Somos prisioneiros de
ciclos. Acreditamos que o tempo simplesmente se desloca em linha reta do
passado para o futuro e que o presente é uma constante novidade, mas na verdade
seguimos vivendo ciclos que se repetem e se repetem sem que muitas vezes nem percebamos.
Então um dia você acorda com quarenta e
poucos anos e as coisas ainda estão iguais a como eram quando tinha vinte, se
frustrando em empregos que eram para ser temporários, cometendo os mesmos erros
na vida amorosa, enfim, patinando em todas as áreas da vida por não conseguir
quebrar essa prisão temporal que acreditamos se tratar apenas de rotina. Mas,
se no meio desse caos você percebesse que a repetição ou não dependesse de uma
atitude perigosa contra todas as ações que você insiste em aceitar, você
estaria disposto a correr os riscos?
Pois disfarçado de filme de golpe, com todos
os ares de blaxploitation, e abordando sobre o que a quebra ou aceitação dos
ciclos da vida podem definir na vida das pessoas, estreava no Brasil em 1998, “Jackie
Brown”, filme roteirizado e dirigido por Quentin Tarantino, estrelado pela
estrela dos filmes negros dos anos 1970 Pam Grier e baseado no livro “Rum
Punch” do escritor Elmore Leonard, que depois de vinte anos parece se firmar,
para mim, como o melhor filme do diretor e conversar com momento de encruzilhada
da minha própria vida.
Para quem não conhece o filme, a história
conta as desventuras de Jackie Brown (Grier) uma comissária de bordo de uma
pequena companhia aérea Mexicana que, para conseguir ganhar alguma grana a
mais, contrabandeia dinheiro para o traficante de armas Ornell Robbie (Samuel
L. Jackson), No entanto, após ser descoberta e presa pelo agente da ATF Ray
Nicollete (Michael Keaton), Jakye, começa a temer mais pelo seu futuro sem perspectiva
do pelo risco de seu contratante a achar uma dedo-duro e concebe um perigoso plano
para se livrar de Ornell, das acusações e alcançar certa estabilidade
financeira, virando em 180° a vida que parecia ser seu destino.
Como eu disse acima, não percebemos que
estamos presos a ciclos até que uma situação externa bata com força em nossa
cara. Foi exatamente isso que aconteceu comigo, quando em uma tarde de domingo
chuvosa resolvi reassisti ao terceiro filme de Tarantino e sentir como se
alguém gritasse dentro da minha cabeça se eu estava entendendo a mensagem.
Todos os personagens centrais da história estão às portas de repetir seus
ciclos de vida ou quebra-los e a atitude que tomam frente a isso é o que define
seus destinos.
Gara
Começamos com a protagonista, Jackie Brown,
que durante a trama confessa que já foi presa anos antes também por contrabando
e que depois de um tempo na cadeia, amargou anos de condicional, o que parece
tê-la quebrado, fazendo-a se resignar com o pouco que conseguiu depois. Ela
mesma confessa ao agente de fiança Max (Robert Forster) que parece estar sempre
recomeçando e que se encontra cansada disso. Sua quebra de ciclo ocorre quando,
após se ver pressionada pelo flagrante do agente da ATF, resolve ir de encontro
as suas antigas decisões e tomar o protagonismo de sua própria vida, utilizando
de sua esperteza e charme para se impor ao que parecia ser seu destino, o que
resulta em sua libertação e o alcance do que esperava para si.
O contrário ocorre para o restante dos
personagens da trama; que por receio, medo ou costume sofrem as consequências
de se manter presos à suas jornadas. Dois casos distintos são claros dentro da
história, o do ex-presidiário Louis Gara (Robert De Niro) e o Agente de Fiança
Max Cherry (Robert Forster).
Louis Gara não consegue fugir de si mesmo,
como se a prisão da qual foi liberto ainda o acompanhasse. A primeira coisa que
vemos do personagem no filme é ele retornando ao mundo do crime sob a proteção
de seu amigo Ornell e embora sempre transpareça confusão e por vezes apatia em
relação aos assuntos do parceiro, não move um musculo para mudar sua
perspectiva, o que com sua participação ao final da trama se pode encarar como
medo, um medo tão grande que se transforma em violência e inconsequência, selando
seu destino de forma definitiva.
Jakie & Max
Por outro lado, Max Cherry está
completamente fundido a sua rotina. Agente de fianças há mais de vinte anos,
sem família e, aparentemente sem amigos, sua rotina é sua vida. Mas ele tem um
vislumbre de que as coisas podem ser diferentes ao conhecer Jackie e se
apaixonar pela mesma, tanto que após criar certa intimidade com a protagonista
confessa a ela que irá se aposentar, pois não vê mais sentido nas repetições em
sua vida profissional. Entretanto, a insegurança em sair de uma longa rotina o
impede de seguir seu desejo e o que vemos dele ao final, quando vê Jackie
partindo, é o semblante de quem levará consigo para sempre a dúvida do que
poderia ter sido e nunca foi.
O que difere Jackie Brown dos demais personagens
do filme é ter entendido que só se pode seguir em frente quando destruímos o
caminho antigo e criamos um novo; Gara, Cherry, Ornell e os outros personagens
parecem não compreender esse fato e fecham o filme ou ruminando os mesmos
problemas ou simplesmente mortos, enquanto Jackie termina a história
protagonista tanto da trama quanto de sua própria vida.
Me identifiquei no ato ao reassistir “Jackie
Brown”. Com trinta e sete anos, doze destes no mesmo emprego, relacionamento
cheio de idas e vindas e ainda pensando o que querer da vida me fez pensar em
como acabamos tranquilamente aprisionados nos ciclos que criamos para nós e
isso me fez voltar a escrever, o que é um pequeno passo, mas já me tirou da
inércia. Meu convite é para que todos revisitem o terceiro filme de Tarantino
sob este ponto de vista de recomeços e fugas dentro das vidas dos personagens,
mas isso não interessar, assista assim mesmo, focado no charme de Pam Grier, na
trama cheia de reviravoltas ou nos diálogos extremamente humanos, quebrando
pelo menos o ciclo da mesmice dos blockbusters atuais.
Certa vez, li em algum lugar
que a leitura de romances é um exercício de empatia, pois faz o
leitor se colocar no lugar dos personagens, encarando, como se fossem
seus, os problemas e situações apresentados na trama e, em
consequência disso, quem lê mais, tem menos medo do próximo,
porque adquire maior facilidade em vê-lo como um igual. Guardei
esse argumento para mim e sempre que, em uma roda de amigos, eu
citava um livro e alguém perguntava o porquê de eu ler tanto, dizia
sem pestanejar: "É um exercício de empatia!". No entanto,
não lembro de nenhuma vez em que tenha sido questionado por citar um
filme, talvez porque o cinema tenha se transformado em diversão pura
e simples, como se tivéssemos nos tornado mal acostumados pelas
grandes franquias, blockbusters milionários e universos expandidos a
não enxergar que o cinema, assim como a literatura, também é uma
forma de nos colocar no lugar do outro, nos colocando como
passageiros de suas experiências e, nos enriquecendo como pessoas.
