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domingo, 26 de agosto de 2018

"ZULU" - O livro de Caryl Férey








     Os vilões sempre vencem! Essa frase, que se lê como easter egg em alguns episódios da primeira temporada da série “Mr.Robot”, foi a primeira coisa que passou na minha cabeça ao terminar um dos melhores romances policiais que já li até os dias de hoje, isso depois de desfazer o nó de minha garganta e contemplar o horizonte por alguns longos minutos.

   Estou falando do livro “ZULU” do escritor francês Caryl Férey, publicado no Brasil pela editora Vestígio, que tive a sorte de encontrar por acidente em uma prateleira de supermercado enquanto esperava entediado para ser atendido pelo caixa e que me apresentou uma trama tensa e pesada, com personagens carismáticos e tridimensionais, ambientada em uma país dividido por feridas do passado e a dura realidade desigual do presente que me prendeu com a garganta seca e o coração acelerado até a última linha.

  
A História, que é ambientada na tumultuada África do Sul pré-copa 2010, acompanha a equipe liderada pelo chefe da polícia criminal de Cape Town, de origem zulu, Ali Neuman, que é composta pelo jovem detetive Dan Fletcher e o complicado Tenente Brian Epkeen. A Rotina dos três, já conturbada devido a incessante violência, se complica quando a filha de um renomado jogador de rugby é encontrada morta com aterradores sinais de violência e traços de uma nova droga em seu organismo, a partir daí os três embarcam em uma odisseia que vai revelando uma conspiração tão assustadora quanto crível e que, conforme vai empilhando corpos enquanto nos conta uma história tão profunda quanto forte, entrega um olhar perturbador de um país que, tal como o nosso, é marcado pelas desigualdades e contradições.

   A primeira coisa que chamou minha atenção no livro foi a forma primorosa como o autor consegue nos colocar dentro do ambiente e das situações que vão se seguindo. Através de uma escrita ágil, mas extremamente detalhista, Caryl Féry nos leva a uma África do sul sem maquiagem, com as cicatrizes do apartheid à mostra e com todos seus problemas sociais expostos, no meio de um caos que a história só faz crescer enquanto ao mesmo tempo consegue abordar o que à de pior e de melhor nos seres humanos, em um estilo que fica bem centralizado entre um George R.R. Martin e a profundidade cinza de seus heróis / vilões e o charme e brutalidade dos detetives dos livros de James Ellroy.

    Esses mesmos personagens que, para mim, quando bem escritos são o segredo da qualidade de qualquer grande obra literária ou cinematográfica, são a segunda coisa que me fisgou no livro. E a maneira como o autor dá um mínimo de profundidade a todos eles, os apresentando em pequenos capítulos que dão uma ideia geral de sua personalidade e seus motivos, quando não contando mesmo suas biografias e o que aconteceu para que eles tivessem chegado até aquele momento da história, facilita essa percepção de relevância de cada um deles. É assim que conhecemos o terrível passado de Ali Neuman, sobrevivente dos últimos dias de Apartheid e que presenciou o assassinato do próprio pai e do irmão mais velho; Do mesmo modo descobrimos sobre as origens africânderes do rebelde Tenente Epkeen, de seu desprezo pelo sistema e relação conturbada com o filho e a ex-mulher, essa mesma tendo um grande destaque na última parte do livro; Ou ainda nos emocionamos com a relação do policial Dan Fletcher com sua esposa com câncer e o medo de deixar seus filhos desamparados; tudo isso em meio a outras tantas histórias e personagens que compõem a trama. Férey descreve tão bem esses personagens que mesmo antes de terminar a primeira parte do livro já fomos pegos nessa armadilha que acabamos nos sentindo tão íntimos deles que sentimos seus medos, nos entristecemos com suas frustrações e tememos por suas seguranças a qualquer sinal de ameaça.

  
O Autor
E Ameaças é o que não faltam em um país que, assim como o Brasil de 2018, parece uma bomba prestes a explodir. São gangues de ex-milicianos oriundo do coração da África, traficantes que se escondem em seus bares particulares e nas favelas, a AIDS, a falta de perspectiva, mas é no grande mercado (sem spoiler) que reside o grande antagonista à equipe de Ali e que, assim como em muitas situações da vida, ao final do livro, deixa aquele gosto amargo em nossa boca quando percebemos que, mesmo presos ou mortos os assassinos e envolvidos, o mal que gerou todas aquelas situações e precisou de tantos sacrifícios para ser freado, jamais será levado à justiça, nos deixando apenas o consolo da vingança contra seus agentes mais próximos e tristeza por quem buscou justiça e caiu em batalha.

    Mas mesmo terminando com um soco no estômago, a ponto de colocar um nó na minha garganta e um amargo na boca por todos os sacrifícios feitos pelos personagens (em especial ao final da primeira parte e do último capítulo), a leitura de “Zulu” me proporcionou uma grande prazer. Por seus personagens humanos e realistas, a Trama investigativa extremamente inteligente e clima de reflexão social pertinente e assustadora (e que, em alguns aspectos, lembra muito nosso país) indico a todos que desejarem uma história cheia de reviravoltas e que estejam dispostos a ir até aos esconderijos mais sombrios e sujos da mente humana, mas sempre com a verdade em mente de que os vilões sempre vencem.



quinta-feira, 10 de maio de 2018

THE TERROR (2018) - A série




    19 de Maio de 1845. O Terror e o Erebus, dois dos navios mais bem equipados da marinha Britânica, partiam da Europa em direção ao circulo polar ártico na intenção de descobrir a tão sonhada “passagem do Noroeste”, uma rota navegável que ligaria o atlântico norte ao oceano pacífico, facilitando a busca de especiaria e o comércio com o Oriente. Tendo o experiente explorador Sir John Franklin, veterano de outras três missões ao continente gelado, como comandante da expedição e como capitão do HMS Terror, Francis Krozier, do HMS Erebus, James Fritzjames e possuindo uma tripulação conjunta de cento e trinta homens, ambos os navios foram avistados por barcos baleeiros na bahia de Baffin em Julho do mesmo ano, aguardando o melhor clima para adentrar o labirinto gelado do mar do polo norte, depois daquele dia ambos navios e seus tripulantes, nunca mais foram vistos.

   Inspirado nessa assustadora e fascinante história real, o escritor americano Dan Simmons publicava em 2007 o livro “O Terror”, misturando as mais recentes descobertas sobre o possível trágico destino dos marinheiros ingleses com uma assustadora trama sobrenatural que transita entre a misteriosa mitologia Inuit e os limites da mente humana levada ao extremo em uma situação desesperadora. O livro não passou despercebido e, com a produção de Ridley Scott e contando no elenco com atores como Jared Harris, Tobias Menzies e Ciarán Hinds chegou ao canal AMC este ano, sua a adaptação televisiva , trazendo para TV um terror sutil e envolvente por sua estranheza, que apresenta uma dezena de personagens e pontos de vista e que presta uma terrível homenagem a um dos maiores mistérios do século XIX, em uma das melhores coisas que assisti nesse primeiro semestre de 2018.

