terça-feira, 5 de agosto de 2014

BLADE RUNNER : O livro x O filme


Duas semanas de chuva e, Quando não chove, é tão úmido que verte água do chão e paredes . Nas ruas, carros da polícia e ambulância passam correndo com suas sirenes pedindo passagem ,sem contar da névoa que, a noite, deixa tudo invisível, transformando o trânsito em lentas filas quilométricas. Foi nesse clima apropriado, gentilmente proporcionado por minha cidade, que terminei de ler “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, livro que inspirou o filme “Blade Runner” do diretor Ridley Scott .O que se pode adiantar é que o livro não é tão profundo como outras obras do autor como “O homem do castelo alto” ou “ O homem duplo”, mas apresenta uma distopia bacana (se é que se pode chamar uma distopia de bacana) que possui camadas pouco ou não exploradas no filme, que se compreende melhor ao sermos apresentados através da leitura do que da mídia visual, do mesmo modo que o roteiro enxuto do filme nos foca em uma situação e ambiente impares, objetivo demais para um livro , ou seja, ambos se completam e expandem o universo da obra, de maneira que comparações e diferenças merecem ser comentados.

LOS ANGELES - 2019
  O filme “Blade Runner” é o maior referencial de ficção científica no cinema para quem nasceu nos anos oitenta. Lançado em vinte e cinco de Junho de 1982 (No dia em que eu completava um ano!), estrelado por Harrison Ford , que vinha em uma crescente após o sucesso de “Indiana jones “ e dirigido por Ridley scott, que ganhou fama com o sucesso de “Alien”, o filme criou uma grande expectativa quando anunciado, porém , problemas com atrasos nas filmagens, que tiraram o projeto das mãos do diretor e colocaram nas mãos dos produtores e publicidade equivocada, que vendia o filme como um filme de ação pura, transformaram o filme em um fracasso de bilheteria .No entanto, o tempo se encarregou de torná-lo cult ,devido aos fãs que conseguiu nesses trinta e dois anos que se seguiram, tendo em mim um representante fiel. Assisti a “Blade Runner” pela primeira vez no supercine, nos anos oitenta pesados,eu devia ter uns sete ou oito anos e a rede Globo era a única alternativa da época, lembro que não entendia quase nada da trama, chovia o tempo todo e a música, em grande parte, era semelhante a um gato no cio; mas os carros voando e a caçada aos fugitivos chamaram minha atenção de criança ;anos depois, por volta dos vinte anos revisitei o filme, já com uma carga razoável de cinema e percebi um filme mais denso, que utilizava do estilo noir para colocar em destaque ideias sobre o valor da vida e o que é considerado real, assim como os princípios e motivações do caçador e seus alvos, visão que mantive vendo o filme novamente a poucos dias, porém ciente de se tratar de uma distopia e as consequências da situação e ambiente onde estavam inseridos os personagens e conhecedor dos assuntos recorrentes da literatura de Dick, como a dúvida quanto a realidade, vida e escolhas .
Rick Deckard : vamos a caçada
  A trama do filme conta a história de Rick Deckard, um ex-caçador de recompensa do departamento de policia de Los Angeles (conhecidos como Blade Runners) , que é reativado após outro caçador ser vítima de um atentado por um Nexus-6 ( androides /escravos das colônias espaciais) durante um teste de identificação ;é lhe dada a missão de substituir seu colega e informado que se tratam de androides que se rebelaram e mataram a tripulação de uma nave e fugiram de uma colônia espacial para a terra, sendo originalmente seis, tendo dois deles morrido ao tentar invadir a corporação Tirell ( empresa criadora e fornecedora desse modelo de androide) ,e quatro ainda vagando pela cidade oferecendo perigo a população. Em sua busca, Deckard contará com o auxilio do investigador Gaff e de Rachel Tyrell (uma androide propriedade da corporação que possui as lembranças da sobrinha do dono da mesma) e daí se desenrola a história.