Por sorte, de tempos em
tempos, surge uma produção que nos lembra o verdadeiro poder do
cinema, como é o caso de "Get out", ou como foi traduzido
no Brasil: "Corra!", trhiller escrito e dirigido por Jordan
Peele e estrelado por Daniel Kaluuya e Allison Willians, que
estreou no Brasil em Maio, mas que só agora tive o prazer de
assistir e que me deixou boquiaberto tanto com a história que
conta, como com o que o filme conseguiu revelar sobre mim mesmo.
"Corra!" conta a
história de Chris Washington, um fotógrafo (negro) que é convidado
por sua namorada Rose (que é branca) para passar o final de semana
em sua casa de campo e conhecer seus pais e irmão. Mesmo tenso pela
diferença étnica e social que existe entre ele a a família da
namorada, Chris aceita o convite e é extremamente bem recebido pelo
casal de progenitores da namorada, Dean e Missy. Mas as coisas
começam a ficar estranhas, quando ele se vê presente em uma
misteriosa reunião na casa, contendo um grande número de pessoas da
alta classe, todas extremamente interessadas em seu gosto por
esporte, visão de mundo e constituição física, e tudo só piora,
quando Chris percebe que as pessoas negras presentes no local (não
mais de três, dois empregados e um jovem convidado que se veste como
um senhor de idade) agem de maneira mecânica e artificial. Resta
agora a Chris, tentar entender o que está acontecendo naquele lugar
afastado e misterioso e, fazer o possível para dar o fora dali.
Brother! Que filmaço! Fazia
um tempinho que eu não assitia a um filme que me prendesse na
poltrona, com os dentes serrados de tensão e mergulhado no que está
acontecendo em tela, méritos do roteirista e diretor Jordan Peele,
que nos entrega uma história inteligente, que consegue ser pesada,
sem deixar de ser divertida e até humorada quando necessário;
resultado, não só do aparente background de cinéfilo, que o
diretor parece ter, ao trazer conceitos que lembram os clássicos de
Hitchcock, mas também seu histórico pessoal de escritor e ator de
comédia, fatos que podem ser confirmados ao assistirmos um pouco de
seu trabalho em seus antigos programas do canal "Comedy
central", que expõem toda sua agilidade e competência como
roteirista; no entanto, seu talento como diretor, exceto no filme
"Keanu", uma comédia nonsense onde ele atua e co-dirige
algumas cenas, sem fugir de seu terreno mais conhecido, nunca havia
sido exposto como agora; uma grata surpresa em uma área cada vez
mais carente de cineastas autorais e competentes.
Somando-se ao talento do
diretor, outro fator que favorece o filme são as atuações,
principalmente do protagonista, que é interpretado por Daniel
Kaluuya e por seu par romântico a atriz Allison Willians. O ator
britânico, já havia chamado minha atenção por seu papel em Black
Mirror, principalmente por sua capacidade expressiva; o cara é craque
em transmitir sentimentos sem precisar utilizar uma única palavra e
em uma trama onde a suspense e a estranheza são ingredientes de
destaque, um ator que consegue transmitir no olhar a perturbação e
medo que sente, facilita o andamento da história de maneira visível.
Já Allison Willians, de quem eu nunca havia ouvido falar, me
surpreendeu pela naturalidade com que compõe seu personagem e pela
química que desenvolve com Daniel, assim como a quebra dessa química
no arco final da história, quando a personagem tem uma virada e a
própria forma de atuar da atriz parece seguir aquele novo modo de
agir, sendo que o momento final da história (que para mim é o ponto
alto) me parece ser tão completo por deixar apenas os dois
brilharem.
Ei!! Afrodescendente!! você acha que tem mais ou menos vantagens na sociedade moderna?
Apesar das ótimas atuações
e direção, o destaque é a história do filme. Para começar, a
trama contém toda força necessária que um filme de suspense que
aborda o racismo deve ter para o momento atual de um mundo cada vez
mais preconceituoso e extremista, principalmente no que toca os EUA.
Basta prestarmos o mínimo de atenção nos diálogos dos
personagens, ou nas frases soltas no jantar da família ou no
encontro na casa e vamos, aos poucos montando o cenário de
preconceito que parece cristalizado em toda parte, seja quando uma
convidada da casa de campo pergunta se os negros são melhores (na
cama), ou quando o irmão de Rose, pergunta por que Chris não se
interessa por MMA, pois com sua constituição física se tornaria
uma fera, ou mesmo quando outro convidado diz que o preto está na
moda; todas essas pequenas migalhas vão desenhando uma situação
onde o negro vais sendo descrito como uma coisa, ou um animal, que,
segunda a visão do não-negro (presente no filme) tem suas únicas
utilidades em suas possíveis vantagens físicas, mas como pessoa,
são totalmente dispensáveis, como no discurso dado pelo pai de
rose, quando conhece o protagonista e este lhe conta que na vinda,
haviam atropelado um cervo, ao que o futuro sogro diz que esses
animais estão por toda parte, poluindo e destruindo o ecossistema e
que quando sabe que alguém deu um fim neles fica feliz, pois é
menos um para incomodar, em uma brilhante alegoria feita pelo roteiro
em que o cervo (símbolo clássico de animal caçado) é comparado
aos negros e, o genial é que tanto o próprio cervo, quanto cada
palavra citada pelos personagens do filme não está lá por acaso,
nem mesmo a ideia de que que apenas as vantagens físicas dos negros
é a única coisa que importa.
Mas mesmo abordando e expondo
essas situações e fatos que todo negro já presenciou (como diriam
os racionais: Quem é preto como eu já tá ligado qual é...), o
filme não tenta ser panfletário (não que ser panfletário seja
errado), se tornando genial e tão especial justamente pela pitada de
comédia (muito disso apresentado pelo ator Lil Rel Howery, que faz o
papel do melhor amigo do protagonista e que tenta mostrar a ele a
roubada onde está se metendo) que serve para exorcizar o peso dessas
questões sociais abordadas de maneira periférica no filme sem as
colocar em segundo plano, lembrando em muito o clássico "O
grande Ditador" de Chaplin, que foi um dos primeiros filmes a
utilizar o cinema e o humor para combater o extremismo e preconceito.
Esse humor, herança da carreira do diretor de seus tempos de
comediante de TV, se soma a sua experiência de vida, ele mesmo filho
de um casal multiétnico e casado com uma mulher branca, que deve
ter presenciado e vivido muitas cenas semelhantes a do jantar ou do
encontro presentes no filme e comprovam a importância da
representatividade no cinema, ao colocar escrevendo e dirigindo,
alguém que realmente sente na pele um pouco do que a história tenta
transmitir.
Jordan Peele
E falando em transmitir uma
mensagem, como disse no início do texto, esse filme revelou para
mim, que até em mim que sou negro, o preconceito está presente.