 
Jared Harris (esq) e o verdadeiro Krozier em foto de 1845 (dir)
A Série é protagonizada pelo capitão Franscis Krozier (Jared Harris), que amargurado por uma rejeição amorosa, parte para o ártico no comando do navio HMS Terror, sendo acompanhado de perto pelo navio HMS Erebus, de onde Sir John Franklin (Ciarán Hinds), tio e tutor da mulher que o desprezou, comanda a expedição mais ousada da marinha da rainha Vitória. No entanto, a pouca sorte na vida íntima se apresentará como o menor dos problemas do capitão Krozier, quando poucos meses após adentrar o ártico ambos os navios acabam presos no gelo, dando aos marinheiros a paciência pela espera do degelo como única alternativa, o que começa a se complicar quando uma equipe que procurava sinais de descongelamento longe dos navios acaba baleando por engano um misterioso xamã esquimó que atravessava o deserto de gelo junto com sua filha. A partir desse dia, uma maldição parece subir a bordo, com os marinheiros se vendo vítimas de envenenamento por chumbo, tendo seu estoque de comida destruído e sendo caçados por uma estranha criatura sobrenatural, que embora lembre um gigantesco urso polar, parece raciocinar e planejar dar cabo da tripulação. Todas essas situações vão insuflar o caos, o amotinamento e a total selvageria entre a tripulação, sobrando ao capitão Krozier e alguns de seus aliados, a tarefa de buscar sobreviver em meio ao pesadelo gelado onde ficarão presos por mais de três anos.

    Que série fantástica! Fugindo do convencional e transportando o expectador para uma trama que especula sobre um mistério de mais de 170 anos temperado com doses certas de suspense e sobrenatural, “O Terror” faz jus ao nome e apresenta uma história com momentos que flutuam entre a construção de tensão de um Stephen King e a loucura que a estranheza total, no melhor espirito Lovecraftiano, pode causar. 

   No tocante a construção da tensão e todo estranhamento que a série possui, a direção e produção se destacam por escolhas que parecem prender ainda mais quem assiste frente a TV. A vasta paisagem branca e gelada, quase sempre contendo apenas o som do vento como complemento, quando não uma música com notas destoantes que consegue transmitir ares de solidão ao mesmo tempo em que se assemelha a um sonho, são tão essenciais na série quanto suas dezenas de personagens que, com destaque no que vemos ou apenas como pontas, nos indicam todas as facetas da situação.

  
Tobias Menzies (esq) e o verdadeiro FritzJames (dir) foto de 1845
Dentre esses personagens, vale a pena destacar alguns que, junto com o Capitão Krozier, Capitão Fritzjames e Sir John Franklin, marcam outros núcleos e encabeçam questões que vão movendo a trama. Dentre os de maior destaque temos o tímido assistente de cirurgião Henry Goodsir (Paul Ready), que em meio ao caos e barbárie que vai crescendo é uma das poucas pessoas que tenta fazer os companheiros ouvir a voz da razão, assim como é quem investiga as causas dos males de saúde que começam a aparecer entre os exploradores, sem dizer que é ele que contando apenas de paciência e empatia, vai buscar aprender a falar a língua dos esquimós para tentar encontrar respostas da misteriosa Lady Silence, a filha do Xamã que é morto por acidente. Essa, por sua vez nos conecta com a mitologia Inuit e o sobrenatural, nos entregando lentamente que por trás daquela sequência de problemas que os tripulantes dos navios vão enfrentando, há uma verdade que vai além da compreensão mundana.

    Mundano, talvez seja a palavra que melhor defina o vilão da trama. Cornelius Hickey (ou seja lá quem ele é realmente) não parece não possuir escrúpulos para sobreviver e é capaz de queimar seus próprios companheiros como combustível se isso significa sobreviver. Ele surge discreto e, tal qual a trama, vai crescendo e ganhando força ao liderar o motim que divide a tripulação e, seu cinismo e violência tomam tamanha proporção, que ao final dos dez capítulos fica difícil de saber se o verdadeiro monstro a ser temido é o Tuunbaq (a criatura que persegue os marinheiros) ou o próprio marinheiro Hickey.

    
Ciarán Hinds (esqu) e Sir John Franklin (foto 1845)
Mas nem tudo é perfeito em “O Terror”. Por resumir um livro de mais de 700 páginas em uma série de dez episódios, muito do aprofundamento da relação dos personagens fica parecendo vago e parece que algo nos escapou. Um exemplo é a estranha relação entre o médico Dr. McDonald com um dos marinheiros do Erebus, que remete a um caso amoroso, mas que não fica bem claro. Do mesmo modo que não fica claro o exato momento que, já sem alimentos e tendo de abandonar os navios, o grupo que acompanha Cornelius Hickey aceita, sem discutir de forma mais ampla, consumir a carne dos companheiros mortos, ou a medida exata em que o Tuunbaq é racional e qual sua verdadeira relação com lady Silence. Mas ao final, até essas pontas soltas ajudam a tornar mais densa a sensação de mistério que a produção traz.

     
Presos no gelo
Mas apesar de seus problemas no aproveitamento total dos personagens e suas relações, “O terror” foi uma das melhores séries que assisti nesse inicio de ano. Sua produção é lindíssima e a sua trama fascinante, principalmente ao lembrar que parte dessa história terrível é real, com a descoberta de que problemas com a solda dos enlatados da expedição permitiram que a comida estragasse antes do tempo e que, com base na necropsia de três corpos da tripulação, encontrados enterrados na ilha canadense de Beechey , houve realmente um envenenamento por chumbo, além de os marinheiros sofrerem com o Escorbuto e a tuberculose; a tradição esquimó da região conta história de luta entre tripulantes e atos de canibalismo sendo que apenas em 2016 (quase dez anos depois do lançamento do livro) os restos dos navios foram encontrados no mar canadense, encerrando um mistério de mais de cento e setenta anos, mas não as circunstâncias e o que realmente aconteceu com a tripulação da expedição de John Franklin.

   Então se quiser algo diferente para assistir, que transite entre o real e o sobre natural, com uma produção caprichada e boas atuações, além de uma história que te prende; embarque no Terror e também se perca na imensidão gelada do desespero humano. Garanto que você não se arrependerá.




terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

KINDRED - LAÇOS DE SANGUE (de OCTAVIA E. BUTLER)




     Se não enxergarmos o que é tido como diferente presente em todas as áreas da sociedade o encararemos como um erro, onde apenas a bolha onde vivemos será percebida por nós como verdade absoluta; por isso eu digo: Representatividade é tudo!

   Mas não é a simples presença física de pessoas de diferentes cores, opções sexuais ou religião que garante o rompimento da bolha onde nos incluímos, mas a possibilidade de se criar empatia a ponto de nos reconhecermos nas pessoas de aparência e opções diferentes de nós mesmos e nisso, a cultura como um todo tem um papel essencial, mas em especial o cinema e a literatura em suas facetas tidas como pop. Tudo isso talvez seja  uma verdade quase intuitiva, mas que ficou mais clara para mim, quando me deparei com uma obra de sci-fi clássica, que utilizando de clichês de ficção científica e fantasia, me entregou uma mensagem poderosa sobre os males que o preconceito cristalizou em nossa sociedade, em uma trama fruto da mente de uma pessoa que viveu muitos desses males.

    Pois hoje falarei (muito por cima) dessa obra, ou melhor, desse livro que se enquadra perfeitamente no seleto grupo dos “rompedores de bolha” e que me conquistou desde seu prólogo. Trata-se de “Kindred - Laços de Sangue”, um clássico da escritora afro-americana Octavia E. Bluter, que depois de quase quarenta anos de seu lançamento original, finalmente chega o Brasil pela editora Morro branco, me prendendo em suas páginas não só pela sua mensagem dura mas necessária, quanto por sua escrita refinada e ágil.

