emprestou ao aliado Ronan) mostra suas habilidades ao tentar roubar o artefato retirar os caçadores de recompensa de seu caminho, garantindo que todos sejam presos pela tropa NOVA , e é na prisão que o grupo se completa com a entrada de Drax, o destruidor, um brutamontes alienígena que busca vingança pela morte de sua mulher e filha nas mão de Ronan e que não entende metáfora, figura de linguagem ou ironia, quase como a maioria dos usuários do facebook! Gamora conta aos outros que odeia seu pai adotivo e que pretende vender o Orbe para um comprador que ofereceu milhões pelo mesmo e que se dispõe a dividir a quantia entre eles se a ajudassem a fugir e é aí que a história se desenrola e, presenciando do que a joia é capaz de fazer que o grupo de foras da lei percebe que são mais do que simples bandidos e que podem fazer bem mais do que pensarem apenas em si.
   
O filme tem cenas e tiradas ótimas que dão destaque a todos os personagens, como quando Rocket explica seu plano de fuga ao grupo e pede uma bateria, uma pulseira de controle de um guarda e a prótese biônica de um prisioneiro, confessando, quando todos trasem o que foi pedido, que a perna era apenas zoação ; ou quando ao se reunirem na nave dos saqueadores e Peter Quill dar um discurso onde diz que eles são todos perdedores e sugerir leis sobre matar ou agir por conta própria, Drax fala em matar alguém e Quill diz: “mas nós acabamos de falar sobre isso faz três segundos” e Drax diz: “hum...eu estava pensando em outra coisa”. As cenas de ação tanto dos personagens quanto das batalhas de naves espaciais também não ficam atrás, dando destaque para o furioso e engraçado Groot e o pequeno e marrento Rocket na prisão e a interceptação da nave Kree pelos Guardiões e os saqueadores quando Ronan resolve invadir Xandar, sem esquecer a última cena de batalha, ao melhor estilo Change-man, mostrando que a únião faz a força.
   Todos estes momentos tem um responsável, o diretor James Gunn, o modo como ele conduz o filme faz com que a história seja engraçada sem ser boba e dá destaque a todos personagens mesmo na hora onde o protagonista brilha, O cara não é fraco e confesso que foi a sua direção que me fez ter um pouco de fé quando vi o primeiro trailer, justamente pelo estilo me lembrar um pouco o que ele apresentou em “Super” (único filme que eu havia visto do diretor e que gosto muito ( já comentado aqui anteriormente)), James Gunn tem aquele estilo livre e apaixonado de fan, parecido com o que os irmãos Russo apresentaram em “Capitão América 2” e que dificilmente decepciona gente como eu. Outro fator para o sucesso do filme é a trilha sonora( Caramba!! que trilha sonora!) Recheada de sucessos dos anos setenta e oitenta, o filme vai estrategicamente de “I not in love” do “10CC”, até “Cherry Bonb” das” Runaways” e dos “Redbone” até “Jackson 5”; algo para fazer sorrir com lágrimas nos olhos. Bobo também fiquei ao ver que a trilha sonora estava para vender com a produção da MARVEL MUSIC (que tapa na cara da DC !), e , não vamos deixar de falar no elenco Chris Pratt me surpreendeu, eu que estava acostumado com seu humor mais ou menos em “Parks n recreation” cai na gargalhada com seu estilo cafajeste de resolver as coisas em guardiões e me emocionei quando ele coloca para ouvir a fita “Amazing MIX n° 2” no final do filme, Dave Bautista está arrasador e engraçadíssimo como o brutamontes Drax e Zoe Saldanha não decepciona como a assassina arrependida Gamora, até as vozes de Groot (que só diz uma frase) e que é dublada pelo Vin Diesel e Rocket Raccon que é feita magistralmente pelo Bradley Cooper conseguem emocionar e dar vida e carisma aos personagens digitais.

   Por tudo isso e muito mais que está no filme, penso que esse é o filme definitivo da MARVEL (até agora) e que se a receita for seguida não enjoará e só trará mais sucesso (até porque o que enjoa é filme ruim). No pronunciamento do estúdio meses atrás a sequencia do filme foi confirmada para 2017 , com o mesmo elenco ,diretor e roteirista, cumprindo a promessa que aparece antes dos créditos finais e provando do sucesso da equipe, o que me encheu de alegria pelo retorno da MARVEL as estrelas e quem sabe o início de uma nova era de Ouro.

I want You Back !



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Os curtas de terror de David F. Sandberg


Foi através do blog "Papo de homem" que conheci o diretor David F. Sandberg e seu trabalho, e, foi amor ao primeiro susto. O cara trabalha com curtas de terror, explorando os medos mais primais do ser humano e consegue esticar a tensão na medida certa para que seus vídeos de, mais ou menos, três minutos, te prendam na cadeira e pareçam ter uma eternidade. Abaixo vão alguns (recomendo que vejam em casa à noite e sozinhos)

LIGHTS OUT



PICTURED




NOT SO FAST




O cara é muito bom e quem quiser encontrar mais coisas sobre ele, pode procurar no VIMEO, no link abaixo, ele disponibiliza todos seus vídeos lá e vale muito a pena
http://vimeo.com/dauid

Tenha bons sonhos