Percebi que eu mesmo já vivi muitas das cenas iguais as vividas pelo
protagonista, onde o mesmo se via questionado, coagido ou observado
como algo diferente (não como uma pessoa) e assim como ele, sempre
levei esse comportamento que vem da parte do outro como plenamente
aceitável, como quando o policial de trânsito pede os documentos de
Chris, mesmo ele não sendo o motorista, ou quando, no final do
filme, após tudo que tinha que dar errado (ou certo) acontece e vi
chegar um carro da polícia, meu primeiro reflexo foi pensar:
"Ferrou! Agora acabou pra ele!" uma frase que diz mais do
que eu espero do mundo em que vivo e aceito como "normal",
do que da trama saída da mente de um talentoso roteirista e que
reafirma o verdadeiro sentido do cinema ao apresentar o ponto de
vista de uma pessoa, fora dos padrões habituais do cinema popular, a
toda uma platéia e gerando empatia com a história de Chris
Washington e catarse em relação a sua história e atitudes.
Pois bem, mais do que um
filmaço de suspense, "Corra!" é uma obra obrigatória.
Bem escrito e dirigido por uma mente cheia de frescor e com muito a
agregar ao cinema, com grandes atuações e momentos de tensão e
ação dignas do respeito de fãs de Hitchcock e Tarantino e, acima
de tudo, possuidor de uma mensagem forte, embora sutil, sobre nós
mesmos e a sociedade onde vivemos. Traz a visão de um grupo que
quando não é totalmente estereotipado é muito pouco representada
no cinema e o coloca em seu devido lugar de Pessoas e, faz através
de alegorias e diálogos brilhantes, que olhemos para dentro de nós
mesmos e reconheçamos nossos próprios preconceitos e falta de
empatia, reafirmando com talento o verdadeiro sentido do cinema que,
tanto quanto divertir e maravilhar, é também de nos fazer viver
várias vidas e nos enriquecer como pessoas.
O
ano de 2017 vem sendo marcado por uma constatação fantástica:
Voltamos no tempo! É só olhar o noticiário ou correr os olhos
pelas timelines das rede sociais e as provas vão ser atiradas em
nossas caras; é caça aos comunistas, ultra nacionalismo ganhando
força, luta contra os direitos humanos, inflação, desemprego,
extremismo religioso, em fim, parece que retrocedemos, pelo menos,
trinta anos e vivemos agora em uma realidade focada na ignorância,
onde a maioria serve de massa de manobra para um pequeno grupo.
Talvez
eu esteja sendo pessimista com o ano, afinal ele apenas começou e
nem passamos do carnaval, mas eu, que sou fã de distopias, penso que
estamos as portas de uma e tenho plena convicção de que tudo que
anda acontecendo no mundo, daria uma boa base para o roteiro de um
filme de ficção científica. Só que tem um problema, esse filme já
foi feito e para se somar as estranhezas desse ano, foi filmado a
exatos trinta anos. Trata-se de "They Live" (ou, "Eles
vivem"), um dos clássicos dirigido pelo mestre do terror e
ficção científica oitentista John Carpenter e que revendo hoje, me
parece estar mais para um documentário do que para um filme.
Obedeça
"They
live" conta a história de George Nada, um andarilho que
transita pelos Estados unidos a procura de uma vida melhor. Em uma
dessas viagens ele desembarca em uma grande cidade onde se emprega na
construção civil e consegue abrigo em uma comunidade apoiada por
uma igreja. Desconfiado dos movimentos noturnos dessa igreja, Nada,
resolve investigar e se depara com uma misteriosa reunião e com um
laboratório e, vendo diversas caixas fechadas, resolve furtar uma,
descobrindo depois que se tratavam de óculo escuros. Sem saber como
conseguir lucro com o que pegou na igreja, ele pega um óculos para
si, fato que mudará para sempre seu ponto de vista em relação ao
mundo.
Os
óculos fabricados na igreja, mostram ao protagonista uma verdade que
ele não tinha acesso a olhos nus, onde propagandas em outdoors e
matérias inteiras de revistas são substituídas por simples ordens
que mandam "reproduzir", "consumir" e "obedecer",
no dinheiro se vê a frase "esse é seu Deus" e até o
semáforo da rua emite a frase "durma" repetidamente para
quem anda por ali. Para finalizar, George ainda descobre que ao usar
os óculos, algumas pessoas se apresentam como figuras assustadoras,
com o rosto de uma caveira azul e olhos prateados, fatos que o levam
a perceber, depois que se envolve em muitas confusões, que a terra
foi invadida por uma raça de alienígenas, que se infiltrou e tomou
o poder para si, transformando os humanos em uma massa de manobra e
mão de obra hipnotizada e, que a única maneira de se livrar do
julgo dos invasores é se juntar a pequena resistência que ele
havia espionado na igreja. Mas como uma resistência, composta por
meia dúzia de pessoas desacreditadas, poderá enfrentar quem comanda
o planeta inteiro e nem mesmo é percebido?
Eu
sou muito suspeito para falar de qualquer filme de John carpenter, de
quem já me declarei fã inúmeras vezes. O cara deu a cara ao cinema
de terror moderno através de clássicos como "Halloween"
(1978), "O enigma de outro mundo" (1982), "À beira da
Loucura" (1994) entre outros, mas tenho de dizer que "Eles
vivem" se coloca para mim um degrau acima devido ao fato de seu
flerte com a ficção científica e a mensagem de questionamento que
o autor tenta passar ao espectador, assim como os conceitos e a
maneira visual tremendamente original que o diretor opta por utilizar
para transmitir as ideias do filme.
Consuma
A
critica social que o filme traz em suas entrelinhas é apresentada no
exato momento que percebemos queo
protagonista tem o sugestivo nome de "Nada", fato
o que vem a somar a trama, se relacionando tanto ao poder do mesmo
frente ao inimigo que enfrenta, quanto ao
sentimento dos trabalhadores americanos dentro do
contexto histórico que passava os Estados
Unidos
quando o filme foi produzido. Vale lembrar que nos meados dos anos
oitenta, os E.U.A
ainda
sofriam
com a crise do Petróleo e que sua industria automotiva vinha
perdendo espaço para a Japonesa, fatores que geraram desemprego e
desesperança , o que é demonstrado de forma semelhante em
outros filmes, como na comédia "Fábrica de loucuras"
(1986)
de
Ron Howard, onde uma montadora americana é fechada e um funcionário
vai até Tóquio buscar auxilio da industria japonesa,
mostrando a crise no cenário americano, ou
"Robocop" de 1988, onde o cineasta Paul Verhoeven utiliza
uma ideia pessimista para mostrar uma Detroit, outrora símbolo da
industrialização, como uma cidade pobre, violenta e perdida, tal
qual a cidade
onde nosso protagonista desembarca com o sonho de dias melhores, mas
que só lhe apresenta recusas, miséria e força bruta, como se ele
realmente, nada fosse.
Essa
desumanização, que no filme é apresentada de maneira muito sutil,
ao nomear o protagonista de Nada, faz um paralelo extremamente importante com a questão da distopia e o momento que vivemos hoje.
Da mesma forma que no filme, hoje existe a influência por não dar
rostos e vozes à grupos de pessoas que pensam diferente de nós e
nossas bolhas sociais, apagando seu individualismo e os relegando a
massa, como se todos que pensam diferentes de nós tivessem os mesmos
desejos e pontos de vista; meros números que não somam aos nossos
interesses, fato semelhante que ocorre em distopias, como "1984",
ou "Uma história de amor real e super triste" e que vemos quase diariamente na internet, quando manifestações por melhorias
ou buscando direitos, são rechaçadas com violência e comemoradas
por quem pensa de forma diferente.