  
   O livro conta a história de Dana, uma escritora, que após se mudar com o marido Kevin (também escritor), para a casa nova, se vê vítima de um misterioso fenômeno de viagem temporal, retornando para a Baltimore escravagista pré-guerra civil americana, uma época nada fácil para uma mulher negra como ela (principalmente uma que possua educação e espírito). Conforme o fenômeno vai se repetindo Dana descobre que o mesmo é fruto de uma misteriosa ligação com um antepassado, seu tataravô Rufus Weylin, filho de um proprietário de escravos, que quando sente sua vida ameaçada a invoca para que essa o ajude. Além do estranhamento da situação, Dana viverá o dilema de ter que defender seu antepassado, que é fruto da época de abusos onde nasceu, para que ela mesma tenha seu nascimento assegurado, enquanto é obrigada a testemunhar a abertura da feriada que a escravidão causou e que o preconceito e a ignorância não deixaram cicatrizar até os nossos dias.
  
      Esse livro me causou inúmeras sensações, a maior foi a da descoberta de Octavia E. Bluter e todo seu talento. A autora, não vulgarmente chamada de A grande dama da ficção científica, realmente me impressionou com sua forma de escrever limpa e pé no chão (e em um livro de sci-fi!), conseguindo transmitir não só toda a dor do período escravagista de maneira sutil, como a própria aflição de seus personagens negros do século XIX, que transitam no livro como não pessoas, posses de outros e fadados a passar o resto de seus dias contendo seus sentimentos e indignações; mas também, nos entregado na sub-trama, a cicatriz social que a  escravidão deixou ao apresentar no tempo atual (1976) uma mulher negra  casada com um homem branco (Dana e Kevin), que sofrem o desprezo de suas famílias devido a esse casamento, ainda nada comum nos EUA dos anos mil novecentos e setenta, indicando, sem precisar escrever nada que aprofunde a situação, a marca de um racismo, mais velado do que explicito, que continua presente até os dias de hoje; sem falar da maneira totalmente realista que a autora descreve o relacionamento e rotina do casal, nos tornando cúmplice de seus segredos e testemunha de seus sentimentos.

     A leitura também me fez refletir quanto a pouca quantidade de autores não-brancos e não-masculinos que eu posso dizer que li e o que eu perdi com isso. Fora os clássicos como Machado de Assis ou Alexandre Dumas e “Batle Royale” de Kouachum Takami, quase todos livros da minha lista são de Europeus ou Euro-americanos e no que se trata de mulheres não é muito diferente, mulheres negras então, não havia nenhuma. Octavia E. Bluter veio para mudar isso ao se apresentar para mim, como um desses autores que quando terminamos de ler uma de suas obras, sentimos vontade de ler todas, nos induzindo à representatividade através do puro talento.

    A história da autora e a consciência da sociedade onde vivia e que lembra um pouco como enxergo a nossa, sem contar o fato de, pela primeira vez, tive a oportunidade de ter contato com uma obra de ficção científica escrita por uma pessoa da mesma etnia que eu, realmente me tocou, pois como disse no início, representatividade é tudo! Mas esse fato sobre “Kindred” que é importante para mim e para poucos, se encontra além do livro, dentro dele há uma história de drama e aventura, desenvolvida de maneira magistral que fala sobre como somos adestrados para aceitar os abusos e não perceber muitos de nossos próprios privilégios. Isso acontece através da relação de Dana e Rufus, a primeira uma mulher negra educada e culta do século XX, se vendo exposta a todo tipo de violência do período da escravidão e que vai se quebrando frente a esse novo mundo; o outro, uma figura do século XIX, que, conforme Dana vai retornando no tempo e acompanhando seu crescimento, vai se corrompendo e se mostrando cada vez mais consciente de seu papel.

     
Octavia E. Butler (1947-2006)
 
É por meio de Dana e Rufus, e suas interações com as pessoas em sua volta e como estas relações vão mudando com o tempo, que a autora nos demonstra a força que o mundo que nos rodeia tem sobre nós. A relação com o poder é inversamente proporcional no que tange aos dois personagens e, enquanto Dana vai se acostumando com as ordens, por mais que se convença de que é para o bem de seus antepassados e seu próprio, se quebrando no processo, ao ponto de terminar o livro transformada em outra pessoa; Rufus vai se acostumando com sua posição de poder e privilégio e mudando de um menino compreensivo e sensível, para um adulto egoísta, que não enxerga as pessoas diferentes dele como outros seres humanos e se vê como superior. O Alvo desse egoísmo e que acaba se tornando um dilema para o próprio Rufus é, Alice, uma filha de escravos, que ele nutre uma paixão desde jovem e cuja relação se equilibra entre sentimento verdadeiro e coisificação; Alice também acaba por sofrer devido a influência de Dana, que sabendo que descende desta com Ruffus, ajuda o mesmo a conseguir o que ele deseja, transcrevendo a amarga existência de um indivíduo que é desumanizado sem chance de ser ouvido ou ter opção, restando o final nada feliz para Alice e a Justiça (ou vingança) para Rufus.

    A Autora ainda inclui, em uma das regressões no tempo, a presença do marido da protagonista, que serve como “olhos brancos bem intencionados”, que enxergam as barbaridades da época e se indigna, mas, por não possuir a mesma ligação com a situação que a protagonista, acredita que as coisas poderiam ser ainda pior. De forma genial, Kevin está lá para representar os brancos que são despidos de preconceito (e ele faz isso se pondo em risco muitas vezes), mas não possuem a mesma história de vida de quem sofreu o preconceito na pele; algo tão comum como o próprio preconceito e que, no livro, deixa profundas cicatrizes ao personagem quando este volta para seu tempo natal.

     Eu poderia falar durante páginas e mais páginas sobre “Kindred”, mas preferi não me aprofundar mais para não acabar com a experiência de ninguém, o que posso dizer  é que este é um livro essencial para quem é, além de fã de fantasia e ficção científica, amante da literatura. Uma obra de escrita ágil, personagens fortes e marcantes, questões amplamente relevantes e que ainda hoje são debatidas. Fruto de uma mente a frente de seu tempo, que usando os conceitos Pop levou a todos um retrato da ferida que legitimou o preconceito racial nos EUA (e no mundo), assim como, por meio de seus personagens, mostra a facilidade de se quebrar frente ao poder, ou não enxergar seus privilégios. Um livro que me fez sentir mais do que satisfeito, como me presenteou com outro autor para ler toda obra; uma mulher que, depois de 424 páginas, posso dizer que me representa na ficção científica e como bem se sabe, representatividade é tudo!




quinta-feira, 12 de outubro de 2017

"GUERRA DO VELHO" de John Scalzi

   


    A vida é uma guerra onde, ano após ano, vamos sendo expostos a todo tipo de atrocidades e frustrações. É nela onde criamos laços com outros como nós, mas logo nos habituamos a perdê-los e, se temos sorte, chegamos ao final da última batalha com boas histórias, alguns arrependimentos e muita saudade. Mas, e se aos setenta e cinco anos, tivéssemos uma nova chance de começar do zero, nos atirando as cegas em uma viagem sem volta, onde a única certeza é uma nova vida com muito mais aventura e violência, você toparia?
     O “E porque não?!” para essa questão, é o que dá início a trama de  “guerra do Velho”, livro do escritor John Scalzi, publicado no Brasil pela editora Aleph e que, como uma rajada de MU-35, chegou para quebra meu hiato para falar sobre o que eu mais gosto: ficção científica.

    O livro conta a história de um futuro onde a raça humana chegou à era das viagens interestelares e passou a colonizar diversos planetas, tendo contato com outras civilizações, das quais muitas hostis. É nesse universo que conhecemos John Perry, um publicitário aposentado e viúvo de 75 anos, que se alista nas forças coloniais de defesa (FCD) e parte para o espaço em uma viagem sem retorno para defender nossas colônias, sem imaginar quantos terrores e maravilhas presenciaria após sua última decisão no planeta Terra.