O livro tem um cenário um pouco diferente, mostra um mundo devastado por uma guerra nuclear, onde a poeira radioativa transformou parte da população em “especiais”, pessoas afetadas pela radioatividade que tiveram seu intelecto e capacidades diminuídas e por isso, são proibidos de migrar para as colônias espaciais e de terem filhos, a propaganda para essa migração é constante (embora pouco se fale de como as pessoas vivem nessas colônias),Os animais foram quase extintos o que deu origem a uma nova religião o Merceanismo, que tem como coluna dorsal o apresso por toda a vida e obriga, através da pressão social, que cada ser humano possua e cuide de um animal, sendo essa posse o simbolo de status e sinônimo de fé na religião que ajudam os indivíduos a terem destaque e sonharem em crescerem na sociedade apresentada, do mesmo modo, os androides são doados a cada pessoa que se voluntariar para colonização espacial, sendo esses androides (de inteligência e aspectos humanos, embora sem a empatia) considerados coisas não vivas e tratadas com desdem e repudio na terra. É nesse ambiente onde vive Deckard, que, no livro, é um caçador de recompensas ligado a delegacia de San Francisco e que é incumbido da aposentadoria (eliminação) )do grupo de androides fugidos de marte(nessa versão), após o caçador responsável (e considerado melhor) ser ferido em ação; Deckard aceita a tarefa por passar por um momento difícil, a ovelha que lhe foi dada por seu sogro (no livro ele é casado com Iran, uma dona de casa) morreu , sendo ele obrigado a substituí-la por uma imitação elétrica,o que significa um desrespeito ao Mercerianismo e repulsa social, sendo a recompensa pela caçada dos androides o valor necessário para a aquisição de um animal de verdade.

Rachael Tyrell - existe sentimento?

  No livro, os aspectos social e religioso são muito mais presentes. Socialmente a posse de um animal é tudo que alguém que pensa em galgar degraus sociais precisa, tanto que lojas de animais são citadas como grandes corporações e o catálogo mensal da “Sidney’s”( revista mensal que atualiza o valor de cada animal à venda ) é item obrigatória a todo ser humano, esse desejo pela posse de um animal explicaria o dialogo entre Rachell e Rick , quando o segundo vai até a fundação Tyrell no filme ( fundação Hoden no livro) e lá se encanta com uma coruja, é nos dito ali o motivo daquele encanto, pois os pássaros foram as primeiras vítimas da poeira radioativa sendo esses animais totalmente extintos ( o que impossibilitaria a pomba nos braços de Roy batti em sua cena derradeira no cinema). Porém, vai se percebendo com a leitura que valor da vida fica em segundo plano, um animal é visto e explicado, tal como em nossos dias se fala de um carro ou de uma casa recém-adquiridos ou seja, um simbolo de status e referencia ao grupo, são substituíveis e são feitas trocas e compras dos mesmos, o que mostra o cinismo doa adeptos da religião vigente; além disso, o repudio aos androides, que são criaturas orgânicas engenhadas, mas que são vistos como meras ferramentas e tratados como se possuíssem menor valor do que um animal elétrico, mostra a pouca percepção da ideia de vida e a declinante empatia presentes na sociedade mostrada .

Outra camada que não é apresentada no filme é a derivada da religião. Presente em grande parte dos livros de Dick, nesse em especial ela encontra um papel de destaque através do Merceanismo, religião fundada por Wilbur Mercer e que além do respeito e cuidado com toda a vida, busca a unidade da consciência humana através do culto que utiliza da “caixa de empatia”, equipamento que unifica toda a consciência humana que a utiliza no mesmo momento em um só ser, a fim de reviver o caminho de provação vivido pelo profeta até alcançar seu ápice de consciência. Mercer é a linha que costura a trama, suas ideias são o que mantem a sociedade terrena viva (embora pouco sã) dando a possibilidade de “especiais” (ou cabeças de galinha, como são chamados pejorativamente) e humanos normais compartilharem experiências e sentimentos entre si, simulando uma interação social empática que se torna um alívio as pessoas nessa distopia .Essa experiencia empática é o principal diferenciador entre humanos e androides, já que os segundos não possuem a capacidade de se colocar no lugar dos outros e se importarem com o sofrimento e dor alheia, ou se alegrarem com a presença e realizações de terceiros, o que lhes limita como sociedade; no livro essa é a razão para revolta de Roy Batty , que rouba drogas alucinógenas e para ligação empática para tentar buscar uma união de consciência entre androides, imitando o culto de Mercer.