Eu vim aqui pra mascar chicletes e chutar traseiros...
Outra
coisa que é bacana e original para a época, é o fato dos vilões,
serem os típicos representantes do "sonho americano". Em
uma época onde a guerra fria ainda dava seus últimos suspiros,
colocar o bem sucedido cidadão americano como o responsável pela
degradação da sociedade, mesmo que afirmando que o grosso destes
eram alienígenas, era algo quase impensável no cinema, mas
é
exatamente
o que Carpenter faz, ao mostrar através das mensagens subliminares
que o protagonista descobre através de seus óculos, que o poder dos
extraterrestres vem do consumismo e da futilidade que se tornaram o
objetivo final da raça humana, algo que ia totalmente no sentido
oposto as mensagens passadas pela maioria dos filmes de ação da
época, que apresentavam inimigos comunistas que tinham por objetivo
destruir a sociedade perfeita americana, uma olhadinha em "Rocky
IV" exemplifica exatamente o que estou dizendo.
O
fato
de os extraterrestres serem as pessoas que dominam o planeta
financeiramente e por isso manipulam os seres humanos através dos
desejos e não da força, também fala muito sobre os dias atuais. Em
uma sociedade que vem se baseando na satisfação pelo consumo e
buscando uma felicidade que só tem valor quando é aplaudida pelos
outros, utilizar de força bruta é desperdício de energia, quando se
pode induzir as pessoas a desejar ter tudo que se diz que é bom.
Dessa forma, o filme apresenta um cartaz com uma bela Praia e, ao
colocar os óculos, o protagonista lê apenas consuma, e, aquela
viagem passa a ser o objetivo das pessoas que passam por ali, da
mesma forma que hoje, ao colocar-se propagandas na TV de celulares da
última geração, ou do "carro do ano" buscar conseguir
esses itens, será o objetivo de vida de quem se encontra distraído
em frente ao televisor, sem perceber que ele foi reduzido de pessoa,
para um simples consumidor angustiado e, muitas vezes, frustrado.
Esse é seu Deus
Esse
desconforto com o que a vida vem se tornando e a crítica social que
John Carpenter faz ao mundo que estava surgindo, é o fato que mais
me fascina nesse filme. A ideia de que poucos são sustentados por
muitos e que estes, hipnotizados por televisores e a promessa de um
amanhã melhor, defendem uma minoria abastada como uma massa de
manobra sonolenta, que ignora a verdade que está na frente de todos,
mas que ninguém está olhando de verdade, pois estão entorpecidos
por sonhos e cores brilhantes, quando na verdade o mundo se apresenta
em distintos tons de preto e branco, onde se gritam palavras de ordem
que são obedecidas sem o mínimo questionamento.
Case e se reproduza
No
entanto, o diretor não nega que muitos daqueles que são chamados de
povo, também possuem seu quinhão de culpa, até porque ninguém se
torna opressor, sem um pouco da ajuda dos próprios oprimidos. Assim
temos alguns personagens, que mesmo em posição de servidão, optam
por ajudar os invasores, na esperança de partilhar com eles do
poder e riqueza que estes ostentam; como o personagem que passa toda
primeira parte da trama assistindo TV e reclamando de dores de cabeça
quando a transmissão dos aliens é interrompida pelo sinal da
resistência, acabando por se mostrar um colaborador e, possivelmente, informante dos invasores no final do filme.
Personagens
como estes são recorrentes em distopias. Em "Matrix" temos
Cypher, que busca um acordo com as máquinas para ter a vantagem de
voltar para a matriz, em "1984" temos o vizinho de Smith,
que mesmo fora dos padrões do partido apoia tudo que este faz, se
sentindo orgulhos até em seus derradeiros momentos, quando seus
filhos o delatam; gente assim vem ganhando espaço casa vez maior em
nosso mundo, buscando vantagem e apoiando cegamente os interesses de
quem acreditam poder acompanhar no crescimento, não percebendo que
são reles números servido de escada para alguns privilegiados.
Por
toda sua crítica a uma sociedade que vem se tornando cada vez mais
consumista e menos racional, além da diversão que proporciona,
"They Live" é um filme obrigatório para quem é fã de
ficção científica, distopias ou apenas sente um desconforto com os
movimentos extremos que vem cada dia mais ganhando força. Um filme
que, além de divertir com um toque de teoria da conspiração,
ainda nos mostra que tudo nessa nossa sociedade é cíclico e
beneficia alguém, mesmo as crises e épocas difíceis. Uma obra prima
de John Carpenter em sua melhor forma que, fora os ET's, beira ao documentarismo. Então se você se sente desconfortável, oprimido,
hipnotizado, ou mesmo se tem uma esperança crescente em se dar bem
na vida com base nas propagandas de TV, ou mesmo quem não sente nada
e quer ver uma trama oitentista, que mistura luta livre, alienígenas
e teoria da conspiração, assista a esse filme e te garanto que será
como ver o mundo através de uma lente da verdade.
No
filme “Guerra mundial Z”, depois que a epidemia zumbi tomou conta
do planeta, o protagonista parte para Israel, pois existem indícios
de uma resistência naquele
local. Chegando
lá,
ele descobre que o que salvou as pessoas foi o fato de um indivíduo
ter acreditado na possibilidade de um ataque zumbi, por mais
improvável que isso fosse; esse sujeito se apresenta como o “décimo
homem”, uma figura na administração da informação onde, depois
de a mesma ser levada as outras 9 autoridades e refutada, tem como
função cogitar que o fato, por mais absurdo ou ignorável, possa
ser real.
Fico
pensando como um “décimo homem” faz falta nas empresas e mesma
em nossa vida social no mundo real. Na sociedade em que vivemos, onde
as pessoas se cercam quase exclusivamente por seus iguais, seja
física ou ideologicamente, uma opinião diferente passou a ser
demonstração de inimizade e, caminhamos a cada momento para
vivermos isolados em bolhas sociais onde apenas os privilegiados de
nossos grupos de Whatsapp desfrutam de nossa opinião sincera (mas
que não fere o grupo, ou FORA!) e assim as pessoas, repetem tanto
seus pensamentos sem um contraponto, que nada de novo surge e uma
ideia refutável se torna um dogma inquestionável.
Não
é diferente nas empresas. As lideranças confiam apenas em pessoas
que pensam, se vestem e agem iguais a eles; como se fosse claro que
“apenas quem é igual à minha pessoa pode estar certo” e em um
mundo cada vez mais competitivo, carente de imaginação e atitudes
variadas frente aos problemas diários, temos cinco ou seis pessoas
com a mesma história de vida, ideologia, atitude e visão de mundo,
criando uma pobreza social tão perigosa quanto uma pobreza genética
e colocando a empresa em uma desvantagem competitiva, que muitas
vezes só é percebida tarde demais.