   
Edição da Apleph
Gostei bastante do livro, mas tenho que confessar que minha primeira impressão da história foi negativa e se estendeu assim quase até a metade da trama. Algumas das coisas me desagradaram foram, as muitas semelhanças com “Tropas Estelares” de Robert A. Heinlein e a mentalidade extremamente aberta e “pra frentex” de senhoras e senhores de 75 anos, mas superei a primeira ao focar mais nas diferenças entre as histórias dos autores do que suas semelhanças e a segunda me colocando no exato lugar do protagonista e seu grupo de amigos, que receberam ao final da vida uma nova chance de se aventurar e conhecer coisas novas, em uma situação como esta, se apegar a preconceitos e costumes do passado, não melhoraria a vida nova de ninguém.

   Mas a coisa que mais me desagradou, foi o fato de que tudo acontecia de maneira extremamente perfeita para o protagonista; ele é o cara mais simpático e agradável do mundo e que acaba se cercando dos velhinhos mais bacanas, inteligentes e descolados já na viagem até a nave que os levará ao lugar de seu treinamento; após as melhorias nos corpos dos recrutas (das quais falaremos adiante) é ele quem pega a recruta mais gostosona, é ele quem vira o queridinho do sargento que os treina e que, por isso, é eleito líder de pelotão, é ele quem, em sua primeira batalha, descobre como vencer os inimigos mais perigosos das FCD, é tudo muito perfeito... Aí eu me toquei que o livro é narrado em primeira pessoa e que o protagonista é publicitário, ou seja, ele estava colocando um pouco de “tempero” em si mesmo para se vender como o maior herói que já existiu, em um detalhe tão sutil e brilhante de Scalzi, que mudou minha percepção da história após eu nota-lo.

   



Mas fora esses desagrados iniciais com o livro, “Guerra do Velho” apresenta conceitos muito bacanas e sua história vai crescendo em uma medida tão acertada, que se torna bem difícil para um fã de ficção científica se decepcionar com o que o autor apresentou ao final das trezentos e sessenta páginas. Para começar temos toda a ideia de tecnologia das FCD, começando com a resposta para, como alguém consegue lutar em uma guerra, após os 75 anos de idade? Pois bem, no universo do livro, a raça humana teve contato com outras raças a quase um século e com isso, acesso a muitas tecnologias que se tornaram segredos das colônias, uma dessas tecnologias, é a transferência de consciência e é isso que possibilita a ida dos recrutas à guerra.  Na história, quando se chega aos 65 anos de idade, a pessoa decide se quer fazer parte das FCD dez anos mais tarde e nisso, vários testes são realizados e amostra de sangue e pele retirados, o que os futuros soldados desconhecem (pois nenhum cidadão da terra sabe nada do que ocorre nas colônias) é que um novo corpo, repleto de alterações e melhorias, vai sendo maturado e deixado a sua espera, para quando este  resolver de uma vez sair de seu planeta natal. E o corpo é incrível! Com olhos de Gato para enxergar melhor na penumbra, com corpo na melhor forma atlética possível, com sangue que transporta mais oxigênio e coagula mais rápido para evitar hemorragia, um computador e assistente pessoal instalado no cérebro e uma pele verde rica em clorofila para ajudar a obtenção de energia.

   
Scalzi
 Mas o que mais me agradou foram os conceitos referentes aos alienígenas que as FCD vão de encontro para garantir a segurança dos colonos Terráqueos no universo. Os primeiros a aparecer em batalha e grandes rivais misteriosos da humanidade, são os aliens conhecidos como “Consus”, uma raça extremamente avançada e detentora de tecnologias infinitamente a frente das que aparecem no livro, mas que se limita a ir a campo de batalha com as armas no mesmo nível dos rivais que encontram. Sua aparência é descrita como semelhante a de um inseto meio humano, com quatro braços, sendo que os de cima são duas lâminas extremamente afiadas que eles também utilizam como arma e suas entradas nos planetas são sempre realizadas com rituais e cerimônias, tornando as intensões e razões desses inimigos misteriosas. Também temos os Covandus, seres humanoides de algumas polegadas, que conseguem um relativo sucesso contra a raça humana utilizando sua força aérea em miniatura, ou o misterioso fungo da colônia 622, uma entidade coletiva inteligente que dominava o planeta e que esperou o momento oportuno de atacar e matar todos os colonos adentrando pelas vias aéreas dos coitados e excretando ácido em seus pulmões, fato que faz com que a raça humana desista do planeta em questão, ou ainda os antropófagos Rraeys, criaturas de características que lembram aves e que enxergam na raça humana uma iguaria sem igual; são estes últimos os responsáveis pelo massacre do planeta Coral, o ponto de virada do livro e que dá início a uma sequência de batalhas e lutas que alavancam a trama com muita ação.


   Pois bem, Eu poderia escrever parágrafos e mais parágrafos sobre o livro, citando a relação do protagonista com seus amigos, seu crescimento dentro das FCD, explorando a possível ditadura e, quem sabe, distopia por de trás do governo colonial, ou simplesmente falando sobre as “Brigadas Fantasmas” o time de elite das FCD, mas como na maioria dos livros que resenho, não fiz questão de me aprofundar para que quem conhecer por aqui e se interessar pela obra, não tenha suas expectativas totalmente estragadas por esse texto. Deixo aqui só a certeza de que "Guerra do velho” é um livro divertido e que apresenta um universo extremamente interessante e para quem, assim como eu, se incomodar com um protagonista que não erra, digo para ter paciência; para quem enxergar semelhanças com outras obras, calma, há muito mais originalidade do que homenagens. Faça então como os recrutas da FCD e deixe de ser velho leia a obra de John Scalzi e mergulhe em uma viagem sem volta repleta de aventura, ação e violência, tal qual as batalhas da vida, mas com garantia de muito mais diversão do que frustrações.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

O OPOSITOR - de Luis Fernando Verissimo


Luis Fernando Verissimo sempre foi um dos meus cronistas preferidos. Lembro de quando eu era adolescente, pouco antes do "advento da internet" (como diria o arquiteto em Matrix), aguardava a coluna semanal do autor no Jornal Zero-Hora (aqui do RS), para me deliciar com sua escrita brilhante e divertida. Eu chegava a recortar suas melhores publicações e guardar dentro dos meus livros, para , sempre que me faltasse algo bacana para ler, voltar ao bom e velho Veríssimo. Então veio a vida adulta, cresceu meu interesse por ficção científica, os filmes e séries de super-heróis dominaram o mercado, a franquia Star Wars ressuscitou e por muito tempo deixei o autor de lado, com seus quatro livros que tenho, esquecidos na estante; até que no último domingo chuvoso e de internet vacilante, meu subconsciente, procurando algo que revertesse a sensação de tédio que eu sentia sentado o dia todo na frente da TV, colocou na minha mão "O opositor" obra de Veríssimo, integrante da coleção "cinco dedos de prosa" da editora Objetiva e, como uma epifania nascida da contemplação de uma obra da renascença, tudo que eu tinha ignorado com a distancia dos textos do autor, voltou a fazer sentido novamente.

