Somos prisioneiros de
ciclos. Acreditamos que o tempo simplesmente se desloca em linha reta do
passado para o futuro e que o presente é uma constante novidade, mas na verdade
seguimos vivendo ciclos que se repetem e se repetem sem que muitas vezes nem percebamos.
Então um dia você acorda com quarenta e
poucos anos e as coisas ainda estão iguais a como eram quando tinha vinte, se
frustrando em empregos que eram para ser temporários, cometendo os mesmos erros
na vida amorosa, enfim, patinando em todas as áreas da vida por não conseguir
quebrar essa prisão temporal que acreditamos se tratar apenas de rotina. Mas,
se no meio desse caos você percebesse que a repetição ou não dependesse de uma
atitude perigosa contra todas as ações que você insiste em aceitar, você
estaria disposto a correr os riscos?
Pois disfarçado de filme de golpe, com todos
os ares de blaxploitation, e abordando sobre o que a quebra ou aceitação dos
ciclos da vida podem definir na vida das pessoas, estreava no Brasil em 1998, “Jackie
Brown”, filme roteirizado e dirigido por Quentin Tarantino, estrelado pela
estrela dos filmes negros dos anos 1970 Pam Grier e baseado no livro “Rum
Punch” do escritor Elmore Leonard, que depois de vinte anos parece se firmar,
para mim, como o melhor filme do diretor e conversar com momento de encruzilhada
da minha própria vida.
Para quem não conhece o filme, a história
conta as desventuras de Jackie Brown (Grier) uma comissária de bordo de uma
pequena companhia aérea Mexicana que, para conseguir ganhar alguma grana a
mais, contrabandeia dinheiro para o traficante de armas Ornell Robbie (Samuel
L. Jackson), No entanto, após ser descoberta e presa pelo agente da ATF Ray
Nicollete (Michael Keaton), Jakye, começa a temer mais pelo seu futuro sem perspectiva
do pelo risco de seu contratante a achar uma dedo-duro e concebe um perigoso plano
para se livrar de Ornell, das acusações e alcançar certa estabilidade
financeira, virando em 180° a vida que parecia ser seu destino.
Como eu disse acima, não percebemos que
estamos presos a ciclos até que uma situação externa bata com força em nossa
cara. Foi exatamente isso que aconteceu comigo, quando em uma tarde de domingo
chuvosa resolvi reassisti ao terceiro filme de Tarantino e sentir como se
alguém gritasse dentro da minha cabeça se eu estava entendendo a mensagem.
Todos os personagens centrais da história estão às portas de repetir seus
ciclos de vida ou quebra-los e a atitude que tomam frente a isso é o que define
seus destinos.
Gara
Começamos com a protagonista, Jackie Brown,
que durante a trama confessa que já foi presa anos antes também por contrabando
e que depois de um tempo na cadeia, amargou anos de condicional, o que parece
tê-la quebrado, fazendo-a se resignar com o pouco que conseguiu depois. Ela
mesma confessa ao agente de fiança Max (Robert Forster) que parece estar sempre
recomeçando e que se encontra cansada disso. Sua quebra de ciclo ocorre quando,
após se ver pressionada pelo flagrante do agente da ATF, resolve ir de encontro
as suas antigas decisões e tomar o protagonismo de sua própria vida, utilizando
de sua esperteza e charme para se impor ao que parecia ser seu destino, o que
resulta em sua libertação e o alcance do que esperava para si.
O contrário ocorre para o restante dos
personagens da trama; que por receio, medo ou costume sofrem as consequências
de se manter presos à suas jornadas. Dois casos distintos são claros dentro da
história, o do ex-presidiário Louis Gara (Robert De Niro) e o Agente de Fiança
Max Cherry (Robert Forster).
Louis Gara não consegue fugir de si mesmo,
como se a prisão da qual foi liberto ainda o acompanhasse. A primeira coisa que
vemos do personagem no filme é ele retornando ao mundo do crime sob a proteção
de seu amigo Ornell e embora sempre transpareça confusão e por vezes apatia em
relação aos assuntos do parceiro, não move um musculo para mudar sua
perspectiva, o que com sua participação ao final da trama se pode encarar como
medo, um medo tão grande que se transforma em violência e inconsequência, selando
seu destino de forma definitiva.
Jakie & Max
Por outro lado, Max Cherry está
completamente fundido a sua rotina. Agente de fianças há mais de vinte anos,
sem família e, aparentemente sem amigos, sua rotina é sua vida. Mas ele tem um
vislumbre de que as coisas podem ser diferentes ao conhecer Jackie e se
apaixonar pela mesma, tanto que após criar certa intimidade com a protagonista
confessa a ela que irá se aposentar, pois não vê mais sentido nas repetições em
sua vida profissional. Entretanto, a insegurança em sair de uma longa rotina o
impede de seguir seu desejo e o que vemos dele ao final, quando vê Jackie
partindo, é o semblante de quem levará consigo para sempre a dúvida do que
poderia ter sido e nunca foi.
O que difere Jackie Brown dos demais personagens
do filme é ter entendido que só se pode seguir em frente quando destruímos o
caminho antigo e criamos um novo; Gara, Cherry, Ornell e os outros personagens
parecem não compreender esse fato e fecham o filme ou ruminando os mesmos
problemas ou simplesmente mortos, enquanto Jackie termina a história
protagonista tanto da trama quanto de sua própria vida.
Me identifiquei no ato ao reassistir “Jackie
Brown”. Com trinta e sete anos, doze destes no mesmo emprego, relacionamento
cheio de idas e vindas e ainda pensando o que querer da vida me fez pensar em
como acabamos tranquilamente aprisionados nos ciclos que criamos para nós e
isso me fez voltar a escrever, o que é um pequeno passo, mas já me tirou da
inércia. Meu convite é para que todos revisitem o terceiro filme de Tarantino
sob este ponto de vista de recomeços e fugas dentro das vidas dos personagens,
mas isso não interessar, assista assim mesmo, focado no charme de Pam Grier, na
trama cheia de reviravoltas ou nos diálogos extremamente humanos, quebrando
pelo menos o ciclo da mesmice dos blockbusters atuais.
Se não enxergarmos o que é tido
como diferente presente em todas as áreas da sociedade o encararemos como um
erro, onde apenas a bolha onde vivemos será percebida por nós como verdade
absoluta; por isso eu digo: Representatividade é tudo!
Mas não é a simples presença física de
pessoas de diferentes cores, opções sexuais ou religião que garante o rompimento
da bolha onde nos incluímos, mas a possibilidade de se criar empatia a ponto de
nos reconhecermos nas pessoas de aparência e opções diferentes de nós mesmos e
nisso, a cultura como um todo tem um papel essencial, mas em especial o cinema
e a literatura em suas facetas tidas como pop. Tudo isso talvez seja uma verdade quase intuitiva, mas que ficou
mais clara para mim, quando me deparei com uma obra de sci-fi clássica, que
utilizando de clichês de ficção científica e fantasia, me entregou uma mensagem
poderosa sobre os males que o preconceito cristalizou em nossa sociedade, em
uma trama fruto da mente de uma pessoa que viveu muitos desses males.
Pois hoje falarei (muito por cima) dessa
obra, ou melhor, desse livro que se enquadra perfeitamente no seleto grupo dos
“rompedores de bolha” e que me conquistou desde seu prólogo. Trata-se de “Kindred
- Laços de Sangue”, um clássico da escritora afro-americana Octavia E. Bluter,
que depois de quase quarenta anos de seu lançamento original, finalmente chega
o Brasil pela editora Morro branco, me prendendo em suas páginas não só pela
sua mensagem dura mas necessária, quanto por sua escrita refinada e ágil.