A
questão é, Estamos caminhando para uma sociedade isolada em bolhas,
onde apenas quem pensa e parece igual é aceito em cada uma delas,
onde a competição é cada vez menos entre os diferentes e mais
entre os certos e os errados, onde as ideias que vão de encontro com
as nossas são declarações de guerra e o valor da diversidade, seja
de cores, opiniões ou opções vem sendo diminuído por pura
preguiça de abraçar o novo, uma sociedade que se esconde atrás de
antidepressivos e perfis felizes nas redes sociais para fazer de
conta que tudo está ótimo.
Penso
que seja o tempo de ouvir a opinião contrária, de questionarmos
nossas certezas e dar espaço para o novo, chegou a hora de sermos
aquele décimo homem e pensar que talvez, o que parece totalmente
refutável, seja uma verdade que possa trazer um benefício
potencial, ou caso não, que sirva pelo menos para retirar nosso
pensamento do status de dogma. Chegou a hora de mudar, ou seremos
arrastados pela multidão para lugar nenhum e sem nenhum pensamento
próprio a não ser o instinto de repetir o que nos foi imposto, tal
qual um zumbi que apenas se junta aos seus iguais para atacar o que é
diferente, mas que sem o diferente anda a esmo ou fica parado sem
expectativa nenhuma.
Dia três de Março desse ano, foi lançado mundialmente o primeiro
trailer do filme "Caça-fantasmas", que tem a direção e
roteiro de Paul Feig. O filme, reboot do clássico da sessão da
tarde, teve uma aceitação negativa desde que o estúdio anunciou
que nessa nova versão os protagonistas seriam mulheres e essa onda
de rejeição se concretizou no final do mês de abril, quando foi
divulgado que o trailer do filme ,que estreia dia quinze de Julho ,
conquistou o amargo título de trailer mais odiado do Youtube, com
mais de quinhentas mil negativações.
Não vou mentir. Quando anunciaram que no lugar dos personagens
clássicos o filme teria um grupo de mulheres como protagonistas, eu
torci o nariz. Esperei muito tempo para uma continuação dos dois
filmes dos Caça-fantasmas que marcaram a minha infância e a
decisão de fazer um reboot com outros personagens me desagradou
porque colocaria uma pedra sobre a possibilidade dos antigos
personagens retornarem. Também não posso ser sínico em dizer que
não me senti contrariado pelo fato de serem mulheres nos papéis
principais e logo procurei argumentos dando exemplos de filmes ruins
com protagonistas femininos, como "Elektra" (filme de 2005)
e " À prova de morte" (2007, o filme que menos gosto do
Tarantino) para justificar o que até aquele momento eu não
identificava como puro preconceito.
Mas depois de um certo tempo pensando sobre o assunto eu percebi como
eu estava sendo babaca. Na ânsia de encontrar no cinema um filme que
me fizesse ter uma experiência semelhante a que tive ao assistir os
anteriores mais de vinte anos atrás, ignorei duas questões de
extrema importância nos dias de hoje: a empatia e a
representatividade.
Era o máximo da representatividade dos anos 80
Sobre empatia, comecei a me imaginar qual seria a reação das
mulheres de hoje se o filme tivesse a mesma pegada dos filmes
originais dos anos oitenta. Nos dois filmes anteriores, temos apenas
duas personagens femininas relevantes, a primeira (interpretada por
Sigourney Weaver) é o interesse romântico do Dr Peter Venkman (Bill
Murray) e praticamente é a mocinha em perigo que serve para dar rumo
a trama, embora seja independente e uma musicista profissional, ela
transmite uma certa insegurança e trabalha com sua sensualidade na
maior parte do filme (após ser possuída) sendo sua presença
voltada exclusivamente para ser um objeto à ser alcançado pelo
personagem masculino e isso fica claro no segundo filme, quando a
personagem explica que terminou o relacionamento com o Dr Venkman
após este começar a apresenta-la nas festas como sua "escrava
sexual". A outra personagem feminina era a telefonista Janine,
que aparecia com todo esteriótipo possível da secretária, lixando
as unhas, chateada com o emprego e ainda dando em cima do patrão
Egon Spengler (Harold Ramis). Me coloquei no lugar das mulheres ao
assistir um filme desses sem a desculpa do Zeitgeist da época e me
senti incomodado, percebi então que só poderia haver uma maneira de
uma franquia que teve essas marcas (discretas mas reais) funcionar
nos dias de hoje e que seria focando na diversidade e
representatividade.
A representatividade é uma questão importante com a qual tive o
primeiro contato justamente nos filmes dos Caça-fantasmas. Eu, uma
criança negra dos anos oitenta, não era acostumado a ver negros em
papeis de protagonismo em nada que fosse positivo na TV ou cinema e,
foi assistindo o filme original da franquia, que me deparei com o
personagem Winston, um negro que chega para pedir emprego nos
caça-fantasmas e se torna parte do grupo; a entrada dele no grupo é
meio idiota, mas tenho de dizer que quando vi um homem negro que não
era figurante e sim parte dos heróis em um filme tão legal como
aquele, me senti mais conectado ainda a história. Então, como eu
poderia odiar um filme, que traria uma experiência parecida para
milhões de pessoas, mesmo que eu não esteja incluído nesse grupo?
Quem você vai chamar?
Penso que as pessoas que negativaram o filme tem muito medo, pois
foram acostumadas a ser hiper representadas e a possibilidade mínima
de apresentar outro tipo de pessoa e visão de mundo que não se
assemelhe a delas faz com que imaginem que serão colocadas de lado,
o que é um absurdo. É só pegar os grandes produções para vermos
que em sua grande maioria, os protagonistas são homens brancos, sem
problemas financeiros, de idade entre trinta e cinquenta anos e onde
a mulher é apenas o motivo para que a trama ande (como em caça
fantasmas 1 de 1984) e o negro é apenas o amigo fiel (gay então nem
pensar em um filme desses). Mas os tempos estão mudando e não
existe mais motivo ( e nunca houve) para prender a pessoa que é
diferente à um exteriótipo ou papel secundário, por isso acredito
de verdade que o filme DAS Caça-Fantasmas possa ser um divisor de
águas na história do cinema, mesmo que seja ruim (mas espero que
seja ótimo) porque se somará à "Star Wars VII" e "Mad
Max: estrada da fúria" trazendo luz novamente o fato de que
qualquer pessoa, seja homem branco ou negro, mulher hétero ou
homossexual, de participar de algo colocando o fato de ser um ser
humano, à frete de ser um clichê do cinema e antes de tudo
apresentando a diversidade as novas gerações.
Por tudo isso deixo aqui a minha promessa de assistir AS
Caça-fantasmas no cinema e ser um dos primeiros a escrever sobre ele
não poupando elogios caso o filme seja bom ou criticas caso não
seja, focando na história, direção, roteiro e atuações e não no
preconceito e medo que infelizmente é inerente a nossa sociedade.
Me despeço pedindo a todos mais tolerância e empatia. Lembrem que
são as nossas diferenças que fazem que nos completemos com os outros
e não nossas igualdades que são apenas ecos , muitas vezes, sem
graça de nós mesmos.
Não é errado ser babaca as vezes, errado é não querer mudar.