O Opositor, conta a história de um repórter, que é designado por um jornal de São Paulo, para ir a amazônia fazer uma matéria especial sobre ervas típica e plantas alucinógenas. Pesquisando sobre o assunto em Manaus, ele acaba conhecendo Serena, uma especialista na flora amazônica, que possui a peculiaridade de ser meio Dinamarquesa e meio índia (meio a meio mesmo, com um lado do corpo moreno e o outro loiro) e não possuir os polegares; Serena lhe apresenta a uasca e oferece seu corpo e após dias de uma viagem de prazer e delírio, proporcionados pelo sexo e pelo alucinógeno, nosso repórter resolve relaxar em um bar e se refrescar com os sucos típicos da região. É quando conhece o Polaco, ou Josef, o míssil, um esfarrapado bêbado, de rosto vermelho e sotaque europeu, que vai lhe contando uma fantástica história de conspiração que envolve um grupo secreto que comando o mundo, uma misteriosa ceita que, interpretando os afrescos de Luca Signorelli, nega a evolução humana extirpando os polegares de seus seguidores; conta-lhe sobre a criação do vírus mais mortal da história por um desconhecido cientista Americano e sua caçada por parte dele, Josef, um "opositor" (assassino) para que todos os segredos permanecessem desconhecidos do mundo, até ali.

Esse livro, foi a primeira história mais longa que li do autor, e hoje, relendo, posso dizer que tive a mesma sensação de maravilhamento de quando o abri a primeira vez, em 2004. Verissimo consegue, de maneira simples, como é sua melhor característica, utilizando poucos elementos e personagens marcantes, entregar uma história extremamente divertida e reafirmar, mesmo com uma obra encomendada por uma coleção editorial, todo seu talento.


Pela facilidade como o autor escreve e sua capacidade de ser sucinto, sem deixar nada de fora, o livro é de leitura rápida, principalmente por ser composto de apenas cento e quarenta páginas. No entanto, seu tamanho enxuto não o torna menos relevante ou faz menos justiça a qualidade do autor, muito pelo contrário, nessas cento e quarenta páginas estão todos elementos típicos da escrita de Veríssimo, a começar pelo humor. Seus estilo debochado de contar a história e os elementos fantásticos e conspiratórios que ele introduz, alternam a experiência de quem lê de "engraçado" para "faz sentido" o tempo todo e as figuras exóticas que passam por sua história são tá fantásticas que bem poderiam ser reais, como a mestiça Serena, que é meio-a-meio índia e dinamarquesa, tendo em seu corpo seu equador particular e a frieza e calor de dois hemisférios distintos, ou o galante e erudito bêbado Polaco, portador de uma história fantástica e de dúvidas que deixa pairando na mente do protagonista quando a história se encerra, sem contar o comerciante Turco dono do bar, figura carimbada na literatura brasileira e do chefe arrogante de caricato do protagonista, todos muito reais, apesar de suas peculiaridades primorosas criados pelo autor.

Verissimo
O ar cinematográfico é outro elemento característico de Veríssimo e que não falta a esse livro. Tal qual a série de contos de Ed Mort, nessa história também temos um mistério que lembra de longe os antigos filmes de detetives, com uma investigação efetuada por um agente de uma agência secreta de assassinos, a caça de um misterioso cientista e que termina no meio da Floresta amazônica em um final dramático e repleto de ação, que não deixa nada devendo as teorias de conspiração mais bem elaboradas e que, se um dia os deuses do cinema, por sorte, tropeçarem nessa pequena obra, com certeza daria um ótimo filme, Talvez até, com Polaco sendo interpretado por Howard Something..Talvez!

Para finalizar, ainda temos as ferramentas narrativas que Verissimo utiliza para contar a história. Tal qual a embriaguez do Polaco ou a o estado de semi-torpor do protagonista causado pela a uasca, a história parece cambalear, fazer looping, como se entrasse a todo momento em uma espiral e voltássemos a falar novamente sobre os mesmo assuntos com atenção em outros detalhes. Assim, pelo ponto de vista de outros e comparando com os outros personagens, vamos tendo pistas de que as coisas que o Polaco vai contando não são tão absurdas e que a mente do protagonista está mais aberta para aceitar a verdade que ninguém mais quer, fazendo um link diretor entre a uasca, as ceitas Italianas, o Grupo secreto, a teoria da conspiração e os sucos de Manaus, de forma que a trama se fecha sem deixar nenhuma ponta solta, a não ser que aquelas cento e quarenta páginas se duplicasse, para podermos ler mais.

Pois bem, O Opositor é uma excelente diversão para uma tarde de domingo chuvosa. Um livro que, embora pequeno, trás todos elementos que transformaram Luis Fernando Veríssimo no grande escritor, e que é um achado que me iluminou nesse último final de semana, tanto que, despertou meu apetite e me fez separar outro livro do autor caso a chuva teime em não ir embora. Mas enquanto o fim de semana não chega, vou dar uma olhada nas ultimas colunas do autor e , quem sabe, recortar do jornal (ou colar em uma pasta no PC) suas melhores histórias, para ler, quando algo bacana para ler me faltar.




quinta-feira, 18 de maio de 2017

O HOMEM DUPLO ou um reflexo na escuridão (A Scanner Darkly) - de Philip K. Dick


No decorrer da minha vida de leitor, alguns livros ficaram marcados nas minhas lembranças quase como um amigo que viveu uma história única à meu lado e que por vezes tenho vontade de visitar para conversar sobre aqueles bons momentos. Um desses livros, é o fantástico "O Homem duplo", de Philip K. Dick, que tinha lido a quase dez anos e que tive o prazer de reler recentemente, me deixando novamente maravilhado pela história fantástica, de um mundo totalmente monitorado e tomado pelas drogas, mas onde Dick consegue com sua genialidade, em sua obra mais atual e madura, dar vida a seus personagens de uma maneira original e extremamente humana.

Capa da edição da Rocco
"O Homem duplo", como citado acima, se passa em um futuro onde o tráfico de drogas venceu e grande parte da população é formada por traficantes e usuários; a polícia monitora a todos que quiser e seus agentes trabalham em tamanho sigilo, que nem ao menos se conhecem, utilizando, quando presentes na delegacia, uma roupa holográfica que não permite suas identificações. Nesse mundo, somos apresentados a Fred um policial disfarçado e viciado na perigosa substância D, que é infiltrado, com o nome de Bob Arctor, entre um grupo de drogados e acaba com a missão de investigar a si mesmo. Carregando o peso de seus papéis contraditórios e vítima de seu vício e solidão, Fred/Bob Arctor passa a ter seguidas alucinações e dúvidas sobre sua vida, vindo a esquecer se ele é na verdade o traficante Bob, que deve ser vigiado, ou o policial Fred que deve prende-lo.


Não sei dizer se esse é o melhor livro do autor, afinal Dick escreveu mais de cinquenta obras e eu não tive o prazer de ler mais que dez delas; mas, dos que eu li, essa parece ser sua história mais madura e sensível. O motivo disso parece passar pelo fato que, assim como o protagonista, Philip K.Dick, também viveu experiências com drogas e, conforme a homenagem que faz ao final do livro, perdeu diversos amigos em decorrência do vício, isso faz com que o livro pareça ser escrito com muito mais sentimento e carinho que as demais obras do autor, onde a especulação e a sociedade parecem tomar a frente dos indivíduos. Em "O homem duplo" os personagens se destacam muito mais que o mundo que os cerca, sendo que somos informados sobre essa realidade, do mesmo modo que os superiores de Fred/Bob Arctor, através dos olhos de outras pessoas e essa maneira de nos mostrar o universo onde a história se desenrola, retira da trama todo maniqueísmo possível, fazendo com que não sobre espaço para vítimas ou algozes, apenas para pessoas, que assim como o protagonista, vivem múltiplos papéis, com todos seus erros, dúvidas e acertos, e, essa complexabilidade, transforma o livro em algo único e especial.



Mas mesmo que a sociedade onde a história acontece fique relegada ao plano de fundo da trama, conseguimos sentir a opressão e o caos controlado que dela emana, podendo classifica-la como uma forma de distopia. Nesse mundo de "O Homem duplo", onde as ruas são tomadas de traficantes e usuários, nem os próprios agentes estão imunes a vigilância intensa e a corrupção, acabando por viverem muito mais na zona marginal onde foram infiltrados, e se acostumando com essa realidade, do que tendo acesso aos benefícios dos que pagam o seus salários e recompensas, que é o grupo apelidado de "caretas". Esse grupo, que é composto pelas pessoas mais abastadas (ou menos ferradas), vive distante das realidades das ruas, ainda seguindo o modelo americano de vida e usufruindo de todas as garantias que sua posição permite. Essa divisão da sociedade, tendo os caretas como grupo dominante, é apresentada de maneira sutil pelo autor, mas marca a cisão social que coloca um pequeno grupo sobre o restante da população e isso fica exemplificado quando o protagonista se vê obrigado, já no início do livro, a palestrar (utilizando seu traje holográfico) para um grupo desses indivíduos em um club fechado e contar para eles o que vê diariamente nas rua, fato que inimaginável para eles; assim como quando, conversando entre si, os amigos de Bob especulam o que existe dentro de um shopping, um lugar onde pessoas do tipo deles jamais entrariam; isso vem a se somar ao fato de que na história, os caretas são sempre mencionados e nunca abordados ou presentes diretamente na trama, tudo que vemos se passa nas ruas, longe da elite, que fica inatingível para aqueles para os quais sobrou apenas o vício e o descarte como alternativa.


poster do filme
No entanto, tanto os personagens marcantes, quanto o universo onde eles existem, não passariam apenas de uma boa ideia, caso não fosse a maneira primorosa como o autor resolveu contar a história. Munido de uma narrativa que oscila entre o trágico e o cômico, Philip K. Dick, consegue ir além da sensação de estranheza e reflexão de seus textos, mas sem fugir da base de sua obra, construída em cima do "O que é real?", o que nunca foi tão bem abordado quanto nesse livro, onde nem mesmo o protagonista sabe quem realmente é. E essa confusão na mente de Bob Actor vai surgindo de forma quase imperceptível com a inclusão de frases em alemão no meio do texto, que são a manifestação dos sintomas do abuso de drogas no personagem, em que Dick utiliza trechos de "Fausto" de Goethe, uma história onde o herói busca enganar o diabo, para descrever, tanto o início da confusão mental do protagonista, como para indicar suas intenções e questionamentos subconscientes, pois afinal quem seria o diabo de Arctor? Os drogados e traficantes com quem ele convive? A sociedade policial que ele representa? Ou ele mesmo que transita entre esses dois mundos?

O livro ainda é repleto diálogos brilhantes e muito engraçados por parte dos amigos de Bob Arctor, que assim como os pequenos e fantásticos contos, que aparecem como "trips" devido ao uso de drogas pelos personagens, dão o tom de insanidade da trama e coroam o talento do autor. Dentre esses diálogos e contos, o que é mais marcante para mim é o da tentativa de suicídio de Charles Freck, onde desiludido com o mundo, um dos amigos de Arctor resolve tomar uma overdose regada a vinho barato e transformar seu sacrifício em um ato de protesto. Assim ele planeja ser encontrado em sua cama com um exemplar de "A nascente" de Ayn Rand, para demonstrar que era um super-homem incompreendido pelas massas e, uma carta de reclamação devido ao cancelamento de seu cartão de crédito, para culpar o sistema por sua morte; mas no último minuto ele resolve tomar a overdose com um vinho bom, compra um mondavi cabernet sauvignon e toma as pílulas com o vinho, fica esperando deitado e percebe depois que não se tratavam de barbitúricos, mas um psicodélico vagabundo, minutos depois ele vê ao lado de sua cama uma criatura extra dimensional cheia de olhos trazendo consigo um pergaminho com todos seus pecados, em sua trip, mil anos depois a criatura ainda lia seus pecados do jardim de infância, dez mil anos depois os da sexta série, Freck olha para criatura, meditando sobre o que estava acontecendo e pensa..."Pelo menos bebi vinho do bom!".

Freck em seu "Suicídio" no filme de 2006

Aliás, esse trecho de "O homem duplo" citado acima, que exemplifica o humor e talento do autor, foi o que me levou a procurar esse livro a dez anos atrás. Tudo devido a adaptação da história para o cinema em 2006, roteirizada e dirigida por Richard Linklater (diretor de Escola de Rock e Boyhood) onde a cena de Charles Freck é apresentada de forma idêntica a no livro e ainda com a vantagem de ser narrada com uma gravação do próprio Philip K. Dick, que quando assisti e me deixou boquiaberto. O filme, que é a adaptação mais fiel dentre as inúmeras histórias do autor que foram levadas para o cinema, contou com um elenco de peso, que além de Keanu Reeves, como Bob Arctor/Fred, tinha Robert Downey Jr, como Jim Barris, Woody Harrelson, como Luckman e Winona Ryder, como Donna e, se tornou famoso, ao utilizar uma técnica de pós produção que aplica uma pintura ao filme, dando a ele a aparência de animação, fato que o diretor afirmou ter inserido para causar uma sensação, a quem assistisse ao filme, semelhante a de como um usuário de LSD percebe o mundo durante uma viagem de drogas.

Capa da edição da aleph
Assim como o sua adaptação cinematográfica, o livo, apresenta muito pouca tecnologia futurista envolvida na trama, tendo em vista que é uma história de ficção científica e escrita por PKD, o mestre em criar aparelhos malucos com nomes estranhos. Claro que ainda existem os "Scanners em cubo 3D" e os "Cefscópios", mas esses equipamentos estão ali só para lembrar que a trama se passa no futuro e, a decisão de deixar mais essa questão como pano de fundo, contribui para a maturidade do livro, que citei no inicio do texto e acaba por coroar o autor, que tanto se empenhou em imaginar o futuro, com a visão de futuro bem mais próxima da real, do que em qualquer outro de seus livros e isso acontece justamente na história onde ele decide olhar mais para trás em sua própria vida, do que pensar trinta anos na frente para a sociedade, o que torna "O homem duplo" sua obra, dentro do possível, mais pé no chão.


"O Homem duplo" de Philip K. Dick passou novamente pela minha vida como um amigo que mora longe, mas que com quem sei que sempre posso contar. Uma história fantástica, vivida em meio as drogas e repressão, mas que deixa de lado o coletivo e a especulação futurista e, vai mais a fundo no indivíduo, abordando a ignorância, o medo, a solidão e até o vício como conceitos que nos tornam humanos. O livro mais maduro e pé no chão desse grande nome da ficção científica e meu escritor preferido (como eu não canso de lembrar) e leitura obrigatória não apenas para quem é fã de PKD ou ficção científica, mas para quem aprecia uma boa história. A editora ALEPH relançou o livro recentemente com o título "um reflexo na Escuridão" (título bem mais próximo do original em inglês).  Minha dica é, pegue o livro, sente-se em um lugar bacana, abra um bom vinho e deixe sua mente viajar nessa trip distópica futurista e caso, por algum motivo, o livro não lhe agradar, relaxe...pelo menos você terá tomado um vinho do bom!!