O livro conta a história de Dana, uma
escritora, que após se mudar com o marido Kevin (também escritor), para a casa
nova, se vê vítima de um misterioso fenômeno de viagem temporal, retornando
para a Baltimore escravagista pré-guerra civil americana, uma época nada fácil
para uma mulher negra como ela (principalmente uma que possua educação e
espírito). Conforme o fenômeno vai se repetindo Dana descobre que o mesmo é fruto
de uma misteriosa ligação com um antepassado, seu tataravô Rufus Weylin, filho
de um proprietário de escravos, que quando sente sua vida ameaçada a invoca
para que essa o ajude. Além do estranhamento da situação, Dana viverá o dilema
de ter que defender seu antepassado, que é fruto da época de abusos onde
nasceu, para que ela mesma tenha seu nascimento assegurado, enquanto é obrigada
a testemunhar a abertura da feriada que a escravidão causou e que o preconceito
e a ignorância não deixaram cicatrizar até os nossos dias.
Esse livro me causou inúmeras sensações, a
maior foi a da descoberta de Octavia E. Bluter e todo seu talento. A autora,
não vulgarmente chamada de A grande dama da ficção científica, realmente me
impressionou com sua forma de escrever limpa e pé no chão (e em um livro de
sci-fi!), conseguindo transmitir não só toda a dor do período escravagista de
maneira sutil, como a própria aflição de seus personagens negros do século XIX,
que transitam no livro como não pessoas, posses de outros e fadados a passar o
resto de seus dias contendo seus sentimentos e indignações; mas também, nos
entregado na sub-trama, a cicatriz social que a escravidão deixou ao apresentar no tempo atual
(1976) uma mulher negracasada com um
homem branco (Dana e Kevin), que sofrem o desprezo de suas famílias devido a
esse casamento, ainda nada comum nos EUA dos anos mil novecentos e setenta,
indicando, sem precisar escrever nada que aprofunde a situação, a marca de um
racismo, mais velado do que explicito, que continua presente até os dias de hoje;
sem falar da maneira totalmente realista que a autora descreve o relacionamento
e rotina do casal, nos tornando cúmplice de seus segredos e testemunha de seus
sentimentos.
A leitura também me fez refletir quanto a
pouca quantidade de autores não-brancos e não-masculinos que eu posso dizer que
li e o que eu perdi com isso. Fora os clássicos como Machado de Assis ou
Alexandre Dumas e “Batle Royale” de Kouachum Takami, quase todos livros da
minha lista são de Europeus ou Euro-americanos e no que se trata de mulheres
não é muito diferente, mulheres negras então, não havia nenhuma. Octavia E.
Bluter veio para mudar isso ao se apresentar para mim, como um desses autores
que quando terminamos de ler uma de suas obras, sentimos vontade de ler todas,
nos induzindo à representatividade através do puro talento.
A história da autora e a consciência da
sociedade onde vivia e que lembra um pouco como enxergo a nossa, sem contar o
fato de, pela primeira vez, tive a oportunidade de ter contato com uma obra de
ficção científica escrita por uma pessoa da mesma etnia que eu, realmente me
tocou, pois como disse no início, representatividade é tudo! Mas esse fato
sobre “Kindred” que é importante para mim e para poucos, se encontra além do
livro, dentro dele há uma história de drama e aventura, desenvolvida de maneira
magistral que fala sobre como somos adestrados para aceitar os abusos e não
perceber muitos de nossos próprios privilégios. Isso acontece através da
relação de Dana e Rufus, a primeira uma mulher negra educada e culta do século
XX, se vendo exposta a todo tipo de violência do período da escravidão e que
vai se quebrando frente a esse novo mundo; o outro, uma figura do século XIX,
que, conforme Dana vai retornando no tempo e acompanhando seu crescimento, vai
se corrompendo e se mostrando cada vez mais consciente de seu papel.
Octavia E. Butler (1947-2006)
É por meio de Dana e Rufus, e suas
interações com as pessoas em sua volta e como estas relações vão mudando com o
tempo, que a autora nos demonstra a força que o mundo que nos rodeia tem sobre
nós. A relação com o poder é inversamente proporcional no que tange aos dois
personagens e, enquanto Dana vai se acostumando com as ordens, por mais que se
convença de que é para o bem de seus antepassados e seu próprio, se quebrando
no processo, ao ponto de terminar o livro transformada em outra pessoa; Rufus
vai se acostumando com sua posição de poder e privilégio e mudando de um menino
compreensivo e sensível, para um adulto egoísta, que não enxerga as pessoas
diferentes dele como outros seres humanos e se vê como superior. O Alvo desse
egoísmo e que acaba se tornando um dilema para o próprio Rufus é, Alice, uma
filha de escravos, que ele nutre uma paixão desde jovem e cuja relação se equilibra
entre sentimento verdadeiro e coisificação; Alice também acaba por sofrer
devido a influência de Dana, que sabendo que descende desta com Ruffus, ajuda o
mesmo a conseguir o que ele deseja, transcrevendo a amarga existência de um indivíduo
que é desumanizado sem chance de ser ouvido ou ter opção, restando o final nada
feliz para Alice e a Justiça (ou vingança) para Rufus.
A Autora ainda inclui, em uma das regressões
no tempo, a presença do marido da protagonista, que serve como “olhos brancos
bem intencionados”, que enxergam as barbaridades da época e se indigna, mas,
por não possuir a mesma ligação com a situação que a protagonista, acredita que
as coisas poderiam ser ainda pior. De forma genial, Kevin está lá para
representar os brancos que são despidos de preconceito (e ele faz isso se pondo
em risco muitas vezes), mas não possuem a mesma história de vida de quem sofreu
o preconceito na pele; algo tão comum como o próprio preconceito e que, no
livro, deixa profundas cicatrizes ao personagem quando este volta para seu
tempo natal.
Eu poderia falar durante páginas e mais páginas sobre “Kindred”, mas preferi não me aprofundar mais para não acabar com a experiência de ninguém, o que posso dizer é que este é um livro essencial para quem
é, além de fã de fantasia e ficção científica, amante da literatura. Uma obra
de escrita ágil, personagens fortes e marcantes, questões amplamente relevantes
e que ainda hoje são debatidas. Fruto de uma mente a frente de seu tempo, que
usando os conceitos Pop levou a todos um retrato da ferida que legitimou o
preconceito racial nos EUA (e no mundo), assim como, por meio de seus
personagens, mostra a facilidade de se quebrar frente ao poder, ou não enxergar
seus privilégios. Um livro que me fez sentir mais do que satisfeito, como me presenteou
com outro autor para ler toda obra; uma mulher que, depois de 424 páginas,
posso dizer que me representa na ficção científica e como bem se sabe,
representatividade é tudo!
A vida é uma guerra onde, ano após ano,
vamos sendo expostos a todo tipo de atrocidades e frustrações. É nela onde criamos
laços com outros como nós, mas logo nos habituamos a perdê-los e, se temos
sorte, chegamos ao final da última batalha com boas histórias, alguns
arrependimentos e muita saudade. Mas, e se aos setenta e cinco anos, tivéssemos
uma nova chance de começar do zero, nos atirando as cegas em uma viagem sem
volta, onde a única certeza é uma nova vida com muito mais aventura e violência,
você toparia?
O “E
porque não?!” para essa questão, é o que dá início a trama de “guerra do Velho”, livro do escritor John
Scalzi, publicado no Brasil pela editora Aleph e que, como uma rajada de MU-35,
chegou para quebra meu hiato para falar sobre o que eu mais gosto: ficção
científica.