Em
um
mundo cruel em que lunáticos tiram a vida de crianças inocentes com
estiletes, histórias de heróis parecem resgatar a nossa tão
abalada fé na humanidade. Infelizmente, a grande mídia carece de
boas notícias e de exemplos a serem seguidos, tudo que vemos é o
caos e a maldade, e muitos se deixam contaminar pela energia
negativa.
A
historia que tenho para contar não aconteceu no Brasil, aconteceu no
distante Paquistão, terra da jovem ganhadora do Nobel da Paz, Malala
Yousafzai, mas não é sobre ela que falarei, é sobre outro jovem,
um adolescente de 15 anos chamado Aitzaz Hasan e como ele se tornou
um herói de verdade.
O
Paquistão é um país constantemente ameaçado por ataques de
extremistas islâmicos cujo objetivo é impor a Sharia ( Direito
Islâmico) no país. Sendo assim, os principais alvos são os locais
que vão de encontro a uma visão retrograda do Islã, como escolas
que tenham uma visão secular. Na manhã do dia 06 de janeiro, a
escola em que estudava Aitzaz Hasan estava recebendo miliares de
crianças e adolescentes; entretanto, o mal estava a espreita, um
terrorista circundava a escola esperando o momento certo para se
explodir e levar consigo o maior número de pessoas possíveis, mas o
jovem Aitzaz Hasan percebeu o olhar estranho do homem e o jeito
desconfiado e apressado dele.Não pensou duas vezes, ao perceber
quando o homem caminhou em direção à escola, foi até ele e o
segurou com toda a força, o homem se explodiu, levando Aitzaz Hasan
junto - Hasan havia morrido, mas havia evitado que 2.000 jovens se
ferissem ou morressem pelas mãos sanguinárias daquele homem-bomba.
Assim,
morria um jovem de 15 anos, mas nascia um herói que, como Malala,
entrou para história do Paquistão. Como o próprio pai de Aitzaz
Hasan disse: " Meu filho fez sua mãe chorar, mas salvou cetenas
de mães de chorarem por seus filhos. " O mundo está cheio de
pessoas boas, é por isso que o mal
jamais vencerá!
que o paraíso e nossas lembranças sejam reservados aos verdadeiros heróis
Quando eu
era adolescente li “um estudo em vermelho”, a primeira história
do Sherlock Holmes e me diverti muito com a descrição que Sir
Arthur Conan Doyle, através da boca do Dr Watson, fazia do
detetive. Segundo ele, Sherlock era totalmente focado em sua ciência,
sabendo tudo sobre plantas, em especial as venenosas, era tão hábil
que desenvolveu um teste sanguíneo para identificar criminosos (isso
no século 19), estudava a mente de bandidos para traçar paralelos,
estudava os tipos de terrenos e disfarces , em resumo era um gênio
de sua área e um profissional extremamente produtivo e eficaz
(exceto no livro do Jô Soares, diga-se de passagem).
Nem tão competente, nem tão genial
No entanto,
conforme a história avançava e se multiplicava em outros contos eu
ia observando que aquele foco extremo pelo trabalho ia se
transformando em obsessão e essa em frustração, a ponto do maior
detetive da literatura inglesa só conseguir relaxar através do uso
de drogas, sacrificando sua vida pessoal e até sua higiene (pelo que
se entende do filme do Guy Ritchie) e eu pensava: “Se fosse na vida
real, esse cara morreria de infarto ou de um AVC em menos de um ano,
tamanho stress que ele se cerca .”
Cool e só
Mal sabia eu que o padrão
de pessoa produtiva, mais de vinte anos após eu ler o livro, seria o
padrão Sherlock Holmes, onde a sociedade cobra um foco total em algo
que a gente faz, ignorando ou ridicularizando qualquer válvula de
escape, qualquer momento a parte, e, assim as pessoas, frustradas e
pressionadas pela obrigação social de nunca sair do personagem
produtivo e genial, vão buscando em derivados de valium, prozacs e
seus semelhantes, drogas menos exóticas do que as usados pelo famoso
detetive, o alívio que, simplesmente ser quem são as daria. E essa
falta de liberdade e certeza de uma obrigação desumana vai se
apresentando a uma geração inteira como a queda d'água onde
Sherlock encontrou o seu fim, nos puxando para baixo e nos fazendo
desaparecer na escuridão e ruido de quem nos coloca com últimos dentre seus interesses.
O cartão está
atrasado; Preciso comprar uma câmara de ar para o carro, pois na
pressa de sair, acabei rodando vazio e cortou o pneu, o para brisa
também vai ter de ser trocado; tenho que comprar chocolate porque a
páscoa vem chegando; último ano da faculdade e meu computador já
não tem jeito, vou ter que comprar outro; na empresa o serviço só
aumenta e as cobranças idem; minha enteada quer que eu a leve na
pracinha, minha mulher quer conversar sobre obras na casa, meu filho
quer atenção. Dei uma respirada funda, querendo que tudo aquilo
passasse, sonhando com algum momento de paz, de plenitude e, sem
pensar mais, fugi para a internet.
Passando os olhos pela
internet, me deparei com a notícia de um sujeito da minha idade que
morreu em um acidente pela manhã. Ele deve ter saído mais cedo para
evitar o trânsito, mal se despedindo da família e encontrou seu fim
alguns poucos quilômetros de casa. Lendo aquilo enxerguei as
preocupações do sujeito, as contas, o trabalho, a vontade de
resolver tudo para ontem, de encontrar paz e plenitude no meio do
caos do dia-a-dia, mas encontrando apenas o fim
Tudo ao mesmo tempo
Fiquei pensando sobre
a vida em si, mais trabalho do que lazer, mais sofrimento do que
prazer, mais dúvida do que certeza, mais dívida do que crédito,
mas mesmo assim maravilhosa. Sonhamos todos os dias com paz e
plenitude, mas esses dois conceitos só existem por completo na
morte, mas quando ela chega, não há mais tempo para nada; na vida,
pelo contrário, tudo acontece ao mesmo tempo,mas há tempo para
tudo, e, talvez essa seja a melhor definição da vida: “tudo ao
mesmo tempo”!
Pois que assim seja, que venha tudo
ao mesmo tempo, as dúvidas e a busca por respostas, o passeio de
bicicleta e as tarefas de casa, a manutenção do carro e o TCC, o
trabalho dobrado na empresa e as conversas sobre as obras, os
lançamentos no cinema e a cerveja com os amigos, o adeus a quem vai
e o abraço em quem volta. Aproveitar esse “Tudo ao mesmo tempo”,
esse turbilhão de acontecimentos que é a vida e empurrar para um
futuro distante essa paz e plenitude, sabendo que os problemas que
surgem no caminho são o sinal que o mundo nos dá para sabermos que
ainda estamos aqui e seguindo em frente.