Roy Batty - liderança guerreira e religiosa

O que mais chama a atenção são as diferenças entre os personagens do livro e do filme, desde o protagonista até a coadjuvantes periféricos. O Rick Deckard do filme é citado pelo capitão Briant como o melhor “blade runner” que já existiu, no entanto no livro ele é apresentado como um caçador medíocre e que só entra no caso pela impossibilidade do colega ferido; além dele não ser um solitário e outsider , é casado com Iran, mulher com quem compartilha de desejos sociais comuns e busca destaque social através da compra de um animal verdadeiro, sendo um caçador de recompensas , desde sempre, ligado a delegacia de San Francisco e que não possui questionamentos sobre a ética e frieza presentes em seu trabalho. No filme, os androides contam com a ajuda de J.F Sebastiam, um engenheiro da corporação tyrell , que sofre de envelhecimento precoce , para alcançarem o dono da empresa que os construiu, no livro o personagem que os abriga é J.R Isidore e é através dele que somos apresentados aos “cabeças de galinha” ou especiais, sendo ele um especial é motorista de caminhão de uma empresa de conserto de animais falsos que descobre Pris Stauton (uma dos seis androides foragidos, pois no livro são oito que fogem e seis são caçados), morando em um apartamento abandonado e oferece ajuda, entrando em contato com Roy Batty e sua esposa mais tarde ; muito do que é mostrado sobre a religião e sobre a personalidade dos androides é narrado pela ótica desse personagem. Mas que apresenta a maior diferença, sem dúvida é Roy Batty, enquanto no filme ele é apresentado como um modelo de combate, o que lhe daria traços de líder guerreiro, no livro ele está mais para líder espiritual,sendo dito que era um farmacêutico em marte que buscava a união mental dos androides e criação de uma sociedade paralela ao invés de mais vida como é buscado no filme. Por falar nisso, a busca por mais vida nem ao menos é citada no livro, Rachel Roden (Rachael Tyrell no filme), comenta com Rick que seu tempo útil é de quatro anos, mas isso não parece incomodar nem um pouco a ela ou a qualquer outro androide , talvez devido a falta de empatia até por eles mesmos. Existem alguns outros personagens e detalhes que o filme deixa de lado e que não fazem falta, como o fato de Pris Stauton (vivida por Deryl Hanna no cinema) ser do mesmo modelo de Rachel hoden, ou seja, ambas são idênticas; ou de Roy Batty ser casado com outra androide, de nome Imgrad, personagem que foi fundido ao Personagem de Hanna no cinema.


Penso que “Blade Runner” é um daqueles filmes que acabam sendo superiores a obra da qual é adaptada, do mesmo jeito que “O clube da Luta” de David Fincher, ele corta os excessos e foca na trama principal e questionamentos que derivam dessa. Mas a superioridade do filme não torna o livro é ruim, pelo contrário, o livro te insere e expande um universo que satiriza a nossa realidade, principalmente a realidade atual; ao simular o interesse das pessoas por símbolos que na verdade representam status ao invés de preocupação genuína (como o cuidado com os animais), ao precisar de estímulos externos para aguentar o cotidiano, como as máquinas que regularizam o ânimo da pessoa conforme seu desejo, semelhante aos ,cada vez mais usados, antidepressivos de hoje, ou a caixa de empatia, que busca a interação social e empática do indivíduo , como as redes sociais simulam; isso tudo torna o livro interessantíssimo, principalmente ao pensar que foi escrito nos anos sessenta. No entanto o filme consegue passar todo o clima de solidão e vazio que são a sombra do livro, apresentando o mesmo ambiente através da ótica de seus personagens sobre esse mundo cínico e devastado que se tornou a terra, mas sem precisar ir tão profundamente nas questões de passado e religião, o que aconteceu ,aconteceu e fica subentendido o que importa é a situação atual e as vezes já é demais. Em resumo , “Androides sonham com ovelhas elétricas?” é um livro obrigatório para quem é fã de Philip K. Dick e o filme “Blade runner” um marco da ficção científica que merece ser revisitado, e, caso você não tem nenhum sentimento pelo filme ou curiosidade pelo livro, não faça o teste Voight-Kampff ou será descoberto e aposentado.

Você será aposentado

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Top 3 de livros que li no 1° semestre de 2014


O Homem do castelo alto:


Romance de Philip K. Dick que mostra o que aconteceria se o eixo houvesse vencido a segunda guerra mundial . O livro acompanha a trajetória de um artesão e falsificador de joias judeu que vive disfarçado, um espião duplo Nazista , um político Japonês fã da antiga cultura americana e uma professora americana de Judô que foge do passado; quatro personagens unidos pelo destino através do I ching e pelas ideias de um livro proibido em um Estados Unidos dividido entre a Alemanha nazista e o Japão imperial, onde os judeus foram exterminados e os poucos negros que restam vivem como escravos , a cultura japonesa , com sua forte ideia de hierarquia ,predomina nas instituições governamentais e públicas, os Italianos foram deixados de lado como seres de segunda classe e o mediterrâneo foi seco para transformar-se em uma grande plantação, Hitler se encontra internado devido a loucura provocada pela sífilis e a disputa interna no partido Nazista ameaça transformar a guerra fria entre os vencedores da Guerra em uma terceira Guerra mundial.

Coloquei o Homem do Castelo Auto como o segundo de meu livros preferidos de Dick (perdendo apenas para “O homem duplo” ). A maneira como ele sutilmente vai construindo a relação entre os personagens, as dúvidas quanto a realidade e o medo que cada um exala , deixam a ideia de que não há como escapar da situação agoniante onde as pessoas se encontram, os personagens são tão reais que , embora não se concorde com algumas de suas atitudes, os compreendemos, sem contar na trama política e social que serve de pano de fundo a história, que é obscura e revelada muito parcialmente, nos tratando quase como pessoas comuns e ,tal qual, desinformadas de tudo que ocorre com a sociedade daquele universo distópico.
Nota 8



Battle Royale

Livro do escritor Japonês Koushun Takami , lançado em 1999 e que eu queria ler desde que vi o filme em 2006. Conta a história de uma turma do nono ano do ensino fundamenta de uma escola Japonesa que é mandada para uma ilha para que se matem até que sobre um único sobrevivente, lá eles são vestidos com uniformes escolares, ganham armas , tem colares com rastreadores e explosivos presos em seus pescoços e são dados três dias para que o programa seja finalizado ou todos colares são detonados. A história dá mais foco a alguns desses alunos apresentando seus traumas, sonhos e desejos, mas tem em Chuya Nanarara e sua amiga Norico os personagens centrais, com uma distopia política como pano de fundo. O livro mostra que nas situações mais extremas a verdadeira natureza humana se revela e que embora no meio da inocência pode haver muita maldade, assim como amizade e sacrifício. A obra inspirou a série de livros “Jogos Vorazes” , que também viraram filme em 2012 e o filme Os condenados, onde ao invés de estudantes, são prisioneiros do corredor da morte que são mandados para a ilha. Muita ação, sadismos e tensão, no melhor estilo Tarantino . Nota 9



O Cemitério:


Primeiro livro que li de Stephen King e assombrou minha imaginação por semanas. Conta a história de Louis Creed que se muda, junto com a família, para uma pequena cidade no Maine para trabalhar como médico no Campus de uma Universidade e é apresentado por um vizinho ao cemitério de animais, fato que irá destruir sua sanidade e vida.

Quando li o livro, meu filho havia nascido a pouco tempo e ao chegar na segunda parte, recebi um soco no estômago; o terror apresentado é devastador, nunca havia lido nada que conseguisse expressar a dor da perda com tanto detalhe e me induzir empatia imediata, o modo como ele apresenta os personagens e vai revelando seus medos e segredos são tão perfeitos que prendem nossa atenção até que o livro acabe e quando acaba, deixa pontas soltas que ao invés de deixarem uma lacuna na obra, te deixam com um aperto no peito e ao mesmo tempo satisfeito. Se existe uma palavra para esse livro a palavra é perfeito. Nota 10




quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Pacto do Goleiro (conto)


Era dia dois de Julho de 2010 ,ele sentou-se no banco do vestiário olhando para os pés, na cabeça vinham flaches do jogo que faziam seu rosto se retorcer em caretas de desgosto, sentia-se culpado e humilhado, aos poucos o amargo gosto da depressão vinha-lhe a boca e embora estivesse cercado de companheiros e amigos, sentia-se extremamente só, apenas a culpa o acompanhava e sussurrava a ele os “E se?” tão comuns em nossa mente quando sentimos que erramos , pensava ele:
  • E se eu tivesse saído do Gol antes, teria evitado o cabeceio! Se eu tivesse gritado que a bola era minha para o Felipe ele não teria pulado...
Suspirou e ficou ali, sentado no escuro, ainda de uniforme, digerindo toda aquela situação, sentindo a depressão chegando e a raiva crescendo, foi quando sentiu seu peito vazio e seus lábios pronunciaram ,quase sem perceber, a seguinte frase:

- Eu faria qualquer coisa para acertar minhas falhas contra o time de hoje... qualquer coisa!

Então uma voz ,que surgiu da parede escura a sua frente, questionou:
  • Qualquer coisa?
Ele arregalou os olhos e, assustado, viu sair da sombra um simpático senhor, com roupa de faxineiro. O homem vagarosamente sentou-se no banco a sua frente e o olhando nos olhos, com olhos incisivos e firmes, repetiu a pergunta:

- qualquer coisa?

Atordoa do com situação o goleiro olhou em volta e percebeu que não havia mais ninguém ali, pairava um silêncio tão grande que parecia que o estádio estava vazio a dias, o que não fazia sentido, pois jogo havia terminado a menos de uma hora, então encarando seu questionador, ele perguntou:
  • Mas...quem é você, o que está acontecendo?
  • Eu sou a pessoa que pode lhe ajudar a tirar essa dor de seu peito - disse o senhor o encarando.
  • Co-como?, questionou o goleiro
  • Só preciso que você diga em voz alta que quer ter uma nova chance para reverter a humilhação que sentiu na data de hoje, que quer uma revanche
  • Claro que eu quero.... mas, como?
  • Está feito, você terá sua chance em quatro anos
  • Quatro anos?..hum !! … minha carreira por aqui acabou... não estarei aqui daqui a quatro anos
  • Estará! Eu lhe dou certeza
  • Tá bom, faz de conta que eu acredito, mas.. e o que VOCÊ ganha com isso?
  • O preço não é alto , você terá de dar um presente para cada uma das comunidades do lugar de onde eu venho, um presente que nos alimente, que nos encha de prazer
  • E que presentes seriam esses?
  • Quando for a hora você saberá

E dizendo isso, o velho senhor levantou-se e caminhou com um sorriso satisfeito em direção a parede escura, desaparecendo dentro dela. Nesse exato momento Júlio César, goleiro camisa doze da seleção Brasileira acorda de um transe de sobre salto, estamos no dia oito de julho de 2014, ele olha em volta e vê seus companheiros com lágrimas nos olhos, cabisbaixos e atônitos; faz quinze minutos que o pior jogo de sua vida acabou, perdeu de sete a um para a Alemanha, não consegue explicar o inexplicável, mas precisa de respostas, vai para um canto escuro e começa a pensar no que aconteceu, nada faz sentido; é quando do meio das sombras vê um sorriso, tudo se torna silêncio novamente e uma voz diz:
  • Muito bem, sua parte do acordo foi cumprido. Amanhã cumprirei a minha
  • Você?? Como... era um sonho... QUE PORCARIA QUE ESTÁ ACONTECENDO?
  • Calma meu amigo, só estou fazendo o meu trabalho, você não queria uma nova chance contra o time que lhe humilhou, pois bem estamos providenciando.
  • MAS ERA PARA NÓS VENCERMOS A HOLANDA!!!
  • Aí já depende de ti … meu trabalho é te dar uma nova chance, o que vou providenciar para sábado na disputa do terceiro lugar
  • TERCEIRO LUGAR?? … E A HUMILHAÇÃO DE HOJE???
  • Eu lhe disse que havia um preço a pagar, um presente para cada comunidade do lugar de onde venho e vocês pagaram
  • Mas que inferno de lugar é esse de onde tu vens?
  • Na mosca!!
  • Como? co... como?
  • Sim, meu amigo, presenteasse cada um dos sete círculos infernais com um gol, digo com a dor que cada gol que levasse causou a um torcedor do teu país e isso é o nosso alimento e só posso lhe agradecer dando o que você quer, ou seja, uma nova chance de vencer a holanda. Bom, eu só vim mesmo foi por agradecer, amanhã tenho trabalho a fazer, barrar o ataque holandês para que sábado eles estejam em campo contra a tua seleção, aí vai depender de ti, minha parte estará feita
  • … Então , é assim.... mas, pelo menos me diga o seu nome.
  • Foi um prazer te conhecer e acho que já sabes meu nome
E falando isso desapareceu nas sombras outra vez. Júlio Acordou novamente desse sonho tão real e estava no vestiário do Estádio Mané Garrincha em Brasília , dia doze de Julho de 2014, em trinta minutos começará a disputa pelo terceiro lugar contra a Holanda, mas não havia animo no olhar de ninguém , então Júlio se levantou, pegou suas luvas e disse:
  • Seja o que Deus quiser!



quarta-feira, 9 de julho de 2014

Brasil Fora, a " Neymardependência"


Durante toda a copa, eu acreditei na seleção brasileira. Apesar de seu ataque inexpressivo, apesar do meio campo que não funcionava , de laterais que não defendiam e atacavam com dificuldade, apesar de tudo isso ,eu acreditei; tanto, que postei ontem que a saída do melhor jogador poderia unir e fortalecer esse grupo, ser um motivador para a equipe. Infelizmente, assisti sem acreditar a maior goleada sofrida pelo Brasil (ou qualquer outra seleção) em uma semifinal de copa do mundo, sete a um para a Alemanha ! O que me fez meditar sobre a situação oposta a que apresentei ontem, a dependência da figura carismática.

Muitos movimentos sociais são a materialização de ideias propostas por indivíduos chave ou possuem em algumas pessoas sua força motriz. Esses indivíduos são figuras que emergem da multidão contendo, para quem os seguem, todas as virtudes que são vistas como essenciais para a mudança no estado das coisas que esse mesmo grupo busca alterar ; por esse motivo, muitos movimentos sociais se degradaram com retirada desse mesmo líder de frente.

Entre os movimentos citados, podemos dar o Nazismo Alemão e o Fascismo Italiano como exemplos. A Alemanha de Hitler, possuía em seu líder a figura carismática que dava vida ao ideal nazista; hoje é dito que os extremos a que a barbárie nazista chegou nunca teriam se tornado realidade sem a existência do Fuhrer , já que o mesmo condensava em seus discursos e livros os preconceitos e ideais que incentivavam o partido nazista a seguir a diante, tanto que é especulado que após sua morte o partido rapidamente se dividiria ou não sobreviveria. O mesmo podemos observar na Itália, que tinha em Mussolini o instigador do patriotismo fanático, que imitava os gestos romanos, ideias de expansão e acreditava na superioridade dos descendentes de Roma . Sem essas duas figuras de carisma para as causas as quais representavam , seus ideais, que precisavam de motivação constante se desfizeram por si só.

Longe de querer comparar Neymar à Hitler ou Mussolini como pessoa, o considero no mesmo grau de importância na busca das metas que o grupo ,onde ele era a maior estrela, almejava alcançar, no caso , o campeonato mundial. O talento, mas sobre tudo a mídia, tornaram Neymar um líder informal, sendo a cara da seleção e a tornando dependente de suas habilidades; sem o craque, o restante da seleção, que já vinha apagada perdeu seu referencial , seu exemplo de atitude e se desfez em campo. Esse tipo de situação no futebol não é nova, assistimos o Uruguai sucumbir após a punição de seu Craque Suarez, nesta mesma copa e , em 2002, vimos a França ser eliminada na primeira fase da copa do Japão/Coreia , ao ser privada do futebol de Zidane, mas o grau de abatimento que a seleção apresentou, isso sim, foi algo nunca antes visto e que mostrou seu grau de dependência de Neymar.         
Penso que agora a CBF ao invés de procurar ajuda psicológica a seus atletas, para aliviá-los de tensões que não deviriam influenciar pessoas que estão acostumadas a participar de times milionários e rivalidades que movimentam países, busque estudar sobre o peso negativo que uma única figura pode representar ao carregar a esperança de uma nação inteira, de forma que nas próximas copas, disputadas em terreno estrangeiro, possamos contar com uma equipe que vê em todos os integrantes os ideais de patriotismo que a seleção brasileira representa e não mais em um único indivíduo, que pode não estar presente.
O povo sempre estará lá

terça-feira, 8 de julho de 2014

Neymar Fora, O elemento motivador .


   Muito se falou sobre a reação da seleção brasileira após a confirmação da impossibilidade de Neymar , vítima de uma entrada violenta e covarde nas quartas de final, jogar as duas últimas partidas da copa do Brasil; O que nem todos percebem, porém, é força dessa situação, que embora triste, pode ser o combustível que estava faltando para levar a seleção a conquista do título. Estudando um pouco a história podemos perceber que pouco existe de mais eficiente para um grupo ou equipe, do que um elemento motivador e esse diferencial pode estar presente em uma figura carismática , mas muitas vezes a retirada dessa mesma pessoa dos círculos os quais era um destaque, como na situação vivida pela seleção, une de maneira inquebrável esse grupo e facilita o alcance dos ideais e pretensões que aquela mesma figura inspirava no inicio.

   Se tratando de líder que usava seu carisma como elemento motivador, poucos foram tão marcantes quanto Júlio César, que durante a república romana, liderando a campanha na Gália, presenteava a seus soldados que mostrassem maior bravura , com espadas ,elmos e peitorais adornados com ouro e pedras preciosas , de modo que o reconhecimento por seus atos e a preciosidade de tais presentes fossem um motivo de orgulho para quem os recebia e certeza , por parte de quem dava, de que as mesmas armas não seriam abandonadas por seus usuários ou sua moral quebrada nas piores horas de uma guerra. O Carisma de César era cultivado através do convívio direto com seus soldados, com quem dormia nas mesmas barracas e praticava os mesmos jogos; apesar de suas diferenças hierárquicas e sociais, as legiões de César o consideravam um deles , tanto que , após sua morte, apoiaram seu sobrinho Otaviano ( que viria a se tornar César Augusto) na perseguição a seus assassinos e criação do império Romano, podendo-se dizer que o império romano, como o estudamos, nunca chegaria a ser o que foi sem o assassinato de Júlio César.
Júlio Cesar, liderança, carisma e motivação
   Anos depois da morte de César, surgia no oriente médio uma figura que iria determinar o destino da humanidade e fundamentar a moral religiosa do ocidente, seu nome era Jesus Cristo. No entanto, em vida a palavra de Jesus Cristo foi ouvida por poucos, tendo mesmo não alcançado nem o apoio completo da comunidade onde o mesmo estava inserido. foi só após sua morte que Paulo, utilizando relatos de sua sabedoria e o exemplo de seu sacrifício, levou ao mundo através do império romano a figura e ideais de Jesus, o tornando , de um profeta do deserto em Deus encarnado e, assim, erguendo um dos maiores poderes que já esteve presente na terra e que não é barrado por nenhuma fronteira, a igreja.

   Nos anos sessenta, nos Estados unidos, a segregação racial deu origem a dois movimentos distintos e que possuíam líderes de ideias totalmente discordantes, um era Martin Luther King Jr , que ficou famoso por seus ideais pacifistas inspirados em outro líder do mesmo Naipe,o indiano Mahatma Gandhi. King sonhava com uma sociedade unida que não segregasse qualquer pessoa que fosse e que desse oportunidade a todos serem julgados por seus caráteres e atos ao invés de sua cor. Enquanto que no outro extremo, encontrava-se Malcolm X , porta-voz de uma comunidade muçulmana, que enxergava a comunidade negra superior a maioria branca e via no ideal guerreiro de Mohamed de força e imposição de ideias o modo de mudar a situação onde seus seguidores se encontravam. A morte brutal desses dois líderes desencadeou uma aura de união entre seus seguidores que focados na ideia que era comum a ambos , de igualdade de direitos civis a negros e o fim da segregação racial, avançou até o fim dos abusos e alcanço de seus objetivos.

King & X ;  diferenças que gerou união
    Por tudo isso,penso que a seleção brasileira ,embora tenha perdido seu principal craque, ganhou um motivo a mais para lutar pelo título. A retirada forçada de Neymar da copa do mundo de futebol uniu o grupo a que ele pertencia para alcançar seu sonho por ele e mais ainda, uniu a estes todo um país que viu nas lágrimas do craque ferido covardemente o elemento que faltava para depositar confiança na vitória. Eu, particularmente, acredito muito e só posso dizer que hoje e até o final da copa #somos_todos_camisa_10

#somos todos camisa_10

sábado, 5 de julho de 2014

MEUS PESADELOS DAS TRÊS DA MANHÃ


Faz um mês que todas as noites eu acordo as 03:00 da manhã ! E sempre saindo de um pesadelo. Alguns são tão estranhos que anotei e abaixo seguem alguns:

  • semana passada, em meu sonho, eu estava na empresa de logística onde trabalho e iríamos enviar uma carga química em isotanque, então o técnico de segurança pediu que eu entregasse as placas com o número da ONU (item obrigatório que identifica o material transportado ), o frentista responsável por colocar as placas não as fixou direito, então pedi ao rapaz dos serviços gerais ( um que tem a metade do meu peso e altura) , ele se encurvou, trincou os dentes e partiu para cima de mim com um martelo , babando e gritando : “TUDO EU?! TUDO EU?!” , no que parecia mais um ataque zumbi do que um desabafo de estres, ele me agarrou pelo pescoço, me derrubou no chão e quando desceu o martelo na direção do meu rosto acordei assustado. Eram 03:05.
  • Um ou dois dias depois , sonhei que eu acordava em minha cama junto com minha mulher, só que a cama estava em uma densa e amarelada floresta de cana (ou banbu, ou taquara ,sei lá !), eu me sentia assustado naquele lugar, como se nossa cama tivesse caído ali; por outro lado minha mulher estava sonolenta e diz para eu dormir, enquanto eu observava ao redor, vi se esgueirando entre as canas , um roedor, que parecia um rato ou esquilo, e vinha em nossa direção , comecei a gritar e fazer barulho e por fim, aos berros, perguntei o que ele queria, então o rato falou!! : “ Um pedaço !” e saltou no meu pescoço. Quando ele caiu sobre mim, eu acordei em um pulo que acordou minha mulher e filho. Olhei o relógio e eram 03:02.
  • Ontem, por volta da meia-noite, começou a chover bastante, adormeci com a chuva e sonhei, que estava preso em um poço seco, o poço era forrado de arame farpado e tinha a largura exata para que eu não pudesse sentar ou levantar os braços. De dentro desse poço , eu só podia ver o céu por onde passavam nuvens tocadas a vento, então apareceu a sombra de um homem, eu não podia ver seu rosto mas sabia que ele me olhava, atrás dele o céu foi ficando cinza e o chão começou a tremer, o homem se agachou, como para me observar melhor, eu não conseguia falar ou gritar , começou a chover e do chão começou a verter água, quando a água estava quase na altura do meu pescoço, o homem começou a inchar como um balão, tapando toda a luz que vinha de fora e quando ficou possível ver apenas o olho desse homem que me observava ,houve uma explosão e eu acordei de sobre salto com o barulho de um trovão. Olhei o celular e eram 03:03

Não sei se esses sonhos são uma reação da minha mente ao momento que estou vivendo de rotina extrema de trabalho e sem previsão de mudança, faculdade cobrando cada vez mais dedicação , filho pequeno e problemas da casa mais centradas em minhas decisões; toda essa pressão junta ainda é algo novo para mim. Talvez meu subconsciente esteja tentando criar um universo fantástico para aliviar a tensão cotidiana já que eu, quando mais novo, em épocas de crise sempre me refugiei para dentro de livros ou filmes, e hoje , talvez ,esteja sendo transportado para dentro dos mesmos enquanto durmo... Só que procurando na Internet, descobri que Três da manhã é considerada a “Hora do demônio”, ou seja, se meu subconsciente está tentando me levar para dentro de um livro ou filme enquanto durmo, tinha de ser um livro ou filme do Stephen King??!!


sexta-feira, 20 de junho de 2014

"A síndrome de Copérnico" - dica de livro

Li  alguns meses atrás o livro “ A síndrome de copérnico” de Henri Loevenbruck, lançado no Brasil pela Bertrand . O livro conta a história de Vigo Ravel, homem de 36 anos, diagnosticado com esquizofrenia paranoide, que sobrevive a um atentado terrorista (por ler a mente de um dos participantes do atentado) e que devido a isso se obrigado a mergulhar em uma investigação atrás de respostas sobre uma possível conspiração , sobre o próprio passado e se a realidade e ambiente que os cercam são reais ou se todas as surpreendentes situações a que é exposto não são frutos de sua diagnosticada doença mental.
 O livro , embora grande, é divertido e fácil de ler, segue a linha de livros americanos que tem como seu objetivo contar uma história sem se preocupar muito com a forma. É um trhiller de ação misto de suspense, mistério e ficção científica e como tal agrada os fãs de todos esses gêneros, tanto que pelo estilo quase cinematográfico, que por vezes lembra um roteiro de filme de ação, não me surpreenderá se em alguns anos Vigo Ravel aparecer nas Telas de cinema
A “síndrome de copérnico “ que dá nome ao livro, é explicada por uma personagem da trama como sendo a ideia ,derivada da própria doença do protagonista, de que ele possuía uma verdade essencial a qual só ele tem total certeza mas que precisa expô-la ao mundo (ou, traze-la a luz, para não fugir do tema!) , tal qual Nicolau Copérnico, astrônomo e matemático Polonês, que desenvolveu a teoria do heliocentrismo , em oposição ao geocentrismo defendido pela igreja e aceita por todos como verdade inquestionável.

Fica a dica de leitura