O livro conta a história de um futuro onde
a raça humana chegou à era das viagens interestelares e passou a colonizar
diversos planetas, tendo contato com outras civilizações, das quais muitas
hostis. É nesse universo que conhecemos John Perry, um publicitário aposentado
e viúvo de 75 anos, que se alista nas forças coloniais de defesa (FCD) e parte
para o espaço em uma viagem sem retorno para defender nossas colônias, sem
imaginar quantos terrores e maravilhas presenciaria após sua última decisão no
planeta Terra.
Edição da Apleph
Gostei bastante do livro, mas tenho que
confessar que minha primeira impressão da história foi negativa e se estendeu
assim quase até a metade da trama. Algumas das coisas me desagradaram foram, as
muitas semelhanças com “Tropas Estelares” de Robert A. Heinlein e a mentalidade
extremamente aberta e “pra frentex” de senhoras e senhores de 75 anos, mas
superei a primeira ao focar mais nas diferenças entre as histórias dos autores do
que suas semelhanças e a segunda me colocando no exato lugar do protagonista e
seu grupo de amigos, que receberam ao final da vida uma nova chance de se
aventurar e conhecer coisas novas, em uma situação como esta, se apegar a
preconceitos e costumes do passado, não melhoraria a vida nova de ninguém.
Mas a coisa que mais me desagradou, foi o
fato de que tudo acontecia de maneira extremamente perfeita para o
protagonista; ele é o cara mais simpático e agradável do mundo e que acaba se
cercando dos velhinhos mais bacanas, inteligentes e descolados já na viagem até
a nave que os levará ao lugar de seu treinamento; após as melhorias nos corpos
dos recrutas (das quais falaremos adiante) é ele quem pega a recruta mais
gostosona, é ele quem vira o queridinho do sargento que os treina e que, por
isso, é eleito líder de pelotão, é ele quem, em sua primeira batalha, descobre
como vencer os inimigos mais perigosos das FCD, é tudo muito perfeito... Aí eu
me toquei que o livro é narrado em primeira pessoa e que o protagonista é
publicitário, ou seja, ele estava colocando um pouco de “tempero” em si mesmo
para se vender como o maior herói que já existiu, em um detalhe tão sutil e
brilhante de Scalzi, que mudou minha percepção da história após eu nota-lo.
Mas fora esses desagrados iniciais com o livro,
“Guerra do Velho” apresenta conceitos muito bacanas e sua história vai
crescendo em uma medida tão acertada, que se torna bem difícil para um fã de
ficção científica se decepcionar com o que o autor apresentou ao final das
trezentos e sessenta páginas. Para começar temos toda a ideia de tecnologia das
FCD, começando com a resposta para, como alguém consegue lutar em uma guerra,
após os 75 anos de idade? Pois bem, no universo do livro, a raça humana teve
contato com outras raças a quase um século e com isso, acesso a muitas
tecnologias que se tornaram segredos das colônias, uma dessas tecnologias, é a
transferência de consciência e é isso que possibilita a ida dos recrutas à
guerra. Na história, quando se chega aos
65 anos de idade, a pessoa decide se quer fazer parte das FCD dez anos mais
tarde e nisso, vários testes são realizados e amostra de sangue e pele retirados,
o que os futuros soldados desconhecem (pois nenhum cidadão da terra sabe nada
do que ocorre nas colônias) é que um novo corpo, repleto de alterações e
melhorias, vai sendo maturado e deixado a sua espera, para quando este resolver de uma vez sair de seu planeta natal.
E o corpo é incrível! Com olhos de Gato para enxergar melhor na penumbra, com
corpo na melhor forma atlética possível, com sangue que transporta mais
oxigênio e coagula mais rápido para evitar hemorragia, um computador e
assistente pessoal instalado no cérebro e uma pele verde rica em clorofila para
ajudar a obtenção de energia.
Scalzi
Mas o que mais me agradou foram os conceitos
referentes aos alienígenas que as FCD vão de encontro para garantir a segurança
dos colonos Terráqueos no universo. Os primeiros a aparecer em batalha e
grandes rivais misteriosos da humanidade, são os aliens conhecidos como
“Consus”, uma raça extremamente avançada e detentora de tecnologias
infinitamente a frente das que aparecem no livro, mas que se limita a ir a
campo de batalha com as armas no mesmo nível dos rivais que encontram. Sua
aparência é descrita como semelhante a de um inseto meio humano, com quatro
braços, sendo que os de cima são duas lâminas extremamente afiadas que eles
também utilizam como arma e suas entradas nos planetas são sempre realizadas
com rituais e cerimônias, tornando as intensões e razões desses inimigos
misteriosas. Também temos os Covandus, seres humanoides de algumas polegadas,
que conseguem um relativo sucesso contra a raça humana utilizando sua força
aérea em miniatura, ou o misterioso fungo da colônia 622, uma entidade coletiva
inteligente que dominava o planeta e que esperou o momento oportuno de atacar e
matar todos os colonos adentrando pelas vias aéreas dos coitados e excretando
ácido em seus pulmões, fato que faz com que a raça humana desista do planeta em
questão, ou ainda os antropófagos Rraeys, criaturas de características que
lembram aves e que enxergam na raça humana uma iguaria sem igual; são estes
últimos os responsáveis pelo massacre do planeta Coral, o ponto de virada do
livro e que dá início a uma sequência de batalhas e lutas que alavancam a trama
com muita ação.
Pois bem, Eu poderia escrever parágrafos e
mais parágrafos sobre o livro, citando a relação do protagonista com seus
amigos, seu crescimento dentro das FCD, explorando a possível ditadura e, quem
sabe, distopia por de trás do governo colonial, ou simplesmente falando sobre
as “Brigadas Fantasmas” o time de elite das FCD, mas como na maioria dos livros
que resenho, não fiz questão de me aprofundar para que quem conhecer por aqui e
se interessar pela obra, não tenha suas expectativas totalmente estragadas por
esse texto. Deixo aqui só a certeza de que "Guerra do velho” é um livro
divertido e que apresenta um universo extremamente interessante e para quem,
assim como eu, se incomodar com um protagonista que não erra, digo para ter
paciência; para quem enxergar semelhanças com outras obras, calma, há muito mais
originalidade do que homenagens. Faça então como os recrutas da FCD e deixe de
ser velho leia a obra de John Scalzi e mergulhe em uma viagem sem volta repleta
de aventura, ação e violência, tal qual as batalhas da vida, mas com garantia
de muito mais diversão do que frustrações.
Luis Fernando Verissimo
sempre foi um dos meus cronistas preferidos. Lembro de quando eu era
adolescente, pouco antes do "advento da internet" (como
diria o arquiteto em Matrix), aguardava a coluna semanal do autor no
Jornal Zero-Hora (aqui do RS), para me deliciar com sua escrita
brilhante e divertida. Eu chegava a recortar suas melhores
publicações e guardar dentro dos meus livros, para , sempre que me
faltasse algo bacana para ler, voltar ao bom e velho Veríssimo.
Então veio a vida adulta, cresceu meu interesse por ficção
científica, os filmes e séries de super-heróis dominaram o
mercado, a franquia Star Wars ressuscitou e por muito tempo deixei o
autor de lado, com seus quatro livros que tenho, esquecidos na
estante; até que no último domingo chuvoso e de internet vacilante,
meu subconsciente, procurando algo que revertesse a sensação de
tédio que eu sentia sentado o dia todo na frente da TV, colocou na
minha mão "O opositor" obra de Veríssimo, integrante da
coleção "cinco dedos de prosa" da editora Objetiva e,
como uma epifania nascida da contemplação de uma obra da
renascença, tudo que eu tinha ignorado com a distancia dos textos do
autor, voltou a fazer sentido novamente.
O Opositor, conta a história
de um repórter, que é designado por um jornal de São Paulo, para ir
a amazônia fazer uma matéria especial sobre ervas típica e plantas
alucinógenas. Pesquisando sobre o assunto em Manaus, ele acaba
conhecendo Serena, uma especialista na flora amazônica, que possui a
peculiaridade de ser meio Dinamarquesa e meio índia (meio a meio
mesmo, com um lado do corpo moreno e o outro loiro) e não possuir os
polegares; Serena lhe apresenta a uasca e oferece seu corpo e após
dias de uma viagem de prazer e delírio, proporcionados pelo sexo e
pelo alucinógeno, nosso repórter resolve relaxar em um bar e se
refrescar com os sucos típicos da região. É quando conhece o
Polaco, ou Josef, o míssil, um esfarrapado bêbado, de rosto
vermelho e sotaque europeu, que vai lhe contando uma fantástica
história de conspiração que envolve um grupo secreto que comando o
mundo, uma misteriosa ceita que, interpretando os afrescos de Luca
Signorelli, nega a evolução humana extirpando os polegares de seus
seguidores; conta-lhe sobre a criação do vírus mais mortal da
história por um desconhecido cientista Americano e sua caçada por
parte dele, Josef, um "opositor" (assassino) para que todos
os segredos permanecessem desconhecidos do mundo, até ali.
Esse livro, foi a primeira
história mais longa que li do autor, e hoje, relendo, posso dizer
que tive a mesma sensação de maravilhamento de quando o abri a
primeira vez, em 2004. Verissimo consegue, de maneira simples, como
é sua melhor característica, utilizando poucos elementos e
personagens marcantes, entregar uma história extremamente divertida
e reafirmar, mesmo com uma obra encomendada por uma coleção
editorial, todo seu talento.
Pela facilidade como o autor
escreve e sua capacidade de ser sucinto, sem deixar nada de fora, o
livro é de leitura rápida, principalmente por ser composto de
apenas cento e quarenta páginas. No entanto, seu tamanho enxuto não
o torna menos relevante ou faz menos justiça a qualidade do autor,
muito pelo contrário, nessas cento e quarenta páginas estão todos
elementos típicos da escrita de Veríssimo, a começar pelo humor.
Seus estilo debochado de contar a história e os elementos
fantásticos e conspiratórios que ele introduz, alternam a
experiência de quem lê de "engraçado" para "faz
sentido" o tempo todo e as figuras exóticas que passam por sua
história são tá fantásticas que bem poderiam ser reais, como a
mestiça Serena, que é meio-a-meio índia e dinamarquesa, tendo em
seu corpo seu equador particular e a frieza e calor de dois
hemisférios distintos, ou o galante e erudito bêbado Polaco,
portador de uma história fantástica e de dúvidas que deixa
pairando na mente do protagonista quando a história se encerra, sem
contar o comerciante Turco dono do bar, figura carimbada na
literatura brasileira e do chefe arrogante de caricato do
protagonista, todos muito reais, apesar de suas peculiaridades
primorosas criados pelo autor.
Verissimo
O ar cinematográfico é
outro elemento característico de Veríssimo e que não falta a esse
livro. Tal qual a série de contos de Ed Mort, nessa história também
temos um mistério que lembra de longe os antigos filmes de
detetives, com uma investigação efetuada por um agente de uma
agência secreta de assassinos, a caça de um misterioso cientista e
que termina no meio da Floresta amazônica em um final dramático e
repleto de ação, que não deixa nada devendo as teorias de
conspiração mais bem elaboradas e que, se um dia os deuses do
cinema, por sorte, tropeçarem nessa pequena obra, com certeza daria
um ótimo filme, Talvez até, com Polaco sendo interpretado por
Howard Something..Talvez!
Para finalizar, ainda temos as
ferramentas narrativas que Verissimo utiliza para contar a história.
Tal qual a embriaguez do Polaco ou a o estado de semi-torpor do
protagonista causado pela a uasca, a história parece cambalear,
fazer looping, como se entrasse a todo momento em uma espiral e
voltássemos a falar novamente sobre os mesmo assuntos com atenção
em outros detalhes. Assim, pelo ponto de vista de outros e comparando
com os outros personagens, vamos tendo pistas de que as coisas que o
Polaco vai contando não são tão absurdas e que a mente do
protagonista está mais aberta para aceitar a verdade que ninguém
mais quer, fazendo um link diretor entre a uasca, as ceitas
Italianas, o Grupo secreto, a teoria da conspiração e os sucos de
Manaus, de forma que a trama se fecha sem deixar nenhuma ponta solta,
a não ser que aquelas cento e quarenta páginas se duplicasse, para
podermos ler mais.
Pois bem, O Opositor é uma
excelente diversão para uma tarde de domingo chuvosa. Um livro que,
embora pequeno, trás todos elementos que transformaram Luis Fernando
Veríssimo no grande escritor, e que é um achado que me iluminou
nesse último final de semana, tanto que, despertou meu apetite e me
fez separar outro livro do autor caso a chuva teime em não ir
embora. Mas enquanto o fim de semana não chega, vou dar uma olhada
nas ultimas colunas do autor e , quem sabe, recortar do jornal (ou
colar em uma pasta no PC) suas melhores histórias, para ler, quando
algo bacana para ler me faltar.
No decorrer da minha vida de
leitor, alguns livros ficaram marcados nas minhas lembranças quase
como um amigo que viveu uma história única à meu lado e que por
vezes tenho vontade de visitar para conversar sobre aqueles bons
momentos. Um desses livros, é o fantástico "O Homem duplo",
de Philip K. Dick, que tinha lido a quase dez anos e que tive o
prazer de reler recentemente, me deixando novamente maravilhado pela
história fantástica, de um mundo totalmente monitorado e tomado
pelas drogas, mas onde Dick consegue com sua genialidade, em sua obra
mais atual e madura, dar vida a seus personagens de uma maneira
original e extremamente humana.
Capa da edição da Rocco
"O Homem duplo",
como citado acima, se passa em um futuro onde o tráfico de drogas
venceu e grande parte da população é formada por traficantes e
usuários; a polícia monitora a todos que quiser e seus agentes
trabalham em tamanho sigilo, que nem ao menos se conhecem,
utilizando, quando presentes na delegacia, uma roupa holográfica que
não permite suas identificações. Nesse mundo, somos apresentados
a Fred um policial disfarçado e viciado na perigosa substância D,
que é infiltrado, com o nome de Bob Arctor, entre um grupo de
drogados e acaba com a missão de investigar a si mesmo. Carregando
o peso de seus papéis contraditórios e vítima de seu vício e
solidão, Fred/Bob Arctor passa a ter seguidas alucinações e
dúvidas sobre sua vida, vindo a esquecer se ele é na verdade o
traficante Bob, que deve ser vigiado, ou o policial Fred que deve
prende-lo.
Não sei dizer se esse é o
melhor livro do autor, afinal Dick escreveu mais de cinquenta obras e
eu não tive o prazer de ler mais que dez delas; mas, dos que eu li,
essa parece ser sua história mais madura e sensível. O motivo disso
parece passar pelo fato que, assim como o protagonista, Philip
K.Dick, também viveu experiências com drogas e, conforme a
homenagem que faz ao final do livro, perdeu diversos amigos em
decorrência do vício, isso faz com que o livro pareça ser escrito
com muito mais sentimento e carinho que as demais obras do autor,
onde a especulação e a sociedade parecem tomar a frente dos
indivíduos. Em "O homem duplo" os personagens se destacam
muito mais que o mundo que os cerca, sendo que somos informados sobre
essa realidade, do mesmo modo que os superiores de Fred/Bob Arctor,
através dos olhos de outras pessoas e essa maneira de nos mostrar o
universo onde a história se desenrola, retira da trama todo
maniqueísmo possível, fazendo com que não sobre espaço para
vítimas ou algozes, apenas para pessoas, que assim como o
protagonista, vivem múltiplos papéis, com todos seus erros, dúvidas
e acertos, e, essa complexabilidade, transforma o livro em algo único
e especial.
Mas mesmo que a sociedade onde
a história acontece fique relegada ao plano de fundo da trama,
conseguimos sentir a opressão e o caos controlado que dela emana,
podendo classifica-la como uma forma de distopia. Nesse mundo de "O
Homem duplo", onde as ruas são tomadas de traficantes e
usuários, nem os próprios agentes estão imunes a vigilância
intensa e a corrupção, acabando por viverem muito mais na zona
marginal onde foram infiltrados, e se acostumando com essa realidade,
do que tendo acesso aos benefícios dos que pagam o seus salários e
recompensas, que é o grupo apelidado de "caretas". Esse
grupo, que é composto pelas pessoas mais abastadas (ou menos
ferradas), vive distante das realidades das ruas, ainda seguindo o
modelo americano de vida e usufruindo de todas as garantias que sua
posição permite. Essa divisão da sociedade, tendo os caretas como
grupo dominante, é apresentada de maneira sutil pelo autor, mas
marca a cisão social que coloca um pequeno grupo sobre o restante da
população e isso fica exemplificado quando o protagonista se vê
obrigado, já no início do livro, a palestrar (utilizando seu traje
holográfico) para um grupo desses indivíduos em um club fechado e
contar para eles o que vê diariamente nas rua, fato que
inimaginável para eles; assim como quando, conversando entre si, os
amigos de Bob especulam o que existe dentro de um shopping, um lugar
onde pessoas do tipo deles jamais entrariam; isso vem a se somar ao
fato de que na história, os caretas são sempre mencionados e nunca
abordados ou presentes diretamente na trama, tudo que vemos se passa
nas ruas, longe da elite, que fica inatingível para aqueles para os
quais sobrou apenas o vício e o descarte como alternativa.
poster do filme
No entanto, tanto os
personagens marcantes, quanto o universo onde eles existem, não
passariam apenas de uma boa ideia, caso não fosse a maneira
primorosa como o autor resolveu contar a história. Munido de uma
narrativa que oscila entre o trágico e o cômico, Philip K. Dick,
consegue ir além da sensação de estranheza e reflexão de seus
textos, mas sem fugir da base de sua obra, construída em cima do "O
que é real?", o que nunca foi tão bem abordado quanto nesse
livro, onde nem mesmo o protagonista sabe quem realmente é. E essa
confusão na mente de Bob Actor vai surgindo de forma quase
imperceptível com a inclusão de frases em alemão no meio do texto,
que são a manifestação dos sintomas do abuso de drogas no
personagem, em que Dick utiliza trechos de "Fausto" de
Goethe, uma história onde o herói busca enganar o diabo, para
descrever, tanto o início da confusão mental do protagonista, como
para indicar suas intenções e questionamentos subconscientes, pois
afinal quem seria o diabo de Arctor? Os drogados e traficantes com
quem ele convive? A sociedade policial que ele representa? Ou ele
mesmo que transita entre esses dois mundos?
O livro ainda é repleto
diálogos brilhantes e muito engraçados por parte dos amigos de Bob
Arctor, que assim como os pequenos e fantásticos contos, que
aparecem como "trips" devido ao uso de drogas pelos
personagens, dão o tom de insanidade da trama e coroam o talento do
autor. Dentre esses diálogos e contos, o que é mais marcante para
mim é o da tentativa de suicídio de Charles Freck, onde desiludido
com o mundo, um dos amigos de Arctor resolve tomar uma overdose
regada a vinho barato e transformar seu sacrifício em um ato de
protesto. Assim ele planeja ser encontrado em sua cama com um
exemplar de "A nascente" de Ayn Rand, para demonstrar que
era um super-homem incompreendido pelas massas e, uma carta de
reclamação devido ao cancelamento de seu cartão de crédito, para
culpar o sistema por sua morte; mas no último minuto ele resolve
tomar a overdose com um vinho bom, compra um mondavi cabernet
sauvignon e toma as pílulas com
o vinho, fica esperando deitado e percebe depois que não se tratavam
de barbitúricos, mas um psicodélico vagabundo, minutos depois ele vê
ao lado de sua cama uma criatura extra dimensional cheia de olhos
trazendo consigo um pergaminho com todos seus pecados, em
sua trip, mil anos depois a criatura ainda lia seus pecados do jardim
de infância, dez mil anos depois os da sexta série, Freck olha
para criatura, meditando
sobre o que estava acontecendo e pensa..."Pelo
menos bebi vinho do bom!".
Freck em seu "Suicídio" no filme de 2006
Aliás, esse trecho de "O
homem duplo" citado acima, que exemplifica o humor e talento do
autor, foi o que me levou a procurar esse livro a dez anos atrás.
Tudo devido a adaptação da história para o cinema em 2006,
roteirizada e dirigida por Richard Linklater (diretor de Escola de
Rock e Boyhood) onde a cena de Charles Freck é apresentada de forma
idêntica a no livro e ainda com a vantagem de ser narrada com uma
gravação do próprio Philip K. Dick, que quando assisti e me deixou
boquiaberto. O filme, que é a adaptação mais fiel dentre as
inúmeras histórias do autor que foram levadas para o cinema, contou
com um elenco de peso, que além de Keanu Reeves, como Bob
Arctor/Fred, tinha Robert Downey Jr, como Jim Barris, Woody
Harrelson, como Luckman e Winona Ryder, como Donna e, se tornou
famoso, ao utilizar uma técnica de pós produção que aplica uma
pintura ao filme, dando a ele a aparência de animação, fato que o
diretor afirmou ter inserido para causar uma sensação, a quem
assistisse ao filme, semelhante a de como um usuário de LSD percebe
o mundo durante uma viagem de drogas.
Capa da edição da aleph
Assim como o sua adaptação
cinematográfica, o livo, apresenta muito pouca tecnologia futurista
envolvida na trama, tendo em vista que é uma história de ficção
científica e escrita por PKD, o mestre em criar aparelhos malucos
com nomes estranhos. Claro que ainda existem os "Scanners em
cubo 3D" e os "Cefscópios", mas esses equipamentos
estão ali só para lembrar que a trama se passa no futuro e, a
decisão de deixar mais essa questão como pano de fundo, contribui
para a maturidade do livro, que citei no inicio do texto e acaba por
coroar o autor, que tanto se empenhou em imaginar o futuro, com a
visão de futuro bem mais próxima da real, do que em qualquer outro
de seus livros e isso acontece justamente na história onde ele
decide olhar mais para trás em sua própria vida, do que pensar
trinta anos na frente para a sociedade, o que torna "O homem
duplo" sua obra, dentro do possível, mais pé no chão.
"O Homem duplo" de
Philip K. Dick passou novamente pela minha vida como um amigo que
mora longe, mas que com quem sei que sempre posso contar. Uma
história fantástica, vivida em meio as drogas e repressão, mas que
deixa de lado o coletivo e a especulação futurista e, vai mais a
fundo no indivíduo, abordando a ignorância, o medo, a solidão e
até o vício como conceitos que nos tornam humanos. O livro mais
maduro e pé no chão desse grande nome da ficção científica e meu
escritor preferido (como eu não canso de lembrar) e leitura
obrigatória não apenas para quem é fã de PKD ou ficção
científica, mas para quem aprecia uma boa história. A editora ALEPH relançou o livro recentemente com o título "um reflexo na Escuridão" (título bem mais próximo do original em inglês). Minha dica é,
pegue o livro, sente-se em um lugar bacana, abra um bom vinho e deixe
sua mente viajar nessa trip distópica futurista e caso, por algum
motivo, o livro não lhe agradar, relaxe...pelo menos você terá
tomado um vinho do bom!!
Nova York, 1979. Antes da
Máfia ser esmagada, antes da economia americana voltar a crescer,
antes do talco sem cheiro dominar os embalos de sábado e,
principalmente, antes de proibirem crianças com menos de seis anos
de escreverem um roteiro para cinema, um grupo de nove membros de uma
turma da pesada parte em uma fuga alucinante depois de serem acusados
de um crime que não cometeram. Sim meus amigos! hoje falaremos sobre
"The Warriors", ou como foi chamado em nossas terras
tupiniquins, "Guerreiros, os selvagens da noite", a maior
Ode já feita ao tosto mundo das gangues novaiorquinas e que, além
de comprovar que entre os anos setenta e oitenta o mundo entrou em
outra dimensão, foi a produção responsável pela uma frase que me
persegue por décadas:
"Guerreiiiroosss... Venham aqui Brigaaarrrr!"
"The Warriors",
conta a história de nove representantes da Gangue dos Guerreiros,
originária de Coney Island, que, assim como outras cem gangues da
cidade, é convidada a participar de uma "assembleia"
organizada por Cyrus, o líder da maior gangue de Nova York, "Os
Riffs", com a intenção de organizar e unir os grupos
divergentes e assim dominar a cidade. A reunião, que ocorre no
território dos Riffs, no Bronx, começa a empolgar os
representantes das Gangues, mas no meio do discurso, Cyrus é
assassinado por Luther, o líder do "Rogues", que
percebendo, em meio a confusão, que um dos membros dos Guerreiros
viu quem atirou, os incrimina, fazendo com que a turma de Coney Island passe a ser alvo da perseguição de todas as outras gangues
em uma fuga do Bronx até o seu território, a mais de trinta e cinco
quilometros de distância. Restará agora aos Guerreiros, provarem
que realmente são uma "Turma da pesada".
O filme é um clássico, não
tem como não falar isso. Sua trama, mesmo datada, ainda hoje
consegue prender o expectador, mesmo que seja para arrancar dele umas
boas gargalhadas. Baseado no livro homônimo de Sol Yurick (que no
Brasil se encontra a venda pela Darkside Books), com uma forte
inspiração no musical clássico "West side story", o
filme foi roteirizado e dirigido por Walter Hill, que
além dessa pérola das madrugadas, dirigiu "Ruas de Fogo",
que é outro clássico do corujão, "inferno vermelho", com
Schwarzeneggere
Jim Belushi e o "Lutador de Rua", com o mito Charles
Bronson, além de produzir "Alien - o oitavo passageiro", e
trouxe no elenco uma galerinha jovem que, fora dois ou três não
tiveram uma vida muito produtiva e extensa no meio do cinema. Mas
quem se importa com a vida profissional dos atores, quando temos
diante de nós uma obra de tal magnitude, cheio de personagens
marcantes e , acima de tudo, abençoada pela maravilhosa dublagem brasileira do início dos anos oitenta?
Os
personagens são fantásticos e tem muito para falar ao mundo de hoje
sobre
personalidade. Para começar, os protagonistas
se deslocam pela noite Novaiorquina, ostentando apenas um colete de
couro vermelho, suas calças jeans e tênis, dentre eles, temos
Cleon, que usa uma bandana tigrada na cabeça e
Snow, que possui um black power aerodinâmico, mas nenhum dos outros
oito protagonistas, chega aos pés de Cochise, o guerreiro, que além
de ser dublado pelo mesmo dublador do Eddy Murphy, é um cidadão
afro-americano, que além do blackpower da moda daqueles dias,
utiliza adornos indígenas, um tapa na cara de quem hoje em dia vem
falar de moda étnicas ou
apropriação cultural.
Cochise é o meu personagem preferido, sendo seguido de perto por
Luther, o líder assassino dos Rogues, que do
alto de seus um metro e sessenta, com
sua cara quadrada e voz de taquara rachada, é o emissor da frase que
me atormenta e a qual já cite acima, mas
que além de tudo, ainda traz em si o mais clássico talento para
agente do Caos, sendo o responsável por toda confusão e azar, que
os guerreiros e os Riffs acabam vivenciando.
Guerreiiiroossssss
Falando
da Voz de taquara de Luther, é impossível assistir ao filme dublado
e não ficar completamente hipnotizado pela dublagem brasileira. Com
vozes consagradas como a do ator Nizo Neto (filho de Chico Anísio
(que dublou Ferris
Bueller
e o Presto de "a caverna do Dragão)) no papel de Vermim; Mário
Jorge de Andrade ( Eddy Murphy) como Cochise e o dublador clássico
do Stallone (que esqueci o nome) dando o sotaque malandro brasileiro
ao Luther. Nesse show de dublagem, temos o prazer
de ver
traduzidas
para nossa língua as gírias americanas do final dos anos setenta e o
resultado é maravilhosamente bizarro, não faltam "Aê meu
cumpadi", "acho que cês tão tudo virando a mão" e
até a frase de ouro do filme, que é proferida quando o líder dos
fugitivos, forjado no calor da fuga, fica a sós com a "mocinha"
e no meio de uma conversa filosófica sobre a vida e perspectivas,
fala para a jovem: " Vem cá, tu é chegada em uma horizontal,
heim! Já pensou em amarrar um colchão nas costas pra facilitar?!".
Pura elegância!
Vocês sacarammm??
Fora suas falas, muitas vezes
sem sentido ou seus tropeços de roteiro (como: de onde o Snow tirou
aquele coquetel molotov?) , a produção traz cenas bem legais de
luta. Como quando Cyrus é assassinado e o Líder Guerreiro Cleon,
vai conferir o que houve e tem que se defender da multidão na mão,
ou quando Cisne ( que passa ser o líder) bola uma armadilha em um
banheiro contra a gangue dos patinadores e a porrada come solta, com
direito a taco de basebol quebrado em barriga e porta quebrada com a
cabeça.
Além disso, não me ocorre
nenhum outro filme de fuga nesse mesmo estilo antes de "the
Warriors", me passando a sensação de que Apocalypto",
filme de Mel Gibson de 2006, que é basicamente uma fuga de um
território inimigo até o seu, tem muito de inspiração na obra de
Walter Hill de 1979, assim como o último "Mad Max"e isso
não é pouco.
Para Complementar sobre a
influência e carinho que o filme cativa, os irmãos Russo, que
dirigiram Capitão América 2 e 3, anunciaram a produção de uma
série baseada no livro/filme "The Warriors" e que deve
chegar para nós nos próximos anos, mostrando que muita gente ainda
guarda esse filme no coração e sonha em usar aquele colete de couro
vermelho.
Pois bem, "Guerreiros -
Os selvagens da noite" é um desses clássicos cults, que por
muito tempo habitaram as madrugadas dos canais abertos e que todo
mundo conhece ou já ouviu falar. É a representação máxima,
embora muito caricata, de um período histórico americano onde a
falta de perspectiva é o que norteava a vida de muitos jovens e que
até hoje encanta pela melancolia ou pelo tosco carismático, suas
falas são datadas, o roteiro quase não existe, a estética é
brega, mas mesmo assim o filme é extremamente divertido, o típico
filme que é tão ruim, que dá a volta e fica ótimo, que tanto
merece, como deve ser assistido, entendeu bem aê ô meu chegado?!
Da esquerda para direita: Snow, Ajax, Vermim, Cowboy, Cochise, Rembrant, Foxy, Cisne ( The Warriors)
Estamos vivendo tempos
estranhos. Dias de verdades alternativas e ignorância histórica,
onde a promessa da construção de muros que dividirão os escolhidos
dos condenados é aplaudida de pé por grande parte da população,
onde quem se impõem através de uma propaganda violenta é chamado
de "mito" e o diferente se tornou errado e inimigo, e, isso
tudo acontece enquanto as pessoas estão absortas em seus celulares e
compartilhando suas vidas através de redes sociais, ignorando o rumo
do mundo e os perigos do que podem estar por vir. Estamos a um passo
de uma distopia e em dias como estes, obras que conversem com o
momento da sociedade e nos apresentem uma ideia de onde o próximo
passo pode nos levar são de extrema importância.
Foi buscando uma obra que
espelhasse o que vivemos, que me deparei com um livro muito pouco
comentado, mas que me ganhou desde suas primeiras linhas, me
apresentando um universo distópico tão real e assustador quanto
fantástico. Estou falando de "Uma história de amor real e
supertriste" de Gary Shteyngart, publicada no Brasil pela
editora Rocco, que além de reafirmar minha paixão por distopias, me
passou a ideia de que o futuro de uma sociedade consumista e vaidosa,
pode ser ainda mais amargo e vazio do que imaginamos.
Capa da Edição da Rocco
"Uma história de amor
real e supertriste" se passa em um futuro próximo, onde os EUA
estão vivendo os piores de seus dias, vítimas de uma crise
econômica e política que foi intensificada com um fracasso militar
na Venezuela, o que colocou o país em um cenário de caos, postes de
crédito ornamentam as ruas, registrando os dados dos "Apparats"
(equipamentos que todos possuem e que servem para mandar mensagens,
como identificação e acesso a dados pessoais) e em que pessoas de
baixo patrimônio ficam a mercê do estado e veteranos de guerra não
recebem suas pensões, sendo obrigados a ocupar o Central park na
procura de abrigo, manifestações eclodem em toda parte e são
contidas com violência pelo exército de segurança nacional, o
braço armado do partido "bi-partidário", a última
lembrança dos tempos de democracia, a economia é baseada na moeda
chinesa, que comanda o FMI e as grande empresas são todas fatias de
enormes conglomerados financeiros.
Nesse mundo, que parece mais
crível do que distante, encontramos Lenny Abramov, um novaiorquino
de 39 anos, filho único de imigrantes russos, possível último fã
de literatura e escritor de um diário, que trabalha para uma
multinacional na divisão de serviços Pós-humanos, oferecendo
imortalidade a pessoas de alto nível social e financeiro. A procura
de clientes ele á mandado para Itália, onde acaba conhecendo
Eunice Park, uma vaidosa e orgulhosa jovem, descendente de Coreanos
por quem se apaixona perdidamente. No entanto, com o fracasso em
convencer os ricos europeus em participar dos projetos de seu
empregador, Lenny se vê obrigado a retornar a Nova York e a
realidade de seu país, mas sem esquecer Eunice, a convida para vir
morar com ele, resta agora ao pertenço casal, tentar se entender e
adaptar-se, não só ao mundo em sua volta que desmorona frente a
violência e ignorância, mas um ao outro, tão diferentes pela
origem, idade e pontos de vista.
Como disse acima, o livro me
ganhou em suas primeiras páginas, sei que é suspeito vindo de uma
pessoa que se confessa fã de ficção científica e distopias sempre
que tem oportunidade, mas o fato é que "Uma história de amor
real e supertriste" mexeu comigo por apresentar um cenário
assustador, personagens profundos e com motivações bem claras e
conseguir dar atenção tanto ao mundo catastrófico que serve de
palco para a história, quanto nos passar a evolução desses mesmos
personagens no decorrer da leitura, seguindo a cartilha da boa ficção
científica que está além da apresentação de tecnologias ou
especulação de um futuro, mas na apresentação do impacto que
todas as mudanças que podem ocorrer no mundo, podem causar na vida
das pessoas e isso, esse livro faz com qualidade.
Um fator que achei importante
no livro, e que conecta ainda mais o leitor a história, é o fato
desta ser escrita em primeira pessoa, apresentando os pontos de vista
do casal em capítulos que se alternam entre o diário de Lenny, que
escreve para desabafar e se planejar, e, as mensagens de Eunice no
"Globalteens" a rede social da época, que teima em dar
dicas sobre como agradar os garotos e frisar que fotos e vídeos são
mais interessantes do que textos. Esse clima íntimo nos coloca como
cúmplices de seus pecados e frustrações, revelando também o
choque de gerações que existe entre ambos, ele mais velho quase
quinze anos, barrigudo e ficando careca, totalmente fora dos padrões
de beleza e estilo vigentes em uma sociedade toda voltada para os
jovens e seus hábitos fitness, e ela, o retrato de sua geração,
extremamente magra, irônica e consumista, não desgrudando de seu
"Apparat", por onde faz compras, conversa com amigos e
família, faz "Streams" e ranquei as pessoas que a cercam
por seus níveis de beleza, sensualidade e "fodabilidade",
mas ambos demonstrando, através de seus depoimentos, o peso de se
viver em uma sociedade vazia de valores e voltada para a aparência.
Essa mesma sociedade, que
serve como pano de fundo da história de amor de Lenny e Eunice, é a
parte mais fantástica do livro. O vazio e amargo futuro imaginado
por Shteyngart, consegue ser original, extremamente real e ao mesmo
tempo homenagear os clássicos sem os imitar, nos entregando uma
sociedade que é um amalgama das duas distopias mais famosas de todos
os tempos, "1984" e "Admirável mundo novo", com
o tempero ácido dos dias de hoje, onde temos tanques nas ruas,
violência do estado, pessoas vistas como descartáveis, ao mesmo
tempo em que a sociedade é alienadas em seu mundo de prazer virtual,
ignorando a cultura mais crítica e em especial a literatura
(chegando a dizer que livros fedem e que é preferível que não se
tenha contato) e o sexo é algo tão banalizado que a protagonista
chega a fazer menção a uma amiga sobre uma atriz pornô que elas
assistiam quando estavam no jardim de infância!! Uma mistura
pontual entre repressão violenta e descaso total presentes
separadamente nos dois clássicos, fatos que são somados à
dependência pelas mídias sociais e tecnologias, tão presente em
nosso cotidiano e que no livro é personifica no onipresente Apparat,
o elemento que desempenha um papel de destaque por pautar o estilo de
vida das pessoas e as ranqueando dentro da sociedade.
Gary Shteyngart
Esse "Aparat", que
representa a evolução da forma atual de nossa própria sociedade
interagir, parece demonstrar a qualidade e impacto da história
contada pelo autor dentro da própria cultura pop, ao lembrar
bastante o modo de utilização do aparelho visto no primeiro
episódio da terceira temporada da aclamada série "BlackMirror", onde temos uma sociedade tão vaidosa e vazia como a
presente no livro de Gary Shteyngar, que embora não sofra dos mesmos
problemas sociais (pelo menos, não dentro do arco que o episódio
mostra) também é toda baseada na ideia que o próximo tem de cada
um e no ranking de seus cidadãos para o crescimento social.
Somado ao onipresente Apparat,
Shteyngart ainda imagina uma divisão empresarial que entrega aos
poucos cidadãos de alto nível financeiro a possibilidade de viver
para sempre, através da utilização de nano robôs, dentre outras
coisas, que manipulam a saúde dos clientes da "Wapachung",
empresa de Joshie Goldmann, patrão de Lenny e que por principio age
de encontro a toda situação em que se encontra a grande maioria da
população, que luta para sobreviver, em um mundo onde a escassez é
a lei e quem não possui dinheiro tem de se esconder dos postes de
crédito para não correr o risco de ser deportado ou mesmo morto,
frisando assim o egocentrismo e falta de empatia presente naquele
mundo.
Os motivos para se ler "Uma
história de amor real e supertriste " são muitos; sua
narrativa cúmplice, seu universo deprimente e extremamente real e
seus personagens bem explorados, tudo parece colaborar para que a
obra de Gary Shteyngar seja muito mais do só mais um livro na
estante, mas como eu disse no inicio, o que me fez encontrar esse
livro é o fato de que ele reflete com intensidade o momento atual de
nosso mundo e isso o torna extremamente relevante para todos, que
assim como eu, enxergam nuvens negras se aproximando no horizonte.
Meu gosto por ficção
científica nasceu da vontade de enxergar através da visão dos
outros como poderia ser o futuro, por esse motivo, sempre preferi
autores que me entregassem mundos que fossem uma evolução do nosso
em algum sentido, seja introduzindo a inteligência artificial como
algo normal e corriqueiro, seja nos apresentando uma sociedade
dividida em grupos, ou mesmo mostrando aonde os absurdos que o
extremismo pode acabar nos levando. Mas nesse meu desejo de olhar
para frente, acabei dando pouca atenção para obras de escritores
que foram responsáveis por, além de fundamentar o gênero e
inspirar muitas outras histórias e produções, falar diretamente
com seu tempo e mostrar pioneirismo em utilizar muitos conceitos
abordados até hoje. Um desses autores, foi H.G Wells, a mente
criativa responsável por obras como "A máquina do tempo",
"O Homem invisível", "A guerra dos mundos" e "A
ilha do Dr.Moreau", livro de 1896, que li recentemente e que me
surpreendeu por abordar, além das questões relativas a ciência da
época, muito sobre ética, religião e filosofia, reabrindo meus
olhos sobre a necessidade de se conhecer os clássicos.
"A ilha do Dr. Moreau"
conta a história de Prendick, um náufrago sobrevivente do navio
Senhora Altiva, que é resgatado em auto mar e levado, pelo médico
Montgomery, que alugava a embarcação que o salvou para transportar
animais, para uma ilha vulcânica no pacífico. Nessa Ilha, ele
conhece o Dr. Moreau, um cientista que usa o lugar como laboratório
de suas misteriosas experiências. Conforme os dias vão passando,
todo mistério presente naquela porção de terra isolada vai se
esclarecendo e Prendick descobre que Moreau e Montgomery, na busca por
humanizar animais, utilizando experiências de Vivissecção e
hipnose, criaram uma assustadora sociedade de seres disformes, meio
homens e meio animais, com leis e religião própria. Mas será que
os esforços dos cientistas serão o bastante para que os
homens-animais consigam ignorar sua natureza inata?
Quando comecei a ler o livro
tinha a sensação de que a história tinha pouco de novidade, como
se eu já tivesse encontrado tudo que o autor queria me passar em
outras obras, sem perceber que essa sensação era originada
justamente da influência de H.G Wells na cultura pop. Isso me veio
a mente ao lembrar que meu primeiro contato com esse livro, foi a
adaptação para o cinema lançada em 1996, exatamente cem anos após
a primeira publicação da história, sendo que esta foi a terceira
produção áudio-visual baseada na obra, antes foram lançados outro
filme homônimo em 1977 e "A ilha das almas selvagens", em
1932; só após perceber isso e buscar ler o livro com olhos da
época, assim compreendendo que o que o escritor entregava era algo
original e pioneiro, pude apreciar toda criatividade e visão do
autor, mergulhando em um universo que, mesmo datado no que tange a
muito que ele aborda como ciência (a final, o livro tem mais de 120
anos), apresenta conceitos presentes até hoje na ficção e
discussões sociais interessantes que deixam claro porque Wells se
tornou um dos maiores nomes da ficção científica da história.
Homem-Leopardo (filme de 1996)
O que mais chamou minha
atenção no livro foi a questão social que a história aborda. A
obra trás todo um paralelo impossível de se ignorar sobre a ideia
de superioridade que muitos povos, no decorrer dos tempos,
acreditavam possuir, assim como a violência de se impor os costumes
e ideais sobre quem se encontra sob o julgo destes povos. Os homens
animais que vivem na ilha, são forçados a ignorar sua natureza,
cumprindo regras impostas que não lhes permitem caçar ou consumir
carne, andar de quatro patas e não sugar a água com a língua, em
resumo, eles não podem ser o que são por contrariarem as ideias que
Moroe tem de sociedade, mesmo o doutor e seu associado representando
uma minoria na ilha e sendo eles próprios desprezados pela sociedade
que usam como base por ignorar a ética em suas experiências, uma
evidente representação da opressão colonizadora européia do
século XIX. O próprio choque com os costumes e aparência dos
nativos da ilha, que se torna frequente na narrativa do protagonista,
corrobora para a visão de superioridade social que parece ser
parodiada diretamente do contexto histórico inglês, sociedade a
qual o escritor pertencia e que na época da publicação do livro,
se encontrava dominando lugares tidos como exóticos, como a índia
e Hong-kong, onde impunham suas maneiras,cultura e mesmo a religião.
Falando em religião, o uso da
mesma como ferramenta de dominação é outra parte muito
interessante da trama. Na história, o autor traz como regulador dos
desejos e instintos da sociedade da ilha uma série de leis que,
somadas a superioridade intelectual e de personalidade dos
cientistas, atuam como uma religião para os homens animais, impondo
limites a seus instintos primitivos mesmo quando as criaturas se
encontram longe dos olhos de seus criadores e fornecendo a esses,
status de deuses imortais e de poderes absolutos de vida e de morte
dentro daquela sociedade, sendo, ao grupo das criaturas, reservado o
destino de servos e escravos passivos, temerosos de um castigo
proveniente de qualquer deslize.
A hiena entre outros (filme de 1996)
Um fato que não me agradou
muito no livro é a forma descritiva que o autor faz de todos
pormenores que o protogonista encontra na ilha. Fora os animais
humanizados, que são o tema central da trama e que refletem as
experiências nada éticas do cientista que tem seu nome estampado no
título do livro, descrever todos detalhes da ilha, incluindo como se
forma sua costa, o tipo de terreno e vegetação, parece uma forma de
enxerto para estender a história e por vezes isso cansa; essa forma
detalhista era bastante utilizada em muitos textos da época e até um
pouco depois, como visto em "Senhor dos anéis", onde
Tolkien chega a falar do formatos das folhas das árvores, mas ,
embora não prejudique a leitura em si, ou atrapalhe a reflexão
sobre o tema central, quebra bastante o ritmo de quem está
acostumado as dinâmicas tramas modernas.
No entanto, mesmo com uma
variação no ritmo, "A ilha do Dr. Moreau" se apresenta
como um livro obrigatório para quem é fã de ficção científica,
do mesmo modo que toda obra de Wells. Consegue se sustentar e
entregar uma história divertida e por vezes assustadora, onde,
embora pareça datada por utilizar conceitos de ciência biológicas
do século XIX, é bastante atual quando trata de ciências sociais,
batendo em pontos que até hoje são abordados, como opressão
cultural, o poder da religião e a ética científica. Uma aula de
como utilizar a ficção para desconstruir a sociedade onde
vivemos, me fez reabrir os olhos para os clássicos e perceber que
não há visão de futuro, se não observarmos com certa reverência
o passado que o moldou.