Nesse
último domingo assisti a maratona da série “Bonnei & Clyde”
na history Channel. A série conta a história da famosa Gang Barrow
que aterrorizou o meio-oeste americano durante a década de trinta,
partindo da origem dos personagens , passando pela formação da
Gang, sua transformação em lenda e culminando com a morte dos dois
protagonistas em Bienville Parish em 23.05.1934, quando ambos tinham
vinte e cinco anos de idade. Gostei da humanização que deram aos
personagens retirando aquela aura de invulnerabilidade que as lendas
trazem consigo e do fato de também dar foco aos outros membros da
Gang, como o Irmão de Clyde, Buck Barrow e sua mulher Blanche
Barrow; mas achei que a ideia de colocar Clyde Barrow quase como um
médium, que ante vê os perigos e tem visões de seu destino, assim
como Bonnie Parker como a maior manipuladora e exibida que já
existiu na terra um tanto forçada (embora as fotos que os bandidos
deixaram atesta para tal traço de personalidade).
Bonnie e Clyde
Na semana anterior, a Globo reexibiu a série “Lampião & Maria
Bonita” de 1982 em um especial em formato de filme, onde utiliza
argumentos semelhantes para dar mais carisma aos personagens e glamoriza-los. A série conta como foi a vida e a morte do rei do
cangaço, que atuou no Brasil quase que no mesmo período que Bonnie
& Clyde atuaram nos E.U.A. Lembro de assistir a série quando
ela foi reexibida pela primeira vez no “Vale a pena ver de novo”
quando o politicamente correto ainda não existia e a violência e o
sexo corriam soltos depois das duas da tarde; naquela ocasião, eu
com uns oito anos fiquei um pouco chocado com as cenas onde orelhas
eram arrancadas e as cabeças dos soldados eram mostradas cortadas em
uma bacia, mas gostei bastante, mesmo assim sentia que faltava algo
ou tinha alguma coisa um pouco torta na narrativa e foi só depois de
rever a série e depois assistindo Bonnie e Clyde que percebi que o
que faltava era o aprofundamento do Herói.
Frank Hamer
A Gang Barrow foi riscada da terra devido ao esforço de um homem,
Frank Hamer, um oficial dos Rangers americanos que voltou a ativa
para caçar “bonnie e Clyde”, na série embora ele tenha uma
grande importância, tendo seu faro para perseguição e talento
mostrados, ele é muito pouco explorado, tanto que procurando saber
mais sobre o personagem histórico não encontrei livros a venda
sobre ele e mesmo o Dr Google e a Senhora Wickpedia possuem pouco
material do carrasco da Barrow Gang, muito semelhante ao que acontece
com as volantes que perseguiam e matavam os cangaceiros no nordeste
brasileiro, tudo que se encontra sobre elas só é encontrado quando é
referenciado na história dos bandidos e quando isso acontece há uma
grave inversão de valores e o bandido se torna um herói,
ignorando os crimes e sofrimento que eles causaram; assim como a
coragem de quem os eliminou.
Procurando um pouco sobre esses verdadeiros heróis, não tive sorte
ao pesquisar sobre Frank Hamer, mas encontrei o excelente Blog
“Lampião aceso”, que conta a história do cangaço e da luta
para deter os bandos de bandoleiros que assombravam o interior
nordestino no inicio do século XX , lendo o blog fui agraciado com a
história e uma entrevista com o Coronel Zé Rufino, o homem que
matou uma das lendas do Cangaço, “Corisco”; a entrevista, feita
pelo escritor e cineasta Ruy Guerra desenhou na minha mente a imagem
de um Herói real que fez o que tinha de ser feito e não esperou
aplausos ou glamour pelo feito, assim como Frank Hamer, esquecido
pelos livros e ignorado pelo Google.
Abaixo segue a história de zé Rufino e logo após sua entrevista.
Cel.
Zé Rufino - "O Matador de Cangaceiros"
Por
Ângelo Osmiro Barreto.
Zé Rufino em sua fazendo em 1962
José
Osório de Farias, o afamado Zé
Rufino,
conheceu LAMPIÃO- Rei do cangaço quando ainda era um sanfoneiro,
percorrendo o sertão brabo das ribeiras do Pajéu e adjacências, no
sertão de Pernambuco, estado onde nasceu.
O primeiro encontro
entre os dois valentes sertanejos deu-se nas terras do município de
Salgueiro. Zé
Rufino tocava
numa festa de casamento e LAMPIÃO era um dos convidados, a empatia
do chefe dos cangaceiros com o sanfoneiro foi imediata. LAMPIÃO
convidou Zé
Rufino para
ingressar no bando. Com muita habilidade o futuro matador de
cangaceiros disse que não podia acompanhar o grupo, pois sua mãe já
era idosa e como "arrimo" de família tinha os irmãos para
criar, além de tudo não gostava de armas, o capitão o desculpasse,
mas não tinha nascido para aquela vida.
Passado algum tempo,
aconteceu um novo encontro com o rei do cangaço, mais uma vez
LAMPIÃO convidou Zé
Rufino para
acompanhá-lo. Com medo de negar novamente um pedido do Capitão,
disse ao rei do cangaço que antes precisaria solucionar alguns
problemas familiares; como iria deixar sua mãe e seus irmãos? Tinha
que resolver essas questões.
LAMPIÃO o liberou, entretanto
marcou uma data para sua apresentação e dessa vez não aceitaria
desculpas. Zé
Rufino agora
tinha que se decidir, ,ou entraria no cangaço para acompanhar
aquelas verdadeiras feras humanas ou iria se apresentar como soldado
na volante, o que pouco diferenciava de um cangaceiro, como
sanfonciro não poderia mais ficar.
LAMPIÃO não o perdoaria.
A decisão foi difícil, mas Zé
Rufino optou
por entrar na polícia, seu destino agora seria perseguir
cangaceiros. Zé
Rufino foi
um dos mais temidos perseguidor de cangaceiros, chegou rapidamente ao
oficialato, alcançando a posição de Coronel da Policia Militar da
Bahia.
Consta na literatura sobre o cangaço cerca de vinte e
duas mortes feitas pela volante comandada por Zé
Rufino.
Sua volante ficou famosa no sertão por cortar as cabeças dos
cangaceiros mortos em combate. Sua façanha mais conhecida foi à
morte do cangaceiro Corisco o "Diabo Louro", um dos mais
famosos cangaceiros que se tem noticia. Marcando definitivamente ente
o fim do cangaço.
O Coronel Zé
Rufino,
combateu na volante baiana até o extermínio do cangaço.Terminada a
campanha contra o banditismo, “comprou algumas fazendas na região
de Geremoabo” no estado da Bahia, aonde já idoso veio a falecer.
Zé
Rufino em entrevista
O
HOMEM QUE MATOU O CANGACEIRO "CORISCO" Por
Ruy Guerra*
O
sol do meio-dia fazia da praça de Jeremoabo/BA um imenso
deserto.
Lembro-me
que tudo se passou naquele ano triste de 1962, ano da morte de Miguel
Torres, no acidente desse mesmo jipe agora ali estacionado, coberto
de poeira, junto da única loja aberta naquele vazio do mundo.
Só
não me lembro como foi que o coronel Rufino surgiu, sentado no bar,
esfíngico, vestido de uma camisa e calça caqui, sem atinar muito
bem o que queríamos dele. Nós, igualmente calados, sem outro
intuito que o de trocar umas palavras com o homem que matou
Corisco.
Mas
dali para a frente tudo ficou marcado em mim com uma nitidez que
chega a assustar. Cada gesto, cada palavra, cada silêncio, foi
ficando através do tempo mais depurado, mais definido, mais exato.