                                           Trailer do filme de 2006

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

UBIK - de Philip K. Dick

Philip K. Dick é meu escritor preferido. Não só por ser um dos mestres da ficção científica ou por ter muitas de suas obras adaptadas com sucesso para o cinema, mas por ser uma máquina de conceitos que te levam a refletir sobre coisas que fogem totalmente de nossa realidade. É dele o livro "Androides sonham com ovelhas elétricas", que foi adaptado para o cinema como "Blade Runner" e que, usando um tom noir e futurista levanta o questionamento, ao falar sobre os androides (replicantes), se um ser feito em laboratório, que tem consciência e parece um humano, realmente é uma pessoa, ou deve ser tratado como uma coisa; é dele também o conto que originou o filme "Minority report", em que a polícia utilizando precogs (videntes) cria um batalhão pré-crime que prende e condena o bandido antes que este possa fazer o mal, nos levando a questionar sobre destino e se não existe crime, se há culpado. No entanto, mesmo entregando nas entre linhas questões de cunho filosófico e conceitos trabalhados, sempre encontrei em seus livros histórias bem amarradas, com inicio, meio e fim, onde se enxergavam claramente as motivações de seus personagens, mas não consegui alcançar isso no último livro que li do autor, UBIK que ficou na minha mente, como um livro que explora apenas alguns conceitos, mas que traz uma história que não se fecha.

UBIK se passa em um futuro onde a raça humana conseguiu encontrar uma maneira de enganar a morte, mantendo os mortos em um estado chamado meia-vida, onde, dentro de caixões congelados (chamados bolsas térmicas) que preservam seus corpos, os mortos ficam em animação suspensa (muito suspensa, já que estão mortos), com suas consciências "vivendo" em um mundo simulado e aguardando o chamado de uma próxima encarnação, podendo assim serem consultados por seus amigos e entes queridos quando estes quiserem algum conselho ou orientação de quem já se foi. Nesse futuro, a evolução da raça humana deu um passo a frente e existem algumas pessoas que possuem dons especiais, como telepatia ou precognição e, muitas destas, são utilizadas por empresas especializadas para espionagem industrial e pessoal; em resposta a isso, surgiram empresas de prudência, que utilizam outras pessoas, com dons que anulam o dos espiões, para, mediante um pagamento, proteger quem não deseja ser espionado. A maior dessas empresas de prudência é a Runciter & associados, comandada por Glen Runciter, um idoso executivo que, aconselhado por sua esposa morta, mantém um império que só é desafiado por Ray Hollis, um misterioso empresário do ramo da espionagem.
Seguindo uma pista do rival, Runciter e seus funcionários acabam sendo atraídos para uma armadilha em uma base na lua, onde acontece uma explosão e Runciter é morto, restando a Joe Chip, um avaliador e contratador de inerciais (pessoas com dom de anular os dons dos outros) investigar o que aconteceu e tentar contato com a consciência do morto, mas algo está errado, pois tudo que os cerca começa a envelhecer e regredir até quase virar pó, inclusive os próprios amigos de Chip, para os salvar e dar o tempo necessário para descobrir a verdade, surge o spray UBIK, mas antes das respostas aparecerem, a dúvida que surge é :quais seriam as perguntas certas?

O livro traz a marca de criador de conceitos geniais que deu fama a Dick. A ideia de um mundo assombrado com a presença de pessoas que podem ler as mentes dos outros e retirar seus segredos, assim como as que antecipam tudo que acontecerá e a utilização destas de forma comercial é algo fantástico e que lembra muito a ideia apresentada em "Inception", filme do diretor Christopher Nolan de 2010, onde ladrões invadem os sonhos das pessoas para descobrir seus maiores segredos; da mesma forma que a conservação dos mortos em "meia-vida" remete ao filme "abra tu ojos", de 1997, que inspirou "Vanilla Sky" de 2001, onde após sofrer um acidente que o desfigura, um jovem milionário , após passar por diversas frustrações, decide se entregar a um método revolucionário e se congelar até que no futuro, exista uma cura para o seu mal, sendo sua mente entretida em uma realidade simulada onde ele consegue tudo o que deseja, mas que começa a falhar devido a seus traumas; dois exemplo do poder que o autor tem de inspirar grandes histórias através de suas ideias e que estão presentes na trama de UBIK.

O Autor
O suspense presente na história também é um ponto positivo. Depois que os personagens sofrem o atentado na lua, a dúvida toma conta da história e Joe Chip e seu amigo Al, passam a investigar o que está acontecendo com tudo a sua volta, se deparando com situações inusitadas, como mensagens de seu patrão morto escritas dentro de pacotes de cigarros fechados ou em multas de trânsito e o mistério vai sendo revelado lentamente, fazendo com que o leitor tenha tantas, ou mais dúvidas, que os personagens da história e o ar de investigação dá folego ao livro, quando a história oscila em seu ritmo.

Outra coisa bacana é a reutilização de ideias que o autor já havia abordado em outras histórias. A principal são os precogs, pessoas que conseguem ver o futuro como se este fosse imutável, abordando uma ideia de destino; personagens como estes foram utilizados no conto "Minority report", que virou filme com Tom Cruise e que trabalha justamente com o fato que se opõem a percepção dos precog's indicando livre arbítrio e dúvida quanto a suas visões; já nesse livro, muitos dos precogs trabalham para empresa de Hollis como videntes e a personagem Pat Conley, que é filha de um casal com esse dom surge com sua habilidade e coloca mais um questionamento quanto a autenticidade do dom dos videntes, que é, se o passado mudasse, o futuro também não mudaria? Ideias fora da caixa que, mesmo expostas entre linhas, elevam a qualidade da história.



Mas mesmo o livro possuindo muitas qualidades, que são expressas pelo jeito característico do autor de contar histórias, ele deixa muitas pontas soltas e quando terminei de lê-lo fiquei com mais perguntas do que respostas, o que em muitos casos é bom, pois faz com que uma história permaneça em nossa mente e se expanda em possibilidades, no entanto, não é bem o que aconteceu com esse livro.
Na primeira parte da história, a trama parece tratar das questões relacionadas à disputa entre a empresa de prudência de Runciter e a de espionagem de Hollis e apresenta personagens e um universo que convergem para que a trama se fundamentasse nisso; mas depois da tragédia na lua, o livro sofre uma mudança gigante de direção e parte para a investigação circular de Joe Chip sobre as regressões e morte de Runciter, ignorando o desaparecimento dos Psi citados no inicio do livro e quase que ignorando totalmente Hollis, que causou o atentado. Isso acontece também com alguns personagens que surgem na primeira parte e que aparentam um grande potencial e importância, como a mencionada Pat Conley, que é apresentada como uma pessoa de dom único, que seria de mandar sua consciência para o passado e, assim, mudar o futuro e que, aparentemente, teria relevância na história mas, fora alguns fatos que são revelados no fim do livro (mas que mal afetam a trama), nem precisava estar ali, pois pouco acrescenta.

Outra questão que me incomodou, foi a descrição de como os personagens se vestiam. As ideias de costume de PKD as vezes parecem distantes demais da realidade para serem levadas a sério. Duas dessas são as descrições de como, Stanton Mick, o investidor que contrata os serviços da Runciter & associados, e do piloto do helicóptero movido a energia solar, que chega para buscar o corpo de Runciter após o atentado, se vestem. O primeiro é descrito usando calças capri fúcsia, sapatilhas rosa de pele de iaque, blusa sem mangas de pele de cobra e uma fita no cabelo branco que ia até a cintura; o outro usava uma toga de tweed, mocassins, faixa carmesim na cintura e uma touca roxa com hélice de avião (tá de sacanagem!); somando essas formas estranhas de vestimenta, que lembram um futuro pós apocalíptico dos cafetões dos filmes blaxpoitation, ainda temos a mania do autor criar palavras extravagantes para descrever os itens representados nesse seu futuro, então temos o homeojornal, os condaptos (apartamentos), os vidphones, dentre muitas palavras, que percebemos como ilustrações de algo que seria visto em um futuro distante, assim como a moda que o autor nos descreve, mas que não parecem necessárias ou sérias, ainda mais pelo fato de a história do livro se passar apenas vinte e três anos após o mesmo ser publicado (o livro é de 1969 e a história se passa em 1992) e mudanças de costume e tecnologia no porte que o livro apresenta, necessitariam de séculos.

Capa da edição da Aleph -2014
Mas como disse a pouco, o que me incomodou foram as pontas soltas. Intendo que o livro traga em si , também, uma pequena crítica ao consumismo, não é por pouco que a história começa com uma briga entre empresas e que nesse universo futurista tudo é pago, desde a porta do seu próprio apartamento (se deve depositar moedas, para entrar e sair), como a TV do escritório e nessa levada, após a "morte" de Runciter o próprio idealizador do atentado é deixado de lado e só se referem ao mesmo, para citar que ele será processado (e não por assassinato) deixando claro a sociedade materialista onde a trama se passa, mesmo com a questão da reencarnação e meia-vida, sendo um espectro dentro da história.

Esse mesmo desprendimento de atenção ao causador do assassinato, me levou a questionar quem era o real vilão da trama e quais as motivações dos envolvidos. Embora Ray Hollis seja apresentado como uma ameaça, como disse anteriormente, ele mal aparece ou pouco é citado após o incidente na lua, Pat Conley, que se mostra pouco digna de confiança e extremamente ardilosa, vai perdendo a importância no decorrer da história e quando sabemos a grande verdade ao final, percebemos que ela é uma das vítimas (e que nem sabe disso), por fim ainda temos um personagem, que aparece como uma falha no inicio e que ao final tem uma participação "deus ex machina", que ao terminar de ler, parece pouco convincente (embora seu conceito, como sempre, seja bem bacana)


Apesar de suas pontas soltas, o livro está longe de ser ruim, apenas não é o melhor do autor na minha opinião. Os conceitos que Philip K. Dick utiliza, novamente mostram o gênio que o autor era e deixam claro sua importância na história da Ficção científica, inspirando dezenas de obras desde sempre. A maneira de reutilizar ideias e transitar entre o fantástico, o trágico e cômico, ainda trazendo critica social, filosofia e um tom de suspense impulsionam o leitor a seguir adiante em sua trama; mas a forma como muitos diálogos e situações parecem incluídos, apenas para que uma ideia que poderia ser definida em cem páginas se desenvolva em mais de duzentas, cansa um pouco. De qualquer forma, UBIK é uma obra obrigatória para quem é fã de ficção científica, um texto original, que fora alguns detalhes, pode claramente ser percebido como inspiração para diversas outras obras e um exemplo da mente criativa desse escritor fantástico que foi Philip K. Dick.

Use UBIK - está em toda parte


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

GALVESTON - O livro de Nic Pizzolatto


Conheci o trabalho e Nic Pizzolatto com a primeira temporada da série "True Detective" e assim como quase todo mundo fiquei impressionado. A produção da HBO trazia, além de um grande elenco, um roteiro interessante e com personagens de extrema profundidade e carisma, o que me fez procurar mais sobre o trabalho do criador daquele universo, que conseguiu misturar com sucesso o clima Noir com o dos weird tales.

No entanto, não encontrei nenhum trabalho de Pizzolatto publicado no Brasil logo após o termino da temporada estrelada por Mattwel McConaughey e Woody Harrelson então segui na expectativa pela temporada seguinte, que contaria uma história diferente e com novos personagens e me satisfiz lendo o livro que inspirou o roteirista a flertar com o místico e o estranho junto a suas histórias de detetive, o clássico "O rei de Amarelo" de de Robert W. Chambers .

Então Junho de 2015 chegou e a segunda temporada de "True Detective" estreou. No entanto, a nova temporada, embora também tivesse um grande elenco, não possuía o mesmo carisma e fracassou em tentar repetir o sucesso da primeira, mas sua estreia serviu como publicidade para que a editora intrínseca lançasse em nosso país um livro de Pizzolatto, que nos entregaria um pouco mais sobre aquele mundo corrupto e cínico, em que transitam em ruas escuras detetives e gângster e, onde a linha que separa o bem do mal é mais fina do que um fio de cabelo, foi assim que chegou em minhas mãos " Galveston".

"Galveston" conta a história de Roy Cady, um assassino da máfia de Nova Orleans, que, após descobrir que está com câncer e depois que seu chefe se torna amante de sua namorada, é vítima de uma armadilha armada por seus próprios companheiros, de onde escapa muito mais devido a seu sangue frio do que pela sua sorte. Na fuga , ele conhece Rocky, uma jovem prostituta e com ela resolve fugir para a cidade de Galveston, um lugar de boas lembranças do passado, onde ele pretende passar seus últimos dias aproveitando o mar e sendo tudo o que não foi, ignorando que o passado ainda o espreita e o seguirá aonde for.

O livro começou me empolgando. Em seus primeiros capítulos ele lembra um pouco a tensão e clima presentes na obra de James Ellroy, "Los Ageles - cidade proibida", onde os homens são violentos e frios e, as mulheres sexys e manipuladoras, a narrativa é rápida e expressa em frases e parágrafos curtos, nos arremessando para dentro da história sem explicação prévia, nos fazendo agarrar à visão do protagonista para aos poucos vislumbrarmos o que está acontecendo naquele mundo que estamos adentrando de maneira tão brusca e isso é bem bacana. Somado a esse clima, temos ainda a descrição de cenas cruas de ação e violência, que te fazem franzir as sobrancelhas e trincar os dentes, principalmente quando o autor detalha as torturas praticadas pelo submundo.



Mas apesar desse início empolgante, o livro se perde em si. Tal qual a segunda temporada da série roteirizada por Pizzolatto, da segunda parte do livro até o final , a história parece entrar em um looping que não leva a nada a não ser destruir todo o clima criado por suas primeiras páginas. O próprio protagonista, que no início é mostrado como um cara durão, que beira ao niilismo, aos poucos vai amolecendo, chegando a constranger o leitor com um capítulo de auto-piedade onde vai procurar uma ex-namorada para tentar relembrar seus bons momentos, mas conseguindo apenas páginas e mais páginas de desprezo e conversa mole que não representam nada para a trama. Por falar em trama, a partir da segunda metade do livro é que percebemos que o autor não possuía uma trama para nos apresentar, apenas uma ideia e a caracterização de alguns personagens bem parecidos com os que ele apresentou na TV, são páginas e mais páginas ambientadas em hotéis na beira de estradas, com seus hospedes solitários e marginais, que pouco, ou nada contribuem no crescimento do protagonista ou da história e que se, pelo menos, fossem alvos de uma chacina , faria sentido com a ideia inicial que parecia surgir nas primeiras páginas, de um thriller de ação e perseguição maquiado de roadtrip, mas que ao invés disso, ao final, lembra mais o roteiro de uma novela da Glória Perez só que (por incrível que pareça) mais açucarado.

"Galveston" foi uma decepção! Um livro que tenta flertar com o submundo, mas tropeça em seus personagens fracos e trama rasa, não consegue manter um ritmo ou apresentar motivos para que nos importemos com os problemas de seus personagens, chegando a nos fazer questionar por que o câncer do protagonista é tão lento. Traz todos os defeitos de roteiro que fizeram a série escrita por Nic Pizzolato ser cancelada da grade da HBO, após a decepção da segunda temporada, sem trazer as qualidades presentes no sucesso da primeira e levam o leitor do nada a lugar nenhum em chatas 235 páginas, surpreendendo quem descobre, assim como eu, que os direitos do livro já foram comprados e que o mesmo deve virar filme muito em breve, para azar da sétima arte, que parece estar com um câncer em sua criatividade e sorte de Pizzolatto que deve lucrar alguns milhõezinhos por mais um roteiro ruim e essa história sim é digna de um Weird Tale.