Não há um detalhe, uma palavra, um sentimento, de que eu não tenha
a serena convicção que foi assim, rigorosamente como tudo se
passou.
Pedi
um cerveja, que chegou morna.
O
coronel Rufino, e não sei porque isso devia me surpreender, pediu um
sorvete de morango. O Miguel Torres, por uma dessas maldades da
memória, deixou de estar presente. Houve um silêncio largo, desses
silêncios de quando estranhos se medem e se perguntam a si mesmos
como começar essa aventura que é a de se conhecer.
Do
coronel Rufino eu sabia tudo o que me parecia importante saber: que
era o maior caçador de cangaceiros ainda vivo, que há muito estava
aposentado, que era natural dali mesmo, daquele sertão. De nós,
imagino, ele sabia apenas que fazíamos cinema e pensávamos filmar
por aquelas bandas. E não parecia particularmente interessado em
saber mais. Aceitava o encontro como a inevitável curiosidade que
desperta quem traz a marca de ter matado o cangaceiro mais mítico de
toda a história do cangaço.
Com
movimentos pausados, de quem tem toda a velhice diante de si para
gastar, ia sorvendo seu sorvete de morango.
O
que mais me marcou naquele encontro, logo de saída, foi isso mesmo:
o sorvete de morango. A cor desmaiada do sorvete barato, a
colherzinha vagabunda na mão grossa, seca, veienta, com o dedo
mindinho ridiculamente afastado dos outros dedos. Por
que um sorvete, e ainda mais de morango?
Por
causa desse insólito sorvete me custou a lançar a
conversa.
Comecei
com perguntas banais das quais já conhecia as respostas, e que não
justificam o desvio que havíamos feito por aquelas poeiras
calorentas do sertão para aquele eventual encontro. Se ele, coronel
Rufino, havia comandado muitas volantes atrás de cangaceiros. Se
toda a sua vida se havia dedicado a essa caça, se havia perseguido
Lampião. Se havia dado voz de sangrar a muito bandido.
A
cada pergunta, Rufino ia monossilabicamente confirmando, pausado,
aparentemente mais atento ao sorvete de morango que ao óbvio
questionário.
-
E Corisco? O senhor matou Corisco?
Corisco e Dada
-
Matei.
O
Coronel Rufino não era um homem alto, nem tinha nada que à primeira
vista pudesse impressionar alguém que não soubesse do seu passado.
Nos seus, imagino, sessenta e tantos anos, não se sentia nele um
grama de gordura. Tinha um rosto marcadamente nordestino, sem emoções
visíveis, uns olhos fendidos preparados para os exageros da luz da
caatinga e uma voz surpreendentemente jovem.
Parecia
desinteressado, embora cortês. Senti que ele estava, não ansioso,
mas determinado a terminar o encontro com o final do seu, para mim já
irritante, sorvete de morango.
Foi
essa certeza e o sentimento da idiotice das minhas perguntas que me
fizeram perguntar de supetão gratuitamente:
-
O senhor, coronel, torturou muita gente?
-
O coronel Rufino parou de comer o seu sorvete, a mão pesada,
suspensa no ar, a meio caminho. Pela
primeira vez senti que pensava rápido, embora o tempo durasse.
Depois, delicadamente, pousou a colher. Até então ele nunca me
havia encarado, e continuou assim. Limitou-se
a olhar a imensa praça vazia, assustadoramente amarelada pela crueza
do sol.
-Seu
João!
A
voz continuava controlada, e embora o tom não tivesse aparentemente
subido, atravessou a distância. Foi então que eu notei que um
camponês desgarrado estava passando.
O
homem entrou no bar. As alpercatas de couro sem ruído, o chapéu de
palha agora respeitosamente na mão, um olhar rápido para os
forasteiros.
-
Sim, coronel?O
coronel falou num tom macio, quase afetuoso. -Seu
João, o senhor me conhece há muito tempo, não é verdade? -
Conheço sim, coronel. -
Quem sou eu?
Uma
leve estranheza na voz do camponês.
-
O senhor?... O senhor é o coronel Rufino. -
Eu persegui muito cangaceiro, não persegui? - Perseguiu, coronel. -
Eu matei muito cangaceiro, não matei? - Matou, coronel.
A
voz de Rufino continuou, inalterada.
-
Eu torturei muito cangaceiro, não torturei? A voz do coronel Rufino
parecia ainda mais mansa, mais paciente. -
Eu torturei muito cangaceiro, não torturei? Os olhos do camponês
correram por nós, intrigados. -
Não, coronel... Não, senhor. -
Obrigado, seu João. Pode dispor!
Com
um leve aceno de cabeça para todos o camponês afastou-se. O coronel
Rufino esperou que o homem desaparecesse no sol da praça e só então
me encarou, pela primeira vez. Os
olhos fendidos sem expressão, talvez por isso mais inquietantes,
aprisionando os meus. A voz sempre igual, mas onde se podia sentir
agora, nítida, uma intensa paixão.
-
"Toda a minha vida eu persegui cangaceiro. Prendi muitos, também
dei fuga a muito pobre-diabo que se meteu nessa vida por injustiça
que sofreu. Mas matei muitos, muitos mesmo. De bala, de faca, de todo
o jeito. Era a minha profissão".
Levantou
a mão, espalmada, à altura do rosto. Essa mesma mão, que até
então tinha servido para comer aquele irritante sorvete de morango.
Foi uma pausa curta, mas guardo aqueles breves instantes como os de
uma indefinível angústia.
-
"Mas esta mão, esta mão que o senhor está vendo aqui, nunca
tocou o rosto de um homem, fosse quem fosse, nem do pior bandido.
Porque homem a gente mata, sangra..."
Passou
a mão suavemente pela própria cara.
-
Mas tocar o rosto de um homem, só sua mulher e o barbeiro têm o
direito de tocar".
O
coronel Rufino retomou a colher e continuou a comer o interminável
sorvete de morango. Lembro-me de ter sentido um imenso alívio, como
se tivesse vindo de muito longe. E tinha, como compreendi mais
tarde.
Daí
para diante não me lembro de mais nada. Não sei como nos separamos,
se trocamos mais alguma palavra - o que duvido - além de alguma
banal despedida. Mas ao longo dos anos comecei a relembrar e a
contar, obsessivamente, este encontro. Não com o sentimento de ter
escapado de algum perigo - embora ainda hoje não esteja muito certo
disso -, mas com a desconfortável convicção de ter ido tão fundo
naquele sertão para ingenuamente insultar um homem na sua
hospitalidade, na sua memória, no seu mundo.
Zé Rufino ao lado da prisioneira Dadá
Texto
publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 1993, e reproduzido do
livro "20 Navios", de Ruy Guerra. Editora Francisco Alves,
Rio de Janeiro, 1996, prefácio de Chico Buarque, 228 páginas.
#
RUY GUERRA: Cineasta, escritor, dramaturgo, compositor (parceiro de
Chico Buarque, Edu Lobo, Francis Hime etc..), ator..etc..
Na minha opinião, nenhuma frase define melhor o que esses homens fizeram quanto a dita pelo escritor francês Victor Hugo: